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domingo, 15 de março de 2026

Livro: Infância - Graciliano Ramos



Refeição Cultural 

LITERATURA BRASILEIRA 


"Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero." (G. RAMOS, "Um cinturão", p. 32)


Graciliano Ramos tinha 53 anos de idade quando publicou o livro Infância, em 1945. É um livro duro, sem meias palavras. A infância do personagem foi muito dura, de violência gratuita no cotidiano. A criança do romance é ele mesmo, o garoto que nasceu em 1892 no agreste de Alagoas.

São 39 capítulos de memórias do personagem adulto que conta sua infância no interior do Nordeste nos últimos anos do século XIX e início do século XX. 

O adulto narrador do romance é um escritor maduro e com uma obra de referência na literatura brasileira: Graciliano Ramos. Porém, as memórias do escritor, na forma de romance, são as memórias de todos nós, são universais.

A crítica literária tem longa história de estudos sobre discursos narrativos que mesclam realidade e ficção em obras literárias. Toda memória tem um quê de ficção porque preenchemos lacunas e damos sentidos a ela.

A técnica literária e a capacidade ímpar de Graciliano Ramos em mergulhar leitores em suas memórias da infância nos faz ver em cada capítulo - que para mim são contos - as nossas histórias pessoais e cotidianas da infância e adolescência.

Fui escrevendo minhas impressões enquanto ainda lia o romance, antes de finalizar os 39 capítulos. Não queria que a leitura acabasse... As histórias do livro são como as passagens da bíblia para as pessoas religiosas. O ideal seria ter a obra à cabeceira da cama. Cada parágrafo é uma lição, uma reflexão, um prazer ao ler texto bem escrito.

Certa vez, enquanto era aluno de Letras, fiz um poema abordando três autores que me influenciavam naquele momento (com uns trinta anos de idade): Caeiro, Drummond e Graciliano Ramos (ler aqui). Dizia que, ao final de meu desenvolvimento com a escrita, queria chegar à técnica literária de Ramos. O que desejava ser como escritor é o que leio em Infância. Demais!

As histórias da leitura e dos leitores, como nos contou magnificamente Alberto Manguel (um exemplo aqui) são únicas ao longo dos tempos. O personagem de Infância nos conta que até os nove anos de idade, seguia sem conseguir ler e entender o sentido dos textos. Sendo a história do escritor, vemos que aquela criança se tornou um dos melhores escritores do país.

Após ler mais algumas histórias - a do capítulo "Fernando" é fascinante -, avancei para as últimas cinco do livro. Repito: o romance-bíblia deveria ficar na cabeceira da cama para sempre. Queria escrever assim!

(E pensar que quis ser literato e professor, até entrei em uma faculdade de Letras e as veredas da vida me levaram a ser sindicalista...)

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"Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa - e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo." ("A criança infeliz", p. 237)

Esse era o método de ensino no país no início do século XX...

Amigos leitores, cada conto (capítulo) é uma história comum a inumeráveis crianças do Brasil e do mundo, do passado e do presente...

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura do livro Infância (1945) foi marcante para mim, foi uma leitura de reencontro com Graciliano Ramos. Uma leitura de descoberta e de compreensão a respeito do escritor que sempre admirei e do qual eu não conhecia seu passado, seu ambiente de aculturamento e formação.

O posfácio "Graciliano Ramos e o Sentido do Humano", de Octavio de Faria, que faz parte da minha edição do livro, ampliou ainda mais a minha compreensão a respeito da poética do escritor.

Um dos livros impactantes em minha vida, que me levou inclusive a escrever uma crônica relativa à minha infância e adolescência, é justamente Angústia (1936), considerado por Octavio de Faria, a obra principal de Graciliano Ramos. 

Ao ler o livro no início dos anos dois mil e após entrar na faculdade de Letras, me lembrei de meus dias de ajudante de encanador ao ler as reflexões do personagem Luís da Silva (ler aqui).

Eu já havia tido o privilégio de ler Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938), além de Angustia. Cheguei a escrever em um poema que meu sonho era alcançar o estilo Graciliano Ramos de escrever após uma suposta evolução na produção literária. Utopia! G. Ramos é único!

Ao ler Infância, neste momento de meu viver, compreendi a obra toda de Graciliano Ramos. Agora vejo claramente Fabiano e toda a dureza do enredo de Vidas Secas. Como não entender Paulo Honório, de São Bernardo?

Ao terminar a leitura demorada de Infância, porque lia um capítulo ou conto e parava, concluí que a minha natureza psicológica é mais Graciliano Ramos que qualquer outro autor pelo qual nutro admiração. 

Machado de Assis, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade são deuses para mim, assim como Graciliano Ramos. Mas quando olho para a minha vida, o meu percurso da infância até aqui, sou Graciliano. E minha infância até os dez anos foi o inverso da dele, mas a adolescência minha... foi a infância dele: miséria e violências sociais.

Não tenho outra opção em minha vida torta de leitor repleto de lacunas culturais a não ser ler Memórias do Cárcere (1953), do autor espelho de minha psicologia, daquilo que se costuma chamar alma. 

Espero que dê certo completar o percurso dos romances do mestre Graciliano Ramos. Ele teria muito que escrever para nós, quando faleceu no auge de sua produção, como aconteceu a Guimarães Rosa.

Viva a literatura!

William

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Instantes (14h47) - Salvar o mundo: um compromisso ético



Refeição Cultural

Que poderia registrar neste instante? O que ocupa meus pensamentos?

O amor, esse nobre sentimento, poderia ser a pauta a definir a agenda da sociedade humana. Mas ele não é o que importa no mundo dos homens. 

O projeto humano em andamento é outro - o necrocapitalismo -, e as ferramentas para se levar adiante o projeto são antagônicas ao amor.

Ódio e medo são os sentimentos a serem trabalhados pelos donos do poder para implantar o preconceito entre os iguais nas classes subalternas. 

E o pior é que dá certo manipular as massas humanas desprovidas de todos os meios essenciais à vida e ao pleno desenvolvimento do ser humano. 

O que fazer ao perceber esse cenário ao seu redor? Se contrapor a esse projeto de sociedade humana é o básico. Mas não basta. 

Que mais se poderia fazer para impedir esse projeto de dominação das massas humanas através do ódio e do medo, alcançando o predomínio do preconceito entre as vítimas miseráveis desse sistema?

Só escrever não basta. Só estudar e refletir não basta. Só pregar o pacifismo não basta. Isso é óbvio! 

Enquanto um sujeito pacifista faz isso, o dono do poder explode ele... boom!

Entendem? Só pacifismo não basta contra os donos do poder. Não pararam Hitler com passeatas pacifistas.

Estamos ferrados! Um século depois, os pacifistas copiam os "pacifistas" hipócritas (covardes?) do período entre os anos vinte e quarenta da "Era dos extremos".

A gente vê isso e sente uma impotência imensa sendo um cidadão politizado. 

Sigamos sem esmorecer ou desistir. Salvar a humanidade e a vida no planeta Terra deve ser um compromisso ético de cada um de nós. 

William 

23/01/26

domingo, 15 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (15) - Instinto de preservação da alma alheia, Marili Santos



INSTINTO DE PRESERVAÇÃO DA ALMA ALHEIA

Espero que goste e sirva.

Nossa, que linda você está hoje.

Não, eu juro, eu adorei, inclusive a cor.

Diz que saí e volto logo.

Não, obrigada, mas estava uma delícia.

Gozei.

A papelada está pronta, entretanto...

Desculpe, não pude ligar estava viajando.

Emagreceu, heim!

Sim, já enviei, não recebeu?

Enquanto juntos, sempre te amei.

Você não aparenta a idade que tem.

Li e achei incrível, principalmente aquela parte, qual é mesmo...


Do blog Valsa Literária, janeiro de 2011.

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COMENTÁRIO:

Adorei este poema de Marili Santos. A poeta e cronista é professora da rede pública em São Paulo e nos conhecemos faz pouco tempo. Marili faz parte de uma família de professoras e professores. Minha companheira é professora e nossas famílias se conheceram na Colônia de Férias do Sinpro SP.

A poeta tem uma produção incrível disponível para nós amantes dos bons textos literários, sejam eles crônicas, cartas, poemas, haicais, elegias, contos, apólogos, declamações e tantas outras formas discursivas da criação humana.

A página Valsa Literária contém centenas de textos incríveis e apesar de conhecer textos mais recentes da autora, quero mergulhar em sua produção literária de forma cronológica, desde o início das publicações.

As variações temáticas e formas de textos demonstram a versatilidade da autora, que consegue universalizar muitos temas desenvolvidos partindo de um caso específico e pontual. 

Vejam que extraordinária esta frase, esta surpresa:

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"Que coisa!

Recolhi no jardim de minha casa alguns fragmentos do medo que havia enterrado por lá, outrora, e que hoje brotaram verdes e prontos para crescerem novamente." (fev/2011)

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Estou no começo da obra de Marili Santos, e sei que vou encontrar muitos textos legais. Outro exemplo, ainda nas primeiras publicações do blog é o miniconto "Olhar xadrez", muito bom! Final surpreendente!

Assim como a crônica ou miniconto "Ainda sem nome" (fev/2011), com outro final que sensibiliza qualquer um de nós que já passou por situação parecida.

É isso. Sigamos lendo poesias em dezembro.

William Mendes


Fonte: valsaliteraria.blogspot.com


domingo, 12 de novembro de 2023

Leitura: Os mortos vivos, de Peter Straub



Refeição Cultural

Osasco, 12 de novembro de 2023. Domingo. Um calor de 37º!


Terminei a releitura do clássico Os mortos vivos (1979), de Peter Straub. Esse livro marcou os anos oitenta. Pelo que pude apurar, até o mestre dos livros de suspense e terror, Stephen King, gostou da estória e faz comentários laudatórios a respeito desse livro de Straub.

O nome brasileiro da obra difere um pouco da lógica do título em inglês - Ghost Story - e eu diria que a tradução brasileira para a versão cinematográfica da obra seria melhor para o livro: Histórias de fantasmas (1981), dirigido por John Irvin. Eu não conheço o filme. A estória faz referências tanto a fantasmas e espíritos (Manitu) quanto a mortos vivos.

Nos anos oitenta, li dezenas de livros que saíam pelo Círculo do livro. Algumas leituras da adolescência me impactaram à época. Dos livros de suspense e terror, os de Stephen King eram os preferidos. Li Carrie, A incendiária, O cemitério, Zona morta, Christine, e tenho dele e não li ainda O iluminado

Outros de terror impactantes à época, foram A entidade, de Frank de Felitta, O exorcista, de William Peter Blatty, e os dois de Jay Anson, Horror em Amityville e 666 O limiar do inferno. Estes últimos, reli e comentei aqui no blog (ler aqui). 

Os mortos vivos, de Peter Straub, foi um dos livros que mais marcaram minha leitura de terror. Eu tinha menos de 17 anos quando o li, acreditava em coisas sobrenaturais e fiquei bem assustando durante a leitura da estória. 

Digo que o de Straub é um dos livros marcantes do gênero porque O cemitério também me marcou bastante! Até hoje defino um cansaço indescritível como o do personagem Louis Creed ao voltar do enterro do gato e cair prostrado na cama.

Na minha atual fase de leitor, às vezes pego para reler um livro lido décadas atrás para tentar avaliar como a leitura à época poderia ter impactado aquele leitor jovem com a visão de mundo que eu tinha como jovem no ambiente ao qual eu pertencia. Não é algo simples, mas acho interessante a tentativa de perceber o caminho que trilhei até aqui.

A leitura atual de Os mortos vivos foi absolutamente distinta da lembrança que tinha da leitura da adolescência. Imagino que o tenha lido em pouco tempo naquela época, porque eu lia rapidamente livros grandes. Me recordo que lia até centenas de páginas no mesmo dia. Desta vez, a leitura se arrastou por quatro meses. Lia nas madrugadas. E minha impressão da estória foi outra. Entendo que o livro é para ser lido de uma vez... como não fiz isso, o efeito foi outro.

Avalio que a estória poderia ser escrita em umas duzentas páginas, e olha lá!, e não seria necessário arrastar a estória por mais de quinhentas páginas. Nessa questão de tamanho, Jay Anson acertou nos dois romances demoníacos que fez. Peter Straud e meu saudosismo que me perdoem, mas Horror em Amityville foi mais prazeroso de ler, a parada foi resolvida em 190 páginas. Li em dois dias.

Ainda que eu tivesse lido o romance rapidamente, o efeito gostoso de sentir medo ao ler um livro de terror não seria o mesmo de antes neste leitor que vos fala, porque hoje sou descrente de qualquer coisa mística. Já foi assim na releitura dos livros de Jay Anson. À época, eu acreditava em tudo, em qualquer teoria explicativa de mundo que a mente humana criasse.

Gostaria de assistir ao filme de 1981, que contou com a participação de Fred Astaire no papel de Ricky Hawthorne. 

Já escrevi várias vezes sobre meu respeito pela visão de mundo que cada ser humano tem. A concepção mística da vida fez parte da minha percepção de mundo por décadas. Após o meu percurso pela vida, não conseguiria abraçar nenhuma explicação mágica sobre a existência humana e sobre o Universo. No entanto, sei que cada pessoa tem a sua experiência de vida e devemos respeitar isso.

Me lembro perfeitamente da sensação e efeito das culturas místicas na pessoa que era até perto dos trinta anos. Quando assisti no cinema ao filme Ghost - Do outro lado da vida (1990), foi muito impactante aquele momento no qual o público percebe junto com o protagonista o que aconteceu após o assalto.

Enfim, mais um livro lido ou relido. Este foi o 30º livro do ano, sexto ou sétimo de romance ficcional. Deu trabalho a leitura! Achei que não acabaria nunca!

William


Post Scriptum: Fiz postagem sobre a leitura em andamento. Caso tenham interesse em ler, é só clicar aqui.


sábado, 19 de agosto de 2023

54. Os mortos vivos - Peter Straub (1979)



Refeição Cultural - Cem clássicos 


(leitura em andamento)

Uma das lembranças que tenho da leitura deste livro de suspense e terror é que eu sentia medo ao lê-lo. Me lembro do medo. 

Este leitor que vos fala tinha na época da leitura menos de 17 anos e era uma pessoa de seu tempo e ambiente social (anos 80), tinha crença religiosa.

Ainda morava em Uberlândia e a edição que li foi a de meu primo Jorge Luiz, que me emprestava livros de ficção e romances. Era uma edição com capa dura do Círculo do Livro, se não me falha a memória.

Décadas depois, quis ter o livro em casa. Comprei pela internet a edição malconservada que tenho. Quase joguei ela fora quando a recebi. Acabei colocando ela num canto.

Semanas atrás, acabei pegando o velho livro e comecei a ler lentamente a estória, antes de dormir, na maioria das vezes. Já li 200 páginas e agora não paro mais, vou até o fim da ficção de Peter Straub.

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OS MORTOS VIVOS

A impressão que tive até agora, ao ler 2/5 da obra, é que o enredo se desenvolve muito lentamente, ao estilo dos antigos romances. Foram duzentas páginas lidas e me parece que os acontecimentos principais talvez só irão acontecer lá no final, daqui mais duzentas e tantas páginas.

Na cena inicial do prólogo - "Seguindo para o sul" -, um personagem está com uma criança no carro. Tudo indica que ele sequestrou a criança, uma garota. O leitor já viu a criança ser amarrada por Donald Wanderley. Ele até chegou próximo a ela com uma faca, enquanto ela dormia. É assim que temos o contato inicial com a estória. A cena final do prólogo é um diálogo estranho entre a garota e o sequestrador. O leitor vai agora voltar ao começo da estória... o começo foi in media res, como se diz na literatura, no meio da ação.

O prólogo se estendeu por trinta páginas. Agora o leitor chega à Parte Um - "Depois da festa de Jaffrey". Os eventos se passam numa cidade ficcional chamada Milburn. Conhecemos a Sociedade Chowder, cujos componentes são 4 homens idosos - Frederick Hawtorne (Ricky), Sears James, John Jaffrey e Lewis Benedikt - um quinto membro morreu um ano antes de forma estranha - Edward Wanderley -, durante uma festa na casa de Jaffrey.

A Parte Dois se chama "A vingança do Dr. Rabbitfoot". Um dos 4 amigos - o Dr. John Jaffrey - acaba por morrer de forma estranha também. Chega à cidade Donald Wanderley, sobrinho do 5º membro da Sociedade Chowder - Edward Wanderley -, falecido um ano antes numa festa na casa de Jaffrey. Donald chegou à cidade à convite do grupo.

É neste momento da estória em que estou. Minha curiosidade ao reler este livro é tentar voltar no tempo e imaginar como eu era, aquele leitor adolescente que leu o livro em meados dos anos oitenta.

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Me lembrei dos dois livros de terror que reli recentemente do norte-americano Jay Anson: Horror em Amityville, de 1977, baseado num caso real de evento sobrenatural (ler comentário aqui) e 666 O limiar do inferno, de 1981 (comentário aqui). Este último teve um enredo parecido com o do livro de Peter Straub, dezenas de páginas preparativas para um desfecho final.

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Por enquanto é isso. Volto à postagem para comentar o restante da leitura de Os mortos vivos, de Peter Straub.

(leitura em andamento)

Terminei a leitura do livro em novembro de 2023. Ler comentário final aqui.

William


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Romaria a Água Suja (2023)



Refeição Cultural 

Uberlândia, Minas Gerais, Brasil. 


"Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás,
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
" (Antonio Machado)


Quando peguei a estrada na sexta-feira 11, por volta de duas horas da tarde, imaginei que passaria horas pensando na vida e no mundo.

Quando digo que cada romaria é uma experiência única, não é apenas por dizer uma frase de efeito. Cada experiência é única mesmo. 

Achava que faria longas reflexões sobre a vida e o mundo no qual existimos como parte integrante da natureza porque nas caminhadas preparatórias que fiz foi assim que ocorreu: pensei muito sobre muita coisa.

Na estrada (BR 365), naquele momento do início da caminhada, com aquele calor de fim dos tempos (e de agosto), senti que minha concentração em mim mesmo teria que ser total. Dominar meu corpo era a única meta até o fim. As elucubrações sobre a vida ficariam para depois.


E assim ocorreu. Ao longo de 70 Km foquei em cada passo dado, cada mensagem interna de meu corpo, cada mudança de piso, relevo ou luminosidade do ambiente, e fui indo, indo, indo. Por um instante, vi o efeito da displicência, e ela quase me tirou do caminho... (metáforas da vida) 

Sendo conhecedor antigo do trajeto entre Uberlândia e Água Suja, e sabendo os pontos de referência para possíveis paradas para descanso, fiz cada trecho ser uma etapa vencida da caminhada. Novamente, podemos pensar numa metáfora da vida com isso, etapas a superar, isso é o viver.


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NINGUÉM ANDA O MESMO PERCURSO DUAS VEZES...

Ninguém entra duas vezes no mesmo rio (como nos ensinou Heráclito), ou ninguém anda o mesmo percurso duas vezes... O rio muda, a estrada muda e nós mudamos.

Já faço essa caminhada entre Uberlândia e Água Suja desde os anos oitenta, desde adolescente. Os motivos e as condições nas quais fiz a romaria já foram os mais diversos. Já fiz a romaria sendo muito religioso e a caminhada é um tipo de experiência.


Hoje faço a romaria com outros propósitos como, por exemplo, viver um momento de introspecção intensa. E a experiência também é algo para muito além da razão, pois não se anda 70 Km em um dia só de forma racional, não se anda. O componente emocional e psicológico é fundamental para uma pessoa andar dezenas de quilômetros.

O rio Araguari continua lindo, mas os relevos mudaram ao longo do caminho. Continua-se vendo grandes fazendas, mundo agro pop, muita terra de poucos donos (Brasil injusto e desigual). Quilômetros de desertos verdes, eucaliptais que não acabam nunca. Poucos bichos, pouca diversidade.

Só as sombras são parecidas...

Os caminhantes nunca são os mesmos. A caminhada nunca é igual, nem pra quem está acostumado. O rio e os caminhos nunca são os mesmos, os caminhantes também.

Este caminhante que reflete sobre a experiência é outro, tudo foi diferente das vezes anteriores. A começar que nunca tive tanto receio de não completar o percurso, receio de passar mal, medo de descobrir que não poderia mais fazer o que estava acostumado a fazer. A natureza está em mudança acelerada. Sou natureza.

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OS PREPARATIVOS PARA O CAMINHO

Cheguei a Uberlândia determinado a fazer a romaria até a cidade de Água Suja. Nas semanas anteriores, administrei meus receios e medos de não ter condições de percorrer todo o caminho. 

Na preparação física e psicológica, fiz umas caminhadas progressivas: andei 10 Km, depois andei 20 Km, depois 30 Km e, por fim, na semana anterior, andei 48 Km, o que seria equivalente a chegar até a Antena no caminho de Água Suja. Na última caminhada, decidi qual tênis seria usado.

Trabalhei mentalmente a hipótese de só conseguir chegar até a Antena e ter que voltar de lá. Uma de minhas preocupações era ter queda de pressão e algum apagão por desidratação ou cansaço extremo. Ou até o quadril com desgaste me impedir de seguir adiante.

Um homem na estrada...

Uma peregrinação como essa é uma boa metáfora da vida: é preciso inteligência para ler a realidade e lidar com ela. 

Antes de chegar a Uberlândia, havia planejado sair bem cedo, umas 9h30 da manhã, para andar o dia todo de sol escaldante estando descansado. Já que a caminhada leva cerca de 24 horas, no meu caso atual, achava melhor lidar com o calor intenso ainda descansado. É inevitável ter que andar um dia inteiro de sol e uma noite inteira.

No entanto, a realidade material e objetiva se impõe em nossas vidas. Treinei em SP andar sob um calor de 30º... só que bastou andar menos de 2 Km ao meio-dia de Uberlândia no dia anterior à romaria para perceber que seria loucura me expor ao sol ininterrupto do início da manhã ao fim do dia. O calor de 30º de lá é muito maior que o de onde moro. Imaginem na estrada... O corpo me avisou sobre isso.

Após definir o novo horário de saída - a vida é assim, traçamos objetivos, fazemos planejamentos, definimos estratégias e táticas - tinha outra questão a resolver: se iria sozinho ou se teria a assistência de alguém para me acompanhar de carro ao longo do trajeto e para voltar mais rápido quando chegasse a Água Suja.

Paisagens do caminho... ipês.

Até 2016, nunca tive assistência nas romarias. Saía sozinho e após percorrer o percurso e chegar à cidade, ainda tinha algumas horas pela frente para conseguir voltar a Uberlândia: esperar horas por um ônibus na rodoviária, achar uma van que estivesse oferecendo serviço etc. Numa romaria dessa a gente fica acordado 30 horas. Ir com alguém dando assistência na estrada é um privilégio, pois além de diminuir o peso da mochila, chega-se a cidade e volta para casa mais rápido.

Por saber das dificuldades pessoais de meu cunhado e irmã, que estão lidando com suas cronicidades, estava sem jeito para perguntar se meu cunhado poderia me dar uma assistência. Nas últimas romarias, ele nos fez essa gentileza, digo no plural porque ele já deu assistência até para meu filho e o amigo dele. Imagino que deva ser muito cansativo ficar num carro por 24 horas andando e parando, é cansaço pra todo mundo, pra quem anda, pra quem dá assistência. Mais uma vez, meu cunhado e minha irmã se colocaram à disposição e eu sou muito grato por isso. O receio de fazer o caminho diminuiu muito ao saber que seria acompanhado.

Agora era fazer o caminho e atingir meu objetivo. Na noite anterior à romaria, fiz um texto reflexivo sobre a experiência do caminho, anseios e expectativas (ler aqui).

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O CAMINHO

Neste ano, estava com um marcador de distâncias no pulso. Nunca tive muito entusiasmo por essas modas tecnológicas. Pra se ter uma ideia de como evito muitos aparatos tecnológicos, ainda levo nas romarias meu Aikman de 1987 e algumas fitas cassete. 

No entanto, ganhei da esposa um Huawei Band 8 e o trequinho é bem interessante. Na romaria deste ano, o aparelho contribuiu muito para minhas etapas a superar e no efeito psicológico. 

Nas etapas mais difíceis, cada vibração em meu pulso era um Km superado... gostei do aparelho.

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14,01 Km

Saí do Trevo para Araxá e andei até a ponte do Rio Araguari. Meus pais me levaram até o trevo. Que calor absurdo! A concentração na pisada foi total. Tinha que estabilizar meus pés dentro do tênis e evitar qualquer pisada forte com o pé cozido. Sabia que se não machucasse os pés nas primeiras horas, a tendência era ter pés sãos para a noite toda.



Na mochila levei muita água para não desidratar. Marquei de encontrar meu cunhado lá no Rio Araguari. Deu certo. Andei 3h15 e parei uns 30 minutos. Comi um pão com carne. Coloquei um esparadrapo no dedinho do pé, pois a costura da meia estava incomodando. Saí para a próxima etapa. Iria escurecer logo e queria andar bem na subida do rio.

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9,86 Km

Saindo do Rio Araguari, o romeiro enfrenta um longo percurso em subida na BR 365. Uns quilômetros adiante tem o Trevo de Miranda e 7,8 Km depois um antigo posto de gasolina desativado, que se chamava Posto Triângulo. Ali os romeiros param um pouco, encontram as assistências etc.


Fiz esse percurso em 2h36. O tempo que era marcado no relógio do pulso ao longo da caminhada acabou não sendo o tempo só andando porque com o cansaço a gente esquece de dar pausa quando para para urinar, para pegar uma sopa, um pão etc. Neste dia, tinha muita gente no acostamento dando água e outras coisas aos romeiros.

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8,81 Km

Saí do antigo Posto Triângulo por volta de 22h para andar até o Posto N. Sra. da Guia, este em funcionamento. Até lá eu já teria andado cerca de 36 Km pelas distâncias marcadas num antigo panfleto que carrego comigo.

Pelo relógio da Huawei, quase todas as distâncias tiveram alguma diferença em relação ao panfleto antigo. Andei por 2h10 até o ponto de referência que mentalizei. Meus quilômetros em pisada de romeiro foram entre 13' e 15' conforme o trecho.

A noite de 11 para 12 de agosto foi de breu total. A lua cheia havia sido na semana anterior. Sem um farol de carro indo ou vindo e sem uma luz de lanterna o peregrino não consegue visualizar onde pisa. É tenso! Imaginem só, basta somar o fator pisar no breu com o fator cansaço e talvez com o fator sono... resultado: risco.

DISPLICÊNCIA - O caminho da gente pode ser interrompido por um vacilo, um instante que defina uma vida. Na estrada quase não havia sinal da operadora do meu celular. Foi a 1ª vez que levei celular na romaria por causa dos receios que falei de minha condição atual. Então, andando naquele breu total, num trecho alto da estrada, o celular vibra várias vezes. Por impulso, tiro o celular do bolso e tento ver o que era. Fiz isso andando... em poucos passos, saí do acostamento e meu pé esquerdo caiu na valeta de uns 40 cm ou mais de profundidade... por pouco eu não me quebro todo! A caminhada poderia ter terminado ali. Sou um homem de sorte... I'm Lucky Man... valeu a lição!

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11,72 Km

Saí do Posto N. Sra. da Guia para andar até a barraca de ajuda aos romeiros na Antena pouco antes das duas horas da manhã. Não estava com sono. Fui tomando bastante café no caminho. Meus pés estavam bem. A noite estava incrivelmente quente.

Eu e o cunhado

Este foi o único trecho no qual o odômetro do Huawei marcou mais que a distância que estava registrada no panfleto. Quase um quilômetro a mais. No entanto, o fator psicológico de o relógio vibrar no pulso a cada 1 Km foi muito estimulante. Pensava ao andar: "daqui a pouco andei um terço", "daqui a pouco andei a metade", "faltam só x quilômetros". E o som rolando no meu toca-fita...

Andei 3 horas. Durante o percurso, entrei em algumas barracas de ajuda e comi alguma coisa, sentei uns minutos. 

Barraca da Antena.

Cheguei a Antena melhor do que imaginava. Que bom! Como havia muita gente e não tinha lugar nas mesas, tomei minha sopa em pé mesmo.

Para não acontecer de ficar mal durante o percurso seguinte, decidi ficar um tempo na Antena. Pensei em cochilar uma hora. Não deu certo, não cochilei mais que vinte minutos. Saí umas 7 horas da manhã sem tomar café direito porque o estômago estava embrulhando com qualquer coisa. Comi meio pão.

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A alvorada.

9,86 Km

O trecho até o Posto Santa Fé foi o mais surpreendente desta romaria. Saí 7 horas da manhã pensando em andar mais de 3 horas porque imaginava andar mais de 12 Km e, no entanto, tive a grata surpresa de numa das curvas da estrada ver o posto. Achei que era miragem (risos).

Deu menos de 10 Km pelo odômetro no pulso e eu estava relativamente inteiro. Andei por 2h23 e o calor estava ficando insuportável.

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8,77 Km

E quem disse que seria fácil?

Deste ponto em diante, após andar uns 55 Km, é que começa a etapa mais difícil da romaria entre Uberlândia e Água Suja, é aquele momento do sol escaldante, corpo extenuado, e cada quilômetro andado é mais difícil que vários andados anteriormente.

Antigamente, andávamos 6 Km até o Atalho no eucaliptal. Hoje ele não existe mais. O proprietário proibiu os romeiros de atravessarem por ali. Agora é pela estrada mesmo que se vai. Deu quase 9 Km. Gente, como foi difícil! Foi um esforço tremendo manter o foco para não ficar parando a cada Km.

Os peregrinos andam andam e andam e tudo o que veem é plantação de florestas de eucaliptos. Os pássaros que ouvi cantarem foram os pássaros-pretos. Pouca diversidade ali.

Grato pela galinhada, mas não
consegui comer... estômago ruim.

Cheguei na barraca de ajuda que fizeram para os romeiros na entrada da estrada de terra para a cidade. Estava bem cansado. Não consegui engolir a comida que peguei: uma tradicional galinhada mineira. Nossa, estava uma delícia, só experimentei! Tive que descansar uma meia hora e decidir sair sem comer. Apostei nas barras de cereais que tinha comigo pra não faltar carboidratos no fim.

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6,67 Km

O percurso final é sempre uma etapa à parte da romaria. É um misto de dor e alegria que se vive durante os quilômetros finais. O peregrino deve estar com o corpo repleto de hormônios por ter andado até ali e sua chegada à cidade e à igreja tem todo um componente psicológico.

O terrão vermelho do último trecho, misturado ao sol e ao suor, dão a imagem final ao romeiro ao chegar à cidade. 

Peregrinos chegam à Basílica de
N. Sra. da Abadia de Água Suja.

Depois daquela imensa descida e subida de terra e cascalho, não atravessamos mais o pasto que tinha antes da cidade. Os romeiros agora devem seguir pelas ruas de terra até entrar em Água Suja.

Mentalizei muito nesta etapa final. Administrei a energia vital já que não estava conseguindo comer. Fui bebendo líquidos e mastigando alguma coisinha.

Cheguei umas 15 horas. Completei o caminho. Pelo odômetro do Huawei, andei 70 Km. As maiores paradas foram de 1h30 na Antena e 1h no Santa Fé. Saí de Uberlândia, do trevo para Araxá às 14h20 e cheguei às 15h20. (o vídeo sobre o caminho pode ser visto aqui)

Incrível eu não ter tido nenhuma bolha nos pés. Pela primeira vez em décadas eu sequer fiz o preparo de meus pés com esparadrapos. Nenhuma bolha! Pisei por 70 Km como se fora uma pluma. Como se fora carregado por anjos ou por Deus. Nem vermelhos meus pés ficaram. 

Completei o Caminho.

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SE FAZ O CAMINHO AO ANDAR

A estrofe do poeta espanhol Antonio Machado que abre esta postagem é muito profunda para mim. É de uma simbologia incrível! Quase vejo a minha vida nela. 

Antes de iniciar o caminho, pensei comigo que iria refletir muito sobre a vida porque vinha fazendo isso antes de pegar a estrada para Água Suja. Escrevi que tinha umas coisas pra digerir e queimar dentro de mim.

Entretanto, a realidade do caminho se impôs e tudo o que fiz foi concentrar minha atenção em mim mesmo, dialogar com o meu corpo e fazer com que ele me levasse até o objetivo final. Consegui.

As coisas a digerir e queimar dentro de mim continuam aqui dentro do meu ser, do caminhante, do peregrino. Mas tudo bem. A vida é como uma romaria dessas que fiz. Vamos indo passo a passo até chegar no destino que mentalizamos.

E se não chegarmos, tudo bem. Tudo bem. Cada pessoa chega até onde dá. A vida também é assim.

Vou digerir as coisas que seguem entaladas no meu sistema digestório e que não me permitem sequer me alimentar direito certas horas. A comida não desce...

Aprendi muito nesta nova caminhada, aprendi sobre mim, sobre esse ser que sou neste momento. As coisas estão tão claras pra mim que até fico chocado.

Foi uma experiência muito importante para mim sair de Osasco, ter medo e receio de não conseguir fazer o que fazia antes, encarar meus medos, encarar minhas dores e dificuldades, e chegar!

É isso!

William


Post Scriptum: Ao analisar o aplicativo do aparelho Huawei Band 8, em relação às distâncias percorridas por mim na sexta 11 e no sábado 12, fiquei tentando entender por qual motivo o registro no aplicativo é de 34,73 Km + 44,58 Km, o que daria um percurso de 79,31 Km andados por mim. De fato, essa distância é mais condizente com a realidade do que os 70 Km computados por mim manualmente, pois posso ter deixado de registrar alguma distância percorrida por cansaço, por esquecimento etc. 

Quando eu começava uma etapa, eu clicava o início do "treino" de caminhada ao ar livre e o correto era sempre dar pausa quando parava. Acontece que com o tempo, o romeiro vai cansando, começa a parar e não dá pausa, ou o contrário, dá pausa e esquece de dar play novamente etc. Eu fiquei encafifado com o fato de dar mais de 2 Km de diferença entre a Antena e o Posto Santa Fé na distância que marquei no relógio. No antigo panfleto da Polícia Rodoviária Federal (PRF-MG) consta como 12,5 Km e no meu marcador manual deu menos de 10 Km. Cansado como estava, pode ser que tenha deixado de marcar algum momento do caminhar, em alguma parada que fiz.

Se as distâncias anotadas entre o Trevo para Araxá (saída de Uberlândia) e a igreja de N. Sra. da Abadia de Água Suja, pelo antigo Desvio ou Atalho, davam 73,5 Km e agora o romeiro tem que andar mais uns 3 Km até a nova entrada para a cidade e andar mais um tanto até onde se saía pelo Atalho e ainda seguir só pela estrada de terra até a cidade, o mais provável é que eu tenha andado uns 77 ou 78 Km mesmo e não "só" 70 Km como as marcações manuais que fiz.

É isso, o registro é mais para constar mesmo. Neste blog eu sempre trabalhei com as informações o mais fidedignas possíveis. Aliás, quando faço consulta no meu WIKIpedia do William, conto com a informação cuidadosa postada no blog.


segunda-feira, 10 de abril de 2023

Leitura: O trono no morro - José J. Veiga



Refeição Cultural

Osasco, 10 de abril de 2023. Segunda-feira.


"Engraçado: e o medo? Fora exatamente como o Pifa e outros disseram, que no meio do fogo a pessoa não tem tempo de sentir medo. Será que viria depois? Parecia que não. O que ele sentia agora era bem o contrário de medo, era uma palpitação de coragem e valentia que o deixava até envergonhado de estar lembrando de medo." (VEIGA, O trono no morro. p. 23)


Acordei pensando em meus objetivos de leitura para o ano de 2023. Defini que gostaria de ler ao menos três livros por mês. É um esforço de leitura. Não quero me tornar um analfabeto como estamos nos tornando enquanto espécie. Analfabetos no sentido literal, aqueles que não sabem escrever, e analfabetos funcionais, aqueles que sabem juntar as letras, mas não entendem porra nenhuma ao ler as letras juntadas.

A inteligência humana está em franca decadência, os homo sapiens sapiens caminham para a extinção como aqueles animais hominídeos que sabem que sabem, que têm conhecimentos culturais acumulados ao longo de centenas de milhares de anos. Inclusive pode ser que nos tornemos analfabetos, sem o uso da grafia e do símbolo linguístico porque as novas tecnologias tornaram "desnecessário" saber escrever.

Que começo de postagem... está ruim, sei, são os sentimentos do escriba no momento de escrever.

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Como disse acima, ao acordar nesse dia 10 de abril, primeiro terço do mês, pensei em pegar um livro de romance ou poesia para ler porque os livros que estou lendo são grandes ou de leitura lenta e levarão semanas até o final da leitura. Tanto em abril quanto em maio, para ler seis livros, terei que ler livros de volume pequeno. Livro menor no tamanho não quer dizer livro menor no conteúdo.

Pensei num romance, uma pequena novela ou conto, ou um livro de poesia. A primeira coisa foi escolher na estante o autor e o livro. Tenho livros adquiridos recentemente de conhecidos bancários e tenho livros de coletâneas de artigos. Mas não era o que procurava. Pensei em textos com estórias do tipo "E se..." e com essa característica pensei em José Saramago, Guimarães Rosa ou José J. Veiga. Peguei um de Veiga.

Nem olhei para o celular até o final da tarde... (básico isso!)

Assim fiz a leitura do 10º livro do ano.

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O TRONO NO MORRO 

(lançado por J. Veiga no livro De jogos e festas, em 1980, e depois relançado em 1987)

Ao abrir o livro, conheci a estória de Dom Quintino, governador e senhor supremo da serra do Mossongo.

Quintino Jerônimo Júlio foi sequestrado ainda novo pelo bando do Gumercindo Frade. Não tinha família, nasceu nas terras do seu Demoste e foi ficando por lá trabalhando por um prato de comida. Era medroso e não conseguiu voltar do sequestro dos jagunços. Foi ficando. Aprendeu a atirar e o primeiro bicho que mirou, acertou. Matou um urubu e deixou todo o bando aperreado porque dá azar matar urubu. Mas por atirar bem e por ter o corpo fechado, foi aceito no bando. Viveu assim por um tempo.

Depois, Quintino viveu numa corrutela chamada vila de Três Alferes, região de garimpo. Ali viveu outro tanto de sua vida. 

Os leitores acompanham a vida desse personagem, que apesar de ter o corpo fechado, poderia ter um pouco mais de sorte na vida. Difícil não se solidarizar com o rapaz pelos infortúnios que as veredas da vida trazem a ele.

Ao longo da leitura, J. Veiga me transportou para momentos diversos da vida ao longo de décadas, seus enredos e seu estilo têm essa característica de nos colocar dentro da estória ou de nos fazer ver o mundo aqui fora como suas estórias. 

Este leitor em particular passou a juventude nas Minas Gerais, região próxima ou similar às regiões imaginárias de seus contos, novelas e romances.

MEDO - Talvez eu tenha escolhido a citação sobre o medo porque esse sentimento é um dos sentimentos mais intensos no animal que somos. O medo e o ódio, talvez mais que o amor, são sentimentos que movem o mundo humano. Biologicamente somos racionais com um cérebro altamente desenvolvido, e mesmo sendo homo sapiens sapiens somos levados por indução e manipulação grosseira a praticar as ações mais estúpidas possíveis e a acreditar nas maiores bobagens que se possa imaginar... que foda!

É isso! Conheci mais uma narrativa de J. Veiga. Agora faltam poucas para eu completar a leitura de toda a sua obra. Só li o primeiro livro do autor goiano em 2016, e saí procurando seus livros em livrarias e sebos. Acabei de comprar o último que faltava.

Seguimos fruindo a vida instante a instante, como nos ensina Ailton Krenak, sem a necessidade de ser útil. Tenho que lidar com essa inutilidade que sinto após achar que fui útil algum dia. Es decir, achar que fui útil não quer dizer nada, claro, pode ser que eu tenha sido apenas útil em relações utilitárias como a vida moderna nos demonstra.

William


Bibliografia:

VEIGA, José Jacinto. O trono no morro. 8ª ed. - São Paulo: Ática, 2007.


terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba III (10/01/23)



Refeição Cultural - Cuba (III)

Osasco, 10 de janeiro de 2023. Terça-feira de chuvas de verão.


"Meses depois saberia que aquele comentário inoportuno se transformou no motivo do meu primeiro tombo quando, na abertura da Juventude a novos militantes, o ingresso na elite juvenil me foi recusado por não ter sido capaz de superar alguns problemas ideológicos e por me faltarem maturidade e capacidade para compreender as decisões tomadas por companheiros responsáveis. Aceitei a crítica e prometi emendar-me." (p. 94)


Retomei hoje a leitura do livro de Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros, leitura que estou fazendo sem pressa, concentrado no romance. Li o capítulo 5, mas para religar a história, precisei voltar ao capítulo 1º, que nos apresenta o narrador em 1ª pessoa, Iván.

Ao final do capítulo 1, Iván nos conta sobre uma história do passado, que ele havia deixado de lado e nunca havia contado para sua companheira Ana, uma história a respeito de um homem que ele chamou de "o homem que amava os cachorros" e nunca falou sobre a história por medo. 

Nos capítulos 2, 3 e 4 a história volta ao passado em dezenas de anos, nos vemos lá no final dos anos 20, quando Trótski está no exílio. 

Contando com o capítulo de hoje, no qual conhecemos os cães galgos Ix e Dax, agora já conhecemos 6 cachorros: o poodle Tato e o sarnento Truco, do casal cubano, a cachorra Maya de Trótski e o cãozinho peludo Churro, que estava com Ramón em Barcelona.

No capítulo 5 voltamos ao tempo da enunciação com Iván, que passa a narrar sobre o seu passado nos anos 70 em Cuba. Capítulo duro! O personagem nos fala de censuras e falta de liberdade durante aquele período.

ESCRITORES 

Iván nos fala muito dos escritores que o inspiram a escrever na juventude. Nos fala de Raymond Chandler com um amor imenso. Eu nunca li uma linha sequer de obra alguma dele... Essas minhas lacunas culturais me torturam de verdade (snif!). Citou dois que também nunca li: Updike e o "já excomungado" Vargas Llosa, que disse espumar de inveja. 

Depois cita os escritores que ele tinha como referência para tirar técnicas literárias: Kafka, Hemingway, García Márquez, Cortázar, Faukner, Rulfo e Carpentier. Desses não li Faukner. O personagem diz que se inspirou neles para fazer um conto sobre um "lutador revolucionário que sente medo e, antes de se transformar num delator, decide suicidar-se..." (p. 95).

Iván se ferra por causa desse texto literário, um conto...

Ele ainda cita dois escritores - Camus e Sartre - lembrando que Sartre foi amado e depois execrado na ilha. 

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O MEDO

Já vi algumas passagens interessantes sobre o medo em romances. Neste momento de confecção da postagem, acabei indo ao meu blog na categoria "Medo" para ver alguns conceitos e passagens literárias. Tem reflexões muito boas. Caso interesse aos leitores, é só clicar aqui e ler nos textos diversos do blog a referência feita por algum autor ao tema medo.

"Naquele dia, além disso, soube com exatidão o que era ter Medo - um medo assim, com maiúscula, real, invasivo, onipotente e ubíquo, muito mais devastador que o receio da dor física ou do desconhecido que todos sentimos alguma vez. Nesse dia, o que aconteceu na realidade foi que me arruinaram para o resto da vida, porque, além de agradecido e cheio de medo, saí dali profundamente convencido de que aquele conto nunca deveria ter sido escrito, que é o pior que podem levar um escritor a pensar." (p. 96)

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INCAPACIDADE PARA LIDAR COM "CACIQUES E DIABOS"

Ao final do capítulo 5, Iván fala da dificuldade vivida durante o tempo em que esteve em Baracoa, um povoado pequeno de Cuba, no extremo leste da ilha. O local mais antigo de fundação espanhola.

"Eu sabia que Baracoa devia o seu nome aos caciques indígenas que ali viviam quando chegaram os conquistadores. Mas depressa descobriria que, quatro séculos e meio depois, aquilo continuava a ser uma terra de caciques, governada agora pelos figurões das organizações locais. Aprenderia também, e muito rapidamente, que nunca foi tão adequada como ali a máxima "povoado pequeno, inferno grande". E, para completar a minha educação da vida real, em Baracoa eu sofreria as consequências da minha incapacidade humana e intelectual para lidar diariamente com caciques e diabos." (p. 98)

Em me lembrei de meus quase vinte anos de convivência com o movimento estudantil, sindical e partidário... como é difícil conviver com os caciques e diabos...

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JOSÉ MARTÍ

Para finalizar minhas leituras sobre Cuba e personalidades cubanas, li mais um artigo do livro que adquiri de antologia poética de José Martí. Dessa vez li uma apresentação do poeta e intelectual cubano feita pelo poeta espanhol Juán Ramón Jiménez.

As descrições que já li sobre Martí aguçam meu desejo de conhecer Cuba e seu povo, sua cultura, sua história. Vamos ver se consigo ler as poesias do livro que adquiri. Da época do curso de Letras, me lembro do impacto que senti ao ler seu clássico "Nuestra América". Achei o texto incrível.

Segue um pequeno trecho do artigo de Jiménez:

"Este José Martí, este 'Capitán Araña', que tendió su hilo de amor y odio noble entre rosas, palabras y besos blancos, para esperar al destino, cayó en su paisaje, que ya he visto, por la pasión, la envidia, la indiferencia quizás, la fatalidad sin duda, como un caballero andante enamorado, de todos los tiempos y países, pasados, presentes y futuros. Quijote cubano, comprendía lo espiritual eterno, y lo ideal español. Hay que escribir, cubanos, el 'Cantar' o el 'Romancero de José Martí', héroe más que ninguno de la vida y la muerte, ya que defendía 'exquisitamente' con su vida superior de poeta que se inmolaba, su tierra, su mujer y su pueblo. La bala que lo mató era para él, quién lo duda, y 'por eso' venía, como todas las balas injustas, de muchas partes feas y de muchos siglos bajos, y poco español y poco cubano no tuvieron en ella, aun sin quererlo, un átomo inconsciente de plomo." (J. R. Jiménez. In: Martí en su universo. Una antología)

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É isso! Hoje sei alguma coisinha mais que ontem. Clicando aqui, pode-se ler a postagem anterior sobre meus estudos sobre o tema Cuba.

William Mendes


Bibliografia:

MARTÍ EN SU UNIVERSO - UNA ANTOLOGÍA. Edición Conmemorativa. Real Academia Española e Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara - Lengua Viva, Madrid.

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (VI) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

A leitura do clássico de Daniel Defoe, As aventuras de Robinson Crusoé (1719), tem sido lenta como imaginei. Estou completando um mês do início da leitura e após ler mais quatro capítulos estou chegando perto de 2/5 da obra. Gostaria de terminar a leitura em dezembro, mas não sei se será possível.

A leitura é de fácil andamento, com linguagem prosaica e com a técnica narrativa baseada em um narrador que conta ele mesmo suas aventuras e desventuras na forma de um diário. Até o momento em que estou no romance, o capítulo XIII, Crusoé está na Ilha do Desespero há 24 anos. Ele diz ter chegado à ilha com 36 anos, então estaria com cerca de 60 anos.

"A minha salvação miraculosa na ilha depois do naufrágio foi no dia do aniversário do meu nascimento, 30 de setembro, trinta e seis anos antes..." (p. 136)

Robinson Crusoé passou todo esse período sem uma companhia humana. Sua "família" se resumiu a um cão, um papagaio e gatos. E alguns cabritos amansados. Ele nos disse que o cão morreu de velhice com 16 anos (p. 174).

Às vezes, tenho dúvidas nas contagens de tempo e idade do personagem, mesmo fazendo uma leitura atenta. Calculo que ele está com 60 anos por causa das marcas que vou encontrando no texto. Sei que saiu de casa com 19 anos e daí por diante vou anotando as referências de tempo que ele mesmo nos dá.

"Fui feliz em não tornar a avistá-los até maio do vigésimo quarto ano da minha vida solitária, no qual tive com eles um encontro estupendo que a seu tempo relatarei..." (p. 175)

Terminei a leitura do capítulo XIII com novidades em relação ao cotidiano regular em que ele viveu durante alguns anos na ilha. Um navio naufragou nas costas da ilha, como ocorreu com o dele décadas atrás. Ele visitou os destroços e encontrou mortos. Vivo, só um cachorro.

Crusoé passou os últimos anos com muito medo e precavido porque descobriu que canibais de alguma ilha vizinha aportavam em "sua" ilha para alguns rituais de canibalismo. Há anos ele espera um confronto com os canibais. Após a descoberta da existência deles nunca mais teve paz para fazer sequer os barulhos que fazia como atirar para caçar.

Na edição que estou lendo, há um resumo do capítulo na entrada do texto. Acho isso terrível. Nunca leio. É um spoiler do que o leitor vai ler. O Decamerão, de Giovanni Boccaccio, que li ano passado, também tinha esses spoiler. Eu só leio os resumos após ler o capítulo, para relembrar alguma coisa.

ATENÇÃO - Aqui nas postagens, local onde reflito para mim mesmo sobre o que estou lendo e para leitoras e leitores que acompanham o blog, parto do princípio que se alguém está lendo esta postagem é porque resolveu seguir a sequência dessas postagens sobre a leitura de Robinson Crusoé, categoria ou tag "Daniel Defoe", e já leu as anteriores, que fui fazendo desde o início da leitura do livro. Então, não considero que estou dando spoiler aqui porque conto o que já li em quase 200 páginas do clássico.

Abaixo, vou deixar um exemplo dos cabeçalhos dos capítulos que dizem o que vai ser o destaque naquele texto. Quem não leu a obra e não quer saber antes mais detalhes, pare por aqui.

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CAPÍTULO X

"Ponho com bom êxito a nova canoa a nado. - Parto para uma viagem costeira no sexto ano do meu reinado ou cativeiro. - Contratempos no mar. - Arribo a uma praia depois de grandes dificuldades. - Adormeço e acordo a uma voz chamando pelo meu nome. - Imagino vários planos para apanhar cabras vivas e sou bem-sucedido." (p. 140)

O capítulo tem uma filosofada interessante:

"É assim a natureza humana: só apreciamos o valor das coisas quando as perdemos ou experimentamos os inconvenientes de outras." (p. 142)

Nesse capítulo Crusoé acelera o tempo e vamos de 6 a 11 anos na ilha. Ele já dominou a técnica para fabricar diversos utensílios de seu cotidiano. Após domesticar cabras, o seu cardápio era farto e diversificado. Melhor do que o dos milhões de seres humanos da atualidade, em completa insegurança alimentar em meio a tanta riqueza produzida pelo homem do século XXI.

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CAPÍTULO XI

"Descrição pitoresca da minha figura. - Descrição da minha morada, dos cercados e das tapadas. - Medonho terror e sobressalto de que sou assaltado por distinguir na areia de uma praia pegadas humanas. - Reflexões. - Tomo medidas de precaução contra prováveis invasores." (p. 150)

Nesse capítulo Crusoé descreve de forma até engraçada sua aparência e situação de conforto na ilha. Reforça sua crença religiosa na Providência de Deus.

Após descobrir as pegadas na praia, sua tranquilidade vai por água abaixo. Reflete muito a respeito. Dilemas entre querer e não querer encontrar um humano após todos os anos de solidão.

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RELIGIÃO E FÉ, ABSTRAÇÕES QUE DÃO CONFORMIDADE AOS DILEMAS DA VIDA HUMANA - Eu fui uma pessoa criada na cultura e ambiência das religiões. Criado na cultura católica por meus pais e família, tive contato também com matrizes diversas de crença religiosa como candomblé, espiritismo etc. 

Essa experiência do viver me permite entender um pouco por onde passa toda essa situação em que nos encontramos no Brasil em 2021, momento no qual alguns segmentos religiosos avançam em seus projetos de dominar o país através da política, dominar o Estado nacional. Parte dos neopentecostais apoiadores do bolsonarismo tem um projeto de poder agressivo e totalitário, na minha opinião. 

Enfim, como fui religioso por décadas consigo compreender minimamente o que sente uma pessoa religiosa. É algo muito forte, a pessoa faz qualquer coisa em função daquilo que crê ou que é levada a crer.

Por que fiz esse comentário? Para citar um trecho do diário do personagem Robinson Crusoé que marquei como uma forma de pensamento que tive por quase 30 anos de minha vida.

"Efetivamente, apenas serenaram um pouco tamanhas apreensões, considerei que a minha situação era o efeito de uma Providência, infinitamente boa e sábia; e que sendo eu incapaz de penetrar as suas vistas a meu respeito, era da minha parte gravíssima audácia tentar subtrair-me à soberania do Ente Supremo, que, como meu criador, tem o direito absoluto de dispor da minha sorte, e como juiz, o de punir-me quando assim o entender, pois que se pelos meus pecados atraí a sua indignação, devia também sujeitar-me aos castigos. Pensei que Deus, sendo onipotente e justo, assim como julgou bom afligir-me, assim também podia livrar-me da infelicidade e da desgraça; e que, se em seus altos desígnios resolvesse continuar a tribular-me, só me restava aguardar com perfeita resignação os seus decretos, continuando a confiar n'Ele e a dirigir-lhe as minhas súplicas." (p. 156)

Pois é! Quantos e quantos amigos e amigas tenho que pensam exatamente assim nesse momento do viver... e cabe a nós respeitarmos a opinião de cada uma e cada um deles. Cada ser humano tem a sua vida, a sua crença, o seu tempo, as suas veredas.

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O MEDO NOS TIRA A RAZÃO

"Pensei nessa insânia toda a noite, quando o meu ridículo terror estava no seu auge; o que mostra que o receio do perigo é mil vezes mais insuportável do que ele próprio, e que a imaginação exagerada de um mal longínquo nos inquieta mais do que quando ele se declara francamente." (p. 158)

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CAPÍTULO XII

"Avisto uma embarcação ao longe no mar. - Descubro na praia os restos de um banquete de antropófagos. - Horror a propósito. - Redobro o meu armamento pessoal. - Terrível susto causado por uma cabra. - Dou com uma caverna ou gruta singular, da qual faço celeiro. - Continua o meu receio e medo de que os selvagens venham desembarcar na ilha." (p. 161)

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CAPÍTULO XIII

"A minha situação no 23º ano de residência na ilha. - Avisto selvagens nus na costa onde ficava a minha habitação, em redor de uma fogueira. - Meu horror quando contemplo o espantoso festim, em que se estão banqueteando. - Resolvo-me de novo a exterminar os bandos a todo o transe. - Navio perdido no mar em frente da ilha. - Vou a bordo da embarcação naufragada, que julgo ser espanhola. - Aproveito grande quantidade de objetos." (p. 172)

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É isso! Sigo lendo os clássicos da literatura mundial da maneira que é possível. Estou também escrevendo memórias em relação ao período central de minha vida adulta, o período no qual fui um representante dos trabalhadores da categoria bancária. Isso está dividindo meu tempo com as leituras clássicas e literárias. Mas sinto que preciso fazer isso, apesar de ter uma lista imensa de clássicos na estante para ler enquanto vivo estou.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.