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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

030122 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

O tempo. A vida. Existência. Memória. Esquecimento. Resistência. Mudança. Substâncias que pautam meu viver neste momento. 

Pelo calendário ocidental no qual vivo acabou-se mais um ano e outro começou. Os pássaros, os animais diversos, os insetos e a natureza não sabem dessa abstração humana: o tempo. O nosso Sol, a Lua do planeta Terra e as coisas da natureza continuam suas existências, suas mudanças. "Nosso Sol"... Que arrogância humana! Nós é que pertencemos ao Sol e seu sistema de planetas.

Mudança é uma das certezas da existência das coisas. Estamos mudando o tempo todo. O sistema solar está mudando. Meu corpo está mudando. O relevo ao redor de onde vivo há mais de vinte anos mudou e segue mudando. 

As pessoas que conheço há décadas mudaram, mudaram pra cacete! Parte delas simplesmente está irreconhecível! Como pessoas que considerava tanto viraram bolsonaristas? Imaginem se eu vivesse um século atrás e muitas pessoas amadas virassem nazistas... foi isso que aconteceu no meu mundo!

Vou terminar a leitura de quatro livros que comecei e não consegui ler até o fim. Durante minha vida de leitor foram dezenas de livros começados e não finalizados. Ano passado terminei a leitura de vários livros inacabados. Vou fazer o mesmo agora. Desta vez serão dois autores russos, um afegão e uma inglesa: As três irmãs e contos, Crime e castigo, O caçador de pipas, Razão e sensibilidade.

E também vou seguir com os diversos livros que pretendo ler e estudar.

O CAÇADOR DE PIPAS

Entre ontem e hoje li mais de 200 páginas do livro de Khaled Hosseini, O caçados de pipas (2003). Tentei ler o romance anos atrás. Por incrível que pareça havia lido mais da metade do livro e não havia terminado. E a narrativa é muito boa. Agora que reli os 16 capítulos que já conhecia vou para a metade final do romance. 

A ficção nos apresenta personagens afegãos e a leitura nos coloca em contato com a cultura e a história do Afeganistão e seu povo.

Depois vou terminar o livro que tenho de Tchecov, depois um dos romances iniciados de Jane Austen e, por fim, o clássico de Dostoiévski que não terminei após ler mais de 150 páginas.

DIÁRIOS E REFLEXÕES

Estou relendo e preparando a encadernação de minhas postagens do ano de 2021. Escrevi bastante. Foram 275 textos: diários, reflexões, memórias, experiências de leituras, opiniões, sentimentos, crônicas, narrativas.

Já reli os primeiros quatro meses de postagens no blog. Achei alguns registros interessantes. Eles marcam um tempo de nossa vida nacional, além dos momentos pessoais. Entre janeiro e abril do ano passado li 17 livros. Terminei romances que ficaram inacabados por muitos anos, décadas. Li clássicos que sempre quis ler e nunca deu certo. Amiga leitora, amigo leitor, foram mais de 50 livros lidos em 2021.

Ao reler todas as postagens relativas à experiência de leitura de Moby Dick (1851) percebi que gostei bastante do clássico de Herman Melville. Ao finalizar o ano lendo o clássico de Daniel Defoe, As aventuras de Robinson Crusoé (1719), percebi que gostei bem menos deste do que daquele romance. No mínimo posso dizer que aprendi mais com Moby Dick.

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Sigamos lendo, escrevendo, vivendo, resistindo, buscando respostas e mudando com as mudanças.

William


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

42. As aventuras de Robinson Crusoé - Daniel Defoe



Refeição Cultural - Cem clássicos

Concluída a leitura de Robinson Crusoé. Mais um clássico da literatura mundial lido e incluído em meus conhecimentos literários.

Encerro este ano de leituras literárias com algumas realizações importantes em meu percurso de leitor. Agora conheço dois clássicos que por muito tempo me incomodou muito o desconhecimento de ambos: Moby Dick e Robinson Crusoé. Dois livrões enormes!

Uma postagem como essa contém algum tipo de spoiler. Então, caso alguém não queira saber sobre a obra porque vá ler o romance, é melhor não ler a postagem.

ROBINSON CRUSOÉ

Li o clássico de Daniel Defoe entre os dias 11 de novembro e hoje, 27 de dezembro. O livro foi publicado em 1719. Achei que a estória não acabaria nunca mais depois da metade do livro. Aquilo que imaginava a respeito do romance - um náufrago perdido numa ilha deserta - foi até a metade da história do personagem. Agora sei o quanto foram longas as aventuras de Crusoé.

Antes de mais nada, é necessário registrar sempre minha admiração por alguém conseguir escrever um romance e publicá-lo séculos atrás. As dificuldades de sobrevivência do próprio escritor, de confecção de textos literários ou filosóficos, de publicação dos textos e ideias do escritor são coisas quase inimagináveis para um cidadão do mundo no século XXI. E não quero dizer com isso que não existam dificuldades hoje para se produzir e publicar um livro.

O livro é dividido em 36 capítulos. A técnica narrativa é no formato de diários e memórias do personagem principal, Robinson Crusoé, um cidadão inglês dos séculos XVII e XVIII. Ao longo das narrativas, Crusoé fala com o leitor, antecipa que vai contar tal coisa mais pra frente e deixa claro que narra de forma cronológica as aventuras.

Entre os capítulos I e XVIII conhecemos as desventuras de Crusoé, que deixa a casa de seus pais de classe média para se aventurar pelos mares do mundo. Crusoé atribui à Providência tudo que lhe ocorre, tanto de bom quanto de ruim. Naufraga algumas vezes, até que se vê sozinho numa ilha na região do Caribe. 

Depois de muitos anos sozinho, passa a conviver com um nativo local, ao qual lhe dá o nome de Sexta-Feira. Aos poucos vão aparecendo mais personagens em "sua" ilha.

Na outra metade do livro, do capítulo XIX ao XXXVI, Crusoé nos conta sobre suas aventuras ao redor do mundo. O inglês foi para Madagascar, para o Oriente e para a Ásia. Visitou a China, a Rússia, Camboja e vários lugares do mundo até os 72 anos de idade.

A obra toda foi marcada por um ponto de vista religioso, o olhar de um protestante. Uma visão cultural de superioridade de determinada crença religiosa, o cristianismo, em relação às demais formas de mitos e crenças de diversos povos do mundo.

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"Imaginava eu durante a viagem que ao passo que nos avizinhássemos da Europa, encontraríamos povos mais civilizados e regiões mais povoadas. Não sucedeu como eu julgava. Passamos ainda pela região dos tártaros tongues, onde vimos os mesmos vestígios de paganismo grosseiro, em algumas partes talvez mais pronunciado do que o outro que nos causou tanta náusea. Diferenciam-se apenas dos mongóis em ser menos insolentes e perigosos; mas em compensação não cedem a nenhum outro povo bárbaro do mundo na grosseria das maneiras, na idolatria e no número das suas divindades, que é prodigioso..." (p. 507)

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LUGAR DE FALA - Uma característica marcante no romance e no personagem é o lugar de fala deles: Crusoé (e eu diria seu autor) é um homem branco inglês, protestante, oriundo de um país colonizador na época das grandes navegações e descobrimentos de novas terras no mundo por parte dos europeus. 

Sim, é uma obra de ficção, mas quem disse que obras ficcionais não têm lugar de fala, ou do autor, ou da personagem, ou da época, do contexto, do lugar de origem etc. Robinson Crusoé é um romance inglês do início do século XVIII.

O leitor vai lendo o romance e conforme sua formação intelectual e política vai tomando birra do personagem, o náufrago inglês. Robinson Crusoé se acha representante do melhor e mais evoluído povo do mundo. São melhores que tudo e que todos, o mundo para além da Inglaterra é lixo pra ele (eles).

Sexta-Feira, o nativo, nunca foi mais que um mero serviçal, escravo de Crusoé. As aventuras vão ocorrendo e o cara se vê na China falando mal dos chineses e falando que as muralhas da China são uma merda. Depois ele vai falar a mesma coisa do povo russo, tudo gente bárbara pra ele. Durante seus acessos de arrogância e intolerância, destrói ídolos religiosos de outros povos, e a justificativa é que a abstração religiosa do povo dele - a fé cristã - é a verdadeira (!?).

Em termos de construção narrativa e de conteúdo histórico gostei bem mais de Moby Dick, do norte-americano Melville. Ele traz mais curiosidades históricas do que o romance de Defoe. 

Os dois romances são enormes, envolvem aventuras pelos mares do mundo e são bem diretos ao demonstrarem como nós humanos lidávamos (e lidamos) com a natureza (nós, os bárbaros): somos uns destruidores de tudo. Nesse sentido, a leitura vale muito a pena.

As aventuras de Robinson Crusoé não foi uma leitura prazerosa. Mesmo assim, valeu a leitura do romance. Vamos adiante lendo e conhecendo os clássicos.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

121121 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"INFÂNCIA

        A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé." 

(DRUMMOND. In: Alguma Poesia - 1930)


Sexta-feira, 12 de novembro de 2021.


Dias atrás, reli o livro de poesias que apresentou o poeta Carlos Drummond de Andrade para o Brasil e o mundo. Alguma poesia é um livro que me arrepia só de mencioná-lo! Neste poema - "Infância" -, o Eu-lírico compara sua história à de Robinson Crusoé, personagem do romance do escritor inglês Daniel Defoe, publicado em 1719.

Já no finalzinho das Memórias póstumas de Brás Cubas (1880/81), romance de Machado de Assis que marcou uma revolução na literatura brasileira, o defunto-autor cita um gesto de Gulliver, personagem do romance do escritor irlandês Jonathan Swift, obra lançada em 1726.

"Multidão, cujo amor cobicei até a morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Ésquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver." (ASSIS. In: Memórias póstumas de Brás Cubas. Cap. XCIX)

Sou um homem de mais de cinquenta anos de idade. Passei boa parte de minha vida lendo alguma coisa aqui e ali de literatura. Desejo e sede de saber eu sempre tive. Não tive foi tempo livre para ler tudo o que gostaria. Trabalhei muito para os capitalistas e fiz os estudos mínimos exigidos de pessoas como nós da classe trabalhadora. Li bastante se me comparar com os meus pares da classe e com o povo brasileiro. Mas me falta muita leitura ainda. São lacunas culturais imensas, que me incomodam muito.

Dessas citações e referências acima, por exemplo, eu não li ainda As aventuras de Robinson Crusoé e As viagens de Gulliver. Só fui ler Prometeu acorrentado este ano (ver comentário aqui). Percebem minhas lacunas culturais? Aprendi a ter a humildade de saber que me faltam muitas leituras, mas tenho a consciência de quem não passou a vida à toa à toa (como a andorinha de Manuel Bandeira). Passei a vida sendo explorado pelos donos do poder e lutando contra essa exploração da classe trabalhadora, se não li mais romances e poesias não foi por opção, foi por necessidade do viver.

Drummond mesmo, tenho centenas de poemas seus a conhecer. Só conheço seus primeiros trabalhos, até os anos quarenta. Cecília Meireles, essa poeta e intelectual multifacetada, só passei a conhecer alguns poemas seus recentemente. Estou interessado em ler toda a obra de Drummond e de Meireles. Se o tempo de existência me permitir, seguirei lendo eles.

Essa introdução trabalhosa de meu diário cultural e de reflexões é para registrar que comecei ontem a leitura de Robinson Crusoé. Lá vamos nós viajar no tempo e na literatura mundial. Crusoé vai se somar aos meus clássicos lidos recentemente como, por exemplo, Moby Dick e Decamerão

Desejo que a casualidade do viver me permita completar a leitura e saber finalmente a história de Crusoé. Apesar dessa lacuna cultural, não tenho dúvidas sobre a boniteza da história do Eu-lírico do poema de Drummond. Daqui a algumas semanas saberei também das aventuras de Crusoé.

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LUTO E PESAR

Estou muito triste, muito abalado e me solidarizo com o falecimento de Dôia, economista e militante socialista. Dôia era companheira de nosso querido Bemvindo Sequeira. Nosso casal militante e socialista, que tem vivido em Portugal, contraiu Covid-19 dias atrás e Dôia, como era chamada carinhosamente, não resistiu. Bemvindo está se recuperando aos poucos da Covid. Ele esteve nesta sexta-feira em uma live com Kiko Nogueira e Pedro Zambarda, do site DCM.

É tudo muito triste... a vida é um instante, somos muito frágeis, apesar de sermos muito fortes quando lutamos como militantes por um mundo mais justo e solidário. Companheiro Sequeira, receba o nosso carinho. 

- Companheira Dôia, presente!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. - São Paulo: Panda Books, 2018.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Viagens linguísticas



Refeição Cultural

Terminada a aventura a bordo do Pequod, passando um tempo de meus dias atribulados junto ao capitão Acab e sua tripulação, à caça da baleia branca Moby Dick, me preparo agora para novas aventuras literárias, novas viagens a novas culturas e novas viagens para dentro de mim mesmo, meu cérebro e o que sou.

Eu e o amigo Sérgio Gouveia vamos embarcar na companhia de Leopold Bloom e vamos perambular pela Dublin do início do século XX durante o longo dia 16 de junho de 1904. Para meu amigo, será a novidade de um dos romances mais icônicos da literatura mundial; para mim, será a releitura da obra duas décadas após minha epopeia joyceana. 

Ulisses, de James Joyce, é sobretudo uma viagem linguística. Assim como outras obras do gênero romance com linguagens pouco comuns aos leitores, o romance de Joyce é uma leitura exigente. Me deu trabalho da primeira vez. Vamos ver agora.

Para tornar mais interessante a leitura do Ulisses de Joyce, decidi ler ao mesmo tempo a obra referência de Ulisses, a Odisseia, de Homero. E vou ler a Odisseia em versos, coisa que nunca terminei, pois comecei e larguei. Já li a Odisseia em prosa para tomar conhecimento do clássico e atender às necessidades acadêmicas.

Sendo assim, daqui a poucos dias começo a viagem pela Dublin de Leopold Bloom, Molly Bloom e Stephen Dedalus. Antes, vou fazer a arrumação necessária da casa, deixada um pouco de lado durante a viagem a bordo do baleeiro Pequod.

Para iniciar as novas viagens linguísticas, li entre ontem à noite e hoje de manhã mais de 50 páginas de ensaios e textos críticos contidos na minha edição especial da Odisseia, uma edição da Edusp à cargo do professor Antonio Medina, já falecido. Tive aula com o Medina na FFLCH e nunca mais vou me esquecer daquelas aulas. Eram fantásticas! 

Os textos que li do professor Medina e do poeta e crítico Haroldo de Campos foram centrais para iniciar a leitura da Odisseia e de Ulisses. Os textos abordaram a questão da linguagem, das traduções e foram motivados por causa da figura polêmica do tradutor da edição que tenho, Manuel Odorico Mendes, um grande intelectual maranhense do século XIX.

Odorico Mendes é tratado de forma dura e até descortês pelo crítico de literatura brasileira Sílvio Romero e também por nosso mestre Antonio Candido. Em sua defesa lemos Haroldo de Campos e o professor Medina. Quanta reflexão pude ler nas 50 páginas de críticas de minha edição! Talvez comente durante as leituras dos clássicos parte dos conceitos apreendidos ali.

E não é que fui até a estante para dar uma olhada em qual tradução em verso eu tinha da Ilíada de Homero e para minha surpresa também é uma tradução de Odorico Mendes! A gente nem sabe tudo o que tem em casa...

Enfim, vamos começar a arrumação da casa, porque depois vamos embarcar em longas viagens, em viagens fantásticas, sem dúvida! Alguém mais se habilita para essas viagens?

Boas leituras, amigas e amigos leitores!

William


segunda-feira, 26 de abril de 2021

26. Moby Dick - Herman Melville



Refeição Cultural - Cem clássicos

Contar entre minhas leituras de clássicos da literatura mundial a leitura de Moby Dick é uma satisfação. É um feito para mim. Tudo bem que eu tenha conhecido aos 52 anos essa estória que já virou história, haja vista que o embate entre a baleia branca Moby Dick e o capitão Acab (Ahab) está inserida na cultura mundial há 170 anos.

Lendo sobre o escritor e poeta Herman Melville, percebemos as dificuldades que marcaram a vida de grandes autores da história da literatura, das ficções literárias. Melville ficou órfão cedo, trabalhou desde jovem para sustentar a si e à família. Depois se aventurou pelo mundo. Na volta aos Estados Unidos, escreveu algumas ficções de sucesso e a ficção que não obteve reconhecimento do público foi justamente Moby Dick. Vai entender! Alguém conhece hoje alguma outra obra de Melville?

A partir de agora, eu, um leitor tardio de romances, coloco a leitura de Moby Dick na minha galeria de façanhas literárias realizadas nesta breve caminhada pela existência humana. Algumas obras são difíceis de se ler até pelo tamanho, além das dificuldades na linguagem, no conteúdo etc.

Cito algumas leituras de peso no meu percurso: Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes; Ulisses, de James Joyce; Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway; A montanha mágica, de Thomas Mann; Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiéviski; Decameron, de Giovanni Boccaccio; Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Esses são alguns dos grandes clássicos da literatura que tive o privilégio de conhecer.

Faltam tantos clássicos ainda pra serem lidos que desejo realmente que a natureza e o acaso me permitam seguir vivendo mais um tempo com um mínimo de saúde para poder conhecer um pouquinho mais da cultura humana produzida ao longo da história. 

Como diz o pensador Italo Calvino, de forma humorada ao final do ensaio com diversos motivos para se ler os clássicos, é melhor ler do que não ler os clássicos. Concordo com ele. Aliás, uma das coisas que Calvino fala é que devemos ter os livros a ler, os livros a reler e os livros a serem lançados ainda. Após 20 anos, vou reler Ulisses, para acompanhar a leitura de um amigo. Vamos curtir juntos a viagem na linguagem joyceana.

Por fim, ao mesmo tempo em que me sinto realizado ao terminar mais um livro clássico - não diria feliz porque não estou feliz com o atual estado das coisas no mundo -, fico também pensativo a respeito da vida na Terra. As leituras mais recentes têm me feito pensar muito. Isso é bom e é raro porque as pessoas estão deixando de pensar. Somos seres autômatos e o homo sapiens está em risco de extinção.

O ser humano produz coisas fantásticas como as ciências e as artes e ao mesmo tempo produz as maiores tragédias e destruições. Em pleno século XXI temos um país sob bolsonaros... não tem sentido algum isso. 

No nível em que estamos, a humanidade e a vida em geral não durarão nem alguns séculos a mais e olha que somos muito recentes no planeta, 100 mil anos de história do homo sapiens não é nada para o tempo do Planeta e do Universo.

É isso! Eu estou cansando dos seres humanos, de verdade. E pior é que a vida humana não tem muito sentido sem as relações humanas. Não sei como isso vai acabar, pelo menos para mim.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.

domingo, 25 de abril de 2021

A história de Moby Dick e Acab ainda emocionam



Refeição Cultural

"Moby Dick fez uma aparição espetacular! Porque desta vez a baleia branca não revelou a sua proximidade pelos jorros tranquilos e indolentes, nem pelos borbotões pacíficos da fonte mística da sua cabeça, e sim pelo fenômeno mais maravilhoso do salto. Erguendo-se a toda velocidade das mais insondáveis profundezas, o cachalote lança assim todo o seu volume ao elemento puro do ar, e empilhando uma montanha deslumbrante de espuma, mostra o lugar onde se encontra, até uma distância de sete ou oito milhas. Em momentos como esses, as ondas quebradas e furiosas que sacode parecem ser a sua juba; em alguns casos, o salto é o seu gesto de desafio." (p. 629)


Foi emocionante! Terminei a leitura de Moby Dick (1851), de Herman Melville. Foi emocionante!

Neste domingo, quando faltavam umas 15 páginas para acabar o romance, comentei com minha esposa algo que para mim é essencial na leitura de obras clássicas: eu estava ansioso para saber o final da estória!

Sei que é difícil acontecer isso com uma obra literária que tem 170 anos de existência. Mas comigo foi assim. Eu dificilmente vejo um filme baseado em livros de ficção que pretendo ler um dia. Neste caso, deu certo! Até a última página, eu não sabia o desfecho da história de Moby Dick, o capitão Acab e sua tripulação e o baleeiro Pequod.

E vivi a tensão que se desenvolvia naquele cenário, céu e mar, junto com as personagens da trama, até o último instante. E me surpreendi com o final. E não conto pra ninguém que ainda não saiba.

E com a viagem no Pequod por quase dois meses - li o clássico em 19 sentadas - pude abstrair por algumas horas diárias de toda a desgraça que assola o nosso mundo sob as pandemias mortais do novo coronavírus e da gestão genocida dos criminosos alçados ao poder em meu país após um golpe de Estado para destruir nossas vidas em benefício de alguns canalhas lesas-pátrias.

Leiam, leiam! A leitura pode contribuir para a salvação da humanidade, porque a leitura salva parte da humanidade, uma parte que pode reconstruir o mundo por ser menos ignorante e mais instruída com valores universais que dignificam os seres humanos e a vida no planeta.

Preenchida mais uma lacuna cultural em minha vida. Outras aventuras virão. Eu não conheço ainda e terei o prazer da novidade na leitura sobre Gulliver, sobre Robson Cruzoé e outros grandes clássicos da literatura universal. 

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


quarta-feira, 21 de abril de 2021

Moby Dick - Por fim, notícias de Moby Dick



Refeição Cultural

"Em tais momentos, sob um sol fraco, flutuando o dia inteiro sobre ondas suaves, de pouca elevação, sentados nos botes leves como canoas de bétula, e misturando-se socialmente com as próprias ondas que, como gatos domésticos, ronronam contra a borda, nesses momentos de quietude sonhadora, ao contemplar a beleza tranquila e brilhante da pele do oceano, a gente esquece o coração de tigre que palpita sob ela e não deseja pensar que esse manto de veludo oculta unhas implacáveis." (p. 556)


Nesta quarta, 21 de abril, peguei firme na leitura de Moby Dick. Foi o dia que mais li de uma vez o clássico de Melville. Agora sim, caminho para o fim da narrativa. Li 75 páginas e parei no capítulo no qual outra embarcação dá notícias sobre a baleia branca, o capítulo 128 - "O Pequod passa pelo Rachel". Estou na página 601 da minha edição. 

Nenhuma crítica, filme, aula, comentário ou resumo substitui a leitura de uma obra literária. Essa é uma afirmação que ouvi diversas vezes dos professores de literatura e afirmo que ela tem sentido. Na falta de tempo ou se tiver que escolher entre textos sobre uma obra e a própria obra, vá direto para a obra.

Estou finalizando a famosa obra de Herman Melville, narrativa que navegou pelo imaginário dos leitores nos séculos XIX e XX, e agora no XXI. A estória sobre Moby Dick e o capitão Acab (Ahab em inglês) é muito mais que uma estória de caça ou pesca a uma baleia branca ou um cachalote gigante dos mares do Sul. O livro é um almanaque de usos e costumes e pensamentos daquele momento do mundo.

Quanta coisa já li nas 600 páginas de leitura! Tem muita reflexão (que chamo de "filosofada" nas anotações ao lado do texto)! Quanta informação a respeito da pesca à baleia em meados do século XIX! Quanta inferência podemos tirar daquele mundo no qual vivia o escritor Melville!

É muito bom ler um livro de literatura, um romance, uma obra de ficção. 

Hoje passei mais um dia sem ligar celular, sem saber das desgraças que os homens maus do mundo nos legaram: a destruição da natureza e da vida em benefício de uns poucos canalhas. Se estivesse nas redes sociais e na internet, meu cérebro e minha atenção seriam fisgados pela Matrix que nos emburrece e nos faz autômatos e peixes (gado).

Tem sido bem melhor viajar pela literatura nestes dias de pandemia, fascismo, negacionismo, ignorância e banalidade do mal.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


sábado, 17 de abril de 2021

Moby Dick - Atos de leitura: a persistência



Refeição Cultural

Olha!, como foi difícil avançar alguns capítulos na leitura de Moby Dick de ontem para hoje! A leitura não rendeu. Desisti de seguir neste sábado. 

Ontem de noite, quase meia-noite, comecei o capítulo 101 - "A garrafa" e o sono bateu na segunda página. Parei. Hoje de manhã, peguei o 102 e foi a mesma coisa, parei de novo.

No capítulo 102, anotei uma observação sobre a minha ignorância como leitor. O narrador falava sobre uma referência que já li e ouvi um milhão de vezes e não sei sobre ela. Ismael falava sobre a cabeça de um cachalote e em seguida de sua queixada:

"(...) e, suspensa de um ramo, a queixada vibrava sobre todos os fanáticos, como a espada pendente de um fio de cabelo que tanto assustou Dâmocles." (p. 511)

E eu anotei ao lado: "Até Ismael sabe disso e eu não sei..."

Na página seguinte, o sono bateu de novo e parei. Estava difícil ler. 

Esta semana foi cansativa. Pode ser por vários motivos. Saco cheio de pandemia e mortes. Tristeza por tratar de assunto que me toca profundamente como a Cassi. Não estive bem nesses dias, não estou correndo como gostaria - a pressão foi lá no inferno -, achei que ia ter um treco.

Escrevi 3 textos de difícil confecção sobre a Cassi e me envolvi nas discussões sobre os rumos de nossa Caixa de Assistência. Dei minha vida por ela e agora a associação está sendo desfigurada por um grupo de liberais ligados ao regime no poder do país.

Com sono no capítulo 102, coloquei um tênis, máscara e fui andar uns 5K para ver se o sangue circulava no corpo e no cérebro. Após a caminhada, a pressão baixou um tento.

Com muito esforço, li mais três capítulos. O narrador segue filosofando sobre baleias, descrevendo anatomias e fatos históricos sobre baleias, fósseis etc, apresentou uma teoria de que as baleias jamais serão extintas, diferente de outras espécies animais. E foi isso por hoje, 17º dia de leitura. Parei na página 526 e vou ler o capítulo 26 - "A perna de Acab" na próxima sessão de leitura.

Essa postagem foi mais uma categoria de "diário" do que uma de "leituras de livros", mas poderia classificá-la também como uma categoria "atos de leitura", que nem existe no blog. Tem horas que o leitor tem que ser persistente para cumprir seus objetivos literários. Não é?

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: PubliFolha, 1998.


domingo, 11 de abril de 2021

110421 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo. Hoje queria variar minhas leituras. Estou indo bem com a leitura do clássico de Melville, Moby Dick. Também estou avançando bem no livro O verdadeiro criador de tudo, do neurocientista Miguel Nicolelis. Mas essas leituras dedicadas cansam a gente. Tem hora que a gente @#$%¨&...

Olhando a estante, mirei os livros que tenho do intelectual modernista escritor, poeta e mais um monte de coisas Oswald de Andrade. Dos 4 livros que tenho dele, 3 li no início de meu curso de Letras na USP, há quase duas décadas. Peguei os livros. Li a respeito do escritor na internet. Figura importante na cultura do Brasil.

O dia passou e não li o romance que escolhi, de Oswald de Andrade. Após ler um texto crítico de Haroldo de Campos - "Miramar na mira" -, do ano de 1964, quarenta anos após a publicação do romance Memórias sentimentais de João Miramar, acabei parando a leitura para fazer outras coisas. A noite chegou e não li o romance... que saco!

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Peguei a bike e me arrisquei ao vírus mortal para pedalar um pouco. Meti a máscara na cara, o capacete e fui andar em Osasco. Fui até a frente de uma das casas onde morei de aluguel quando perambulei pela cidade de aluguel em aluguel. Quase todas as pessoas que vi pelo caminho, em bares abertos ou portas de casas, estavam sem máscara e bebiam e fumavam e não existia nem sinal de preocupação com a peste, com o vírus que já matou mais de 350 mil pessoas no país, a ampla maioria da base da pirâmide social: gente pobre e das classes baixas. Há um genocídio em andamento e não há revolta na população. Que gente é essa? Que lugar é esse?

Pedalei por uma hora, mais para espairecer as ideias que para fazer exercício, na verdade, porque não fiz esforço. Deveria ter feito porque preciso, mas estava meio devagar hoje. Estar parado, sem fazer nada aeróbico, no meu caso, significa acelerar a morte por agravamento de doenças crônicas porque tenho histórico familiar de problemas de colesterol e pressão alta. Tenho que pedalar ou correr pra sobreviver e diminuir o risco de infarto, AVC e outras merdas consequentes dessas doenças crônicas.

As leituras que tenho feito têm me colocado pensativo a respeito da vida, a idade tem me feito pensar muito na vida (e na morte). A situação do Brasil e o povo brasileiro têm me feito pensar muito na vida. Só de pensar nessas coisas dá um cansaço desgraçado... mas fui forjado na vida para viver, viver apenas, sem mistificações. Na tristeza e na alegria, na dor... mas não me deixo morrer à toa. Não é correto, não é ético, nem comigo mesmo nem com as pessoas de nossas relações pessoais.

Um abraço para você, leitor ou leitora, que por algum motivo leu essa postagem de reflexão. No momento, textos não interessam mais pra muitas pessoas. Gosto de estudar, ler, aprender e compartilhar reflexões, sempre no intuito de pensar um mundo melhor e sustentável e uma vida melhor para os seres humanos.

William

sábado, 10 de abril de 2021

Moby Dick - Peixes presos e peixes livres



Refeição Cultural

Ufa! Cumpri meu objetivo de leitura deste sábado, 10 de abril, um dia de outono com clima seco e quente. Li 55 páginas de Moby Dick, cheguei ao capítulo 100 e passei da página 500. Mas foi preciso esforço e foco e andei com o livro pra lá e pra cá em casa o dia todo. Foi o 16º dia de leitura da obra clássica de Herman Melville. 

A leitura do dia teve capítulos cheios de filosofia. Ao longo da narrativa já lidei com diversas passagens com reflexões sobre a vida e sobre a natureza. Mas hoje o capítulo 89 - "Peixes presos e peixes livres" - foi o que mais me chamou a atenção em relação a isso.  Eu poderia compará-lo ao capítulo consagrado de Machado de Assis sobre o "Humanitismo", teoria do personagem Quincas Borba.

O narrador Ismael nos conta sobre as regras que predominam nos mares em relação à pesca das baleias e a partir daí vai filosofando sobre a regra como uma teoria geral que pode ser válida para tudo, inclusive para a sociedade humana. É evidentemente uma regra que explica ou que justifica a supremacia dos mais fortes e mais adaptados, assim como a teoria de Quincas Borba - "Ao vencedor as batatas" - e como a teoria da evolução das espécies.


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"I. Um peixe preso pertence à parte à qual está fixo.
II. Um peixe solto está à disposição da parte que puder capturá-lo primeiro." (p. 453)
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O narrador cita um caso no qual um grupo de baleeiros pobres e humildes perde uma pesca para outro sujeito e um juiz favorece o segundo, deixando os trabalhadores que exerceram a pesca na mão e sem nada. 

Daí, ele engata a teoria na qual o mesmo se daria nas relações humanas.

"(...) essas duas leis relativas aos peixes soltos e aos peixes presos serão consideradas, se bem refletirmos, como os fundamentos de toda a jurisprudência humana, porque, apesar de seu complicado traçado, o templo da lei, como o templo dos filisteus, tem apenas duas colunas onde apoiar-se." (p. 455)

A partir daí, o narrador explica sobre a questão da posse e a teoria vai se completar. Vale tudo, a escravidão, a invasão de terras, países etc.

"Não anda por acaso na boca de todos o adágio segundo o qual a posse é meio direito, isto é, independente da maneira como se adquiriu essa posse? Porém, frequentemente a posse é o direito absoluto. Que são os músculos e as almas dos servos russos e dos escravos republicanos, senão peixes presos, cuja posse significa todo o direito?" (p. 455)

E tem mais exemplos, a lista de argumentação é grande para dizer que tais coisas não são mais que peixes presos. E que outras tais são peixes livres. A narrativa é de 1851, portanto antes da guerra civil norte-americana, antes do fim da escravidão também.

"Que era a América, em 1492, senão um peixe solto no qual Colombo cravou o estandarte espanhol, marcando-o para os seus reais senhores? Que é a Polônia para o czar? Que é a Grécia para o turco? Que é a Índia para a Inglaterra? Que virá a ser, com o tempo, o México para os Estados Unidos? Todos estes são peixes soltos." (p. 456)

E aí chegamos ao momento no qual estamos vivendo, sob golpe de Estado no Brasil, sem leis, com todos os poderes abusivamente favorecendo o 1% dos animais humanos no país em detrimento da miséria e genocídio dos outros 99%. 

Poderíamos parafrasear o narrador de Moby Dick e dizer que tudo isso que acontece no Brasil nada mais seria senão peixes soltos.

"Que são os direitos do homem e as liberdades do mundo, senão peixes soltos? Que são as mentes e as opiniões dos homens, senão peixes soltos? Que é o princípio da crença religiosa nessas opiniões, senão peixe solto? Que são as ideias dos pensadores para os charlatães gabolas, senão peixes soltos? Que é o próprio globo, senão um peixe solto? E que serás tu, leitor, senão um peixe solto e um peixe preso, ao mesmo tempo?" (p. 456)

Sem mais, fica pra vocês a questão.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


quarta-feira, 7 de abril de 2021

Moby Dick - O monstro na verdade é o homem



Refeição Cultural

A leitura de hoje de Moby Dick foi diferente da leitura de ontem. Não foi uma leitura prazerosa, foi um dia de cumprir meu compromisso de leitor dedicado e avançar na obra. 

Li até o capítulo 87 - "A grande armada". Após a cena dos baleeiros ferindo baleias em um grande grupo de baleias que amamentavam seus filhotes, fiquei desgostoso e parei. 

Quando imaginamos a cena da matança de cachalotes com a nossa visão de mundo, só confirmamos a certeza de que o verdadeiro monstro das terras e dos mares é o homem. Usavam chamar os gigantes dos mares de leviatãs, monstros. Monstros somos nós!

Aliás, ainda no século XXI os homens caçam baleias, caçam e matam animais indefesos, matam por prazer, matam por esporte, matam por maldade. Matam por crendices estúpidas.

As necessidades humanas de subsistência nunca foram as mesmas ao longo da história humana. Se antes matar animais como baleias era por necessidades cotidianas de séculos atrás - principalmente pelo seu óleo -, hoje é por motivos capitalistas.

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A julgar pelos animais humanos que habitam essa terra chamada Brasil, um lugar amaldiçoado na atualidade por ter Bolsonaro como o líder supremo, fecho a postagem concluindo que seria melhor extinguir essa gente maléfica do planeta Terra.

O mundo não merece uma gente como essa que ascendeu e mantém no poder esse animal representante de todos os males do mitológico inferno, caso o inferno existisse.

Hoje, o inferno é o Brasil.

William


terça-feira, 6 de abril de 2021

Moby Dick - No entanto... o leviatã deve morrer



Refeição Cultural

"Agora que os botes a encurralavam, ia mostrando mais a parte superior do corpo, que em geral mantém submersa. À maneira dessas estranhas excrescências que se formam nos magníficos carvalhos, quando derrubados, dos seus olhos, ou antes das concavidades que eles deviam ocupar, irrompiam dois bulbos mortiços cuja vista produzia uma horripilante compaixão. Mas ali já não havia piedade. Apesar da velhice, da barbatana única e dos olhos cegos, a baleia devia morrer, e morrer assassinada, para iluminar alegres núpcias e outros divertimentos humanos e iluminar ainda as solenes catedrais nas quais se prega a bondade sem limites para com todos..." (MELVILLE, 1998, p. 413)


Retomei hoje a leitura de Moby Dick, do escritor norte-americano Herman Melville. Comecei a leitura do clássico no dia 8 de março. Hoje é o 14º dia de leitura. Calculei ler essa grande obra em mais ou menos três semanas de leitura, ou seja, 21 dias. 

A leitura do dia foi muito agradável, com diversas passagens que me deixaram impressionado com as surpresas da ficção. A leitura teve momentos de ironia; o narrador se mostra muito interessante, solta suas filosofadas a todo momento. 

Ismael, o narrador personagem, um simples marinheiro do Pequod, se diz iletrado e, ao mesmo tempo, vai narrando e filosofando em momentos marcantes da obra. Cita Shakespeare, Champollion, depois clássicos gregos e romanos, é impressionante!

Teve uma passagem na narrativa que fiquei boquiaberto, foi demais. No capítulo "A fonte" o narrador faz uma marcação temporal impressionante para uma obra lançada em 1851:

"(...) o fato de que tudo isso tenha acontecido e, contudo, até este bendito instante (uma hora, quinze minutos e quinze segundos deste décimo sexto dia do mês de dezembro do ano de 1851), continue a ser um problema saber se esses jorros são realmente de água ou apenas vapor - tudo isto, pois, constitui decerto uma coisa notável." (p. 425)

Fala sério! Fiquei muito admirado com essa parte da obra. Muito legal!

Vários capítulos foram de descrição e filosofadas a respeito das descrições. Meu livro está todo rabiscado e cheio de notas de canto de páginas (rsrs). Alberto Manguel, no livro Uma história da leitura, fala sobre isso, sobre os diálogos possíveis entre os leitores que passaram pelo livro através das marcações no volume.

ACASOS: um grande amigo está lendo Moby Dick ao mesmo tempo em que estou lendo o clássico. Essas coisas do mundo da cultura e da literatura são muito legais. Já por duas vezes, o Sérgio me falou onde parou na leitura e as duas vezes eu havia parado ou no mesmo capítulo ou muito próximo. Cara, o livro tem centenas de páginas!

Ontem, ao receber uma mensagem do Sérgio, ele me disse que havia parado no capítulo "A noz". Eu havia parado a leitura num capítulo antes, comecei hoje no capítulo "O prado", 3 páginas antes dele. E dias atrás, aconteceu o mesmo. Ele me disse que havia lido até o capítulo "A hiena", o mesmo no qual havia parado! Muito louco! E legal!

Foi assim a minha manhã no convés do apartamento, navegando no Pequod e nos Mares do Sul.

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Agora, imitando o marinheiro narrador de Moby Dick, é hora de ligar o celular neste dia 6 de abril de 2021, às 14 horas e 45 minutos e saber mais uma vez das desgraças que se sucedem nas nossas relações de amizade e em nosso mundo tomado pelo mal na figura dos demônios no poder do Brasil. Pessoas queridas estão morrendo, o povo está passando fome e não tem direitos, o país está sob o poder de uma horda de bandidos.

Leviatãs, sem dúvidas, monstros colocados no poder para destruírem tudo e todos em benefício de alguns poucos demônios (de carne e osso, que, apesar de assustadores, podem sangrar e morrer!) que acumulam todos os recursos produzidos pela coletividade humana. E escravizam as pessoas. E perpetuam a miséria, a dor, e o sofrimento.

Ontem, ao ligar o celular e entrar nas redes sociais e nas informações, novas mortes e novas tragédias oriundas do mal instalado no Brasil. A pandemia e o bolsonarismo estão matando nossos amig@s. (já são 332.752 vidas perdidas para o Covid-19, dentre elas, vários amig@s). 

A pandemia não foi combatida pelo governo de maneira proposital, ela é aliada do regime fascista, por isso não temos vacina e nem campanhas pelas medidas sanitárias necessárias. A pandemia é estratégica para o governo da morte. Estimativas apontam meio milhão de mortes até o meio do ano. Nossa vida está sob risco alto de morte, de morte iminente, de morte severina.

Mas a hora desses desgraçados no poder por golpe, que destroem, que nos matam, genocidas!, a hora deles vai chegar. Espero estar aqui, vivo, para ver a queda dessa gente do mal.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Moby Dick - Há 170 anos já faziam quarentena



Refeição Cultural

"Ao sinal do Pequod, o navio desconhecido respondeu finalmente com o seu. Verificou-se que se tratava do Jeroboão, de Nantucket. Em seguida, o navio braceou as vergas, virou de través a sotavento do Pequod, proa a leste, e desceu um bote, que não tardou a aproximar-se; porém à ordem de Starbuck, para que fosse desprendida a escada lateral, pela qual devia subir o capitão do outro navio, este agitou a mão, da popa, indicando que aquilo era inteiramente desnecessário. Acontece que a bordo do Jeroboão se havia declarado uma epidemia e Mayhew, o capitão, temia contagiar os homens do Pequod. E conquanto ele e a tripulação do seu bote estivessem ainda isentos, ainda que o seu navio se achasse à distância de um tiro de fuzil do Pequod, separado pelo incorruptível e ondulante mar e pelas correntes de ar, recusou de maneira terminante - ajustando-se escrupulosamente à prudente quarentena de terra firme - pôr-se em contato conosco." (p. 364)


Amigos e amigas leitores, ao ler essa passagem de Moby Dick, obra clássica de Herman Melville, publicada em 1851, 170 anos antes de nosso tempo, eu fico até sem graça, fico envergonhado, fico reflexivo em relação ao quão fundo do poço chegamos com o negacionismo do regime genocida no poder no Brasil, que desde o começo da pandemia mundial de Covid-19, há um ano, nega as medidas de isolamento social e quarentena para evitar a transmissão do vírus mais mortal do último século no mundo.

Em meados do século XIX até marinheiros com pouca instrução e com o conhecimento científico daquela época sabiam que em caso de epidemias as medidas mais básicas eram evitar o contato com as outras pessoas e fazer algum tipo de quarentena para não transmitir e ampliar a epidemia do foco onde ela estava.

No Brasil, os genocidas no poder por golpe de Estado e por eleições fraudadas e ilegítimas em 2018, fizeram a opção por não seguir as recomendações das autoridades mundiais de saúde e optaram por espalhar o vírus para toda a população brasileira, não tomando as medidas que o mundo todo tomou. O regime fascista sabia que sua opção em não vacinar o povo, incentivar o povo a pegar Covid-19 e contaminar todo mundo poderia matar uma parcela da população de mais de 200 milhões de pessoas. O resultado não tardou. Estão morrendo quase 4 mil pessoas por dia e em breve será meio milhão de pessoas mortas pela pandemia. Foi algo premeditado pelo governo.

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Enfim, comentário trágico à parte, vamos falar da felicidade de avançar na leitura de Moby Dick. Hoje cheguei à página 400 do livro. Foi o 13º dia de leitura desse clássico da literatura mundial.

Li capítulos muito interessantes, é uma pena que não dá para comentar todos eles. Só posso recomendar que vocês leiam o livro de Melville.

Tive uma noite intranquila e não consegui dormir direito. As pessoas conscientes e humanistas sofrem absurdamente nesses dias de mortandade e destruição do nosso mundo pelo bolsonarismo.

Sem conseguir dormir, levantei-me às 5 horas da manhã e antes das 6 horas, já estava tomando um café e me preparando para ler. Vi o sol nascer, e embarquei no convés do Pequod.

Minha sacada virou o convés do Pequod e aproveitei para tomar o sol da manhã. Conforme o sono vinha eu lia em pé, de costas para o sol, e resisti ao cansaço, lendo quase 40 páginas.

Leiam, leiam! Vamos sobreviver e vamos recomeçar o mundo e a vida após a pandemia mundial, após esse regime de morte que se apossou do país por golpe.

Vamos seguir os conselhos daqueles que têm alguma consciência, alguma inteligência e vamos seguir as recomendações de quarentena e isolamento social para evitar ampliar mais ainda a transmissão do vírus e as mortes. Até os marinheiros de baleeiros sabiam disso, dois séculos atrás.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


domingo, 28 de março de 2021

Moby Dick - Capitão Acab à la Hamlet



Refeição Cultural

"- Fala, ó grandiosa e venerável cabeça - murmurou Acab. - Não tens barbas que te adornem, mas o musgo te fornece cãs. Fala, cabeça potente! Dize-nos o segredo que encerras! Não existe mergulhador que tenha afundado tão profundamente como tu. Essa cabeça, agora iluminada pelo sol, moveu-se outrora pelos alicerces deste mundo, lá onde apodrecem âncoras, nomes e frotas não registrados nos anais da história e também esperanças ignoradas: ali onde, no seu mortífero porão, essa fragata que é a terra leva como lastro os ossos de milhões de afogados; esse espantoso reino áqueo era a tua morada mais habitual. Estiveste nos lugares aonde nunca chegaram sinos nem mergulhadores; dormistes ao lado de mais de um marinheiro cuja mãe insone teria dado de bom grado a vida para ocupar o teu lugar; vistes amantes abraçados saltarem do navio em chamas: coração de encontro a coração, afundavam sob as ondas triunfantes, fiéis um ao outro, quando o céu parecia havê-los traído. Viste à meia-noite piratas que assassinavam e atiravam pela borda o piloto que ia caindo, caindo, na noite mais lôbrega do insaciável sorvedouro, e enquanto os criminosos prosseguiam incólumes na sua viagem, raios súbitos transformavam em lascas o navio vizinho que conduziria um esposo fiel aos braços abertos e anelantes da esposa. Ó cabeça, viste o que seria bastante para fazer estremecer os planetas e causar a infidelidade do próprio Abraão, e contudo não pronuncias uma sílaba." (MELVILLE, 1998, p. 361)


Essa passagem de Moby Dick me trouxe na hora a lembrança de Hamlet e suas elucubrações sobre a morte.

Neste domingo, me desliguei do mundo à tarde para retornar ao baleeiro Pequod e singrar os mares do Sul com a tripulação sob comando do capitão Acab.

Consegui ler 40 páginas. Foi meu 12º dia de leitura deste clássico da literatura mundial do século XIX. O baleeiro está no Oceano Índico e já citou a ilha de Java.

O baleeiro conseguiu pescar a primeira baleia branca. É uma parte triste porque a gente fica com dó do cachalote. Eles pescavam o maior mamífero do mundo por causa do óleo, principalmente.

Passei por capítulos fantásticos como "O Calamar" que fala de um tipo de lula gigante, um monstro daqueles mares de 170 anos atrás.

CENA: estava sentado na pequena área de casa lendo, e minha esposa me perguntou sobre o que sentia naquele momento de leitura. Falei que estava imaginando a cena daquele monstro do mar, o Calamar, e outros monstros como os leviatãs - baleias gigantes - aos olhos dos marinheiros de 170 anos atrás. Também pensava na informação do livro de que cachalotes caçavam calamares. É de se pensar realmente sobre a mentalidade e visão de mundo daqueles homens que se lançavam ao mar séculos atrás com tanta coisa ainda desconhecida...

Enfim, a leitura aliviou um pouco o martírio desses dias de mortes. A pandemia de Covid-19 está matando mais de 3 mil brasileiros por dia. A morte iminente nos cerca. Em poucos dias podemos morrer. 

Vamos nos esforçar para sobreviver e recomeçar o mundo, sem a ameaça do coronavírus e derrotando o regime genocida que se apossou do nosso país.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


quarta-feira, 24 de março de 2021

Moby Dick - No Pequod fujo da Covid



Refeição Cultural

Nesta quarta-feira 24, consegui chegar à metade do livro de Herman Melville - Moby Dick. Este é mais um clássico da literatura mundial que decidi ler durante a pandemia mundial de Covid-19. Viajar por algumas horas nas narrativas ficcionais é uma forma de sobreviver e manter um pouco da minha sanidade mental e da minha humanidade.

Durante as horas de leitura, evito ligar o celular e entrar em redes sociais. Hoje repeti essa disciplina. Acordei cedo e comecei a ler. Estava difícil de embalar na leitura. Sono... Olho pesado... Li poucas páginas e fechei um pouco os olhos... Insisti na leitura. Felizmente peguei o ritmo e fui adiante. Foi incrível! Li da página 269 até a 322, cheguei à metade do romance. Fiquei feliz!

Nossa psique, nosso eu, precisa desses momentos de cultura e estudos, senão quebramos.

Ao ligar o celular e entrar nos sites de informação, começam as notícias duras. Um grande companheiro de lutas morreu ao sofrer um infarto (Pedro Eugênio, presente!). O Brasil atingiu a marca trágica de 300 mil mortos por Covid-19 e isso não precisaria ser assim, caso não estivéssemos sob um regime genocida. 

São tantas pessoas queridas que estão com o vírus, algumas em casa, outras hospitalizadas, algumas em estado grave. Já era para termos vacinado dezenas de milhões de pessoas, mas os políticos fizeram politicagem com a pandemia e nós nos ferramos. Difícil tudo isso! Nossa vida está sob risco de morte iminente. Morte morrida e morte matada, mortes severinas: vírus, infarto, AVC, quedas, apendicite, tiro.

Pensando num vídeo bonito que recebi de minha mãezinha querida, vou deixar aqui uma palavra de otimismo e não de desânimo. Essas coisas ruins vão passar, vamos recomeçar uma sociedade e uma vida melhor, então vamos sobreviver e, de mãos dadas, recomeçar. Esses seres do mal que se apossaram de nosso mundo vão passar, vão cair, vão ser presos, alguns vão morrer antes da gente.

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MOBY DICK

"Nunca Starbuck conseguiu esquecer o aspecto do velho, uma noite em que descendo à cabina para observar o barômetro viu-o com os olhos fechados, sentado na cadeira parafusada ao soalho; a chuva, o granizo derretido com que a tempestade acabava de açoitá-lo, gotejavam do seu chapéu e do casaco, que vestia ainda. Na mesa próxima jazia desenrolado um daqueles mapas de mares e correntes a que já nos referimos. Na mão fortemente crispada balançava-se uma lanterna. Com o corpo ereto, a cabeça voltada para trás, os olhos fechados dirigiam-se para a agulha do axiômetro que se movia pendurado numa viga do teto.

     'Terrível ancião!', pensou Starbuck estremecendo. 'Dormindo, no meio da borrasca, tens ainda os olhos sempre fixos no teu propósito!'" (p. 278)


Nossa viagem a bordo do baleeiro Pequod, sob comando do capitão Acab, nos trouxe aventuras e novidades. A tripulação do baleeiro jura ter visto Moby Dick pela primeira vez, só seus jatos de água, mas dizem que era o cachalote branco.

O narrador e marinheiro do baleeiro, Ismael, aponta na sua narrativa alguns presságios, e ele faz isso de forma bem interessante. Primeiro um bote naufraga na primeira saída ao mar, depois aparecem corvos marinhos na embarcação, depois um vento que derruba uma trombeta de um capitão de um navio que passou diante do Pequod.

"- Olá, os do navio! Viram o cachalote branco?

     Porém, quando o estranho capitão, inclinando-se sobre a descolorida amurada, dispunha a levar a trombeta aos lábios para nos responder, esta caiu inopinadamente das suas mãos sobre o mar, e como o vento se levantasse então com violência, ele fez inúteis esforços para se fazer ouvir sem ela. Entretanto, o seu navio distanciava-se cada vez mais, e enquanto os tripulantes do Pequod davam provas evidentes, ainda que silenciosas, de ter notado o fatídico incidente à simples menção do nome da baleia branca a um outro navio, Acab refletia..." (p. 280)

Por fim, na leitura de hoje, tivemos uma história dentro da estória, no capítulo "História do Town-Ho". É um capítulo longo e o leitor vai conhecer a história de uma das vítimas do cachalote branco Moby Dick.

Ainda li alguns capítulos que falaram sobre as representações pictóricas das aventuras de baleeiros e caças às baleias.

É isso. Este foi o 11º dia de leitura de Moby Dick. Volto ao clássico Melville daqui a dois dias. Vou retomar a leitura de ontem, de Sérgio Buarque de Holanda e seu clássico Raízes do Brasil (1936). 

Caso haja interesse em outras postagens sobre a leitura de Moby Dick, a mais recente está aqui.

Temos que sobreviver e ajudar a refazer o mundo destruído pela pandemia, pelo bolsonarismo e pelo capitalismo.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


segunda-feira, 22 de março de 2021

Moby Dick - Em casa, mas no mar com Acab



Refeição Cultural

Hoje foi o 10º dia de leitura do clássico de Herman Melville, Moby Dick, de 1851. Diferente do dia anterior, hoje consegui ler 5 capítulos (mais de 30 páginas), alguns bem interessantes.

Foi possível ver as reflexões do capitão Acab sobre as revelações dele para sua tripulação, confessando que a viagem do Pequod era uma viagem de vingança e caça à baleia branca que lhe estraçalhou a perna. Refletiu que isso não foi uma boa ideia porque caso o baleeiro não faça o seu papel e dê retorno econômico à tripulação, ele pode até enfrentar uma revolta e perda de comando.

O capítulo "O mapa" descreve a rotina nos mares e traz informações que dão verossimilhança ao romance, no sentido de explicar ao leitor que é factível um baleeiro encontrar-se com determinadas espécies de baleias e outros tipos de seres do mar porque já se conheciam em meados do século XIX rotas e correntes marinhas, épocas nas quais cardumes iam e vinham, hábitos de animais marinhos etc.

O Pequod avista pela primeira vez baleias e os leitores acabam descobrindo que havia mais uma equipe de bote, um 4º bote, um grupo vinculado ao capitão Acab. Os botes se lançam ao mar e não conseguem pescar nada. E chega uma tempestade pra atrapalhar mais ainda o baleeiro e sua tripulação.

Enfim, venci mais um dia de leitura de um grande clássico da literatura mundial. A postagem sobre a leitura anterior pode ser vista aqui, caso aja algum interesse do leitor do blog.

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LER QUIETO EM CASA É UM ATO DE SOLIDARIEDADE, CIDADANIA E AMOR AO PRÓXIMO

A pandemia mundial de Covid-19 está numa fase mortal no Brasil, a transmissão segue incontrolável e o sistema de saúde já começa a colapsar em diversas partes do país. Pessoas morrem sufocadas sem oxigênio, pessoas morrem sem atendimento algum; por outro lado, pessoas seguem fazendo festas e aglomerando sem uso de máscaras e estão se lixando para seus semelhantes. Então, ao ficarmos em casa, já que parte de nós pode ficar em casa, estamos contribuindo para não aumentar a transmissão do vírus e entupir o sistema de saúde.

Se houvesse interesse dos governantes de extrema direita, o Brasil seguiria as recomendações mundiais e teríamos vacinação em massa, lockdown e isolamento social, uso de máscaras e higienização adequada, teríamos auxílio financeiro para a sociedade suportar o período da pandemia e mais de 200 mil mortes seriam evitadas. Mas temos um genocídio porque os governantes são genocidas. Já morreram perto de 300 mil pessoas, mais de 12 milhões foram contaminadas e as sequelas podem atingir mais de um terço dos infectados. 

Ao saber que parte da população do país onde nasci se revelou uma gente má, ignorante, movida a ódio e preconceito, defensora de regimes autoritários e vis, perdi todo o amor e pertencimento que tinha em relação ao Brasil e aos brasileiros. Estou seco de sentimentos em relação ao que sentia por meu mundo. Desacorçoei do povo deste país desgraçado. Tenho vergonha de ser brasileiro, vergonha de conhecer tanta gente bolsonarista, canalha, bandida. Estou sem chão. Não sei como viveremos o resto de tempo que temos na vida, que pode ser dias e pode ser décadas. Mas meu sentimento de pertencimento morreu.

Seguimos querendo sobreviver a tudo isso. Estando vivo, há sempre a possibilidade do prazer e de momentos felizes ao ler um bom livro, ouvir uma boa música, ver o sol e os pássaros e a natureza, amar as pessoas.

William


Moby Dick - A brancura do cachalote



Refeição Cultural

Tem dias que a leitura de literatura é um exercício de persistência, de resiliência e de se mostrar determinado. Neste domingo 21, nono dia de leitura de Moby Dick, meu ânimo conspirou para que eu não lesse nada da narrativa de Melville. Mas insisti.

Não aconteceu nada de excepcional que me impedisse de ler, simplesmente minha mente não conseguia fixar o entendimento na leitura, cada parágrafo lido era perdido. Comecei e voltei e parei várias vezes. Me fiz de teimoso e li pelo menos um capítulo.

O capítulo que li "A brancura do cachalote" foi um capítulo com muita coisa. Um texto complexo, difícil de ler porque o texto é racista ao extremo, é um texto duro, que faz comparações históricas e outras coisas. Valeria a pena reler em outro momento. Seria o 42 pela minha contagem, já que a edição que tenho não enumera os capítulos.

Inclusive a técnica narrativa chama a atenção do leitor atento. Ora é o personagem narrador Ismael quem narra e reflete, ora não é Ismael porque ele é citado pelo narrador. Ou é um narrador demiurgo da estória ou é o próprio Melville.

A BRANCURA DO CACHALOTE

Ismael fala que já foi contado o que significa Moby Dick para o capitão Acab, mas ainda não havia falado sobre o que significa o cachalote branco para ele, um simples marinheiro do Pequod: horror.

"Esse horror era contudo tão misterioso e inefável, que chego a desesperar de conseguir descrevê-lo de maneira clara. O que me atemorizava sobretudo era a brancura do cachalote..." (p. 226)

A partir daí, o narrador reflexiona sobre a cor branca, as coisas brancas. Ele cita coisas em que o branco traz um sentimento bom, acolhedor, de coisa boa, um sentimento positivo e fala da gaivota e do corcel branco no oeste norte-americano.

E fala sobre o homem branco... que merda racista! 

"(...) conquanto essa preeminência se aplique também à raça humana, dando ao homem branco um domínio ideal sobre todas as tribos de cor..." (p. 226/227)

Depois ele fala de quando o branco traz o sentimento ruim, negativo, assustador. Cita o branco dos corpos mortos, o branco cadavérico. Fala mal das pessoas albinas.

Enfim, teria muitas citações para fazer sobre esse capítulo, mas já são duas horas da manhã de segunda-feira, a postagem é uma reflexão sobre a leitura e sobre atos de leitura e vamos encerrar por enquanto. Caso alguém tenha interesse em ler postagens anteriores, a mais recente está aqui.

Superei tudo e li Moby Dick pela 9ª pegada na obra. O livro tem 650 páginas e felizmente conseguimos chegar à 235. Aos poucos, vou lendo os clássicos e sobrevivendo à pandemia. Já li até Decameron, com suas mais de 800 páginas. 

Um comentário final: eu não sei o que vai ser da humanidade, não sei. Tenho refletido sobre isso, como se fosse um grande pensador. 

Sou só um cidadão simples do mundo, sem profissão, inclusive. Não fui contador. Não fui professor. Tive a ocupação de bancário.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


sexta-feira, 19 de março de 2021

Moby Dick - Crepúsculo



Refeição Cultural

"Sinto uma secura na fronte? Oh! Houve tempo em que, do mesmo modo que o nascer do sol me estimulava nobremente, o crepúsculo me aplacava. Não é mais assim. Essa luz adorável já não me ilumina. Toda beleza é para mim uma angústia, desde que não a posso gozar. Tenho o privilégio da alta percepção; falta-me a humilde capacidade de gozar. Sou maldito da maneira mais sutil, maldito no meio do paraíso. Boa noite, boa noite!" (p. 203)


Meus sentimentos são semelhantes aos sentimentos descritos pelo capitão Acab ao ver o crepúsculo no mar. Não consigo gozar as possibilidades das belezas da vida no contexto em que nos encontramos. Nós brasileiros estamos vivendo no inferno mesmo podendo estar no paraíso.

Como disse o linguista Gustavo Conde em sua transmissão na noite passada ou retrasada (não me lembro bem), não tem como uma pessoa normal não estar mal, triste, sofrendo, frente à realidade de mortes diárias por Covid-19, mortes evitáveis se não estivéssemos sob o comando de um regime fascista e genocida. 

Hoje ouvi uma entrevista do professor e cientista Miguel Nicolelis ao DW Brasil (de 17/3/21) e num certo momento ele comenta que viu um estudo que diz que 4 em cada 5 mortes poderiam ter sido evitadas no Brasil se o governo tivesse seguido as recomendações da ciência e das autoridades mundiais sobre formas de lidar com a pandemia mundial de Covid-19. Isso quer dizer que 232.251 vidas poderiam ser poupadas da morte até agora caso não estivéssemos sob um regime genocida (morreram 290.314 pessoas no país).

Está muito difícil ler o clássico Moby Dick (1851) porque a concentração na leitura é dificultada pelas notícias ininterruptas das desgraças que se abateram sobre o Brasil após o golpe de Estado e após as eleições fraudulentas de 2018 que colocaram no poder os genocidas que governam e que apoiam o governo no parlamento (além dos canalhas apoiadores em outras instâncias da burocracia do Estado brasileiro). 

LER É PRECISO, MANTER A CULTURA É NECESSÁRIO: apesar de não ser fácil, eu me esforço para ler e vou seguir lendo. É importante para mim e para a humanidade manter a cultura e a inteligência humana vivas. Outros tempos virão. Se conseguir atravessar essa fase da história brasileira sem morrer terá sido com o esforço de aprender um pouco todos os dias, sairei dessa um pouco menos ignorante.

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MOBY DICK

"E ainda hoje não se extinguiu na mente dos baleeiros, em geral, o prestígio original do cachalote, classificado especialmente pelo terror entre todas as outras espécies de leviatãs." (p. 218)

Li menos que o desejado neste 8º dia de leitura, mas li o que foi possível. Foram cinco capítulos, sendo o último deles bem interessante. O capítulo se chamava "Moby Dick".

O narrador Ismael nos conta o que é ser marinheiro de um baleeiro e viver lidando com os maiores monstros da terra. Ele vai descrever a fama das baleias brancas, os cachalotes. Amigos leitores, estamos lendo um romance de meados do século XIX, é bem interessante a composição narrativa de Melville.

"(...) embora os outros leviatãs pudessem ser perseguidos com êxito, apontar a lança a uma aparição tal como a do cachalote não era tarefa para um homem mortal; tentar fazer isso equivalia inevitavelmente a ser despedaçado e atirado de súbito na eternidade. Sobre esse ponto podem-se consultar documentos notáveis." (p. 219)

O narrador segue descrevendo a caça às baleias brancas e falando da fama de Moby Dick, considerado por muitos como um ser imortal e sobrenatural, que podia até estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.

Ficamos sabendo também do embate mortal entre o capitão Acab e Moby Dick, evento em que o leviatã lhe arrancou a perna.

"(...) uma vez um capitão, agarrando a faca para cortar a linha do inimigo, arremessou-se contra a baleia, como um duelista de Arkansas que avançasse procurando loucamente, com uma lâmina de seis polegadas, chegar até à profundidade da vida do cachalote. Este capitão era Acab. E foi então que, subitamente, fazendo deslizar a sua mandíbula interior em forma de foice, Moby Dick ceifou a perna de Acab, assim como um segador corta a relva num pasto." (p. 221)

E assim temos neste capítulo um resumo do que estamos fazendo no baleeiro Pequod, sob o comando do capitão Acab e tripulação, em busca de vingança, da caça do cachalote conhecido nos Mares do Sul como Moby Dick, o mais terrível leviatã daqueles tempos.

Amig@s, leiam! Leiam a ajudem a mantermos a mente humana para as gerações futuras. Caso haja interesse em ver as outras postagens sobre Moby Dick, aqui está a mais recente delas.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.