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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Diário e reflexões


Paralisação no BB Verbo Divino. Foto: Sindicato 

Refeição Cultural

Sexta-feira, 21 de agosto de 2026.


ELEIÇÕES 

O calendário de campanha das eleições brasileiras teve início nesta semana. Serão eleições duríssimas para nós da classe trabalhadora e das classes subalternas e populares, a base da pirâmide econômica da sociedade.

Na minha leitura, baseada na experiência política que adquiri ao organizar e representar os trabalhadores por muitos anos, as eleições serão as mais complicadas desde a redemocratização do país e vigência da Constituição Federal de 1988. 

Há uma guerra explícita contra a reeleição do presidente Lula e para que o Congresso Nacional não seja renovado com uma representação maior do povo pobre e trabalhador. Os donos do poder farão de tudo para manter a maioria esmagadora de parlamentares vinculados a eles.

Em SP, voto Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Tebet 400, Haddad 13 e Lula 13. 

Se vocês, leitores do blog, puderem, participem da campanha e me ajudem a pedir votos aos nossos candidatos e candidatas.

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CAMPANHA SALARIAL DOS BANCÁRIOS

Ontem, participei da paralisação nacional da categoria bancária. Estive com as companheiras e companheiros do Sindicato na concentração do Banco do Brasil da Verbo Divino, na região Sul da cidade. A participação dos trabalhadores foi excelente!

Na próxima semana, o Comando Nacional dos Bancários se reunirá novamente com os banqueiros e esperamos que os bancos façam propostas que atendam às reivindicações da categoria.

À noite, estive no aniversário da companheira Deise Recoaro, militante com quem aprendi muito no movimento sindical. Encontrei muita gente querida, amigas e amigos de longas jornadas de lutas.

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LEITURAS E ESTUDOS

Estou tentando ler e estudar diariamente. É só lendo e exercitando nosso cérebro, verdadeiro criador de tudo, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis, que podemos seguir evoluindo como seres humanos e como seres incompletos que somos, como ensina o professor Paulo Freire.

Li Machado de Assis e as memórias de José Dirceu. No final desta sexta-feira, li em voz alta o conto "Entre santos", de 1886, do Bruxo do Cosme Velho.

Sigamos lutando por um mundo melhor.

William

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um apólogo - Machado de Assis



Refeição Cultural

Conto publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1° de março de 1895 (com o título "A agulha e a linha") e depois reunido no livro de contos Várias histórias, em 1895.

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UM APÓLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.

Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde  me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

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COMENTÁRIO DO BLOG

Este conto breve é muito interessante! Na primeira publicação, na Gazeta de Notícias, Machado de Assis o chamou de "A agulha e a linha", segundo o estudioso John Gledson. Quando a narrativa foi reunida em livro, o escritor a denominou "Um apólogo".

Apólogo é uma narrativa moral, um texto com personagens inanimados que ganham voz e ação (prosopopeia) e participam da história contada.

Nesta história que nos mostra a disputa de vaidade entre a agulha e a linha, debatendo entre elas qual seria mais importante, podemos observar que ambas têm seu valor no trabalho de coser as roupas que depois serão usadas pelos humanos em ocasiões diversas. 

No entanto, uma acabou "vencendo" o debate, como acontece hoje nas disputas alimentadas em redes antissociais que dominam o universo humano neste momento da história. 

Uma não realizaria o trabalho sem a outra na história. Linha sem agulha ou agulha sem linha demonstra a importância do trabalho conjunto. 

Poderíamos usar essa narrativa moral em diversos exemplos de nossa vida em sociedade. Precisamos uns dos outros. 

Uma obra pública financiada com recursos do governo federal e do estado ou município só saem do papel pela ação de ambos. Porém, governos locais usam omitir do povo a ação decisiva do governo federal.

Enfim, o conto machadiano, o apólogo, é mais atual que nunca, se pensarmos no cenário das eleições brasileiras de 2026. 

Lula recuperou o país após a tragédia bolsonarista, organizou a economia e está financiando estados e municípios em obras importantes. E os prefeitos e governadores, sem caráter ou ética, omitem essa informação por motivos políticos. 

Sigamos lendo literatura de qualidade e melhorando nossa interpretação do mundo. 

William 

18/08/26

sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Leitura: O alienista - Machado de Assis



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


A obra do escritor Machado de Assis (1839-1908) é uma das mais fascinantes da literatura brasileira. O Bruxo do Cosme Velho é basicamente um autor do século XIX, publicou durante décadas, mas também escreveu textos marcantes nos primeiros anos do século XX, incluindo romances, contos e outros gêneros. Sua obra é de domínio público.

A primeira publicação deste blog de cultura Refeitório Cultural, em dezembro de 2007, foi "O alienista" (1882), do mestre criador da Academia Brasileira de Letras. Ler o conto aqui.

O texto de Machado era classificado por boa parte da crítica como conto, porém vem sendo considerado atualmente como uma novela. O autor o denomina conto e, se tivermos dúvidas, podemos acatar o escritor e criador da narrativa e seguir considerando a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte como um conto. 

Reproduzo abaixo o texto de "Advertência" que Machado de Assis colocou no livro que reuniu contos que ele já havia publicado em folhetins. O livro Papéis Avulsos (1882) traz como primeiro conto "O alienista", que havia saído em "A Estação" entre outubro de 1881 e março de 1882.

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ADVERTÊNCIA

     Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.

     Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

     Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição. 

                                        Machado de Assis

Outubro de 1882.

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COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA

A advertência do escritor Machado de Assis ao reunir os contos que compõem Papéis Avulsos me lembrou uma passagem do próprio conto "O alienista", quando o Padre Lopes aponta uma qualidade do Dr. Simão Bacamarte:

"A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

- Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: - a modéstia."

A modéstia...

Na advertência ao Papéis Avulsos, Machado diz aos leitores algo digno da observação e análise do Dr. Simão Bacamarte...

"O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): 'E aqui há sentido, que tem sabedoria'. Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra."

O nosso escritor é modesto, cita o evangelista e diz haver sentido em seus textos reunidos, menos a sabedoria... 

Machado com certeza seria recolhido à Casa Verde naquele segundo momento no qual o Dr. Bacamarte libertou 4/5 da cidade e região recolhidos por terem algum desequilíbrio das faculdades mentais e só aqueles com perfeito equilíbrio mental estavam recolhidos ao manicômio.

Não nos esqueçamos que nosso mestre, além de modesto, era um gênio da ironia.

Pelas minhas anotações, li "O alienista" pela oitenta vez desde que conheci a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte. É leitura de prazer! De esperança na humanidade ao saber que nossa espécie pode escrever assim. 

A cada leitura, mais admiração tenho por Machado de Assis, por sua genialidade, por sua universalidade.

Todas as vezes que li este conto fiz o exercício de olhar ao meu redor e refletir sobre todas as questões colocadas sob análise na história do Dr. Simão Bacamarte, personagem que estudou a loucura sob o escrutínio da ciência. 

Estou assim, modestamente (rsrs) olhando a loucura e os mentecaptos ao meu redor. Talvez sejam todos normais e eu seja a pessoa com um (d)esequilíbrio das faculdades mentais...

William 

11/08/26

sábado, 13 de setembro de 2025

Diários com Machado de Assis (17)



Refeição Cultural

Jaboticabal, 13 de setembro de 2025. Sábado.


Sou admirador de nosso escritor Machado de Assis, um fenômeno da natureza da espécie humana, nascido no século XIX num canto do mundo chamado Brasil. O "nosso" que usei acima é referente a essa coisa em comum entre eu, você e Machado: a gente nascida no nosso canto, essa terra habitada por povos originários antes da chegada dos europeus e após os séculos de exploração e gestão do país com o olhar de fora, para o bem dos outros e não para o bem do povo que aqui nasce, vive e morre.

Para não dizer que nada sei de Machado, posso dizer que já li todos os seus romances e algumas dezenas de contos de sua autoria. Aí, pensei em conhecer alguma coisa sobre sua obra poética, e faz alguns meses li o primeiro livro de poesias do Bruxo do Cosme Velho: Crisálidas, publicado em 1864 (comentário aqui). Achei uma leitura exigente, diferente de quando leio poesias com linguagem mais prosaica. 

Não quero dizer com isso que poesia com linguagem prosaica é simples, pois as imagens e metáforas podem ser mais complexas que em poesias com linguagem mais rebuscada.

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Antes de seguir com a reflexão ou refeição cultural, faço uma observação que andei pensando. Eu tenho escrito comentários sobre livros, poemas, filmes e gêneros da cultura já faz quase duas décadas. Ao ouvir uma análise de um crítico de cinema, o PH Santos, na qual ele explicava o que é de fato uma "crítica" reforçou em mim a leitura de que o que faço em meus textos no blog não são críticas literárias ou sobre filmes, pois não são baseadas em questões técnicas da referida arte. No entanto, o fato de meus textos não serem "críticas" não tira alguma contribuição que eles tenham a respeito da obra comentada, pois meus textos são impressões e comentários sobre os efeitos daquela obra sobre minha pessoa, um cidadão dedicado à compreensão do mundo e da vida. Ou seja, meus textos têm o seu valor, mesmo não sendo formalmente "crítica" literária ou sobre filmes.

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Voltando aos poemas de Machado de Assis, após a leitura de seu primeiro livro de poesia, comecei a ler o segundo livro, Falenas, de 1870. Aproveitei longas horas de estrada para ler alguns poemas de nosso escritor maior.

Interrompi a leitura do livro Falenas para ler alguma crítica a respeito do tema e estou lendo artigos muito interessantes de um estudioso do autor. O articulista se chama José Américo Miranda, pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo, e suas contribuições para a compreensão das obras poéticas de Machado são esclarecedoras.

Amigas e amigos leitores, vou seguir na leitura dos artigos sobre esses dois livros de Machado. Pensei em escrever esse comentário da série "Diários com Machado de Assis" porque ter acesso a conhecimentos compartilhados é uma coisa extraordinária da parte boa dos seres humanos.

Sigamos aprendendo sobre literatura e nossos grandes autores e suas obras.

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Instantes

Pelo momento que estou vivendo, é inevitável pensar sobre os sentidos da existência humana. Inevitável. Até uns trinta anos de idade, avaliando de onde estou com quase o dobro da idade, e com a experiência que a sobrevivência me deixou nas entranhas do ser animal, teria vivido uma vida de um jeito e só daquele jeito. Uma vida para mim, egoisticamente para mim e pronto. Não tinha a formação política que adquiri pelas veredas da vida. Antes, tinha um ódio ferrenho do mundo, depressão, indignação, falta de perspectiva de futuro. Se tivesse tombado pelo caminho, não teria tido a oportunidade de conhecer outras possibilidades da vida humana. Vivi até aqui e até Machado de Assis conheci melhor após os trinta anos, a segunda parte da existência que por acaso tive.

Apesar da impotência que sinto hoje, neste instante, em relação ao mundo e às pessoas que gostaria de ajudar, impotência em relação a não poder fazer algo por pessoas queridas, algo que só elas mesmas poderiam querer fazer por si mesmas, eu adquiri uma consciência que me dá uma espécie de responsabilidade para estar vivo, para combater o cansaço que meu corpo apresenta, pois se eu deixar rolar, a vida se esvai num curto espaço de tempo, contrariando as estatísticas do meu perfil social, estatísticas que me dariam até umas três décadas ainda caminhando pela Terra.

A expressão pesada de nosso grande escritor na foto acima, com mais ou menos 65 anos em 1904, me deixa sempre pensativo. Machado é um grande representante de nossa espécie, um grande brasileiro, um escritor e intelectual muito à frente da mentalidade de seu tempo de vida, um homem que se tivesse vivido só a metade de sua vida, não teríamos a oportunidade de conhecer a produção humana que ele nos legou após seus trinta e poucos anos. Vejam com é a vida e o viver, o ir vivendo.

Se eu tivesse deixado de existir com meus trinta anos, não teria tido a oportunidade extraordinária que tive de, do nada, me politizar e viver uma vida de lutas coletivas, deixando de ser só mais um egoistazinho desses que temos aos montes por aí, e sabendo que nem viver eu queria quando já tinha vinte e poucos anos.

Tudo isso tenho pensado ao estudar o mundo, a vida, ao ver os jovens ao meu redor, ao tentar compreender os comportamentos das pessoas e tentar compreender, mesmo sem aceitar, mas compreender por que as coisas e as pessoas são como são. Tento me imaginar no lugar e no tempo delas hoje, aquele que fui com a idade delas.

Tenho uma certeza: não posso julgar absolutamente nada das atitudes dos jovens ao meu redor. Não sei se seria diferente deles, na condição que estava antes, e na qual eles se encontram agora, neste mundo e sociedade colapsados.

Chega por hoje.

William

sábado, 26 de abril de 2025

Livro: Papéis Avulsos (I) - Machado de Assis



Refeição Cultural 

"Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma mesma família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa." (Advertência, Machado de Assis, outubro de 1882)


1. O alienista

2. Teoria do medalhão 

3. A chinela turca

4. Na arca


Ao trabalhar na revisão e encadernação de minhas postagens nos blogs, fiquei satisfeito com a constatação de ter começado o Refeitório Cultural com Machado de Assis. 

Os textos do Bruxo do Cosme Velho são de domínio público e comecei o blog de cultura com o conto "O alienista", lá em 2007. Este clássico poderia ser lido de tempo em tempo ao longo da vida das leitoras e dos leitores. Já o li inúmeras vezes nas últimas duas décadas. Ele nos faz entender o Brasil e os seres humanos, por isso seu caráter universal. 

Os primeiros textos do blog têm relação com o mestre Machado de Assis. 

A minha edição de Papéis Avulsos está dividida em dois volumes. Já li todos os contos muitas vezes. 

Ao lermos a "Teoria do medalhão", percebe-se a universalidade da gente vulgar que ocupa as casas-grandes e a tal Faria Lima. Janjão recebe instruções de seu pai como essa gente do "agro pop" e seu universo sertanejo. Pai e filho são os caracteres da "Elite do atraso" descrita pelo sociólogo Jessé Souza. 

Da mesma forma, vemos a atualidade da crítica de Machado ao compor no conto "A arca" os novos capítulos introduzidos no Gênesis. Somos essa coisa humana descrita no conto através dos filhos de Noé, Sem e Jafé. Parece que a gente não tem jeito mesmo...

"O melhor drama está no espectador e não no palco"

A lição do conto "A chinela turca" está aí para qualquer um de nós avaliarmos...

Leiam Machado de Assis, leiam! 

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Post Scriptum:

O ALIENISTA

Ao ler o conto "Darandina", do livro Primeiras Estórias (1962), de João Guimarães Rosa, conheci mais um clássico brasileiro com a temática da reflexão sobre a razão e a "desrazão", sobre a loucura e as tentativas de se compreender ou até de se tratar as diversas formas de loucura, ou suposta loucura, haja vista que a questão é estudada há séculos pela sociedade humana e até hoje poderíamos questionar o que é sanidade e o que é loucura, ou o que seria considerado "normal" ao longo do tempo.

Rezar para pneu e colocar aparelhos celulares na cabeça pedindo intervenções de seres alienígenas é algo considerado normal ou loucura?

Percebem a atualidade do tema? Seres humanos habitantes de um país chamado Brasil, já avançado o século XXI, fizeram isso. É um caso documentado. Esses seres são seguidores de uma seita liderada por um clã de políticos com sobrenome "Bolsonaro".

Eu já li diversas vezes o clássico de Machado de Assis em diversas épocas diferentes da vida política do país e até em momentos pessoais nos quais questionava a mim mesmo sobre a normalidade ou anormalidade das coisas. Quantas vezes me peguei refletindo se eu estava ficando louco ou se o mundo ao meu redor estava louco... aí recorria ao dr. Simão Bacamarte...

Enfim, é isso! Sigamos lendo e refletindo e tentando compreender a vida e o mundo no qual existimos.

William 


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Livro: Crisálidas - Machado de Assis



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


“EPITÁFIO DO MÉXICO

Dobra o joelho: — é um túmulo.

Embaixo amortalhado

Jaz o cadáver tépido

De um povo aniquilado;

A prece melancólica

Reza-lhe em torno à cruz.


Ante o universo atônito

Abriu-se a estranha liça,

Travou-se a luta férvida

Da força e da justiça;

Contra a justiça, ó século,

Venceu a espada e o obus.


Venceu a força indômita;

Mas a infeliz vencida

A mágoa, a dor, o ódio,

Na face envilecida

Cuspiu-lhe. E a eterna mácula

Seus louros murchará.


E quando a voz fatídica

Da santa liberdade

Vier em dias prósperos

Clamar à humanidade,

Então revivo o México

Da campa surgirá.” 


(de “Obras Completas de Machado de Assis IV: Poesia Completa” por Machado de Assis)


Ando me esforçando para conhecer um pouco mais as obras poéticas dos grandes autores da poesia universal. 

Sou nascido e criado no Brasil dos anos setenta e oitenta, de família pobre e de pouca cultura formal, escolar, gente que ralou na vida desde criança para sobreviver em um dos países mais violentos e desiguais do mundo. 

Fui aculturado num ambiente nacional marcado pelas opressões da religião oficial do Estado e dos donos do poder, a católica, e num ambiente machista, misógino, racista e avesso às diversidades... o Brasil. 

Até uns trinta anos de idade, eu achava poesia coisa para os outros, não para mim. Preconceito. Ignorância, lógico!

Imagino, olhando para trás, que a oportunidade de fazer o curso de Letras, na USP, tenha sido a porta de entrada para outros gêneros literários tão diversos e ricos dessa nossa contraditória espécie humana. 

Dei sorte na vida. Sou um homem de sorte. Sem entrar na vereda da cultura e do desejo de saber mais, vindo de onde vim, poderia ser outra pessoa. Não acho que seria melhor cidadão sem o desejo do saber. 

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CRISÁLIDAS (1864)

Na busca por novas poéticas, mergulhei na leitura do primeiro livro de poesias do Bruxo do Cosme Velho.

Sempre que leio textos antigos, tento me colocar na posição de um leitor da época da publicação ou criação daquela produção cultural. Não é fácil, somos o que somos. Mas eu leio textos antigos pelo menos com essa atenção.

Foi assim que li os poemas de Crisálidas, de Machado de Assis. 

A leitura foi exigente, foi preciso concentração para apreciar as imagens poéticas desenvolvidas pelo poeta Machado.

Curiosidade 

Ao pesquisar sobre o poema "Embirração", de Faustino Xavier de Novais (F. X. de Novaes no livro de M. Assis), descobri que o poema foi uma resposta do poeta ao poema "Aspiração", em Crisálidas, dedicado a F. X. Novaes.

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São trinta poemas no livro, alguns com grandes extensões como, por exemplo, "Versos a Corina (I)".

Dois poemas abordam especificamente tema religioso: "O Dilúvio" e "Fé".

Dois tratam de assuntos internacionais: "Epitáfio do México" e "Polônia".

Enfim, sigamos lendo poesia e descobrindo poéticas.

William 


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Obras Completas IV - Poesia Completa. ePUB.


terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (44) - A caridade, Machado de Assis



A CARIDADE - MACHADO DE ASSIS


Ela tinha no rosto uma expressão tão calma

Como o sono inocente e primeiro de uma alma

Donde não se afastou ainda o olhar de Deus;

Uma serena graça, uma graça dos céus,

Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar,

E nas asas da brisa iam-lhe a ondear

Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.


Levava pelas mãos duas gentis crianças.


Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto.

Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto

Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada

À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada

A infância lacrimosa, a infância desvalida,

Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.


E tu, ó caridade, ó virgem do Senhor,

No amoroso seio as crianças tomaste,

E entre beijos — só teus — o pranto lhes secaste

Dando-lhes pão, guarida, amparo, leito e amor.


Do livro Crisálidas, de 1864

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COMENTÁRIO:

Hoje, escolhi ler os poemas do mestre Machado de Assis. Li seu primeiro livro de poesia, Crisálidas, de 1864. Machado tinha 25 anos.

Seus poemas abordam temas comuns na época, imagino eu. Amor romântico, religião e fé inquestionável em Deus, técnicas do fazer poético etc.

Um século e meio depois, o poema "Caridade" segue mais atual que nunca. Entre o passado e o presente, nada mudou: as crianças seguem nas ruas, e suas mães também, e a fome também. 

Como a casa-grande não admite um Estado republicano de verdade, com a 'res pública" (vide o orçamento secreto para os ladrões fdp), só apelando poeticamente por "caridade" para lidar com os miseráveis do capitalismo, descritos desde aquela época por Victor Hugo.

William 


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Obras Completas IV - Poesia Completa. ePUB.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (16) - Os dois horizontes, Machado de Assis



OS DOIS HORIZONTES - MACHADO DE ASSIS

                          1863 

                          A M. Ferreira Guimarães 


Dois horizontes fecham nossa vida: 


Um horizonte, — a saudade 

Do que não há de voltar; 

Outro horizonte, — a esperança 

Dos tempos que hão de chegar; 

No presente, — sempre escuro, — 

Vive a alma ambiciosa 

Na ilusão voluptuosa 

Do passado e do futuro. 


Os doces brincos da infância 

Sob as asas maternais, 

O voo das andorinhas, 

A onda viva e os rosais; 

O gozo do amor, sonhado 

Num olhar profundo e ardente, 

Tal é na hora presente 

O horizonte do passado. 


Ou ambição de grandeza 

Que no espírito calou, 

Desejo de amor sincero 

Que o coração não gozou; 

Ou um viver calmo e puro 

À alma convalescente, 

Tal é na hora presente 

O horizonte do futuro. 


No breve correr dos dias 

Sob o azul do céu, — tais são 

Limites no mar da vida: 

Saudade ou aspiração; 

Ao nosso espírito ardente, 

Na avidez do bem sonhado, 

Nunca o presente é passado, 

Nunca o futuro é presente. 


Que cismas, homem? — Perdido 

No mar das recordações, 

Escuto um eco sentido 

Das passadas ilusões. 

Que buscas, homem? — Procuro, 

Através da imensidade, 

Ler a doce realidade 

Das ilusões do futuro. 


Dois horizontes fecham nossa vida.


Crisálidas (1864)

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COMENTÁRIO:

Essa experiência de buscar o novo na leitura de poesia tem sido interessante. 

Para escolher uma poesia com a qual eu me identifique ou goste do objeto ou tema tratado pelo poeta, leio uma certa quantidade de poemas e quando algum deles me chama a atenção, leio mais algumas vezes e começo uma análise simplória do poema, uma fração do que aprendemos na faculdade, lógico. Vejo o significado das palavras, algo sobre o autor, a época da enunciação etc.

Machado de Assis publicou quatro livros de poesia e ficou mundialmente conhecido por seus romances, contos, crônicas e outras produções literárias. Entretanto, muito pouco se fala do poeta Machado.

Crisálidas é o primeiro livro de poesia do Bruxo do Cosme Velho. É dele o poema que me tocou no dia de hoje.

Estou numa fase da existência na qual poderia dizer que o autor fez este poema para uma pessoa como eu, passando por momentos de reflexões e análises da vida após cinco décadas de vivência, unindo uma ponta à outra, como o próprio Machado chegou a fazer com personagens ligando as pontas da vida: Bentinho, Conselheiro Aires etc.

No horizonte da saudade, penso até nos pertencimentos que já tive, amor e respeito de familiares e amigos. No horizonte da esperança, não ser determinista e acreditar na mudança através de nossas ações.

Não nego que tenho estado muitas vezes mergulhado "Perdido/No mar das recordações,".

E a dificuldade de achar respostas ainda é uma realidade. "Que buscas, homem?"

Talvez minha resposta seja mais ou menos a do Eu-lírico.

"- Procuro,/Através da imensidade,/Ler a doce realidade/Das ilusões do futuro."

Amig@s, vale a pena conhecer esse lado poético de nosso mestre Machado.

Sigamos descobrindo poesias em dezembro.

William Mendes


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Crisálidas. Texto-fonte: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguiar, Rio de Janeiro, 1994.


sábado, 16 de novembro de 2024

Diários com Machado de Assis (16)



Refeição Cultural 

Conto: D. Paula (1884)

"(...) tudo isso era como as frias crônicas, esqueleto da história, sem a alma da história."


O enredo do conto tem como protagonista uma mulher já madura, viúva, e que se dispõe a ajudar um jovem casal que brigou por uma questão de ciúmes. D. Paula é tia de Venancinha, casada com Conrado, jovem advogado do Rio de Janeiro.

O conto começa com Venancinha aos prantos por ter sido acusada pelo marido de estar enamorada de um fulano novo na cidade: Vasco Maria Portela, filho de um antigo diplomata de mesmo nome, aposentado e vivendo na Europa.

Para tentar reaproximar o casal, D. Paula propõe ao marido Conrado levar a sobrinha consigo para ficar algumas semanas na casa dela na Tijuca. A tia promete ao marido dar uns conselhos à jovem e melhorar o comportamento da esposa.

É aí que veremos como se desenvolve a história através das confidências entre tia e sobrinha.

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Eu não conhecia este conto ainda. Ele foi publicado na Gazeta de Notícias, em 12 de outubro de 1884, e depois saiu na coletânea de contos do livro "Várias histórias", de 1895 ou 1896, segundo fontes diferentes.

"D. Paula, inclinada para ela, ouvia essa narração, que aí fica apenas resumida e coordenada. Tinha toda a vida nos olhos; a boca meio aberta, parecia beber as palavras da sobrinha, ansiosamente, como um cordial. E pedia-lhe fiança. O ar da tia era tão jovem, a exortação tão meiga e cheia de um perdão antecipado, que ela achou ali uma confidente e amiga, não obstante algumas frases severas que lhe ouviu, mescladas às outras, por um motivo de inconsciente hipocrisia. Não digo cálculo; D. Paula enganava-se a si mesma. Podemos compará-la a um general inválido, que forceja por achar um pouco do antigo ardor na audiência de outras campanhas."

Os leitores vão conhecer a "alma da história" ao descobrir os segredos não da sobrinha Venancinha, mas da tia dela, D. Paula, ao ouvir as confissões da jovem. 

Ao lerem o conto, atentem para o comportamento da personagem principal, D. Paula.

"Machado foca o comportamento das mulheres em várias obras, pois elas são controladas, ou seja, elas buscam burlar o controle, como a lei que cria o contraventor." (do blog Refeitório Cultural)

Ver postagem sobre a aula do professor Hansen aqui.

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ESCRAVIDÃO PERSISTE

"(...) A primeira escrava que a viu, quis ir avisar a senhora, mas D. Paula ordenou-lhe que não..."

"(...) e lá dentro as pretas espalhavam o sono contando anedotas, uma ou outra vez, impacientes..."


Sempre necessário comentar a naturalização da condição de pessoas escravizadas no passado ou pouco tempo atrás. 

É difícil não perceber a atualidade da luta por direitos básicos e universais a pessoas que executam serviços nas residências de outras pessoas, comumente chamadas de "empregadas domésticas". 

Por mais de um século, após a lei que aboliu a escravidão em 1888, as mulheres que trabalhavam nas casas da "classe média" e nas casas-grandes (casas dos ricos de verdade) seguem na condição de trabalho análogo à escravidão.

Os governos do Partido dos Trabalhadores mexeram num vespeiro ao propor direitos básicos às empregadas domésticas. A casa-grande e a "classe média" acabaram derrubando o governo pela petulância dele em aumentar o custo da empregada (e por diminuir o spread bancário também, em 2012).

A exploração dos seres humanos na forma de escravidão ou trabalhos análogos à escravidão segue há mais de 500 anos aqui no Brasil.

Até quando?

William


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Diários com Machado de Assis (15)



Refeição Cultural 

Osasco, 13 de novembro de 2024. Quarta-feira.


Dormi pouco. Tenho dormido mal faz dias. Poucas horas e sem acordar bem-disposto. E olha que ontem caminhei 4 Km, era para ter dormido melhor. Suspeito de vários motivos para o sono pouco reparador. Problemas da família que me afetam, e sempre a política, sendo eu um animal político.

Tendo acordado cedo, me levantei. Me deu vontade de ler alguma coisa do Bruxo do Cosme Velho. Sempre me equivoco nesse apelido de Machado de Assis e escrevo Mestre do Cosme Velho. Tudo bem! Ele é tudo isso e muito mais.

Peguei o livro de contos do Machado organizado por John Gledson. Li o conto "Conto da escola", que está grafado de duas formas no próprio livro do Gledson: está escrito "Conto de escola" no índice e nas referências ao final do livro e "Conto da escola" na página 326. Evidente que essa diferença faz diferença no sentido semântico. Como o autor é estrangeiro, pode ser questão de tradução. 

Fui olhar na internet em uma página onde consulto todos os contos do Machado de Assis: esse conto está lá no livro "Várias histórias", de 1896, e está grafado "Conto de escola".

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CONTO DE ESCOLA (1884)

Vou ficar com a opção "Conto de escola". Ele foi publicado na Gazeta de Notícias em 8 de setembro de 1884 e depois no livro Várias histórias em 1895, segundo o livro de Gledson.

No enredo, um adulto faz referência ao passado, situa o caso que vai contar ao ano de 1840. Com uma memória incrivelmente detalhista, diz que o fato se passou numa segunda-feira do mês de maio. Pelo que pude perceber ao concluir a leitura do conto, o narrador teria motivos para guardar tantas lembranças do dia, pois teria sido um dia de aprendizado para toda a vida.

O garoto do ano de 1840 era peralta e inteligente, mas não ligava para a escola. Faltava às aulas ao sabor das escolhas diárias entre brincar em algum lugar ou ir para a escola. Ele teria menos de onze anos, pois faz referência a um menino bem mais velho de onze anos, o Curvelo.

No dia em questão, ele optou por ir à escola porque lembrou-se da sova que o pai havia lhe dado dias antes por alguma coisa que teria feito. Não fica claro se apanhou com vara de marmeleiro por ter faltado à escola ou não. Mas poderia ter sido esse o motivo da sova.

"(...) Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes."

Nosso narrador é chamado lá no passado por "Seu Pilar". O menino que dialoga com ele na cena da sala de aula se chama Raimundo e é filho do mestre, Policarpo. O narrador diz que o garoto não é muito inteligente e o seu pai é mais duro com ele do que com o restante dos alunos. Raimundo tem medo dos castigos do pai, o professor.

Seu Pilar nos conta que era um menino inteligente, mesmo sabendo que isso seria arrogante de se dizer. Acaba antes de todos as tarefas da escola (e faltava com frequência pelo que temos de informação no início do caso narrado).

O assunto da história que Seu Pilar está nos contando é sobre uma "troca de serviços", um "toma lá, dá cá" entre alunos. Foi uma proposta inédita para o garoto. Uma cola para uma lição de sintaxe a troco de uma pratinha (doze vinténs ou dois tostões). O garoto, Seu Pilar, se tinha dinheiro, era uns cobres (um cobre feio, grosso, azinhavrado...)

A causa do negócio, a "troca de serviços", era o medo que o Raimundo tinha do pai, o professor. Estamos no cenário do século 19 e a pedagogia do ensino é a violência, a temida palmatória, pendurada ao lado da janela da sala.

A história caminha para o seu desfecho, Seu Pilar pega a moeda, passa a cola e os dois são vistos pelo menino mais velho, o Curvelo.

Eu não gosto de dar spoiler em meus textos sobre romances, contos e filmes... 

Este conto em questão é de domínio público, qualquer pessoa pode lê-lo e ele é bem pequeno, de leitura rápida. 

Na página do blog, na versão para "web" (e não celular), tem um link para os contos do Machado na seção "Links a caminho da cultura". 

O final é bem ao estilo do escritor. O homem adulto que narra o "Conto de Escola" disse que aprendeu a lição naquele dia a respeito das consequências da corrupção e da delação. 

Mas o que realmente dominou seu coração no dia seguinte acabou sendo outra coisa, um encantamento que teve pelo caminho, que mudou seu foco e, quem sabe, até seu destino.

É isso! Eu não conhecia esse conto do Bruxo do Cosme Velho. Foi uma novidade para mim.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série sobre leituras de Machado de Assis pode ser lido aqui.


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Quincas Borba - Machado de Assis (2)



Refeição Cultural

"'A culpa foi minha!' suspirou ela consigo. 

A culpa eram as atenções especiais com o homem, carinhos, lembranças, obséquios familiares, e na véspera, aqueles olhos tão longamente pregados nele. Se não fosse isso... Ia-se assim perdendo em reflexões multiplicadas. Tudo a aborrecia, plantas, móveis, uma cigarra que cantava, um rumor de vozes, na rua, outro de pratos, em casa, o andar das escravas, e até um pobre preto velho que, em frente à casa dela, trepava com dificuldade um pedaço de morro. As cautelas do preto buliam-lhe com os nervos." (p. 68/69)


O cenário do romance é o Rio de Janeiro no ano de 1868. 

Sofia avalia consigo mesma o acontecimento da véspera: ela sofreu um assédio por parte de um amigo do casal. 

Na conversa com o marido, após o ocorrido, ele afirmou que a culpa foi dela, a vítima. 

Cristiano, na verdade, não quer cortar relações com o assediador, Rubião, porque lhe deve favores...

E aí? Alguém vai dizer que nunca viu caso parecido?

O tempo passa, o tempo voa, e a condição das mulheres pouco ou nada muda. 

A gente vê a luta das mulheres faz tempo, mas a sociedade machista prevalece. 

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ESCRAVIDÃO ANTIGA, ESCRAVIDÃO MODERNA

E a questão das pessoas escravizadas? (ou na mesma condição de exploração?)

A mesma cena que citei nos serve de reflexão para compreendermos o presente através do passado em nosso querido Brasil varonil.

Quando os governos do PT estabeleceram direitos para as empregadas domésticas, a tal "classe média", gente como a que me dá a honra da leitura no blog, talvez, precisou pôr a mão no bolso para pagar algum direito básico para as pessoas que lavavam nossa privada... parte da classe média ajudou a derrubar aquele governo "corrupto" etc.

Aí o Temer e o Bolsonaro acabaram com praticamente todos os direitos da classe trabalhadora e as empregadas domésticas voltaram a lavar nossas privadas por quase nada... A classe média não derrubou Temer nem Bolsonaro, provavelmente por achar que eles não eram "corruptos".

Aff! 

Sigamos lendo Machado de Assis. A prática da leitura faz a gente pensar tanta coisa, viu!

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Só para terminar a reflexão sobre o excerto citado acima: faz tempo que li Quincas Borba, não me lembro mais da estória. Aquela frase de Sofia ficou martelando na minha cabeça... "aqueles olhos tão longamente pregados nele"... 

Machado sempre surpreende leitoras e leitores, apronta das suas em seus contos e romances. Vamos ver se esse olhar longo de Sofia vai dar em algo ou não no correr do romance. 

William