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sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


domingo, 2 de agosto de 2026

Leitura: Tal Pai Tal Filho



Refeição Cultural

Já faz alguns anos, meu pai me entregou um caderno de textos, organizados por ele mesmo, reunindo textos meus e textos dele. O caderno se chama Tal Pai Tal Filho.

Já li trechos do caderno várias vezes, mas nunca li o caderno inteiro. A gente tem o costume ruim de fazer isso com as pessoas queridas, amigos e familiares. Tudo no cotidiano é mais urgente e importante que as nossas relações de afeto.

Quando acordei neste domingo, uma semana antes do domingo dos pais, tive um impulso de pegar o caderno que meu pai idoso fez pra mim e lê-lo completamente, corretamente. É o mínimo que eu já deveria ter feito desde quando ele mo presenteou.

A primeira metade são textos meus retirados do blog Refeitório Cultural, textos que tratam de minha relação com os pais e com meu filho. São textos sobre pais e filhos. Alguns são incríveis! São declarações de amor, agradecimentos, reflexões em momentos de dor e angústia. 

Durante um curto período, meu pai passou a escrever bastante, já depois dos setenta anos. Até antes: "Divagando pela vida", ele finaliza aos 67 anos, no dia de seu aniversário. Ele conseguiu mexer com computador e internet até o período da pandemia mundial, já perto de seus oitenta anos. Naquele momento, meus textos tinham ao menos um leitor: meu pai!

A coletânea que ele fez pra ele e pra mim é incrível! Ao me entregar aquele caderno, anos atrás, meu pai pode ter querido dizer várias coisas, várias! Respeito por mim, amor, orgulho pelo filho que teve. Um pedido de socorro, por solidão em um ambiente de desentendimento na própria casa. Um chamado para que eu visse a história incrível da vida dele, que nunca havia sabido de forma tão organizada. 

De meus textos, ao relê-los, fiquei estupefato. Não me lembrava com detalhes daqueles acontecimentos e sentimentos. 

Escrevi um sobre idosos, estando na UTI com meu pai infartado em 2012. Imagino que seja um de meus melhores textos sobre a importância de se amar os idosos.

Meu pai reuniu textos nos quais falo de meu filho, de minha mãe, de mim e ele com nossas duras vidas vividas.

Aí começa a história da vida dele. Incrível! Dá vontade de ler em voz alta numa roda de amigos e familiares. De parar a cada parágrafo e comentar sobre aquela vida, aquela gente, aquele mundo de onde nós viemos. Qualquer pessoa minimamente conhecedora do Brasil do século vinte, sabe que aquela narrativa é sobre todos nós.

Enfim, neste momento, apenas comecei a leitura da história da vida de meu pai, de meus pais, dessa gente de onde viemos, de muitos de nós. 

A vida é um instante. Enquanto me afogo no catarro de uma gripe insistente, posso deixar de existir num instante. O mesmo com meu velho pai, próximo de completar 84 anos. O mesmo com meu filho, que num rolê com algum exagero na bebida, pode se pôr em risco desnecessário...

Fiz muitas das coisas que meu pai fez na juventude. Meu filho, idem. Bebemos mais do que o saudável. Meu pai ainda fumou por 37 anos. Cada vida é única. Cada história de vida, também. Os contextos e o mundo nunca são os mesmos, apesar das escolhas serem talvez parecidas.

Sou grato por estarmos vivos neste domingo. 

William 

02/08/26

terça-feira, 21 de julho de 2026

Leitura: Poemas e maravilhas de Marili Santos (ano 2013)



Refeição Cultural

POESIAS E MARAVILHAS LITERÁRIAS


"TRINDADE

O que faz a vida deixar de parecer feliz
e sê-la de fato, é tão ridiculamente
simples, que às vezes deixamos de olhar e sentir o óbvio."


Após mergulhar na produção cultural da professora, poeta e escritora Marili Santos, lendo suas publicações dos anos de 2011 e 2012, embarquei na viagem através de seus textos publicados em 2013. São 133 obras de artes no referido ano e mais de 500 nos três primeiros anos do blog. 

As variações nas formas poéticas e nas temáticas das composições são muito interessantes. Poemas, haicais, elegias, contos, crônicas, brocardos (que eu nem sabia o que significavam) e textos diversos compõem um verdadeiro refeitório cultural para todos os tipos de gostos e sabores. Um verdadeiro acalanto. E por falar em acalanto:

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ACALANTO

Era bem cedo quando a velha senhora separava as gemas das claras, uma a uma, jogando na vasilha de ágata as preciosas, amarelos-ouro. Ao todo eram doze somente gemas. Arrastava as chinelas para cá e para lá, em movimentos deslizantes do chão recém-encerado. Pegou o vidro e mediu no prato fundo de sempre, do açúcar mais grosso, quase cristal, ajeitando as bordas com o dorso da colher de pau. Começou a bater as gemas com o açúcar primeiro lentamente, enquanto assoviava baixinho qualquer canção, depois o fremir era intenso; a melodia acompanhava agora os movimentos rápidos que nem a velhice havia ainda levado. Com a mão desocupada apanhava bocados de farinha de trigo que eram salpicados à mistura e assim, a massa ganhava o corpo que a boa e solitária mulher queria. O ponto era o mesmo de quarenta anos, nem um grama a mais nem um a menos de trigo. Chegou. A tábua longa disposta sobre a mesa esperava a mistura pronta para ser esticada, na espessura ideal e em seguida, ser cortada pela carretilha. Untou com manteiga bem gorda. Os sequilhos agora prontos descansariam o tempo certo de ela limpar o pouco que sujou. As pernas doíam demais e a saudade também. Sentada. Vigiava. Há que se vigiar, pois assam muito rápido. O cheiro era doce e terno. Colocou a segunda fornada.

Ouviu o chamado lá de longe, eram os netos, eram os netos.

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Uma coisa que aprendi nas aulas do curso de Letras, em uma disciplina de leitura de poesias, é a importância de conhecer os significados das palavras; procurar em dicionários os sentidos e possibilidades de sentidos das palavras da língua utilizada na confecção dos textos literários e poéticos.

Para ler os textos da escritora Marili Santos achei necessário deixar de lado a preguiça comum dos leitores e ir atrás do sentido das palavras para navegar melhor por seu mar de poesias, crônicas, haicais e outras maravilhas.

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PARALAXE

Eu você

Aqui e lá

Nós sem fim

Vento sim

Mudam-se

Olho e vejo

Você não vê

Que se há de fazer?

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Imaginem se, de supetão, os leitores sabem de brocardos, senescência, criptograma, malsinar, sobre o "Olho de Hórus", paralaxe, arquilexemas e arquifonemas e palavras várias de nossa língua pátria!

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Senescência

Broto vivo
em mim
nada é velho
vivo sem fim
seiva corre
em si
essência da vida
enfim.

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Por outro lado, para variar e alternar com os poemas mais exigentes, outros são pérolas com a linguagem mais prosaica e cotidiana possível.

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QUADRINHA SOLITÁRIA

Na calada da madrugada
A mulher escuta seu amigo
O gotejo da pia principia
Já pode dormir em paz!

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Enquanto degusto cada maravilha cultural da poeta Marili Santos, aprendo e reaprendo os sentidos da linguagem humana.

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CONEXOS

dita
dita-me
ditame
dito
dito-cujo
ditador

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Uma realidade comum na existência das pessoas que dedicam parte de suas vidas para nos presentear com seus textos são os momentos de pouca inspiração e de bloqueios criativos. Eu já enfrentei instantes assim diversas vezes quando precisava escrever sobre algum tema.

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SEM INSPIRAÇÃO OU... que saco!

Fico pensando
que faz o poeta
o escritor, amante
namorado, professor
cozinheiro, escultor, ator, criador
qualquer ser que depende da inspiração... precisei de sete dias para escrever essa porcaria... Deus também precisou.

Que saco!

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A simplicidade prosaica de alguns poemas, elegias, haicais e crônicas, conjugada com a perfeição do uso das palavras para dizer algo que muitas vezes nós queríamos dizer e não sabíamos como dizer, é algo que só se encontra nas tecituras dos poetas.

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APOTEOSE

Adoro ver gente
que passa pelo
abismo, dor e
provação e tudo
tudo de mais
agressivo e
mesmo assim
sabe o que é viver!

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Não é!? O eu-lírico de "APOTEOSE" disse tudo! É preciso saber viver, já dizia o poeta na música dos Titãs.

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COMENTÁRIO FINAL

Como disse no início, degustar os textos de Marili Santos em seu blog Valsa Literária é um verdadeiro banquete naquele refeitório cultural.

Aos poucos, vou conhecendo a produção poética e literária da professora e escritora. 

O que nos faz humanos é o que nos diferencia dos demais animais e seres vivos na natureza. Produzir cultura é uma das características dessa espécie única que somos.

Se vocês apreciam poesia e outras formas de manifestações culturais, visitem o blog Valsa Literária, vocês vão gostar muito.

William

O blog: https://valsaliteraria.blogspot.com

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Instantes (14h47) - Salvar o mundo: um compromisso ético



Refeição Cultural

Que poderia registrar neste instante? O que ocupa meus pensamentos?

O amor, esse nobre sentimento, poderia ser a pauta a definir a agenda da sociedade humana. Mas ele não é o que importa no mundo dos homens. 

O projeto humano em andamento é outro - o necrocapitalismo -, e as ferramentas para se levar adiante o projeto são antagônicas ao amor.

Ódio e medo são os sentimentos a serem trabalhados pelos donos do poder para implantar o preconceito entre os iguais nas classes subalternas. 

E o pior é que dá certo manipular as massas humanas desprovidas de todos os meios essenciais à vida e ao pleno desenvolvimento do ser humano. 

O que fazer ao perceber esse cenário ao seu redor? Se contrapor a esse projeto de sociedade humana é o básico. Mas não basta. 

Que mais se poderia fazer para impedir esse projeto de dominação das massas humanas através do ódio e do medo, alcançando o predomínio do preconceito entre as vítimas miseráveis desse sistema?

Só escrever não basta. Só estudar e refletir não basta. Só pregar o pacifismo não basta. Isso é óbvio! 

Enquanto um sujeito pacifista faz isso, o dono do poder explode ele... boom!

Entendem? Só pacifismo não basta contra os donos do poder. Não pararam Hitler com passeatas pacifistas.

Estamos ferrados! Um século depois, os pacifistas copiam os "pacifistas" hipócritas (covardes?) do período entre os anos vinte e quarenta da "Era dos extremos".

A gente vê isso e sente uma impotência imensa sendo um cidadão politizado. 

Sigamos sem esmorecer ou desistir. Salvar a humanidade e a vida no planeta Terra deve ser um compromisso ético de cada um de nós. 

William 

23/01/26

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O sentido da vida (18)



Tem que haver sentido? A pergunta sempre volta


Ao se frustrar por não chegar na parte que queria da leitura de Os miseráveis, fechou o livro. O sono constante atrapalha muito qualquer projeto de leitura. 

Falou através de ligação por vídeo com seus pais. Essa oportunidade de contato com eles pode não se repetir mais. A vida é um instante. Se os jovens, se os fortes, se os abastados morrem, que dirá o restante dos mortais.

Os dias passam e nada de efetivo acontece naquilo que gostaria que mudasse. Tudo está mudando rápido, mas nada muda no que gostaria que mudasse. 

É pouco provável que vá ler obras que gostaria. Nem saberia dizer se tem sentido o esforço para ler algumas delas. Que coisa mais sem sentido pensar assim...

E o esforço de sistematizar milhares de textos escritos? A razão lhe diz que isso tem sentido. Na prática, não tem. Escrever e registrar algo do que sabe, então, piorou. Quem quer saber disso?

No fundo, nas horas de maior angústia, o que vem à memória e mostra algum sentido real na existência, o que ficou mesmo, foram cheiros, toques, sensações, arrepios, olhares, horizontes. 

Estar diante das Cataratas do Iguaçu em algum momento da existência não tem sentido algum. Mas dá todo sentido à vida. Assim como amar, realizar sonhos, ser feliz.

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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Evocações



Refeição Cultural

Ontem, reli o capítulo 38 de meu livro de memórias sindicais, "Evocações". No texto está a essência de minha história e formação política. 

Aquelas lembranças foram inspiradas nas memórias de Aleida March, companheira de Ernesto Che Guevara. O livro dela me escolheu numa rua de Havana.

Nosso grupo de brasileiros estava andando por Havana Velha com o senhor Luis Caballero quando olhei o livro numa portinha de livros usados. Aquela foto de Aleida e Che me encantou.

No capítulo 38 de "Memórias de um trabalhador politizado pelos bancários da CUT" vou buscando as lembranças assim como fez Aleida depois de décadas de silêncio. O passado sendo tratado com ternura.

A vida humana é definida diariamente, independentemente dos planejamentos que as pessoas fazem em seus sonhos e utopias. Olho para trás e vejo isso claramente. E tudo bem!

As veredas, as veredas da vida. Veredas que definem caminhos, caminhos que determinam a vida vivida. E tudo bem se não rolou o que você queria. Se a vida foi vivida com uma ética humanista, valeu a pena.

As veredas são oportunidades incríveis... quando vi era dirigente sindical. Quando percebi estava mudando o mundo junto com meus companheiros e companheiras, o meu e o nosso mundo do trabalho à época. 

Quando vi, Aleida e Che me encantaram numa rua de Cuba. Do nada, me senta no assento ao lado no ano seguinte, num voo de volta a Cuba, a queridíssima Conceição Evaristo, e passamos horas conversando até Havana.

Falei a ela de Aleida March, disse que lhe daria o livro de presente. Achei agora a versão em português e quero entregar à nossa querida escritora das escrevivências as lembranças de Aleida March. E, modestamente, lhe presentear também com as memórias do bancário.

O capítulo 38 traz lembranças de um fazer sindical com uma ética toda aprendida com lideranças sindicais de grande valor, que me inspiraram e me fizeram ser a pessoa que fui, e que sou.

Espero entregar a Conceição Evaristo as evocações de Aleida March. Espero que minhas evocações testemunhem o efeito revolucionário da formação política e sindical, lições de vida que me trouxeram até aqui.

William 

25/11/25

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O sentido da vida (12)



Ser às vezes o ombro amigo


Encontrou uma vizinha no ponto de ônibus. Parou para conversar com ela até que viesse o ônibus. Sempre que se encontram, ele a ouve com atenção. Ela tem mais de oitenta anos. Ela desabafou chorando... ingratidão e falta de respeito familiar. 

Dias atrás, ele ficou um tempão com uma pessoa muito querida ao telefone. Ela também chorou e desabafou... a ingratidão e desrespeito familiar estavam lhe fazendo muito mal.

Ele havia ido aos Correios postar suas Memórias para três amigos. A vida é um instante, seu desejo era deixar algumas unidades daquelas histórias reunidas em livro em alguns cantinhos do mundo.

Ao chegar da rua, soube pelas redes sociais do falecimento de um grande companheiro que viveu com ele muitas daquelas histórias de lutas sindicais no Banco do Brasil e na categoria bancária. Ficou triste demais. 

A vida é um instante. Se pudermos ao menos ser o ombro amigo de alguém por um instante, será um ato de solidariedade, um ato de amor.

José Michelena, presente!

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domingo, 3 de agosto de 2025

Instantes (21h50)



Refeição Cultural

Não estou tranquilo, apesar de estar em um instante de tranquilidade. A vida é assim.

No silêncio do local, um silêncio de aparente paz, reflito sobre a semana que tenho pela frente. 

Que eu chegue bem ao próximo final de semana. É o pensamento. 

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Nos anos noventa, quando estudei por um tempo Educação Física, pensava em desenvolver pesquisas sobre musculação para as pessoas depois dos 50 ou 60 anos. Não pude concluir o curso, mas confirmaram a importância dessa atividade para a saúde.

Mesmo percebendo os sinais que meu corpo me passa na atualidade - os avisos de cansaço pelo percurso ao qual foi exposto -, tenho tido uma disciplina severa para praticar atividades físicas que melhorem ou alonguem minha jornada de buscas de sentidos e de doações às relações sociais às quais estou vinculado. 

Esse esforço por viver não deixa de ser um ato de amor. Um sentido, assim.

Tive a oportunidade de conhecer o funcionamento do organismo dos animais humanos. Apesar dos excessos praticados contra meu corpo, tenho a consciência de algumas obrigações para seguir por aqui.

Só precisa valer a pena, mediando os sentidos o tempo todo com a inteligência que tenho.

Sigamos com atitude e resiliência. 

William 

03/08/25

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Instantes (11h59)



Refeição Cultural

"Proclama Empédocles: 'Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais; não há fim pela morte funesta; há somente mistura e dissociação dos componentes da mistura. Nascimento é apenas um nome dado a esse fato pelos homens'." (Pré-Socráticos - Vida e Obra. Ed. Nova Cultural, 1999. Pág. 27)


Mistura e dissociação... é o que todos nós somos, mistura e dissociação, como disse Empédocles. 

No subitem sobre Empédocles, li também sobre amor e ódio. 

Amor e ódio... talvez os animais humanos se movam pela Terra, pela natureza, e como natureza, por causa desses dois sentimentos: amor e ódio. 

Este animal que registra palavras nas nuvens virtuais e passageiras da globosfera adquiriu com a experiência de sobreviver dezenas de outonos uma compreensão melhor sobre a vida, essa mistura e dissociação de elementos da natureza.

Compreender um pouco melhor porque as coisas são como são não é aceitar as coisas como são. Hobsbawm alertou sobre isso ao tentar compreender o nazismo (Era dos Extremos).

Um homem dar 61 socos no rosto de uma mulher; os sionistas matarem de fome milhares de palestinos; ainda encontrar uma pessoa bolsonarista... 

Minha caminhada pela Terra nesses outonos todos me faz compreender melhor hoje por que essas coisas acontecem... 

Esses eventos que citei não são naturais, apesar de serem naturalizados pelos meios do mundo incivilizado do animal humano. Não são naturais.

Se não são naturais, podem ou poderiam ser alterados pelos animais humanos. Educação e cultura adequadas podem mudar os animais humanos. 

Não vejo essa possibilidade acontecer neste momento da história humana. 

Mas que é possível mudar a realidade, isso é. 

Will i am

31/07/25

segunda-feira, 28 de julho de 2025

O sentido da vida (4)



Ser ainda o complemento de outros

Deitado no sofá, tentando cochilar alguns minutos, ficou sentindo o bater compassado de seu coração através de seu ouvido direito encostado na almofada. Tum... tum... tum... o motor da vida.

Se a vida cessasse naquele instante, uma possibilidade absolutamente real e natural, o mundo mudaria no instante seguinte para as pessoas de sua relação cotidiana. Essas mudanças ocorrem o tempo todo há milhões de anos na vida dos seres vivos.

Ao se perceber que aquela vida já não existia mais, a vida de duas, três, cinco pessoas, ao menos, teria necessariamente que ser reinventada. Algumas ausências afetam uma quantidade enorme de vidas. Outras, talvez não sejam sequer percebidas. Ou ainda, afetam de forma intensa algumas vidas.

Talvez o sentido da vida - para um ser vivo e os outros de sua relação - seja essa condição de complementaridade que sua existência gera, a interdependência com outros seres.

Ele tinha essa consciência e por isso queria viver. Só essa condição já justifica o esforço do viver. Amor, talvez...

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domingo, 20 de julho de 2025

O sentido da vida (2)



Talvez o porto

O cidadão passou a noite em claro, foi se deitar lá pelas 7 horas da manhã. Aquele tinha sido um daqueles dias de zelar pela pessoa querida, até que ela dormisse.

Às onze horas se levantou, se trocou, e saiu para andar pelo parque e espairecer as ideias turbulentas. O que fazer, o que não fazer, e entender mais uma vez que a vida é como ela é. 

Ainda no parque, falou com sua mãe, que também estava zelando por alguém. Cuidar talvez seja um sentido de nossa espécie animal. 

Mesmo com o pouco dormir e o pouco ânimo, o cidadão pegou sua garrafinha de água, buscou a disciplina forjada nas lutas, e se dirigiu à academia do seu condomínio. Só é possível zelar pelos outros se cuidar de si mesmo para estar vivo.

Vai saber se o sentido de tudo não seja ser o porto dos náufragos dos mares do mundo.

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quinta-feira, 3 de julho de 2025

Instantes (15h53)



Refeição Cultural


"E é difícil amar

Há tanto para odiar

Apoiando-se numa esperança

Quando não há esperança para se falar a respeito

E os céus feridos entre nós

Dizem: Já é muito, muito tarde

Bem, talvez todos nós devêssemos estar rezando por tempo..." 

(Praying for Time, George Michael, letras.mus.br)


Com tanto para odiar, é difícil amar... George Michael descreveu nesta música de 1990 o tempo presente!

Somos prisioneiros do ódio, como nos explicou Riobaldo Tatarana, personagem do livro "Grande Sertão: Veredas" (1956), de Guimarães Rosa. 

Como nos libertarmos do ódio e restabelecermos o amor? Se trata de salvar o mundo e todas as formas de vida.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac... o tempo corre contra nós que estamos perdendo tempo com coisas supérfluas. Depois não adiantará rezar por mais tempo.

William

03/07/25

domingo, 19 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (49) - Marília de Dirceu, Lira XIII, Parte 2, Tomás Antônio Gonzaga



MARÍLIA DE DIRCEU, LIRA XIII, PARTE 2 - TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA


     Vês, Marília, um cordeiro

     De flores enramado,

     Como alegre caminha

     A ser sacrificado?

O Povo para Templo já concorre;

A Pira sacrossanta já se acende;

O Ministro o fere: ele bala e morre.


     Vês agora o novilho, 

     A quem segura o laço?

     No chão as mãos especa,

     Nem quer mover um passo.

Não conhece que sai de um mau terreno,

Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, 

O conduz a viver num campo ameno.


     Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte.

Nós temos, minha bela, igual demência:

Não sabemos os fins com que nos move

A Sábia, oculta Mão da Providência. 


     De Jacó ao bom filho

     Os maus matar quiseram;

     De conselho mudaram:

     Como escravo o venderam.

José não corre a ser um servo aflito:

Vai subindo os degraus, por onde chega

A ser um quase Rei no grande Egito.


     Quem sabe se o Destino

     Hoje, ó bela, me prende. 

     Só porque nisto de outros

     Mais danos me defende?

Pode ainda raiar um claro dia;

Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro

E beijo a santa mão que assim me guia.


Publicado em Lisboa, Portugal, em 1792.

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COMENTÁRIO:

Segui na leitura do clássico Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. 

Após a leitura da parte 1, com 33 liras, agora estou na leitura da parte 2, com 38 liras. Parei na Lira XV.

Ao mesmo tempo em que não sou determinista, não acredito em mitos e explicações místicas da vida, reconheço o mérito da história humana em buscar sentidos à vida nessas construções mitológicas do mundo.

Essa lira é muito interessante! Eu diria até condizente aos dias atuais. 

O eu-lírico, entre lamentos e declarações de amor ao longo das liras, faz nessa uma interpretação favorável da Sorte (Fortuna, Destino, Deus etc), que poderia estar favorecendo ele enquanto está preso.

É uma senhora leitura de auto-ajuda!

    "Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte."

E os versos acima poderiam ilustrar perfeitamente a dominação e manipulação dos "deuses" das big techs e redes sociais, e também dos "pastores" (não os da arcádia, e sim os sofistas modernos) em relação ao destino de milhões de cordeiros e novilhos (gado) dos dias atuais...

É isso. Seguimos lendo poesia e diminuindo um grãozinho de ignorância por dia.

William 

Livro: Ismaelillo - José Martí



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


“Así mis pensamientos

Rebosan en mí vívidos,

Y en crespa espuma de oro

Besan tus pies sumisos,

O en fúlgidos penachos

De varios tintes ricos,

Se mecen y se inclinan

Cuando tú pasas—hijo!”

(Do poema "Penachos vívidos")


A leitura do primeiro livro de poesia de José Martí, dedicado a seu filho pequeno, apelidado de Ismaelillo, nos mostra um homem extremamente amoroso. Estamos falando de um combatente revolucionário, Apóstolo da Independência de Cuba. 

Eu ainda não conhecia uma obra literária e poética inteira dedicada a um filho pequeno. Achei os poemas belíssimos, amorosos, que expõem o humanista por trás do libertador de Cuba e dos povos escravizados. 

A primeira mensagem de crença no melhoramento das pessoas e num futuro melhor para a humanidade diz tudo sobre Martí:

“Hijo: 

Espantado de todo, me refugio en ti. 

Tengo fe en el mejoramiento humano, en la vida futura, en la utilidad de la virtud, y en ti. 

Si alguien te dice que estas páginas se parecen a otras páginas, diles que te amo demasiado para profanarte así. Tal como aquí te pinto, tal te han visto mis ojos. Con esos arreos de gala te me has aparecido. Cuando he cesado de verte en una forma, he cesado de pintarte. Esos riachuelos han pasado por mi corazón. 

¡Lleguen al tuyo! 

              [Nueva York, 1882]”


Fui encontrar essa crença na educação, na ciência e na solidariedade como bases para melhorar a sociedade humana em pessoas como Ernesto Che Guevara, Fidel Castro e Paulo Freire, por exemplo. 

Conheci algo mais.

(No momento em que escrevo, estou descrente de um mundo com humanos melhores, e pior ainda sobre a nossa Terra devastada)

Obrigado, José Martí!

William 


Bibliografia:

(de “Martí en su universo (Edición conmemorativa de la RAE y la ASALE): Una antología [Spanish Edition] por José Martí)


sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (47) - Mi caballero, José Martí



MI CABALLERO - JOSÉ MARTÍ


Por las mañanas

Mi pequeñuelo 

Me despertaba

Con un gran beso.

Puesto a horcajadas

Sobre mi pecho,

Bridas forjaba

Con mis cabellos.

Ebrio él de gozo,

De gozo yo ebrio,

Me espoleaba

Mi caballero: 

¡Qué suave espuela

Sus dos pies frescos!

¡Cómo reía 

Mi jinetuelo!

Y yo besaba

Sus pies pequeños,

Dos pies que caben

En solo un beso!


Do livro Ismaelillo, de 1882.

---

COMENTÁRIO:

Hoje li o livro de versos de José Martí dedicado ao seu filho, que tinha por apelido Ismaelillo.

Durante a semana, fiquei vendo algumas crianças brincando na colônia de férias dos professores e pensei um pouco nas crianças em seu universo.

Cada criança é única. E com um pouco de reflexão não é difícil perceber como são diferentes umas das outras. Cada criança é um universo de possibilidades. E todas elas devem ser respeitadas em suas características individuais. 

A questão central na formação das crianças são as oportunidades, os estímulos, o ambiente onde se desenvolvem e o amor que é dado a elas. Além, é claro, da educação!

O poema que escolhi é de um grande educador, José Martí. Aqui, ele verseja momentos de amor com seu pequeno filho. 

José Martí, por suas ideias e por suas práticas, se tornou o Apóstolo da Independência de Cuba, sua pátria querida. Ele nos legou uma vasta obra com pensamentos sobre diversas áreas do conhecimento humano. 


William 


Bibliografia:

(de “Martí en su universo - Edición conmemorativa de la RAE y la ASALE: Una antología [Spanish Edition]” por José Martí)


domingo, 12 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (42) - Ensinamento, Adélia Prado



ENSINAMENTO - ADÉLIA PRADO


Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,

ela falou comigo:

‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.

Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.

Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.

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COMENTÁRIO:

A poeta nos alerta meio século atrás, através de seu eu-lírico, uma sabedoria pouco comum naquela época e ainda hoje: que erudição, saber técnico e acúmulo de informação não é essencial para a construção de homens e mulheres sábios e cheios de sentimentos bons como, por exemplo, o amor. 

Aliás, tenho a impressão que o amor virou algo "démodé", fora de moda e até hostilizado. O amor virou algo como a alegria, sentimento que traz hostilidade de qualquer pessoa ao redor de alguém alegre ou feliz. 

Amor e alegria incomodam quase até o desejo de agredir e entristecer alguém feliz perto do ser feroz.

Quantos desejariam hoje tal ensinamento como este?

Amor: "Essa palavra de luxo."

William 


Bibliografia:

PRADO, Adélia. Bagagem [recurso eletrônico]. 1. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2021.


domingo, 29 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (29) - O Gosto do Nada, Baudelaire



O GOSTO DO NADA - BAUDELAIRE


Morno espírito, antigamente afeito à luta,

A Esperança, que te esporeava outrora o ardor

Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,

Cavalo que tropeça em tudo e em vão reluta.


Dorme, ó meu coração; desiste, ó massa bruta!


Espírito vencido, em ti, velho impostor,

Já não tem gosto o amor, nem o tem a disputa;

Não mais a voz do cobre ou da flauta se escuta!

Deixa esta alma sombria, ó Prazer tentador!


Perdeu a Primavera o seu cheiro de flor.


E o Tempo me devora em marcha resoluta,

Como a ampla neve um corpo rijo de torpor;

Contemplo do alto o globo túmido e incolor,

E nele nem procuro o abrigo de uma gruta!


Vais levar-me, avalancha, em tua queda abrupta?


Recriação de Guilherme de Almeida 

Fonte: Flores das "Flores do Mal" de Baudelaire (1943)

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COMENTÁRIO:

"A Esperança, que te esporeava outrora o ardor

Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,"


Nos tempos atuais, nem sei mais dizer se a esperança de amor ainda cavalga em mim... os tempos são de relações utilitárias, utilitaristas. Vai saber quantas pessoas amam só por amar mesmo.

"Dorme, ó meu coração; desiste, ó massa bruta!"

Eu amo só por amar. Tem gente que ama sim, só por amar. Amor qualquer - carnal, filial, contemplativo, de amizade - enfim, tem sim amor por amar. Ainda vejo isso. Não desistamos do amor!

"Perdeu a Primavera o seu cheiro de flor."

Quero crer que ainda temos a primavera e os cheiros diversos das flores, ainda. No entanto, a tendência não é boa, nem para os amores, nem para as flores. As primaveras resistem, os amores ainda existem, mas os riscos são claros.


Neste mês que vai se encerrando, fiz um esforço militante para manter a disciplina que defini a mim mesmo para ter contato diário com a poesia. Nada perdi, só ganhei com isso. 

Sigamos aprendendo coisas novas, pois somos a espécie animal que pode ser educada, como ensina o educador Paulo Freire: só se ensina gente. Sou gente e quero ser ensinado, quero aprender o novo sempre.

William


Bibliografia:

ALMEIDA, Guilherme de. Flores das "Flores do Mal" de Baudelaire. Introdução de Manuel Bandeira. Carvões de Quirino. Ilustrações de Rodin. Clássicos de Bolso, Ediouro/20349.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Natais - 1981


Meu minuto no paraíso: Parque do Sabiá.

Refeição Cultural

Uberlândia, 16 de dezembro de 2024. Segunda-feira.


Vim visitar meus pais e familiares alguns dias antes do Natal deste ano. Nossa porção paulista não virá a Minas Gerais como fizemos nos dois últimos anos.

Felizmente, pude rever a abraçar pais, irmã e cunhado, sobrinhos e família, tia e primo. Tenho muitos familiares na cidade, mas a correria dos afazeres que tento encaminhar quando venho aos meus pais dificulta fazer outras visitas a tios e primos. Mas sei que estão bem, é o que nos deixa feliz.

Vim pensando muito nas questões da temporalidade da vida e no instante presente, que é único. Estou ainda com a frase que ouvi de uma entrevista antiga de Fernanda Montenegro, ao responder sobre medo da morte e dizer que tem pena de morrer, porque viver é poder ver o céu azul, estar com pessoas que se ama, ter acesso a conhecimento e cultura etc.

É isso, querida Fernanda Montenegro, pode acreditar que ontem, ao passar por uma floreira cheia de borboletas coloridas em festa, sob um céu azul intenso, parei e fiquei lá vários minutos VIVENDO...

Viver é a oportunidade de ver um céu azul e 
flores e borboletas coloridas num instante único.

Outra coisa que me preocupa sobre a efemeridade da vida é a questão da memória, da essência do que nós seres humanos somos, nossas memórias e nossa identidade, guardadas em nossa mente, em nosso cérebro de bilhões de neurônios que nos fazem ser o que somos, a partir do aculturamento que cada um de nós teve ao longo da vida.

Tenho um desafio enorme como cada semelhante nosso: viver o presente e o amanhã, caso ele exista para mim.

Honestamente, avalio que as relações humanas estão ruins, em todos os âmbitos sociais, aqui e acolá, e não podemos desistir de mudar o comportamento humano individualista, intolerante e sem paciência alguma para a alteridade e a diversidade de pensamentos e características pessoais. A mesmice em qualquer espécie é a morte dela.

Tenho tanta coisa nas ideias para falar sobre isso que vou fazer o contrário, não vou rabiscá-las aqui.

Conversando com minha mãe ontem, só poderia dizer que ambos lamentam nossas experiências e pequenas sabedorias não servirem para nada para as pessoas que amamos. A gente vai se cansando de tentar passar alguma coisa de boa que aprendemos por sobreviver neste mundo duro que sobrevivemos. Ninguém quer saber de nossa opinião, nem no ambiente familiar, nem nos grupos onde um dia convivemos socialmente.

Eu tenho consciência sobre as coisas do mundo. Burro não diria que sou. Sei do meu lugar no mundo. E sei que no momento atual desse mundo nenhum de meus conhecimentos e acúmulos tanto pessoais como coletivos serve para nada, sequer para as pessoas mais próximas a mim. Isso é um fato e a vida de todo mundo segue neste minuto e no seguinte, até não seguir mais.

Enfim, tenho a impressão nesta véspera de mais um Natal que há um espírito de pouca solidariedade entre as pessoas, tenho a leitura que algumas daquelas recomendações do cristianismo estão fora de moda: o perdão de forma gratuita, acolher a quem pensa diferente, não querer ao outro o que não se quer para si mesmo e vários ensinamentos que o homem Jesus Cristo pregou em sua passagem por este mundo.

Eu sou ateu há mais de duas décadas, mas por três décadas fui criado e aculturado na ambiência do cristianismo da igreja católica. Às vezes, acho que sou hoje mais dogmático e seguidor das palavras de Jesus do que muita gente que se diz religiosa e só usa o nome de Deus e do Cristo para arrotar ódio, violência, vingança, individualismo, intolerância e manifestações demoníacas do tipo, caso houvesse demônios por aí.

Enfim, estou procurando equilíbrio, algum sentido para a vida minha e de todos nós, e acredito na inteligência humana e na educação e formação política. Não sou determinista. Nós podemos criar e mudar tudo porque é da nossa natureza humana fazer isso.

Sigamos tentando viver, contribuir para o mundo e as pessoas no mundo e lutando por salvar o próprio mundo, a natureza onde todos nós vivemos.

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NATAL DE 1981

Nosso Natal deve ter sido em Uberlândia (MG), para onde nos mudamos desde o início do ano anterior. 

A gente morava numa casa de fundo na Av. Comendador Alexandrino Garcia, no Marta Helena. Na casa da frente, a proprietária era a Dona Nenzinha, benzedeira da região. 

Me lembro que ela me dava uns trocados para copiar rezas em folhas de papel para ela dar aos fiéis. Ela me benzia de "espinhela caída". 

Fiz da 5ª a 8ª série na E. E. Hortêncio Diniz. 

Foi um tempo de mudanças para mim. Me lembro da casa pequena e do quintal com pés de frutas. 

É incrível como meu mundo de criança mudou! Tirando bolinhas de gude, que segui jogando e ganhando latas de bolinhas - que em MG se chamavam bilocas -, eu não empinei mais pipas porque ninguém brincava disso e de outras coisas que fazíamos em São Paulo. 

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Mundo

Tenho uma leve lembrança dos atentados que Ronald Reagan (EUA) e o Papa João Paulo II sofreram em 1981. Eles foram baleados. 

Ainda na política, sei que os desgraçados dos milicos iriam promover um atentado num festival de MPB para culpar a resistência civil e democrática na véspera do dia dos trabalhadores, mas se ferraram, a bomba explodiu no colo de um dos fdp. 

O evento é conhecido como Atentado do Riocentro.

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Os milicos em 2022 - A história no Brasil é um treco bem jabuticaba, só aqui mesmo. Décadas depois de impunidade e anistias a fdp golpistas, não é que meses atrás, uns milicos de merda, junto com um "presidente" de merda (ele é cagão mesmo), organizaram um novo golpe de Estado até com listinha de assassinatos de autoridades da República! Iam explodir o Aeroporto de Brasília, matar Lula, Alckmin e um ministro do STF etc. Esse mundo é um lugar velho... as coisas são antigas e vêm de longe.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural 

Quinta-feira, 12 de dezembro de 2024.


(18h30 a 19h00) 

Estou na estrada a caminho de Uberlândia. Estou sozinho. Não estamos indo para passar o Natal com a família. Estou indo visitar os pais uma semana antes.

Eu previa que isso pudesse acontecer. As relações atuais não estão muito propícias a confraternizações de amor e amizade. Falo isso como impressão geral. É minha leitura dos tempos.

Estava olhando pela janela do ônibus e pensando em uma frase da Fernanda Montenegro sobre a vida, frase que ouvi numa entrevista antiga dela ao jornalista e escritor Eric Nepomuceno.

Ao responder à pergunta se ela tinha medo de morrer, Fernanda disse que tinha pena, pena de morrer. Por não se saber a resposta para algo além dessa vida, seria uma pena não ver mais o céu azul, ter acesso às maravilhas da cultura, estar com pessoas que se gosta etc. Fiquei muito pensativo após essa fala de nossa querida atriz. 

Aí, olhando a paisagem pela janela do ônibus, refleti sobre a vida, imagens de décadas passaram por minha visão da memória, e concluí que a minha vida foi muito satisfatória. Muito. Efetivamente, fui uma pessoa de sorte, como tenho escrito em minhas reflexões. 

O rapaz que saiu de Uberlândia em 1987 sobreviveu em São Paulo, viveu a vida do jeito que tinha que viver pelas veredas que entrou. Foi uma jornada dura, foi. Teve contradições características do que somos, seres humanos, sobreviventes de um dos países mais violentos e miseráveis do mundo, por causa de sua história de séculos de exploração por parte de uma minoria dominante desgraçada. 

Eu vivi odiando a gente da casa-grande, que nem de burguesia poderia ser chamada, porque não produz um parafuso, não defende a indústria e a produção com valor agregado, é a mesma gente escravocrata de sempre, quer ser nobre sendo uma merda de gente, isso são os ricos do Brasil. Gente escrota.

Voltando a Uberlândia 37 anos depois que fui embora, e ainda podendo encontrar meus pais, minha irmã, meus sobrinhos e mais familiares que vivem nessa bela cidade onde cresci, é um privilégio, sou mesmo uma pessoa de sorte. Como diria Fernanda Montenegro, seria uma pena não poder viver esses instantes da vida.

E sei dos problemas que existem nas casas de todos, todos nós.

É isso. A vida é uma oportunidade diária. Nunca sabemos do instante seguinte de nenhum de nós. Nem o meu, nem o de vocês, nem o do mais poderoso e fdp da Faria Lima e de alguma casa-grande.

A vida de todos nós é um instante. 

Então, viva este momento.

William Mendes 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (6) - Ai Jesus!, Álvares de Azevedo



AI JESUS! - ÁLVARES DE AZEVEDO 


Ai, Jesus! não vês que gemo,

Que desmaio de paixão 

Pelos teus olhos azuis?

Que empalideço, que tremo,

Que me expira o coração?

               Ai Jesus!


Que por um olhar, donzela,

Eu poderia morrer

Dos teus olhos pela luz?

Que morte! que morte bela!

Antes seria viver!

               Ai Jesus!


Que por um beijo perdido 

Eu de gozo morreria 

Em teus níveos seios nus?

Que no oceano dum gemido

Minh'alma se afogaria?

               Ai Jesus!

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COMENTÁRIO:

Amores reais ou platônicos, em sociedades do passado ou do presente, entre iguais ou divergentes, amores, humanos sentimentos, abstrações criadas pela mente humana. 

Ao ler sobre o poeta brasileiro Manuel Antônio Álvares de Azevedo, fiquei pensando na vida do autor. O paulistano morreu aos 21 anos de idade! Mal teve vida adulta.

Ele viveu suas duas décadas de vida naquele Brasil dos anos 1831 e 1853, entre São Paulo e Rio de Janeiro. São Paulo, a cidade no morro, lá em cima no planalto, que tinha cerca de 15 mil habitantes, ladeiras de barro pra lá e pra cá. 

Pelo que li na seção de informações da edição que tenho - "É Help" - quase toda a criação poética e literária de Álvares de Azevedo foi reunida e publicada após sua morte.

Os críticos classificam sua criação poética no período do Romantismo brasileiro. 

A leitura de poemas como os da poética de Azevedo é uma leitura gostosa por causa das rimas, da sonoridade. 

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É isso! Seguimos lendo poemas neste mês de dezembro. Não tenho muita coisa nova em casa, vou continuar a leitura dos livros dos autores que tenho e que iniciei neste mês.

O tempo é curto também. O importante é um pouco de contato diário com poesia. Só para atiçar a mente e o coração.

William Mendes


Bibliografia:

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Coleção Vestibular, O Estado de São Paulo. Klick Editora: São Paulo, 1999.