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domingo, 12 de abril de 2015

Diário - 120415 (O valor das ideias)





Refeição Cultural

O valor das ideias



Fechando mais um fim de semana. Escrever é uma necessidade. Eu quis ser professor, escritor, intelectual, filósofo, historiador e acabei não sendo nada disso. As veredas de meu sertão me levaram para onde estou.

Este espaço virtual que criei faz alguns anos é importante para mim porque além de escrever e partilhar o que penso ou o que aprendi com meus estudos vários, me obriga a manter o cérebro e meus pensamentos em funcionamento.


UM DOMINGO ENSOLARADO

O dia em Brasília, Capital do Brasil, foi de Sol. Ao acordar, abri a janela e fiquei vendo e ouvindo os pássaros nas árvores. As leituras e o filme que vi na noite anterior ficaram em minha cabeça.

Embalei uma boa sequência de páginas na obra de Victor Hugo, "Os miseráveis". Mas estou no começo e sei que a história se repetirá com a leitura: não vou terminá-la por prioridades no trabalho.

Busquei pães. Tomamos café. Acabei contaminando meu domingo vendo um pouco na internet do efeito melancólico da lavagem cerebral capitaneada pela direita brasileira, manipulando parte do povo em prol de golpismos e reacionarismos contrários aos avanços conquistados por esse mesmo povo com os governos do Partido dos Trabalhadores nos anos recentes.

Almoçamos. Assisti Planeta Terra e corri à noite. O programa mostrou a maravilha das regiões inóspitas do Canadá Setentrional. Esses programas me põem a pensar muito!


CORRIDA: MESCLA DE PRAZER E OBSTINAÇÃO

Senti um cansaço físico grande neste fim de semana. Eu tenho uma leitura do porquê. É um misto do esforço que fiz na corrida de quinta-feira com a insistência de investir energia em estudos e coisas do intelecto.

Na quinta-feira, cheguei tarde da noite de meu trabalho na Cassi e fui cumprir minha meta de treinamento. Fiz uma corrida muito prazerosa porque corri contra o relógio e diminui mais um minuto no percurso de 5 km. Parece fácil, mas não é.

Eu insisto em querer ler com intenção de estudar e acabo esgotando mais minhas energias, ao invés de descansar nos finais de semana - haja vista que meu trabalho à frente da gestão na Caixa de Assistência me exige uma energia sobre-humana, tanto nas lutas e raivas que passamos, quanto nos estudos e leituras com cargas diárias de mais de 14 horas.

Resultado: procrastinei para correr no fim de semana até à noite deste domingo. Saí e corri 6 km, num trote lento e meu corpo estava numa leseira só. Haja obstinação para completar o percurso em 40 minutos. 

Mas é isso, senti um prazer imenso na quinta e cumpri meu compromisso comigo mesmo hoje.


O VALOR DAS IDEIAS

Os dois livros que estou lendo e o filme que assisti têm relação e lidam com a questão da importância das ideias e a influência delas nas sociedades.

Na parte que li ontem do livro Ideologia e Contraideologia, saí melhor após um conceito aprendido ali. 

Quando alguns pensadores do passado se posicionaram e escreveram suas teses, defendendo posições ideológicas em prol dos status quo estabelecidos ou contrários a eles, o fizeram com muita técnica, oratória, interesses pessoais e coletivos; o fizeram com paixão, e certamente tiveram boas e más defesas de "suas" teses. As aspas é porque alguns deles defendiam as teses da classe dominante, eram ideólogos dessa classe.

Alguns filósofos e pensadores foram defensores de modelos de sociedades com poder central, monárquico, divino. Outros defenderam administrações a partir de coletividades, o povo ou parte do povo; diretamente ou por representação.


ESTADO NATURAL - SOCIEDADE CIVIL

Uma das coisas que achei interessante foi a mudança construída por nós humanos ao decidirmos sair do Estado Natural (de natureza) para o Estado Civil. O Contrato Social de Rousseau aborda isso. O Leviatã, de Thomas Hobbes também.

O percurso das sociedades ocidentais entre os séculos XV e XXI tem uma relação profunda com a história do pensamento e das ideologias e contraideologias pró-governantes no poder e contra governantes no poder.

O filme V de Vingança também aborda a questão do valor das ideias - se matam homens, mas não se matam ideias. 

A história se passa numa Inglaterra do futuro (2020), uma sociedade distópica, com um governo totalitário, que usa dos veículos de comunicação para manipular o povo, e que vai enfrentar através de um homem a volta dos ideais de quatro séculos antes de libertar o povo da tirania do governo, evento conhecido como "Conspiração da Pólvora", ocorrido em 1605, e que teve como mártir Guy Fawkes.

A parte da leitura de "Os miseráveis", de Victor Hugo, está apresentando o Bispo de Digne e seus fortes ideais de bondade absoluta, dedicação aos pobres e a Deus.


COMENTÁRIO FINAL

De minhas reflexões neste fim de semana, e mediante tudo o que tenho vivido e que vou viver no próximo período como gestor da Caixa de Assistência, eleito e representante dos trabalhadores, fica a certeza de que eu não vou desviar de minhas ideias, meus ideais, meus compromissos assumidos com os associados e com as entidades associativas que me colocaram nesta tarefa e que me apoiaram.

Eu acredito no valor das ideias. Minhas ideias são contra hegemônicas (são contraideológicas). Mas eu luto pelo que acredito ser o melhor para os trabalhadores que represento.

William

domingo, 5 de abril de 2015

Ideologia e Contraideologia - Rousseau





Alguns excertos interessantes no capítulo que aborda Rousseau

"Do homem natural ao pacto social"


"Rousseau começa a desenvolver a tese que lhe será sempre cara: a humanidade piorou à medida que a civilização foi produzindo e reproduzindo as condições de desigualdade econômica e política que, em proporções diversas, continuam vigorando em todas as sociedades".

"Em 1753 a mesma Academia lançou novo concurso, cujo tema era a pergunta: 'Qual é a origem da desigualdade das condições entre os homens? Ela é autorizada pela lei natural?'. A resposta de Rousseau está no Discurso sobre a origem da desigualdade, que não obteve o prêmio, mas, publicado em 1755, pode ser considerado o texto-matriz do pensamento democrático radical que irá inspirar os revolucionários de 1789...".

"O pensamento de Rousseau é movido por uma paixão polêmica: acusar os males da sociedade francesa, que, por sua vez, eram justificados por uma ideologia iníqua, fundamentalmente o estilo de pensar do Antigo Regime, que cristalizava os estamentos, divinizava o poder monárquico e se mostrava indiferente à distância entre o luxo dos ricos e as carências dos pobres. Contra esse estado de violenta assimetria, mascarado pelo brilho de uma civilização refinada, o pensador esboça o quadro de uma sociabilidade ideal que ama a liberdade, a igualdade e a simplicidade dos costumes.

Percorrer a obra de Rousseau é acompanhar o processo de um homem contra uma sociedade, cujos modos de pensar contrariam tanto a imagem do homem natural como o ideal do cidadão virtuoso, que só consegue viver livre e feliz na vigência plena do pacto social..."


"O sistema político dominante nos meados do século XVIII francês é hierárquico. Os estamentos ou estados (État, termo usado desde o século XIII para designar a nobreza, o clero e o povo, o qual incluía burgueses, artífices e camponeses) eram desiguais no que tocava aos bens materiais, aos privilégios e às regalias concedidas pelo tesouro real. A desigualdade é o alvo central do Contrato Social (1762)..."


DESIGUALDADE COMO TRANSGRESSÃO ÀS LEIS NATURAIS

"No Discurso sobre a desigualdade, a existência de classes opostas é vista como transgressão das leis naturais, o que parece ser uma leitura democrática em polêmica com inflexões aristocráticas do jusnaturalismo de Grotius: 'É manifestamente contra a Lei de Natureza, seja qual for a maneira como se defina, que uma criança comande um ancião, que um imbecil conduza um homem sábio, e que um punhado de gente transborde de objetos supérfluos, ao passo que falte o necessário à multidão faminta..."


ORIGEM DAS DESIGUALDADES E ASSIMETRIAS POLÍTICAS ESTÁ NA INVENÇÃO DA PROPRIEDADE PRIVADA

"Em outra passagem, conceitualmente mais densa, Rousseau estabelece firmes conexões entre as assimetrias políticas e a desigualdade socioeconômica:

              'Se nós seguirmos a progressão da desigualdade nessas diferentes revoluções, constataremos que o estabelecimento da Lei e do Direito de propriedade foi seu primeiro termo; a instituição da Magistratura, o segundo; que o terceiro e último foi a mudança de poder legislativo em poder arbitrário; de sorte que o estado de rico e de pobre foi autorizado pela primeira época, o de poderoso e de fraco pela segunda, e pela terceira o de Senhor e de Escravo, que é o último grau da desigualdade, e o termo no qual desembocam todos os outros, até que novas revoluções dissolvam completamente o governo, ou o aproximem da instituição legítima'.


A PROPRIEDADE PRIVADA NÃO É UM DIREITO PRIMITIVO, NÃO É ESTADO DE NATUREZA

"A propriedade privada não seria, portanto, um direito primitivo, inerente ao estado de natureza, mas uma instituição tardia, uma 'impostura' que acabaria sendo, por necessidade, legitimada pela 'sociedade civil' com todo o seu cortejo de desigualdades. Provavelmente nenhuma outra denúncia da ideologia liberal burguesa terá sido lançada, antes do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, com a mesma veemência dessa diatribe do segundo Discurso".


COMENTÁRIO

Da leitura, tiro proveito em fortalecer o que tenho definido como ideologia e os porquês de minhas posições no palco social.

Sou contrário à naturalização da desigualdade social, política e econômica. Tenho claro que fatores ideológicos e ferramentas fortíssimas de manipulação colocam nosso povo defendendo os interesses dos capitalistas. Essa manipulação atinge inclusive os componentes de nossa classe social - os trabalhadores e até nossos familiares.


LEI NÃO SE DISCUTE? E ESCRAVIDÃO?

Outra coisa que sempre tive opinião clara e que a mantenho até hoje: eu não concordo com as posições que afirmam que "lei não se discute, se cumpre". Há leis iníquas, feitas em contextos contrários à classe trabalhadora a qual pertenço e não acho que leis assim devem ser cumpridas.

Quer um exemplo: a lei da propriedade de um ser humano sobre outro (escravidão).


PL 4330 DA TERCEIRIZAÇÃO TOTAL

Quer outro exemplo: se esse congresso brasileiro da legislatura 2015/18, a mais direitosa e contrária aos trabalhadores em décadas, aprovar a terceirização total que vai ser colocada em pauta nessas semanas, sou favorável a uma completa rebelião da classe trabalhadora brasileira contra os patronatos e seus lacaios no Congresso Nacional. É a minha opinião e tenho o direito de expressá-la aqui.

É isso! Acabou o fim de feriado de Páscoa e o meu direito aos estudos e às leituras.

(Isso acaba comigo, mas sigo cumprindo meu papel social enquanto for preciso)


Bibliografia:

BOSI, Alfredo. Ideologia e Contraideologia. Companhia das Letras. 2010.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Era da Empatia - Os mitos de origem, de Frans de Waal


Capa do livro.

Refeição Cultural

A leitura do primeiro capítulo do livro nos leva a pensar muito sobre o ser humano e a sociedade em que vivemos. Também nos coloca a refletir sobre os mitos criados para se justificar como sendo "natural" a dominação por parte daqueles humanos que pertencem ao status quo atual - o sistema capitalista.

Cito abaixo alguns excertos que gostei do capítulo (já fiz outra postagem com algumas coisas legais deste mesmo capítulo).

CAPÍTULO 1

BIOLOGIA, ESQUERDA E DIREITA

"Os que enfatizam a liberdade individual quase sempre consideram os interesses coletivos uma ideia romântica, coisa de maricas e comunistas. Eles preferem a lógica do 'cada um por si'."

E

"Muitos animais sobrevivem cooperando e compartilhando os recursos, e não aniquilando-se uns aos outros ou conservando tudo para si mesmos. Isso se aplica mais claramente aos animais que caçam em bando, como os lobos e as orcas, mas também aos nossos parentes mais próximos, os primatas."

OU SEJA,

"Se o homem é o lobo do homem, isso é verdadeiro em todos os sentidos, e não apenas no sentido negativo. Não seríamos o que somos hoje se nossos ancestrais tivessem vivido isolados uns dos outros." (Muito bom!)

O VÍNCULO É IMPORTANTE PARA A FELICIDADE

"O vínculo é um elemento essencial para a nossa espécie. Não há nada que nos faça mais felizes (...) A busca da felicidade mencionada na Declaração da Independência dos Estados Unidos é antes de tudo um estado de satisfação das pessoas com a própria vida (...) Não é o dinheiro, o sucesso ou a fama o que mais faz bem às pessoas, mas o tempo que elas passam com os amigos e a família."

COMENTÁRIO: 

Aqui, não tem como não me lembrar da descoberta do jovem Chris McCandless (Na Natureza Selvagem) que descobriu que - "HAPPINESS ONLY REAL WHEN SHARED" (a felicidade só é verdadeira quando é compartilhada).

ALGUNS MITOS DE ORIGEM

1º) nossos ancestrais eram os reis da savana

"Pode ser que os nossos ancestrais tenham ocupado uma posição na cadeia alimentar superior à da maior parte dos primatas, mas definitivamente eles não estavam no seu topo. Eles precisavam se manter em permanente estado de alerta. Isso tem relação com o primeiro falso mito acerca do 'estado natural' da nossa espécie, o mito de que os nossos ancestrais eram os reis da savana. Como isso poderia ser verdade se, de pé, esses primatas bípedes não passavam de um metro e vinte de altura? Eles certamente viviam aterrorizados pelas hienas do tamanho de ursos que existiam naqueles tempos, e pelos tigres de dente de sabre que tinham o dobro do tamanho dos leões que conhecemos hoje. Em consequência disso, nossos ancestrais tiveram que se contentar em caçar num horário de 'segunda classe'..."

2º) a sociedade como criação voluntária de homens autônomos

"A segurança é a primeira e a mais forte motivação da vida social. Isso tem relação com o segundo mito de origem, igualmente falso, de que a sociedade humana é uma criação voluntária de homens autônomos. A ilusão, nesse caso, é a de que os nossos ancestrais levavam vidas independentes, não precisando de mais ninguém. O único problema é que eles eram competitivos demais, o que fez com que o custo de suas disputas se tornasse insuportável. Como eles eram animais inteligentes, decidiram abrir mão de algumas liberdades em troca da vida em comunidade. Essa história de origem, proposta pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau sob o nome de contrato social, inspirou os fundadores dos Estados Unidos a criar a 'terra dos homens livres'. Esse mito permanece extremamente popular nos departamentos de ciência política e nas faculdades de direito, uma vez que ele apresenta a sociedade como um compromisso negociado e não como algo que ocorreu naturalmente com a nossa espécie."

COMENTÁRIO: 

Cara, pelo que li até agora da obra O Leviatã de Thomas Hobbes, ele também aborda essa questão de abrir mão da "liberdade de natureza" para conviver em sociedade.

SEMPRE PRECISAMOS DOS OUTROS: 

"Como ocorre com boa parte dos mamíferos, todo ciclo da vida humana inclui estágios nos quais dependemos dos outros (na infância, na velhice ou quando ficamos doentes) e nos quais os outros dependem de nós (quando cuidamos das crianças, dos velhos ou dos doentes). Precisamos uns dos outros para sobreviver."

3º) sempre nos dedicamos a guerra

"Chegamos assim ao terceiro e falso mito de origem, o de que a nossa espécie vem se dedicando à guerra desde seu aparecimento. Na década de 1960, após as devastações da Segunda Guerra Mundial, os humanos costumavam ser retratados como 'primatas assassinos' - em oposição aos verdadeiros grandes primatas não humanos, considerados pacifistas. A agressão era considerada a marca inconfundível da espécie humana (...) Geralmente, a decisão de entrar em guerra é tomada pelos homens de idade mais avançada que fazem parte do governo. Quando observo um exército marchando, o que vejo não é necessariamente o ataque em ação, mas sim o instinto de manada: milhares de homens em fileira cerrada, dispostos a obedecer a seus superiores."

COMENTÁRIO: 

Eu sempre digo nos cursos de formação ou nas reuniões políticas para as pessoas tomarem muito cuidado com o "espírito de manada" e para buscarem pensar e raciocinar sobre aquilo que fazem.

POTENCIAL PARA A GUERRA: 

"Nossa única certeza é de que nossa espécie dispõe de um potencial para a guerra. Sob certas circunstâncias, esse potencial manifestará sua face tenebrosa."

PORÉM: 

"Os laços com os estranhos asseguram a sobrevivência em ambientes imprevisíveis, possibilitando que os riscos da escassez de água ou de alimentos sejam repartidos entre os grupos."

COMENTÁRIO FINAL

Deu trabalho digitar esses excertos para os leitores, mas eles nos levam a reflexões profundas. Estou lendo lentamente o livro por falta de tempo. Leiam também. É bom.

William Mendes


Bibliografia:
WAAL, Frans de. A era da empatia. Companhia Das Letras. 2010 SP.