Mostrando postagens com marcador Portugal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Portugal. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal) - Leo Ricino



Refeição Cultural

LITERATURA E HISTÓRIA 


"(...) e só agora, aos quarenta e sete, estou a conseguir, por um motivo muito forte, me expor e falar espontaneamente de mim, inclusivamente desse meu problema pessoal, essa gaguez que sempre me acompanhou e da qual tive vergonha durante minha vida toda. Não poucas vezes acabei sendo mais cruel, como resultado da minha não aceitação dela e pela pequenez como ser humano que projetava em minha mente perturbada. Talvez." 


Li nesta semana um livro bem interessante. Aprendi muito sobre a história portuguesa, mesmo sendo um texto de ficção: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal), edição de 2019.

O autor - Leo Ricino - nos passa de forma leve e descontraída uma versão ficcional de como teria sido a vida e os instantes finais do 8° monarca português, D. Pedro I, que governou o Reino entre 1357 e 1367. Leo utiliza sua erudição em benefício dos leitores. 

No romance, o monarca D. Pedro I, o Justiceiro, já em seu leito de morte, ganha voz e escreve de punho uma autobiografia não formal, diferente daquela que constará nos anais da história. 

Leo nos esclarece que D. Pedro I de Portugal, em sua autobiografia, quer ficar conhecido em sua totalidade, em sua essência humana, e não somente com as formalidades oficiais do cargo, quer ir além da alcunha de "Justiceiro".

E aí, se preparem, leitor e leitora, pois vocês vão descobrir as maldades e vilanias do monarca português, ditas por ele mesmo, num momento no qual ele não tem nada a perder.

----------

"A raiva, a ira, a revolta e a sede de vingança ofuscam a clareza do pensamento e do agir, pois as decisões tomadas nos momentos de exacerbação da força sanguínea por todo o corpo carecem de claridade. E muito agi sob esses efeitos."

----------

Vamos viajar no tempo e nos costumes da Corte, veremos uma versão sobre Inês de Castro, famosa e conhecida por todos que já leram Camões ou que estudaram para vestibulares. 

Durante a leitura ficcional, os leitores sentem uma curiosidade incrível de ir aos manuais de história portuguesa para compilar história e ficção. Muito estimulante o método. 

Conhecemos o professor Leo e a professora Isabel, casal de amizade cativante, na Colônia dos Professores localizada na Praia Grande (SP). 

É isso, amig@s leitores. O livro está disponível no formato digital. Vale a pena ler essa ficção com pitadas de história. 

William 

24/07/26

terça-feira, 16 de junho de 2026

Livro: Uma abelha na chuva - Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira
(10/08/21-01/07/81)


Refeição Cultural

LITERATURA PORTUGUESA 


Relendo um artigo meu dias atrás, vi nele uma citação a um livro de literatura portuguesa de meados do século passado, de Carlos de Oliveira, livro do qual não me lembrava do enredo. As obras literárias são assim, umas nos deixam marcas e lembranças, outras não. Não há um livro de Samarago, por exemplo, do qual tenha me esquecido do enredo. Talvez pelo estilo ou tema tratado pelo autor, vai saber.

Só por curiosidade, procurei e encontrei Uma abelha na chuva, de 1953, em meus guardados da faculdade de Letras e comecei a ler a história de Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres, casal principal de protagonistas do enredo do romance de Carlos de Oliveira. 

Li rapidamente a metade do romance numa só sentada e posso afirmar que ele é bem escrito, a história tem questões sociais interessantes apresentadas aos leitores da época, e de hoje também, se considerar o pano de fundo da trama: a vida num vilarejo de Portugal, país dominado pela igreja católica, por uma nobreza falida e pelo ditador António Salazar, país ainda em luta por manter colônias africanas, e em franca decadência econômica. Esse era o cenário no qual foi publicado o livro.

---

RELIGIÃO E PODER 

Uma das questões que me levaram a reflexões ao reler este romance é a forma como a religião e seus doutrinadores interferem e definem a vida coletiva numa comunidade humana qualquer. 

Apesar do tema central do romance ser a decadência de Portugal, a religião está ali impregnada em tudo que é decadente, as relações, as instituições, as pessoas... em tudo. E isso é de uma atualidade incrível! 

A religião neste momento da história humana, terceira década do século XXI, é uma das principais ferramentas de manipulação de massas pela extrema-direita e pelos homens do poder mundial, que contam com exércitos e máquinas que definem o comportamento de milhões de vítimas dos algoritmos das big techs, tecnologias inexistentes no passado.

Quando lemos literatura e história e acessamos cotidianos existentes em diferentes lugares e épocas podemos perceber o poder imenso de sentimentos como ódio, medo e fé, principalmente quando são utilizados por canalhas manipuladores em posição de poder.

---

UMA ABELHA NA CHUVA 

O casal Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres vive numa região rural. O casamento deles é um arranjo entre um filho de comerciante bem-sucedido com uma filha da fidalguia falida. Silvestre é um banana e D. Maria uma frustrada com o marido que seu pai lhe arranjou. 

Outros personagens completam o enredo que demonstra a decadência de uma sociedade. O padre, Abel, é um agregado da casa do casal: vê pecados o dia todo e não diz nada. As más línguas dizem que "sua irmã", D. Violante, seria uma amante. Silvestre, "um homem gordo, baixo, de passo molengão", tem um irmão na África, um aventureiro mulherengo. A propriedade rural tem um cocheiro, Jacinto, o "ruivo", e outros empregados, como o mestre António, que perdeu a visão, e sua filha Clara.

Terminada a releitura, considero o romance muito bom. A história tem humor, tem momentos de tensão e final imprevisível. O autor português utiliza as técnicas modernas do romance, alterna momentos em primeira e terceira pessoa, utiliza fluxo de pensamento, acelera e desacelera o tempo da narrativa com sumários etc.

---

DITOS POPULARES E ADÁGIOS 

Gostei dos ditos populares e dos adágios de D. Violante. Minha avó Deolinda era especialista em frases prontas para qualquer tema conversado.

Vejam esses ditos e adágios constantes do capítulo VIII:

"- Quando Deus queria do norte chovia"

"- (...) se as orações dos cães chegassem ao céu choviam ossos"

"- (...) Noiva serôdia, nem miolo nem côdea"

"- (...) boda e mortalha no céu se talha"

---

COMENTÁRIO FINAL 

"- Nem rei nem papa à morte escapa" (ainda D. Violante)


A cultura nos leva ao conhecimento, ao autoconhecimento e à transformação. Leitura é uma das formas de acesso à cultura. A leitura de livros é fundamental para o desenvolvimento do cérebro, pois ler textos longos nos exercita a concentração e a reflexão. 

Enquanto li A abelha na chuva, refleti sobre várias coisas do mundo atual, mesmo tendo o livro sido publicado há mais de setenta anos. Os temas abordados no enredo estão aí, ao nosso redor, pautando nossa agenda de vida. Religião, política, relações humanas, propriedade e bens materiais, condição das mulheres, das classes exploradas etc.

É sempre bom ler um livro, amigas e amigos leitores do blog. 

Sigamos lendo. Se nem rei, nem papa, à morte escapa, quem dirá eu, um simples ex-bancário que deu a sorte de chegar até aqui sobrevivendo à juventude, ao ódio e às situações que a vida nos apresenta cotidianamente. Ainda estou por aqui, então sigamos lendo.

William 

16/06/26

sábado, 19 de julho de 2025

O sentido da vida (1)



Uma vida humana

O homem acordou naquele dia, olhou um pouco para o teto, até firmar a consciência sonolenta, e se levantou. Começava mais um dia em sua vida.

Entre o quarto e a sala, olhou para a bagunça ao redor, pensando no que arrumar ou limpar naquela manhã: dois dias antes havia estabelecido o propósito de fazer alguma coisa todo dia, nem que fosse por meia hora.

Tomou um copo d'água e olhou a cozinha. Pensou se mexia ali ou na sala. Foi ao banheiro com o kindle na mão. Leu alguns parágrafos do livro "O trato dos viventes", do Alencastro. 

A Corte portuguesa através de alvarás em 1554 e 1559 lançava incentivos fiscais para se desenvolver engenhos na Terra de Santa Cruz cobrando dos "empreendedores" um terço das taxas na aquisição de 120 africanos por engenho criado. Capturar pessoas e vendê-las era uma atividade de "empresários" e de Estado.

O homem pegou frutas, leite, um pão de dois dias, fez uma vitamina, passou o pão no fogo, tomou seu café naquele sábado, lavou a louça e foi limpar o pó acumulado na estante da sala.

Para o dia, havia ainda o desejo de terminar a leitura de um livro de ficção e ler textos de um blog de uma professora poeta.

O passado descrito por Alencastro pode ser o futuro no tempo daquele homem vivendo mais um dia no lindo planeta azul.

---

sábado, 15 de março de 2025

O trato dos viventes: os brasileiros



Refeição Cultural

O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, Séculos XVI e XVII - Luiz Felipe de Alencastro


"Entre outros autores seiscentistas, Brito Freyre fala dos 'portugueses brasílicos', elogiando sua atuação na guerra contra os holandeses (...) quando a palavra brasiliense se referia sobretudo aos índios, e brasileiro principalmente aos cortadores de pau-brasil (...). Os 'brasílicos' tornam-se 'brasileiros', no sentido atual da palavra, ao longo do século XVIII, depois que a economia do ouro engendra uma divisão inter-regional do trabalho e um mercado interno na colônia..." (O trato dos viventes, Luiz Felipe de Alencastro)


OS BRASILEIROS

Uma nota de rodapé do capítulo um nos explica a origem da denominação que acabou se estabelecendo para nós que nascemos e vivemos no Brasil. 

"Brasileiros" eram as pessoas que cortavam o pau-brasil, pois "eiro" é sufixo de função ou atividade, tipo padeiro, pedreiro etc. 

Nos primeiros séculos, "brasilienses" eram os indígenas, povos nativos.

Os "brasílicos", os colonos da terra, viriam mais tarde a serem denominados brasileiros, nós.

William 


domingo, 19 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (49) - Marília de Dirceu, Lira XIII, Parte 2, Tomás Antônio Gonzaga



MARÍLIA DE DIRCEU, LIRA XIII, PARTE 2 - TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA


     Vês, Marília, um cordeiro

     De flores enramado,

     Como alegre caminha

     A ser sacrificado?

O Povo para Templo já concorre;

A Pira sacrossanta já se acende;

O Ministro o fere: ele bala e morre.


     Vês agora o novilho, 

     A quem segura o laço?

     No chão as mãos especa,

     Nem quer mover um passo.

Não conhece que sai de um mau terreno,

Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, 

O conduz a viver num campo ameno.


     Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte.

Nós temos, minha bela, igual demência:

Não sabemos os fins com que nos move

A Sábia, oculta Mão da Providência. 


     De Jacó ao bom filho

     Os maus matar quiseram;

     De conselho mudaram:

     Como escravo o venderam.

José não corre a ser um servo aflito:

Vai subindo os degraus, por onde chega

A ser um quase Rei no grande Egito.


     Quem sabe se o Destino

     Hoje, ó bela, me prende. 

     Só porque nisto de outros

     Mais danos me defende?

Pode ainda raiar um claro dia;

Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro

E beijo a santa mão que assim me guia.


Publicado em Lisboa, Portugal, em 1792.

---

COMENTÁRIO:

Segui na leitura do clássico Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. 

Após a leitura da parte 1, com 33 liras, agora estou na leitura da parte 2, com 38 liras. Parei na Lira XV.

Ao mesmo tempo em que não sou determinista, não acredito em mitos e explicações místicas da vida, reconheço o mérito da história humana em buscar sentidos à vida nessas construções mitológicas do mundo.

Essa lira é muito interessante! Eu diria até condizente aos dias atuais. 

O eu-lírico, entre lamentos e declarações de amor ao longo das liras, faz nessa uma interpretação favorável da Sorte (Fortuna, Destino, Deus etc), que poderia estar favorecendo ele enquanto está preso.

É uma senhora leitura de auto-ajuda!

    "Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte."

E os versos acima poderiam ilustrar perfeitamente a dominação e manipulação dos "deuses" das big techs e redes sociais, e também dos "pastores" (não os da arcádia, e sim os sofistas modernos) em relação ao destino de milhões de cordeiros e novilhos (gado) dos dias atuais...

É isso. Seguimos lendo poesia e diminuindo um grãozinho de ignorância por dia.

William 

domingo, 5 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (35) - Desacordo, Marili Santos



DESACORDO - MARILI SANTOS

 

À revelia

 

dessa nova ortografia

 

para, já disse

 

pára porque eu quero

 

ver o vôo das palavras,

 

com trema e

 

que tremam os gramáticos!

 

Pelo menos largaram

 

o circunflexo da sequência;

 

que faço com as saudades do

 

éi- ói, terrível epopeia;

 

À queima-roupa arrancaram

 

do pé de moleque e do olho da sogra

 

o tal do hífen e a exceção ficou

 

ao deus-dará.


Do blog Valsa Literária (valsaliteraria.blogspot.com)

---

COMENTÁRIO:

Completei a leitura das primeiras cem publicações do blog da professora e escritora Marili Santos. Como já comentei em textos anteriores, a autora desenvolve suas criações literárias em diversas formas discursivas.

Gostei bastante dos contos "A espera da personagem" e "A face azul". Os temas foram bem desenvolvidos e a contista consegue manter a curiosidade das leitoras e leitores sobre o que vem no episódio seguinte. Marili publicou na forma de folhetim, capítulo por capítulo.

Lembro aqui aos leitores e leitoras do blog Refeitório Cultural que estou lendo as criações literárias da poeta, cronista e contista Marili Santos desde o início da página dela em 2011.

Me identifiquei com o tema do poema "Desacordo" porque também tive minhas discordâncias com as reformas impostas pelo Novo Acordo Ortográfico. Escrevi sobre isso algumas vezes no blog.

"o tal do hífen e a exceção ficou / ao deus-dará."

Além de muita coisa ter ficado "ao deus-dará" na língua portuguesa, ainda tenho outras teorias sobre a linguagem humana e as consequências das novas tecnologias do século XXI: avalio que a humanidade vai perder parte considerável de sua capacidade de escrever e manter a linguagem escrita.

Enfim, sigamos lendo poesia e outras formas de linguagem literária e de cultura.

William


sábado, 14 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (14) - Marília de Dirceu, Lira XVIII, Parte 1, Tomás Antônio Gonzaga



MARÍLIA DE DIRCEU, LIRA XVIII, PARTE 1 - TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA


"Não vês aquele velho respeitável

          Que à muleta encostado

Apenas mal se move e mal se arrasta?

Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!

          O tempo arrebatado,

          Que o mesmo bronze gasta.


Enrugaram-se as faces, e perderam

          Seus olhos a viveza;

Voltou-se o seu cabelo em branca neve;

Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;

          Nem tem uma beleza 

          Das belezas, que teve.

Assim também serei, minha Marília, 

          Daqui a poucos anos, 

Que o ímpio tempo para todos corre:

Os dentes cairão e os meus cabelos. 

          Ah! sentirei os danos

          Que evita só quem morre." (Lira XVIII, Parte 1)

---

COMENTÁRIO:

Comecei a ler Tomás Antônio Gonzaga em setembro deste ano. Coincidentemente, estava em Uberlândia. Não terminei ainda as três partes de Marília de Dirceu.

Para essa leitura de poesia diária em dezembro, de autores ou obras ainda não conhecidas por mim, reli os primeiros dezoito poemas do livro, e de todos eles, de fato o que mais gostei e me identifiquei com a temática foi essa Lira XVIII.

O tema sobre o envelhecimento e a efemeridade da beleza e da saúde é atualíssimo. Tenho pensado muito nesses dias sobre a brevidade da vida, e a importância do carpe diem! Aliás, um dos motes do arcadismo.

É isso! Sigamos lendo poesia em dezembro. Depois de um dia cansativo aqui em Uberlândia, estou precisando dormir. Queria refletir mais sobre esta Lira, mas tô cansadão.

William Mendes


quinta-feira, 13 de abril de 2023

Diário de uma difamação - Boaventura de Sousa Santos

Apresentação do blog:

Segue abaixo a posição do professor Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, a respeito de uma acusação de assédio por parte de alunas da instituição na qual ele trabalhou ao longo de mais de quarenta anos: Centro de Estudos Sociais (CES). Não faço juízo de valor a respeito da questão, mas acho importante ouvir o professor, que se coloca à disposição para a apuração dos fatos perante a lei.

O texto e os argumentos me parecem sólidos. Entendo que o professor merece o benefício da dúvida. Eu não o conheço pessoalmente, mas acompanho seu trabalho há muitos anos. 

Me lembro quando o companheiro João Vaccari Neto foi acusado de diversos crimes que depois se verificaram serem acusações mentirosas, ele foi inocentado. À época, eu me posicionei a respeito do caso de Vaccari, este sim conhecido e com quem atuei na direção do Sindicato dos Bancários.

Quando fui diretor eleito de uma instituição nacional de saúde sofri ao final de meu mandato um processo de lawfare que se iniciou com uma carta anônima asquerosa, com acusações claramente falsas e que não merecia o crédito que foi dado a ela para me imputar meses de sofrimento e humilhações por motivações claramente políticas, queriam tirar minha energia e tempo para aquilo que era mais importante, defender os direitos dos trabalhadores que eu representava num embate entre capital e trabalho. Ao final do processo, tudo foi arquivado porque era tudo falso e sem base na realidade. Contudo, as acusações levianas foram usadas contra a minha honra e contra a minha pessoa no processo eleitoral no qual participei. Tudo indica que as acusações mentirosas tinham esse objetivo, assassinato de reputações.

Enfim, segue abaixo o que o professor Boaventura de Sousa Santos argumenta em sua defesa. 

William Mendes

---

(Fonte: Brasil247)


Diário de uma difamação



Um abraço solidário a todos e a todas, um abraço indignado, mas um abraço, um abraço longo, de crença na luta pela verdade e pela justiça

12 de abril de 2023, 18:46 h

Santiago do Chile, 12 de Abril de 2023

Caros e caras colegas e estudantes (antigos e actuais),

Escrevo-vos de Santiago do Chile onde estou para participar na feira do livro. O Centro de Estudos Sociais, eu próprio e alguns dos nossos investigadores acabam de ser vítimas de uma difamação anónima, vergonhosa e vil por parte de três autoras. Uma delas foi bolseira Marie Curie no CES (Lieselotte Viaene), as outras duas, estudantes de doutoramento (Miye Tom e Catarina Laranjeiro). À partida quero afirmar que todos os casos de conduta incorrecta referidos no texto por parte de quem seja, se confirmados, devem ser prontamente julgados tanto no CES como nas instancias judiciais e como ao tempo era director do CES assumo institucionalmente responsabilidades por eventual negligência que possa ter havido. Apesar de o artigo estar centrado na minha pessoa, nunca tive reuniões com duas das autoras (Miye Tom e Catarina Laranjeiro) e com a terceira, a principal autora (Lieselotte Viaene), tive duas reuniões, uma como seu supervisor do estágio Marie Curie quando chegou ao CES e outra como director estratégico do CES, a pedido do director executivo, para tentar resolver os problemas do comportamento incorrecto e indisciplinado do ponto de vista institucional desta investigadora. O seu comportamento foi de tal ordem insolente e incorrecto que o CES acabou por lhe abrir um processo disciplinar e não aceitou que ela indicasse o CES como instituição de acolhimento num projecto de candidatura ao European Research Council. Esta recusa teve como fundamento o comportamento anterior dela no CES. Em suma, esta investigadora foi expulsa do CES. Eis o texto de nota de culpa datado de 6 de junho de 2018 “Assunto: Processo disciplinar – Despedimento. À Sra. Doutora Lieselotte Viaene: Tendo sido objecto de um processo disciplinar pelo Centro de Estudos Sociais (CES), é notificada do processo de despedimento que lhe foi levantado (anexo). Comprovados os factos indicados na nota de acusação, entende o CES despedi-la com justa causa. Nos termos do artigo 335 do Código de Trabalho, pode refutar o registo de acusação por escrito, indicando os elementos que julgue relevantes para a clarificação dos factos e da sua conduta. Poderá anexar documentos provatórios considerados pertinentes para o esclarecimento da verdade. Os documentos que dizem respeito a este caso encontram-se na Secretaria do CES com Célia Viseu”

Na minha opinião, que obviamente não compromete a Direcção do CES, de que sou agora apenas Director Emérito, este artigo, no que respeita à sua principal autora, Lieselotte Viaene, é um acto miserável de vingança institucional e pessoal. Como podereis ler no texto publicado, toda a informação caluniosa que me diz respeito é anónima e assente em boatos, ou seja, em “factos” para os quais não é oferecida nenhuma prova ou modo de chegar a ela.

Em face disto, a primeira questão que se me põe é a perplexidade sobre como é que uma editora respeitável (que tem publicado alguns dos meus livros) deu a lume um texto tão ardiloso, tão mentiroso no que me diz directamente respeito, tão mistificador como este de que vos falo. É um texto que tem uma mistura entre um quadro teórico sólido, retirado da literatura que foi produzida no seguimento do Movimento Me Too, à qual se sobrepõe uma informação empírica assente em referências anónimas, boatos e incidentes não identificados e não provados de maneira a poderem ser contestados. Pergunto-me quem foram os peer reviewers que analisaram este texto? Que tipo de ciência é esta que permite enxovalhar e lançar lama uma instituição de prestígio e especificamente o investigador que foi durante tantos anos seu director? Sou designado no texto como “Star professor”, uma designação que foi cunhada nos EUA para caracterizar os professores que pelo seu trabalho ou a sua fama auferiam salários imensamente superiores aos seus colegas. Nunca foi esse o meu caso. O que eu fui e com muito gosto o afirmo um caput scholae, um cabeça de escola que fundou há quarenta e quatro anos uma instituição com a colaboração de um dedicado e entusiasta pequeno grupo de jovens investigadores orientada para produzir conhecimento crítico, livre, plural e independente sobre a sociedade portuguesa e sobre a Europa e a suas relações com o mundo, sobretudo o que esteve sujeito ao colonialismo português. Foi essa instituição que cresceu efloresceu ao longo de décadas e que motivou as autoras para a escolherem como instituição para prosseguir os seus estudos. Aliás, as duas autoras na altura doutorandas, concluíram os seus doutoramentos com a nota máxima. O mesmo sucedeu com a principal autora. Reconheço que devido ao facto de partilhar o meu tempo entre Portugal e os EUA terei desiludido a autora principal quanto à orientação do seu estágio. Mas também é verdade que os bolseiros Marie Curie são em geral muito autónomos e não exigem apertada supervisão. Como quer que seja, nada disto justifica esta diatribe contra uma instituição e ainda por cima tão personalizada contra alguém que no máximo foi absentista na sua orientação. Como se justifica que se arraste para a lama toda uma instituição que na altura em que as autoras a frequentaram já tinha mais de cem investigadores e investigadoras, com perspectivas e centros de interesse que nada tinham a ver com o “star-professor”?

Verifiquei depois estarmos perante um padrão de comportamento. Entre setembro do ano passado e o corrente mês de abril recebi pedidos de ajuda de estudantes de doutoramento indígenas da Universidade espanhola onde está agora sediado o projecto que o CES decidiu não patrocinar. Sabendo dos problemas que a autora principal tinha causado no CES, pediam-me que as aconselhasse como proceder. Eis o teor dos emails que recebi de uma das estudantes indígenas expulsas do projecto coordenado pela autora principal, eliminando os detalhes que poderiam violar o anonimato: “Estimado profesor, es un gusto saludarle Hemos conversado con los compañeros de otros países y la mayoría de nosotros hemos sido víctimas de la misma persona. Es una larga y triste historia este Proyecto en mi vida y la de los compañeros, por eso nos gustaría conversar con usted. Le escribo hoy, justo porque mi indignación a su histeria envidiosa me conmueve…. Es por demás mi indignación. Hemos vivido muchas situaciones de violencia. Nadie de los compañeros llevó a cabo ninguna situación judicial porque no tenían los recursos económicos y los costes emocionales que requería un proceso judicial. Principalmente porque todos los afectados somos de otros países… Estamos viendo acciones para denunciar el extractivismo epistémico que Lieselotte a través del proyecto RIVERS comete contra los pueblos indigenas. Pero parece que ella es solo impune, esto es frustrante, al mismo tiempo que buscamos caminitos de esperanza para lograr justicia.” (mantenho o anonimato da autora do email mas o seu nome está depositado na direcçao de CES e pode ser revelada se a minha correspondente autorizar).

É para mim evidente que o texto difamatório de que sou vítima e a instituição que dirigi durante mais de quarenta anos configura uma intenção de assassinato de carácter que corresponde a um padrão de comportamento bem documentado na literatura e que neste caso se centrou minha pessoa para proceder à vingança institucional.

No que respeita às insinuações que me são feitas quero afirmar que confrontarei qualquer suposta vítima com serenidade e sentido de responsabilidade. Tenho a consciência bem tranquila. Revoltam-me particularmente dois aspectos deste texto indigno.

O primeiro, é o indigno envolvimento dos meus assistentes de investigação que, segundo a autora principal, eu teria explorado ou aproveitado indevidamente. Obviamente que me apoiaram na investigação porque foi para isso que foram contratados. Mas os meus livros fui quem os escreveu. Faculto ao CES o nome de todos os meus assistentes, portugueses, norteamericanos, brasileiros, moçambicanos, angolanos, colombianos que ao longo de cinquenta anos trabalharam comigo, se alguém entender interpela-los. Tenho um grande orgulho em ter trabalhado com todos eles e todas elas. Escrevi muitos livros porque trabalho incessantemente e nunca tive férias, porque amo o meu trabalho e porque tenho uma secretária e uma assistente de revisão de texto, duas pessoas maravilhosas e excelentes profissionais que há várias décadas me acompanham.

O segundo aspecto que particularmente me ofende e repugna diz respeito aos convívios que durante muitos anos ocorreram depois das minhas aulas no restaurante Casarão. Cito: “Nesta instituição, este tipo de desequilibradas relações de poder ocorria frequentemente sob a forma de eventos sociais como fazendo parte da cultura institucional, tais como jantares em restaurantes e casas particulares, onde se encorajavam relações pessoais mais íntimas entre investigadores de diferentes posições hierárquicas. A regra não escrita é que a seguir às aulas magistrais do Professor-Estrela todos os investigadores se reúnem num determinado restaurante. De facto, numa reunião com a Antiga Pós-doutoranda, o Professor-Estrela a aconselhou-a a ir a estes jantares para melhor se integrar na instituição. À Antiga Doutoranda Nacional o mesmo foi aconselhado por ambos os coordenadores do programa doutoral”. Como nunca promovi festas em minha casa só me posso referir aos convívios no restaurante Casarão. Só mentes perversas podem transformar o mais são convívio entre estudantes e professores em maquiavélicas maquinações de pastores de pobres rebanhos de estudantes. Convido todos e todas a irem ao restaurante ver os quadros de azulejos com os nomes dos estudantes de doutoramento que ao longo dos anos partilharam bons momentos de conversa, leitura de poesia e música. Diz-me o dono do restaurante que ainda hoje vêm estudantes do Brasil mostrar aos seus filhos os quadros onde estão os seus nomes quando eram aqui estudantes. Que perversidade pode transformar uma convivência no mais puro espírito académico em manipulações de consciência e em rituais de fidelidade.!

São referidos outros casos de conduta incorrecta que dizem respeito a outros investigadores. Em relação a eles estou certo que os investigadores e as investigadoras envolvidas e as vítimas/sobreviventes se as houver encontrarão no CES e nas instituições judiciais vários fóruns para discutir julgar e tirar consequências. A todas e a todos tem de ser dado espeço se explicarem. O CES tem uma estrutura governativa muito descentralizada distribuída por vários dos órgãos. Se houve omissões dos titulares desses órgãos elas devem ser analisadas, avaliadas e corrigidas.

Independentemente dos procedimentos internos e judiciais que o CES vier a adoptar, quero informar-vos de que vou apresentar uma queixa crime por difamação contra as autoras. Declaro-me disponível para dar todas as informações e prestar todos os esclarecimentos que me sejam pedidos, quer no âmbito do processo judicial, quer no âmbito dos processos internos, que o CES certamente vai pôr em movimento.

Um abraço solidário a todos e a todas, um abraço indignado, mas um abraço, um abraço longo, de crença na luta pela verdade e pela justiça. O CES é uma grande instituição, grangeou merecidamente prestígio tanto nacional como internacionalmente. Os seus investigadores e as suas investigadoras continuarão a lutar por merecer esse prestígio, corrigindo erros, sendo rigorosos e transparentes para com todos os actos de violação de ética profissional e denunciando aqueles e aquelas que, ao ultrapassarem os limites da verdade e da reclamação justa, nos pretendem distrair da nossa missão maior, a de contribuir para a ciência cidadã que é marca da nossa presença no meio académico nacional e internacional.

É esta a minha primeira informação respeitante a este processo de difamação e certamente darei outras informações à medida que se justificar. Deste texto vão ser elaboradas versões em espanhol e inglês.

---

Post Scriptum (16/4/23): minha decepção com o comportamento humano e com a tendência de degenerescência de nossa espécie aumentou muito nas últimas semanas. Este caso do intelectual português se mostra bem mais sério do que o professor explicou no texto acima. Nesses 3 dias, soube de mais casos de vítimas que afirmam terem sofrido assédio sexual sendo Boaventura o assediador. Registro minha solidariedade às vítimas de qualquer forma de assédio sexual e opressão. Minhas decepções só aumentam em relação à humanidade... que foda isso!

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

José Saramago - Centenário do grande escritor



Refeição Cultural - #Saramago100

Mundo, 16 de novembro de 2022. Há cem anos nascia José Saramago...


Saramago vive em cada personagem que criou, vive em cada discurso ou reflexão que nos legou, vive em cada um de nós que tivemos o privilégio de ler parte de sua obra, de ouvir suas palavras e pensamentos. Viva José Saramago!


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

A primeira obra que li de José Saramago foi Ensaio sobre a cegueira (1995). Li o romance em 2003 e depois o reli em 2008, antes de ver o filme de Fernando Meirelles baseado na obra. O Ensaio é algo único na literatura mundial. Imagino as pessoas vendo a nossa cara de leitor durante a leitura das partes mais dramáticas do Ensaio... 

Eu me lembro de um dia no qual lia o Ensaio no trem de volta para casa e estava tão incomodado com a cena da violência contra uma personagem que eu ficava olhando ao redor como se todo mundo soubesse a cena absurda que estava lendo no livro.

Este romance me fez chorar, me fez sentir raiva, me fez pensar muito sobre o que somos. Para ler um comentário sobre a leitura é só clicar aqui.

---

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ

Logo após a releitura do primeiro Ensaio, ainda em 2008, mergulhei no Ensaio sobre a lucidez (2004). Agora era o "corte de energia cívica" com o voto em branco de quase todo mundo criando um cenário distópico para nos colocar a pensar sobre a nossa realidade. Que viagem!

Pouco mais de uma década depois do lançamento desse romance de Saramago, o principal país do capitalismo imperialista, considerado "civilizado" e referência como uma das maiores democracias do mundo, sofre um "corte de energia cívica" e elege Donald Trump presidente... incrível, né! E um pouquinho depois, outro país com mais de 100 milhões de eleitores elege um palhaço miliciano presidente do país... Que dizer?

Leiam o romance de Saramago e vejam se não encontramos ali provocações e reflexões que nos colocam a pensar sobre as chamadas democracias liberais e seus cidadãos...

---

TODOS OS NOMES

"Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós."

O terceiro livro de Saramago que li foi Todos os nomes, de 1997. Que livro fantástico! Olhando minha edição, toda rabiscada, relembro que foi um dos livros do escritor no qual mais destaquei conceitos e reflexões do personagem, o Sr. José, que trabalha na Conservatória Geral do Registo Civil.

Vejam essa reflexão que citei acima sobre as decisões humanas... sou eu falando. Concluí de minha vida que nunca fui o condutor de nada e sim o conduzido, pela vida, pela casualidade, pelo destino (rsrs), pelos outros, pelas circunstâncias, pelos acidentes de percurso, enfim, na minha vida "são as decisões que nos tomam a nós".

Este livro de Saramago também me fez chorar e rir diversas vezes. Era ler um pouco e sair pensando na vida. Demais! Para ler um comentário sobre a leitura é só clicar aqui.

---

A JANGADA DE PEDRA

Que romance espetacular! A jangada de pedra, de 1986, é mais um livro distópico do grande escritor José Saramago. Depois de ler os dois Ensaios e Todos os nomes, me apaixonei completamente pela leitura de Saramago com este romance. Li esta obra no ano em que morreu nosso querido escritor, em 2010.

Assim como os livros anteriores, esse tem muita reflexão sobre a vida e sobre o sentido das coisas. O romance explora bastante a questão filosófica sobre haver ou não causalidade naquilo que chamamos de coincidências em fatos e eventos no dia a dia das civilizações humanas.

Na estória, após uma sucessão de eventos a partir de um risco no chão feito por Joana Carda, pouco a pouco o fenômeno vai se tornando realidade e a mãe Europa acaba por ver partir sua filha Península Ibérica rumo ao Ocidente. Que estória fantástica!

Foi meu 4º livro de Saramago, foi a 4ª leitura terminando fascinado por ele e por sua obra. Ler aqui comentário que fiz sobre esse romance.

---

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA

"(...) Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber, quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa..."

Para relembrar minha experiência com a leitura desse conto maravilhoso de Saramago, O conto da Ilha desconhecida, de 1997, manuseei minha edição belíssima e reli a postagem que fiz em 2015 (ler aqui), quando li a estória pela primeira vez.

Só de reler passagens do conto e minha postagem, minha voz embargou na garganta e os olhos encheram d'água... Que conto metafórico!

Minha postagem registrou um momento importante de minha própria viagem pela vida. A forma como eu estava numa ilha, embarcado numa aventura desconhecida, e a forma como O Conto da Ilha Desconhecida de Saramago veio parar na minha mão naquele dia... 

As imagens finais da estória são de arrepiar! O barco, o homem, a mulher, o barco-ilha e as ilhas que somos...

Demais! Viva Saramago!

Obrigado, Saramago!

---

A VIAGEM DO ELEFANTE

"A Pilar, que não deixou que eu morresse" (José Saramago)

Li A viagem do elefante num mês de janeiro de 2016, estando de férias do trabalho.  Saramago diz que só pode contar essa narrativa porque Pilar, sua companheira, não o deixou morrer ao estar muito doente. O livro foi publicado em 2008. Ler aqui um comentário que fiz sobre as leituras daquele mês.

No romance, Saramago nos conta a história do elefante Salomão e seu tratador indiano Subhro (cornaca), que atravessam metade da Europa - Portugal, Espanha e Itália - para o elefante ser dado de presente a uma realeza da Áustria. O escritor nos diz que a história é real, o que ele fez na narrativa foi preencher as lacunas da história que não se sabia.

Como os demais livros de Saramago, não teve como não me emocionar muito com a história de Salomão, completada pelo nosso escritor português. Poucos autores conseguem com tanta eficácia nos colocar a pensar durante a leitura, através dos diálogos que os narradores fazem com os leitores de seus livros.

Para vocês terem uma ideia sobre as reflexões e sabedorias do livro, vejam essa a respeito da história de uma vaca perdida por doze dias com sua cria entre lobos... (ler aqui)

Viajei muito nesta viagem que empreendi junto a Salomão.

---

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE

"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme..."


Para começar o comentário sobre a leitura dessa obra fantástica, emocionante e diferente de tudo que se costuma ler por aí, coloquei para ouvir a opus 1012 para violoncelo de Johann Sebastian Bach, e naturalmente o arrepio toma conta de todo o meu corpo enquanto escrevo...

José Saramago escreveu As intermitências da morte (2005) explorando a mais absurda das situações possíveis, bem ao estilo do autor que construiu boa parte de seus romances mais espetaculares a partir de uma estrutura ficcional assim: 

Imaginem vocês se de repente... as pessoas deixassem de ver e estivessem com uma cegueira branca... as pessoas decidissem votar todas em branco sem combinar nada... a Península Ibérica se soltasse da Europa e fosse embora... a morte fizesse uma greve e decidisse que ninguém mais morreria a partir de 1º de janeiro...

E a morte gosta de Bach... quem diria! (Eu também adoro Bach!)

Amig@s leitores, esse foi o derradeiro (até agora) romance que li de Saramago, leitura feita durante um período de muito trabalho por parte da morte, o primeiro ano da pandemia mundial de Covid-19... que barbaridade! Como trabalhou a dona morte! Eu sobrevivi por algum acaso do destino (ela não me escolheu ainda)

Não consigo falar desse livro sem chorar... Tá dito o mínimo sobre As intermitências da morte... 

Caso queiram ler a postagem que fiz quando li o livro, é só clicar aqui.


Viva José Saramago!

William Mendes


Bibliografia:

As referências e citações que fiz nesta postagem foram extraídas das edições das obras de José Saramago que compõem a foto que ilustra esse texto.


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XXI)

Quarta parte

Economia de transição para o trabalho assalariado (século XIX)

XXI. O problema da mão de obra

I. Oferta interna potencial

Este capítulo é chocante pela apresentação da questão da mão de obra escrava. Furtado apresenta alguns números da escravidão no Brasil e nos Estados Unidos ao longo do século XIX.

A nota 105 do livro é tão clara em relação aos números do tráfico de seres humanos que vale a pena deixar a citação aqui.

"Não se conhecem dados completos sobre a entrada de escravos no Brasil, nem mesmo para a época da independência política. Particularmente irregulares são os dados relativos às entradas pelos portos do norte. Entre 1827 e 1830 houve uma grande intensificação do tráfico, pois neste último ano aquele 'deveria' cessar em razão do acordo com a Inglaterra. As entradas pelo porto do Rio excederam 47 mil em 1828 e 57 mil em 1829, descendo para 32 mil em 1830. Essas importações foram evidentemente anormais, pois provocaram forte desequilíbrio no mercado, reduzindo-se os preços à metade entre 1829 e 1831. Outra etapa de grandes importações foi a que antecedeu à cessação total do tráfico, ocorrida entre 1851 e 1852. Com efeito, no quinquênio 1845-49, a importação média alcançou 48 mil indivíduos. Dificilmente se pode admitir que a importação total na primeira metade do século passado haja sido inferior a 750 mil (média anual de 15 mil), sendo porém pouco provável que haja excedido de muito um milhão. Nos EUA, entre 1800 e 1860 se importaram cerca de 320 mil escravos, e, desses, uns 270 mil foram contrabandeados depois da abolição do tráfico em 1808. O máximo das importações decenais (75 mil) foi alcançado no período imediatamente anterior à guerra civil. (Dados relativos aos EUA citados por L. C, GRAY, History of Agriculture in the Southern United States to 1860, Washington, 1933, tomo II, p. 630.)" (p. 181)

É chocante! Até a forma burocrática como o próprio Celso Furtado descreve a comercialização de seres humanos como se fossem gado. Mas o fato é que o racismo estrutural do qual falamos aqui no Brasil vem dessa realidade material e objetiva: a economia escravista que estruturou o Brasil nunca deixou de ser a base da sociedade brasileira, nunca!

Não à toa, vemos os absurdos que vemos sobre racismo neste exato momento em que escrevo esse comentário de leitura sobre a "formação econômica do Brasil".

Neste capítulo sobre a questão da mão de obra no século XIX, vemos a movimentação de milhões de seres humanos oriundos do continente africano, raptados e transportados para os Estados Unidos e para o Brasil e, ainda hoje, tem uns filh@s da puta que fazem de conta que não houve consequência alguma dessa tragédia humanitária ao longo do tempo fazendo com que todos os dados sobre pobreza e miséria recaiam sobre as populações descendentes dessa massa de pessoas capturadas e feitas de mão de obra gratuita para o engrandecimento dos brancos estrangeiros e seus descendentes das casas-grandes.

Pro inferno com cada racista que se apresente em nossa frente. Não se combate o racismo só se dizendo antirracista, racismo se combate com reação contra qualquer fdp racista, como vimos reagir nesta semana a atriz Giovanna Ewbank ao se deparar com uma racista num restaurante em Portugal.

William


Clique aqui para ler comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


sexta-feira, 29 de julho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XIX)

Quarta parte

Economia de transição para o trabalho assalariado (século XIX)

XIX. Declínio a longo prazo do nível de renda: primeira metade do século XIX

Neste capítulo, Furtado demonstra a situação ruim na qual o Brasil se viu com a queda dos preços internacionais das commodities da época: açúcar, algodão, couros e minerais. O que salvou um pouco a economia foi o café, que já se desenvolvia na região próxima à corte no Rio de Janeiro.

"Mesmo deixando de lado a consideração de que uma política inteligente de industrialização seria impraticável num país dirigido por uma classe de grandes senhores agrícolas escravistas, é necessário reconhecer que a primeira condição para o êxito daquela política teria sido uma firme e ampla expansão do setor exportador. A causa principal do grande atraso relativo da economia brasileira na primeira metade do século XIX foi, portanto, o estancamento de suas exportações." (p. 112)

A renda per capita caiu muito nessa primeira metade do século XIX. O que salvou o povo foi o aumento da produção do setor de subsistência.

"O que houve, muito provavelmente, foi um aumento relativo do setor de subsistência, na forma a que já nos referimos em capítulo anterior. Sendo a economia de subsistência de produtividade bem inferior à do setor exportador, o aumento de sua importância relativa, numa etapa em que o setor exportador estava estacionário, teria necessariamente que traduzir-se em redução da renda per capita do conjunto da população..." (p. 113)

---

COMENTÁRIO

O contato com a produção e opinião de grandes intelectuais como Celso Furtado nos ajuda a compreender o mundo ao nosso redor.

Ontem, ao ouvir Pedro Serrano por alguns minutos num programa da TV 247 falei isso para minha esposa. Esses caras de uma inteligência e conhecimento enciclopédico nos fazem compreender o mundo, isso já é uma coisa importante, principalmente numa época na qual a ignorância é incentivada pelo regime nazifascista e negacionista que está no poder do país.

Seguimos estudando e buscando sermos menos ignorantes...

William


Clique aqui para ler comentário do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XVII)

Quarta parte

Economia de transição para o trabalho assalariado (século XIX)

XVII. Passivo colonial, crise financeira e instabilidade política

Ler este livro de Celso Furtado em 2022 é como ver um documentário denunciando o que o Brasil se transformou após o golpe de Estado em 2016 e a ascensão do crime organizado ao poder central após as eleições fraudulentas de 2018. A "grande agricultura de exportação" como diz Furtado (o agro "pop") e o "Centrão" assumiram o poder junto com as milícias e máfias do Rio de Janeiro, antiga Corte portuguesa.

O Brasil do bolsonarismo hoje é o que Furtado nos descreve do Brasil da primeira metade do século XIX, dos coronéis da grande agricultura...

"Por último cabe referir a eliminação do poder pessoal de Dom Pedro I, em 1831, e a consequente ascensão definitiva ao poder da classe colonial dominante formada pelos senhores da grande agricultura de exportação." (p. 99)

Furtado nos explica como esse arranjo dos senhores do agro "pop" facilitou as conversações com a potência Inglaterra para organizar de forma tranquila a "independência" do Brasil em 1822, assumindo um pagamento gigante de indenização a Portugal e virando o Brasil um pasto dos ingleses durante muito tempo, abrindo mão do desenvolvimento econômico do país.

O capítulo é muito interessante. Não vou resumi-lo aqui.

Em poucas palavras, diria assim:

Na virada do século, as commodities da colônia - açúcar e ouro - estavam em baixa no mercado internacional. Com isso, internamente, as coisas iam mal para o povão, inclusive para a parcela que dependia da indústria do gado e couro. Os filhos da puta da casa-grande se viravam porque lá se produzia de tudo, eram autossustentáveis por causa dos escravos. O governo tinha que cobrar impostos pra sobreviver, e a inflação trouxe uma miséria absurda pro povão, que passava fome. Esse caos gerou diversas revoltas de Norte a Sul do país.

(Uai, essa descrição poderia se parecer com o momento atual... não fosse a passividade do povão na miséria sem se revoltar... mas naquela época não havia tanta ferramenta de manipulação e lavagem cerebral como hoje... na época os revoltosos sequestraram e mataram os caras das casas-grandes como diz a nota 82...)

---

Enfim, repito, a leitura deste livro de pouco em pouco se parece com uma série de documentário sobre a desgraceira que somos por causa desses caras da casa-grande, do agro "pop" etc.

Seguimos vendo o Brasil em capítulos, ontem e hoje, as merdas de ontem se parecem tanto com as de hoje que dá até enjoo...

William


Clique aqui para ler os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


domingo, 24 de julho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XVI)

Quarta parte

Economia de transição para o trabalho assalariado (século XIX)

XVI. O Maranhão e a falsa euforia da época colonial

Sobre os últimos 25 anos do século XVIII:

Celso Furtado inicia a 4ª parte de seu "esboço" explicando que havia 3 centros econômicos relevantes na colônia, um no Nordeste, outro na região Centro-Sul do país e o Maranhão:

"Os três principais centros econômicos - a faixa açucareira, a região mineira e o Maranhão - se interligavam, se bem que de maneira fluida e imprecisa, através do extenso hinterland pecuário." (p. 96)

ALGODÃO E ARROZ DO MARANHÃO

Furtado nos conta que esse período foi bom para a região porque Pombal investiu nos colonos locais, e como as guerras de independência das colônias inglesas na América do Norte interromperam o fluxo comercial de arroz e algodão no mercado internacional, o Maranhão viveu um boom de exportação desses produtos tropicais.

---

DECADÊNCIA INTERNA DA COLÔNIA COMPENSADA PELA VINDA DA COROA

O final do século XVIII e início do XIX foi de depressão nos sistemas econômicos de açúcar e minerais. A vinda da coroa portuguesa foi um fator político que alterou a situação de alguma forma.

"O último quartel do século XVIII e os primeiros dois decênios do seguinte estão marcados por uma série de acontecimentos políticos que tiveram grandes repercussões nos mercados mundiais de produtos tropicais. O primeiro desses acontecimentos foi a guerra de independência dos EUA, a cujos reflexos indiretos na região maranhense já nos referimos. O segundo foi a Revolução Francesa e os subsequentes transtornos nas suas colônias produtoras de artigos tropicais. Por último vieram as guerras napoleônicas, o bloqueio e o contrabloqueio da Europa, e a desarticulação do vasto império espanhol da América." (p. 97)

HAITI

A revolução do meio milhão de escravos africanos que libertou o Haiti dos franceses foi um marco na época e acabou beneficiando a indústria do açúcar da colônia portuguesa.

Outros fatores que influenciaram os produtos tropicais brasileiros foram os processos de independências das colônias espanholas na América.

Essas benesses provisórias do mercado mundial só durariam um certo tempo e o Brasil se veria em dificuldades já nas primeiras décadas do século XIX.

"Entretanto, essa prosperidade era precária, fundando-se nas condições de anormalidade que prevaleciam no mercado mundial de produtos tropicais. Superada essa etapa, o Brasil encontraria sérias dificuldades nos primeiros decênios de vida como nação politicamente independente, para defender sua posição nos mercados dos produtos que tradicionalmente exportava."  (p. 97)

----------------

COMENTÁRIO

Pois é, o que mudou de lá pra cá?

Após algumas tentativas de industrializar o país nos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e no período recente de Lula e Dilma, o golpe de Estado em 2016 fez o país regredir aos primeiros séculos de colônia de exploração de produtos primários. Tudo igualzinho... mineração destruidora na região amazônica, assassinato dos povos originários, monoculturas devastadoras (hoje mecanizadas) em benefício de alguns filhos da puta do agro "pop" e em prejuízo de 200 milhões de pessoas brasileiras.

Que merda tudo isso!

Mas a luta segue porque enquanto há seres humanos, há história a ser feita no dia a dia. Amig@s leitores, vamos nos libertar de vez dessa porcaria de casa-grande brasileira e seguir construindo um futuro melhor para nós tod@s?

William


Leiam aqui os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XV)

Terceira parte

Economia escravista mineira (século XVIII)

XV. Regressão econômica e expansão da área de subsistência

Esse pequeno capítulo fecha a terceira parte do livro de Celso Furtado. As primeiras linhas do capítulo resumem o desfazimento do sistema de mineração dessa grande região que vai do litoral de São Paulo até o Mato Grosso, Sudeste e Centro-Oeste, sendo a área principal o Estado de Minas Gerais.

"Não se havendo criado nas regiões mineiras formas permanentes de atividades econômicas - à exceção de alguma agricultura de subsistência - era natural que, com o declínio da produção de ouro, viesse uma rápida e geral decadência. Na medida em que se reduzia a produção, as maiores empresas se iam descapitalizando e desagregando. A reposição da mão-de-obra escrava já não se podia fazer, e muitos empresários de lavras, com o tempo, se foram reduzindo a simples faiscadores. Dessa forma, a decadência se processava por uma lenta diminuição do capital aplicado no setor mineratório..." (p. 89)

Furtado diz que se os colonizadores daqui (invasores) tivessem optado por investir em algum tipo de industrialização e processos de manufaturas as coisas poderiam ser diferentes daquilo que ocorreu, uma imensidão continental com gente vivendo espalhada por meios básicos de subsistência. Citou como exemplo o ocorrido na Austrália:

"Houvesse a economia mineira se desdobrado num sistema mais complexo, e as reações seguramente teriam sido diversas. Na Austrália, três quartos de século depois, o desemprego causado pelo colapso da produção de ouro constituiu o ponto de partida da política protecionista que tornou possível a precoce industrialização desse país." (p. 89)

---

ATENÇÃO! OU NÓS OU ELES, OS FDP DO AGRO "POP"

Fecho o comentário do capítulo citando mais um trecho de Furtado que nos faz pensar nos desgraçados do agro "pop" que insistem em fazer do Brasil um pasto continental exportador de commodities em benefício deles próprios, uns milhares de sujeitos, em prejuízo de 210 milhões de brasileiros:

"A necessidade de absorver o enorme excedente de mão-de-obra que se foi criando na medida em que diminuiu a produção de ouro - problema tanto mais grave quanto os setores lanífero e agrícola haviam introduzido técnicas poupadoras de mão-de-obra no período anterior para poder subsistir - contribuiu para formar no Estado de Vitória uma consciência clara de que só a industrialização poderia resolver o problema estrutural da região..." (p. 89)

E VEJAM O QUE SERIA DA AUSTRÁLIA SE LÁ PREVALECESSE AS IDEIAS LIBERAIS DOS CARAS DO AGRO "POP":

"Tivesse o país permanecido sob a influência exclusiva dos grupos exportadores de lã, e a predominância das ideias liberais teria impedido qualquer política de industrialização por essa época." (p. 90)

Furtado termina o capítulo explicando as consequências da desarticulação do sistema de mineração no Brasil. O povão vai se espalhar e produzir em regime de subsistência.

"Em nenhuma parte do continente americano houve um caso de involução tão rápida e tão completa de um sistema econômico constituído por população principalmente de origem europeia." (p. 90)

---

É isso. Por mais triste que tudo possa parecer hoje num país destruído pelo golpe de 2016 e dominado pelo crime organizado desde o governo até os órgãos do Estado, acho importante conhecer a história, a nossa história nesse caso.

William


Leiam aqui os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.


sábado, 25 de junho de 2022

Formação Econômica do Brasil - Celso Furtado (XIV)

Terceira parte

Economia escravista mineira (século XVIII)

XIV. Fluxo de renda

Ehh, amig@s leitores... é difícil não se indignar e não se incomodar ao ler nossa história de exploração brasileira em benefício dos países do Norte, em benefício de portugueses, ingleses e outros tipos... foram séculos de uso de nossas riquezas para construir toda aquela riqueza europeia que a elite vira-latas daqui vai lá pra pagar pau em passeios de férias... belas construções, muito ouro em tudo, muita fartura e cultura, tudo à base de séculos de espoliação de nossas riquezas brasileiras e sul-americanas. Que merda tudo isso!

E após cinco séculos, após o golpe de Estado em 2016, a volta ao mesmo início, aos mesmos vícios de origem... viramos um pasto continental para enviar commodities pra encher as burras de poucos filhos da puta daqui, tipo os latifundiários do agro "pop", e alimentar os porcos, peixes e animais de outros países com a nossa ração... bem-estar pra eles e miséria pra nós... caraca! Que foda!

---

Algumas citações do capítulo desse "esboço" de Furtado, como ele diz na introdução, servem pra ilustrar o que comentei acima...

No começo do capítulo, Furtado explica que a economia mineira (de mineração) trazia alguns benefícios internos melhores do que a economia açucareira trazia. A renda média era menor, mas ela estava menos concentrada. No entanto, a criação de uma economia interna era dificultada pela falta de capacidade técnica de mão de obra para produzir manufaturas aqui. Éramos ignorantes nas técnicas manufatureiras...

- "Se se tem em conta que a população livre da região mineira não seria inferior, por essa época, a 300 mil pessoas, se depreende que a renda média era substancialmente inferior à que conhecera a economia açucareira na sua etapa de grande prosperidade." (p. 84)

- "Por outro lado - e isto constitui o aspecto principal do problema - a renda estava muito menos concentrada, porquanto a proporção da população livre era muito maior." (idem)

- "Por último, a grande distância existente entre a região mineira e os portos contribuía para encarecer relativamente os artigos importados. Esse conjunto de circunstâncias tornava a região mineira muito mais propícia ao desenvolvimento de atividades ligadas ao mercado interno do que havia sido até então a região açucareira." (idem)

- "Entretanto, o decreto de 1785 proibindo qualquer atividade manufatureira não parece haver suscitado grande reação, sendo mais ou menos evidente que o desenvolvimento manufatureiro havia sido praticamente nulo em todo o período anterior de prosperidade e decadência da economia mineira. A causa principal possivelmente foi a própria incapacidade técnica dos imigrantes para iniciar atividades manufatureiras numa escala ponderável." (idem)

Uma das poucas áreas que teve algum processo de manufatura interna foi na área da metalurgia porque os escravos africanos conheciam a técnica da produção de ferraduras, por exemplo.

- "Exemplo claro disso é o ocorrido com a metalurgia do ferro. Sendo grande a procura desse metal numa região onde os animais ferrados existiam por dezenas de milhares - para citar o caso de um só artigo - e sendo tão abundantes o minério de ferro e o carvão vegetal, o desenvolvimento que teve a siderurgia foi o possibilitado pelos conhecimentos técnicos dos escravos africanos." (p. 85)

O OURO PRA ENCHER AS BURRAS DOS INGLESES

Como já dito em outro capítulo, a extração de ouro no Brasil serviu para encher os cofres dos bancos ingleses, só.

Através de acordos (Methuen), portugueses e ingleses comercializavam vinhos e tecidos, com enorme déficit para os portugueses, lógico. A diferença foi paga com todo o ouro que se extraiu do Brasil. Ficaram os portugueses sem desenvolver indústria alguma, sem produtos com valor agregado, e o Brasil seguiu nessa toada para sempre...

- "Ora, cabe ao ouro do Brasil uma boa parte da responsabilidade pelo grande atraso relativo que, no processo de desenvolvimento econômico da Europa, teve Portugal naquele século (...) Houvesse Portugal acumulado alguma técnica manufatureira, e a mesma ter-se-ia transferido ao Brasil, malgrado disposições legislativas em contrário, como ocorreu nos EUA." (p. 85)

E, por fim, viramos pasto da potência da época, a Inglaterra... (hoje, somos pasto do mundo todo, enquanto a fome, a miséria e o atraso imperam por aqui)

"A inexistência desse núcleo manufatureiro, na etapa em que se transformam as técnicas de produção no último quartel do século, é que valeu a Portugal transformar-se numa dependência agrícola da Inglaterra." (p. 87)

Mudaremos isso algum dia?

William


Leiam aqui os comentários do capítulo seguinte.


Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Grandes nomes do pensamento brasileiro. 27ª ed. - São Paulo. Companhia Editora Nacional: Publifolha, 2000.