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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

51. Manifesto do Partido Comunista - Marx e Engels



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 27 de fevereiro de 2023. Segunda-feira.


Reli o Manifesto do Partido Comunista (1848), de Karl Marx e Friedrich Engels, nesta semana que passou, quando o Manifesto completou 175 anos de existência. 

Que documento atual! Ao longo da leitura, cada parágrafo, cada afirmativa, cada diagnóstico da condição da classe trabalhadora é como se o Manifesto tivesse sido feito a partir da condição atual de nossa classe.

O Manifesto é dividido em 4 partes: I. Burgueses e proletários, II. Proletários e comunistas, III. Literatura socialista e comunista, IV. Posição dos comunistas diante dos diversos partidos de oposição.

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O FANTASMA DO COMUNISMO

"Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram em uma santa campanha difamatória contra ele: o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães."

Que começo empolgante, não é?! Se os autores à época viam realmente o que afirmam sobre uma união geral das classes dominantes para combater os comunistas, hoje vemos uma extrema-direita organizada internacionalmente para combater qualquer avanço social em benefício das classes proletárias e subalternas.

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UMA VERDADE INQUESTIONÁVEL

"A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classe."

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O ESTADO BURGUÊS

"O poder do Estado moderno não passa de um comitê que administra os negócios da classe burguesa como um todo."

Nós já conhecíamos como operavam os caras da casa-grande nos governos brasileiros antes do golpe de 2016, mas com Temer e Bolsonaro isso foi elevado à enésima potência...

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BURGUESIA REVOLUCIONÁRIA

"A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, e por conseguinte todas as relações sociais."

Essa afirmação segue muito assertiva. Basta vermos a capacidade da burguesia de alterar em seu favor as relações de trabalho. A uberização e o fim dos direitos sociais no mundo hegemonizado pelo capitalismo é notória.

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NOVOS MERCADOS SEMPRE

"A necessidade de mercados sempre crescente para seus produtos impele a burguesia a conquistar todo o globo terrestre. Ela precisa estabelecer-se, explorar e criar vínculos em todos os lugares."

A atual situação da disputa de hegemonia global por mercados segue idêntica à de séculos atrás. Os Estados Unidos, através da Otan, estão por trás da guerra por procuração entre Ucrânia e Rússia, e a Europa inteira deixou de consumir produtos russos para consumir produtos norte-americanos. EUA x Rússia x China, nova Rota da Seda etc.

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OS EMBARGOS ECONÔMICOS ATUAIS

"Sob a ameaça da ruína, ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção; força-as a introduzir a assim chamada civilização, quer dizer, se tornarem burguesas. Em suma, ela cria um mundo à sua imagem e semelhança."

Os embargos econômicos nada mais são do que uma forma de causar a ruína de países não alinhados e adestrados à burguesia imperialista. É como funciona o capitalismo nesses quase dois séculos de Manifesto e segue assim.

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BURGUESIA AGLOMERA POPULAÇÕES E CENTRALIZA O PODER

"Ela aglomerou as populações, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. Resultou daí a centralização do poder político."

Vejam essa verdade 175 anos depois da enunciação... os despossuídos se aglomeram nas periferias e encostas das cidades em condições desumanas e 1% de seres humanos capitalistas detêm 70% da riqueza produzida pela humanidade. 

Com o aquecimento global, efeito do modo de produção capitalista, as tragédias aparecem na forma de desmoronamentos dos morros nas fortes tempestades...

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A MENTIRA DA LIVRE CONCORRÊNCIA

"No seu lugar apareceu a livre concorrência, com sua organização social e política correspondente, sob a dominação econômica e política da classe burguesa."

Os capitalistas inviabilizam qualquer forma de concorrência para depois sob a forma de grandes monopólios construírem narrativas de empreendedorismo e livre concorrência... são uns fdp. Quando quebram, roubam os recursos do Estado e do povo explorado.

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NAS CRISES CAPITALISTAS, SÓ O POVO SE FERRA

"Há décadas a história da indústria e do comércio se restringe à revolta das modernas forças de produção, contra as relações de propriedade que constituem as condições vitais da burguesia e de seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetidas periodicamente e cada vez maiores, ameaçam a sociedade burguesa. Nessas crises, grande parte não só da produção, mas também das forças produtivas criadas, é regularmente destruída. Nas crises irrompe uma epidemia social que em épocas anteriores seria considerada um contrassenso - a epidemia da superprodução. A sociedade se vê de repente em uma situação de barbárie momentânea: a fome e uma guerra geral de extermínio parecem cortar todos os suprimentos de meios de subsistência, a indústria e o comércio parecem aniquilados, e por quê? Porque a sociedade possui civilização demais, meios de subsistência demais, indústria e comércio demais..."

E como resolver uma crise capitalista?

"Como a burguesia consegue superar as crises? Por um lado, pela destruição forçada de grande quantidade de forças produtivas; por outro, por meio da conquista de novos mercados e da exploração mais intensa de mercados antigos."

Amig@s leitores, é atual demais esse Manifesto de Marx e Engels...

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TRABALHADORAS E TRABALHADORES SÃO MERAS MERCADORIAS

"Esses trabalhadores, que são forçados a se vender diariamente, constituem uma mercadoria como outra qualquer, por isso exposta a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as turbulências do mercado."

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O CUSTO DA MÃO DE OBRA É O DA SUBSISTÊNCIA DESSA MÃO DE OBRA... QUANDO A TECNOLOGIA FAZ A MÃO DE OBRA CUSTAR MAIS QUE SUA SUBSISTÊNCIA... (DÁ MERDA)

"Os custos do trabalhador se resumem aos meios de subsistência de que necessita para se manter e se reproduzir. O preço de uma mercadoria, portanto também do trabalho, é igual aos seus custos de produção."

Só que temos um problema atual: essa mercadoria está com superprodução. O que o capitalismo faz nessas horas? Citei ali em cima: "destruição forçada de grande quantidade de forças produtivas"... 

Ou seja, para os capitalistas, é preciso destruir uma quantidade de seres humanos, essa mercadoria em excesso...

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A EXPLORAÇÃO DE MULHERES E CRIANÇAS É DA ESSÊNCIA DO CAPITALISMO

"Quanto menos destreza e força exige o trabalho manual, isto é, quanto mais a indústria moderna se desenvolve, tanto mais o trabalho dos homens é substituído pelo das mulheres e crianças. Diferenças de sexo ou de idade não têm mais qualquer relevância social para a classe trabalhadora. Só há instrumentos de trabalho, cujo preço varia conforme a idade e o sexo."

Pagar menos para certos segmentos sociais é uma escolha, uma decisão, uma arbitrariedade do capital na atualidade, por isso paga-se menos para mulheres, pessoas de pele preta, crianças, grupos que sofrem algum tipo de preconceito.

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A ATUALIDADE DO MANIFESTO COMUNISTA

Tenho diversas partes destacadas ainda e a postagem já está enorme. Vamos ver se registro uma segunda parte.

Será que os sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais do nosso lado da classe fizeram esse trabalho de reler o Manifesto nesta data de comemoração de seu lançamento?

Será? Quem leu ou releu o Manifesto nesses seus 175 anos? Algum companheiro ou companheira do Partido dos Trabalhadores ou do movimento sindical leu?

Para mim, esse sim é um clássico dos clássicos!

William


Bibliografia:

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista. 1ª edição. Editora Expressão Popular: São Paulo, 2008.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões (22/02/23)



Refeição Cultural

Osasco, 22 de fevereiro de 2023. Noite de Quarta-feira de Cinzas.


Estava relendo o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, publicado há 175 anos, em 1848. É impressionante a atualidade do manifesto! É impressionante! Os diagnósticos das questões sociais presentes naquele momento do mundo capitalista e da luta de classes se encaixam tão perfeitamente no mundo capitalista e na luta de classes do dia 22 de fevereiro de 2023 que fico até com vergonha de não termos mudado a realidade da classe trabalhadora mundial... Como pode ainda estarmos no mesmo cenário 175 anos depois de nos ter sido apresentadas as causas de nossas misérias e infelicidades enquanto classe? Que vergonha!

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No Brasil, o presidente Lula segue trabalhando intensamente para unir e reconstruir o país depois da catástrofe do período Temer e Bolsonaro, após o golpe de Estado em 2016. O governo Lula constituiu um bom grupo de ministros e ministras para a tarefa de dialogar com a diversidade social característica do país mais desigual do mundo, um país cujo povo é carente de tudo, inclusive de formação política, um povo manipulado por séculos, e Lula sabe que é necessário governar para toda essa diversidade. O governo está muito focado em refazer e criar direitos sociais, preservar os biomas naturais, trazer a paz social e oportunidades para todas as pessoas e recolocar o Brasil no mundo, inclusive defendendo o combate à fome e ao aquecimento global e propondo a paz mundial e não a guerra. Lula está hoje mais à esquerda que os movimentos sociais que o apoiam, isso está claro! Que orgulho eu sinto do presidente Lula e de várias lideranças desse governo!

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Eu sigo estudando todos os dias alguma coisa sobre Cuba e o povo cubano, esse foi um dos objetivos que propus a mim mesmo para os primeiros meses do ano. Já sei um pouco mais sobre esse país e povo maravilhosos em relação ao que sabia antes. Peguei alguns livros para ler de autores cubanos ou sobre a história de Cuba. Já li algumas centenas de páginas. No entanto, quanto mais leio, mais fica claro o quanto não sei nada de quase nada. Sei que estudar é assim mesmo, a gente estuda para saber que não sabe nada e com isso se conscientiza de que é necessário combater a ignorância estudando mais ainda. No livro sobre a amizade de Fidel Castro e Che Guevara é notável ver o quanto os dois eram apaixonados pela leitura e pelos estudos, pelo saber. Que orgulho desses dois líderes mundiais de nossa classe trabalhadora! Aliás, ainda em relação a estudar e aprender algo novo diariamente, às vezes supero até o banzo que sinto em alguns momentos e pego algo pra ler e aprender para não passar o dia sem alimentar meu cérebro, meu eu. O que cheguei a ser até agora é o resultado de um amontoado de acasos e sortes somado a um esforço honesto de tentar ser uma pessoa melhor, e o esforço em estudar faz parte dessa construção do ser humano que consegui ser.

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Feito o registro deste diário virtual e público... meu blog de cultura vai mudando ao longo do tempo... é assim mesmo.

William


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

¡El enemigo del negro es el negro! (1924) - Ejalves



Página de frente de O Clarim da Alvorada,
publicado em 24 de maio de 1924.

Refeição Cultural

Esta é uma versão em espanhol de um manifesto publicado no periódico paulista O Clarim da Alvorada nº 5, de 13 de maio de 1924. Este texto é citado como um manifesto importante do movimento de vanguardas latino-americanas das primeiras décadas do século XX, na temática "Negrismo y Negritud". Está no livro "Las vanguardias lationamericanas - Textos programáticos y críticos", de Jorge Schwartz.

As leituras sobre as vanguardas estão sendo feitas por mim no contexto de estudos de graduação em Letras, na disciplina Vanguardia y contemporaneidad, com a Doutora Professora Idalia M. Arnaiz. Este blog é um espaço de compartilhamento gratuito de informações, estudos, textos e cultura em geral.

Como nos ensina o professor Ladislau Dowbor, ao compartilhar conhecimento nós possibilitamos novos conhecimentos e todos ganham com isso.

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¡El enemigo del negro es el negro!

EJALVES


Leyendo uno de los últimos números de Getulino, órgano de los hombres negros de Campinas, para la defensa de esa clase, un artículo en bastardilla y a doble espacio, lo que evidentemente demuestra su valor no sólo por el hecho de ser su autor un conocido periodista paulista, uno de los redactores de la Folha da Noite, sino también por su sustanciosa demostración.

A pesar de que ya han salido diversos periódicos de la clase, algunos, lamentablemente, de muy breve existencia, parece que hasta ahora no ha sido ventilado este tema de acuerdo con su real importancia.

Bien dice Moacyr Marques en su artículo, al agradecer el envío de un ejemplar de Getulino, que, por lo leído, encontraba que sus hermanos de Campinas aún no habían descubierto el punto en que se revela nuestro problema.

- En el Brasil hay dos clases que combaten cuerpo a cuerpo, mas no son la blanca y la negra, sino el capital privilegiado y el trabajo esclavo.

Es necesario que nosotros, los negros, nos olvidemos del color y pensemos que somos los productores, los esclavizados, los infelices, en fin, que somos los que trabajamos para la grandeza de la patria, pero, en primer lugar, para el enriquecimiento de media docena de explotadores privilegiados, sean blancos o negros.

Puede que el lector diga: ¡Qué exageración decir que hay explotadores privilegiados negros! Y bien digo, porque si acaso existiese, tratará por todos los medios de probar que aunque sea negro, por la piel no puede negarlo, es extranjero o hijo de extranjero, así que no se mezclará (con raras excepciones).

Por experiencia hablo así, porque, a pesar de que puede no existir ni un explotador negro en esta capital que represente a nuestro enemigo, conozco algunos negros que sólo por tener un empleíto público e incluso particular, o poseer algunos bienes, ya tratan de escapar de sus hermanos negros; muchas veces, empleados de la misma repartición, sólo por el hecho de ser inferiores en categoría, se amigan con los blancos, amarillos, etc., basta con que sean de igual o mejor posición, instigando muchas veces a otros, casí siempre blancos, que suelen convivir bien en sociedad de los negros más simples, hablando de esta forma: ¡Fulano!, deje a los negros, no se meta con ellos, nada se puede conseguir; ¿acaso ellos algo que consiguen no lo deben a esa desgraciada clase que es la explotada?

Esto que acabo de afirmar, de que el enemigo del negro es el propio negro, se verifica hasta en el mismo seno de la familia, entre hermanos legítimos.

Por eso, nosotros los trabajadores debemos unirnos para luchar contra los que gozan el capital privilegiado, aunque sean de nuestro color.

Debemos luchar contra todos los que construyen su riqueza con las piedras de nuestras miserias, que nos dan a ganar el pan y nos chupan la sangre, y más todavía, nos chupan la leche con que amamantamos a nuestros hijos, y nos dan casa para vivir cobrando precios exorbitantes, lo que es una verdadera injusticia, ¡y todo eso practica indistintamente!...

También dice el digno redactor de la Folha da Noite, único órgano independiente de esta capital, que nosotros, los trabajadores negros, debemos formar al lado de nuestros hermanos blancos, para la conquista de la libertad que no nos llegó en el 88* y que sólo podrá ser conquistada a golpes de pensamiento, de dedicación, de sacrificios, hasta con la propia sangre.


*Data formal da abolição da escravidão no Brasil.

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Comentário do blog: quase um século depois deste manifesto, vimos que a afirmação do movimento negro de 1924 - "que o inimigo do negro é o próprio negro" - ainda gera reflexões profundas para todos nós da classe trabalhadora brasileira. Segundo o censo do IBGE, negr@s e pard@s correspondiam em 2014 a 54% da população brasileira. Ou seja, o golpe de Estado em 2016 e a "eleição" de um fascista racista para a presidência da república em 2018 seria muito difícil sem que parte d@s afrodescendentes votassem naquele sujeito (mesmo sabendo que a eleição tem sido amplamente questionada por causa do uso de mecanismos ilegais como disparos em massa de fake news e possível caixa dois, o fato é que sem votos de homens e mulheres de pele negra, o Brasil dificilmente estaria vivendo esse processo acelerado de destruição de todos os direitos do povo em geral e d@s negr@s de forma exponencial). Triste isso!

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Non Serviam (1914) - Vicente Huidobro



Vicente Huidobro. Foto de autor desconhecido.

Refeição Cultural

Este manifesto de Vicente Huidobro foi lido em 1914. O poeta chileno foi um dos autores que mais contribuiu com textos, manifestos e documentação a respeito das vanguardas latino-americanas.

Estamos estudando as vanguardas em uma disciplina de graduação de Letras, na Universidade de São Paulo. O intuito do blog é postar anotações de aulas, comentários sobre leituras, excertos de algumas obras ou de produções históricas, sempre de forma gratuita e de compartilhamento de conhecimento.

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NON SERVIAM*

Y he aquí que una buena mañana, después de una noche de preciosos sueños y delicadas pesadillas, el poeta se levanta y grita a la madre Natura: Non serviam.

Con toda la fuerza de sus pulmones, un eco traductor y optimista repite en las lejanías: "No te serviré".

La madre Natura iba ya a fulminar al joven poeta rebelde, cuando éste, quitándose el sombrero y haciendo un gracioso gesto, exclamó: "Eres una viejecita encantadora".

Ese non serviam quedó grabado en una mañana de la historia del mundo. No era un grito caprichoso, no era un acto de rebelbía superficial. Era el resultado de toda una evolución, la suma de múltiples experiencias.

El poeta, en plena conciencia de su pasado y de su futuro, lanzaba al mundo la declaración de su independencia frente a la Naturaleza.

Ya no quiere servirla más en calidad de esclavo.

El poeta dice a sus hermanos: "Hasta ahora no hemos hecho otra cosa que imitar al mundo en sus aspectos, no hemos creado nada. ¿Qué ha salido de nosotros que no estuviera antes parado ante nosotros, rodeando nuestros ojos, desafiando nuestros pies o nuestras manos?

"Hemos cantado a la Naturaleza (cosa que a ella bien poco le importa). Nunca hemos creado realidades propias como ella lo hace o lo hizo en tiempos pasados, cuando era joven y llena de impulsos creadores.

"Hemos aceptado, sin mayor reflexión, el hecho de que no puede haber otras realidades que las que nos rodean, y no hemos pensado que nosotros también podemos crear realidades en un mundo nuestro, en un mundo que espera su fauna y su flora propias. Flora y fauna que sólo el poeta puede crear, por ese don especial que le dio la misma madre Naturaleza a él únicamente a él."

Non serviam. No he de ser tu esclavo, madre Natura; seré tu amo. Te servirás de mí; está bien. No quiero y no puedo evitarlo; pero yo también me serviré de ti. Yo tendré mis árboles que no serán como los tuyos, tendré mis montañas, tendré mis ríos y mis mares, tendré mi cielo y mis estrellas.

Y ya no podrás decirme: "Ese árbol está mal, no me gusta ese cielo..., los míos son mejores".

Yo te responderé que mis cielos y mis árboles son los míos y no los tuyos y que no tienen por qué parecerse. Ya no podrás aplastar a nadie con tus pretensiones exageradas de vieja chocha y regalona. Ya nos escapamos de tu trampa.

Adiós, viejecita encantadora; adiós, madre y madrastra, no reniego ni te maldigo por los años de esclavitud a tu servicio. Ellos fueron la más preciosa enseñanza. Lo único que deseo es no olvidar nunca tus lecciones, pero ya tengo edad para andar solo por estos mundos. Por los tuyos y por los míos.

Una nueva era comienza. Al abrir sus puertas de jaspe, hinco una rodilla en tierra y te saludo muy respetuosamente.


*Este manifesto foi lido no Ateneo em 1914, em Santiago do Chile. Foi reproduzido nas Obras Completas 1, de Vicente Huidobro.

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Nacionalismo y vanguardismo en la literatura y en el arte - José Carlos Mariátegui



Foto de José Carlos Mariátegui.

Refeição Cultural

Muito interessante o texto de José Carlos Mariátegui, ao apontar o apreço dos escritores vanguardistas hispano-americanos pelos avanços tecnológicos da modernidade e das grandes metrópoles europeias, sem com isso deixar de tematizar as questões de suas terras natais. Este texto foi publicado em Mundial, em 4 de dezembro de 1925. 

A reprodução de excertos de obras, manifestos e outros textos históricos neste blog tem objetivos educativos e para gerar reflexões a partir deles. Este é um blog de cultura no conceito Wiki (What I Know Is) de compartilhamento gratuito de conhecimento.

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"Nacionalismo y vanguardismo en la literatura y en el arte

Mariátegui, 4/12/1925, Mundial

I

En el terreno de la literatura y del arte, quienes no gusten de aventurarse en otros campos percibirán fácilmente el sentido y el valor nacionales de todo positivo y auténtico vanguardismo. Lo más nacional de una literatura es siempre lo más hondamente revolucionario. Y esto resulta muy lógico y muy claro.

Una nueva escuela, una nueva tendencia literaria o artística busca sus puntos de apoyo en el presente. Si no los encuentra perece fatalmente. En cambio las viejas escuelas, las viejas tendencias se contentan de representar los residuos espirituales y formales del pasado.

Por ende, sólo concibiendo a la nación como una realidad estática se puede suponer un espíritu y una inspiración más nacionales en los repetidores y rapsodas de un arte viejo que en los creadores o inventores de un arte nuevo. La nación vive en los precursores de su porvenir mucho más que en los supérstites de su pasado.

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"Lo más nacional de una literatura es siempre lo más hondamente revolucionario."
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Demostremos y expliquemos esta tesis con algunos hechos concretos. Las aserciones demasiado generales o demasiado abstractas tienen el peligro de parecer sofísticas o, por lo menos, insuficientes.
[...]"


ARGENTINA

O intelectual vai dar exemplos sobre a questão de ser vanguarda e ser nacionalista citando alguns casos de nossa América. No exemplo da Argentina, temos os escritores e poetas do periódico Martín Fierro.


"III

Pero para establecer más exacta y precisamente el carácter nacional de todo vanguardismo, tomemos a nuestra América. Los poetas nuevos de la Argentina constituyen un interesante ejemplo. Todos ellos están nutridos de estética europea. Todos o casi todos han viajado en uno de esos vagones de la Compagnie des Grands Exprès Européens que para Blaise Cendrars, Valery Larbaud y Paul Morand son sin duda los vehículos de la unidad europea además de los elementos indispensables de una nueva sensibilidad literaria.

Y bien. No obstante esta impregnación de cosmopolitismo, no obstante su concepción ecuménica del arte, los mejores de estos poetas vanguardistas siguen siendo los más argentinos. La argentinidad de Girondo, Güiraldes, Borges, etc., no es menos evidente que su cosmopolitismo. El vanguardismo literario argentino se denomina "martinfierrismo". Quien alguna vez haya leído el periódico de ese núcleo de artistas, Martín Fierro, habrá encontrado en él, al mismo tiempo que los más recientes ecos del arte ultramoderno de Europa, los más auténticos acentos gauchos.
[...]"


PERU

No caso peruano, Mariátegui aponta um academicismo insistente no começo, depois há uma esperança com o movimento "Colónida", no qual o crítico destaca o escritor e poeta Valdelomar. Por fim, Mariátegui fala do poeta César Vallejo, dizendo ser emocionante os traços da cultura indígena em sua obra.

Primeiro coloco a fala de Mariátegui sobre César Vallejo e logo em seguida uma breve apresentação de Valdelomar, pois eu não havia ouvido falar dele antes do estudo dessa disciplina sobre as vanguardas latino-americanas.


"IV

Y ahora el fenómeno se acentúa. Lo que más nos atrae, lo que más nos emociona tal vez en el poeta César Vallejo es la trama indígena, el fondo autóctono de su arte. Vallejo es muy nuestro, es muy indio. El hecho de que lo estimemos y lo comprendamos no es un producto del azar. No es tampoco una consecuencia exclusiva de su genio. Es más bien una prueba de que, por estos caminos cosmopolitas y ecuménicos, que tanto se nos reprochan, nos vamos acercando cada vez más a nosotros mismos."

Bibliografia das citações:

SCHWARTZ, Jorge. Las vanguardias latinoamericanas - Textos programáticos y críticos. Fondo de Cultura Económica. México.

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Abraham Valdelomar (Wikipedia)

Pedro Abraham Valdelomar Pinto (Ica, 27 de abril de 1888-Ayacucho, 3 de noviembre de 1919). Fue un narrador, poeta, periodista, ensaysta y dramaturgo peruano. Es considerado uno de los principales cuentistas del Perú, junto con Julio Ramón Ribeyro.

Sus cuentos se publicaron en revistas y periódicos de la época, y él mismo los organizó en dos libros: El caballero Carmelo (Lima, 1918) y Los hijos del Sol (póstumo, Lima, 1921). En ellos se encuentran los primeros testimonios del cuento neocriollo peruano, de rasgos posmodernistas, que marcaron el punto de partida de la narrativa moderna del Perú. En el cuento El caballero Carmelo, que da nombre a su primer libro de cuentos, se utiliza un vocabulario arcaico y una retórica propia de las novelas de caballerías para narrar la triste historia de un gallo de pelea, relato nostálgico ambientado en Pisco, durante la infancia del autor. En Los hijos del Sol, busca su inspiración en el pasado histórico del Perú, remontándose a la época de los incas.

Su poesía también es notable por su evolución singular del modernismo al postmodernismo, teniendo incluso atisbos geniales de vanguardismo. Aquella es de una sensibilidad lírica extraordinaria que tiene como máxima expresión la de ser un vuelco hacia su interioridad. Pero esta interioridad debe entenderse como una expresión directa e íntima (por tanto, creativa) de la realidad. Esta poesía tiene como ejemplos fulgurantes a Tristitia y El hermano ausente en la cena de Pascua, los cuales presentan a su autor como un poeta dulce, tierno y profundo, saturado de paisaje, de hogar y de tristeza. Es imposible no relacionar su poesía con la de su compatriota César Vallejo, sobre todo con el primer poemario de éste, Los Heraldos Negros, y en especial la sección "Las canciones del hogar", en que el tema familiar, asumido con amorosa filiación a la vez de hijo y hermano, emparentan estrechamente sus poéticas. De hecho Vallejo admiraba vivamente a Valdelomar, que era mayor que él, al punto de que lo entrevistó cuando llegó a Lima e incluso le pidió que prologara Los Heraldos Negros, lo que nunca llegó a concretarse.


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domingo, 6 de outubro de 2019

Poesía Nueva - César Vallejo



César Vallejo, em 1929.
Foto de domínio público.

Refeição Cultural

Este pequeno texto programático e crítico do poeta e escritor peruano César Vallejo foi publicado na revista Amauta nº 3, de novembro de 1926. Esta versão postada é do livro Las vanguardias latinoamericanas - Textos programáticos y críticos, de Jorge Schwartz, publicado pelo Fondo de Cultura Económica, México.

Estou estudando as vanguardas latino-americanas na disciplina Vanguardia y Contemporaneidad, na graduação de Letras, e estamos conhecendo diversos manifestos e textos de apresentação dos movimentos de vanguarda na primeira metade do século XX.

As postagens neste blog com temáticas educativas têm caráter de compartilhamento gratuito de informações e conhecimentos.

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Poesía Nueva

Poesía nueva ha dado en llamarse a los versos cuyo léxico está formado de las palabras "cinema, motor, caballos de fuerza, avión, jazz-band, telegrafía sin hilos", y en general, de todas las voces de las ciencias e industrias contemporáneas, no importa que el léxico corresponda o no a una sensibilidad auténticamente nueva. Lo importante son las palabras.

Pero no hay que olvidar que esto no es poesía nueva ni antigua, ni nada. Los materiales artísticos que ofrece la vida moderna han de ser asimilados por el espíritu y convertidos en sensibilidad. El telégrafo sin hilos, por ejemplo, está destinado, más que a hacernos decir "telégrafo sin hilos", a despertar nuevos temples nerviosos, profundas perspicacias sentimentales, amplificando videncias y comprensiones y densificando el amor; la inquietud entonces crece y se exaspera y el soplo de la vida, se aviva. Ésta es la cultura verdadera que da el progreso; éste es su único sentido estético, y no el de llenarnos la boca con palabras flamantes. Muchas veces la voces nuevas pueden faltar. Muchas veces un poema no dice "cinema", poseyendo, no obstante, la emoción cinemática, de manera oscura y tácita, pero efectiva y humana. Tal es la verdadera poesía nueva.

En otras ocasiones el poeta apenas alcanza a cambiar hábilmente los nuevos materialies artísticos y logra así una imagen o un rapport más o menos hermoso y perfecto. En este caso, ya no se trata de una poesía nueva a base de palabras nuevas como en el caso anterior, sino de una poesía nueva a base de metáforas nuevas. Mas también en este caso hay error. En la poesía verdaderamente nueva pueden faltar imágenes o rapports -función ésta de ingenio y no de genio-, pero el creador goza o padece allí una vida en que las nuevas relaciones y ritmos de las cosas se han hecho sangre, célula, algo, en fin, que ha sido incorporado vitalmente en la sensibilidad.

La poesía nueva a base de palabras o de metáforas nuevas se distingue por su pedantería de novedad y, en consecuencia, por su complicación y barroquismo. La poesía nueva a base de sensibilidad nueva es, al contrario, simple y humana y a primera vista se la tomaría por antigua o no atrae la atención sobre si es o no moderna.

Es muy importante tomar nota de estas diferencias.

César vallejo

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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Manifiesto Martín Fierro -15 de mayo de 1924



Primeira página da Revista Martín Fierro, nº 4.

Refeição Cultural

A reprodução deste manifesto da Revista Martín Fierro, nº 4, se dá dentro do contexto de estudos das vanguardas hispano-americanas, que estou cursando na graduação de Letras da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. 

Este blog atua no sentido de compartilhar informações e conhecimentos de forma gratuita e com interesses educativos. 

Os manifestos das vanguardas tinham algumas características bem marcantes. Eles eram de certa forma agressivos, buscavam deixar claro o objetivo de ruptura e de negação da tradição poética ou do movimento ao qual se opunham.

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Manifiesto Martín Fierro*

Oliverio Girondo


FRENTE a la impermeabilidad hipopotámica del honorable público.

Frente a la funeraria solemnidad del historiador y del catedrático que momifica todo cuanto toca.

Frente al recetario que inspira las elucubraciones de nuestros más "bellos" espíritus y a la afición al anacronismo y al mimetismo que demuestran.

Frente a la ridícula necesidad de fundamentar nuestro nacionalismo intelectual hinchando valores falsos que al primer pinchazo se desinflan como chanchitos.

Frente a la incapacidad de contemplar la vida sin escalar las estanterías de las bibliotecas.

Y, sobre todo, frente al pavoroso temor de equivocarse que paraliza el mismo ímpetu de la juventud, más anquilosada que cualquier burócrata jubilado:

Martín Fierro siente la necesidade imprescindible de definirse y de llamar a cuantos son capaces de percibir que nos hallamos en presencia de una NUEVA SENSIBILIDAD y de una NUEVA COMPRENSIÓN, que, al ponernos de acuerdo con nosotros mismos, nos descubre panoramas insospechados y nuevos medios y formas de expresión.

Martín Fierro acepta las consecuencias y las responsabilidades de localizarse, porque sabe que de ello depende su salud. Instruido de sus antecedentes, de su anatomía, del meridiano en que camina, consulta el barómetro, el calendario, antes de salir a la calle a vivirla con sus nervios y con su mentalidad de hoy.

Martín Fierro sabe que "todo es nuevo bajo el sol" si todo se mira con unas pupilas actuales y se expresa con un acento contemporáneo.

Martín Fierro se encuentra, por eso, más a gusto en un transatlántico moderno que en un palacio renacentista, y sostiene que un buen HISPANO-SUIZO** es una obra de arte muchísimo más perfecta que una silla de manos de la época de Luis XV.

Martín Fierro ve una posibilidad arquitectónica en un baúl innovation***, una lección de síntesis en un marconigrama, una organización mental en una rotativa, sin que esto le impida poseer -como las mejores familias- un álbum de retratos que hojea, de vez en cuando, para descubrirse a través de un antepasado... o reírse de su cuello y de su corbata.

Martín Fierro cree en la importancia del aporte intelectual de América, previo tijeretazo a todo cordón umbilical. Acentuar y generalizar, a las demás manifestaciones intelectuales, el movimiento de independencia iniciado, en el idioma, por Rubén Darío, no significa, empero, que habremos de renunciar, ni mucho menos finjamos desconocer que todas las mañanas nos servimos de un dentífrico sueco, de unas toallas de Francia y de un jabón inglés.

Martín Fierro tiene fe en nuestra fonética, en nuestra visión, en nuestros modales, en nuestro oído, en nuestra capacidad digestiva y de asimilación.

Martín Fierro artista, se refriega los ojos a cada instante para arrancar las telarañas que tejen, de continuo, el hábito y la costumbre. ¡Entregar a cada nuevo amor una nueva virgindad, y que los excesos cada día sean distintos a los excesos de ayer y de mañana! ¡Ésta es, para él, la verdadera santidad del creador!... ¡Hay pocos santos!

Martín Fierro crítico, sabe que una locomotora no es comparable a una manzana y, el hecho de que todo el mundo compare una locomotora con una manzana y algunos opten por la locomotora, otros por la manzana, rectifica para él la sospecha de que hay muchos más negros de lo que se cree. Negro el que exclama ¡colosal! y cree haberlo dicho todo. Negro el que necesita encandilarse con lo coruscante y no está satisfecho si no lo encandila lo coruscante. Negro el que tiene las manos achatadas como platillo de balanza y lo sopesa todo y todo lo juzga por el peso. ¡Hay tantos negros!...

Martín Fierro sólo aprecia a los negros, a los blancos que son realmente negros o blancos y no pretenden en lo más mínimo cambiar de color.

¿Simpatiza usted con Martín Fierro?
¡Colabore usted con Martín Fierro!
¡Suscríbase usted a Martín Fierro!


* Publicado en el cuarto número de la revista Martín Fierro, 15 de mayo de 1924.
** "Hispano-Suizo": marca de un automóvil de la época.
*** "Innovation": negocio en París, que en la época confeccionaba baúles apropriados para los portaequipajes de los coches.

Bibliografia:

SCHWARTZ, Jorge. Las vanguardias latino-americanas - Textos programáticos y críticos. Fondo de Cultura Económica - México.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Leitura II: Poéticas da transgressão (2006), de Viviana Gelado




Refeição Cultural

Clique aqui para ler a primeira parte da síntese que fiz do capítulo que estamos estudando.


Leitura e fichamento de um capítulo do livro "Poéticas da Transgressão: Vanguarda e Cultura Popular nos anos 20 na América Latina", de autoria de Viviana Gelado, leitura que compõe o programa da disciplina "Vanguardias y Contemporaneidad", matéria da graduação de Letras, ministrada pela professora doutora Idalia M. Arnaiz.

O Manifesto como gênero discursivo, manifesto da vanguarda europeia e latino-americana


Caracterização de meios e estratégias utilizadas pelos manifestos e textos programáticos e polêmicos de vanguarda na América Latina

O título

"O título dos manifestos, proclamas, editoriais de revistas, programas estéticos etc. funciona como síntese desse programa, como sua definição ou como um slogan, e adota, na maioria dos casos, uma forma publicitária, à maneira dos panfletos, cartazes ou letreiros."

Geralmente é em letras grandes e com alguma foto ou imagem.

Os títulos gritam - estridentismo - são como gestos extremos: desvairismo, euforismo, ultraísmo, minorismo etc.

A autora nos explica que "O tom predominante é da agressão (acústica, cromática, elétrica, física, atmosférica) e a mofa e questionamento de um sistema de valores culturais e políticos anquilosado."

O grau de violência nos manifestos e proclamas latino-americanos é menor do que os europeus como Dadaísmo, Cubofuturismo russo e Surrealismo francês.

Por quê?

"Com efeito, em uma estrutura social tão fortemente polarizada como a latino-americana, o destinatário privilegiado do discurso vanguardista continuava sendo a mesma 'minoria seleta', letrada, recortada e (in)formada pelo Modernismo em Hispano-América e pelo Simbolismo e o Parnasianismo no Brasil."

O alvo, porém, mais explícito ou menos, é a burguesia letrada, tanto lá quanto cá.

A organização do texto

"Na organização do texto, um dos traços mais evidentes é a sua estruturação na base da enumeração."

Outra forma de organização é a de linhas de filiações ou listas de precursores.

"Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ou Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução bolchevista, à Revolução surrealista e ao bárbaro tecnizado de keyserling. Caminhamos." (Manifesto Antropófago, 1928, Oswaldo de Andrade)

A autora explica que a repetição anafórica de estruturas precedidas pela preposição 'contra' ou pela locução preposicional 'frente a', assim como a reiteração, a modo de refrão, de asserções que adquirem o valor de slogan, acabam produzindo um efeito estilístico aliado "à une forte pulsion idéologique".

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"Esta estratégia discursiva tem, pois, uma função publicitária e didática - o manifesto deseja divulgar e ensinar a proposta estética que veicula."
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As enumerações sintéticas também são utilizadas na organização. E repetições.

"Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros." (O. de Andrade. Manifesto Antropófago)

Formas de fragmentação

Uso do espaço em branco, as onomatopeias e interjeições, a sintaxe entrecortada etc.

Futurismo

"Outra forma da enumeração reconhecida por Marino é a das fórmulas 'quase algébricas'. Sabe-se que o Futurismo foi o movimento que utilizou mais extensamente esta formulação e também um dos mais conhecidos e de maior poder de deflagração de polêmicas entre os grupos de vanguarda latino-americanos e, antes, entre estes e os assim chamados 'pasadistas'."

No entanto, nos diz Gelado, pela dificuldade da técnica, prevaleceu na maioria dos vanguardistas o uso da sintaxe simples, baseada apenas em sintagmas nominais ou estruturas frasais simples.

O brasileiro Oswald de Andrade é um exemplo do uso de sintagmas nominais e sintaxe simples.

Já Mário de Andrade buscou renovar a estética no movimento modernista. A referência: o diretor de L'Esprit nouveau:

"Lirismo + Arte = Poesia. Fórmula de P. Dermée (N. do A.)"

Mas:

"Quem conhece os estudos de Dermée sabe que no fundo ele tem razão. Mas errou a fórmula. [...] Corrigida a receita, eis o marron-glacé: Lirismo puro + Crítica + Palavra = Poesia." (M. de Andrade. Em: Prefácio interessantíssimo à Pauliceia Desvairada, 1922)

E ainda:

"Necessidade de expressão + necessidade de comunicação + necessidade de acção + necessidade de prazer = Belas Artes." (M. de Andrade)

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"As diversas modalidades de enumeração e a articulação expressa do entimema ao topos dão à retórica do manifesto um caráter de 'continuidade explícita'. Por outra parte, esta ênfase na utilização da enumeração de adversários e novíssimos precursores, de materiais e técnicas novas, de rótulos definidores, de fórmulas que condensam propostas estéticas contribui para polarizar o campo intelectual e para facilitar a apreensão das diversas propostas estéticas."
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A autora também enumera um conjunto de técnicas e estratégias utilizadas pelas vanguardas, além do belicismo: espírito de rebelião e oposição que se traduz na utilização de formas verbais do imperativo, metáforas combativas ou infamatórias, asserções negativas, injúrias, formas de exortação e invectiva, provocações, boutades, toda sorte de paradoxos, advérbios assertivos etc."

Durante algumas páginas, a autora enumera diversos exemplos de movimentos e manifestos de vanguarda latino-americanos: Estridentismo mexicano, Noísmo porto-riquenho, Manifiesto de Martín Fierro, Manifiesto euforista etc.

Contradição nas vanguardas

"Com efeito, ao questionar a arte como instituição e, consequentemente, propor ou adotar toda sorte de estratégias de inversão (discursiva e comportamental ou, pelo menos, performática), muitos destes movimentos (os que desejaram se perpetuar) pagaram o preço de sua contemporaneidade, isto é, caíram em uma das 'armadilhas' da modernidade: a contradição. Cada nova curva na espiral significa construção e destruição e pode não significar nada."

No modernismo brasileiro, a forma corrosiva foi muito utilizada por Oswald de Andrade:

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"Só não se inventou uma máquina de fazer versos - já havia o poeta parnasiano." (Manifesto da Poesia Pau-Brasil, O. de Andrade)
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O texto fala de "Boutade". Como não sei o que é, recorri ao Google, que traz a seguinte informação:

Boutade /bu'tad/ substantivo feminino: 
1. tirada espirituosa ou engraçada. 2. pensamento ou dito sutil, original e imprevisto que freq. contraria propositadamente a verdade.

(ufa! Caminhando para o fim da leitura do capítulo)

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"Como vimos, o discurso polêmico dos manifestos, proclamas e textos programáticos da vanguarda articula uma linguagem violenta e precisa. Segundo Marino, a violência é a que dá o tom a este discurso, enquanto que pela precisão se traduzem os objetivos perseguidos, no entanto, o uso da violência verbal e simbólica pode ter outras funções além das já observadas. Com efeito, pode ser uma maneira de exorcizar o passado, como na proposta antropofágica de retorno às origens indígenas brasileiras para fundar sobre essa base um primitivismo moderno e que supere as contradições da sociedade patriarcal..."
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O grito

"O ápice da disposição ao exagero e ao espetáculo estará constituído pelo grito, forma extrema e elementar da função fática da linguagem. O grito é a hipérbole acústica (e cromática) que os estridentistas escolherão para definir-se."

O humor

"Expressado em diversas modalidades (negro, pseudocientífico, doutrina surrealista do humor objetivo) e figurações (ironia, riso, blague, mofa, sarcasmo, paródia, caricatura, grotesco, boutade), esgrime-se como meio de refutação e negação social e estética. Estratégias que demonstram o espírito lúdico e a vocação espetacular dos movimentos de vanguarda, mas que também são utilizadas como forma de distanciamento (ostranenie) e questionamento dos preceitos estéticos e cujo objetivo é a desautomatização na recepção da obra de arte."

Gelado nos diz que a citação também é uma forma utilizada pelas vanguardas em seus textos.

A busca pelas origens

"Tupy, or not tupy that is the question" (O. de Andrade)

A autora nos diz que esta pergunta pelas origens estará presente na maioria dos movimentos de vanguarda na América Latina. Tanto pelas origens coletivas nacionais quanto pelas do próprio grupo.

"A pergunta pelas origens e a afirmação do novo fundam nos manifestos o uso de um discurso inaugural que não exclui, às vezes, um retorno ao passado."

(Bom texto. Esclarecedor)

Leitura: Poéticas da transgressão (2006), de Viviana Gelado





Refeição Cultural

Leitura e fichamento de um capítulo do livro "Poéticas da Transgressão: Vanguarda e Cultura Popular nos anos 20 na América Latina", de autoria de Viviana Gelado, leitura que compõe o programa da disciplina "Vanguardias y Contemporaneidad", matéria da graduação de Letras, ministrada pela professora doutora Idalia M. Arnaiz.

O Manifesto como gênero discursivo, manifesto da vanguarda europeia e latino-americana

A noção de manifesto como gênero discursivo

"Em sua abarcadora e minuciosa obra, Marc Angenot caracteriza o manifesto como gênero demonstrativo adjacente ao panfleto e à polêmica, escritos com os quais o manifesto compartilha a brevidade e o caráter de interpelação. Neste sentido, são características funcionais comuns a estes três gêneros: a tomada de posição de seu(s) assinante(s); o consequente requerimento perante o público de aderir ou de explicitar o desacordo; o cariz performático do discurso, que significa a assunção de um risco e expressa um juramento ou promessa por parte do(s) signatário(s); e a presença de momentos agonísticos ou refutativos."

Segundo Renato Poggioli, "manifesto" e "programa" seriam diferentes, mas para a autora isso na prática seria de difícil aplicação nas estéticas vanguardistas.

Gelado sobre Poggioli: "Com efeito, alude aos manifestos como 'documentos consistentes en preceptos de índole artística y estética'; enquanto que os programas seriam 'las declaraciones ideológicas más generales y más vastas, visiones de panoramas de conjunto'."

Para Gelado, "na práxis escriturária vanguardista, manifesto e programa se articulam, na maioria dos casos, indissoluvelmente."

- Ready mades, assinados por Duchamp: "caracterizando-os como produtos nos quais 'el acto de provocación mismo ocupa el puesto de la obra'."

Esta mesma afirmação acima "poderia fazer-se com relação aos manifestos da vanguarda, posto que se os manifestos são interpretados apenas como declaração de princípios ou enumeração preceptiva dos valores estéticos defendidos por um grupo ou autor individual, perdem boa parte do seu poder questionador da instituição social da arte."

Antes de Bürger, Mario de Micheli: "ao referir-se aos manifestos dadaístas, já apontava que, posto que o dadaísmo surgiu no cenário artístico após o cubismo, o futurismo e o abstracionismo, são reconhecíveis em sua 'arte' elementos dos movimentos precedentes, no entanto, estes elementos são utilizados como materiais para o exercício de uma crítica de base negativista (contra o positivismo em que ainda apostavam os movimentos precedentes)."

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Segundo de Micheli, os dadaístas "'no crean obras': fabrican objetos".
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A contribuição do dadaísmo estaria menos na "obra" e mais no "significado polémico del procedimiento", constante no Manifeste Dada 1918.

Diz a autora: "Da mesma maneira, o manifesto constitui-se em obra de vanguarda por excelência na medida em que articula uma proposta estética crítica (a antiarte) e, ao mesmo tempo, é sua práxis (gesto polêmico e contestatário)."

Gelado sobre Claude Abastado: "Estritamente no que diz respeito à extensão, formato, circulação, teor discursivo e destinatário(s) deste escrito, Abastado considera que

'le terme [manifeste] s'apllique [...] à des textes, souvent brefs, publiés soit en brochure, soit dans un journal ou une revue, au nom d'un mouvement politique, philosophique, littéraire, artistique.'..."


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Tradução do google: 'o termo [manifesto] é [...] aplicado a textos, geralmente curtos, publicados em panfletos ou jornais ou revistas, em nome de um movimento político, filosófico, literário e artístico.'

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Destinatário do manifesto

"(...) no próprio enunciado do manifesto aparecem claramente definidos como interlocutores os perfis de (id)entidades literárias e artísticas, muito mais do que a construção discursiva representativa de um público receptor mais amplo; o destinatário por excelência do manifesto é a arte como instituição."

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A autora nos lembra no texto que há um esforço de caracterizar o manifesto enquanto gênero discursivo.
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Em relação ao manifesto, Abastado "o define por contraste tipológico e funcional com o prefácio e o relato". Mas ele admite que por funcionalidade, alguns prefácios têm características semelhantes aos manifestos.

Manifesto e prefácio

"(...) a referida funcionalidade explica que incluamos em nosso corpus textual prefácios de obras individuais e coletivas, por considerar que, estrategicamente, acabaram desempenhando a função programática e polêmica reservada ao manifesto."

Manifesto e relato

"(...) o relato seria o lugar privilegiado de leitura do imaginário de uma cultura, enquanto que o manifesto seria o lugar de leitura da pragmática de uma sociedade, na medida em que expressa suas tensões ideológicas, suas relações polêmicas e as lutas pela conquista do poder simbólico."

Manifesto e relato utópico

Têm em comum "o amálgama de projetos filosófico, político e estético: o desejo de instaurar uma nova vida, alterar a ordem social e praticar novas formas de arte ou, em outras palavras, o desejo de conquista do poder simbólico, o domínio político e a hegemonia estética."

Manifesto e o mito

Teria em comum "o tratamento maniqueísta da temporalidade, estreitamente relacionado com a noção do novo como absoluto. Neste sentido, o passado aparece caracterizado no manifesto como tempo da não-vida ou como tempo de gestação da verdadeira vida (...), ou ainda, dentro de uma visão cíclica da história, como um tempo de inocência e pureza primitivas que o futuro deve reconquistar (seria o caso do Manifesto antropófago)."

A leitura e o fichamento continuam em outra postagem.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A Greve Geral de 28/4 e o manifesto do movimento "Projeto Brasil Nação"


Manifestação no Largo da Batata em
dia de Greve Geral (28/4/17).
Foto: Ricardo Stuckert

Comentário do Blog:

Este dia 28 de abril de 2017 ficará marcado na história do Brasil como mais um dia de lutas do povo trabalhador brasileiro em defesa da cidadania e de seus direitos sociais, políticos e civis.


Milhões e milhões de brasileiros e brasileiras foram às ruas protestar contra os ataques dos golpistas que assaltaram os poderes estatais desde o Golpe de Estado de 2016. O povo gritou "Fora Temer", pediu eleições diretas e demonstrou reação aos seguidos ataques contra os direitos trabalhistas, previdenciários, educacionais, da saúde e em defesa do patrimônio público brasileiro.

Apesar de meu pessimismo da razão, senti um orgulho grande em ver as ruas do Brasil tomadas pelo povo em luta. Que isso seja só o começo da reação para revertermos o Golpe.

É deplorável o papel ridículo dos meios de comunicação golpistas. Esses empresários da mídia canalhas precisam ser barrados pelo povo. Eles não têm nenhum pudor em continuar com a manipulação através de TVs, rádios, jornais e revistas. 

E as polícias militares dos Estados repetiram a violência contra cidadãos em atividades pacíficas e legítimas como previsto na Constituição Federal de 1988. As forças policiais não podem continuar atacando o povo indefeso e em luta por seus direitos!

Eu assinei o manifesto pelo Projeto Brasil Nação, um belo manifesto com pilares centrais do que precisamos perseguir para retomar o rumo certo para o presente e futuro do Brasil e brasileiros.

Por favor, leiam o Manifesto e assinem também.

Abraços,

William Mendes
Cidadão brasileiro


MANIFESTO DO PROJETO BRASIL NAÇÃO

O Brasil vive uma crise sem precedentes. O desemprego atinge níveis assustadores. Endividadas, empresas cortam investimentos e vagas. A indústria definha, esmagada pelos juros reais mais altos do mundo e pelo câmbio sobreapreciado. Patrimônios construídos ao longo de décadas são desnacionalizados.

Mudanças nas regras de conteúdo local atingem a produção nacional. A indústria naval, que havia renascido, decai. Na infraestrutura e na construção civil, o quadro é de recuo. Ciência, cultura, educação e tecnologia sofrem cortes.

Programas e direitos sociais estão ameaçados. Na saúde e na Previdência, os mais pobres, os mais velhos, os mais vulneráveis são alvo de abandono.

A desigualdade volta a aumentar, após um período de ascensão dos mais pobres. A sociedade se divide e se radicaliza, abrindo espaço para o ódio e o preconceito.

No conjunto, são as ideias de nação e da solidariedade nacional que estão em jogo. Todo esse retrocesso tem apoio de uma coalizão de classes financeiro‐rentista que estimula o país a incorrer em déficits em conta corrente, facilitando assim, de um lado, a apreciação cambial de longo prazo e a perda de competitividade de nossas empresas, e, de outro, a ocupação de nosso mercado interno pelas multinacionais, os financiamentos externos e o comércio desigual.

Esse ataque foi desfechado num momento em que o Brasil se projetava como nação, se unindo a países fora da órbita exclusiva de Washington. Buscava alianças com países em desenvolvimento e com seus vizinhos do continente, realizando uma política externa de autonomia e cooperação. O país construía projetos com autonomia no campo do petróleo, da defesa, das relações internacionais, realizava políticas de ascensão social, reduzia desigualdades, em que pesem os efeitos danosos da manutenção dos juros altos e do câmbio apreciado.

Para o governo, a causa da grande recessão atual é a irresponsabilidade fiscal; para nós, o que ocorre é uma armadilha de juros altos e de câmbio apreciado que inviabiliza o investimento privado. A política macroeconômica que o governo impõe à nação apenas agravou a recessão. Quanto aos juros altíssimos, alega que são “naturais”, decorrendo dos déficits fiscais, quando, na verdade, permaneceram muito altos mesmo no período em que o país atingiu suas metas de superávit primário (1999‐2012).

Buscando reduzir o Estado a qualquer custo, o governo corta gastos e investimentos públicos, esvazia o BNDES, esquarteja a Petrobras, desnacionaliza serviços públicos, oferece grandes obras públicas apenas a empresas estrangeiras, abandona a política de conteúdo nacional, enfraquece a indústria nacional e os programas de defesa do país, e liberaliza a venda de terras a estrangeiros, inclusive em áreas sensíveis ao interesse nacional.

Privatizar e desnacionalizar monopólios serve apenas para aumentar os ganhos de rentistas nacionais e estrangeiros e endividar o país.

O governo antinacional e antipopular conta com o fim da recessão para se declarar vitorioso. A recuperação econômica virá em algum momento, mas não significará a retomada do desenvolvimento, com ascensão das famílias e avanço das empresas. Ao contrário, o desmonte do país só levará à dependência colonial e ao empobrecimento dos cidadãos, minando qualquer projeto de desenvolvimento.

Para voltar a crescer de forma consistente, com inclusão e independência, temos que nos unir, reconstruir nossa nação e definir um projeto nacional. Um projeto que esteja baseado nas nossas necessidades, potencialidades e no que queremos ser no futuro. Um projeto que seja fruto de um amplo debate.


É isto que propomos neste manifesto: o resgate do Brasil, a construção nacional.

Temos todas as condições para isso. Temos milhões de cidadãos criativos, que compõem uma sociedade rica e diversificada. Temos música, poesia, ciência, cinema, literatura, arte, esporte – vitais para a construção de nossa identidade.

Temos riquezas naturais, um parque produtivo amplo e sofisticado, dimensão continental, a maior biodiversidade do mundo. Temos posição e peso estratégicos no planeta. Temos histórico de cooperação multilateral, em defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção.

O governo reacionário e carente de legitimidade não tem um projeto para o Brasil. Nem pode tê‐lo, porque a ideia de construção nacional é inexistente no liberalismo econômico e na financeirização planetária.

Cabe a nós repensarmos o Brasil para projetar o seu futuro – hoje bloqueado, fadado à extinção do empresariado privado industrial e à miséria dos cidadãos.

Nossos pilares são: autonomia nacional, democracia, liberdade individual, desenvolvimento econômico, diminuição da desigualdade, segurança e proteção do ambiente – os pilares de um regime desenvolvimentista e social.

Para termos autonomia nacional, precisamos de uma política externa independente, que valorize um maior entendimento entre os países em desenvolvimento e um mundo multipolar.

Para termos democracia, precisamos recuperar a credibilidade e a transparência dos poderes da República. Precisamos garantir diversidade e pluralidade nos meios de comunicação. Precisamos reduzir o custo das campanhas eleitorais, e diminuir a influência do poder econômico no processo político, para evitar que as instituições sejam cooptadas pelos interesses dos mais ricos.

Para termos Justiça precisamos de um Poder Judiciário que atue nos limites da Constituição e seja eficaz no exercício de seu papel. Para termos segurança, precisamos de uma polícia capacitada, agindo de acordo com os direitos humanos.

Para termos liberdade, precisamos que cada cidadão se julgue responsável pelo interesse público.

Precisamos estimular a cultura, dimensão fundamental para o desenvolvimento humano pleno, protegendo e incentivando as manifestações que incorporem a diversidade dos brasileiros.

Para termos desenvolvimento econômico, precisamos de investimentos públicos (financiados por poupança pública) e principalmente investimentos privados. E para os termos precisamos de uma política fiscal, cambial socialmente responsáveis; precisamos juros baixos e taxa de câmbio competitiva; e precisamos ciência e tecnologia.

Para termos diminuição da desigualdade, precisamos de impostos progressivos e de um Estado de bem‐estar social amplo, que garanta de forma universal educação, saúde e renda básica. E precisamos garantir às mulheres, aos negros, aos indígenas e aos LGBT direitos iguais aos dos homens brancos e ricos.

Para termos proteção do ambiente, precisamos cuidar de nossas florestas, economizar energia, desenvolver fontes renováveis e participar do esforço para evitar o aquecimento global.

Neste manifesto inaugural estamos nos limitando a definir as políticas públicas de caráter econômico. Apresentamos, assim, os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil Nação.

1. Regra fiscal que permita a atuação contracíclica do gasto público, e assegure prioridade à educação e à saúde

2. Taxa básica de juros em nível mais baixo, compatível com o praticado por economias de estatura e grau de desenvolvimento semelhantes aos do Brasil

3. Superávit na conta corrente do balanço de pagamentos que é necessário para que a taxa de câmbio seja competitiva

4. Retomada do investimento público em nível capaz de estimular a economia e garantir investimento rentável para empresários e salários que reflitam uma política de redução da desigualdade

5. Reforma tributária que torne os impostos progressivos

Esses cinco pontos são metas intermediárias, são políticas que levam ao desenvolvimento econômico com estabilidade de preços, estabilidade financeira e diminuição da desigualdade. São políticas que atendem a todas as classes exceto a dos rentistas.

A missão do Projeto Brasil Nação é pensar o Brasil, é ajudar a refundar a nação brasileira, é unir os brasileiros em torno das ideias de nação e desenvolvimento – não apenas do ponto de vista econômico, mas de forma integral: desenvolvimento político, social, cultural, ambiental; em síntese, desenvolvimento humano. Os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil são seus instrumentos – não os únicos instrumentos, mas aqueles que mostram que há uma alternativa viável e responsável para o Brasil.

Estamos hoje, os abaixo assinados, lançando o Projeto Brasil Nação e solicitando que você também seja um dos seus subscritores e defensores.

30 de março de 2017


Assinar: https://secure.avaaz.org/po/petition/assinaturasprojetobrasilnacaogmailcom_Manifesto_do_Movimento_PROJETO_BRASIL_NACAO/?aeKdEib