Mostrando postagens com marcador Antônio Houaiss. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antônio Houaiss. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A alucinação de Ulisses - Joseph Strick



Refeição Cultural

O filme de Joseph Strick - A alucinação de Ulisses (1967) é uma adaptação para o cinema do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Gostei demais do filme por ver na tela o resultado do esforço de Strick em ser fiel à obra.

Li o livro de Joyce pela primeira vez em 2002, numa tradução de Antônio Houaiss. Foi uma façanha e tanto para mim à época. Reli o clássico neste ano pandêmico, agora na versão traduzida por Caetano Galindo. Minha compreensão da obra foi bem melhor desta vez, talvez por ser duas décadas mais vivido que antes.

Ao assistir ao filme, eu não esperava uma adaptação tão esforçada em ser fiel ao livro. Em geral, diretores e roteiristas fazem versões bem diferentes do texto original.

Gostei das interpretações de Milo O'Shea como Leopold Bloom, Barbara Jefford como Molly Bloom e Maurice Roeves como Stephen Dedalus.

O filme é rodado em preto e branco. As imagens e cenários nos transportam para o cenário da Dublin de Bloom e Joyce nos anos vinte. Me identifiquei com o filme desde o primeiro minuto ao ver a cena da torre que abre a estória.

Depois vemos diversas cenas muito legais. Para quem leu a obra a identificação é imediata. O enterro de Dignam, as cenas na praia - tanto do monólogo de Dedalus no início, quanto de Bloom e a menina "coxa" no final do dia -, "coxa" como diz o personagem e nosso Brás Cubas (a respeito de Eugênia).

E o fechamento com o monólogo de Molly Bloom: é demais!

Adorei o filme! Filme para rever!

---

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM (1977)

A adaptação para o cinema do romance sobre o jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce, livro lançado em 1916, anterior ao romance Ulysses, também foi bem fiel à obra. Gostei.

Rodado na Irlanda, o filme nos leva ao cenário descrito por Joyce. 

A cena da palmatória no jovem Dedalus nos revolta, uma violência absurda enquanto regra educacional e mais absurda ainda por ser aplicada de forma injusta ao garoto por causa de seus óculos quebrados, razão para não fazer as lições e com autorização do professor em sala de aula. Mesmo assim, foi punido pelo carrasco...

---

Praticamente completei meu percurso com James Joyce. Não pretendo ler Finnegans Wake. Tenho muita coisa na frente para ler e acho que não volto ao escritor para essa tentativa de leitura, até porque sei que a obra é maluca demais para essa fase que estou de leituras na vida. 

Os filmes foram verdadeiros achados (em casa!) porque os comprei faz muito tempo e nem me lembrava direito que tinha filmes baseados na obra de Joyce.

Enfim, seguimos lendo e vendo adaptações para o cinema e televisão de clássicos literários.

William


1. Postagem final sobre a leitura de Ulysses, na tradução de Galindo. Clique aqui.

2. Postagem sobre a leitura de Retrato do artista quando jovem. Clique aqui.

3. Postagem sobre a leitura do Ulisses, na tradução de Houaiss. Clique aqui.


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Ulysses - Penélope (A Cama)



Refeição Cultural

"(...) aí ele não ia acreditar no outro dia que a gente não fez alguma coisa marido tudo bem mas amante não dá pra enganar depois de eu dizer pra ele que a gente não faz mais nada claro que ele não acreditou..." (p. 1052)


Quinta-feira, 30 de setembro. Segundo ano da pandemia mundial de Covid. 

Terminei a releitura de Ulysses (1922), do escritor irlandês James Joyce. Essa experiência foi feita numa edição publicada em 2012, traduzida por Caetano W. Galindo. Foi presente do amigo Sérgio Gouveia.

A primeira vez que li este clássico da literatura mundial foi em 2001. Desta vez, a leitura foi bem melhor, aproveitei mais cada capítulo do livro. Mas foi cansativo, confesso. Foram 5 meses! Comecei a ler a obra dia 1º de maio, dia dos obreiros (rsrs). Não terminei a leitura pedindo mais. Terminei com um sentimento de missão cumprida.

PENÉLOPE (A CAMA) - CAPÍTULO 18

O último capítulo é demais, é um feito na história da literatura de todos os tempos. Setenta páginas em fluxo de pensamento, sem pontuação, a transcrição de uma pessoa pensando livremente madrugada afora, Marion Bloom, Molly. 

Por ser um monólogo interior, não tem censuras. E então lemos as coisas mais surpreendentes, escandalosas, livres que poderíamos imaginar em páginas de um livro de literatura.

Ler hoje é surpreendente, então imagino ler os pensamentos de Molly em 1922. Não à toa, há registros da época de queima de volumes do livro em alguns lugares do mundo.

"(...) ia ser muito melhor pro mundo ser governado pelas mulheres do mundo você não ia ver as mulheres saírem se matando e chacinando quando é que a gente vê uma mulher rolando por aí de bêbada que nem eles fazem ou jogando a última moedinha que têm e perdendo nos cavalos sim porque uma mulher não importa o que ela faça ela sabe quando parar claro que eles nem iam estar no mundo se não fosse a gente eles não sabem o que é ser mulher e ser mãe e como é que eles iam saber onde é que eles iam estar todos se não tivessem todos eles uma mãe pra cuidar deles..." (p. 1099)

Além de ser uma personagem livre em todos os seus atos e pensamentos, Molly pensa nas grandes questões de gênero que já se discutiam e que seriam bandeiras importantes nas lutas das causas das mulheres e dos movimentos libertários e progressistas.

------------

COMENTÁRIO FINAL

Essa releitura foi muito interessante. Por mais que tenhamos alguma lembrança de uma leitura feita duas décadas antes, a leitura de Ulysses foi praticamente uma leitura nova. O leitor de 52 anos é absolutamente outro leitor que aquele de 32 anos.

A tradução de Caetano W. Galindo também é muito diferente da tradução do Antônio Houaiss, edição que li na primeira vez. São diferentes, não me cabe dizer que uma é melhor que a outra.

Outro salto de qualidade nesta leitura foi aproveitar a oportunidade para ler em versos a obra referência do Ulysses de Joyce, a Odisseia de Homero. Li a tradução ("transcriação" segundo Campos) do maranhense Manuel Odorico Mendes, numa edição especial do professor Antonio Medina.

Também reli contos de Dublinenses (1914) e finalmente li Retrato do artista quando jovem (1916), a obra que introduz o personagem Stephen Dedalus, ainda jovem. Muitos críticos consideram tanto Dedalus quanto Bloom alter egos de Joyce.

SEGUIMOS LENDO OS CLÁSSICOS

Enfim, mais um clássico lido durante esta pandemia mundial de Covid. Li alguns clássicos exigentes neste ano e meio: ao Ulysses, de Joyce, somam-se: Decamerão (1353), de Boccaccio; Moby Dick (1851), de Herman Melville; O processo (1925), de Franz Kafka; e Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert.

Com o mundo como está, afirmo e reafirmo com muita convicção o pensamento de Italo Calvino: é melhor ler do que não ler os clássicos.

William

Um leitor


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sábado, 25 de setembro de 2021

250921 - Diário e reflexões


Vivi muitas histórias aqui na Letras-FFLCH.


Refeição Cultural

Sábado, 25 de setembro.

Que tenho a registrar nesta página de blog?

LITERATURA

Estou terminando a releitura do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Li a obra pela primeira vez duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. A leitura foi difícil. Comecei diversas vezes e recomecei a leitura por não entender nada. Desta vez, estou relendo uma edição traduzida por Caetano W. Galindo, presente do amigo Sérgio Gouveia. Cheguei ao último capítulo, o monólogo interior de Molly Bloom. Agora meu entendimento da obra foi bem melhor. 

De novidade, li também o livro sobre o personagem Stephen Dedalus, Retrato do artista quando jovem (1916), publicado antes de Ulysses. Quando terminar a leitura, vou ver os dois filmes que tenho em casa e considero que minha missão com James Joyce estará concluída. Não pretendo ler Finnegans Wake (1939). O livro de contos de estreia do autor irlandês - Dublinenses (1914) -, já li várias vezes alguns dos contos.

Vi hoje uma entrevista muito esclarecedora com o professor Caetano Galindo, tradutor da edição que estou lendo. Ele fala sobre Joyce e Shakespeare. Muito interessante!

---

LETRAS NA FFLCH-USP

Após vinte anos, vai chegando ao fim a minha relação formal com a Universidade de São Paulo. Entrei na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas no vestibular de 2000 e comecei o curso de bacharel em Português e Espanhol em 2001. Quando entrei minha vida era uma, meu projeto era ser professor, mas "no meio do caminho tinha uma pedra..." e de repente as veredas do grande sertão vida me levaram para outros destinos. Virei dirigente sindical no ano seguinte e a prioridade em minha agenda passou a ser as lutas dos trabalhadores. 

Após uma década tentando fazer as matérias obrigatórias, achei que havia concluído os créditos necessários ao bacharelado nas duas disciplinas. Fui trabalhar em Brasília. Voltei para São Paulo em 2018 e fui pedir minha colação de grau e meu diploma. Descobri que faltava fazer uma matéria obrigatória na grade curricular de minha época e precisei retornar ao curso e fazer mais dois anos de matérias pela grade atual e, quase quarenta créditos depois, concluí o percurso e me parece que agora chegou a hora de colar grau e pegar o diploma de bacharel para guardar em casa.

Confesso que ao perceber nesta semana o fim de meu cadastro nos sistemas da USP fiquei meio deprimido, senti um vazio dentro de mim, algo estranho. Acho que sempre senti um amor profundo pela Universidade, queria ser professor lá. A vida caminhou diferente. É isso. Vou sentir falta de ser "da USP".

---

TODO CAMBIA (TUDO MUDA)

Andei refletindo a respeito de mudanças. Como nos lembra Mercedes Sosa: "Todo cambia". As veredas de minha vida me exigiram muitas mudanças e isso deve ter influenciado quem sou e o que sou porque somos hoje o resultado de todo o percurso que já fizemos.

Mudei de São Paulo aos 10 anos. Depois mudei de Minas Gerais aos 17 anos. Até os 30 anos de idade, precisei mudar do local onde vivia quase todo ano (contei na memória 10 mudanças!). Isso me fez sofrer muito. Morei em cada lugar... 

Ter que sair de um lugar logo que se adapta a ele é foda! E alguns lugares eram terríveis, tanto que tenho uma relação ruim com baratas por isso. Dia desses, ouvi a excelente entrevista do Mano Brown com Lula. Mano Brown, eu sei o que é morar num quintal com um monte de casas e um banheirinho em comum... é foda!

A mudança para Brasília por 4 anos foi uma situação difícil para minha família. As pessoas acabam tendo que viver a vida dos outros e as consequências vêm. A volta para São Paulo foi difícil também por causa do contexto no qual as coisas se deram. Três anos depois, ainda não consegui me ver livre dessa mudança inacabada. Juntou um monte de coisas. Para dar algum conforto aos que sofreram por minha causa, acabei deixando coisas inacabadas. 

Para tornar as coisas mais difíceis, vieram as mudanças radicais no nosso mundo, o golpe de Estado, a ascensão do Mal, a destruição de tudo.

---

Fim das reflexões. Preciso providenciar a papelada pedida pela USP para concluir essa relação de amor que tive com a nossa querida FFLCH. Saio da Universidade aos 52 anos de idade, mas acho que a Universidade nunca vai sair de mim. Tenho muito amor pela USP, pela FFLCH, pelas Letras e pela educação.

William


terça-feira, 10 de agosto de 2021

Retrato do artista quando jovem, James Joyce



Refeição Cultural

De maneiras distintas, planejadas ou por acaso, as leituras diárias de livros seguem acontecendo em minha vida, felizmente. Terminei a leitura de Retrato do artista quando jovem (1916), do escritor irlandês James Joyce.

Este livro não estava em meus planos de leitura atual. A edição que tenho estava lá, quietinha na estante, comprada em um sebo por 7 reais há muito tempo. Aí um amigo me convidou para lermos juntos Ulisses (1922). Eu havia lido esse clássico duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. Topei reler o clássico joyceano. (Houaiss adotou o nome com "i" e Galindo com "y")

Meu amigo Sérgio Gouveia me deu de presente a bela edição de Ulysses, traduzida por Caetano Galindo. Começamos a ler a obra, mas como usa acontecer na leitura por prazer, às vezes as questões do cotidiano de vida nos pegam pelo caminho e não conseguimos seguir na leitura. Comigo já aconteceu isso dezenas de vezes.

Meu amigo não está conseguindo se dedicar no momento à leitura do Ulysses e com isso vou avaliar se sigo adiante ou não. Já li mais de 400 páginas da edição e provavelmente vou terminar a leitura.

Da releitura de Ulysses (uma leitura gera outras), reli alguns contos de Dublinenses (1914) e acabei pegando o livro que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, personagem no Ulysses de Joyce que representa Telêmaco, filho do herói Ulisses, da Odisseia de Homero, obra referência para o clássico joyceano. Leopold Bloom e Molly Bloom completam o trio moderno na reinterpretação da odisseia grega.

STEPHEN DEDALUS, ALTER EGO DE JOYCE

"- Olha aqui, Cranly - disse ele. - Tu me perguntaste o que eu faria e o que eu não faria. Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza." (p. 244)

Aí está uma coisa que realmente Joyce decidiu fazer na vida e fez: exprimiu-se de modo tão inovador e tão livremente em relação à arte literária que produziu romances com técnicas e linguagens que marcaram a literatura mundial a partir dos anos vinte do século passado.

Como disse no início da postagem, seja de forma planejada ou por acaso, da sugestão de releitura do Ulysses, acabei lendo a Odisseia em versos. Da Odisseia, li 3 clássicos gregos - Prometeu Acorrentado, Édipo Rei e Antígona. E finalmente conheci o romance - Retrato do artista quando jovem - que apresenta o jovem Dedalus, uma espécie de alter ego do próprio autor.

Seguimos lendo e buscando na cultura alguma satisfação nesse momento existencial de tanta tragédia como vivemos no Brasil, destruído por um golpe de Estado em 2016, golpe tão devastador ou mais que os efeitos da pandemia mundial de Covid. Após Temer e Bolsonaro, é como se o país tivesse sido queimado e jogado sal para que nada mais voltasse a germinar um dia. 

Espero que possamos recomeçar após a passagem desse mal no Brasil, mal causado pelo capitalismo e pelo imperialismo, mal que destruiu o nosso mundo, matou o nosso povo e tirou de nós as condições de nos refazermos para o futuro.

William



Post Scriptum (30/10/21): assisti ontem ao filme Retrato do artista quando jovem (1977), de Joseph Strick, uma adaptação ao livro de Joyce. Enfim, começo a ler e ver as diversas obras adquiridas décadas atrás e guardadas em casa. A adaptação do diretor foi bem fiel ao livro, não foi uma daquelas adaptações psicodélicas que alguns diretores fazem de obras clássicas. Novamente, causou revolta as cenas de violência contra alunos por parte do sistema educacional: ajoelhar no meio da sala, espancar as crianças com palmatória etc. Outra coisa que me chamou atenção são as cenas de pregações de religiosos aterrorizando fiéis a respeito dos pecados, dos mandos de deus e dos martírios eternos do inferno. Que foda isso! Eu me lembro perfeitamente disso em minha infância e adolescência como jovem que acreditava nessas abstrações humanas. E pensar que isso move o mundo e as sociedades desde que o homo sapiens é homo sapiens...


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Retrato do artista quando jovem - James Joyce



Refeição Cultural

"   - Podem voltar para os seus lugares, vocês dois.

     Fleming e Stephen ergueram-se, encaminhando-se para os seus bancos, e se sentaram. Stephen, rubro de vergonha, abriu correndo um livro com a mão fraca e se inclinou sobre ele, a face bem perto da página.

     Era injusto e cruel, porque o médico lhe havia dito para não ler sem os óculos! E ele já escrevera para casa, aquela manhã mesmo, para que lhe mandassem um outro par. E o Pe. Arnall tinha dito que ele não precisava estudar até que os novos vidros chegassem. Portanto, ter sido chamado de fingido diante da classe, e ter apanhado de palmatória quando sempre tirava o cartão de primeiro ou de segundo e era o chefe dos Iorkistas! Como podia o prefeito dos estudos saber que era patranha? Tinha sentido os dedos do prefeito tocarem-no quando apresentara a mão; até cuidara que lhe ia apertar as mãos num cumprimento, pois os dedos do prefeito estavam macios e firmes; mas depois, logo depois, tinha ouvido o zunido da manga da batina e a pancada. Fora crueldade, e não fora nada bonito fazê-lo ajoelhar no meio da classe, depois; e o Pe. Arnall dissera a ambos que podiam voltar para os seus lugares, sem fazer nenhuma distinção entre eles..." (JOYCE, 1987, p. 62/63)


A cena descreve o jovem Stephen Dedalus sendo castigado com a palmatória no colégio sem ter feito nada de errado. Ao castigarem outro garoto aproveitaram para castigar ele também, por escolha aleatória, porque estava sem óculos durante uma lição em sala de aula. Antes dessa cena, lemos outra descrevendo o açoite dos garotos com palmatória. É nojento e cruel saber que isso era a norma nas escolas de outras épocas.

Stephen Dedalus é uma espécie de alter ego de James Joyce, que enfrentou sérios problemas de visão em sua vida. Neste primeiro capítulo do livro, também vemos discussões entre irmãos (tios) na família de Stephen por causa de diferenças religiosas entre católicos e protestantes, algo muito presente na vida dos irlandeses.

Ao terminar a leitura dessa obra de Joyce, terei completado a trilogia dele mais significativa, na minha opinião. Já li diversas vezes os contos de Dublinenses (1914) e estou relendo o grande clássico Ulysses (1922), o qual havia lido duas décadas atrás. A experiência da leitura é outra, tanto porque sou outro quanto porque as traduções são diferentes, primeiro li a de Houaiss e agora leio a de Galindo. Retrato do artista quando jovem é intermediário aos dois, lançado em 1916. A tradução é de José Geraldo Vieira.

Estou terminando a leitura em versos da Odisseia, de Homero, obra referência de Joyce para a odisseia de Leopold Bloom por Dublin, em Ulysses. Stephen Dedalus, personagem que leio no Retrato, é o mesmo Dedalus da epopeia joyceana pela Dublin do dia 16 de junho de 1904.

É isso, seguimos lendo e buscando conhecimento e cultura para que suportemos com resiliência o Mal e tenhamos resistência para viver, mesmo que tristes, por causa da realidade que enfrentamos no Brasil pós golpe da casa-grande e pós predomínio da banalidade do mal com o bolsonarismo e a destruição do Estado nacional e das instituições do país.

Quero sobreviver mais um pouco porque ainda tenho pessoas que dependem de mim. Estudar, ler e escrever são tarefas revolucionárias em tempos de ignorância, apagamento da história das lutas da classe trabalhadora e predomínio da pós-verdade por parte dos capitalistas e seus ideólogos e lacaios.

Resistir!

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

Bloomsday, 16 de junho



Refeição Cultural

Hoje é quarta-feira, 16 de junho. Essa data é considerada o Bloomsday para os irlandeses e para o mundo da cultura e da leitura também. A epopeia do personagem Leopold Bloom pela Dublin de 1904 se passa numa quinta-feira, 16 de junho.

Sou um dos leitores do mundo que teve a oportunidade de ler o romance Ulisses, de James Joyce. Na época, li uma edição com tradução de Antônio Houaiss. Li quando tinha pouco mais de trinta anos de idade. A leitura foi difícil, foi exigente, pois a linguagem literária é bastante experimental. Foi um feito em minha modesta vida de leitor.

Agora, após os cinquenta anos de idade, estou relendo Ulysses, desta vez numa tradução diferente, de Caetano W. Galindo. A leitura se dá em um contexto interessante. Meu amigo Sérgio Gouveia decidiu ler a obra e me convidou para lermos juntos. Legal a ideia! 

Como no meio do caminho tinha uma pedra, ainda não conseguimos sintonizar a leitura. Eu acabei lendo muito rápido no começo e agora vou mais devagar. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, vamos de boa, curtindo cada momento do dia de Leopold Bloom (Bloomsday).

Eu já estou nos acontecimentos das 14 horas, "Cila e Caríbdis". Li até agora os capítulos "Telêmaco" (8h), "Nestor" (10h), "Proteu" (11h), "Calipso" (8h), "Lotófagos" (10h), "Hades" (11h), "Éolo" (12h), "Lestrigões" (13h). Joyce faz um esquema do Ulysses com diversas características em cada capítulo. Ver aqui a postagem mais recente.

ODISSEIA (HOMERO)

Uma estratégia bem interessante que adotei desta vez ao ler a epopeia de Leopold Bloom pela Dublin de 1904 foi ler ao mesmo tempo a Odisseia, em versos, de Homero. Eu só tinha lido em prosa a epopeia de Odisseu (Ulisses é o nome latinizado de Odisseu). Joyce cria sua epopeia moderna fazendo paralelos com a epopeia clássica de Homero.

Enfim, se não fosse a leitura, a literatura, a cultura, eu não sei como conseguiria lidar com esses dias que estamos enfrentando no Brasil, um país destruído após um golpe de Estado e dominado pela banalidade do mal.

Amigas e amigos leitores, se puderem, leiam diariamente, incluam momentos de leitura em suas vidas. Vocês estarão fazendo um bem para si mesmos e também estarão salvando a humanidade, e a parte da humanidade com cultura pode salvar o planeta Terra e todas as formas de vida.

William

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Ulysses - Éolo (O Jornal)



Refeição Cultural

"As máquinas tilintavam em compasso três por quatro. Prensando, prensando, prensando. Agora se ele ficasse paralisado ali e ninguém soubesse como parar aquelas prensas elas iam continuar tilintando sem nem dar por isso, imprimir e comprimir e oprimir e deprimir. Bagunçar a coisa toda. Precisa ter cabeça fria." (JOYCE, 2012, p. 250)


Mais um capítulo vencido do clássico Ulysses, de James Joyce. Li o capítulo 7 e me aproximo da página 300 da minha edição com tradução de Caetano W. Galindo. Estou lendo bem concentrado e meu entendimento está sendo muito bom, bem melhor que da outra vez que li duas décadas antes.

Acho que as estratégias adotadas pelo tradutor Galindo facilitaram a leitura do romance em nossa língua. A leitura que fiz anteriormente foi na tradução de Antônio Houaiss e tive muita dificuldade de compreensão. Deixo bem claro que a experiência do leitor pesa bastante também, eu sou outro, minha bagagem é outra ao ler agora e aos trinta anos de idade.

A verdade é que desta vez eu consigo descrever o que li até agora, o andar do romance nos sete capítulos que li. Ao olhar o esquema da obra feito pelo próprio Joyce, o quadro esquemático, fica mais claro ainda. 

Sobre este capítulo "Éolo" cujo cenário é o jornal, o quadro esquemático diz que a "arte" é a "retórica" e isso fica bem claro ao ler os diálogos e pensamentos e eventos que acontecem no cenário.

É necessário ter atenção para ler o romance porque os fluxos de pensamento estão o tempo todo no meio das frases que não são diálogos. Tem que se atentar para isso. Inclusive para perceber quem está pensando no fluxo de pensamento.

Enfim, seguimos avançando na epopeia joyceana pela Dublin de antigamente, no dia 16 de junho de 1904. 

Será que consigo acabar a leitura até o "Bloomsday"? (difícil, tenho 800 páginas pela frente...)

Abraços, amig@s leitores.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sábado, 25 de agosto de 2012

Ulisses – James Joyce


Minhas edições de Joyce.

ULISSES – JAMES JOYCE

CLÁSSICO IRLANDÊS de 1922

Li esta obra única em estilo e novidade literária faz dez anos. Foi uma leitura difícil e ela exigiu engajamento do leitor.

Cheguei a começar e parar várias vezes e cheguei a ler até lá pela página trezentos e depois voltei para entrar no ritmo adequado da leitura e seguir até o fim.

Já fiz isso com outras obras de leitura exigente como Os lusíadas e Dom Quixote de la Mancha.

A versão que li e tenho é aquela traduzida décadas atrás pelo filólogo Antônio Houaiss. Confesso que fiquei muito curioso para ler as duas versões novas que existem, feitas por literatos.

ESTILO – ATENÇÃO A QUEM FALA OU PENSA

Dias atrás reli o primeiro capítulo e hoje reli o segundo. A leitura exige muita atenção porque ela reveza discurso direto com discurso indireto livre o tempo todo. Quando não há diálogos, há fluxo de pensamento, ora de um dos personagens, ora do autor demiurgo. Você leitor tem que saber quem está falando ou pensando.

QUADRO ESQUEMÁTICO DA OBRA

Joyce, e a tradução de Houaiss, divide a obra em três partes:

I – Telemaquia
II – Odisseia
III – Nostos

Além da divisão em partes, há um quadro com divisões em:

Episódios (18), Cenas, Horas, Órgão, Arte, Cor, Símbolo, Técnica e o número da Página.

EPISÓDIO I

“Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha. Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã. Elevou o vaso e entoou:

- Introito ad altare Dei.

Parando, perscrutou a escura escada espiral e chamou àsperamente:

- Suba, Kinch. Suba, jesuíta execrável.

Prosseguiu solenemente e galgou a plataforma de tiro. Encarando-os, abençoou grave três vezes a torre, o campo circunjacente e as montanhas no despertar. Então, percebendo Stephen Dedalus, inclinou-se para ele, traçando no ar rápidas cruzes, com grugulhos guturais e meneios de cabeça. Stephen Dedalus, enfarado e sonolento, apoiava os braços sobre o topo do corrimão e olhava friamente a meneante cara grugulhante que o bendizia, equina de comprimento, e a cabeleira clara não tosada, estriada e matizada como carvalho pálido.

(...)” (JOYCE, 1983, p. 9)

Aqui já percebemos o espaço inicial da obra. A torre, a visão da baía lá embaixo e os campos ao redor.

Pela hora do dia temos por volta de 8 horas da manhã.

“Subiu ao parapeito de novo e mirou para a baía de Dublin, os louros cabelos carvalho-pálido agitando-se de leve.

(...)

Stephen subiu e aproximou-se do parapeito. Apoiando-se neste olhava para as águas e para o barco-correio surgindo na boca da angra de Kingstown.

(...)” (p. 12)

Neste primeiro episódio, descobrimos que Stephen carrega lembranças da morte da mãe, que penou em um leito de morte, e cujo pedido final não foi atendido pelo filho (rezar por ela):

“- Você podia ter-se ajoelhado, que diabo, Kinch, quando sua mãe lhe pediu isso moribunda – Buck Mulligan dizia. – Sou tão hiberbóreo quanto você. Mas imaginar sua mãe suplicando-lhe no seu último alento que você se ajoelhasse e rezasse por ela. E você recusar. Há alguma coisa de sinistro em você...” (p. 12)

CRÍTICAS EXPRESSAS NA OBRA

Aos irlandeses (Buck Mulligan, ao provar leite puro servido por uma anciã):

“- Se ao menos pudéssemos viver de bom alimento como este – dizia-lhe ele, algo gritado – não estaríamos com o país cheio de dentes cariados e de intestinos podres. Vivendo num pântano de lama, comendo alimentos ordinários e com as ruas cobertas de poeira, de bosta de cavalo e escarros de étegos.” (p. 22)

Aos judeus:

“- Sou um britânico, é verdade – dizia a voz de Haines – e isso me sinto. Nem quero ver minha terra tombar nas mãos dos judeus alemães tampouco. E neste momento, creio, esse é o nosso problema nacional.” (p. 30)

O Episódio Primeiro ou Cena Um termina com Stephen Dedalus deixando-os (Buck Mulligan e Haines) na praia e indo para a escola.

PESQUISEI HISTÓRIA DOS JUDEUS

Ao reler o segundo episódio hoje, vi novamente forte crítica aos judeus e acabei me dedicando um pouco à questão judaica. Assisti ao documentário da Coleção Grandes Dias do Século XX – "Êxodo, nascimento de Israel".

Eu não havia assistido ainda ao vídeo e fiquei impressionado com a qualidade e as informações contidas ali. Além de ser quase uma hora com imagens originais em preto e branco dos anos quarenta, há informações que vão desde o fim da 2ª Guerra Mundial até a criação do Estado de Israel em 1948.

Cara, fiquei novamente pensando porque será que atualmente os judeus massacram os palestinos, já que eles deveriam pensar no que fizeram com eles no passado...

É isso, por enquanto.

Clique aqui para ler a parte dois de meus comentários sobre a obra Ulisses.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulisses. Tradução de Antônio Houaiss. São Paulo, Editora Abril, 1983.