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quarta-feira, 6 de abril de 2022

060422 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de abril de 2022. Quarta-feira. 19h19.


Escrevo com regularidade há mais ou menos duas décadas, antes em diários e depois em blogs e nas produções textuais do movimento sindical bancário. Neste momento não sinto mais vontade de escrever, não vejo mais sentido nisso. Não sei ainda o que vou fazer a respeito disso. Desacorçoei, perdi a confiança na humanidade. Ainda acredito na educação e na formação, mas elas estão vetadas, inviabilizadas neste momento da história humana.

PANDEMIA MUNDIAL

Convive-se com a pandemia mundial de Covid-19 como se ela não existisse mais. Os dados científicos demonstram o contrário. Nos últimos 28 dias se contaminaram com o vírus 44 milhões de pessoas no mundo, tendo falecido 148.736 pessoas (já morreram 6,16 milhões de pessoas). Nos Estados Unidos morreram 19.910 pessoas nesse período. Na Rússia 12.400 mortos; Na Coréia do Sul 8.593 e no Brasil 7.652 mortos. (Fonte: Johns Hopkins University)

Os políticos "acabaram" com a pandemia na canetada. Agora, somos obrigados a entrar em locais fechados como elevadores e estabelecimentos comerciais lotados de gente sem máscara. Que foda! Estamos por conta da sorte e da precaução quando possível. Vale lembrar que as pessoas vacinadas não estão imunes ao vírus, estão com anticorpos para atenuar os efeitos mortais do vírus, mas podem ter sequelas graves, mesmo sendo assintomáticas.

GUERRAS E FIM DAS INSTITUIÇÕES NACIONAIS E MULTILATERAIS

A guerra na Ucrânia entre os Estados Unidos e a Rússia já dura algumas semanas. É difícil dizer algo a respeito da guerra porque a sociedade mundial está perdendo todas as referências que embasavam a vida humana por causa das ferramentas de desinformação em massa. Já que as instituições e os acordos internacionais não são mais respeitados, por exemplo, a ONU e o Conselho de segurança, como as pessoas podem confiar em algum tipo de informação sobre uma guerra como essa? Os Estados Unidos, a Otan, a Rússia, aquele palhaço do presidente da Ucrânia... difícil crer em qualquer informação.

Fake news e pós-verdade - Quando os conhecimentos históricos e científicos não são mais a referência sobre qualquer coisa e o negacionismo e o achismo pessoal se impõem como pós-verdade, a vivência em sociedade se torna algo meio que irrespirável, sem sentido. As vacinas são questionadas, a astronomia e a geografia idem, a ciência, a história... enfim, qual a referência para a convivência em sociedade?

As democracias liberais inventadas pelos Estados burgueses acabaram. Acabaram. O uso da força e da violência voltou a ser a forma definidora do estabelecimento do poder político. Eu não acredito nem um minuto na possibilidade de termos no Brasil neste ano um processo eleitoral sem violência, golpe, ações fascistas e milicianas e mortes e caos. E nós que somos a grande maioria da população que não concorda e não apoia os fascistas e a extrema direita não estamos armados como eles. Vai ser foda. 

O mundo no qual voltamos a viver é um mundo antes da política, é o mundo da violência explícita e de imposição de poder. Os bolsonaristas e militares e milicianos não vão entregar o poder sem violência. Não vão! Os caras ameaçam até o presidente Lula com arma em vídeos e nada acontece porque as instituições NÃO estão funcionando desde o golpe de 2016! Porra, qualquer anta deveria saber disso!

Chega de registro do que penso para o momento. Estou de muito saco cheio, cheio dos seres humanos, cheio de redes sociais, saco cheio de algoritmos e mentiras, de hipocrisia, cheio de ver os abusos do regime miliciano no poder, cheio de perceber que as instituições do Estado já foram dominadas pelo crime organizado e parceiro da casa-grande e a esquerda e os democratas podem ser vítimas severas do que vem por aí.

Saco!

William (20h26)


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Livro: O processo - Franz Kafka



Refeição Cultural - Cem clássicos

Dias atrás, assisti ao filme O processo (1962), dirigido por Orson Welles, com Anthony Perkins na interpretação de Joseph K. e o próprio Welles na interpretação do advogado Albert Hastler. O filme é inspirado no clássico homônimo de Kafka. Algumas cenas e cenários criados pelo diretor se encaixaram perfeitamente nas imagens que eu havia criado em minha mente quando li o livro pela primeira vez. Muito legal isso!

O processo, obra fantástica e inacabada do escritor tcheco Franz Kafka, organizada e publicada postumamente por seu amigo Max Brod, é uma estória claustrofóbica, única, que nos traz agonia, mas é uma leitura necessária em algum momento da vida dos leitores engajados em obras clássicas. Felizmente, tive a oportunidade de ler e reler esse livro de Kafka. 

Tenho duas edições. Uma da coleção Clássicos de Bolso, da Ediouro, com prefácio e tradução de Torrieri Guimarães. Nessa edição consta que a li em fevereiro de 2001. A outra edição é do Círculo do Livro, com tradução de Manoel Paulo Ferreira, volume que reli agora. 

Terminei a releitura hoje, leitura iniciada e retomada várias vezes entre 2016 e agora. Peguei pra ler o livro de Kafka durante o golpe de Estado no Brasil, durante o processo de lawfare no qual fui vítima em meu mandato eletivo de gestor de saúde - um verdadeiro processo kafkiano -, e li vários trechos durante o maior dos processos kafkianos da história jurídica mundial, a merda toda montada contra o presidente Lula e a democracia no Brasil.

O clássico processo pelo qual passa o bancário Joseph K. já foi interpretado de várias formas ao longo do século de existência da obra. O que Lula enfrentou seria (ainda é) um fato bem concreto do mundo real para se comparar ao processo no qual Joseph K. foi vítima da burocracia de um Estado totalitário. Assim como K., até o momento o cidadão Lula não encontrou a Justiça e segue condenado sem crime, sem culpa, sem provas e sem acesso à Lei. 

A postagem não tem objetivo de fazer análise crítica da obra, é mais um registro pessoal de minhas leituras clássicas.

Por sinal, o processo kafkiano pelo qual passamos no Brasil desde o golpe de Estado, a tomada das instituições por neofascistas e todo tipo de bandidos e gente da pior espécie, com consequências irreversíveis como a destruição do país não me deixam muito ânimo para escrever a respeito dessa tragédia que vivemos. Processos kafkianos nos levaram à banalidade do mal, para usar uma expressão de Hannah Arendt.

O processo é um clássico atemporal, assim como seu autor Franz Kafka (ou "Kafta" como disse um ministro da "educação" do atual regime neofascista no Brasil). 

A leitura vale muito a pena, ontem, hoje e sempre.

William


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Leitura: Eichmann em Jerusalém - Hannah Arendt



"Resta, porém, um problema fundamental, que está implicitamente presente em todos esses julgamentos pós-guerra e que tem de ser mencionado aqui porque toca uma das grandes questões morais de todos os tempos, especificamente a natureza e a função do juízo humano. O que exigimos nesses julgamentos, em que os réus cometeram crimes 'legais' é que os seres humanos sejam capazes de diferenciar o certo do errado mesmo quando tudo o que têm para guiá-los seja apenas seu próprio juízo, que, além do mais, pode estar inteiramente em conflito com o que eles devem considerar como opinião unânime de todos a sua volta (...) Desde que a totalidade da sociedade respeitável sucumbiu a Hitler de uma forma ou de outra, as máximas morais que determinam o comportamento social e os mandamentos religiosos - 'Não matarás!' - que guiam a consciência virtualmente desapareceram. Os poucos ainda capazes de distinguir certo e errado guiavam-se apenas por seus próprios juízos, e com toda liberdade; não havia regras às quais se conformar, às quais se pudessem conformar os casos particulares com que se defrontavam. Tinham de decidir sobre cada caso quando ele surgia, porque não existiam regras para o inaudito." (ARENDT, 2019, p. 318) 


Refeição Cultural

Terminei a leitura do livro Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal (1963), de Hannah Arendt, livro que ela diz ser uma reportagem sobre o julgamento de Adolf Eichmann. Comecei a lê-lo em 18 de julho deste ano e a leitura se deu num dos momentos mais tristes da história do Brasil, um país dominado hoje pela banalidade do mal, expressão que faz parte do subtítulo do livro de Arendt.

Ao longo das trezentas páginas de relatos e reflexões de Arendt pensei muito em nosso cotidiano em meio ao regime nazifascista e totalitário que se apossou do país após o golpe de Estado de 2016. Neste momento, segundo semestre de 2020, percebo que as coisas vão piorar muito para o povo e para a parte da população que não compartilha dos ideais de maldade e corrupção do regime em vigor.

Estamos sós e sob ameaças diversas de arbitrariedades, já que não há mais instituições às quais recorrer em busca de justiça e de apoio para as coisas básicas da vida em sociedade, porque as principais instituições do Estado estão corrompidas e fizeram parte do golpe contra o povo e as melhorias que se desenvolviam após séculos de falta de oportunidades para os descendentes de escravos, a imensa maioria do povo mestiço brasileiro.

Mandam no país os poderes executivos, poderes judiciários e repressivos, poderes legislativos, imprensa comercial hegemônica concentrada nas mãos de poucas oligarquias e poderes de igrejas, esses poderes todos interligados e compostos por cerca de 1% a 5% do povo, enfim, pouquíssima gente que se apossou do Brasil no pós-golpe de 2016, talvez de forma mais concentrada que antes, se olharmos os quinhentos anos para trás. Estamos nas mãos deles. Se isso não for totalitarismo e se isso não for o mal banal e real para nós 95%, eu não sei mais nada deste mundo.

E este cenário catastrófico para o povo e para o Brasil já se dava desde o golpe, sob Temer, sob Lava Jato e sob Bolsonaro. A destruição se deu independente da pandemia de coronavírus, que veio para terminar com as parcas mobilizações que ainda ocorriam por parte do povo, em espasmos de revoltas quando o necrocapitalismo tinha algum evento mais visual como um cidadão negro assassinado à la George Floyd ou uma criança vitimada por alguma coisa. 

O fato concreto é que o 1% vive a paz dos cemitérios. E o sistema do mal vai agregando a massa servidora à normalidade bolsonarista, neoliberal e necrocapitalista. Quem não for aderente, que se cale, se mude ou desapareça.

É isso!

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


Decepção com os seres humanos e a sociedade




Não desisti da vida. Não sou ou serei suicida. Nem me deixaria matar. Ao mesmo tempo, acho que a vida tem que valer a pena. Sendo assim, temos que buscar a cada amanhecer as razões para a vida valer a pena.

Estou sem palavras. Já sentei em frente ao editor de textos algumas vezes e tive dificuldades para escrever o que estou sentindo em relação aos seres humanos e à sociedade humana.

Estou de saco cheio de hipocrisia, de saco cheio da passividade da classe trabalhadora e dos pobres perante os abusos e injustiças cometidos contra a imensa maioria da população do mundo.

Estou de saco cheio da manipulação dos seres humanos por parte de charlatães usando sua oratória para falar de deuses. Que miséria humana! Milhões de anos de sobrevivência entre as espécies para terminarmos como vacas em pasto.

E por falar em pasto, conseguiram estupidificar o povo brasileiro de uma forma tão exitosa que vão transformar toda a extensão de terra do Brasil, incluindo Amazônia, Pantanal e demais biomas em um imenso pasto e terras de grãos para alimentar o mundo desenvolvido. Povo miserável!

A tecnologia que inventamos acabou com séculos de organização social e com as democracias, democracias de faz de conta, mas que aprendemos a valorizar, mesmo sabendo que eram democracias controladas pelos donos do poder.

Não há mais democracia depois da criação das redes sociais e dos sistemas de algoritmos que transformaram a sociedade humana num jogo de cartas marcadas e de roletas viciadas num cassino. Antes do início do jogo, já sabemos que a banca vai ganhar.

Os mais fortes vencem. Os mais espertos vencem. Estamos miseravelmente sozinhos na natureza.

Estou muito decepcionado com os seres humanos. Muito. Perdi a fé no ser humano enquanto espécie. 

Quando estudei anatomia e o corpo humano mudei o meu conceito sobre os seres humanos. Passei a ter um respeito incrível por cada ser vivo, pelo quanto é fantástico um organismo vivo.

Quando me envolvi com os movimentos populares, principalmente o estudantil e sindical, me tornei uma pessoa mais humana, mais integrada à sociedade. As causas sociais, solidárias e civilizatórias, me salvaram de ter sido um adulto de merda, um bolsonarista, um lixo de direita.

E no fim, uns poucos humanos, bilionários e seus ideólogos (capitães do mato), gente que odeia o Brasil e os brasileiros, acabaram com décadas de avanços populares. E o povo não reagiu. Pelo contrário: aplaudiu! Gente miserável!

Estou decepcionado com tudo aquilo que me fez evoluir e ser uma pessoa melhor na vida adulta. Decepcionado com a esquerda, com o movimento sindical, com a classe trabalhadora que se deixa enganar e não reage para retomar seus direitos, com as pessoas crédulas que aceitam ser manipuladas por sujeitos que não valem absolutamente nada, canalhas sofistas.

Estou de saco cheio. A espécie humana não está merecendo durar muito tempo neste pálido ponto azul no Universo, como diz Carl Sagan. Se a ignorância, o ódio, a violência, o egoísmo venceram, e a maioria esmagadora dos 8 bilhões de animais humanos não reage contra os poucos humanos que nos dominam, então não merecemos nada melhor do que estamos tendo.

Saco cheio de farsas. Não há democracia e meus pares ficam de blá blá blá falando de democracias. Chega a ser ofensivo participar dessas enganações. 

Caminha-se para sermos vaporizados pelos vitoriosos do golpe de Estado, com Supremo, com tudo. Já vivemos sob a banalidade do mal e sob as "cortes de vencedores", pra usar uma expressão de Hannah Arendt ao apontar arbitrariedades formais no julgamento de Adolf Eichmann em 1961.

William

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

À la Benjamin Button... (6)


4 de julho de 2020. Nesse dia, acompanhava de forma virtual
os bancários de Brasília em seu Congresso da campanha salarial.

Refeição Cultural


Olhar para trás...

Ao olhar para trás, e tentar compreender as coisas do presente, a gente até consegue entender um pouco porque as coisas são como são. Mesmo assim, é difícil compreender que a ciência tenha avançado em todas as áreas do conhecimento e ao mesmo tempo nós tenhamos regredido tanto coletivamente, no sentido inverso do avanço das ciências.

A sociedade humana está doente, está cheia de ódio, de intolerância, de egoísmo e individualismo. As pessoas viraram robôs e agem de forma automática para quase tudo em nosso cotidiano de vida humana. Ao agirmos assim, mudamos a forma de utilizar nossa inteligência, nosso cérebro, que havia se destacado ao longo da evolução das espécies.

Sabemos que os instintos e comportamentos de manada tiveram seus papéis na preservação da vida das espécies também. Mas ao longo do tempo, nosso cérebro passou a fazer diferença e nos desenvolvemos como seres racionais e passamos a dominar a natureza, através da ciência e da tecnologia, ferramentas que os demais seres vivos não têm. Será que vamos permitir que os trogloditas acabem com a ciência e a razão?

Agora estamos andando para trás. Massas humanas são manipuladas por poucas pessoas e seus sistemas de manipulação. E a vida no planeta Terra está em risco sério por causa disso. Aqueles que nos dominam com seus sistemas tecnológicos não pensam no amanhã do planeta, só pensam em si mesmos e no instante presente.

Enfim, estou olhando para trás e ao mesmo tempo olhando para a frente. É verdade que o tempo não anda para trás, como no Curioso caso de Benjamin Button. Enquanto indivíduo, a gente fica pelo caminho a qualquer momento, já que um ser vivo morre a qualquer tempo. Enquanto espécie, quando temos consciência disso, deveríamos agir coletivamente para que outros indivíduos perpetuassem nossa espécie e a vida fosse melhor para todos.

Palavras, palavras, palavras... ao vento, ou registradas em algum suporte material.

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FACEBOOK

A partir das reflexões que tenho feito, chego à conclusão que a empresa Facebook, onde boa parte de nós brasileiros temos um perfil, pode ter tido um papel interessante para seus usuários, mas as coisas foram mudando, ou foram ficando mais claras e agora sabemos que somos manipulados e utilizados para programas de manipulação de comportamento social e destruição de sociedades inteiras, países, relações, instituições.

Fico pensando em como me livrar dessa dependência à porcaria do Facebook. Penso em como minimizar os efeitos deletérios que essa empresa faz com meus dados e minhas informações. Por que escrever no Facebook se eles programam seus algoritmos para que ninguém veja que eu existo, para que ninguém saiba o que estou publicando lá? Tudo o que eles querem são meus dados, os dados de meus contatos e informações comportamentais.

E assim nos destruímos e nos deixamos destruir. Vou andar para trás naquele espaço vil que nos manipula e entorpece e nos robotiza.

William

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Espero um dia não ter mais nenhum dado meu naquela conta da rede social que manipula o mundo com os meus dados e com os dados de meus contatos...

Havia postado lá...

27/7/20

CELSO FURTADO, RODA VIVA, de 9/02/87.

Furtado é uma referência de muitos de nós. Acabei de rever a entrevista dele na TV Cultura. Ele era Ministro da Cultura do governo Sarney.

Fico pensando a reação hoje, em tempos de "cancelamento" de pessoas, ao ouvirem ele dizer que se orgulhava do governo Sarney, um governo que, segundo ele, gerou crescimento e emprego, distribuiu riqueza, e era nacionalista...

Política sempre terá dessas contradições... E elas são importantes, temos que ouvir as pessoas e debater (e não "cancelar" ou acabar com as pessoas que pensam diferente).

Aprendi política assim.

24/7/20

VÍDEO DO HENRY BUGALHO, DE 23/7/20, COM O TÍTULO "JÁ EXISTIA ESSE ÓDIO ANTES?"

Comentei na rede social e nos comentários do vídeo do youtuber:

De onde vem o ódio que destruiu o Brasil? Bugalho, jovem filósofo que gosto muito, faz uma reflexão sobre isso. No entanto, eu fico muito incomodado desses blogueiros de grande alcança aliviarem a culpa da grande imprensa em relação à morte da política e ao envenenamento do povo brasileiro. Escrevi para ele neste vídeo a respeito disso. Abraços e tod@s.

"Olá prezado Bugalho. Em primeiro lugar, quero dizer que aqui em casa somos admiradores seus: eu, minha esposa e filho. Bugalho, às vezes me sinto incomodado ao ver você e alguns blogueiros com grande audiência não serem mais enfáticos em alguns temas relativos à grande imprensa. Neste vídeo, por exemplo, você reflete junto conosco se já existia este ódio atual em nosso país, mas em nenhum momento você se baseia nos ataques orquestrados e executados contra Lula e o PT, CUT, MST, UNE etc, ataques "ad nauseam" pelos barões dos grupos Globo, Abril, Estadão e Folha, muito claramente após a eleição de Lula em 2002, ataques ininterruptos e parciais, abusivos e criadores das chamadas fake news atuais, pois foram anos a fio criminalizando os movimentos sindicais, estudantis, dos sem-terra, sem-teto, partidos de esquerda, principalmente o PT e suas lideranças (existem trabalhos acadêmicos sobre isso, dezenas de capas de Veja, dezenas de horas de JN), construindo julgamentos públicos contra determinado setor da sociedade (a esquerda), o mais progressista, e omitindo qualquer coisa negativa em relação aos seus partidos e grupos empresariais (tucanos, a direita em geral). Pulitzer tem frases famosas dizendo que uma imprensa vil, canalha, tem o poder de fazer seus leitores vis e canalhas. Bugalho, nós não viraremos essa página da história se lideranças e formadores de opinião continuarem passando pano para esses bilionários da mídia que destruíram o povo brasileiro. Você já citou Klemperer em seus vídeos e a linguagem do 3º Reich. O que a Globo e a Veja, junto com Estadão e Folha fizeram em mais de uma década de governos do PT foi muito semelhante ao que Klemperer descreve naquele trabalho fantástico. É isso. É a minha opinião. Acho que vocês deveriam dar mais nomes aos bois, os responsáveis pela transformação dos brasileiros nesses bárbaros são os jornalões e TVs e revistas dessas famílias e banqueiros. Abraços a você e família. William Mendes."

04/7/20

ORGANIZAÇÃO DA CAMPANHA NACIONAL DA CATEGORIA BANCÁRIA

Novos tempos, novas formas de reuniões e encontros. Enquanto acompanhamos os debates virtuais dos companheir@s do Distrito Federal, vemos a lua chegando...

(Com a postagem, coloquei a foto acima, do final de tarde e início de noite daquele 4 de julho)


terça-feira, 1 de setembro de 2020

A banalidade do mal - Datas que marcam




"(...) na Romênia, até a SS ficou perplexa, e às vezes assustada, com os horrores dos pogroms espontâneos, antiquados, de escala gigantesca; muitas vezes eles intervieram para salvar judeus da mais pura barbárie, para que o assassinato pudesse ser feito de maneira que, segundo eles, era civilizada." (ARENDT, 2019, p. 210)


Refeição Cultural

Li mais um capítulo do relato de Hannah Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann no ano de 1961 em Jerusalém. A experiência de acompanhar aquele evento possibilitou à filósofa o desenvolvimento do conceito de banalidade do mal. Como se pode ver, o alimento cultural é indigesto, mas é necessário conhecer as coisas.

Ontem foi dia 31 de agosto, dia que marcou o quarto ano do impeachment da presidenta Dilma Rousseff (31/8/2016). Dia que oficializou a tomada do poder no Brasil pelo mal. Se houver sociedade civilizada no amanhã, essa será mais uma data como outras que a história registra como marcos de processos que levariam a tragédias humanitárias.

Hoje é dia 1º de setembro. Dia que marca o início da 2ª Guerra Mundial com a invasão da Polônia pelo regime nazifascista de Adolf Hitler em 1939. Há outras datas referidas como início desta guerra, mas esta é uma das mais consensuais pelos historiadores.

Por falar em banalidade do mal e nazismo, o dia 1º de setembro de 1939 também marcou a oficialização da palavra "eutanásia" na Alemanha nazista para assassinatos em massa de pessoas com deficiência e milhares de pessoas que eram consideradas pelos nazistas como indesejáveis de existir: judeus, comunistas etc.

Vejam abaixo uma citação do tema na Wikipediaprograma conhecido como "Aktion T4" (ver aqui o texto completo):

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Em outubro de 1939, Hitler assinou um "decreto da eutanásia" com a data retroativa a 1 de setembro de 1939, que autorizava Bouhler e Brandt a realizarem o programa de eutanásia (traduzido para o português como segue):

"O líder do Reich Philipp Bouhler e Dr. Brandt estão encarregados da responsabilidade de ampliar a competência de certos médicos, designados pelo nome, de modo que os pacientes, baseando-se no julgamento humano [menschlichem Ermessen], que forem considerados incuráveis, podem ser-lhes concedida a morte de misericórdia [Gnadentod] após exigente diagnóstico".

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Ainda sobre a banalidade do mal

No Brasil, a pandemia mundial do novo coronavírus já matou 121.381 pessoas e infectou 3,9 milhões. Isso não era necessário. Países com populações maiores ou idênticas a nossa perderam muito menos vidas porque os governos seguiram as recomendações da OMS e da ciência. Estamos sob um regime de governo de extrema direita, fascista e anticiência, que atua contra o combate à pandemia e que lidera a população rumo ao contágio e morte.

O regime demitiu dois médicos do Ministério da Saúde porque eles defendiam as recomendações da ciência e colocou no lugar mais um dos milhares de militares que tomaram conta dos postos do governo. A estratégia do novo regime é chocar com ações impensáveis para deixar o povo brasileiro com baixa estima e sem ânimo sequer para lutar. Nesta semana, o troglodita nomeou um veterinário para cuidar do tema de vacinação do povo brasileiro e afirmou que ninguém é obrigado a se vacinar.

Encerro por aqui e registro que 57.797.847 pessoas votaram nesses monstros que estão no poder e o apoio ao mal instalado no país segue acima de qualquer expectativa para uma sociedade que sonhasse com a civilidade. As pessoas ao meu redor são bolsonaristas. As coisas ainda vão piorar muito. A história ainda vai cobrar de cada homem e cada mulher a responsabilidade por toda essa destruição e por todo esse mal que tomou conta de nosso mundo.

Bolsonaristas e "isentões", as suas mãos estão cheias de sangue e suas histórias também.

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Alemanha de Eichmann e o Brasil pós-Golpe





"(...) uma velha lei de 1933 permitia que o governo confiscasse propriedade que tivesse sido usada para atividades 'hostis à nação e ao Estado'..." (ARENDT, 2019, p. 175)

"(...) terceiro, num decreto determinando que toda propriedade de judeus alemães que perdessem sua nacionalidade fosse confiscada pelo Reich (25 de novembro de 1941)." (ARENDT, 2019, p. 175)

"(...) 'o Ministério da Justiça só pode dar uma pequena contribuição ao extermínio [sic] desses povos'. (Essa linguagem aberta, numa carta do ministro da Justiça para Martin Bormann, chefe da Chancelaria do Partido, datada de outubro de 1942, é excepcional.)" (ARENDT, 2019, p. 175)


Refeição Cultural

Quatro horas da manhã. Não consigo dormir e me levanto. Pego o livro Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal (lançado em 1963), de Hannah Arendt. Retomo a leitura. Avancei mais dois capítulos: "Deveres de um cidadão respeitador das leis" e "Deportações do Reich - Alemanha, Áustria e o Protetorado".

Abro a janela da sacada e vejo o amanhecer. Nesses dias, o cantar de sabiás atravessa a noite e são eles que escuto ainda no escuro. Vejo os vultos que andam na penumbra lá embaixo. Mais um dia comum se inicia. Outros pássaros começam a cantar ou emitir seus chamados. A região tem joão-de-barro, bem-te-vi e outros mais.

O Estado alemão não trata de forma igual os cidadãos alemães. Segmentos inteiros da sociedade alemã são discriminados, perseguidos e sofrem todo tipo de absurdo. Após o início do governo de Adolf Hitler as coisas vão piorando cotidianamente. Judeus, comunistas, pessoas com qualquer tipo de deficiência física ou intelectual, oposições ao governo, quem pensa diferente, todos são alvo de perseguições.

Judeus não podem mais ocupar funções públicas, ser professores, servidores públicos. Depois não podem mais se casar ou se relacionar com os arianos. Depois não podem mais ter direitos básicos que os demais cidadãos têm. Tudo foi sendo normalizado. E a vida seguia normalmente para aqueles que não eram alvo das perseguições do Estado. Festas, casamentos, comemorações, diversões.

Os anos foram passando. Após 1933, veio 1934, depois 35 e 36 e o Estado nazista foi normalizando tudo. A linguagem alemã foi se adequando a toda barbárie. Matar milhares de pessoas com deficiência sob a denominação de "eutanásia". Depois matar adversários do governo com a mesma "eutanásia". Tomar as propriedades dos cidadãos que o Estado perseguia e considerava como indesejáveis. Tornar impossível a vida das pessoas... prisões, exílio, deportação...

E chegamos aos fornos e execuções em massa por fuzilamento nos diversos campos de concentração nazistas.

A banalidade do mal se dá através de um processo

No Brasil, fomos vendo acontecer absurdos atrás de absurdos após a população eleger para a presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Aqueles que viriam a apoiar o golpe de 2016 começaram a conspirar contra o governo de Lula desde o primeiro ano de seu mandato. As fake news (nome da moda para mentiras) já eram usadas contra Lula e o Partido dos Trabalhadores desde os anos oitenta.

Os barões das mídias e seus lacaios perseguiram por décadas as lideranças populares e dos trabalhadores brasileiros. Lula e o PT eram acusados de crimes absurdos como, por exemplo, o sequestro de empresário (com foto de sequestrador com camisa do PT em horário nobre). O PT era o partido que iria colocar um sem teto ou sem terra na casa de cada pessoa que tivesse uma casa própria. Que iria confiscar a poupança das pessoas (e no fim quem confiscou foi o Collor).

O chamado quarto poder, os meios de comunicação hegemônicos, dominado por algumas famílias de bilionários poderosos, tanto a mídia nacional quanto a local, nos estados e municípios, começou uma perseguição implacável ao partido do presidente Lula, eleito em 2002.

Como militante político, representante de trabalhadores, estudante de Letras, fui vendo tudo o que aconteceu no Brasil entre 2003 e 2020. O processo de envenenamento do povo, destruição da política e da democracia nos trouxe ao momento que vivemos hoje: o bolsonarismo. Sabemos quem são os responsáveis por essa tragédia. E eles estão livres, leves e soltos. 

Transformaram parcelas do povo brasileiro em bestas feras. Colocaram nos poderes constituídos através de eleições, monstros, gente criminosa. Gente má. O mesmo se deu em funções públicas providas por concurso ou nomeação direta. Normalizaram a maldade. 

O que há de pior galgou o poder estatal como consequência do processo de envenenamento do povo brasileiro. E não sabemos o que está por vir. Não se tem como prever os males após a abertura da caixa de Pandora. Falamos isso por anos.

O que sabemos é que o Terceiro Reich e o nazifascismo só acabaram após um guerra que matou dezenas de milhões de pessoas e destruiu dezenas de países na Europa e demais continentes envolvidos no conflito mundial.

O que vimos e temos acompanhado desde que todo esse processo de destruição do país começou, por parte dos poderosos que não aceitaram a democracia na vez de governos populares, o que vimos e vemos é que o Estado brasileiro, através de suas instituições, vem fazendo o mesmo que o Estado nazista fazia com seus cidadãos: perseguia, discriminava, prendia, confiscava bens, invadia a casa de pessoas. E pessoas morriam em consequência de ações do Estado.

O que tem de mais igual na Alemanha de Eichmann e no Brasil pós-Golpe é que o Estado brasileiro tem perseguido e sido injusto com certos segmentos da sociedade; para alguns, o rigor da lei ou até punição sem lei que sustente o ato e, para outros, tudo se é permitido, inclusive o que estaria proibido por lei. E isso vem piorando após o golpe de Estado e após as eleições fraudulentas de 2018. Não sabemos como isso vai terminar.

É impossível não lembrar o que o Estado brasileiro está fazendo com o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Todos os dias, meses e anos dos últimos anos, tudo o que vemos é idêntico ao que o Estado alemão fez com milhões de judeus. Mas cada judeu tinha nome, tinha endereço, tinha família, tinha uma história e o Estado tratava aquele segmento da sociedade alemã como um nada (ou pior, como inimigo). E os alemães assistiram a tudo isso...

Chega por hoje... O sol saiu. Ele está encoberto pelas nuvens da manhã. Mas já são oito horas da manhã de sexta-feira.

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Brasil, Eichmann e as categorias privilegiadas




"(...) 'Ninguém veio até mim e me censurou por nada no desempenho de meus deveres, nem o pastor Grüber disse uma coisa dessas', ele repetiu. E acrescentou: 'Ele veio até mim e pediu alívio para o sofrimento, mas não objetou de fato ao desempenho de meus deveres enquanto tais'. Pelo depoimento do pastor Grüber parecia que ele buscava não tanto o 'alívio do sofrimento' quanto a isenção para algumas categorias bem estabelecidas anteriormente pelos nazistas. Essas categorias haviam sido aceitas sem protestos pelo judaísmo alemão desde o começo. E a aceitação de categorias privilegiadas - judeus alemães acima de judeus poloneses, judeus veteranos de guerra e condecorados acima de judeus comuns, famílias cujos ancestrais eram nascidos na Alemanha acima de cidadãos naturalizados recentemente etc. - fora o começo do colapso moral da respeitável sociedade judaica..." (ARENDT, 2019, p. 148)


Refeição Cultural

Categorias privilegiadas... Colapso moral da respeitável sociedade...

Muito do que já li sobre o comportamento dos alemães durante o período nazista, ou seja, durante o regime do 3º Reich, sob a liderança de Adolf Hitler, nos passa a descrição do clima cotidiano que se vivia à época, entre 1933 e 1945, tempo de duração do regime que pensava que duraria mil anos.

O filólogo judeu alemão Victor Klemperer, sobrevivente dos campos de concentração, descreve o cotidiano da Alemanha nazista em seus diários, depois transformados no livro LTI - A linguagem do Terceiro Reich (de 1947). O nazifascismo normalizou a banalidade do mal. Transformou em algo normal e corriqueiro aquilo que jamais seria aceito por qualquer ser humano em qualquer sociedade considerada civilizada.

Ao ler o relato de Hannah Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann, já no início dos anos sessenta, e me encontrar no Brasil do ano de 2020 sob um novo regime de Estado, um regime que se estabeleceu após um processo de golpe de Estado que envolveu praticamente todas as instituições da velha república que havia, é impossível não identificar semelhanças entre os dois períodos: o do nazismo da Alemanha dos anos trinta e quarenta e o nosso mundo, tomado pelo mal de forma institucional e banalizada no cotidiano das gentes.

É por achar semelhanças entre os períodos de ascensão do mal em forma de governo que insisto em registrar algumas coisas, poucas, bobas, para quase ninguém, mas que devem ser registradas. Eu já escrevo neste blog há pelo menos 13 anos. O ideal inclusive seria imprimir e guardar os textos, distribuir cópias para alguns conhecidos, porque uma coisa virtual é mais frágil que uma vida humana. Uma ação qualquer de um terceiro e a coisa não existe mais (como a vida).

As categorias privilegiadas... colapso moral da respeitável sociedade...

Ao organizar o novo golpe de Estado contra a frágil e parca democracia brasileira, as elites privilegiadas desta ex-colônia de impérios não mediram as consequências e não avaliaram os riscos para tirarem do poder um Partido dos Trabalhadores que vinha melhorando a vida do povo "de forma lenta e gradual" e ao mesmo tempo vinha conciliando com essa mesma elite para que o país se desenvolvesse e distribuísse um pouquinho de benefícios aos milhões de brasileiros à margem da cidadania. 

E a consequência do golpe foi o que temos hoje. O crime organizado ascendeu ao poder de verdade. O que há de pior na sociedade ascendeu ao poder. Temos hoje como "normalidade" as coisas mais grotescas que se poderiam imaginar. Coisas que jamais seriam aceitas por qualquer sociedade considerada civilizada. Vivemos a mais dramática banalidade do mal na forma de governo, de Estado, e através de suas instituições. E nada acontece em relação a termos uma reação da sociedade civil. Nada!

As mentiras criadas (fake news e lawfare) para se destruir um partido e suas lideranças, um segmento da sociedade, um governo eleito democraticamente em 2002, 2006, 2010 e 2014, foram sendo repetidas e sustentadas por instituições da sociedade como mídia corporativa, ministérios públicos, órgãos de justiça, dentre outras instituições da sociedade, e agora vivemos o abismo, o colapso total. As vítimas não encontram justiça porque as instituições foram todas envolvidas e para se desfazer uma injustiça seria necessário rever todas as injustiças e mentiras mantidas pelas próprias instituições...

E com isso tudo que descrevi acima, normalizou-se as mentiras, o lawfare, a banalidade do mal, o privilégio das categorias privilegiadas. Estamos todos por nossa própria conta. Sozinhos. Milhões de pessoas que não fazem parte dos que apoiam ou pertencem aos grupos que ascenderam ao poder totalitário do Estado, e não sabemos o que fazer nesta situação.

Não temos mais instituições republicanas funcionando minimamente. Não temos mais leis para todos. O clima estimulado pelas classes dominantes no novo regime é o do ódio, da ignorância, o da carteirada... vivemos sob um novo regime totalitário. Se você não for adesista, se não for um deles, tudo pode contra você e os seus. E não adianta buscar justiça, porque ela é somente para os adesistas.

E teremos que sobreviver no meio disso tudo, e com ética, solidariedade e caráter, dimensões praticamente extintas pelo novo regime.

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Banalidade do mal, Eichmann e o Brasil pós-golpe





"(...) o programa de extermínio dos pavilhões de gás do Leste brotou do programa de eutanásia de Hitler..." (ARENDT, 2019, p. 123)

"A primeira câmara de gás foi construída em 1939, para implementar o decreto de Hitler datado de 1º de setembro daquele ano, que dizia que 'pessoas incuráveis devem receber uma morte misericordiosa'..." (ARENDT, 2019, p. 124)

"(...) O decreto foi cumprido imediatamente no que dizia respeito aos doentes mentais, e entre dezembro de 1939 e agosto de 1941, cerca de 50 mil alemães foram mortos com monóxido de carbono em instituições cujas salas de execução eram disfarçadas exatamente como seriam depois em Auschwitz - como salas de duchas e banhos..." (ARENDT, 2019, p. 124)


Refeição Cultural

Brasil, ano de 2020, mês de agosto, 5º ano sob o golpe de Estado que interrompeu a democracia brasileira, os governos pacíficos do Partido dos Trabalhadores e os avanços históricos para a classe trabalhadora e o povo pobre.

Entre o início dos anos dois mil e o ano de 2014 o Brasil vivia uma época de felicidade simples do povo brasileiro. A classe trabalhadora tinha emprego, direitos sociais e sonhos. E as oportunidades de ascensão social não eram em conta-gotas, eram com escala nacional (de Estado) porque era o governo federal e seus programas que criavam oportunidades para dezenas de milhões de cidadãos, cuja origem lá atrás, um século e meio antes, eram as senzalas, os quartos de fundo, cortiços e favelas, eram as mães negras e índias e os pais brancos.

Com os avanços sociais, tivemos avanços culturais, avanços nos direitos humanos, e mesmo sem conseguirmos eliminar as mazelas da colonização e dos mais de três séculos de escravidão e exploração do povo, a tendência era de avanços para um povo que nunca teve nada, sequer água e comida, um teto e acesso à educação básica (estão apagando os dados históricos, mas ainda é possível verificar os avanços entre 2003 e 2015). 

Aquela parcela da sociedade que já tinha em si o animalesco, a maldade com requinte, ou a indiferença - gérmen da banalidade do mal -, estava sob uma espécie de controle social - o politicamente correto - porque ao vociferar seus preconceitos e ódios racistas, misóginos, étnicos e de classe o julgamento de seus pares vinha na hora, a reprimenda e até a punição por força de legislação. E devagar, avançávamos para uma sociedade melhor.

Que maçante lembrar isso... aí vieram as manifestações de 2013 capturadas pela casa grande, a operação norte-americana de derrubar governos latino-americanos - Lava Jato -, as mídias comerciais no Brasil e a criação de fake news pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista) dentro do processo de lawfare contra o governo do Partido dos Trabalhadores, o impeachment sem crime da presidenta Dilma Rousseff (eleita com 54,5 milhões de votos) para entregarem o poder do país à camarilha mais vil e repulsiva na história de qualquer república já havida no mundo. E vieram as reformas que acabaram com direitos do povo e bens públicos. E veio a condenação e prisão sem crime algum do líder do povo Lula da Silva: 580 dias numa masmorra, sem crime algum. 

E as fraudes com apoio de parte dos 3 poderes que levaram ao poder um sujeito inominável. E não só ele. Uma base parlamentar - Câmara e Senado - com bestas feras eleitas propondo os maiores horrores que se possa imaginar. E bandos de ultradireitistas nos governos de Estados. Gente eleita comemorando assassinato de líderes comunitários como a vereadora Marielle Franco (RJ). A legião de fascistas e seres abomináveis foi eleita com as mentiras inventadas contra a esquerda e o Partido dos Trabalhadores no mês das eleições: hoje, de conhecimento público que mentiras resultaram em eleitos ilegítimos (zilhões delas), tudo público e documentado pelos órgãos do Estado e pela imprensa (aquela mesma que participou do golpe).

Há que se registrar a banalidade do mal em nosso cotidiano

Com nojo relembrei tudo isso acima. Mas é importante registrar que um trabalhador morreu ontem enquanto trabalhava numa rede de supermercados e cobriram ele com alguns guarda-chuvas por horas para que o comércio não interrompesse o atendimento.

É necessário registrar que já tivemos apresentador de jornal propondo fazer campos de concentração de pessoas por causa da pandemia do novo coronavírus.

Que o governo federal não tem ministro da saúde já faz meses e o país e o mundo vivem uma das maiores pandemias da história.

O vídeo de uma reunião ministerial do governo inumano deixou estarrecido os cidadãos que ainda não sofreram o derretimento cerebral e não aderiram à banalidade do mal vinda dos órgãos do poder estatal. O plano é "passar a boiada" enquanto estivermos sob a pandemia. Traduzindo, seria algo como: façamos todo o mal enquanto estamos em pandemia... (que já contaminou mais de 3 milhões de pessoas e matou 110 mil brasileiras e brasileiros). O governo diz ser uma "gripezinha".

E a gente lê estupefato a descrição de Hannah Arendt sobre o cotidiano dos 12 anos de governo de Adolf Hitler e o jogo de linguagem utilizado para levar uma nação a apoiá-lo nas atrocidades que cometeu.

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"Nenhuma das várias 'regras de linguagem' cuidadosamente inventadas para enganar e camuflar teve efeito mais decisivo na mentalidade dos assassinos do que este primeiro decreto de guerra de Hitler, no qual a palavra 'assassinato' era substituída pela expressão 'dar uma morte misericordiosa'..." (ARENDT, 2019, p. 125)
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Quão longe estamos de vermos "eutanásia" e "morte misericordiosa" aos índios do Brasil, aos camponeses dos movimentos dos sem-terra, aos cidadãos em condições de rua nas cidades, aos pobres e trabalhadores sem planos privados de saúde, aos cidadãos que são nominados e identificados como sendo de esquerda, ou comunistas, ou petistas, ou sindicalistas? Ou "antifascistas"? Quão longe estamos daquele ambiente de banalidade do mal descrito por Hannah Arendt e por Victor Klemperer em seu LTI - A linguagem do Terceiro Reich?

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Artigo de Carole Cadwalladr, sobre o Facebook


Apresentação:


Este é um blog de compartilhamento de ideias, sem fins lucrativos. Vez por outra, compartilho nele artigos de relevância, citando a fonte e o autor. É o caso deste excelente artigo publicado no site da Carta Maior, traduzido por Clarice Meireles. Sou leitor e parceiro de Carta Maior há muito tempo e recomendo que as pessoas se inscrevam naquela que é uma das principais fontes de artigos e opiniões progressistas e de esquerda do Brasil.

O artigo de opinião é de Carole Cadwalladr

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(reprodução de artigo do site Carta Maior)


Se você não está aterrorizado com o Facebook é porque não está prestando atenção

O Facebook e os EUA são hoje uma coisa só, e o mundo é um lugar mais doente por isso, diz jornalista que revelou o escândalo da Cambridge Analytica

Por Carole Cadwalladr

28/07/2020 - 11:36


Em 2016, nós não sabíamos. Éramos inocentes. Ainda acreditávamos que as mídias sociais apenas nos conectavam e que as conexões eram boas. Que tecnologia era sinônimo de progresso. E que progresso era sempre algo melhor.

Quatro anos depois, já sabemos demais. E, no entanto, parece que não entendemos nada. Sabemos que as redes sociais são inflamáveis e que o mundo está em chamas. Mas é como a pandemia. Entendemos, em linhas gerais, como as coisas podem piorar. Mas continuamos irremediavelmente humanos. Incansavelmente otimistas. Claro que acreditamos que haverá uma vacina. Porque tem que haver, não é?

No caso do Facebook, o pior já aconteceu, só não admitimos. Falhamos na maneira de lidar com o problema. E não há vacina a caminho. Em 2016, tudo mudou. Quanto a 2020... Bem, veremos.

Já atravessamos o equivalente a uma pandemia de redes sociais – um contágio descontrolado que adoeceu o espaço de notícias e informações, infectou o discurso público e, de forma silenciosa e invisível, subverteu os sistemas eleitorais. Não se trata mais de saber se isso vai acontecer novamente. Claro que vai. Não parou. A questão é saber se nossos sistemas políticos, a sociedade e a democracia sobreviverão – se podem sobreviver – à era do Facebook.

Já estamos através do espelho. Em 2016, um governo estrangeiro hostil usou o Facebook para minar e subverter sistematicamente uma eleição americana. Sem nenhuma consequência. Ninguém – nenhuma empresa, indivíduo ou nação – jamais foi responsabilizado.

Zuckerberg diz que Vidas Negras Importam e, no entanto, sabemos que Donald Trump usou as ferramentas do Facebook para retirar e negar deliberadamente o direito de voto de negros e latinos. Sem consequências.

E embora conheçamos o nome "Cambridge Analytica" e tenhamos ficado momentaneamente indignados com a cumplicidade do Facebook em permitir que dados pessoais de 87 milhões de pessoas fossem roubados e utilizados, inclusive pela campanha de Trump, uma multa de 5 bilhões de dólares foi paga, mas nenhum indivíduo foi responsabilizado.

E isso foi só nos EUA. Para nós, na Grã-Bretanha, há ainda um acerto de contas ainda maior por fazer. Sem Facebook, não teria havido Brexit. O futuro do nosso país – nossa nação insular, com seus mil anos de história contínua da qual nos orgulhamos – foi definido por uma empresa estrangeira que provou estar fora da jurisdição do parlamento.

Quem na Grã-Bretanha entende isso? Quase ninguém. Talvez o comitê de inteligência e segurança, que expressou seu espanto esta semana por não ter sido feita nenhuma tentativa de investigar interferências estrangeiras no referendo da UE. E talvez Dominic Cummings, o homem sentado no número 10 da Downing Street ao lado de Boris Johnson.

Dominic Cummings conhece o papel que o Facebook desempenhou no Brexit. Ele escreveu sobre isso. Em detalhes excruciantes ao estilo Cummings. Ele descreveu o uso deliberado de desinformação direcionado a indivíduos desconhecidos em escala nunca antes vista em uma operação eleitoral. Ele disse ter utilizado mais de um bilhão de anúncios no Facebook. A um custo de centavos por visualização.

Ele não fala sobre isso hoje, é claro. E embora o comitê de inteligência tenha apontado que as empresas de mídia “embora tenham o controle, não estão desempenhando seu papel”, também disse que “o DCMS nos informou que [CONFIDENCIAL]”. (N. da T.: DCMS é o Departamento de Digital, Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido)

O fato é que hoje sabemos que houve abuso sistemático da plataforma pelas campanhas Leave (pró-Brexit). Sabemos que brechas em nossas leis foram deliberadamente exploradas. E sabemos que essas ações foram consideradas ilegais e “punidas” por “reguladores” cujos “regulamentos” mostraram não valer o papel em que foram escritos.

O Facebook será usado para sabotar a eleição presidencial dos EUA em 2020? Sim. O Facebook será responsabilizado? Não. Estamos diante de um choque no sistema que mudará os EUA para sempre? Sim. Porque Trump ou ganhará essa eleição usando o Facebook ou a perderá usando o Facebook. Os dois resultados cheiram a desastre. No domingo, entrevistado por um repórter da Fox, ele se recusou a dizer se deixaria a Casa Branca caso perdesse a eleição.

Os EUA, a ideia dos EUA, está à beira do abismo. E no cerne frio e morto da missão suicida em que se encontra, está o Facebook. O Facebook e os EUA tornaram-se indivisíveis. Facebook, WhatsApp e Instagram são hoje o sistema circulatório da vida e da política americanas. Um sistema circulatório que está doente.

Como doente está o mundo todo, uma vez que o capitalismo americano serviu de vetor para infectar o mundo. “Liberdade de expressão” algoritmicamente amplificada e sem consequências. Mentiras espalhadas em alta velocidade. Ódio expresso livremente e compartilhado livremente. Ódio étnico, supremacia branca, nazismo ressurgente, tudo isso se espalhando invisivelmente, de modo furtivo, sem poder ser visto a olho nu.

Por Trump 2020, a banda voltou a se reunir. O principal cientista de dados da Cambridge Analytica, Matt Oczkowski, lançou uma nova empresa, a Data Propria, que está trabalhando com Brad Parscale, diretor digital da campanha de Trump em 2016. E Trump está testando os limites. Pode fazer anúncios com símbolos nazistas? Sim. (Foi retirado, mas já tinha alcançado milhões de visualizações.) Pode espalhar mentiras sobre fraudes em votos por correspondência? Sim. Pode ameaçar os manifestantes da Black Lives Matter com violência? Sim. Ele poderá usar o Facebook para contestar a eleição? É o que vamos ver.

Em um mundo onde não há consequências, o homem mau será rei. E uma empresa multinacional agressiva cujo modelo de negócios está ameaçado pelo oponente do homem mau, na melhor das hipóteses, está em conflito de interesses; na pior, é cúmplice.

Nesta semana, Mark Zuckerberg foi obrigado a negar ter um "acordo secreto" com Trump. "É uma ideia ridícula", disse. Fez eco, estranhamente, à sua reação em novembro de 2016, quando pela primeira vez foi sugerido que notícias falsas veiculadas no Facebook poderiam ter desempenhado um papel na eleição de Trump: "é uma ideia maluca", disse então.

Não era maluquice. Era verdade. Sabemos disso por causa do trabalho minucioso que o FBI e os comitês do congresso fizeram na investigação sobre interferências estrangeiras nas eleições americanas. Trabalho que nem começou no Reino Unido. O que descobrimos esta semana não foi um acidente. Foi por causa de outro populista que não queria que a verdade viesse à tona: Boris Johnson.

O Facebook também está no centro dessa história. É o Facebook que permite que países hostis como a Rússia nos ataquem em nossas casas. Uma guerra geopolítica travada bem debaixo de nosso nariz, em nossos bolsos, em nossos telefones.

Este é o mundo do Facebook agora. E nós vivemos nele. E se você não está aterrorizado com o que isso significa, é porque não está prestando atenção.

Tradução de Clarisse Meireles

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Eichmann nos lembra o novo regime do mal





"Se o que Eichmann cometeu foram atos de Estado, então nenhum de seus superiores, muito menos Hitler, chefe de Estado, poderia ser julgado por qualquer corte..." (ARENDT, 2019, p. 109)

"Ele nunca assistiu efetivamente a uma execução em massa por fuzilamento, nunca assistiu ao processo de morte pelo gás, nem à seleção dos mais aptos para o trabalho - em média, cerca de 25% de cada carregamento -, que em Auschwitz precedia a morte. Ele viu apenas o suficiente para estar plenamente informado de como funcionava a máquina de destruição..." (ARENDT, 2019, p. 105)

"(...) a 'regra da linguagem' que, no seu caso, foi a mentira de uma epidemia de tifo inexistente no campo de concentração de Bergen-Belsen, que os cavalheiros também queriam visitar. O efeito direto desse sistema de linguagem não era deixar as pessoas ignorantes daquilo que estavam fazendo, mas impedi-las de equacionar isso com seu antigo e 'normal' conhecimento do que era assassinato e mentira..." (ARENDT, 2019, 101)


Refeição Cultural

Escrevo e registro ao modo de imprecador...

Ia começar a postagem quando parei para tomar café da manhã com minha esposa. Temos o hábito de ver um ou dois vídeos de fontes progressistas enquanto comemos. Como os vídeos abordaram o país e o bolsonarismo, e a normalização do mal, fiquei bem deprimido, com um aperto no coração e na região adbominal. Tinha acabado de ler várias páginas do relato de Hannah Arendt sobre o julgamento do nazista Adolf Eichmann e já estava tocado pelo absurdo do mal ter sido o normal durante os regimes fascistas do século passado.

Como chegamos a isso? Como chegamos ao bolsonarismo? É uma pergunta retórica. A pequena parcela da sociedade que pensa, que tem formação e consciência política sabe como chegamos a essa barbárie. O ódio e o medo foram projetos de dominação da casa grande dessa ex-colônia. E o PIG (Partido da Imprensa Golpista) foi grande responsável por chegarmos onde chegamos. 

A parte que pensa da minha geração - ou que não é indiferente - viu o envenenamento do povo brasileiro por parte da imprensa empresarial e totalitária, com milhares de capas, manchetes, horas de TV e rádio com matérias mentirosas contra um segmento da sociedade: a esquerda e suas lideranças. Não há inocência alguma, nem isenção no que estamos vivendo: foi projeto e a abertura da Caixa de Pandora é o resultado.

A parcela da sociedade que lê, que escreve, que estuda e conhece história, sabe como chegamos a isso. Não sou escritor. Não sou escrevente. Acredito que seja ao menos um escrevinhador, alguém que anota, registra, que utiliza a capacidade humana da linguagem para registrar a história.

Um dos vídeos que vi durante o café mostrava um jovem da idade de meu filho vociferando bobagens contra a esquerda, chineses, a invenção da Covid-19... e demais loucuras inventadas pelas fake news, e aquele rapaz estava absolutamente dominado pelo ódio, sem a menor capacidade de reflexão ou razão. É assustador porque aquele rapaz poderia cometer qualquer desatino com aquele ódio todo. 

Difícil... difícil seguir. Mas temos que seguir, temos que resistir, que sobreviver e construir um novo amanhã. 

O sol ainda brilha e aquece todas as manhãs

Sair para buscar pães, mesmo com o "novo normal", com máscaras na cara por causa da pandemia, e sentir o sol aquecendo seu corpo é algo indescritível, inclusive por causa da simplicidade da coisa. O sol. O calor do sol te envolvendo como um abraço caloroso. Em tempos de carência de abraços, o abraço do sol é acalentador.

Tempos estranhos. Passamos a vida toda sabendo que os cachorros tinham que colocar focinheira para andarem com seus donos. Vejam a cena nesses tempos. Os donos têm que colocar focinheira para andarem com seus cachorros. Tempos estranhos.

Vou seguir registrando. Acho que é necessário. Viver pode não ser preciso, mas registrar é necessário. Sabemos do passado porque registros chegaram até nós. Parece que cada vez somos menos leitores, escritores, escrevinhadores. Os novos tempos com redes sociais, venenos diários de ódio e medo por imagens, fake news em memes, reduzem os que pensam, os que escrevem, os que leem. Os que registram.

Vou ao estilo de imprecador. Vai que eu viva muitos anos ainda. Vai que eu viva até os 81 anos. A geração de meus pais nasceu quando o mundo enfrentava o nazifascismo. A geração de meus pais viu Eichmann ser julgado e condenado. A minha geração viu Pinochet ser preso pelas acusações de corrupção e violações a direitos humanos. (o ditador faleceu por infarto e "inimputável" por "questões de saúde")

A vida humana é frágil, e nos tempos atuais são grandes os riscos de morte natural ou por causas externas. Mas fica minha imprecação: vai que eu esteja vivo na próxima década, nas próximas duas décadas... pode ser que eu veja julgados e condenados esses criminosos que estão destruindo nosso país e matando nossa gente.

Acalme o coração. Não deixe o desespero, a raiva, a tristeza dominarem sua essência e matarem seu corpo. Amanhã é sempre outro dia.

William
Escrevinhador


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Eichmann, o mal no Brasil, e o silêncio dos cínicos




"(...) ele já havia sido informado da ordem do Führer para a Solução Final. Tornar o país judenrein na data que Heydrich prometera em relação à Boêmia e à Morávia só podia significar concentração e deportação para pontos de onde os judeus poderiam ser enviados com facilidade para campos de extermínio." (ARENDT, 2019, p. 97)

Refeição Cultural

Registrar nossas impressões e nossas histórias pessoais é preciso. Os acontecimentos que observamos para além da pauta dominante são fatos da vida do povo nas sociedades. A pauta que hegemoniza é a dos donos dos meios midiáticos que estabelecem o que deve ser visto, ouvido e falado e o que deve ser invisibilizado. 

Como se já não fosse difícil para aqueles que combatem a exploração humana e lutam por um mundo mais justo e solidário lidar com as fake news dos meios formais seculares - jornais, revistas, rádios e TVs de barões políticos e bilionários -, agora temos que lidar com as fake news de mídias sociais manipuladas por algoritmos e legiões de robôs (tudo alimentado e mantido com muito dinheiro, que só os capitalistas donos do poder têm).

Por que parte dos seres humanos foram caracterizados como seres subumanos, coisificados, definidos como descartáveis, depois ampliado o conceito de descartáveis para odientos e indesejáveis e, por fim, classificados como algo necessário de extermínio, sendo assassinados em guetos e campos de concentração por fome, doença, tiro, gás e fornos de cremação? 

Porque enquanto esse processo ocorria, de forma planejada e racional, as pessoas e as instituições não fizeram nada para impedir que o processo avançasse. Enquanto se planejava e executava o mal, as pessoas viviam o seu cotidiano bom ou ruim "normalmente". Essa banalização do mal ocorreu na Alemanha de Adolf Hitler. Essa banalização do mal está acontecendo no Brasil, que eu não sei nem como nominar. Brasil do bolsonarismo? 

De onde vem essa gente bárbara, ignorante, indiferente, cínica e má que sociólogos e demais estudiosos reúne sob a alcunha de "bolsonarista"? Nome emprestado por um sujeito que passou três décadas na política, no baixo clero, e que marcou definitivamente o domínio do mal no país ao enaltecer no plenário do Congresso Nacional o nome do torturador da presidenta do país, que passava por novo processo de tortura (caçada e cassada por um sistema de ódio machista e misógino montado contra ela). O sujeito não saiu preso naquele dia e, dali adiante, todo mal era permitido e incentivado.

Já registrei cinco parágrafos dessa refeição cultural indigesta que a casa grande nos enfiou goela abaixo nos últimos anos. Que saco isso! É impossível não pensar em todas as semelhanças entre o processo de nazificação do povo alemão e o processo de transformação do povo brasileiro nisso que se chama hoje bolsonarismo. 

Hannah Arendt e Adolf Eichmann fazem parte da história humana. Se tomo conhecimento dos debates ocorridos no julgamento tardio daquele nazista, nos anos sessenta, acusado de cometer crimes contra a humanidade, é porque a filósofa escreveu, registrou o que viu e ouviu e apresentou seus pontos de vista. Conhecemos o passado através dos registros que chegam até nós. Aliás, será que saberíamos algo do passado se os registros fossem feitos em algum material que não resistisse ao tempo? (exemplo, um link de internet que registra e depois virá "error" por não existir mais)

Disse no primeiro parágrafo sobre a importância em se registrar os fatos, as impressões, a história, nem que seja a história pessoal. Não fosse assim, eu não teria lido os diários da garota judia vítima do nazismo, Anne Frank (ler comentário aqui). Não fosse assim, não teria lido a descrição do desenvolvimento do sistema nazista através da linguagem e da comunicação que o filólogo Klemperer nos legou como lição de história (ler comentários aqui).

A banalidade do mal no Brasil foi um projeto para interromper a melhoria de vida do povo através dos mandatos do Partido dos Trabalhadores

A banalidade do mal foi se instalando no Brasil e nas pessoas como um projeto da casa grande, que percebeu que não ganharia mais eleições presidenciais após derrotas sucessivas para o Partido dos Trabalhadores. O envenenamento das pessoas com ódio e medo, ódio à política e a um segmento da sociedade, foi idealizado pelos meios midiáticos e pelos capitalistas e seus ideólogos ano após ano a partir do advento de governos democráticos de esquerda, que distribuíam um pouco da riqueza do país para os pobres e trabalhadores, em processo de paz. Basta ver a melhora do Índice de Gini entre 2002 e 2013, que avançou de 58,6 para 52,9. 

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Importante: a esquerda governou sem autoritarismo, sem perseguir ou tentar eliminar os adversários políticos. Lula e Dilma conviveram democraticamente com todos aqueles que passaram todo o período atacando a eles, denunciando e até inventando mentiras contra eles (fake news). Respeitaram as leis e promoveram avanços na educação, saúde, economia, soberania nacional, direitos sociais, tudo com inclusão das classes populares.
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Ainda sobre a importância em se registrar as coisas em tempos de banalidade do mal, processos de lawfare contra lideranças populares e fake news. Quando fui a bola da vez nesses processos de assassinato de reputações de lideranças, e montaram contra mim um processo duríssimo de assédio moral e tortura psicológica por meses, os registros públicos e transparentes de meu mandato foram importantes para nossa defesa administrativa e jurídica, pois cada mentira contra mim era desfeita nos autos através de registros públicos. Meu blog de prestação de contas aos trabalhadores me salvou do processo de assédio e lawfare.

Chega por hoje. Ao ver o silêncio e a paz dos cemitérios dos meios midiáticos empresariais para a destruição do patrimônio público - Petrobras, BB, Caixa, Correios, Eletrobras etc -, dos direitos sociais do povo brasileiro, silêncio para a normalização da morte dos pobres através da Covid-19, para o extermínio dos povos indígenas, das florestas e biomas brasileiros e toda a tragédia que vivemos, não tem como não lembrar dos cenários que estudamos a respeito da Alemanha de Adolf Hitler, que foi cometendo crimes em 1933, 1934, 1935, 1936... e os cidadãos alemães não faziam nada, nem os líderes e países do mundo.

William


Bibliografia:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.