domingo, 2 de agosto de 2026

Leitura: Tal Pai Tal Filho



Refeição Cultural

Já faz alguns anos, meu pai me entregou um caderno de textos, organizados por ele mesmo, reunindo textos meus e textos dele. O caderno se chama Tal Pai Tal Filho.

Já li trechos do caderno várias vezes, mas nunca li o caderno inteiro. A gente tem o costume ruim de fazer isso com as pessoas queridas, amigos e familiares. Tudo no cotidiano é mais urgente e importante que as nossas relações de afeto.

Quando acordei neste domingo, uma semana antes do domingo dos pais, tive um impulso de pegar o caderno que meu pai idoso fez pra mim e lê-lo completamente, corretamente. É o mínimo que eu já deveria ter feito desde quando ele mo presenteou.

A primeira metade são textos meus retirados do blog Refeitório Cultural, textos que tratam de minha relação com os pais e com meu filho. São textos sobre pais e filhos. Alguns são incríveis! São declarações de amor, agradecimentos, reflexões em momentos de dor e angústia. 

Durante um curto período, meu pai passou a escrever bastante, já depois dos setenta anos. Ele conseguiu mexer com computador e Internet até o período da pandemia mundial, já perto de seus oitenta anos. Naquele momento, meus textos tinham ao menos um leitor: meu pai!

A coletânea que ele fez pra ele e pra mim é incrível! Ao me entregar aquele caderno, anos atrás, meu pai pode ter querido dizer várias coisas, várias! Respeito por mim, amor, orgulho pelo filho que teve. Um pedido de socorro, por solidão em um ambiente de desentendimento na própria casa. Um chamado para que eu visse a história incrível da vida dele, que nunca havia sabido de forma tão organizada. 

De meus textos, ao relê-los, fiquei estupefato. Não me lembrava com detalhes daqueles acontecimentos e sentimentos. 

Escrevi um sobre idosos, estando na UTI com meu pai infartado em 2012. Imagino que seja um de meus melhores textos sobre a importância de se amar os idosos.

Meu pai reuniu textos nos quais falo de meu filho, de minha mãe, de mim e ele com nossas duras vidas vividas.

Aí começa a história da vida dele. Incrível! Dá vontade de ler em voz alta numa roda de amigos e familiares. De parar a cada parágrafo e comentar sobre aquela vida, aquela gente, aquele mundo de onde nós viemos. Qualquer pessoa minimamente conhecedora do Brasil do século vinte, sabe que aquela narrativa é sobre todos nós.

Enfim, neste momento, apenas comecei a leitura da história da vida de meu pai, de meus pais, dessa gente de onde viemos, de muitos de nós. 

A vida é um instante. Enquanto me afogo no catarro de uma gripe insistente, posso deixar de existir num instante. O mesmo com meu velho pai, próximo de completar 84 anos. O mesmo com meu filho, que num rolê com algum exagero na bebida, pode se pôr em risco desnecessário...

Fiz muitas das coisas que meu pai fez na juventude. Meu filho, idem. Bebemos mais do que o saudável. Meu pai ainda fumou por 37 anos. Cada vida é única. Cada história de vida, também. Os contextos e o mundo nunca são os mesmos, apesar das escolhas serem talvez parecidas.

Sou grato por estarmos vivos neste domingo. 

William 

02/08/26

sábado, 1 de agosto de 2026

Aos dez anos, minha vida mudou (23)


A lembrança que tenho é de falar para meus pais que se eles quisessem poderiam vender meus brinquedos pra ajudar na situação ruim que a gente estava vivendo. 

Estava no banco de trás do carro em movimento. Não sei dizer se foi na viagem definitiva para Minas Gerais, deixando para trás meu mundo. A cena é real, o contexto é suposição. 

No futuro, olharia para a primeira infância vivida no Rio Pequeno como o período no qual fui feliz. O sobradinho, os amigos e brincadeiras, nosso cachorro pequinês Leique, o colégio Adolfino. 

Tombos de bicicleta, empinar pipa, jogar bola, os cortes na cabeça com pedrada, latada e dentada, as idas na casa dos tios que moravam na Ricardo Cipicchia, atrás do Adolfino, as demais crianças da família, que eram tipo primas, tudo ficou no passado.

Com dez anos de idade, chegava com meus pais e minha irmã a Uberlândia, para começar uma nova vida. Era 1980. Nossa primeira casa foi no fundo do quintal da Dona Nenzinha. E nossa escola seria o Hortêncio Diniz, na mesma rua de casa. 

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Instantes de uma vida