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quarta-feira, 27 de abril de 2022

Pra que tanta coisa?

É verdade que estou no tempo de olhar para trás e fazer balanços de vida. Durante meu tempo de engajamento político e vida profissional o foco era o presente e a construção de um futuro possível, pessoal e coletivo, público e privado. Agora, caí num vazio perigoso. Descrença no futuro. Descrença nos seres humanos.

Para meu próprio bem (e daqueles que ainda dependem de mim), preciso definir alguma coisa relativa ao futuro. Na verdade só existe o presente. Estou somente olhando para trás. Os contextos político, econômico, social, cultural e familiar fazem com que a gente "viva" de passado. 

Saudosismo exagerado, coisa de gente aculturada nessa mítica do eterno retorno a um passado bom inventado. Isso de mito no eterno retorno é coisa de povos e culturas que negam a história nua e crua (como ensina Mircea Eliade). Materialismo histórico é difícil de engolir. Ilusão é muito mais fácil.

Cada vez que vejo o consumismo, a aquisição de coisas, coisas, mais coisas, necessidades inventadas, coisas, excessos de coisas, mais gostaria de me desfazer de tudo que tenho, de todas as coisas. Inclusive porque elas não servem pra mais nada. 

Coisas do passado, coisas da história dos bancários, coisas do movimento sindical, coisas do movimento e da história das lutas do BB e da Cassi e da Previ, coisas, coisas. Coisas. Coisas de zilhões de matérias feitas na faculdade de Letras. Coisas que trazemos de lembranças de lugares visitados. Nossa vida é uma coisa porque somos coisas nesse mundo coisificado pelo capitalismo.

Se fosse pelo desejo do momento, gostaria de ter coragem de me desfazer de tudo que é desnecessário, ficar com duas ou três mudas de roupas, a gente nunca usa mais que isso. Se refletirmos, a maior parte das coisas é supérflua para a nossa existência diária. (é lógico que é fácil falar do meu lugar de alguém que tem tudo. Só quem não tem nada sabe a falta que faz as coisas básicas do cotidiano da vida) 

Ontem, separei mais um pouco de papéis pra jogar fora. Coisas. Minha história com essas coisas é nada hoje. Já foi. Foi coisa do momento. No instante do olhar para trás, tenho que ter a firmeza do desapego ao passado pra jogar tudo fora. Aquele caderno de formação, aquele caderno de teses, aquela história de uma conquista no BB... os adeptos do novo sistema dizem que tem tudo na internet... tem porra nenhuma! A internet não tem nada! Mas e daí? Quem se interessa pela nossa história?

Procurem um dos milhares de textos formativos do site Carta Maior nos quais estudamos e aprendemos ao longo de duas décadas de existência do portal da esquerda brasileira... já era! Não existe mais! (tem tudo na internet, William, blá blá blá...)

No olhar para frente, pouca coisa imaginei até aqui. Decidi fazer a caminhada de 80 Km em agosto, a romaria que não faço há três anos. Hoje, pela primeira vez na vida, não conseguiria fazer. Minha condição física, minha saúde, minha estrutura de caminhante foram pro saco. Tenho pouco menos de 4 meses para me preparar e descobrir se acho que ainda consigo andar 80 Km de uma só vez. Meu quadril está destruído por dentro. Já estou caminhando de uma a duas horas por dia... É algo pra se fazer nos próximos meses...

William

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Tajá e sua gente - José J. Veiga



Refeição Cultural

"Tajá ficou penalizado. Imagine um agricultor formado ficar perdendo tempo numa atividade tão diferente. Devia ser por isso que seu Oscar às vezes tinha aquele olhar triste e distante. Deve ser triste uma pessoa ter aprendido tantas coisas e não poder aproveitar o que aprendeu." (VEIGA, 2008, p. 43)


Após leituras difíceis porque mais engajadas, que exigem mais do leitor, peguei um pequeno livro do grande mestre José J. Veiga e li nesta manhã de segunda-feira.

Que estória linda! A estória de Tajá e sua gente (1986) nos deixa pensando que o mundo da sociedade humana poderia ter jeito. Penso que literatura também tem esse papel na vida das pessoas: sonhar, acreditar em coisas melhores.

Tajá é um garoto muito inteligente. Um certo dia, inventa uma forma de melhorar sua condição especial, e vai atrás de seu sonho de se locomover com mais facilidade. Deu certo! E a vida seguiu.

Em um momento da vida, o jovem Tajá descobre a leitura de livros e os conhecimentos gerais, saberes enciclopédicos. Fica deslumbrado com tanta coisa que aprende. Ele estava se tornando um "homem cultivado" para usar uma expressão de Mircea Eliade.

"Quando leu mais sobre a Terra no espaço, Tajá chegou a ficar assustado, depois incrédulo. Quanta coisa acontecendo o tempo todo, e ele sem saber! Quando é que podia ter imaginado que além de girar em volta do Sol a 107.000 quilômetros por hora a Terra ainda acompanha o Sol e outros planetas em torno do centro da Via Láctea a 770.000 quilômetros por hora, acompanha a Via Láctea numa viagem em torno do centro de um conjunto de 2.500 galáxias outras a 2.100.000 quilômetros por hora, e com todos os corpos celestes se afasta de um ponto no espaço, onde se supõe que todos nasceram de uma explosão, a 580.000 quilômetros por hora." (p. 36)

Em outro momento, percebe que os saberes novos não têm aplicação em sua vida cotidiana, ninguém liga para os novos conhecimentos que ele quer compartilhar. Papel aceita tudo, lhe diria seu amigo Dito, duvidando dos livros e da ciência.

"Das Dores continuava calado, indiferente à discussão. O problema dele era saber quando a chuva ia passar para ele voltar a vender biscoitos. Saber quantos milhares ou quantos milhões de léguas a Terra andava enquanto ele dizia José Maria das Dores Teixeira Gomes, se é que andava mesmo, não melhorava a situação dele, que não estava ganhando nada ultimamente." (p. 38)

A parte do romance na qual o jovem Tajá não sabe o que fazer com seu conhecimento porque a realidade das pessoas exige algo muito mais concreto e imediato que o saber enciclopédico dele me fez pensar na fala de um jovem negro num texto de Esther Solano e no contexto em que vivemos. O artigo "Democracia concreta", na edição 1171 de Carta Capital, de 28/08/21, me deixou cabisbaixo, me deixou descabriado. Senti um desacorçoo grande com a realidade do rapaz, que é o símbolo de sua gente.

"Dias depois de Bolsonaro ganhar as eleições, ainda na nossa profunda depressão coletiva, fiz entrevistas numa região periférica de São Paulo. Lembro até hoje, talvez vá lembrar para sempre, da frase pronunciada por um jovem negro no transcurso de uma das conversas. Era uma dessas frases que resumem a vida em alguns segundos, lapidária, a impor-se sem deixar espaço para réplicas: 'Professora, agora que Bolsonaro ganhou, vocês, brancos de classe média, estão preocupados com a democracia? Nós, jovens pretos, continuamos preocupados em não morrer'. Julguem como quiserem, mas, nesse momento, a democracia, um conceito que sempre me pareceu enorme e digno, se apequenou imensamente diante desse jovem." (p. 27)

Difícil, heim!

Enfim, o romance de José J. Veiga tem um final feliz, utópico, mas possível, porque as personagens podem representar qualquer um de nós humanos.

Até pouco tempo, uns cinco anos, nunca tinha lido nenhuma obra de Veiga. Invoquei com a questão e fui atrás dos livros dele. Acho que comprei todos em sebos e livrarias por aí. Estou quase acabando a leitura de sua obra completa. O autor é muito, mas muito bom!

William


Bibliografia:

VEIGA, José Jacinto. Tajá e sua gente. Ilustrações Raul Fernandes. 3ª ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008

Revista Carta Capital, edição 1171, de 28 de agosto de 2021.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Tempo (XXII)



Refeição Cultural

Faltam poucos dias para o prazo final da entrega de um trabalho de conclusão de disciplina de meu curso de Letras. O tema que estamos estudando é sobre as diversas configurações do tempo nas formas narrativas e poéticas.

Os autores e obras que estudamos e os textos críticos que lemos, juntamente com as aulas da professora Viviana Bosi, nos fizeram pensar muito. Posso dizer por mim, que estou há meses com a cabeça nesta questão do tempo.

Acabei escolhendo para desenvolver meu trabalho um autor que não compôs o corpus estudado, escolhi Drummond. Já fiz parte do trabalho desde dezembro. Mas para retomar e concluir é necessário entrar novamente na matéria, no tema, de modo que terei que ler ou tudo ou parte dos textos críticos. É o jeito.

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MITO DO ETERNO RETORNO - Mircea Eliade

Já reli a introdução e o capítulo do livro disponibilizado para nós. O capítulo 2 - "A regeneração do tempo". O texto é muito interessante.

O autor analisa sociedades tradicionais, dos mais diversos pontos da Terra e em diversos momentos da história, em relação à forma como elas contam o tempo, como lidam com a passagem do tempo em relação aos fenômenos naturais como as estações do ano, épocas de cheias e de secas, o dia e a noite, o movimento da Terra e da Lua etc.

Ao longo da história humana, as sociedades criaram diversas formas de ritos e crenças em relação à passagem do tempo. Essas visões de mundo impactaram de formas variadas a forma como se vê a história e a vida, o passado, o presente e o futuro.

O poema que escolhi de Drummond - "Passagem da Noite" - é muito interessante porque através de sua leitura é possível ver um pouco dessa questão da regeneração abordada por Eliade sobre as sociedades e crenças das pessoas. 

Na primeira metade do poema é noite e o Eu lírico está pusilânime e com total desânimo em relação a tudo. Na segunda metade é dia e tudo se inverte, os sentimentos são de alegria, gozo, senso de oportunidades e a vida é reafirmada como algo que vale a pena.

Essa é a referência que mais identifico no poema em relação ao texto de Eliade.

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HISTÓRIA DO FUTURO - George Minois

Reli a introdução do livro. O autor nos apresenta a ideia central de suas argumentações. Se o futuro não pode ser previsto - ele contesta o determinismo -, o que as sociedades humanas fazem é inventar o futuro até onde isso é possível, inclusive com as predições. Mas o acaso e os fenômenos da natureza estão aí, inclusive em relação à vida humana, para nos lembrar da realidade objetiva.

O capítulo disponibilizado para leitura é da primeira parte do livro, "A era dos oráculos - A adivinhação primitiva, bíblica e greco-romana a serviço do destino individual e da política". O nome desta parte do livro já diz tudo que vamos estudar. Vamos à leitura:

ANTIGO TESTAMENTO: "o verdadeiro objetivo da profecia bíblica não é predizer o futuro, mas conseguir a conversão; ela é uma arma moral, não um meio de adivinhação." (p. 30)

MESSIANISMO: "De todo modo, eles são sempre úteis para as autoridades, desde que estas saibam monopolizá-los e domesticá-los. Foi o que trataram de fazer a monarquia e, em seguida, a casta sacerdotal, porque, se um profeta livre pode ser perigoso, um profeta de aluguel, que prediz o que é desejável, pode servir aos objetivos dos governantes, orientando a energia popular no sentido desejado." (p. 37)

No final do capítulo, Minois acaba citando a obra de Eliade, sobre a questão do mito do eterno retorno. A vida, nesta concepção, seria uma eterna repetição. Conhecer o passado seria prever o presente e o futuro.

E mais: "A essa concepção sobrepõe-se a do retorno periódico da humanidade, na escala de ciclos gigantescos de criação, corrupção, cataclismo, restauração." (p. 42)

Minois afirma ser uma concepção bastante determinista, sem saída alguma: "Concepção fatalista, que não é nem otimista nem pessimista, já que nada é definitivo, nem a catástrofe, nem a restauração. Os pré-socráticos, como Empédocles, Heráclito, Anaximandro, e os primeiros estoicos, como Zenão, adotaram essa visão grandiosa, vertiginosa e, apesar de tudo, como tudo que diz respeito à eternidade, desesperadora." (p. 43)

DETERMINISMO - Outra questão que Minois pontua é a do determinismo. Com os profetas, se substitui o determinismo mecânico das leis da natureza pelo determinismo divino. 

"O determinismo da vontade divina substitui o determinismo cósmico. A noção de profeta está ligada à de sentido determinado, de orientação, de finalidade, de inteligibilidade do real. A profecia é na verdade tanto uma tentativa de explicação do presente pelo futuro quanto uma revelação do futuro." (p. 43)

Nos profetas do judaísmo é o futuro que determina o presente, por causa das promessas de salvação anunciadas...

As predições teriam forte caráter psicológico e sociológico para as pessoas e para as sociedades tradicionais. O futuro estaria inexoravelmente ligado à vontade de seres superiores, divindades e espíritos.

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A IGNORÂNCIA É A FORÇA DO SISTEMA DE CRENÇAS: "A falta de conhecimentos científicos, no sentido moderno do termo, é a força desse sistema: já que não depende de uma verdade demonstrável, ele é inatacável. Quanto menos o homem sabe, mais acredita saber, o fato é notório; não há nada mais simples do que o universo para um ignorante; não há nada mais complexo e misterioso para um sábio." (p. 45)

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Por fim, o texto de Minois é muito bom, mas não vejo referências nele para serem utilizadas no poema "Passagem da Noite", que estou analisando para o trabalho final da disciplina Literatura Comparada II.

Vou seguir com as releituras dos textos críticos.

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FUTURO PASSADO - REINHART KOSELLECK

Terceiro texto crítico em leitura. Vejamos o que Koselleck nos explica a respeito de prognóstico e profecia, suas diferenças e usos ao longo da história das sociedades. 

Ele nos diz que: "Como conceito antagônico às antigas profecias aparece a previsão racional, o prognóstico." (p. 31) 

"Enquanto a profecia ultrapassa o horizonte da experiência calculável, o prognóstico, por sua vez, está associado à situação política. Essa associação se deu de forma tão íntima, que fazer um prognóstico já significa alterar uma determinada situação. O prognóstico é um momento consciente de ação política. Ele está relacionado a eventos cujo ineditismo ele próprio libera. O tempo passa a derivar, então, do próprio prognóstico, de uma maneira continuada e imprevisivelmente previsível." (p. 32)

O prognóstico constrói seu próprio tempo, a profecia apocalíptica destrói o tempo.

"O prognóstico produz o tempo que o engendra e em direção ao qual ele se projeta, ao passo que a profecia apocalíptica destrói o tempo, de cujo fim ela se alimenta. Os eventos, vistos da perspectiva da profecia, são apenas símbolos daquilo que já é conhecido. Se os vaticínios de um profeta não foram cumpridos, isso não significa que ele tenha se enganado. Por seu caráter variável, as profecias podem ser prolongadas a qualquer momento. Mais ainda: a cada previsão falhada, aumenta a certeza de sua realização vindoura. Um prognóstico falho, por outro lado, não pode ser repetido nem mesmo como erro, pois permanece preso a seus pressupostos iniciais." (p. 32)

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Como é possível que acreditemos nessas invenções humanas?! Que absurdo isso! E eu me lembro de passar a metade da minha vida acreditando em tudo tudo quanto é invenção narrativa dessas.

E hoje, século XXI, com séculos de ciência acumulada, as pessoas ao meu redor e os povos do mundo continuam pensando exatamente como as sociedades arcaicas e tradicionais que Eliade estudou e descreveu no Mito do eterno retorno

Qual a diferença dos bolsonaristas terraplanistas e negacionistas em relação aos sumérios, caldeus, hititas, e vou mais longe, aos homens de 50 mil anos antes? Pra que valeu toda a ciência conhecida hoje para essa gente que habita ao nosso redor?

Que merda tudo isso!

William


Bibliografia:

MINOIS, G. História do futuro. Dos profetas à prospectiva. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Unesp, 2015.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto PUC Rio, 2006.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Tempo (XX)



Refeição Cultural

(Rascunhos e ideias para o trabalho final de disciplina de literatura)


DO TEMPO REAL AO TEMPO IMAGINÁRIO

Um dos capítulos do livro O tempo na narrativa de Benedito Nunes - "Do tempo real ao tempo imaginário" - desenvolve diversos conceitos de tempo a partir da pergunta "O que é o tempo?". E Nunes afirma: "Direta ou indiretamente, a experiência individual, externa e interna, bem como a experiência social ou cultural, interferem na concepção do tempo." (NUNES, 1969, p. 17)

Nunes vai explicar os conceitos de tempo físico e psicológico, tempo cronológico e histórico, tempo linguístico e tempos verbais. Os poemas de A Rosa do Povo têm forte relação com um tempo histórico, os anos cruciais da 2ª Guerra Mundial. Essa marcação temporal, que situa a obra em um "tempo" acaba por influenciar o Eu lírico nos poemas, de maneira que podemos fazer leituras poéticas para além do plano da linguagem, percebendo sentidos mais pessoais e psicológicos nos poemas.

Muitos poemas do livro têm a temática baseada na passagem de um tempo ruim, de medo, de desânimo e desesperança para um tempo de renascimento, regeneração, purificação, de nova chance, nos permitindo com isso experimentar um pouco dos conceitos trabalhados por Eliade sobre a "regeneração do tempo". Alguns poemas evidenciam os efeitos da passagem do tempo até no título, outros não, mas o tema é o mesmo, o Eu lírico está refletindo sobre o tempo.

Cito alguns dos poemas de A Rosa do Povo, cujas temáticas incluem a passagem do tempo, tanto em seu aspecto físico quanto em seu aspecto psicológico, em relação ao Eu lírico: "Anoitecer", "Nosso Tempo", "Passagem do Ano", "Passagem da Noite", "Uma Hora e Mais Outra", "Nos Áureos Tempos", "Ontem", "Assalto", "Resíduo", "Desfile", "Retrato de Família", "Idade Madura", "Mas Viveremos" e "Últimos Dias".

"PASSAGEM DA NOITE"

Em "Passagem da Noite", temos um poema de 40 versos, divididos em duas estrofes, dois tempos distintos de 20 versos, sendo a primeira parte relativa ao tempo físico e natural da noite, a outra parte relativa ao período do dia, e vemos o Eu lírico expressar seu estado psicológico após iniciar a estrofe situando o cenário no tempo: "É noite.". Veremos uma sequência de imagens e associações entre a "noite" e o estado psicológico do Eu lírico.

Na transição da noite para o dia em primeiro plano, o plano da linguagem - "E salve, dia que surge!" -, além da clara transição do tempo de "sombra" e de "desânimo" para o tempo de "alegria", "gozo" e "gosto do dia!", é possível fazermos leituras de sentidos mais profundos, encontrar nas duas partes do poema de Drummond possíveis referências a processos cerimoniais religiosos ou mitológicos de purificação, de renascimento, de exaltação da vida e com ela a esperança no amanhã.

Certas imagens da primeira e da segunda parte do poema nos permitem até identificar certos mitos como o evento da purificação dos homens e do mundo através da longa noite do dilúvio e o renascer da humanidade, uma forte tradição bíblica. Coincidência ou não, o dilúvio durou 40 dias e 40 noites e o poema tem 40 versos.

Na primeira parte, o Eu lírico diz que:

"Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra."

A imagem nos coloca praticamente nas longas noites do dilúvio. Temos a noite nos elementos da natureza. No entanto, na segunda parte, temos o recomeço, a redenção, a regeneração.

"Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos."

O cenário agora é de recomeço, "há florestas", "a terra prossegue seu giro" e "não nos diluímos".

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A sequência de poemas de A Rosa do Povo que vai de "Anoitecer" até "Uma Hora e Mais Outra" é muito coerente e lógica, apresenta uma continuidade temática. 

"Anoitecer" nos fala de determinado momento no tempo físico, da natureza, e na vida do Eu lírico (tempo psicológico e tempo histórico). E fala do medo. O poema seguinte é "O Medo"; depois vem "Nosso Tempo" descrevendo longamente um certo tempo histórico, para em seguida falar da "Passagem do Ano" e "Passagem da Noite" e, por fim, "Uma Hora e Mais Outra", repetindo a temática de que apesar do desânimo, da tristeza e dos problemas, a esperança e o recomeço está na possibilidade de cada amanhã.

Aliás, aprendemos essa lógica de encadeamento e importância de tudo na poesia com as aulas do professor Ariovaldo em Teoria Literária II, que vi ano passado. Em poesia, nada é isolado, solto. Toda palavra no verso (ou ausência de palavra) tem seu sentido, assim como os versos na estrofe, assim com as estrofes no poema. É uma sequência de imagens com significações. O mesmo em relação ao livro que reúne os poemas. Essa lição é perfeita ao se ler A Rosa do Povo.

William


Bibliografia em estudo:

ELIADE, Mircea. Mito do eterno retorno. Trad. José Antonio Ceschin. São Paulo: Mercuryo, 1992.

MINOIS, George. História do futuro. Dos profetas à prospectiva. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Unesp, 2015.

NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. São Paulo: Ática, 1969.

Leitura: Anoitecer - Carlos Drummond de Andrade



Este poema de Drummond, do livro A Rosa do Povo, é um dos poemas que tenho apreciado ao refletir sobre as configurações do tempo em narrativas e poesias. O poema é muito significativo. 

A Rosa do Povo traz uma sequência impressionante de poemas que abordam temáticas como as debatidas por Mircea Eliade em Mito do eterno retorno: mudança de um período de tempo para outro, mitos de criação e regeneração, passagem do tempo etc.

Fiz essa leitura durante o início da quarentena e isolamento social devido à pandemia mundial do Covid-19. Na época, li o livro todo em voz alta e gravei a leitura de alguns dos poemas.


domingo, 13 de dezembro de 2020

Tempo (XVIII)



Releituras de textos críticos de Literatura Comparada II

Mito do eterno retorno - Eliade

Capítulo 2 - A regeneração do tempo 

Ano, Ano Novo, Cosmogonia

Mircea Eliade, no Mito do eterno retorno, ao estudar as sociedades arcaicas e tradicionais percebeu que elas têm uma certa revolta em aceitar o tempo concreto e histórico, a realidade material de seu tempo. A tendência delas é uma nostalgia a um suposto passado mítico, acreditam numa "Grande Era" do passado que poderia voltar no futuro.

Fica fácil perceber e compreender o atraso do povo brasileiro, uma gente arcaica, atrasada e de fácil manipulação por esses profissionais vigaristas de religiões e exploradores da fé das pessoas e da miséria humana causada por uma das piores distribuições de riqueza do planeta e pela consequente falta de educação formal, científica e libertadora.

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Eu gostei da expressão "homem cultivado" utilizada por Eliade para falar de pessoas não especialistas, que têm um conhecimento mais genérico e universal das coisas da história e do mundo e das culturas em geral, com um espírito mais filosófico.

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Estou namorando poemas do livro A Rosa do Povo, de Drummond, para escolher um deles para analisar sob a ótica das configurações do tempo nas narrativas e poesias, temática da disciplina de Literatura Comparada II, matéria da professora Viviana Bosi neste semestre.

Essa obra de Drummond é fortemente marcada por um tempo, como ele mesmo diz em 1987, numa reedição dela. O livro lançado em 1945 foi escrito durante os anos cruciais da 2ª Guerra Mundial. Tanto o autor quanto o mundo estavam fortemente impactados por aquele período de mortandade.

Muitos poemas do livro têm a temática baseada na passagem do tempo, alguns evidenciam isso até no nome, outros não, mas o tema é o mesmo, o Eu lírico está refletindo sobre o tempo. 

Cito alguns dos poemas de A Rosa do Povo, cuja temática é a passagem do tempo, tanto em seu aspecto físico quanto em seu aspecto psicológico, em relação ao Eu lírico: "Anoitecer", "Nosso Tempo", "Passagem do Ano", "Passagem da Noite", "Uma Hora e Mais Outra", "Nos Áureos Tempos", "Ontem", "Assalto", "Resíduo", "Desfile", "Retrato de Família", "Idade Madura", "Mas Viveremos" e "Últimos Dias".

Em alguns deles, vemos, de certa forma, as questões que Eliade analisa em Mito do eterno retorno como, por exemplo, a forma como as sociedades tradicionais ou arcaicas viam o final de um período de tempo e o início de outro como uma possibilidade de recomeço, renascimento, de purificação e de deixar para trás pecados, dores, tristezas etc.

Nos poemas "Passagem do Ano" e "Passagem da Noite" temos a questão da "Regeneração do tempo", tema do capítulo dois do livro de Eliade.

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"Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam
                [a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão esperas amanhecer.
"

(Passagem do Ano, Drummond)

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Eliade nos conta que os índios zuni chamavam os meses de "passos do ano" e o ano de "passagem do tempo". Interessante analogia. São citados outros povos e novas formas de contar a passagem do tempo. Mas o que nos importa é o conceito: o final de um período de tempo e o começo de um novo período (baseados em ritmos cósmicos, estações do ano, época de chuvas ou secas etc). E o Eu lírico no poema de Drummond nos diz:

"O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão"

E desses processos físicos e ritmos cósmicos de marcação da passagem do tempo, vieram os processos psicológicos de regeneração e purificação periódicas da vida (deixando-se para trás tristezas, pecados, doenças, demônios etc) e, mais ainda, de períodos de recriação da vida, de repetições das cosmogonias. Tempos de recomeçar, renascimento.

"Cada Ano Novo é considerado como o reinício do tempo, a partir do seu momento inaugural, isto é, uma repetição da cosmogonia." (ELIADE, p. 59)

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Em "Passagem da Noite", poema de 40 versos, divididos de forma exata em duas estrofes de 20 versos, e também em dois tempos distintos, a primeira parte relativa à noite, a outra ao dia, vemos nos sentimentos do Eu lírico os mesmos processos psicológicos descritos por Eliade no Mito do eterno retorno.

Na transição da noite para o dia, além da clara transição do tempo de "sombra" e de "desânimo" para o tempo de "alegria", "gozo" e "gosto do dia!", é possível encontrar nas duas partes do poema de Drummond possíveis referências a processos cerimoniais religiosos ou mitológicos como o mito da criação na tradição bíblica, ou o da purificação do mundo pelo dilúvio.

Na primeira parte, o Eu lírico diz que:

"Sinto que nós somos noite, 
que palpitamos no escuro 
e em noite nos dissolvemos. 
Sinto que é noite no vento, 
noite nas águas, na pedra."

A imagem nos coloca praticamente nas longas noites do dilúvio. No entanto, na segunda parte, temos o recomeço, a redenção, a regeneração.

"Tudo que à noite perdemos 
se nos confia outra vez. 
Obrigado, coisas fiéis! 
Saber que ainda há florestas, 
sinos, palavras; que a terra 
prossegue seu giro, e o tempo 
não murchou; não nos diluímos."

Agora a imagem nos coloca em condições para o recomeço, "há florestas", "a terra prossegue seu giro" e "não nos diluímos".

Enfim, muitas reflexões temos tido ao estudar os textos críticos sugeridos por nossa professora nesta disciplina de Literatura Comparada II.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo, 19ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1998.


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Tempo


Refeição Cultural

O tempo é uma variável que me intriga desde que me entendo por gente. Para os seres vivos, a passagem do tempo cessa com a morte. Em algum momento, meu tempo de existência vai chegar ao fim. Isso é natural e todo ser humano vai lidar com a questão do fim das coisas vivas. Inclusive, os seres vivos têm que lidar com o fim das coisas não vivas, pois o tempo passa para tudo e uma das poucas coisas que sabemos é que tudo muda o tempo todo. Hoje tem uma floresta ali, amanhã tem um deserto. Hoje é terra, amanhã é mar. A montanha que existia sumiu. O planeta que existia explodiu...

Estou cursando uma disciplina na Faculdade de Letras que aborda esse tema, o tempo: "Configurações do tempo em diversas formas de narrativa e poesia", com a professora Viviana Bosi, na disciplina de Literatura Comparada II. Os textos do programa estão me fazendo pensar muito a respeito da questão. Algumas coisas me ligam mais ainda à temática da matéria: estou me despedindo da Universidade e do curso de Letras depois de duas décadas do início da graduação. Retornei ao curso o ano passado para completar os créditos e colar grau nas habilitações que fiz na década passada.

O primeiro texto que lemos foi um texto de um livro da década de cinquenta - Mito do eterno retorno -, de Mircea Eliade, e fiquei muito pensativo após a leitura. O autor afirma na introdução que o livro poderia ter como subtítulo "Introdução à Filosofia da História" porque ele vai tratar disso, olhar as sociedades arcaicas, que fazem um esforço tremendo para desprezarem a "história" por causa de uma característica delas: "trata-se de sua revolta contra o tempo concreto e histórico, sua nostalgia por uma volta periódica aos tempos míticos do começo das coisas, à 'Grande Era'." (ELIADE, 1992, p. 5)

Tempo, história, passado, presente, futuro. Como não refletir sobre essas variáveis em tempos de pandemia mundial? Como não pensar nessas questões neste momento da história humana sob a hegemonia do modo de produção capitalista, que acelerou como nunca a destruição do planeta Terra e, consequentemente, reduziu as possibilidades de existência dos seres vivos? Como não pensar no tempo e na história estando com mais de cinquenta anos de idade num mundo e numa sociedade nos quais a vida humana tem cada vez menos valor?

Ainda na introdução, gostei bastante do conceito de "homem cultivado" que o autor utiliza em relação a certa categoria de pessoas não-especialistas: "nossa preocupação foi no sentido de chamar a atenção do filósofo, do homem cultivado em geral". (p.6)

Do livro de Eliade, lemos o capítulo dois - "A regeneração do tempo".

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REFLEXÕES QUE TENHO FEITO

Quando olho para trás em minha vida, acho que sempre quis ser um "homem cultivado", mas o esgotamento físico e mental por ter que trabalhar desde muito cedo deve ter pesado um pouco no não atingimento deste objetivo de vida. Eu queria ser uma espécie de intelectual. Queria ser professor ou diplomata ou coisa do gênero. Não fui. A vida me levou por outros caminhos.

Além da questão da passagem do tempo, tenho pensado em outra coisa com muita frequência: a ideia de que a vida é uma jornada e não um destino. Os textos que estamos lendo na disciplina da professora Viviana Bosi também já me fizeram pensar nisso, pois não consigo concordar com a questão de um futuro determinista, já dado, ou de uma eterna recorrência e retorno das coisas. No entanto, essa forma de olhar para a vida e o tempo já foi bem diferente em minha vida. E como foi! 

Por enquanto, fico por aqui. Ando sem vontade de escrever. 

William


Bibliografia:

ELIADE, M. Mito do eterno retorno. Trad. José Antonio Ceschin. São Paulo: Mercuryo, 1992.