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domingo, 19 de outubro de 2025

Instantes (15h36)



Refeição Cultural

LEITURAS


A leitura é um ato humano transformador. É uma das formas de transmissão de conhecimento e de educação. Todas as pessoas no mundo deveriam ter acesso a alfabetização e às diversas opções de meios de leitura. Tive o privilégio de ser um leitor desde muito pequeno. Porém, sei que não li quase nada ainda...

Quando garoto, lendo gibis, aprendi sobre as moscas tsé-tsé que causam a doença do sono. Há 50 anos, começava a ler e aprender...

Mais recentemente, ao ler o livro O verdadeiro criador de tudo, do neurocientista Miguel Nicolelis, compreendi melhor a vida e me livrei de vários questionamentos que fiz por décadas. 

Hoje, sei que muitas coisas são como são. Mas sei que somos sujeitos históricos e podemos mudar o mundo e criar novos mundos.

Leituras... aprendizados...

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ISAAC ASIMOV

"(...) O Sr. Daugherty diz que naqueles dias todos aprendiam a fazer os rabiscos quando eram crianças e como decifrar aquilo, também. Fazer rabiscos era chamado 'escrever' e decodificar os rabiscos 'ler'. Ele diz que havia uma espécie diferente de rabisco para cada palavra e eles costumavam escrever livros inteiros em rabiscos..." (ASIMOV, Isaac. "Um dia" in: Os melhores contos, 2018)


De minhas imensas lacunas culturais, infindáveis, Isaac Asimov era uma delas. Havia chegado a mais de meio século de existência sem ter lido um texto sequer do cientista e escritor.

Neste fim de semana li dois contos de Asimov. Ontem li "Um dia" e hoje "Amor verdadeiro". As estórias são incríveis! Gostei muito!

Seus contos nos apresentam personagens e cenários futurísticos meio impensáveis na vida cotidiana de meados do século passado. Uma máquina eletrônica que cria estórias para contar às crianças ou um computador pessoal inteligente que dialoga com o dono e busca para ele no mundo todo uma namorada ideal.

Perceberam o quanto ele antecipou o que qualquer pessoa tem hoje com essas geringonças de IA?

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GRACILIANO RAMOS

"Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação." (RAMOS, Graciliano. "Um cinturão" in: Infância, 1995)


Graciliano Ramos é um dos mestres da literatura brasileira para mim, junto com Machado de Assis e João Guimarães Rosa. 

Minha edição do livro Infância (1945) me acompanha há décadas (ela é de 1995), já se mudou comido diversas vezes, e repousa na estante atual de casa.

Li nestes dias os primeiros textos do livro, podemos dizer capítulos, mas são textos independentes, poderíamos chamá-los também de contos porque têm início, meio e fim. Cada texto é uma viagem ao passado de todos nós que fomos crianças no Brasil do século passado.

Os textos são de uma riqueza impressionante! Leio um deles e paro. Aquelas cenas ficam comigo até a próxima leitura.

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MEMÓRIAS DE TODOS NÓS

As leituras devem ser feitas, temos que seguir lendo. Enquanto lemos, aprendemos, conhecemos os mundos, criamos novos mundos.

Até meu livro de Memórias, que está aos poucos indo parar em algumas estantes do mundo, já foi lido por algum leitor ou leitora, e eu mesmo fico relendo os capítulos para me certificar, talvez, de que tenha escrito algo que valesse a pena ser compartilhado.

Cada capítulo é um pequeno conto também, com início, meio e fim, uma lembrança de fazeres sindicais dos trabalhadores da categoria bancária. 

Sigamos lendo e nos esforçando para nos mantermos humanos. A leitura é um ato humano, de humanos e para humanos.

William

19/10/25

Domingo

domingo, 8 de junho de 2025

Livro: O Picapau Amarelo (1939) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- E agora, Visconde? Que fazer?

O Visconde coçou as palhinhas do pescoço. Não achou remédio. Os sábios são criaturas indecisas; não resolvem nada." (Monteiro Lobato, O Picapau Amarelo, p. 148)*


O Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens fizeram parte de minha infância de alguma forma, pelo que me lembro. Acho que assistia às aventuras de Pedrinho, Narizinho, a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa através da televisão nos anos oitenta. 

Ao pesquisar a respeito de qual série televisiva tive contato na infância, vi que foi a da adaptação da Rede Globo em parceria com a TVE e MEC, exibida entre os anos de 1977 e 1986, período no qual eu tinha entre 8 e 17 anos.

Os livros, contos ou textos políticos de Monteiro Lobato eu nunca tinha lido. Essa edição que li foi uma dessas que compramos em bancas de livros expostas em corredores de shopping center. Foram 15 reais bem investidos, na minha avaliação. O que se faz hoje com esse valor? Pode-se comprar um livro de Monteiro Lobato!

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FÁBULAS E FAZ DE CONTA ENTRE CRIANÇAS E ADULTOS

Ao ler os livros de fantasia e mundo do faz de conta das fábulas infantis e infanto-juvenis que fizeram parte da infância de muita gente e avaliar o que virou o mundo humano nas primeiras décadas do século XXI, mundo no qual grupos de pessoas põem celular na cabeça para contatar extraterrestres para salvá-los de uma suposta ditadura esquerdista no Brasil, fico pensativo sobre a condição lastimável da espécie humana neste momento da história. 

A fantasia e faz de conta atualmente dominam a mente de adultos como, por exemplo, aqueles seguidores de uma seita messiânica liderada por um certo clã de políticos de extrema-direita no país. 

Acho que são diferentes as fantasias e abstrações criadas na literatura e outras formas de cultura e as manipulações de massa feitas pelos donos do poder e suas máquinas com objetivos de ganhos pessoais em detrimento de prejudicar as massas manipuladas.

Ou seja, vamos ler mais literatura e acessar mais formas de cultura e ficar menos nas redes sociais cujas donas são as corporações chamadas big techs que hoje atuam para mudarem o comportamento de seus usuários de forma criminosa.

É minha opinião.

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PRODUÇÕES CULTURAIS RETRATAM OS MUNDOS

Uma questão do mundo atual que se discute em relação à produção de cultura de outras épocas é sobre as qualidades e defeitos dos criadores das produções culturais em suas épocas e contextos. Escritores e outros intelectuais das artes são seres sociais e são sujeitos de suas épocas.

A linguagem e formas de tratamento no livro de Monteiro Lobato, escrito em 1939 no Brasil, podem ser consideradas hoje inadequadas, racistas e preconceituosas. Este leitor que leu o livro agora em 2025 acha isso.

No entanto, as obras literárias e culturais ao longo da história humana retratam o mundo e a visão das pessoas daquele mundo em qualquer tempo e lugar. 

Óbvio que cada pessoa é diferente em uma determinada comunidade humana. O ser humano Monteiro Lobato em 1939 pode ser que tenha sido racista, xenófobo, misógino, elitista ou qualquer outra forma de avaliar comportamentos e ideias das pessoas em 2025.

No entanto, achar que só Monteiro Lobato ou só fulano ou cicrano usava a linguagem que o escritor usa para criar romances ficcionais na primeira metade do século XX no Brasil é tapar o sol com a peneira, ou seja, não considerar aquele mundo no qual vivia o escritor. 

É isso que penso após décadas de vivência e contato com a educação e formação política que tive a oportunidade de acessar como ser humano que já mudou radicalmente de opinião e visão de mundo por causa do contato com outros tipos de pensamentos nas suas mais diversas formas de apresentação aos outros.

Mais complicado para uma criança ou adolescente do que ler um romance de Monteiro Lobato com linguagem da época do Brasil da primeira metade do século XX é uma criança ou adolescente em 2025 conviver no meio de gente que põe celular na cabeça em grupo no meio da rua pedindo intervenção de extraterrestres por qualquer que seja o motivo. O exemplo que essas crianças estão recebendo de seus adultos vai ferrar geral o mundo no qual todos nós vivemos hoje e amanhã.

Vou ler mais Monteiro Lobato.

William


*Post Scriptum: ia me esquecendo. Por que usei a citação acima sobre os sábios que não resolvem nada? No instante que li, me lembrei na hora dos debates que tinha quando sindicalista e acadêmico a respeito das diferenças abissais entre a academia e o mundo sindical na hora de definir reivindicações, estratégias e táticas e soluções para os conflitos entre capital e trabalho. Os sindicalistas, mesmo acadêmicos ou com bagagem intelectual, têm uma diferença enorme em relação aos professores e intelectuais que tanto admiramos: na hora do conflito, da greve por exemplo, os sindicalistas estão com milhares de pessoas na busca de solução para aquele conflito real nas ruas e nos locais de trabalho, o ideal passa longe da solução para aquele conflito. Aprendi isso e respeito muito essa condição do sindicalista, que busca achar solução intermediária que seja decidida pelo conjunto de trabalhadores envolvidos. Via de regra, o acadêmico vai espinafrar a solução encontrada porque ela não leva ao socialismo ou à mudança de condição social etc. Muitas vezes, greves longas sem acordos intermediários acabam por só negociar os dias parados, sem avanço algum para os trabalhadores.


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Picapau Amarelo. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


sábado, 7 de junho de 2025

Instantes (14h56)



Refeição Cultural

Leituras que nos fazem pensar... 

O romance de ficção científica de Miguel Nicolelis me deixou muito pensativo nos últimos dias... até um relâmpago pela janela do banheiro me assustou! Pensei no cataclismo oriundo da tempestade solar, que já ocorreu em 1859 e pode ocorrer a qualquer momento. É por questões como essa que afirmo que a humanidade precisa salvar nosso conhecimento e cultura em meios físicos. Essas nuvens digitais onde armazenam a produção humana das últimas décadas são como as nuvens do céu... se desfazem com qualquer ventinho.

Monteiro Lobato, escritor e intelectual de seu tempo, é uma de minhas lacunas culturais. Meu consolo é saber que não adianta me martirizar por ter tido que gastar meu tempo de vida tentando sobreviver como um cidadão pobre num país miserável dominado por uma elite desgraçada e fdp. Até li alguma coisa em décadas de venda de meu corpo e minhas horas de vida. Lobato não tinha lido ainda. Estou lendo um de seus romances infanto-juvenis, de 1939. Nunca é tarde para adquirir cultura.

Peguei na portaria a excelente revista do Mino Carta e sua equipe e, cansado das desgraças distópicas da política, comecei a leitura pelo fim, pela seção Plural, que aborda temas culturais. 

Estou vendo os episódios da série The Last of Us... pesado o clima. O corpo fica em choque. No entanto, ler as notícias políticas do Brasil dominado por um parlamento como o nosso é o mesmo que assistir à narrativa de fim do mundo da ficção. Aqueles 450 fdp estão lá para acabar com o mundo. Resta saber quem será o último de nós. 

William 

07/06/25

sábado, 3 de maio de 2025

Livro: Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa



Refeição Cultural

"Sua mulher, Tia Liduína, então morreu, quase de repente, no entrecorte de um suspiro sem ai e uma ave-maria interrupta..." (Nada e a nossa condição, Rosa, p. 74)


Sabadão... eu indeciso se sigo lendo mais uns contos de Rosa, se me perco na política - meu tempo tá encurtando à jato (e já não apito nada) -, se pego firme na sistematização de meus textos de uma vida, ameaçados de inexistir nas nuvens inimigas. Dilemas de quem tem a noção do tempo indo.

Quisera eu, quando meu fim chegar, daqui a um minuto ou vinte anos, que fosse ao modo de dona Liduína. Sonho de consumo daqueles que sabem da morte como parte da vida.

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NADA E A NOSSA CONDIÇÃO

Eu fiquei pensando no nome do conto de Rosa... "Nada e a nossa condição".

No fim, o nada é algo que faz parte do todo. Os nadas fazem parte do todo. Eu sou nada. E, no entanto, pertenço ao todo. Natureza...

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UM MOÇO MUITO BRANCO

"Ela, que, a partir dessa hora, despertou em si um enfim de alegria, para todo o restante de sua vida, donde um dom..." (p. 94)

Alegria

Ao ler o conto, me lembrei da resposta de Rubem Alves ao entrevistador Abujamra, que lhe perguntou certa vez "A vida é uma causa perdida?", e Alves responde que sim por sabermos que vamos morrer, mas cita Guimarães Rosa que falava da alegria nos momentos de distração. 

A moça do conto, ganhou em sua vida, o dom da alegria.

Profundo isso!

Gostaria de ter tido esse dom.

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LUAS-DE-MEL

"No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. Naquela véspera, eu andava meio relaxo, fraco; eu já declinava para nãoezas? Nos primeiros de novembro. Sou quase de paz, o quanto posso..." (p. 96)

É sempre isso. Quando leio Guimarães Rosa, automaticamente me vem à cabeça Uberlândia, me vem o Mato Grosso, anos oitenta, minha família e o mundo onde cresci.

Apesar de ser, em suas narrativas, uma língua inventada pelo escritor, em grande parte, relembro a língua de onde vivi nos anos oitenta.

Guimarães Rosa me transporta ao passado do Brasil onde vivi.

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Comecei a ler esse pequeno livro de contos de Guimarães Rosa há mais de vinte anos. Nunca terminei.

Li pela primeira vez "As margens da alegria" em 2003. Alguns contos eu já li várias vezes nesse tempo todo. 

Agora, decidi ler os contos que não havia lido ainda. 

Uma vez, li em voz alta, na cozinha da casa de meus pais em Uberlândia, o conto "A terceira margem do rio". De repente, comecei a chorar, soluçar... e quase não consegui acabar a estória. 

Com "Sorôco, sua mãe, sua filha" a emoção também é no limite.

"Famigerado" é um dos contos mais marcantes do livro.

E assim, vou finalizar minha leitura do Primeiras Estórias (1962), do mestre Guimarães Rosa. Já é tempo de finalizar coisas antigas não concluídas.

Retomarei o trabalho de sistematização dos meus textos em seguida.

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Post Scriptum:

DARANDINA

"Pois, de repente, sem espera, enquanto o outro perorava, ele se despia. Deu-se à luz, o fato sendo, pingo por pingo. Sobre nós, sucessivos, esvoaçantes - paletó, cueca, calças - tudo a bandeiras despregadas. retombando-lhe a camisa, por fim, panda, aérea, aeriforme, alva. E feito o forró! - foi - balbúrdias. Na multidão havia mulheres, velhas, moças, gritos, mouxe-trouxe, e trouxe-mouxe, desmaios. Era, no levantar os olhos, e o desrespeitável público assistia - a ele in puris naturalibus..." (p. 132)

A gente sabe tão pouca coisa nesta vida, tão nada, que às vezes até se surpreende, mesmo entrado décadas na existência.

Após ler este conto de Guimarães Rosa, Darandina, eu fui pesquisar alguma coisa sobre ele e me surpreendi com a grandeza da estória. Tem revista universitária com o nome do conto, tem diversos trabalhos acadêmicos e ensaios muito interessantes sobre ele. O texto é gigante! Eu nunca tinha me dado conta dele... tão nada, tão pequeno somos quando se trata de conhecer literatura... (eu, né, eu, não falo pelos outros, só por mim).

Teria que renascer e ter foco na literatura desde que me entendesse por gente para poder dar conta de um mínimo que queria conhecer sobre literatura... (mas como não há mágica na vida, minha única unicazinha vida foi essa que já se vai definhando...)

Li um estudo acadêmico analisando o conto "Darandina" e o conto "O alienista", do bruxo do Cosme Velho. A temática da loucura, ou da razão, ou da "desrazão", e fiquei encantado com o texto e as interpretações do autor.

Fiquei pensando uns instantes sobre os 21 contos do livro Primeiras Estórias, de 1962. Muitos personagens e casos contados no livro são exatamente essa questão da razão e "desrazão" das coisas humanas.

Olha, nenhuma frase ou texto comentando obras como essa de Guimarães Rosa dá conta da imensidão de coisas contidas ali. Dá não!

Temos que lidar com humildade com o nosso pouco saber das coisas.

Sigamos lendo alguma coisinha enquanto somos, estamos.

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É isso! 

Will i am 


Bibliografia:

ROSA, Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Leitura - O Nome da Rosa - Umberto Eco (1)



Refeição Cultural 

Quinta-feira, 23 de janeiro de 2025.


"Porque esta é uma história de livros, não de misérias quotidianas, e a sua leitura pode nos inclinar a recitar, com o grande imitador de Kempis: 'In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro' - 5 de janeiro de 1980*." (p. 16)

*Procurei descanso em tudo e não encontrei em lugar nenhum senão num canto com um livro (tradutor do Google)


São tantos os clássicos que não conheço ainda que fico meio perdido quando penso na escolha de um livro para me sentar num canto do mundo e descansar. 

Descansar do ódio da política dos homens. Descansar da falta de consideração. Descansar das mentiras como armas fascistas na guerra de dominação. 

Um livro para descansar a alma, para alimentar a alma e dar algum sentido na aventura humana. 

Das várias lacunas culturais, escolhi desta vez o clássico de Umberto Eco: O Nome da Rosa, de 1980.

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RESENHA DURANTE A LEITURA 

Divisões do tempo: cada dia na abadia ou mosteiro onde se passa a história é dividido em períodos determinados do dia: Matinas (de 2h30 a 3h), Laudes (entre 5 e 6h), Primeira (em torno de 7h30), Terceira (por volta de 9h), Sexta (meio-dia), Nona (14 a 15h), Véspera (16h30 ou perto do pôr do sol) e Completas (em torno das 18h, até umas 19h).

O livro começa com os seguintes textos: "Um manuscrito, naturalmente", "Nota" e o "Prólogo".

Pelos textos iniciais, o leitor fica sabendo que vai ler os relatos de Dom Adson (ou Adso) de Melk, do século XIV, sobre a missão do frade franciscano inglês Guilherme de Baskerville em uma abadia italiana. Adso era seu ajudante.

"(...) Quanto à época em que se desenvolvem os eventos descritos, estamos em fins de novembro de 1327; quando porém tenha escrito o autor é incerto. Calculando que se diz noviço em 1327 e já próximo da morte quando escreve suas memórias, podemos conjecturar que o manuscrito tenha sido elaborado nos últimos dez ou vinte anos do século XIV" (p. 14)

O livro é dividido em partes representadas pelos dias: primeiro dia, segundo dia etc.

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PRIMEIRO DIA

O frei Guilherme de Baskerville e seu ajudante Adso de Melk vão a uma abadia para tratativas políticas, mas acabam por investigar a estranha morte de um monge, Adelmo de Otranto.

Depois, o leitor fica sabendo que frei Guilherme está incumbido de organizar na abadia um encontro "diplomático" entre representações do imperador e do papa. (A partir da p. 172)

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CENA DE LEITURA: Li o começo da obra sob o silêncio da madrugada, na Colônia do Sinpro da Praia Grande, a descrição feita por Adso de Melk sobre a primeira visita dele e do frei Guilherme de Baskerville à igreja da abadia. 

Enquanto Adso descrevia uma cena demoníaca em pinturas e esculturas, eu ouvia vez por outra os medonhos sons da noite... 

O livro me apresentava os personagens Salvatore e o monge Ubertino de Casale. (p. 66)

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Na cena de leitura acima, faltou dizer que, de vez em quando, uma coruja começava a piar sem parar... São os sons da noite.

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Diálogo entre frei Guilherme e Ubertino

Inquisição - Foi um debate interessante. Sobre influências do demônio e inquisições. Guilherme era inquisidor e desistiu da função. Ubertino era a favor de queimar na fogueira algumas pessoas inocentadas por Guilherme. 

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Frei Guilherme e Adso conhecem o bibliotecário Malaquias de Hildeshein e seu ajudante, Berengário de Arundel, no scriptorium. Antes, conversaram com o padre herborista Severino de Sant'Emmerano (p. 85 adiante).

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Já no fim do primeiro dia (Vésperas), frei Guilherme faz uma discussão com o vidreiro Nicola de Morimondo muito interessante sobre a ciência na mão de pessoas não sábias. (A partir da p. 106)

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SEGUNDO DIA

O segundo dia na abadia começou com a descoberta de mais um corpo - o monge Venâncio de Salvamec -, encontrado de cabeça para baixo numa pocilga de sangue de porcos.

Há um bom resumo da conversa do dia anterior, que contou com a participação do falecido monge Venâncio, na p. 136 da minha edição. É citada, nos debates, a obra "Poética", de Aristóteles.

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O RISO - Debate entre frei Guilherme de Baskerville e o ancião cego Jorge de Burgos sobre o gênero comédia e o riso (p. 158):

Jorge: "(...) O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco."

Guilherme: "Os macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua racionalidade."

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GUERRA É GUERRA: Na p. 182, o abade diz não se importar com o assassinato de toda uma comunidade por suspeita de heresia.

"(...) E, quanto aos hereges, também tenho uma regra, e se resume na resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava o que fazer dos cidadãos de Béziers, cidade suspeita de heresia: matai-os todos, Deus reconhecerá os seus."

Frei Guilherme relembrou, constrangido, que foram mortos quase vinte mil pessoas a fio de navalha incluindo mulheres e crianças... depois a cidade foi saqueada. 

(COMENTÁRIO: Alguma semelhança com um certo massacre atual numa terra chamada Faixa de Gaza, Palestina?)

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NOS LABIRINTOS DA BIBLIOTECA 

"(...) Este lugar de sabedoria proibida é protegido por muitos e sapientíssimos achados. A ciência usada para ocultar, ao invés de iluminar. Não me agrada. Uma mente perversa preside à santa defesa da biblioteca..." (p. 206)


O segundo dia chegou ao fim. Frei Guilherme e Adso visitaram a biblioteca da abadia no meio da noite. 

Quase ficaram perdidos por lá em seus labirintos. 

Ao voltarem do primeiro escrutínio à biblioteca, às escondidas, encontram o abade naquela madrugada (matinas). O abade diz que Berengário, o ajudante do bibliotecário, está desaparecido.

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Frases para reflexão 

A EFEMERIDADE DAS COISAS E DA VIDA

"(...) Nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono." (p. 25)

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O DIABO PODE TENTAR A TODOS 

"'Mesmo um inquisidor pode ser impelido pelo diabo', disse Guilherme." (p. 44)

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A BIBLIOTECA DA ABADIA 

"Sei que tem mais livros que qualquer outra biblioteca cristã. Sei que diante de vossas estantes as de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de um menino que mal se inicia no ábaco. Sei que os seis mil códices de que se vangloriava Novalesa há mais de cem anos são poucos diante dos vossos, e talvez muitos deles agora estejam aqui. Sei que a vossa abadia é a única luz que a cristandade pode opor às trinta e seis bibliotecas de Bagdá, aos dez mil códices do vizir Ibn al-Alkami, que o número de vossas bíblias iguala-se aos dois mil e quatrocentos corões de que dispõe o Cairo, e que a realeza de vossas estantes é luminosa evidência contra a soberba lenda dos infiéis que há anos queriam (íntimos que são do príncipe da mentira) a biblioteca de Trípoli rica em seis milhões de volumes e habitada por oitenta mil comentadores e duzentos escribas." (p. 51)

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AINDA A BIBLIOTECA DA ABADIA 

O abade não quer permitir o acesso de frei Guilherme de Baskerville. A biblioteca é tão protegida que só o bibliotecário a conhece.

"(...) Somente o bibliotecário, além de saber, tem o direito de mover-se no labirinto dos livros, somente ele sabe onde encontrá-los e onde guardá-los, somente ele é responsável pela sua conservação (...) Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa, e os monges, por fim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler alguns e não outros volumes, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que porventura os colha, quer por fraqueza da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica." (p. 54)

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MAGIAS DE DEUS E DO DIABO

"(...) Porém existem duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é lícito falar. Mas há uma magia que é obra divina, lá onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, e um de cujos fins é prolongar a vida humana..." (p. 109, sobre os óculos)

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A CIÊNCIA E A QUESTÃO DA ÉTICA: DEVE HAVER LIMITE NA CIÊNCIA?

"Porque a ciência não consiste só em saber aquilo que se deve ou se pode fazer, mas também em saber aquilo que se poderia fazer e que talvez não se deva fazer. Eis por que hoje eu dizia ao mestre vidreiro que o sábio deve guardar de todos os modos os segredos que descobre, para que outros não façam mau uso deles, mas é preciso descobri-los, e esta biblioteca me parece mais um lugar onde os segredos permanecem encobertos." (p. 120)

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O POVO É MASSA DE MANOBRA NAS RELIGIÕES

"Estou dizendo que muitas dessas heresias, independentemente das doutrinas que sustentam, encontram sucesso junto aos simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. (...) Os simples são carne de matadouro, de se usar para colocar em crise o poder adverso, e para sacrificar quando não prestam mais." (p. 180/181)

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COMENTÁRIO FINAL

Sigamos na leitura e releitura dessa obra monumental de Umberto Eco. Finalizei os dois primeiros dias da história.

Antes de seguir adiante, acho que vou reler alguns diálogos que ocorreram nas primeiras duzentas páginas.

É isso. O mundo anda o caos com a ascensão do nazifascismo no século XXI. Vamos procurar algum descanso pegando um bom livro e achando um canto para desfrutar dessa maravilhosa invenção do ser humano: os livros.

William


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya. Rio de Janeiro: 1986.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Livro: Poemas - T. S. Eliot



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


O livro Poemas, de 1920, é o segundo livro de T. S. Eliot. Estou lendo uma bela e bem-acabada edição da Companhia das Letras, organizada, traduzida e com posfácio do professor Caetano W. Galindo.

Registro o mesmo sentimento que tive ao ler o primeiro livro dele Prufrock e outras observações, de 1917: não é uma poética de fácil compreensão para mim, prefiro outros autores. Mas estou firme na leitura. 

Deste livro o poema que mais gostei foi "Lune de Miel" (comentário aqui).

T. S. Eliot é contemporâneo de James Joyce. Deve ser por isso que os versos sem muito sentido para mim sejam meio doidos como algumas passagens de Ulysses, de Joyce, também traduzido por Galindo (comentário aqui).

Meu desejo é conhecer mais autores e suas poéticas. É reduzir minhas lacunas culturais. 

O próximo livro de Thomas Stearns Eliot é um dos mais aclamados da crítica: A terra devastada, de 1922. Vamos ver se os poemas me agradam mais.

Eu tenho um compromisso com a sinceridade e a honestidade na produção de meus textos aqui no blog. Por isso sou sincero em dizer como foi a leitura de autores e suas obras. 

Enfim, mais um livro lido neste início de ano.

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Livro: Crisálidas - Machado de Assis



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


“EPITÁFIO DO MÉXICO

Dobra o joelho: — é um túmulo.

Embaixo amortalhado

Jaz o cadáver tépido

De um povo aniquilado;

A prece melancólica

Reza-lhe em torno à cruz.


Ante o universo atônito

Abriu-se a estranha liça,

Travou-se a luta férvida

Da força e da justiça;

Contra a justiça, ó século,

Venceu a espada e o obus.


Venceu a força indômita;

Mas a infeliz vencida

A mágoa, a dor, o ódio,

Na face envilecida

Cuspiu-lhe. E a eterna mácula

Seus louros murchará.


E quando a voz fatídica

Da santa liberdade

Vier em dias prósperos

Clamar à humanidade,

Então revivo o México

Da campa surgirá.” 


(de “Obras Completas de Machado de Assis IV: Poesia Completa” por Machado de Assis)


Ando me esforçando para conhecer um pouco mais as obras poéticas dos grandes autores da poesia universal. 

Sou nascido e criado no Brasil dos anos setenta e oitenta, de família pobre e de pouca cultura formal, escolar, gente que ralou na vida desde criança para sobreviver em um dos países mais violentos e desiguais do mundo. 

Fui aculturado num ambiente nacional marcado pelas opressões da religião oficial do Estado e dos donos do poder, a católica, e num ambiente machista, misógino, racista e avesso às diversidades... o Brasil. 

Até uns trinta anos de idade, eu achava poesia coisa para os outros, não para mim. Preconceito. Ignorância, lógico!

Imagino, olhando para trás, que a oportunidade de fazer o curso de Letras, na USP, tenha sido a porta de entrada para outros gêneros literários tão diversos e ricos dessa nossa contraditória espécie humana. 

Dei sorte na vida. Sou um homem de sorte. Sem entrar na vereda da cultura e do desejo de saber mais, vindo de onde vim, poderia ser outra pessoa. Não acho que seria melhor cidadão sem o desejo do saber. 

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CRISÁLIDAS (1864)

Na busca por novas poéticas, mergulhei na leitura do primeiro livro de poesias do Bruxo do Cosme Velho.

Sempre que leio textos antigos, tento me colocar na posição de um leitor da época da publicação ou criação daquela produção cultural. Não é fácil, somos o que somos. Mas eu leio textos antigos pelo menos com essa atenção.

Foi assim que li os poemas de Crisálidas, de Machado de Assis. 

A leitura foi exigente, foi preciso concentração para apreciar as imagens poéticas desenvolvidas pelo poeta Machado.

Curiosidade 

Ao pesquisar sobre o poema "Embirração", de Faustino Xavier de Novais (F. X. de Novaes no livro de M. Assis), descobri que o poema foi uma resposta do poeta ao poema "Aspiração", em Crisálidas, dedicado a F. X. Novaes.

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São trinta poemas no livro, alguns com grandes extensões como, por exemplo, "Versos a Corina (I)".

Dois poemas abordam especificamente tema religioso: "O Dilúvio" e "Fé".

Dois tratam de assuntos internacionais: "Epitáfio do México" e "Polônia".

Enfim, sigamos lendo poesia e descobrindo poéticas.

William 


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Obras Completas IV - Poesia Completa. ePUB.


domingo, 12 de janeiro de 2025

Livro: Bagagem - Adélia Prado



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


"AS MORTES SUCESSIVAS 

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua,

cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

‘deixa, tá bom assim’.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória."


Finalmente conheci a poesia de Adélia Prado. 

Ao ver entrevistas dela na atualidade, fica fácil confirmar o que se percebe de sua poética desde seu primeiro livro Bagagem, de 1976. A poeta é muito religiosa e seu fazer poético contém toda a visão de mundo dela.

O livro está organizado em quatro seções: "O modo poético", "Um jeito e amor", "A sarça ardente I", "A sarça ardente II" e um desfecho: "Alfândega".

Vocabulário:

Sarça ardente é uma planta, com flores pequenas. 

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DA 1a SEÇÃO, "O modo poético", diversos poemas me agradaram. A começar pelo poema "Com licença poética"

Vejam o começo:

"Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira."

Vi numa entrevista Adélia dizer que Drummond foi um dos poetas que a identificaram e apoiaram no início da carreira. 


No poema "Grande desejo" Adélia se apresenta e diz a que veio:

"(...)

sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.

Faço comida e como.

(...)

Quando dói, grito ai,

quando é bom, fico bruta,

as sensibilidades sem governo."


Como disse, gostei bastante da 1a parte.

"Procuro sol, porque sou bicho de corpo.

sombra terei depois, a mais fria." (Poema Sensorial)


O poema "Tabaréu" é mais um daqueles nos quais a poeta se define para seus leitores:

"(...)

Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho

é de fazer poesia, quando ela insiste feito

água no fundo da mina, levantando morrinho de areia."

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DA 2a SEÇÃO, "Um jeito e amor", gostei dos poemas "O sempre amor", "Enredo para um tema" e outros também. 

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DA 3a SEÇÃO, "A sarça ardente I", adorei o poema "Ensinamento". Ler aqui.

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DA 4a SEÇÃO, "A sarça ardente II", gostei bastante dos poemas "Episódio" e "Uma forma de falar e de morrer". Achei demais "As mortes sucessivas".


"(...) mais dolorido canta quem não é cantor", verso do poema "Modinha". 

É de alguém observador.

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DIMINUINDO AS LACUNAS CULTURAIS  

Nas últimas semanas, descobri poetas que ainda não tinha lido. 

Agora já conheço alguma coisa de Adélia Prado, Mario Quintana, T. S. Eliot, Baudelaire e Maiakóvski, poetas reconhecidos internacionalmente. 

Sigamos lendo e diminuindo nossa ignorância cultural, pois somos seres incompletos, como nos ensina Paulo Freire.

William 


Bibliografia:

PRADO, Adélia. Bagagem [recurso eletrônico]. 1. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2021.

 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Livro: Prufrock e outras observações - T. S. Eliot



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


Li e reli o primeiro livro de poesias de T. S. Eliot, de 1917. São doze poemas, alguns deles longos.

Thomas Stearnes Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos. 

A edição que tenho das poesias de Eliot é organizada e traduzida pelo professor Caetano W. Galindo, da Universidade Federal do Paraná. 

Dele, já li a excelente edição de Ulysses, de James Joyce. Galindo é tradutor excepcional de romances e poesias. 

Eu tenho grandes lacunas culturais em relação a romances clássicos e obras poéticas. Não conhecia ainda T. S. Eliot. 

Seu primeiro livro foi de leitura difícil para mim. Vamos ver os seguintes, se me identifico mais com o poeta ganhador do Nobel de Literatura de 1948.

Sigamos em busca de novos conhecimentos. 

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Livro: Flores das "Flores do mal" de Baudelaire - Guilherme de Almeida



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


"Cuidado ó minha dor, não sejas tão hostil.

Reclamavas a Tarde; ei-la que vem descendo:

Cobre a cidade toda uma treva sutil, 

A uns trazendo a inquietude, a outros a paz trazendo."

(Do poema "Recolhimento")


Finalizei a leitura do livro organizado por Guilherme de Almeida com a "recriação" ou "transmutação" de 21 poemas de Baudelaire para a nossa língua pátria. 

Almeida diz não gostar das expressões "tradução" ou "versão". A introdução dele aos 21 poemas foi escrita em 1943.

A obra clássica de Baudelaire, Flores do mal, é de 1857.


Gostei muito da série de poemas "Spleen" escolhida por Guilherme de Almeida. Ando numa fase meio spleen. O autor explica:

"Aí, Baudelaire, como num intencional descaso - a dar mesmo ideia de 'spleen', isto é, de indiferença e desânimo..." (Almeida)

Ele explica no livro, através de notas, a recriação de poema a poema; muito interessante o trabalho dele. 

"A obra poética de Baudelaire se caracteriza pela inteligência crítica do destino humano e do seu próprio destino, pelo sentimento agudo da vida moderna, da vida da Paris do seu tempo." (Manuel Bandeira)

A edição que tenho ainda presenteia o leitor com uma Apresentação de ninguém menos que Manuel Bandeira. Chique, né?

Só não consegui ler os poemas extras do Apêndice do livro porque estão em francês. Não leio francês ainda.

É isso. Estou hoje um pouquinho menos ignorante que ontem.

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TREVAS SOBRE AS CIDADES

Sigamos aprendendo e estudando as culturas e criações do mundo.

"Cobre a cidade toda uma treva sutil,"

A estrofe que abre o texto posso dedicá-la à trágica realidade brasileira ao me lembrar das posses tenebrosas dos prefeitos ladrões, fascistas e asquerosos que vão destruir as cidades nos próximos quatro anos...

Não há democracia no Brasil. Sobrevivemos sob uma ditadura da plutocracia (capitalismo) dos orçamentos secretos e dinheiros do crime financiando os políticos do sistema. 

William 


Post Scriptum: clicar aqui para ler as outras postagens referentes a Baudelaire.


Bibliografia:

ALMEIDA, Guilherme de. Flores das "Flores do Mal" de Baudelaire. Introdução de Manuel Bandeira. Carvões de Quirino. Ilustrações de Rodin. Clássicos de Bolso, Ediouro/20349.


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Livro: Esconderijos do tempo - Mario Quintana



Refeição Cultural

Dezembro de 2024


"Os poemas


Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti..."


Estou encerrando o ano cultural com a diminuição de minhas lacunas culturais. Consegui ler alguma coisa de grandes autores e autoras dos quais nunca havia lido nada. Nossa capacidade de leitura é sempre aquém do que desejamos, mas é bom conhecer culturas novas.

O poeta Mario Quintana é uma de minhas descobertas neste ano de leituras. Ao decidir ler um pouco de poesia diariamente em dezembro, optei por dar preferência a autores e autoras que ainda não havia lido. Não foi possível fazer isso todos os dias, mas deu certo em conhecer gente nova.

O livro de Quintana é maravilhoso, do início ao fim. É um livro da fase madura do poeta. Agora me falta conhecer suas obras das primeiras fases de sua poética.

Sigamos lendo e conhecendo cultura nova.

William


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (23) - A Flauta-Vértebra, Maiakóvski


Estou preso ao papel com o prego das palavras
(texto do desenho).


A FLAUTA-VÉRTEBRA - MAIAKÓVSKI


Prólogo 


A todas vocês, 

que eu amei e que eu amo,

ícones guardados num coração-caverna,

como quem num banquete ergue a taça e celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.


Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez

pôr-me o ponto final de um balaço.

Em todo caso

eu

hoje vou dar meu concerto de adeus.


Memória!

Convoca aos salões do cérebro

um renque inumerável de amadas.

Verte o riso de pupila em pupila,

veste a noite de núpcias passadas.

De corpo a corpo verte a alegria.

Esta noite ficará na História. 

Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras. 


(A ilustração é de Maiakóvski para o poema)

Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

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COMENTÁRIO:

Sigo aberto à poética de Maiakóvski. No entanto, a poética do revolucionário poeta russo segue hermética pra mim.

Já li 2/3 dos poemas selecionados por Boris Schnaiderman e pelos irmãos Campos para esta bela edição que tenho da Perspectiva. 

Conheço hoje um pouco mais que ontem sobre Maiakóvski. Isso é bom. Estou com mais de meio século de existência e sigo aprendendo. 

Sigamos lendo poesias e aprendendo novas culturas. 

William Mendes 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (17) - O silêncio, Mario Quintana



O SILÊNCIO - MARIO QUINTANA


Há um grande silêncio que está sempre à escuta...


E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,

qualquer coisa, seja o que for,

desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje 

até a tua dúvida metafísica, Hamleto!


E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala

o silêncio escuta...

e cala.

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COMENTÁRIO:

Me dispus a ler poesia durante o mês de dezembro, de preferência poetas e obras que ainda não conheço, ou seja, quase tudo, porque não sou um conhecedor de poesia, só comecei a ler poesia depois dos trinta anos de idade. 

De verdade, conheço um pouco de Drummond, minha cachaça. 

Já li Brecht, Leminski, alguns livros de Cecília Meireles, Manuel Bandeira, João Cabral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade. Os que cito, já li um ou vários livros.

Comecei dezembro pegando alguns livros que tenho em casa e agora estou escolhendo aleatoriamente a cada dia um(a) poeta e lendo alguns poemas até me identificar mais com um deles.

Hoje pensei em Mario Quintana, que não conheço. Comecei tentando acessar seus poemas, pois não tenho livro algum dele. 

(Um tempo depois) Ufa! Só para conseguir escolher um livro e adquiri-lo na forma digital foi um tempão! 

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Catarse!

Pego o livro Esconderijos do tempo (1980) e começo a leitura...

O primeiro poema "Os poemas" é uma catarse! O segundo poema "O silêncio", me deixa pensativo. O terceiro poema "A canção do mar", o mesmo espanto com a genialidade e a simplicidade do poeta.

Amig@s, eu nunca tinha lido poemas de Mario Quintana e ele tem tudo para virar outra cachaça na vida deste leitor cheio de lacunas culturais.

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Os poemas de Quintana me deixaram impressionado neste começo de contato.

Linguagem simples, mas cheia de conceitos profundos. Impossível ler e não ficar pensando a respeito. 


Vejam esta citação na abertura do livro:

"Um velho relógio de parede 

numa fotografia

- está parado?

(Caderno H)"


Não é de nos deixar pensativos?

Aí vamos para a primeira imagem poética: os poemas como pássaros que pousam no livro... difícil tirar essa imagem da cabeça!

Em seguida, Quintana põe o dedo na antiquíssima questão do silêncio constrangedor, ou que incomoda qualquer pessoa em seu cotidiano. 

O poema é maravilhoso!

Enfim, agora tenho o livro de Quintana. É seguir lendo. 

William Mendes 


Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (4) - O Albatroz, Baudelaire



O ALBATROZ - BAUDELAIRE 


Às vezes, por prazer, os homens de equipagem

Pegam um albatroz, enorme ave marinha, 

Que segue, companheiro indolente de viagem, 

O navio que sobre os abismos caminha.


Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,

Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado, 

Deixa doridamente as grandes e alvas asas

Como remos cair e arrastar-se a seu lado.


Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!

Ave tão bela, como está cômica e feia!

Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo, 

Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!


O Poeta é semelhante ao príncipe da altura

Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;

Exilado no chão, em meio à corja impura,

As asas de gigante impedem-no de andar.


Recriação de Guilherme de Almeida 

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COMENTÁRIO:

Charles Baudelaire é outro clássico que não conheço bem. Esse poema fantástico "O Albatroz" já conhecia por tê-lo visto em sala de aula na USP.

A imagem do albatroz no convés do navio todo desajeitado por não ser ali seu ambiente de glória, os céus, comparado ao poeta que não se sente à vontade fora de seu mundo idealizado é incrível!

Claro que Baudelaire pertenceu a uma escola de arte, a uma época específica, que não representa a totalidade dos poetas. 

Para muitos poetas, estar no seio do povo (a corja) seria estar como o albatroz soberano nos céus. 

Seguimos lendo poesia neste mês de dezembro. 

William Mendes 


Bibliografia:

ALMEIDA, Guilherme de. Flores das "Flores do Mal" de Baudelaire. Introdução de Manuel Bandeira. Carvões de Quirino. Ilustrações de Rodin. Clássicos de Bolso, Ediouro/20349.


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (3) - Prelúdios, T. S. Eliot



PRELÚDIOS - T. S. ELIOT

I

O entardecer de inverno se acomoda, 

Cheiro de bife que entre as casas passa.

Seis da tarde. 

As pontas desses dias de fumaça. 

E agora a chuva repentina inunda

A escória imunda 

Das folhas murchas postas aos teus pés 

E dos jornais do terreno baldio;

A chuva cai mofina

Em persianas rotas, chaminés, 

E preso a um coche logo ali na esquina, 

Ferve um cavalo inquieto no frio.


E logo cada poste se ilumina.

(...)


Poema de 1917

Tradução:

Caetano W. Galindo

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COMENTÁRIO:

Eliot é mais uma de minhas lacunas culturais. A lista de autores dos quais nunca li nada é enorme. Confesso com humildade. 

Após ler os primeiros poemas de seu primeiro livro "Prufrock e outras observações", de 1917, escolhi postar a parte I do poema "Prelúdios". É a que mais gostei até agora. 

Seu poema mais famoso é "A terra devastada", de 1922.

Ao ler algumas páginas do excelente "Posfácio" feito por Galindo fiquei perplexo com as curiosidades da vida do autor, que foi um bancário e depois editor.

T. S. Eliot foi contemporâneo a Ezra Pound, Virginia Woolf, James Joyce e outras celebridades do mundo das artes e cultura de sua época. 

Ele ganhou o Nobel de Literatura. Eliot nasceu nos Estados Unidos e desenvolveu boa parte de sua carreira na Inglaterra. 

É isso. Contatei nesses três primeiros dias de leitura de poesia poetas que não havia lido ainda: Jorge Luis Borges, Maiakóvski e T. S. Eliot. 

Vamos ver o que invento para amanhã. 

William Mendes


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (2) - Porto, Maiakóvski



PORTO - MAIAKÓVSKI


Lençóis de água sob um ventre pando.

Rasgam-se em ondas contra dentes brancos.

Amor. Lascívia. Como o uivo que escorre 

das chaminés por gargalos de cobre.

No berço-embocadura barcos presos

aos mamilos de madres de ferro.

À orelha surda dos navios agora

rebrilham brincos de âncora. 


Poema de 1912

Tradução: Haroldo de Campos

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COMENTÁRIO:

Consegui ler os primeiros poemas de Maiakóvski num silêncio meio raro em casa*.

Li algumas vezes as duas traduções do poema "Noite". Depois li o poema "Manhã".

Ao ler o poema "Porto" compreendi um pouco melhor a poética do autor. O mesmo quando li "Eu".

Maiakóvski brinca com as imagens: orelha de navio com brinco de âncora, barcos presos aos mamilos do porto etc **.

Não são poemas como aqueles que estou acostumado a ler. Legal.

* Além de estar um ambiente silencioso no momento, estou surdo faz uns quatro dias, após um voo com as fossas nasais congestinadas.

** No livro (p. 35), Boris Schnaiderman diz sobre esse poema: "(...) a estranheza aparece sublinhada pelo contraste entre as imagens ousadas e os elementos tradicionais na construção do poema..."

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O desafio de ler poesias neste mês será interessante. Vou experimentar o novo, o diferente, e quando for poeta que conheço, poemas que não tive contato ainda. 

William Mendes 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.