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sábado, 23 de maio de 2026

Livro: A era da empatia - Frans de Waal



Refeição Cultural

LITERATURA CIENTÍFICA 


"Se eu fosse Deus, me esforçaria para que os humanos alcançassem a empatia." (p. 288)


O biólogo primatólogo Frans de Waal nos apresentou no livro "A era da empatia", lançado em 2009, reflexões a partir de estudos feitos por ele e suas equipes ao longo de décadas. Ao retomar a leitura, soube que ele faleceu em 2024, acometido por um câncer de estômago. 

Quando vi o livro em 2010, me interessei na hora pelo tema da empatia. Eu era dirigente sindical de uma grande categoria e me esforçava com sinceridade para me colocar no lugar dos outros no diálogo e representação política de milhares de pessoas. 

Do lançamento do livro sobre a empatia aos dias de hoje, a sociedade humana mudou substancialmente em curtíssimo espaço de tempo. O autor disse que se fosse Deus, faria um esforço para que os humanos alcançassem a empatia. Vieram as big techs, os algoritmos e as redes antissociais, e o ódio ao outro, ao diferente, é na atualidade o sentimento que mais engaja pessoas no mundo.

"(...) Hoje, com tantos grupos diferentes se acotovelando num planeta abarrotado, o maior problema é o excesso de lealdade dos indivíduos em relação a seu país, grupo ou religião. Os humanos são capazes de desprezar profundamente todo aquele que pareça diferente ou que pense de outra forma, mesmo quando se trata de grupos vizinhos e com DNA quase idênticos, como é o caso dos israelenses e dos palestinos. As nações julgam-se superiores aos países vizinhos e as religiões acreditam ser donas da verdade." (p. 288/289)

Frans de Waal disse isso em 2009...

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SOMOS NATUREZA, PARTE DA NATUREZA, NÃO SOMOS ALHEIOS A ELA

"(...) Afinal, a psicologia deriva seu nome de Psiquê, a deusa grega da alma. Essas raízes religiosas refletem-se na resistência inabalável à segunda mensagem da teoria da evolução. A primeira é a de que todas as plantas e animais, incluindo a espécie humana, são produto de um único processo. Essa ideia é amplamente aceita hoje em dia, inclusive fora da biologia. Mas a segunda afirma que há uma continuidade entre a nossa espécie e todas as outras formas de vida, não somente do ponto de vista corporal, mas também do ponto de vista mental. Isso permanece difícil de engolir..." (p. 292/293)

Quando se trata de refletir sobre nossa natureza violenta, ao matar, estuprar, fazer guerras, parte da sociedade atribui isso ao DNA, à nossa genética. 

"(...) É somente com relação às características consideradas nobres que a continuidade é colocada em dúvida, e a empatia é um bom exemplo disso." (p. 293)

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O LADO SOMBRIO 

Frans de Waal, no último capítulo, nos apresenta outras possibilidades oriundas da capacidade da espécie humana de se colocar no lugar dos outros e de outras espécies. 

Durante a leitura do livro, o leitor vai compreendendo que a empatia ocorre sob determinadas condições. Identificação é uma das condições. 

"(...) A empatia precisa tanto de um filtro que nos faça selecionar as situações às quais reagimos quanto de um dispositivo que permita ligá-la ou desligá-la. Como toda reação emocional, a empatia tem um 'portal', uma situação que tipicamente a desencadeia ou na qual permitimos que ela se manifeste. O principal portal da empatia é a identificação." (p. 301)

O autor explica que para aquelas pessoas com as quais nos identificamos, o 'portal' está sempre aberto. Fora desse círculo, a empatia é opcional. 

"(...) Por outro lado, há ocasiões em que o portal é fechado deliberadamente, como, por exemplo, quando suprimimos a nossa identificação com as pessoas que fazem parte de um grupo inimigo declarado." (p. 302)

Entra em ação o processo de desumanização, recurso historicamente empregado para justificar atrocidades cometidas contra grupos diferentes, nos explica o biólogo. 

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EM BUSCA DA EMPATIA

Entre a aquisição do livro de Frans de Waal e o término da leitura foram dezesseis anos. Nesse período, eu vi muita coisa acontecer no Brasil e no mundo. Vi as vidas seguirem e vi muitas vidas serem interrompidas.

Após a aquisição do livro sobre empatia, um comportamento humano desejado por mim na relação entre as pessoas, vi as "primaveras fabricadas" derrubarem governos mundo afora. Vi homens por trás de big techs inventarem formas de engajar pessoas pelo ódio, pelo oposto da empatia.

Vi as manifestações de junho de 2013 iniciarem uma longa noite de terror no Brasil; o golpe contra Dilma; a prisão injusta de Lula; a armação que colocou Bolsonaro no poder. Vi a pandemia mundial de Covid-19 matar milhões de pessoas, principalmente nos países com governos negacionistas, Trump e Bolsonaro à frente. A guerra na Ucrânia; o genocídio do povo palestino... 

Busquei exercer a empatia nos mandatos que tive à frente de movimentos e instituições importantes. Na formação sindical e política; na coordenação nacional das negociações do Banco do Brasil; na gestão de saúde da maior autogestão do país. Na relação com as pessoas próximas. Não é fácil ser empático sempre. Frans de Waal nos explica isso.

Saí do banco. Saí do movimento político. Rompi muitas relações antigas. O Brasil estava afundado no mal durante um governo fascista. Como precisávamos de empatia...

Li dezenas e dezenas de livros nos últimos anos. Compreendi muita coisa e encontrei muitas respostas para questionamentos que fiz por décadas de vida.

Sigo desejando empatia. Um mundo com a prevalência da empatia entre as pessoas. Tenho muito mais noções hoje que antes.

Sigamos lendo, escrevendo, refletindo, buscando mudar a realidade e tentando ser mais empáticos nas relações com as pessoas e com os seres vivos no mundo.

(Vivi uma espécie de catarse ao escrever essa refeição cultural sobre o livro "A era da empatia" ao som de "Animal Instinct", do Cranberries. O videoclipe me faz viajar com aquela mãe e as crianças. O vídeo tem tudo a ver com empatia. Aliás, Dolores O'Riordan faleceu em 15/01/18, em Londres)

William


Bibliografia:

WAAL, Frans de. A era da empatia: lições da natureza para uma sociedade mais gentil. Com desenhos do autor. Tradução: Rejane Rubino. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

sábado, 16 de agosto de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 16 de agosto de 2025. Sábado.


COLESTEROL

Subi correndo mais um dia a Av. Antônio de Souza Noschese. Meu percurso dá 2 Km. Como disse dias atrás, preciso voltar a correr para melhorar meus níveis de colesterol, aumentando um pouco meu HDL e diminuindo meu LDL e colesterol total. Nos níveis que eles estão hoje, minhas artérias e meu coração não aguentarão muitos anos.

Após identificar os desgastes no quadril e sistema locomotor, em 2018, vi minha atividade mais prazerosa da vida se tornar uma atividade feita com sacrifícios por causa das dores e incômodos durante e após as corridas. No entanto, essa atividade física me permitiu ter bons níveis de HDL durante décadas de vida estressante e tendente a mudanças nos níveis de colesterol e pressão arterial.

Sem correr com a intensidade que corria e na quantidade ideal, meu colesterol total foi só piorando entre 2018 e 2025: 221, 234, 244, 247 e 282 mg/dL. Um horror! Meu LDL saiu de 155 em 2020 para 199 mg/dL.

O bonzinho (HDL), que era 59 em 2018, chegou a subir para 62 e depois da redução das corridas caiu para os atuais 50 mg/dL. Ainda não é um resultado desesperador porque a referência é 40 mg/dL. Mas a tendência atual é ladeira abaixo...

Eu sei que a melhor forma de alterar a tendência ruim de meus níveis de colesterol é conjugar uma mudança de hábitos na alimentação com a prática de exercícios aeróbicos que façam efeito no meu corpo.

Comer como comi ontem à noite, por exemplo, frango a passarinho e pizza (overdose de gordura saturada) não é a melhor forma de mudar a tendência dos meus níveis de colesterol... (mudança de hábito é foda!)

Enfim, vamos mudando aos poucos.

Na corrida, vou dar preferência por correr pouca distância e em subidas porque o impacto no sistema locomotor é menor: tendo uma boa concentração nos passos, posso reduzir bastante o impacto no meu quadril. No entanto, só distâncias maiores geram HDL, mas uma coisa de cada vez.

Tenho que ficar de olho no meu coração. Meu batimento cardíaco precisa ser acompanhado durante o trote. Quando a pessoa está com melhor condicionamento físico, as faixas de batimento cardíaco máximo são menores de acordo com cada nível de esforço no trote.

Vou observar os números nos próximos meses e ver se melhoro alguma coisa. Não terei preocupação nenhuma em melhorar o tempo nos percursos, meu objetivo é outro.

No mês passado, corri 6 vezes, começando com 1K, depois 2K e, por fim, 3K. Me preocupei com o tempo nessa sequência, mas agora não vou ter esse foco. Meu foco é não ter dores no quadril e tentar baixar o batimento cardíaco máximo.

Entre um trote de 2K e outro, nesta semana, dei mais passos no percurso, justamente para reduzir o impacto na pisada. 2354 (passo médio de 85 cm) - 2486 (81 cm).

A frequência cardíaca média foi a mesma, de 171 bpm, mas a máxima foi 189 hoje e 191 no primeiro trote na subida.

Tenho o privilégio de ter um mínimo de conhecimento em saúde, o que a imensa maioria do povo não tem, pois não é cultura em nosso país educar as pessoas. Todos deveríamos conhecer melhor o nosso corpo humano, é uma questão de vida ou morte.

Sigamos tentando nos manter vivos. Tenho relações sociais importantes ainda e viver é uma oportunidade diária de novos conhecimentos e acontecimentos.

Will i am

14h40

domingo, 13 de julho de 2025

Instantes (11h11)



Refeição Cultural

Sempre que penso em parar de escrever, depois de alguns dias volto atrás e venho aqui burilar alguma coisa do que vai em minh'alma. 

A memória é um suporte orgânico de registros de experiências e pensamentos: conhecimentos e culturas. 

Todo organismo morre porque é parte da natureza. Tudo se transforma, muda o tempo todo. Somos parte dos ciclos do Carbono e do Nitrogênio. É o que somos, natureza.

A memória é uma ferramenta essencial dos seres vivos. Nos humanos a memória é seletiva. O animal humano é um contador de histórias, somos todos forrest gumps.

Meus textos têm uma importância para ao menos um leitor: eu mesmo, aquele que fui no momento do registro. 

Já tive a vaidade de todos nós de achar que nossas coisas têm serventia no mundo. Não têm. 

Escrevo hoje e se estiver por aqui amanhã, poderei ver o que escrevi naquele instante, se ainda me lembrar quem sou no amanhã. 

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Incomunicabilidade

Lendo sobre neurociência e tecnologia atual - leio Miguel Nicolelis - compartilho a percepção dele de que o mundo digital pode mudar a espécie humana de forma permanente, uma outra espécie talvez surja, uma espécie de homo digital, que não necessariamente será inteligente como a homo sapiens

Faz tempo que venho lendo e observando o mundo e os humanos ao meu redor... degeneração da espécie não é uma expressão exagerada para denominar o que eu vejo ao meu redor.

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Neste instante, ouvindo música na piscina da colônia de férias dos professores num domingo frio, me sinto verdadeiramente de férias, até de minha casa. Férias de tudo. São só uns dias. O caos está ao redor. O autoritarismo fascista está ao redor... Não estamos preparados. 

No livro de H. G. Wells "Deuses humanos", de 1923, o personagem sr. Barnstaple quer férias e vai parar em Utopia. Até onde li, ele, um liberal, está achando o máximo aquele mundo "perfeito", sem doenças, sem insetos, sem governantes, sem as complexidades do mundo dos humanos. Uma porra de mundo fascista. Todas as facilidades pensadas na sociedade utopiana têm uma coisa meio fascista, a ideia vendida de um mundo perfeito. Do tipo: não quer insetos e sujeira, cimenta o chão que tinha uma floresta e pronto.

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Com o advento das plataformas digitais, algoritmos, IAs, a captura da mente humana por alguns humanos (corporações), a economia da atenção baseada no ódio, seremos bilhões de humanos sem conseguir consenso algum. A tribalização da espécie está acelerada.

Não conseguimos ser ouvidos sequer por nossos pais, filhos, amigos, membros de grupos afins. Discordância é algo impossível. Guerra de todos contra todos. É o que vem por aí. 

Vejam a guerra entre ICL e Brasil247. É só um exemplo.

Eu percebi faz tempo isso na nossa espécie. Discordar ou opinar é a morte em vida, o cancelamento. 

No meu caso: não diga nada sobre a Cassi, o BB, o PT, a CUT, o sindicalismo, a Articulação Sindical... não diga nada que não seja amém aos que estão ao meu redor. Amém!

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Férias de tudo neste momento sozinho no solzinho frio da piscina da colônia de férias dos professores. Férias só estes dias. 

Depois, o caos na minha vida e no meu mundo.

Instantes. 

Este é único. Nunca mais!

William

13/07/25

domingo, 3 de novembro de 2024

Serra da Bodoquena - Encontro de culturas, histórias, biomas e ecossistemas



Refeição Cultural 

Livro editado pelo Instituto das Águas da Serra da Bodoquena - IASB (2015)

Autores:

Franciéle Pereira Maragno

Jeferson Aparecido Almeida da Silva

Liliane Lacerda


Tive a oportunidade de visitar a região da Serra da Bodoquena duas vezes, com um intervalo de vinte anos. Fui a Bonito nos anos noventa e em 2018.

É um dos locais mais bonitos do Brasil, um paraíso de águas cristalinas em todos os rios da região. Ê um lugar de grande biodiversidade também. 

Em termos turísticos, dizemos que viajamos para a cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul. 

Se estudarmos um pouco mais a ida a Bonito, veremos que os atrativos turísticos - os rios de águas cristalinas - estão situados em uma área do Planalto da Bodoquena, e os passeios se dão nos municípios de Bonito, Bodoquena, Jardim, Porto Murtinho e outros, dependendo da escolha da atividade.

Gruta do Lago Azul.
Foto: William Mendes.

São vários rios com passeios: Rio Formoso, Rio da Prata, Rio Sucuri, Rio Salobra, Rio Aquidabã, Rio Miranda - mais conhecido pela pesca -, dentre outros. Sem contar outras atrações da região, por exemplo, as grutas e cavernas como a "Gruta do Lago Azul" e dolinas como o "Buraco das Araras".

A leitura do livro "Serra da Bodoquena" e as duas aulas de Geografia do Brasil (que vi no ICL) sobre formação de relevos contribuíram muito para a minha compreensão sobre a riqueza daquele bioma e as ameaças à sua existência por parte dos humanos. 

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O AGRO VAI PRESERVAR O BIOMA DA SERRA DA BODOQUENA?

Tive a curiosidade de pesquisar os resultados das eleições municipais recentes (2024) nas cidades de Bodoquena, Bonito, Jardim e Porto Murtinho: 

Todas as cidades eram e seguirão governadas pela direita e extrema-direita e as câmaras de vereadores são compostas com praticamente todas as representações de partidos políticos do mesmo segmento. Vi uma representação de esquerda em Bonito (do PT) e uma em Porto Murtinho (do PT). Só. 

Vocês acham que os interesses que prevalecerão nessas cidades serão os dos preservacionistas ou os dos coronéis do agro, que plantam soja e põem gado em cada palmo de terra disponível?

Em 2018, uma das questões que mais preocupavam os guias turísticos eram ligadas ao assoreamento dos rios por causa das lavouras de soja, e a turbidez das águas por causa das plantações e destruição das matas ciliares.

Imaginem como não deve ter sido o efeito após quatro anos de bolsonarismo...

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Enfim, a leitura sobre a Serra da Bodoquena, um bioma espetacular, foi muito esclarecedora para mim. O conhecimento é fundamental para que possamos tomar as decisões mais adequadas na vida.

William 


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

ICL - Estudando Biologia (1)



Refeição Cultural

CICLO DO CARBONO E AQUECIMENTO GLOBAL

Assisti à primeira aula de Biologia, de Fernanda Vernier, professora do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Gente, que aula espetacular! Que leveza e que didática para ensinar Biologia para as pessoas!

O tema da aula foi "Ciclo do Carbono e Aquecimento Global". As noções que obtive com as explicações da professora Fernanda são muito interessantes, faz a pessoa ser menos ignorante em questões básicas de um tema extremamente relevante para a nossa vida neste momento da história humana.

A aula fala sobre os processos da fotossíntese e da respiração celular. Ao final, entendi claramente a diferença, por exemplo, de se utilizar o biocombustível etanol (produzido a partir da cana-de-açúcar, beterraba e outras plantas) ou combustível fóssil em relação aos danos para as mudanças climáticas, por causa do dióxido de carbono (CO2). 

Em linhas gerais, no processo do etanol, o carbono se mantém mais ou menos na mesma quantidade que já estava na atmosfera, pois ele foi capturado na fotossíntese da planta, transformado em etanol e devolvido ao ar. No combustível fóssil, ele estava há milhares de anos sob a terra, e foi liberado para a atmosfera aumentando sua quantidade no ar.

É muito legal aprender noções das coisas. Só o Conhecimento Liberta. Se vocês ainda não são associados, façam parte dessa revolução cultural e participem do ICL.

William


segunda-feira, 3 de julho de 2023

Vendo revistas de corridas Contra-Relógio (I)



Refeição Cultural - Revistas Contra-Relógio

Osasco, 03 de julho de 2023. Segunda-feira.


Além de filmes antigos em fitas de VHS e DVD e pilhas de papéis da vida sindical e estudantil que tenho que me desfazer no próximo período de visita aos guardados por décadas em casa, tenho também as revistas, dezenas e dezenas de revistas. Revistas de política, de ciência, de história, de esporte, de cultura em geral.

Folheei algumas das revistas de corridas Contra-Relógio que tenho em casa. Li várias matérias muito interessantes, com muito conhecimento a respeito de esporte e saúde. Sempre gostei dessa revista! Além de ser um apaixonado pela prática da corrida, também adoro história e essa revista sempre trouxe história em seu conteúdo.

Vale registrar que um de meus sonhos interrompidos era o de ser professor de Educação Física. Fiz a graduação por dois anos e não pude concluir o curso por falta de recursos financeiros nos anos noventa.

Outra informação importante. A CR tem um site muito bom e acessível para os amantes da prática de corridas de ruas. Recomendo que os praticantes de corrida sigam a página e assinem a revista.

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REVISTAS DO ANO DE 2016

A revista 269, de fevereiro, traz matérias boas sobre nutrição e consumo de frutas. As frutas são de fácil digestão e por isso não exigem muito tempo e energia do sistema digestivo para chegarem com os nutrientes na corrente sanguínea. A matéria da última página, sobre corrida e música, parece enaltecer a prática, mas no fundo descreveu que o ato é muito arriscado por diversos motivos como, por exemplo, perder a noção do espaço exterior e se colocar em risco de queda e até atropelamento. Eu nunca me imaginei correndo com som, acho isso um absurdo total! A concentração no corpo é fundamental numa atividade esportiva...

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A revista de março de 2016, nº 270, traz uma excelente matéria sobre corridas em climas ou muito secos ou muito úmidos, em ambos é preciso muito cuidado com o superaquecimento do corpo porque a transpiração acaba não resfriando o organismo adequadamente. E a respiração também é dificultada, ficando o ar mais "pesado" nos climas úmidos e um ar que queima e resseca nos climas secos. Atenção à hidratação nos dois casos. Na matéria de história, é explicado que a metragem 42,195 Km nas maratonas modernas foi por casualidade. A distância variou entre 40 e 42 Km ao longo do século. Por fim, legal a matéria sobre corredoras que fizeram história: a luta das mulheres para poderem correr provas de longa distância.

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A revista 271, de abril de 2016, trouxe duas matérias fantásticas: "A façanha de Zatopek na Olimpíada de 1952", quando a "locomotiva humana" Emil Zatopek venceu os 5 mil, os 10 mil e a maratona, quebrando os recordes olímpicos nas 3 provas. O tcheco fez história e isso nunca mais se repetiu. Meus olhos encheram de lágrimas ao ler a matéria! Outra matéria reveladora para mim foi "Os efeitos da idade sobre o treinamento" na seção de fisiologia, texto de Fernando Beltrani. Sigo tentando correr, apesar de minhas dores no quadril, e uma matéria como essa dá muitos subsídios para a consciência do corredor numa condição como a minha. Sobre nutrição, é bom tomar cuidado com as barras de cereais, elas contêm muitos componentes a base de açúcares e adoçantes.

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A revista de maio de 2016, edição 272, trouxe uma matéria muito esclarecedora de Andreia Torres sobre nutrição, é sobre a necessidade ou não de suplementos de proteína: "Whey Protein é importante para o corredor?", de Andreia Torres. Em síntese, a resposta para a pergunta é não. Uma alimentação normal pode suprir as pessoas em suas necessidades diárias de proteínas, inclusive para quem é maratonista. Imaginem então para pessoas sedentárias ou que praticam esporte sem excessos! Eu com meus 75 Kg preciso de 75 gramas de proteína por dia, no máximo iria precisar de 126 gramas se fosse atleta. Isso se consegue comendo normalmente!

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A revista de junho de 2016, edição 273, começa com um editorial emocionante do editor da revista, o senhor Tomaz Lourenço, contando a respeito de seus treinamentos e esforço para conseguir a qualificação para a Maratona de Boston. Perto de completar 70 anos, ele nos confessa a emoção de completar uma maratona. O depoimento é tocante, eu gostaria muito de treinar e correr uma prova dessas de 42 Km. Hoje faço meus trotes em percursos de 5 Km ou um pouco mais e depois sinto dores no quadril que me deixam quebrado. A natureza não contribuiu muito para esse sonho meu. Gostei também das matérias de história (a maratona de Munique 1972) e as matérias sobre a importância do descanso nas planilhas de treinamento.

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A edição de julho, nº 274, tem matérias com muito conhecimento técnico e histórico. O "Guia olímpico do atletismo no Rio" trouxe muitos dados históricos como marcas, heróis e heroínas do Brasil etc. A seção "História" traz a luta secular das mulheres para terem o direito de participarem das provas de maratona. Só em Los Angeles, 1984, tivemos a 1ª prova feminina de 42 Km em uma olimpíada. Por fim, as matérias sobre treinamentos deixam claro a importância dos treinamentos intervalados, que eu não faço... nunca fiz. "Correr menos e mais forte, para correr melhor". 

Comentário: como estou insistindo em meus trotes com dores no quadril, devo pensar na inclusão dos intervalados também, até porque vou desgastar menos minha estrutura com intervalados e menos distâncias percorridas.

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Na edição 275, de agosto de 2016, a revista fala sobre as corridas no Costão do Santinho, em Florianópolis (SC). Tive a felicidade de participar uma vez dessa corrida de 10K. Foi incrível e inesquecível, pela dificuldade do terreno, pela beleza do lugar e por ter conseguido atingir meu objetivo na prova. Outra matéria fantástica da revista foi a da seção "História", que nos apresentou Vanderlei Cordeiro de Lima, maratonista que deu orgulho ao Brasil na Olimpíada de Atenas, em 2004. Um fdp derrubou Vanderlei quando ele liderava e com isso o brasileiro perdeu a medalha de ouro, chegando ainda assim em 3º lugar. A superação de Vanderlei e o espírito olímpico dele lhe valeu a medalha Pierre de Coubertin, dada a poucas pessoas desde a volta das olimpíadas modernas, a partir de 1896.

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Na edição de setembro de 2016, nº 276, edição posterior às Olimpíadas do Brasil, li a matéria de "História" sobre o campeão Olímpico Joaquim Cruz, vencedor dos 800 metros em Los Angeles, 1984. Outra matéria interessante foi sobre a evolução da maratona olímpica desde 1896. Em um século da modalidade, a evolução do tempo no percurso de 42 Km foi incrível, diminuindo de 3 horas para perto de 2 horas de prova. Meu sonho era correr e completar uma maratona, todavia esse sonho ficou impossibilitado por minhas dores e desgastes no quadril.

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Reli várias matérias interessantes da edição 277 de outubro de 2016: a da hidratação é muito importante: só se deve beber água conforme a necessidade e não em excesso, pois o risco de hiponatremia é sério (ficar pouco sódio no sangue). A matéria da seção "História" trouxe a evolução do salto com vara, texto muito legal! Por fim, a importância da musculação para complementar a condição física, principalmente para pessoas como eu, que já passaram dos 50 anos e para a qual a sarcopenia já é uma realidade (perda de massa muscular).

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Na edição 278, de novembro de 2016, a matéria mais interessante foi a da seção "História" sobre o doping de Ben Johnson em 1988: "A prova mais suja do mundo", conta que quase todos os esportistas usavam drogas. Outra boa é sobre a importância do alongamento e flexibilidade porque isso melhora a circulação sanguínea, a nutrição das cartilagens e a lubrificação e acomodação articular.

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Jesse Owens na "Olimpíada de Hitler" em 1936 é o destaque da Contra-Relógio de dezembro de 2016, edição 279. Matéria excelente na seção "História". Outra matéria legal é a que incentiva todo tipo de pessoa à prática da corrida. E tem uma matéria interessante sobre nutrição e o risco do excesso de consumo de "energéticos".

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2023 - A SAÚDE DO POVO VAI MAL

A ciência e o conhecimento podem contribuir muito para a qualidade de vida das pessoas. Os avanços na área do esporte são enormes ao longo do tempo. A prática de atividade física com regularidade melhora a saúde da população. Infelizmente a saúde vai mal no país...

Passamos no Brasil por um período nefasto de incentivo à ignorância e ao negacionismo dos avanços da ciência. Após os governos golpistas de Temer e Bolsonaro, o país regrediu muito em relação à saúde e educação. Nunca estivemos tão mal como agora, após a tragédia bolsonarista.

Hoje, os índices de vacinação regrediram perigosamente. O tipo de alimentação ou de falta de alimentação faz com que a população apresente índices perigosos de sobrepeso e obesidade, por um lado, e desnutrição e anemias, por outro. Com isso é maior o risco de desenvolvimento de doenças crônicas evitáveis ou de controle possível.

A vida poderia ser melhor com mais cultura e mais atividade física, poderia. Mas não é essa a nossa realidade.

William


quinta-feira, 1 de julho de 2021

O verdadeiro criador de tudo - Miguel Nicolelis



Refeição Cultural

"Educação, oportunidades e justiça ilimitadas, não ganância, deveriam ser o mote que impulsiona o universo humano no futuro." (p. 355)

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"(...) o nosso cérebro permanece maleável ao longo de toda a vida. Isso implica que, por meio da educação crítica, pode-se desmistificar a natureza das abstrações mentais, como o mercado e o sistema financeiro, demonstrando que são apenas criações do ser humano, não produto de intervenção divina." (p. 355)


Terminei a leitura do livro do neurocientista Miguel Nicolelis muito emocionado, às lágrimas. Ganhei o livro O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (2020) no dia de meu aniversário. É um livro de ciência, mas é sobretudo um livro de um intelectual humanista, de um "homem cultivado", como diz Mircea Eliade. 

Desde pequeno tive o espírito curioso ou uma certa curiosidade filosófica em relação à existência e ao mundo. Ao longo das últimas décadas procurei respostas às minhas questões filosóficas nos mais variados espaços de conhecimentos: nas religiões, nos estudos formais, nas leituras literárias e nas leituras de áreas do saber humano. Nas lutas sociais e coletivas tive minha aprendizagem mais aprofundada que nunca.

Tive contato com diversas matrizes religiosas ocidentais, orientais e de origem africana. Estudei áreas variadas na educação formal: fiz Ciências Contábeis, fiz Educação Física e não concluí e fiz Letras. Estudei várias áreas do direito como concurseiro em certa época de minha vida. Nessas quase quatro décadas de adulto, sempre estive procurando respostas e sentidos.

A leitura do livro sobre o cérebro humano neste momento de minha vida e neste momento da sociedade humana foi algo que mexeu bastante comigo. Busquei muitas explicações para os acontecimentos do mundo e os comportamentos humanos nas leituras de História. Toda leitura feita me acrescentou alguma coisa, é verdade, mas avalio que Nicolelis me trouxe respostas sobre várias questões que martelam em nossa cabeça de cidadão curioso e politizado.

Nicolelis escreve muito bem, a considerar que o livro passa a primeira metade falando sobre Biologia, Anatomia, Fisiologia, sistemas do corpo humano e demais áreas médicas e da ciência. Talvez meu conhecimento de Anatomia e estudos do corpo humano adquirido duas décadas atrás tenha contribuído para que minha leitura não fosse superficial na parte mais espinhosa do livro.

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"Do ponto de vista da visão cerebrocêntrica discutida neste livro, a era dos excessos de Hobsbawm (Era dos Extremos) pode ser descrita como o período em que uma abstração mental - o capitalismo - tornou-se poderosa o suficiente para reconfigurar a dinâmica das interações humanas em escala global, cruzando o perigoso patamar que, no limite, pode jogar a humanidade em um buraco negro do qual ela não mais se libertará." (p. 361)

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Na segunda parte do livro, o neurocientista Nicolelis nos faz pensar e pensar e refletir e avaliar a vida e a sociedade e ao final estamos profundamente imersos nos destinos da humanidade. Ou mudamos o rumo das coisas ou não haverá futuro para a espécie humana. Precisamos superar o modo de vida capitalista ou não seguiremos enquanto espécie no planeta Terra.

Tudo que existe na sociedade humana atual é fruto da criação do cérebro humano, todas as abstrações que nos pautam a vida, todas as coisas produzidas, tudo. O cérebro humano deu sentido às coisas que existem, além de criar tudo que há entre nós. 

Algumas abstrações se tornaram maiores que seus criadores como, por exemplo, a Igreja do Mercado e o deus dinheiro. Também a abstração Culto das Máquinas. Neste momento da história humana, ou retomamos a importância humana como centro das coisas ou pereceremos enquanto espécie.

Durante décadas tive receio em relação à Inteligência Artificial. Era uma das pessoas que temia que as máquinas adquiririam vida própria e colocariam sob ameaça as outras espécies animais, sobretudo a humana. Nicolelis me explicou a falácia da "Inteligência Artificial", algo impossível de se realizar. 

A inteligência é animal, uma máquina não pode ser inteligente no sentido da criação humana. Só nós somos inteligentes, por enquanto (pode ser que fiquemos limitados como as máquinas se não mudarmos o rumo das coisas).

Foi um dos livros mais esclarecedores que li na minha vida. Olho o mundo de forma diferente a partir da leitura de Nicolelis. Não fiquei nem mais triste nem mais feliz, mas me tornei uma pessoa mais consciente a respeito da existência das coisas. 

Já não havia espaço para visão mística em minha vida, mas agora as coisas estão mais claras do que nunca. Mas meu humanismo saiu reforçado após essa experiência. Como animal humano, ainda homo sapiens, podemos mudar o rumo da destruição de tudo, e isso é algo valioso, saber que podemos fazer coisas incríveis e aparentemente "impossíveis" como, por exemplo, nos livrarmos do capitalismo.

É isso. Professor Miguel Nicolelis, muito obrigado pela experiência e conhecimento compartilhados. Muito obrigado!

Mais que nunca, é fundamental lutar pela vida, pela educação, pela ciência, pela ética, pelo amor, pela solidariedade, pelo cooperativismo. E para seguirmos a vida é preciso gritar #ForaBolsonaro!

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.


terça-feira, 18 de maio de 2021

Zumbis digitais biológicos



Refeição Cultural

"Se a perspectiva de uma taxa de desemprego maior que 50% não chocou você, como reagiria ao saber que, ao chegarmos a esse momento, uma porção ainda maior da humanidade talvez tenha se convertido em nada mais nada menos que meros zumbis digitais biológicos, não descendentes orgulhosos e portadores dos genes e da tradição cultural milenar criada pelos primeiros membros do clã Homo sapiens; aqueles que, apesar das humildes origens, depois de sobreviver a toda sorte de desafios mortais, de glaciações intermináveis a fome e pestilências endêmicas, viveram para prosperar e, no meio-tempo, criar o seu universo humano privativo, valendo-se apenas de um punhado de gelatina neural feita de substância cinzenta e branca em 1 mero picotesla de magnetismo." (NICOLELIS, 2020, p. 334) 


Ao ler mais um capítulo do livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, fiquei bolado, pensativo, cismando a respeito de tudo. Fiquei também acabrunhado, desacorçoado, descabriado. O capítulo 12 fala sobre "Como o vício digital está mudando o nosso cérebro".

Contradição é o que somos... O homo sapiens é o resultado de milhões de anos de evolução animal e o homo sapiens pode regredir enquanto espécie por causa de suas próprias criações mirabolantes.

Avalio que desde muito jovem tive aquela curiosidade filosófica de busca por sentidos e compreensão da existência, mesmo quando o cansaço do trabalho braçal me consumia como faz com os milhões de seres humanos que vendem sua força de trabalho para a sobrevivência diária.

Minha busca por sentidos continua. Ao ler o livro O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (2020), de Miguel Nicolelis, penso que várias respostas se abriram para mim neste momento de minha existência. Não encontrei a sonhada "paz" que buscava há décadas, mas eliminei mistificações e mitos oriundos de abstrações humanas que não cabem mais nos sentidos das coisas.

Minha formação das últimas décadas me fez uma pessoa mais preocupada com os seres humanos (humanista?) e com a coletividade em oposição àquele olhar mais egoísta que temos em pensarmos em nós mesmos. Sendo assim, meu olhar de mundo mudou bastante nos últimos vinte e poucos anos. A leitura deste livro de Nicolelis me esclarece diversas questões em relação aos seres humanos e, consequentemente, ao comportamento humano e às organizações humanas.

Parte do que Nicolelis apresenta de forma científica e como hipóteses a serem estudadas, eu já tinha leitura de mundo no mesmo sentido que ele como, por exemplo, a ideia de estarmos nos tornando meio zumbis, marionetes nas mãos de manipuladores da sociedade humana. Mas o neurocientista coloca sua hipótese no papel após mais de uma centena de páginas de explicações anatômicas, funcionais e biológicas do cérebro humano.

Enfim, não vou fazer postagens com diversas citações porque não é o caso, meu blog não é mais pra isso, meu lugar de fala hoje é de um quase ninguém, escrevo pra mim mesmo, como diário de reflexão. Mas se fosse ainda um dirigente da classe trabalhadora eu encaminharia propostas de estudo sobre as teses do professor Miguel Nicolelis sobre o risco de estarmos caminhando para uma nova espécie humana, o homo digitais, com capacidade cerebral inferior ao homo sapiens, que tem um cérebro analógico e criativo, e o que virá terá um cérebro mais digital e semelhante aos computadores que criamos, tarefeiro e não criativo.

É isso.

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.


terça-feira, 11 de maio de 2021

Cérebro humano - Abstrações criam e destroem



Refeição Cultural

"Se eles conseguem fazer com que você acredite em absurdos, eles podem fazer com que você cometa atrocidades." (Voltaire, citado por Nicolelis, p. 306)


Estou lendo o livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (2020). O livro é fantástico! Estou no capítulo 11 - "Como abstrações mentais, vírus informacionais e hiperconectividade criam brainets letais, escolas de pensamento e o zeitgeist". A leitura nos faz pensar, ou melhor, nos faz raciocinar, uma ação com sério risco de continuidade nos seres humanos, segundo avaliação minha após ler as explicações científicas do professor Nicolelis.

Após a leitura dos primeiros capítulos, leitura densa porque teve muita anatomia, biologia, neurologia e outras "logias" das áreas médicas e anatômicas do cérebro animal, principalmente o animal homo sapiens, os capítulos finais do livro são construções narrativas das teses de Nicolelis sobre o cérebro humano, o comportamento humano individual e coletivo, sempre centrado nas suas experiências de décadas. São abstrações, para usar a linguagem do próprio Nicolelis, mas nos colocam a pensar muito.

A leitura é tão densa, que não consigo ler um capítulo de uma vez, como tentei fazer nos primeiros capítulos do livro. Lemos alguns parágrafos e a vontade de ficar pensando a respeito de tudo nos domina. É impossível não parar para refletir e interpretar o que está ocorrendo conosco no Brasil e no mundo. Repito o que já disse em algumas reflexões: não há espaço algum para misticismo, essas abstrações mentais que inventamos são autoenganos, formas de buscar-se algum tipo de conforto ou ferramentas para lidarmos com a dura realidade da existência.

Ao citar o genocídio em Ruanda, no ano de 1994, ao citar as duas guerras mundiais, nazismo, fascismos diversos, explicando o funcionamento das brainets, fica claro para mim a possibilidade de termos um banho de sangue nesta terra conhecida na atualidade como "Brasil". Está em andamento um processo com todas as características dos processos na história das sociedades humanas que levaram a tragédias de grandes proporções. E como sempre ocorre, as pessoas acham que não é possível acontecer o que pode acontecer porque as pessoas avaliam com base em "razão", não compreendendo que os processos acontecem sem nenhuma base de "razão".

Termino essa breve postagem com uma reflexão racional observada a partir da realidade e com o conhecimento de ações já realizadas pelo animal humano ao longo da história das sociedades humanas: se nada mudar no andamento das coisas na sociedade brasileira, da forma como as coisas estão se desenvolvendo, podemos ter aqui uma repetição do genocídio ocorrido em Ruanda em 1994. Talvez sejamos caçados e exterminados pelos zumbis do regime que se instalou após o golpe e com o apoio da casa-grande. Infelizmente. 

"O genocídio de Ruanda, em 1994, é um lembrete macabro de que, uma vez que uma abstração mental espalha-se e passa a ser aceita indiscriminadamente como 'verdade', catástrofes antropogênicas de proporções épicas têm grande possibilidade de ocorrer." (p. 307)

Interrompam esse regime e essa brainet senão o Brasil entrará para a história das sociedades humanas naquela seção das maiores tragédias humanitárias de extermínios humanos.

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.


sexta-feira, 7 de maio de 2021

070521 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Sexta-feira nublada e fria em Osasco, São Paulo.

Sigo na leitura do livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis - O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (2020). Ontem à noite cheguei à página 298 e agora vou começar o capítulo 11 - "Como abstrações mentais, vírus informacionais e hiperconectividade criam brainets letais, escolas de pensamento e zeitgeist". As teses e argumentações do cientista têm feito com que eu pense muito a respeito da vida e das coisas do mundo.

O livro e as teses de Nicolelis abordam questões que parte de nós pensa a respeito há muito tempo: conceitos de tempo e espaço, o que é a vida, o que seria a verdade, qual o significado das coisas, o que é realidade e o que é imaginação, o que é o ser humano, o universo etc. Quando olho para trás vejo que essas questões me incomodam desde que me entendo por gente. Passei a vida em busca de respostas a perguntas malfeitas ou sequer pronunciadas, mas sentidas dentro de mim. 

Ler ciência é diferente de ler literatura, de ler história, de ler filosofia, de ler poesia. É e não é diferente das outras leituras. Após a leitura de Nicolelis o olhar para as coisas do mundo ficou diferente ou ficou mais claro para o que sou neste instante de minha curta existência. Eu senti algo dentro de mim quando estudei anatomia e outras disciplinas biológicas nos anos noventa. De novo sinto algo diferente ao ler sobre o cérebro humano, o criador de tudo. (parei o texto e fiquei pensando, mas bateu um cansaço danado...)

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Estou cansado. O cansaço nunca é o mesmo. Me lembro do cansaço dos dias de trabalho na Cassi. Eu trabalhava tanto que achava que iria morrer. Já nos primeiros meses, sozinho em Brasília, achava que o corpo não aguentaria aqueles 48 meses de mandato. Agora sinto um cansaço ao ver a Cassi sendo desfeita pelo poder que lá está...

Mas também me lembro dos cansaços das greves que nós fazíamos na categoria e que éramos responsáveis por aqueles milhares de colegas trabalhadores. Um cansaço incorporado na história de luta da classe trabalhadora. É um cansaço quase santificado, se santificação houvesse. É história humana, das boas!

Nestes dois casos, o cansaço era do peso do mundo em nossas mãos, a vida de dezenas de milhares de pessoas em nossas mãos. Passado não é nada quando não há registro, mas liderei e lidei com milhares de pessoas um dia em minha curta existência.

Lendo sobre o cérebro humano, e compreendendo ele, sou capaz de lembrar do cansaço de trabalhar 3 dias sem dormir naquela lanchonete do Itaim Bibi, o New Dog. 

Me lembro do cansaço das entregas de remédio que fazia de bicicleta em Uberlândia, eu era tão menino e achava que iria morrer de cansaço ao atravessar a cidade gigante para cima e para baixo entregando encomendas da Med Jato Drogarias.

Estou cansado da pandemia. Da banalidade do mal do bolsonarismo. De bolsonaristas filhos de chocadeira que estão ao nosso redor. Cansado de entrar em rede social e na internet. E cansado das notícias. Mas sou legião, todos estamos cansados. (cansado de usar máscara e talvez nunca mais deixemos de usar... que preguiça de sair assim pro mundo)

Não abro mão do existir. Mesmo cansado. Com a ciência aprendi que tudo muda, mudança é o instante que passa. Mesmo que nossa percepção entenda o viver como rotina... não há rotina. O animal que acabou esta postagem não é mais o mesmo.

Hoje sei que meu cansaço não importa. Sou um ser vivo e existir é oportunidade de vida e risco de morte. Não há mistificações. 

Ainda pensando o mundo a partir das explicações do neurocientista Miguel Nicolelis, os bilhões de seres humanos que já passaram pelo planeta participaram de uma espécie de construção coletiva do cérebro que temos hoje. Registros individuais e coletivos, interações coletivas. Brainets. Nossos cérebros são computadores orgânicos que atuam para o corpo sobreviver no meio em que está inserido.

Os registros ficam em nossos corpos, através das interações que ocorrem nos ambientes em que vivemos e que influenciam novamente os cérebros humanos, nossos computadores orgânicos. (fico pensando nos registros humanos que eu possa ter deixado para essa coletividade...)

Fim.

William

terça-feira, 4 de maio de 2021

040521 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

O VERDADEIRO CRIADOR DE TUDO

Quase acabei o capítulo 9 do livro de ciência (um livro revolucionário) do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. O cientista apresenta uma nova forma de compreender o cérebro - Teoria do Cérebro Relativístico -, visão funcional diferente da visão da ciência nos últimos 200 anos.

Me desliguei de parte do mundo externo por algumas horas, só parte do mundo externo - aquela que nos bombardeia com informações verdadeiras e falsas de eventos do mundo -, e embarquei na leitura sobre o cérebro humano, O Verdadeiro Criador de Tudo.

Incrível! No capítulo 9 - "Construindo um universo com espaço, tempo e matemática" - somos levados através de uma narrativa inteligente a grandes momentos de abstrações humanas que marcaram e mudaram o sentido das coisas na sociedade humana. Abstrações de Ptolomeu, Nicolau Copérnico, Kepler, Galileu Galilei, Isaac Newton, Einstein.

Vamos de uma visão de mundo geocêntrico de Ptolomeu para uma visão de mundo heliocêntrico, com Copérnico. Depois vem o "método científico" de Galilei; o microscópio; o telescópio; o período do renascimento. As células são descobertas. Depois nomeamos as células do cérebro de "neurônios".

Com Newton projetamos a mente humana para o espaço. A "gravidade" chega ao nosso conhecimento. E com as teorias de Newton, vem o "determinismo". Depois vem Einstein e a "Teoria geral da relatividade". 

(e mesmo com toda a ciência em andamento no mundo, décadas depois viriam o trumpismo e o bolsonarismo... o negacionismo... a terra plana...)

Foi inevitável estragar minha postagem com as últimas palavras em parênteses representando fluxo de pensamento. É que ao se reconectar com a parte do mundo exterior da qual nos chegam as informações das merdas do mundo, a gente acaba perdendo o pique até para escrever sobre as maravilhas da leitura.

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O VERDADEIRO DESTRUIDOR DE TUDO

Por alguns momentos nesta terça-feira me permiti procurar sentidos através da leitura, dos estudos e das reflexões sobre a existência.

Voltamos para as coisas do mundo. 

O Brasil tem como presidente um animal humano com as piores características morais dentre as que definem pessoas e grupos na sociedade humana. 

O congresso tem diversos animais da mesma laia daquele que ocupa a presidência. 

Seres humanos estão neste instante morrendo de fome (tendo comida disponível no mundo), morrendo de doenças evitáveis (tendo estratégias para se evitá-las). 

Nosso meio de existência, o Planeta, está sendo destruído por alguns animais humanos e toda a humanidade vai se foder com isso; a vida de todas as espécies estão ameaçadas de extinção.

Fim.


sexta-feira, 30 de abril de 2021

300421 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Tentei ler nesta sexta-feira mais um capítulo do livro fantástico do neurocientista Miguel Nicolelis - O verdadeiro criador de tudo -, mas não rolou. Acabei dedicando um tempo a escrever sobre a leitura dos primeiros quatro cantos da Odisseia de Homero e depois as horas do dia foram gastas com o gastar da vida atual. Ora ouvindo os absurdos da realidade brasileira, ora fazendo alguma coisa improdutiva; depois correndo 5K para ver se faço a minha parte na manutenção da vida. Mesmo assim, li algumas páginas a respeito de nosso cérebro. Nos põe a pensar a leitura e as explicações de Nicolelis, mesmo sonolento como estava naquela hora vagal.

No capítulo 9 do livro, Nicolelis começou descrevendo uma cena num lugarejo no ano de 1300. Às 6 horas da manhã, os sinos da construção do século VII começaram a badalar blem, blem, blem... com isso, todo e qualquer humano a quilômetros de distância era obrigado a acordar e seguir o ritmo ditado pela igreja, as 7 horas canônicas - 6h, 9h, meio-dia, 3h, por volta das 6 horas e lá pelas 9h da noite, hora de todos dormirem. O tempo, o relógio e o controle do tempo e da vida das pessoas. 

Nicolelis descreve esse cenário e essa ação, essa cultura, como uma brainet humana. Nós nos tornamos homo sapiens assim, nossos computadores orgânicos individuais - o cérebro - se juntaram aos demais e formamos essa sociedade humana na qual nos encontramos neste instante em que escrevo. Uma sociedade que mata tudo que vê pela frente, extermina tudo. E também ama e odeia, inventa deuses, sistemas políticos, transforma tudo em vida e em morte.

O papa Francisco é homo sapiens. Einstein é homo sapiens. Hitler é homo sapiens. Natasha Kinski é homo sapiens (apesar da aparência angelical). Eu sou homo sapiens. Você que lê essa reflexão é homo sapiens. São bilhões de homo sapiens vivendo e morrendo neste exato segundo em que escrevo a postagem. 

Estou ouvindo uma música enquanto escrevo... paro a postagem e vou ver o videoclipe... cara, que saudade das coisas, que vontade de viver tudo tudo tudo que a gente pode viver. Tudo! "Have You Ever Seen The Rain" (Creedance Clearwater Revival)... caralho! Me deu vontade de acampar,,, vontade de jogar sinuca de novo,,, ouvir música com amigos e tomar uma,,, andar pela estrada de noite vendo a lua bem na minha frente,,, ahhhhh!

Eu adoro montanhas, matas, cachoeiras, porra... já fiz muita coisa que meu cérebro contém até o dia em que não mais. Motos, vento. 

Chega, não dá pra postar mais hoje não. Tá bom.

William


sábado, 24 de abril de 2021

240421 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Em essência, como um todo, a crença tem o poder de formar e refinar a maioria, senão todo, o conteúdo do ponto de vista próprio do cérebro. Portanto, não é surpresa que os seres humanos sejam extremamente proficientes em criar uma enorme variedade de descrições mitológicas e religiosas, além de uma vasta lista de deuses, divindades, heróis e vilões, em uma tentativa de explicar, sem qualquer outro tipo de informação ou necessidade de validação empírica ou factual, toda sorte de fenômenos naturais que, em uma primeira inspeção superficial, desafiam a nossa compreensão. Seria possível argumentar que é graças ao poder universal e sedutor de crer na existência de causas sobrenaturais que a maioria da humanidade suportou por milênios, com apenas esporádicas manifestações de protesto, condições de vida altamente precárias que lhe foram impostas rotineiramente, quer pela natureza, quer pelos diferentes sistemas econômicos e políticos, bem como um sem-número de religiões." (NICOLELIS, 2020, p. 217)


Manhã de sábado, 24 de abril. Nesta noite dormi melhor. Na sexta, tive mais uma noite com incômodos corporais que me impediram dormir bem. Sou só um animal humano. Uma vida. "Viver é dissipar energia para poder embutir informação na massa orgânica do organismo", nos diz o neurocientista Miguel Nicolelis.

Tenho pensado muito sobre a vida e sobre a morte. As mortes. Muita gente está morrendo. Vivemos um genocídio no país onde sobrevivo. A morte é projeto de governo. O governo é apoiado por milhões de pessoas neste lugar do mundo. Eu conheço diversos humanos que apoiam esse regime de morte, maldade, desgraças.

Quando me sentei para escrever, tinha um monte de coisas na cabeça, as sinapses nos neurônios eram intensas. Mas agora passou o momento.

Dia 23 foi aniversário de minha esposa. Do meu primo. De outros conhecidos. E foi o dia da morte de mais um companheiro do movimento sindical, vítima do vírus do governo genocida. Pinheiro foi uma das 2.914 mortes do dia. Companheiro Pinheiro, presente! Também faleceu a jovem Lorena, que trabalhou conosco na Cassi. Que tristeza! Lorena, presente!

Nesta semana morreram diversos conhecidos de lutas. Agora temos 386.416 mortos oficialmente por Covid-19 no país jabuticaba dos bolsonaros, da casa-grande, do PIG.

Já li oito capítulos do livro do neurocientista Miguel Nicolelis. Se vivo estiver neste fim de semana inteiro, vou terminar a leitura do clássico de Herman Melville. 

Embutindo informação na massa orgânica que sou. E num instante qualquer o que era já não serei mais. Tenho claro isso.

Fiquei pensando em muita coisa ao ler Nicolelis. Os humanos registrando nas paredes das cavernas dezenas de milhares de anos atrás. Foram os primeiros registros fora do cérebro daqueles animais, registros de acontecimentos, pensamentos, memórias, desejos, coisas, registros para fora do cérebro dos animais humanos e para a posteridade, para além do indivíduo.

Registrar no blog, uma coisa virtual, guardada de forma digital numa máquina lá num canto do mundo, é um registro frágil demais para permanecer na Terra. Já pensou se as pinturas rupestres estivessem nas nuvens, as tais nuvens digitais? 

Eu procuro informações das lutas sindicais dos últimos 20 (vinte) anos e não encontro. Eram virtuais, digitais, e viraram nuvem, se dissiparam... (a seguirmos assim, só vai sobrar a história contada pelos bolsonaros, pela casa-grande, pelo PIG)

Não somos nada. E sem registro, só somos informações acumuladas nessa massa orgânica que somos, que deixa de ser a qualquer instante.

É isso. Deixo nessa nuvem, nesse instante, meus sentimentos sinceros a todas as famílias que perderam seus entes queridos no dia de ontem, nesse período de mortes severinas, mortes temporãs, fora de época, que não deveriam ocorrer. 

Ah, sobre a citação de Nicolelis, eu posso dizer das experiências que tive na vivência desse organismo que sou. As crenças religiosas, crenças em coisas sobrenaturais, crenças na luta sindical, nos ideais da esquerda etc. Elas foram a base do que fui até uns trinta anos de idade e do que sou depois disso. 

Eu compreendo o estágio em que cada ser humano está (compreender não é aceitar, já dizia Hobsbawm, mas compreendo). Nessas cinco décadas de sobrevivência, foi a fé em alguma abstração mental que me manteve vivo, afinal tudo é abstração mental, deuses, demônios, relações com o mundo externo ao organismo, coisas que chamamos pátria, família, dinheiro, socialismo, amizade, amor...

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020


quinta-feira, 15 de abril de 2021

150421 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Terminei o capítulo seis do livro do neurocientista Miguel Nicolelis, O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. Foi uma leitura difícil, não o texto, difícil porque não estive bem no dia. Ganhei o livro de presente de aniversário e a leitura de um livro de ciências tem me feito pensar bastante.

Durante uma época de minha vida, tinha receio de que a Inteligência Artificial fosse uma realidade e que as máquinas pudessem pensar e criar e com isso se transformassem em concorrentes dos seres humanos na disputa pela terra, pelo espaço vital. Nicolelis deixa claro que isso não é possível e ainda aponta que os cientistas da computação que vendem essa ideia sabem que isso não é possível. 

Não estou dizendo com isso que as máquinas não possam ser usadas para nos transformar em escravos ou baterias da Matrix, mas por trás sempre haverá humanos. As máquinas não vão se revoltar contra nós e nos eliminar. Nicolelis ao explicar o funcionamento do cérebro e a diferença em relação aos sistemas computacionais deixa isso claro. O problema somos nós, os humanos, e o que podemos fazer com as máquinas.

Nosso cérebro tem 86 bilhões de neurônios. Os neurônios dos animais não agem isoladamente, agem de forma integrada. As explicações que li até agora sobre o funcionamento do cérebro nas 164 páginas do livro do professor Nicolelis me permitiram recordar muitos conceitos e muitos conhecimentos que adquiri na vida quando estudei o corpo humano nos anos noventa. 

O conhecimento científico tem pontos positivos e negativos. Um ponto negativo é termos clareza de nossa condição humana, de nossa mortalidade e efemeridade, isso nos dá humildade e, ao mesmo tempo, nos dá medo e outros sentimentos ruins como egoísmo, egocentrismo e raiva, talvez. Também pode nos fazer pusilânimes, pessimistas e sem esperanças, porque não há espaço para misticismos e crenças sobrenaturais.

Os pontos positivos são muitos também. A inteligência humana, criadora das ciências, permite aos seres humanos criarem soluções para a sua sobrevivência e possibilita a criação de facilidades para a vida humana; a ciência pode melhorar a vida das pessoas.

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Estamos convivendo tanto com a morte que se tornou inevitável a morte tomar conta de nossos pensamentos. Além da pandemia mundial de coronavírus, que mata no Brasil mais de 3 mil pessoas por dia, amigos e conhecidos nossos e familiares de todos nós, convivemos com um psicopata na presidência do país, um sádico mantido no poder por uma espécie de doença mental coletiva, uma banalidade do mal que nos fez perder o amor à vida, ao país e ao povo brasileiro.

Quando fui dormir passando mal, pressão arterial super alta, sabia que um treco poderia acontecer comigo. A vida é um instante, da vida para a morte é um segundo. O sentimento que mais vem à cabeça é a preocupação com as pessoas que dependem da gente de alguma forma, relações de amor, de amizade, de sustento. 

Eu me cuido da forma que é possível, tenho consciência corporal e consciência social sobre estar vivo. Gostaria de ver as pessoas mais felizes e sofrendo menos do que vemos hoje. Estragaram tanto nosso mundo com o golpe de Estado e com a destruição da parte boa das pessoas, para se alimentar o que havia de pior em cada um de nós - raiva, ódio, fúria, ignorância - que se um dia o povo brasileiro sair dessa desgraça que nos colocaram, será num amanhã distante. Eu não estarei mais aqui, não verei mais as pessoas felizes. Triste isso. Queria ver meu filho feliz, ver os jovens felizes. (Felizes de forma plena e consciente, não idiotizados, estupidificados como os negacionistas que se aglomeram e contribuem de forma canalha para espalhar o vírus mortal, são uns assassinos esses).

William


sábado, 10 de abril de 2021

Tempo (XXV)



Refeição Cultural

O que é o tempo? O que é a vida?

Pensadores do mundo, de diversas épocas, já se perguntaram a respeito dessas questões, e já se pegaram num beco sem saída porque é difícil responder tais questões. Tempo, vida... 

Lendo o livro do neurocientista Miguel Nicolelis, O verdadeiro criador de tudo, um livro sobre o funcionamento do cérebro humano, vi um conceito interessante sobre a vida: viver é dissipar energia para poder embutir informação na massa orgânica do organismo.

Difícil definir a vida, difícil definir o tempo. Dei um exemplo acima de definição de vida. Li recentemente vários textos críticos e filosóficos sobre o tempo, através de disciplinas que fiz na faculdade de Letras. Seria somente o presente, o instante, o tempo possível? 

O passado não existe, a não ser quando trazido para o presente na forma de memória do ser que relembra, ou na forma de registro histórico. O mesmo se dá em relação ao futuro, que evidentemente não existe (que futuro?). O único futuro que existe é o presente, o instante, que já vira passado e já não existe mais.

Então a minha vida é informação registrada no meu cérebro, no meu corpo, na minha pele, no meu coração, nos meus ossos, nas minhas mãos, no meu tato, nas minhas partes genitais. Nos meus olhos. Nos meus lábios. Nos salões dos meus ouvidos, meu cérebro. E nos meus blogs e escritos, nas fotos que tiverem comigo, nos documentos que constarem meu ser. Enquanto durarem. Enquanto durar a memória de minha existência passageira.

Estou ouvindo músicas. Música é uma das coisas que mais me faz viajar através do tempo, do meu tempo transcorrido na vida, na minha vida, e me faz acessar as informações registradas na minha massa orgânica ao dissipar energia e viver.

Em mais de meio século de dissipação de energia e registro de informações em minha massa orgânica é possível resgatar várias imagens, sensações, coisas, dentro do corpo vivo que sou. E ao morrer morrem comigo essas informações registradas nas minhas partes orgânicas. E o que é a vida? E o que é a morte? E o que é o tempo?

Cada música que passa, um novo (velho) instante resgatado nas memórias, as tais informações embutidas na massa orgânica que respira neste instante, dissipando energia, transformando glicose e oxigênio em energia. 

(e a cada instante que passa, alguém não consegue respirar no Brasil e produzir energia para registrar informações no seu ser - o viver... - a cada instante alguém sufoca como consequência do vírus do regime fascista de Bolsonaro: bolsonaros, meus tios, primos, vizinhos, colegas bancários: todos eles responsáveis pelo afogar de vidas humanas que não são mais)

Hoje lembrava de instantes registrados em minha massa orgânica, no meu cérebro - entendo que essa massa de neurônios é o que sou. Durante anos, falei aos trabalhadores bancários em assembleias lotadas o que acreditávamos e o que defendíamos para a categoria que representávamos. Já falei para milhares de pessoas. Está registrado (embutido) em minha memória. Onde mais está registrado? (a história não existe, ou existe quando está registrada)

Agora escuto uma música que me faz lembrar de liberdade, de andar, correr, voar, de fazer coisas ousadas, coisas loucas. Vem em minha memória o som dos velames dos paraquedas balançando com o vento. Por diversas vezes voei ao saltar de paraquedas. Piracicaba. Cheguei a ficar onze minutos no ar, descendo lentamente com o paraquedas freado, só para curtir o voo. Me lembro de urubus voando abaixo de mim. Informações embutidas em minha massa orgânica. Um dia, se dissipam comigo, quando eu não dissipar mais energia para viver.

Talvez seja por causa do registro em minha memória que admire tanto o planar dos urubus a partir da janela de minha casa em Osasco. Eles planam com uma leveza impressionante, sem esforço algum, é impossível não se admirar com eles. Os humanos talvez não apreciem os urubus porque somos uns tontos que avaliam tão nobre ave pelo que elas comem. Todo ser vivo come alguma coisa, dissipa energia para embutir informação em sua massa orgânica, vida.

O que é a vida? O que é o tempo? O que somos?

Quando morrer, morre comigo um monte de coisas, informações, sensações, uma personalidade que esteve por aí ao longo de certo tempo. Tempo? Vida?

William


Post Scriptum: por quase trinta anos fui bancário, e boa parte das minhas memórias têm relação com esse período (e tem mais uma década de trabalhos braçais até os vinte anos). A memória são fragmentos e instantes registrados, são cargas elétricas, sinapses nos neurônios. Mas ao ouvir Amazing (Aerosmith) e ver Alicia Silverstone e ao final o sky surf, me parece que foi dali que tive o sonho de voar e saltar de paraquedas. O álbum é de 1993 e foi através de uma Folha Bancária no início dos anos dois mil que vi um convênio do Sindicato com uma escola de paraquedismo. Dali juntei a fome com a vontade de comer e realizei uma de minhas mais memoráveis dissipações de energia para embutir informação na massa orgânica. A adrenalina daqueles saltos era algo incrível. Fiz 14 saltos. Vivi.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

080421 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quinta-feira, 8 de abril. 2º ano de mortes por Covid-19. 3º ano da destruição de tudo pelo regime fascista e genocida no Brasil.

Li nesta manhã mais um capítulo do livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis - O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. Foi o 5º capítulo. Foram 3 horas de leitura densa. Meu cérebro agradece o esforço intelectual realizado.

Nicolelis é um cientista revolucionário. Definiu conceitos novos a respeito do funcionamento do cérebro após duzentos anos de "certezas" sobre o órgão. Estou lendo suas teorias sobre o cérebro relativista com um livro de anatomia do lado, assim relembro meus bons tempos de estudos do corpo humano em laboratório. Focado como sou, naquela época eu sabia muito sobre aquilo que estava estudando. Pena que não terminei o curso.

É foda! Me lembro até hoje daquele dia em que entramos no laboratório de anatomia pela primeira vez em 1997. O professor fez uma apresentação e nos falou da importância em tratar com o máximo respeito os corpos nos quais iríamos estudar ao longo do ano. Os corpos eram de pessoas como nós e mereciam o nosso respeito. Por quase dois anos frequentei aquele laboratório e aprendi muito, e mudei como pessoa porque passei a respeitar mais o ser humano.

Agora, vivendo aos 52 anos num país onde existem pessoas que apoiam aquela coisa maléfica na presidência do país, de novo passei a ter um sentimento muito ruim a respeito dos seres humanos. Que merda, isso! Aquele monstro no poder e seu séquito de gente vil e canalha faz piada todos os dias com os milhares de mortos e sequelados por Covid-19 no país governado por ele. É racista, xenófobo, machista, prega a favor da violência, a favor dos ricos, pratica atos apontados como quebra de decoro do cargo que ocupa todos os dias, e tem gente que o apoia. Não uma pessoa, que já seria absurdo. Milhões de seres humanos apoiam esse animal desprezível.

Acho que regredi décadas em pouco tempo. Não sei se sou mais um humanista.

William


quarta-feira, 7 de abril de 2021

O verdadeiro criador de tudo - Miguel Nicolelis



Refeição Cultural

Li o quarto capítulo do livro do neurocientista Miguel Nicolelis, O verdadeiro criador de tudo (2020). É uma leitura diferente da que estou habituado. É um livro de ciências, que aborda muita biologia, anatomia e outras áreas com as quais tive contato décadas atrás quando fiz faculdade de Educação Física, curso que não concluí.

Por outro lado, sempre tive interesse pelas temáticas científicas e culturais, poderia dizer que sempre tive certa curiosidade filosófica. O filósofo e professor romeno Mircea Eliade tinha um conceito que acho interessante - "homem cultivado" - para pessoas de saberes mais diversificados, em contraposição aos técnicos e especialistas. Pois é, gostaria de ser um "homem cultivado". Não fui. Quem sabe ainda seja um se viver mais uns 30 anos e seguir estudando...

O professor Nicolelis se esforça para falar de ciência em linguagem do cotidiano e diria até que ele consegue, mas para leitores que nunca tiveram muita familiaridade com ciências médicas e biológicas deve ser uma leitura trabalhosa. Mitocôndrias, neurônios, dendritos, capa de mielina, sinapses, córtex cerebral etc. Ao ler, vou me lembrando facilmente das matérias e isso facilita a leitura.

O neurocientista traz as descobertas das últimas décadas em relação aos estudos sobre o funcionamento do cérebro nos animais. A teoria desenvolvida por ele e sua equipe é revolucionária. Ele explica que durante duzentos anos os cientistas que estudam o cérebro se dividiam entre aqueles que acreditavam que cada área do cérebro é especializada em determinadas tarefas e aqueles que acreditavam que as áreas são aptas a realizar múltiplas tarefas. Foi só com a tecnologia dos últimos 20 anos que se pôde avançar nos experimentos que favoreceram a 2ª teoria.

Nicolelis é um dos principais neurocientistas do mundo na área de estudos do cérebro humano e criador de diversas teorias que explicam o funcionamento do cérebro de forma integrada, como um todo. Até o momento, achei muito interessantes as 100 páginas que li.

Vamos adiante.

William