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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Mãe, parabéns pelo seu aniversário!



Quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Hoje minha mãezinha completa 78 anos de idade. Liguei para ela logo cedo. Parabéns e muitas felicidades, mamis!

Recentemente, entreguei para minha mãe o livro coletivo "Querida Mãe!, que fizemos em homenagem às mães. Tive a oportunidade de ser um dos autores do livro. Os textos dos filhos e filhas para as mães são textos muito legais. Livro lindo e cheio de amor e vida!

Parabéns à Cleusa Slaviero que organizou o livro para nós! Obrigado!

Disponibilizo nesta postagem o texto que fiz para a minha mãe.

William

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Mãe

Ao pensar o que poderia escrever sobre a minha mãe, busquei na memória fragmentos de lembranças que significassem momentos marcantes na nossa vida, na dela e na minha, lembranças de nós dois: uma cumplicidade, uma felicidade, um segredo, uma tristeza só nossa.

As primeiras lembranças que me vieram à memória foram a da mãe que aceitou a partida do filho antes dos 18 anos e a cumplicidade ao me ouvir falar, anos depois, as coisas mais tristes que uma mãe poderia ouvir de um filho e silenciar respeitando a decisão que eu viesse a tomar naquele momento de fúria e depressão. Aquele silêncio de só ficar ao lado da pessoa querida.

É impossível saber a dor que causei à minha mãe ao dizer a ela que não queria mais viver aos vinte e poucos anos... o silêncio de minha mãe naquele momento talvez tenha sido a única coisa a fazer. E pensar que ter filhos era o sonho de meus pais. Minha mãe tinha “útero infantil” diziam a ela, e meus pais perderam alguns filhos em abortos espontâneos. Imaginem a dor. A única gravidez que “vingou” foi a que me colocou no mundo, e isso depois de adotarem a minha irmã.

As histórias das mães neste duro mundo humano hegemonizado pela força e pela violência dos homens são sempre histórias únicas. Fiquei pensando em algumas mães que conheci ao longo deste meio século de existência... São histórias incríveis. A história da mãe de meu filho é uma dessas histórias duras e de superações... Como as mães são guerreiras poderosas neste mundo! Seres de potências muito mais complexas que as do universo masculino.

Eu passei boa parte de minha vida adulta procurando respostas para perguntas que sequer conseguia formular direito. Fui caminhando entre tristezas e fúrias da adolescência até quase 30 anos de idade. Aqueles momentos de cumplicidade de minha mãe, de só ficar ao lado, aguentando as minhas dores em silêncio (imaginem as dores dela!) devem ter me tocado para sempre de alguma forma. Superei aquela fase e nunca mais pensei absurdos que magoassem as pessoas que me amavam.

Além da própria vida que ganhei mais de uma vez de minha mãe, que poderia contar sobre ela que tenha de alguma forma contribuído para eu chegar até aqui? A fé inabalável dela, a honestidade, a vontade de viver por saber que nós precisamos dela conosco neste mundo. Há décadas temos esse compromisso velado de nos mantermos vivos porque uns precisam dos outros.

Já concluí muitas vezes em meus registros de memórias que devo ter sobrevivido à adolescência em lugar miserável e violento porque a educação católica de minha mãe deve ter contribuído para eu não fazer as mesmas bobagens que as pessoas faziam ao meu redor. E a honestidade de não querer pegar uma agulha que não fosse minha também vem dela. O chocolate que peguei e saí sem pagar num supermercado quando criança nunca saiu de minha cabeça. Aquilo bastou para entender o que minha mãe nos ensinava.

Enfim, como somos natureza, estamos todos envelhecendo, ela e eu e todos nós. A gente segue com aquela natureza aguerrida de não se deixar morrer de jeito nenhum porque precisamos uns dos outros.

O que eu torço é para que ainda dure muito essa nossa possibilidade do existir, porque aprendi, ao sobreviver aos tempos de fúria, que a vida é uma oportunidade, que viver é bom, ainda mais quando se ama e quando se é amado. Eu trato sempre de estar amando para manter meu vínculo com a existência. Tenho me esforçado para ser uma pessoa melhor a cada dia e, talvez assim, ser amado também.

Te amo, mãe!

William Mendes

Do Blog Refeitório Cultural


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Livro: Mulheres são tudo isso e muito mais - Org. Cleusa Slaviero



Refeição Cultural

Osasco, 25 de abril de 2024. Quinta-feira.


As crônicas e artigos do livro Mulheres são tudo isso e muito mais (2024) são emocionantes, marcantes e de arrepiar leitoras e leitores. Os relatos, as histórias e as confissões constantes nos textos me fizeram pensar muito, me peguei refletindo sobre vários deles.

O livro é mais uma coletânea organizada pela excelente editora Cleusa Slaviero e sua equipe. Nesta edição com a temática relevante sobre as mulheres, tive a oportunidade de ler contribuições de companheiras que conheço de longa data, e que textos potentes! 

O projeto de livros coletivos, da Editora ComPactos, é uma ideia muito legal. Eu conheci o trabalho através da companheira e amiga Marisa Stedile, grande liderança da classe trabalhadora, ex-presidenta do Sindicato dos Bancários de Curitiba e região. Aliás, os artigos que ela nos presenteia nos livros são sempre impactantes. Nesta edição, não foi diferente!

Ao escrever minha contribuição, pensei muito no quanto eu fui me modificando como homem e cidadão ao longo de décadas por influência de mulheres que marcaram minha vida e me ajudaram a ser o que sou hoje. A educação e a formação política me ajudaram a superar os anos de fúria e ignorância. Sou grato por isso.

Os ambientes aos quais estive exposto indicavam um caminho de violência, machismo e intolerância: o próprio lugar onde nasci, o Brasil da ditadura, o Brasil da escravidão longeva e do racismo estrutural, o país que mais mata pessoas trans no mundo. Fui salvo por minha mãe, e depois fui sendo salvo a vida toda pelas veredas que peguei, sempre influenciado por uma mulher potente.

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AS MULHERES DEVEM ESTAR NOS LUGARES QUE QUISEREM E COM CONDIÇÕES PARA ISSO

A temática do livro é fundamental num momento de disputa de hegemonia mundial sobre as ideias que dominam a pauta e a agenda da comunidade humana. 

Ao mesmo tempo em que vemos avanços nas pautas das discussões identitárias e de gênero, resultado de séculos de enfrentamento feminino ao mundo do macho alfa branco proprietário dos meios, vemos retrocessos inaceitáveis nas conquistas e nos direitos das mulheres, retrocessos pautados pela extrema-direita mundial, disfarçada nas mais variadas formas em cada sociedade.

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JÁ IMAGINARAM HOMEM REIVINDICANDO DIREITO AO PRÓPRIO CORPO? (para além da questão de pessoas escravizadas)

Peguemos como exemplo a questão do direito ao próprio corpo, um debate secular da pauta de gênero. A questão de interromper ou não uma gravidez indesejada ou com risco de morte para a mãe. Fico imaginando qual seria a posição e o comportamento dos homens caso eles engravidassem... 

Já imaginaram como seria tratada a questão do aborto caso a forma de reprodução nos animais mamíferos homo sapiens se desse através de beijo na boca? 

Se a reprodução humana ocorresse tanto em corpos de homens como de mulheres e a forma de concepção fosse através de trocas corporais pela boca? 

Será que existiria alguma divergência na sociedade sobre interrupção ou não de gravidez se homens de repente se pegassem grávidos?

Pois é! Imaginar a questão da gravidez em homens é para exercitar a antiga forma de se colocar no lugar da outra pessoa para tentar se sensibilizar com o que as outras pessoas sentem ou enfrentam nos dilemas diários da vida humana.

Nunca me esqueço dos ensinamentos que aprendi no movimento sindical sobre as diversas temáticas identitárias. 

RACISMO - Um branco como eu jamais vai saber o que uma pessoa negra como minha irmã, por exemplo, sentiu ou sente todas as vezes ao longo de sua vida em que ela foi ou é vítima do racismo nojento dessa sociedade brasileira hipócrita na sua parte que não reconhece o racismo estrutural vigente há séculos.

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CRÔNICAS QUE NOS FAZEM REFLETIR E QUE NOS EMOCIONAM

Enfim, exemplifiquei duas questões cotidianas na vida das pessoas em convívio social, a questão de gênero e a questão do racismo.

O livro veio num momento central de nossa história humana. A temática foi certeira. Cada um dos trinta textos mexe com a gente.

Recomendo a leitura e parabenizo todas as pessoas envolvidas no projeto.

William Mendes

25/04/24

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Leitura: O Brasil voltou (2023)



Refeição Cultural

Osasco, 20 de dezembro de 2023. Noite de quarta-feira.


"Reafirmamos nosso apreço ao Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire, ao afirmar que 'a esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. Sem ela, não haveria história, mas puro determinismo. Só há história onde há tempo problematizado e não pré-dado. A inexorabilidade do futuro é a negação da história'." (Denise e Giovani Costa Ceroni)


A leitura dos artigos do livro O Brasil voltou, organizado por Cleusa Slaviero, foram lidos por mim agora em dezembro, ao completarmos o primeiro ano do governo Lula. 

Quando fizemos os textos entre o final do ano passado e os primeiros dias deste ano, tivemos como tema central a vitória de Lula e a derrota do regime fascista e de morte que havia se instalado no Brasil com aquelas eleições fraudulentas em 2018, quando um complô envolvendo agentes públicos, donos do poder econômico e forças externas do imperialismo prenderam Lula numa masmorra em Curitiba.

Os textos são uma mescla de desabafos, histórias da campanha extraordinária que fizemos para eleger Lula e derrotar Bolsonaro, os textos são declarações de amor ao Brasil, ao povo brasileiro, ao presidente Lula. Os textos são mensagens de esperança e de fé num amanhã melhor para todos nós.

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"Sócrates, Olga Benário, Pepe Mujica, Mandela, Gandhi, Martin Luther King, Lula, Jesus Cristo. Os prisioneiros mais livres da história. Não se aprisiona mentes livres! Aprisionam o corpo. Porém, as ideias, os pensamentos e a mente permanecem livres!" (Antonio D. Santos)

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Lendo o livro após o primeiro ano do 3º governo do presidente Lula, podemos afirmar sem receio de exagerar que nosso estadista humanista fez o possível para cumprir os compromissos que assumiu com o povo brasileiro. 

Imagino, no entanto, que o presidente deve ter ficado espantado com o quanto o cenário encontrado foi pior do que se poderia intuir. Até ele com a experiência que acumulou na política deve ter ficado chocado com tanta destruição de tudo, do desfazimento das bases do Estado brasileiro.

Eu tenho uma opinião construída aos poucos, através de leituras, estudos, reflexões e avaliações, que o Brasil passou por uma revolução! Não nos demos conta disso. 

O golpe de Estado em 2016 e a sequência de acontecimentos dos quais fomos vítimas, incluindo a chegada ao poder daquele monstro e seu clã e sua corja de gente do mal, equivaleram pelos resultados e consequências a uma revolução conservadora e reacionária no Brasil. Tudo foi alterado e se conseguirmos refazer os desfeitos será após um bom tempo de reconstrução.

As instituições do Estado estão contaminadas, estão tomadas por gente que pertence às ideias e ideologias do regime que ocupou o país por sete anos, os três do traidor e os quatro da máfia que se apoderou do poder formal do país.

Não vou me alongar nesta avaliação pois não é este o foco desta postagem, mas registro o que tenho claro como alguém que viveu a política por dentro e que estuda nosso país e nossa história sob o ponto de vista da classe trabalhadora.

E sendo assim, avalio que Lula não decepcionou as esperanças dos articulistas do livro. Porém, muitos articulistas devem ter compreendido que será bem complicado refazer parte do que foi destruído. Pois não temos correlação de forças para isso.

Meu artigo falava da oportunidade de não estarmos mais quatro anos sob aquele regime do mal, da oportunidade de termos Lula na presidência, sem termos que enfrentar a destruição de nosso mundo partindo do Planalto Central. Deixei abaixo minha contribuição para as pessoas que não têm o livro.

Lula fez o que foi possível logo nos primeiros meses, e fez a política como poucos sabem fazer para trazer para nós mais algumas conquistas. Mas eu avalio que nossos inimigos estão articulados e que o risco é enorme nos próximos três anos.

Estejamos atentos e vamos para as ruas e vamos organizar o nosso lado melhor no próximo ano, é o que espero e desejo.

Os textos são emocionantes e nos alimentam as esperanças. Tem muita gente boa por aí, apesar de vermos mais do que gostaríamos as pessoas que abraçaram o mal como forma de vida.

Tenho alguns volumes do livro. Caso algum leitor ou leitora do blog tenha interesse, me avise por mensagem. 

William


Post Scriptum: o comentário sobre o livro anterior de artigos que fizemos pode ser lido clicando aqui.


Bibliografia:

SLAVIERO, Cleusa (org). O Brasil voltou. Diversos autores e autoras. 1ª edição - Curitiba, PR: Compactos, 2023


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Artigo

A ELEIÇÃO DE LULA É UMA OPORTUNIDADE

Ao elegermos Lula presidente do Brasil no dia 30 de outubro de 2022, superando a maior máquina de corrupção eleitoral da história do Brasil e quiçá do mundo, nós criamos uma oportunidade de fazermos algumas coisas que precisam ser feitas pelo bem do Brasil e do povo brasileiro, pelo bem da humanidade e do planeta Terra.

São só quatro anos, mas são quatro anos! Façamos, então, o que tem que ser feito. A oportunidade é única!

Pelos próximos quatro anos não virá do poder central a ordem de destruir tudo em relação à natureza e aos nossos biomas como a Amazônia, o Pantanal e os nossos milhares de quilômetros de litoral. Não virá do poder central a ordem de invasão e agressão às terras de nossos povos indígenas e quilombolas e áreas de reservas ambientais.

A eleição de Lula é uma oportunidade de nossa metade da população brasileira - aquela que não abraçou o que significa o mal bolsonarista - de se organizar e cobrar do governo federal o refazimento e fortalecimento dos órgãos de proteção, fiscalização e controle do meio ambiente.

Serão quatro anos para engajarmos pessoas na defesa do meio ambiente. Se essa luta não for popular, a natureza não terá chance alguma, e a questão central do clima será uma causa perdida, e perdidos estaremos todos nós seres vivos deste planeta.

A eleição de Lula é uma oportunidade pelos próximos quatro anos de reconstruirmos as bases do sistema de educação pública em todos os níveis, é uma chance das universidades e escolas técnicas e centros de pesquisas seguirem existindo e com autonomia. É uma chance para o desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil. É uma chance para o Sistema Único de Saúde e para o cuidado dos 215 milhões de cidadãos brasileiros!

É uma oportunidade para milhões de adolescentes, jovens e adultos que foram pegos no meio do caminho pela destruição bolsonarista. Quanta gente estava estudando e parou, estava estudando e desanimou, iria estudar e desistiu? Gente que poderia mudar sua vida através da oportunidade da educação e ficou pelo meio do caminho, gente que entristeceu, deprimiu, empobreceu, que encontrou no álcool o refúgio pelo abandono da perspectiva da educação. Quanta gente!

A eleição de Lula é uma oportunidade pelos próximos quatro anos, é a esperança na educação. É a esperança de reduzir a destruição do meio ambiente. É a esperança na recuperação e criação de direitos sociais básicos para o exercício da cidadania plena pelo conjunto da população brasileira. É uma chance para combater a fome e para recuperar as políticas sociais e afirmativas. É uma chance de combate ao preconceito, que gera discriminação e desigualdade social.

Então, aproveitemos essa oportunidade! Façamos a nossa parte! Estudemos todos os dias! Nos engajemos nas questões sociais! Que nos unamos pela educação, por um bom desempenho nas conferências que Lula organizará para incluir a população nas decisões sobre que sociedade queremos. A outra metade - a que aderiu ao mal - mostrou que está viva e atuante. Por mais que tentemos resgatar relações e pessoas, uma parte da sociedade seguirá na seita bolsonarista e negacionista.

Lula é uma oportunidade de construir um país e um mundo melhor. Façamos dessa oportunidade conquistas pelos próximos quatro anos.

William Mendes

Blog Refeitório Cultural

Osasco - SP


sábado, 22 de julho de 2023

Leitura: Quatro anos nas sombras (2022)



Refeição Cultural

Osasco, 22 de julho de 2023. Sábado.


LER PARA PRESERVAR NOSSA HUMANIDADE

Ler, ler para preservar uma habilidade desenvolvida pelo animal humano há milhares de anos. Ler para preservar meu cérebro, a essência do que sou. A linguagem humana é inata, a escrita não é, ela é uma invenção da mente humana.

Ao observar o presente suspeito que chegará um dia no qual os humanos não lerão mais nada (a maioria, não a totalidade, como nos primórdios da escrita). Nem sei se os animais humanos não leitores desse suposto dia no futuro poderão ser chamados de homo sapiens como se deu no passado e no presente. 

Afinal, o que nos faz humanos? Uma das características que nos diferencia dos demais animais é o nosso cérebro de 86 bilhões de neurônios e nossa capacidade de linguagem. O cérebro humano e a sociedade humana deram um salto evolutivo quando a linguagem passou a ser registrada. 

E não estou sugerindo que as sociedades tradicionais e ou originárias ágrafas não eram compostas por homo sapiens. Todos os grupos humanos do passado e do presente participaram cada um à sua maneira da evolução da espécie humana. A evolução através da linguagem escrita se deu de forma diferente no planeta Terra.

Tem dias que eu consigo ler mais. Tem dias que eu quase não consigo ler. Tem dias que leio de forma insatisfatória, leio sem aquela concentração e reflexão que Paulo Freire ensina sobre a leitura (comentário aqui), sobre a qualidade da leitura (também aqui). No entanto, tento ler todos os dias, "aunque sean los papeles rotos por la calle" como nos conta Miguel de Cervantes, do clássico Don Quijote de la Mancha.

Enfim, ler é uma atividade fundamental para a nossa humanidade. Partilho da preocupação de alguns intelectuais sobre o futuro da espécie homo sapiens. Entendo que estamos emburrecendo por causa das tecnologias de comunicação atuais, estamos regredindo perigosamente como seres humanos. Estão sendo alteradas habilidades humanas como capacidade de linguagem, comunicação, criatividade e postura frente às grandes questões da espécie humana.

Se algo não for feito por nós mesmos, humanos, caminharemos para ser meio bovinos, meio galinhas, seres digitais autômatos e sem criatividade, massas humanas manipuladas por poucos como se fôramos gados em cercados. Quase humanos-baterias de um sistema capitalista global totalitário, como aquela clássica cena do filme Matrix.

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PERPLEXIDADE E ESPERANÇA

A leitura neste momento histórico - seis meses do 3º governo Lula - do livro coletivo Quatro anos nas sombras, produzido em meados de 2022 por diversos autores e autoras e organizado por Cleusa Slaviero, foi uma leitura para relembrar a tragédia recente pela qual nosso país passou sob o poder de facínoras degenerados como os do clã de milicianos que ocupou o poder até o ano passado.

A leitura foi também uma comunhão de esperança num amanhã de reconstrução. Nada nada, o livro reúne umas trinta pessoas que leem, escrevem, se preocupam com o presente e o futuro, e pensam a vida em comum na coletividade humana.

A maior parte dos textos são textos que descrevem a situação vivida entre os anos de 2019 e 2022 no Brasil, são textos nos quais autoras e autores confessam suas perplexidades ao nos depararmos com um caos jamais imaginado por pessoas com um mínimo de razão e formação cultural. Caos que vivemos no Brasil de Bolsonaro e das bestas-feras que invadiram nossas vidas e nossos espaços vitais.

Alguns textos me fizeram refletir bastante, olhando o ontem e pensando o presente e um possível amanhã. 

Conheço alguns articulistas e gostei dos textos em geral, mas cito o texto da companheira Miriam Shibata, "Carta para o futuro", achei muito legal. Também compartilho a tese das "Mentes capturadas" como nos conta a companheira Marisa Stedile.

O texto que fiz como contribuição refletiu um pouco sobre a esperança (ou desejo) de voltarmos a viver um mínimo de sociabilidade entre as pessoas no cotidiano de nossas vidas, sejam elas bolsonaristas e ou extremistas de direita, sejam elas do nosso campo humanista. Deixo abaixo meu texto para aqueles que não tiveram acesso ao livro.

Esse foi o 21º livro que li neste ano. Estou variando bastante os textos lidos para estimular a minha mente a seguir ativa e atuante.

William


Bibliografia:

SLAVIERO, Cleusa (org.). Quatro anos nas sombras. 1ª edição. Curitiba, PR. Compactos, 2022. 

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UM NOVO BRASIL

Voltei de uma viagem de mais de 3.000 Km pensando a respeito do tema do livro coletivo que decidimos escrever abordando o período de destruição que vivemos após o golpe de Estado em 2016 e as eleições fraudulentas de 2018 que colocaram nos poderes do Estado brasileiro as piores representações políticas de nossa história. O Mal tomou de assalto o poder e desde então foi só destruição, tristeza coletiva e desesperança no presente e no futuro.

A viagem que empreendi foi um compromisso com minha mãezinha de levá-la para visitar o irmão caçula no Estado do Mato Grosso. Como após o golpe as passagens aéreas se tornaram impossíveis para nós da classe trabalhadora, precisei viajar de carro por essas estradas da vida brasileira. Não tenho o hábito de dirigir e tive que buscar em mim a atitude de fazer o que tinha que ser feito.

Os quatro anos de hegemonia do Mal no poder central do país destruiu tudo, inclusive as relações familiares e de convivência entre as pessoas. 

Nesta viagem que empreendemos, tive a oportunidade de rever pessoas queridas da família que não via há anos, separação ocorrida muito por causa do ódio e da intolerância adotados como política de governo porque é impossível como seres humanos não sofrermos as consequências de uma política feita para dividir, incentivar a violência, estimular o que há de pior em cada um de nós, seres sociais influenciáveis pelos ambientes nos quais vivemos.

Se tudo correr bem nas eleições de outubro de 2022, e conseguirmos eleger novas representações políticas – pessoas do campo progressista e popular – teremos um grande desafio no dia seguinte ao resultado das urnas. Se Lula for eleito e se tivermos um bom número de governadores e representantes dos poderes legislativos do campo da esquerda e da classe trabalhadora teremos que trabalhar muito para pacificarmos minimamente o país, começando por nós mesmos, sim, porque tod@s nós estamos envenenados por esse ódio e essa intolerância que não nos permitem a convivência com o diferente, com as pessoas que não compartilham nossas visões de mundo.

A simples necessidade de viajar para rever familiares por questões de saúde me colocou diante de desafios aparentemente lhanos, comezinhos, de encontrar parentes dos quais nos afastamos por questões políticas. 

O coração apertou muito nos momentos que antecederam os encontros. Como seria reencontrar na casa de meus pais em Minas Gerais tias e primos que não via há anos? Depois a mesma sensação ao reencontrar em Goiás mais familiares distantes há tanto tempo. E por fim, mais familiares no Mato Grosso. Alguns dos encontros foram inevitáveis, não programados, não controlados. E, felizmente, correu tudo bem. Os encontros me deram um gostinho de um Brasil que eu queria de volta, de laços fraternos, de amizade, de amor.

Estamos todos muito carentes, isolados, com o peito apertado, garganta entalada, olhos marejados. Estamos sós, estamos deprimidos. Estamos com vontade de abraços. Ainda tivemos nesses quatro anos nas sombras uma pandemia mundial que parece ter facilitado a vida da extrema-direita em nos dividir, amedrontar, isolar-nos em nossos cantos-mundo de forma a só termos contatos virtuais com as mentiras e as sementes de ódio que nos chegam por redes sociais envenenadas de intolerância. Estamos carentes de amor, de acolhimento, de solidariedade.

Ao retornar dessa viagem de família e de reencontros, me bateu no peito um desejo de um novo Brasil, de um novo ambiente de convivência fraterna e cooperativa entre nós todos, povo brasileiro. 

Ao perguntar pela saúde de nossos entes queridos e saber que não estão bem, bateu uma vontade de superar os muros que nos separaram desde o golpe e desde a ascensão desse regime do Mal e trabalhar nosso Eu mais profundo de forma a tomar coragem e ir visitar nossos familiares e pessoas de relações rompidas por causa do que nós todos nos tornamos após essa tragédia política que se abateu sobre nós.

No coração bate um desejo de rever pessoas afastadas há muito tempo e dar um abraço de solidariedade por tudo o que estamos enfrentando. Talvez o ato de tomar coragem e se preparar para reencontros seja um ato de esperançar, e nada será fácil e simples, pelas diferentes visões de mundo, mas se na palavra defendemos a alteridade e a tolerância, cabe a nós tentarmos exercitar a prática como critério da verdade. Lutemos para que nasça um novo Brasil e uma sociabilidade acolhedora entre nós.

O retorno da sociabilidade entre nós é um pouco do que desejo e do que devo buscar para um novo Brasil, um novo governo e uma nova convivência entre nós, povo brasileiro.

William Mendes

Do Blog Refeitório Cultural

Osasco - SP