Mostrando postagens com marcador Roberto Bolaño. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roberto Bolaño. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de novembro de 2021

Brejo das Almas (1934) - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"HINO NACIONAL

(...)

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
" (p. 105)


Reli o segundo livro de poesias do poeta Carlos Drummond de Andrade - Brejo das Almas -, publicado em 1934. Na minha opinião, os poemas desta obra são herméticos, de difícil compreensão. Como diria o Eu-lírico no poema SEGREDO - "A poesia é incomunicável./Fique torto no seu canto.". Talvez seja o leitor (eu) que não tenha ainda conseguido avançar na boa leitura de poesias, já que alguns autores e alguns estilos de poesia são mais exigentes que outros.

A leitura dos 49 poemas de Alguma poesia (1930) é fácil e prazerosa do início ao fim - ler comentário aqui -, talvez porque os poemas já sejam bem conhecidos por mim, e a familiaridade facilita bastante a leitura e o deleite advindo de cada poema. A leitura dos 26 poemas de Brejo das Almas (1934) é uma leitura de estranhamento, de surpresas, e de identificações também.

Eu me lembro de uma entrevista com o escritor e poeta chileno Roberto Bolaño na qual ele destacava para o entrevistador versos, dísticos e algumas imagens de poemas que ele gostava, dizendo que aquela imagem e aquele significado já se bastavam em si mesmos, sendo o restante das estrofes até desnecessárias (impressão que eu tive da fala dele). Forma muito particular de ler poesia, mas tudo bem.

O professor Ariovaldo Vital, nas aulas que tive em 2019 sobre leitura de poesias, nos explicava que cada palavra, cada verso, cada estrofe tem um significado que se inteira com as demais partes do poema e com o sentido total da mensagem. Nada é à toa em um poema. Também tá valendo o ensinamento.

Se eu leio os poemas de Brejo das Almas com o viés de Bolaño, vejo versos e imagens que adorei nos poemas.

---

"O AMOR BATE NA AORTA

(...)

o amor ronca na horta
entre os pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
" (p.95)

---

"O VOO SOBRE AS IGREJAS

(...)

Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel, lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto,
Mariana, Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades
e o Aleijadinho era uma vez.
" (p. 102/103)

---

"COISA MISERÁVEL

(...)

Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe,
ou, quem sabe? para um céu vazio.
" (p. 112)

---

Neste livro já vemos o Drummond que vai dizer o tempo todo que não adianta morrer, que a vida deve seguir, a vida apenas e sem mistificações, mesmo em face de acontecimentos e coisas tão graves e drásticas, sejam elas na vida pessoal, sejam na vida coletiva.

O poema NECROLÓGIO DOS DESILUDIDOS DO AMOR é um caso desses. O Eu-lírico deixa a opinião dele aos românticos e dramáticos de que não vale a pena morrer por amores não correspondidos.

"Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
" (p. 122)

---

Fecho o comentário com os poemas que trazem a questão do amor erótico e sensual. Uma delícia os poemas O PASSARINHO DELA e GIRASSOL. Naquele, o Eu-lírico fala até o nome do autor:

---

"O passarinho dela
está batendo asas, seu Carlos!
Ele diz que vai-se embora
sem você pegar.
" (p. 99)

---

E o poema GIRASSOL é mais explícito na linguagem e no desejo:

---

"havia também (entre vários) um girassol. A moça
                                                             [passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.

Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar,
                            [de casar, de ter muitos filhos;
vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar
                [libidinagens, de ser infeliz e rezar;
" (p. 111)

---

Quase todos nós já tivemos algum dia o sentimento desse Eu-lírico, algo pueril, algo libidinoso e erótico sobre amores e sexos.

É isso. Vou ler a poesia completa de Drummond. E vou contando os poemas a cada livro publicado por ordem cronológica, como estou fazendo com a leitura de Cecília Meireles.

Nos primeiros dois livros de Drummond, são 75 poemas.

Seguimos lendo poesias.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

À la Benjamin Button... (13)



Refeição Cultural

Olhar para trás...

O presente é duro, trágico: temos no mundo 100 (cem) milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus hoje, dia 26 de janeiro de 2021. 
100.000.000 de infectados. São 2.151.248 mortes por Covid-19. 

A ex e eterna colônia de exploração Brasil aparece de forma destacada no panorama mundial da pandemia: são 8,87 milhões de infectados e 217.644 pessoas mortas (oficialmente, mas a subnotificação e a atuação do regime bolsonarista para esconder os números é absurda). Os dados são da Johns Hopkins University.

Estou fazendo o exercício de olhar para trás em meus escritos, reflexões e ações para tentar compreender o presente pessoal e coletivo. Não é fácil. 

O personagem Benjamin Button se tornou uma referência nesta categoria de postagem porque achei muito interessante a ideia de o tempo andar para trás. Como não estamos nesta condição de influência sobre o tempo físico e cósmico, vamos ao menos olhar para trás.

Em maio do ano passado, 2020, estávamos ainda no início da pandemia mundial. Ninguém imaginaria que chegaríamos aos números que apontei acima. 

As melhores perspectivas de enfrentamento ao vírus eram isolamento social, uso de máscara e higienização, fechamentos de fronteiras e bloqueios na circulação dos povos nas cidades do mundo. Quase todos os governos do planeta fizeram isso. Era a forma de não colapsar os seus sistemas de saúde. Não havia remédio nem vacina contra o vírus.

Alguns países, infelizmente, fizeram o contrário das recomendações da ciência e das autoridades de saúde. Estados Unidos de Trump e o Brasil de Bolsonaro fizeram o contrário. Deu no que deu. Os dois países juntos somam mais de 640 mil mortos. Trump já caiu. Bolsonaro segue com seu regime.

Em maio do ano passado, eu estava lendo uma narrativa por dia do clássico de Boccaccio, Decameron, e torcia diariamente para não pegar Covid-19 e sobreviver à peste. Seriam 100 dias de leitura. Naqueles dias, eu estava na 4a jornada das narrativas. 

Sobrevivi até aqui, mas muitos amig@s, companheir@s e familiares del@s faleceram por causa do vírus. Muita gente teve a vida abreviada por responsabilidade do regime neofascista no poder.

Como estamos neste momento?

O mundo produziu algumas vacinas contra o vírus. Em muitos países a vacinação já é uma realidade. Existe todo um regramento sobre os segmentos populacionais prioritários para tomarem a vacina. Muitos países já compraram vacinas para o conjunto da população. Já na ex e eterna colônia de exploração, o país jabuticaba... (aqui é Bolsonaro!)

Aqui o regime neofascista é exceção no mundo em relação ao comportamento do Estado no combate à pandemia. O governo, seus ministros e seus apoiadores, um bando de gente má e psicopata, defendem aglomerações, o não uso de máscara e incentivam a população a não tomar vacina. 

No entanto, os canalhas da casa-grande e os vigaristas de todo tipo arrotam ética e combate à corrupção, mas a prática de furar fila para tomar vacina virou um escândalo nacional e mundial. É o que temos aqui nesta terra de gente miserável.

CARTÃO CORPORATIVO: os inumanos no poder cometem crimes de responsabilidade o tempo todo, segundo renomados juristas e intelectuais. Mas não caem, não são impedidos. O escândalo do dia, de hoje, são os gastos do regime de milhões e milhões e milhões de reais com chicletes (2 mi), leite condensado (15 mi), pizza e refri (32 mi), alfafa (1 mi)... 

No passado recente (2008), a imprensa dos golpistas fez um inferno na pauta nacional, criou-se até a CPI dos cartões corporativos, por causa de uma tapioca de R$ 8,30 comprada no cartão corporativo de um ministro do governo do Partido dos Trabalhadores, o partido que mais fez pelo povo brasileiro na história. 

IMPRECAÇÃO: o tempo é implacável com o mundo e com os seres vivos. Essa gente lixo que se apossou do Brasil por golpe e por manipulação das pessoas vai cair. Vai ser presa, julgada e condenada. Aqui ou nos tribunais penais internacionais. Esses desgraçados vão acabar na merda, presos ou justiçados pelo povo. Quem estiver vivo, verá.

Seguem abaixo alguns registros e reflexões que fiz meses atrás, já sob o regime de destruição do país e sob a pandemia.

------------

08/05/20

37a decamerada

Simona e Pasquino, dois jovens humildes se amam, se encontram em uma praça para namorar, e uma tragédia acaba com o romance. O rapaz morreu envenenado e depois a moça. No final, se descobre que um sapo teve relação com o caso, pois estava na planta que matou o casal. 

Coitado, a população queimou o agente do veneno responsável pela tragédia. 

Pergunto: será que no país jabuticaba, um dia, o povo vai perceber os agentes envenenadores que causaram nossa destruição e vai tacar fogo nessas pestes venenosas? (difícil... aqui somos todos presas, gados, semoventes da casa-grande)

------------

07/05/20

36 novelas do Decameron

Andreuola ama o jovem humilde Gabriotto, que morre em seus braços de algum mal súbito. Após uns percalços por ela ser mulher num mundo de merda como esse nosso, machista e bárbaro, ela termina num convento. A vida seguiu... 

E a nossa vida, segue, sem morte súbita?

------------

06/05/20

Decameron, 35, 35

A estória de hoje foi da jovem Lisabetta e Lourenço, rapaz humilde assassinado pelos 3 irmãos da moça. Ela morre de tristeza no fim.

Faltam 65 dias e estórias. Tem hora que fico em dúvida se chegarei até lá. Está tudo muito incerto, muito ruim. Que sensação ruim da peste!

------------

05/05/20

34° dia, 34a novela do Decameron

Estou na 4a jornada de narrativas, só tragédias e finais infelizes de histórias de amor.

Rei Guilherme manda decapitar neto, após este desonrá-lo tentando raptar filha de outro rei, prometida a outro. Ela morre, ele morre. Rei é impiedoso para manter sua palavra... (os jovens se amavam)

No país jabuticaba, o rei está nu, não tem palavra, não tem honra, mas manda todo mundo calar a boca, vocifera mentiras (fake news diárias) e alguns súditos em ladainha: aleluia, mito, mito!! (Boccaccio, me ajuda!)

------------

04/05/20

Decameron 33° dia

Depois de um dia de limpezas domésticas, banho tomado, cansaço e bocejos, peguei meu compromisso de uma novela de Boccaccio por dia e li a estória trágica das 3 irmãs de Marselha, na Provença: Ninetta, Madalena e Bertinha. Dos vícios humanos, a ira foi a desgraça delas. A ira cega e tira a razão...

Não é à toa que a ira foi o instrumento usado pelos golpistas da casa-grande no país jabuticaba para transformar seres humanos quase normais num bando de zumbis bolsonaristas e em fanáticos fascistas amorais!

A Ira sempre funciona, ela transforma você num escravo. Assim já nos explicava o jagunço Riobaldo Tatarana...

------------

03/05/20

Leitura: "Borges y los cuervos"

Terminei o livro El gaucho insufrible, de Bolaño. É muito reflexivo. Acho que vou ler alguns textos críticos sobre autor e obra.

------------

Ainda 02/05/20

Decameron, começa a 4a jornada de novelas. Nesta série, os jovens vão narrar casos de amores infelizes ou com finais tristes.

31a estória - pai que dizia amar a filha mais que qualquer coisa no mundo, se mostra cruel e impiedoso ao não aceitar o amor dela por um rapaz humilde. Dá merda no fim...

MULHERES, FRUTOS DE FRAQUEJADAS

De novo, o que vemos é a forma como são tratadas as mulheres pelos bolsonaristas da antiguidade e da atualidade. A espécie humana, recente na Terra, não vai longe não. Vai não. Cada vez que vejo 1 (uma) mulher apoiadora dessa desgraça que colocaram no poder, eu desisto dos humanos.

------------

02/05/20 (foi um dia de muitas postagens na rede social - a quarentena nos fazia pensar sobre o que fazer fechados em casa)

Meta literária diária ainda não foi cumprida... falta ler a novela do dia do Decameron... e bateu aquela moleza agora... aff, lá vai eu ler em pé de novo...

(antes)

BOLAÑO - O conto "El policía de las ratas" é muito simbólico. Quando li a 1a vez, ano passado, já havia ficado impactado. Neste momento de caos e do mal, o conto de Bolaño é um dos melhores que já li.

(antes, sobre uma postagem minha a respeito de uma corrida anos atrás: ler aqui)

Há onze anos, no dia 3 de maio, corri uma prova de 8K na cidade de Osasco (SP), prova que contou com a parceria do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Foi um dia legal na semana dos trabalhadores.

Onze anos depois (2020), muita coisa mudou. Muita coisa. Vivemos o caos e a destruição do país e dos direitos dos trabalhadores, que estão em um dos piores momentos de sua história. Mas as lutas seguem, enquanto estamos vivos.

Para tentar manter-me vivo, saí para correr aqui em Osasco e quase fiz os 8K... acabei fazendo 7,5K, mas tá bom demais para o contexto atual de pandemias de Covid-19 e a pior talvez, a pandemia do bolsonarismo, que causa morte cerebral e suas vítimas seguem andando por aí e barbarizando os outros... os zumbis são realidade...

Post Scriptum: a noção do tempo tá tão estranha que eu achei que hoje era dia 3 e só forcei correr quase 8K por causa disso (rsrs). Valeu o engano ao menos como incentivo de corrida (kkk).

(antes)

Corrida, garapa, banana... 7,5K percorridos.

Post Scriptum:

E caqui...

Meu, tenho que baixar essa merda de pressão arterial. A vida real não é bela. A vida é foda!

Corri desviando de tudo quanto é vírus... corona... fdp com camisa da CBF e outras pestes...

(antes)

Preguiça de pôr roupa e lembrar que sair é voltar e voltar é toda aquela merda de higienização... preguiça e, no entanto, se eu não correr, não terei feito a minha parte em tentar sobreviver um pouco mais por aqueles que consideramos. Se essa merda de corpo colapsar, que não tenha sido culpa minha... já fui suicida por muito tempo de meus anos, hoje não morro nem me deixo matar. - Vai correr, então, infeliz!

(antes)

El gaucho insufrible, Roberto Bolaño... Desde o ano passado, quando comecei a ler Bolaño, percebo o quanto seus textos me fazem pensar... talvez pelo seu destino trágico, talvez pela falta de respostas em relação à vida. Pensativo... talvez por saber o que ele afirmava sobre a brevidade das coisas, das obras, dos atos, da história... quem vai saber de Bolaño daqui a 200 anos? Quem vai saber de mim amanhã? Quanto tempo algo dura?

------------

01/05/20

A DOR DA PERDA, A MORTE.

Ao ouvir Mino Carta falar das perdas de seu filho e do amigo PHA em 2019 e agora o jornalista Nirlando Beirão, apertou-me o peito já dolorido por tudo que temos visto. Senti uma tristeza angustiante. Minha solidariedade ao Mino e às pessoas que estão sofrendo com todo o mal que assaltou o nosso mundo. (ver vídeo do Mino aqui)

(antes)

30. Ao decamerar a 30a novela do Decameron, de Boccaccio, de novo pensei na ousadia do escritor em publicar em 1353 a referida obra. Essa 3a jornada terminada contou estórias com muito sexo, luxúria, traição, estupro (monge abusar de uma jovem de 14 anos é estupro) e por aí vai. Vamos para as 10 novelas da quarta jornada... (se os vírus ao redor não me matarem nos próximos 10 dias)

------------

Fim do olhar para trás. Por mais que a gente olhe os fatos e sentimentos do ontem, a gente tem dificuldades para compreender como pudemos descer tão fundo no esgoto, na merda em que nos colocaram no Brasil após a destruição da sociabilidade mínima que havia no país e envenenamento do povo por um ódio e uma ignorância nunca vistos em lugar algum. A grande imprensa da casa-grande e os tucanos acabaram com o Brasil. Bolsonaro é só um aspecto disso tudo, é um produto.


William

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Instantes (12h42)





Aprender algo novo todos os dias. Aprender enquanto existimos, enquanto somos. Algo por sinal breve (o ser, o estar), a considerar o tempo das coisas no planeta e no universo. Poeira é o que somos.

Estudando a diferença de usos das partículas NI (に) e DE (で) na língua japonesa. Aprendendo algo novo dessa língua todos os dias. Meu cérebro agradece o esforço que estou impondo a ele.

Aprendendo a ler poesia. A linguagem poética é um dos tipos de linguagem que existe. Aprender poemas novos, ou melhor, conhecer, porque algumas coisas, se aprende; outras, se toma conhecimento. Estou conhecendo algum poema novo todo dia. Isso é bom.

Roberto Bolaño perseguia muito a ideia de criar algo novo na literatura; experimentar. Conhecer o já realizado e realizar algo novo. Tomar conhecimento de Bolaño no ano passado, me fez pensar bastante a respeito de algumas coisas. Gostaria de criar ou encontrar o novo, a novidade, o diferente. Mas não sei como. Ainda.

Até o pôr-do-sol de hoje, terei aprendido algo novo. Uma palavra, uma informação histórica, uma razão. Gostaria de descobrir o novo, de criar o novo em algum momento, porque ainda estou aqui, ainda vivo, existo, mesmo sendo como poeira.

--------

Ontem, foi a segunda vez em quase dois meses que saí para fora do condomínio para tentar correr na rua, atividade necessária e que me dá alguma sensação de existir (durante e depois do ato quando nos sentimos bem). Na primeira, dias atrás, não consegui manter a máscara de tuaregue no nariz, sufoca e dá uma sensação de falta de ar tremenda. Ontem, com uma máscara mais fininha, elástico amarrado nos óculos, consegui manter essa porcaria na cara até o fim. Fiquei dialogando comigo mesmo que era como se eu estivesse realizando o sonho de escalar alguma grande montanha e o ar rarefeito exigisse de mim um esforço extra em respirar e cumprir meu objetivo. Coisas de si para si mesmo nesses momentos únicos de superação. Enfim, me esforço para estar aqui, talvez pelas pessoas queridas, talvez por mim mesmo que ainda busco, ainda procuro algo, talvez aquela palavra que sonhava na juventude, a paz, talvez o novo, a compreensão do que seja tudo isso que está, que é. (aliás, vou me iludindo ou me superando porque as dores dos desgastes no quadril vão se acentuando e algo me diz que não poderei mais realizar sonho algum de subir, correr, escalar, correr, fazer kung fu, correr uma maratona, subir numas dez montanhas, fazer longas caminhadas...)

domingo, 24 de novembro de 2019

Leitura: Nocturno de Chile - Roberto Bolaño


Roberto Bolaño. Foto divulgação.

Refeição Cultural

Neste semestre, tive o prazer do contato com a literatura e a poética do escritor chileno Roberto Bolaño, que faleceu muito jovem aos 50 anos de idade, quando suas obras já se destacavam na literatura de língua espanhola e também já eram traduzidas para diversos países.

Para o trabalho de conclusão da disciplina, a professora Laura Hosiasson nos pediu para pensarmos em algo que nos tenha chamado a atenção nas leituras que fizemos do autor. Eu gostei bastante da poética de Bolaño, sobretudo gostei do livro Nocturno de Chile (2000). 

Esta postagem sobre a leitura da obra foi base para minhas reflexões no trabalho da disciplina que fiz. Foi um período bastante atribulado para mim. Eu gostaria de ter podido ler mais textos críticos a respeito do livro e incluir algumas questões apontadas pelos autores, mas isso não foi possível dentro do prazo que tinha; as leituras ainda serão feitas por mim.

Gostei muito dos contos que lemos também de alguns de seus livros. Um dos textos que mais me marcaram foi o relato "Literatura + enfermedad = enfermedad", do livro El gaucho insufrible (2003). Fiquei muito pensativo após a leitura do texto, muito.

O texto abaixo sobre o romance de Bolaño, contém citações e análises de suas partes - spoiler - de forma que o ideal seria que eventual interessado em ler este livro visse as reflexões contidas aqui depois da leitura.

NOCTURNO DE CHILE – AINDA A TORMENTA

O romance é um convite à reflexão por diversos motivos, a começar por sua estrutura pouco tradicional em relação a romances: a narrativa se dá em apenas dois parágrafos, sendo o primeiro com mais de uma centena de páginas e o segundo e último parágrafo com uma linha de extensão.

A narrativa também é inovadora porque poucas obras ousaram tanto no uso da técnica do fluxo de consciência, em que o narrador em primeira pessoa passa a descrever os acontecimentos, pensamentos ou sentimentos de formas variadas e normalmente ininterruptas.

No século passado, o mundo havia se surpreendido com o lançamento de Ulisses (1922), do escritor irlandês James Joyce, que experimentou várias técnicas narrativas em um romance que marcaria a história da literatura mundial.

No último capítulo de Ulisses, a personagem Molly Bloom inicia um fluxo de pensamento que se estenderá por dezenas de páginas do livro, praticamente sem pontuações e mesclando os assuntos mais variados possíveis.

A técnica narrativa coloca o leitor em contato com uma ideia bastante sugestiva de como funcionam os nossos pensamentos, que alternam diversas coisas ao mesmo tempo: memórias, reflexões, desejos, avaliações, sentimentos, projeções de futuro, criatividade etc.

O romance de Bolaño nos motiva muito a leitura porque além de ser uma obra bem feita nos planos estético, semântico e material, como se observa em bons livros de poesia e literatura, também abre possibilidades de leituras no plano dos sentidos - no caso, leitura política -, pois a interpretação e vinculação com a realidade de eventos ocorridos no Chile durante a ditadura de Pinochet são claras, ampliando assim os sentidos da obra. Da leitura política, podemos dizer o seguinte: Noturno do Chile – ainda a tormenta.

Para citar mais uma motivação sobre os encantos do romance Nocturno de Chile, chama atenção o uso de ferramentas e técnicas utilizadas na linguagem poética; o romance tem passagens belíssimas com uso de anáforas, metáforas, metonímias e outras figuras utilizadas nas estruturas do gênero lírico.


O CONTRATO ENTRE O LEITOR E O NARRADOR

O romance começa estabelecendo os parâmetros da narrativa que irá se desenvolver a partir de ali: quem está falando, sobre o que irá falar, como e por que vai narrar a história.

"Ahora me muero, pero tengo muchas cosas que decir todavía. Estaba en paz conmigo mismo. Mudo y en paz. Pero de improviso surgieron las cosas. Ese joven envejecido es el culpable. Yo estaba en paz. Ahora no estoy en paz. Hay que aclarar algunos puntos. Así que me apoyaré en un codo y levantaré la cabeza, mi noble cabeza temblorosa, y rebuscaré en el rincón de los recuerdos aquellos actos que me justifican y que por lo tanto desdicen las infamias que el joven envejecido ha esparcido en mi descrédito en una sola noche relampagueante..."

Temos um narrador em primeira pessoa, que vai falar sobre sua vida, está acamado e diz estar morrendo, mas vai se apoiar no cotovelo e de cabeça erguida irá buscar recordações que o justifiquem. Afirma também que fará isso por ter sofrido infâmias espalhadas contra ele por um tal jovem envelhecido.

Bom começo. A partir daí, o leitor vai acompanhar a narrativa em fluxo de consciência do personagem central, que se identifica logo em seguida como Sebastián Urrutia Lacroix, um cidadão chileno.

CHAVES PARA DESVENDAR A PERSONALIDADE DO NARRADOR

Com uma leitura atenta, é possível captar algumas características importantes do narrador e que serão de grande auxílio para compreender e interpretar os sentidos da narrativa que ele fará para nós, os leitores.

Ele afirma ser uma pessoa que não busca a confrontação, não quer saber de se envolver em conflitos e diz ser uma pessoa razoável.

"Yo no busco la confrontación, nunca la he buscado, yo busco la paz, la responsabilidad de los actos y de las palabras y de los silencios. Soy un hombre razonable. Siempre he sido un hombre razonable."

Aliás, sobre "os silêncios", ele nos revela que tem uma preocupação ou talvez atenção especial em relação ao silêncio, aos pensamentos e atos não falados (não revelados), e que só a Deus se prestaria contas definitivas sobre certas coisas não ditas, sobre certas cumplicidades na vida nunca ditas a ninguém.

"Uno tiene la obligación moral de ser responsable de sus actos y también de sus palabras e incluso de sus silencios, sí, de sus silencios, porque también los silencios ascienden al cielo y los oye Dios y sólo Dios los comprende y los juzga, así que mucho cuidado con los silencios. Yo soy responsable de todo."

O narrador em primeira pessoa estabelece com o leitor um contrato bastante claro a respeito da narrativa que irá contar. Ele vai buscar nos rincões da memória, atos que o justifiquem e vai escolher quais são eles e a forma como quer que saibamos deles, é a sua versão dos fatos.

E os objetivos são claros, nada que deponha contra ele, e sim que justifique uma vida correta, responsável e "imaculada" como ele diz de si mesmo: "Mis silencios son inmaculados".

LITERATURA E ALTA SOCIEDADE

Podemos dividir o longo fluxo de pensamento do narrador, senhor Urrutia - padre da Opus Dei, poeta fracassado e crítico literário - em alguns episódios e momentos de sua vida.

Na primeira parte das recordações do narrador, ele nos conta sobre sua formação religiosa e a forma como teve acesso aos espaços da alta sociedade, ao conhecer o crítico literário mais famoso do país, o personagem Farewell.

"Y poco antes o poco después, es decir días antes de ser ordenado sacerdote o días después de tomar los santos votos, conocí a Farewell, al famoso Farewell, no recuerdo con exactitud dónde, probablemente en su casa..."

Nestas recordações, ele nos conta da visita a propriedade de Farewell, do assédio sexual que sofreu (e tolerou), do contato com Pablo Neruda e outras personalidades da cultura em um sarau.

A técnica narrativa de Bolaño é excelente. Há passagens que nos lembram clássicos da literatura mundial.

A chegada de Urrutia à vila de Querquén "vacía de todo atisbo de personas" nos lembra tanto a chegada de Juan Preciado a Comala em Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo, como o comportamento dos pássaros gorjeando sons que "parecían decir quién, quién, quién" em meio à solidão da praça principal, descrição que nos lembra O corvo (1845), poema de Edgar Allan Poe, famoso pelo grasnar "nevermore".

Ainda nesta primeira recordação, o narrador nos conta de forma poética e metafórica a imagem que teve da casa de Farewell, uma espécie de porto seguro da literatura nacional.

"Me dije a mí mismo que mi anfitrión era sin duda el estuario en donde se refugiaban, por períodos cortos o largos, todas las embarcaciones literarias de la patria, desde los frágiles yates hasta los grandes cargueros, desde los odoríficos barcos de pesca hasta los extravagantes acorazados. ¡No por casualidad, un rato antes, su casa me había parecido un transatlántico! En realidad, me dije a mí mismo, la casa de Farewell era un puerto."


LITERATURA E VAIDADE

Nesta segunda parte das recordações, o senhor Urrutia narra o período em que passou a trabalhar na Universidade Católica do Chile, começou a publicar seus poemas e fazer críticas literárias.

Ele nos conta que ouviu uma voz interior, seu superego, e ela teve grande influência nas decisões e ações tomadas pelo narrador nesta fase. Urrutia criou um pseudônimo - H. Ibacache - para seguir criticando poetas e literatos (e elogiando a si mesmo) e planejou um futuro glorioso como poeta.

"Urrutia Lacroix planeaba una obra poética para el futuro, una obra de ambición canónica que iba a cristalizar únicamente con el paso de los años, en una métrica que ya nadie en Chile practicaba, ¡qué digo!, que nunca nadie jamás había practicado en Chile, mientras Ibacache leía y explicaba en voz alta sus lecturas tal como antes lo había hecho Farewell, en un esfuerzo dilucidador de nuestra literatura, en un esfuerzo razonable, en un esfuerzo civilizador, en un esfuerzo de tono comedido y conciliador, como un humilde faro en la costa de la muerte."

Não poderia faltar o tom poético com que Bolaño descreve o episódio narrado em fluxo de pensamento pelo poeta Urrutia, com anáforas: "en un esfuerzo", "en un esfuerzo"...

A narrativa nos apresenta histórias dentro de histórias. Falando sobre pureza poética, Urrutia nos conta um episódio na casa de um diplomata, Salvador Reyes, que por sua vez vai falar sobre pureza em outro episódio com o escritor alemão Ernst Jünger, ocorrido na Paris ocupada durante a 2ª Guerra Mundial. Dentro desta história, será narrado novo episódio com um pintor guatemalteco e seu quadro "Paisaje de Ciudad de México una hora antes del amanecer".

Ao contar essas histórias dentro de outras histórias, o personagem principal Urrutia confessa aos leitores estar com melancolia, o mal que, segundo ele, ataca pessoas pusilânimes, e com isso nos dá outra chave para compreender a personalidade e o estado mental do narrador.

"melancolía, morbus melancholicus, el mal que ataca a los pusilánimes (...) la bilis negra, esta bilis negra que hoy me corroe y me hace flojo y me pone al borde de las lágrimas al escuchar las palabras del joven envejecido"

Ainda dentro dessas lembranças da visita a casa do diplomata, Urrutia e Farewell saem para comer e nova história é contada por Farewell, a história do sapateiro súdito do imperador austro-húngaro: "la historia de la Colina de los Héroes o Heldenberg". As reflexões em questão abordam a temática da mortalidade e a fugacidade das coisas.

Antes de nos contar sobre sua colaboração com a ditadura de Pinochet, o sacerdote Urrutia narra mais um diálogo que teve com Farewell sobre a igreja e os papas, e nos revela ser da Opus Dei.

De passagem em passagem de uma história a outra, o jovem envelhecido retorna nas citações do narrador. Às vezes, as acusações e cobranças dessa voz são agressivas como neste exemplo:

"Seamos civilizados, susurro. Pero él no me oye. De vez en cuando alguna de sus palabras llega con claridad. Insultos, qué otra cosa. ¿Maricón, dice? ¿Opusdeísta, dice? ¿Opusdeísta maricón, dice?"

Nessa altura da narrativa de Urrutia, sabemos que o jovem envelhecido é a voz de sua consciência, que cobra dele as escolhas que fez, a sua pusilanimidade e os silêncios que manteve durante os piores momentos na vida de seu país. Cobra também a responsabilidade pela literatura ser o que é em seu país - pouco expressiva -, e aqui vemos a crítica de Bolaño também.


LITERATURA E PODER DO ESTADO

Entramos em outra parte da história do senhor Urrutia/Ibacache: sua relação com agentes do Estado ou próximos a setores do Estado, não fica muito claro isso, começa através do contato com dois agentes de uma empresa contratada por setores da igreja, cujos nomes são Medo e Ódio, invertidos.

"Fue por aquellos días cuando conocí al señor Odeim y más tarde al señor Oido."

Ao que parece, a estratégia que os setores mais conservadores do Estado e/ou da igreja desenvolveu para se aproximar do padre Urrutia foi propor a ele um trabalho bem interessante, feito à medida para ele, viajando pelo continente europeu, estudando as técnicas de conservação das igrejas seculares de lá. Ele aceitou.

"La Casa de Estudios del Arzobispado quería que alguien preparara un trabajo sobre conservación de iglesias. En Chile, como no podía ser menos, nadie sabía nada acerca de este tema. En Europa, por el contrario, las investigaciones iban muy avanzadas y en algunos casos se hablaba ya de soluciones definitivas para frenar el deterioro de las casas de Dios. Mi trabajo consistiría en ir, visitar las iglesias punteras en soluciones antidesgaste, cotejar los distintos sistemas, escribir un informe y volver."

Depois da realização do estudo feito pelo padre Urrutia, ele vai voltar ao Chile, encontrando um país em ebulição; período de eleições gerais; Allende chega ao poder; golpe de Estado e início da ditadura de Pinochet. Essa parte nos é narrada após a sua estadia na Europa, que vemos a seguir.

A TÉCNICA DE CONSERVAÇÃO DAS IGREJAS NA EUROPA

Esta parte da obra é uma das mais interessantes em relação à técnica narrativa, com uso de imagens poéticas. A descrição da passagem do padre Urrutia por diversos países conhecendo as igrejas.

Em diversas igrejas, são utilizados falcões para caçar e afastar pombas dos monumentos porque as fezes delas são ameaças à conservação das construções pelo poder corrosivo que têm.

O leitor consegue facilmente perceber a simbologia em relação ao uso de aves predadoras e aves caçadas, entre falcões e pombas/estorninhos como algo relativo a regimes autoritários e democracia, entre o status quo e as camadas menos favorecidas e populares.

SÍNTESE DA PASSAGEM DE URRUTIA PELA EUROPA

- Pistóia, ITA, Igreja Santa Maria da Dor Perpétua, padre Pietro, falcão Turco;

- Turim, ITA, Igreja São Paulo do Socorro, padre Angelo, falcão Otelo;

- Estrasburgo, FRA, não falou nome da igreja, padre Joseph, falcão Xenofonte;

- Avignon, FRA, Igreja Nossa Senhora do Meio-Dia, padre Fabrice, falcão Ta Gueule (o mais sanguinário dos falcões); a descrição das cenas de caças de estorninhos em meio a um céu vermelho é impressionante, de arrepiar;

- Pamplona, ESP. Não utilizam a técnica dos falcões na conservação de igrejas. Urrutia tratou de questões particulares e da igreja, inclusive assinou contrato de publicação de suas obras;

- Burgos, ESP, padre Antonio (um velhinho), falcão Rodrigo (que não caçava pombas, o padre era contra caçar aquelas criaturas de Deus), ambos estavam decrépitos; a história narrada é de arrepiar. O falcão estava em condições precárias, num canto, preso, amuado. Com o estado febril do padre, Urrutia soltou o falcão, que reencontrou seus instintos, matou diversas pombas e desapareceu para sempre nos céus de Burgos. O padre Antonio se libertou também e faleceu naquela noite;

- Madri, ESP, Urrutia tratou de outros temas por lá, porque em Madri eles não ligam para essa questão de conservação de igrejas;

- Namur, BEL, Igreja Nossa Senhora dos Bosques, padre Charles, falcão Ronnie;

- Saint-Quentin, FRA, Igreja de São Pedro e São Paulo, padre Paul, falcão Febre; uma cena chocante aconteceu na cidade. O falcão do padre Paul estraçalhou uma pomba branca que deu início a jogos na cidade;

- O padre Urrutia foi para Paris e depois passou um tempo visitando países europeus até que retornou a América.

-----------------------------

FALCÃO SANGUINÁRIO, UMA METÁFORA DO QUE VIRIA NA HISTÓRIA

Avignon - A descrição que o narrador faz dos céus vermelhos em consequência da ferocidade do falcão Ta Gueule é impressionante:

"y fui a Avignon, a la iglesia de Nuestra Madre del Mediodía, en donde era párroco el padre Fabrice, cuyo halcón se llamaba Ta gueule y era conocido en los alrededores por su voracidad y ferocidad, y con el padre Fabrice tuvimos tardes inolvidables, mientras Ta gueule volaba y  deshacía ya no sólo bandadas de palomas sino de estorninos que por aquellos días lejanos y felices abundaban en las tierras provenzales, las tierras que recorrió Sordel, Sordello, ¿qué Sordello?, y Ta gueule echaba a volar y se perdía entre las nubes bajas, las nubes que bajaban de las mancilladas y al tiempo puras colinas de Avignon, y mientras el padre Fabrice y yo hablábamos, de pronto Ta gueule volvía a aparecer como un rayo o como la abstracción mental de un rayo para caer sobre las enormes bandadas de estorninos que aparecían por el oeste como enjambres de moscas, ennegreciendo el cielo con su revolotear errático, y al cabo de pocos minutos el revolotear de los estorninos se ensangrentaba, se fragmentaba y se ensangrentaba, y entonces el atardecer de las afueras de Avignon se teñía de rojo intenso, como el rojo de los crepúsculos que uno ve desde las ventanillas de un avión, o el rojo de los amaneceres, cuando uno despierta suavemente con el ruido de los motores silbando en los oídos y corre la cortinilla del avión y en el horizonte distingue una línea roja como una vena, la femoral del planeta, la aorta del planeta que poco a poco se va hinchando, esa vena de sangre fue la que vi en los cielos de Avignon, el vuelo ensangrentado de los estorninos, los movimientos como de paleta de pintor expresionista abstracto de Ta gueule, ah, la paz, la armonía de la naturaleza que en ningún lugar es tan evidente ni tan explícita como en Avignon, y luego el padre Fabrice silbaba y esperábamos un tiempo indefinible, mensurado únicamente por los latidos de nuestros corazones, hasta que nuestro tembloroso halcón se posaba en su brazo. Y luego tomé el tren y me marché de Avignon con gran tristeza"


----------------------------

UM SONHO SIMBÓLICO DE URRUTIA, ANTES DE VOLTAR AO CHILE

Em Roma, antes de voltar para o Chile, o padre Urrutia teve sonhos estranhos durante sua estadia em Roma. Sonhou com falcões que atravessavam o oceano Atlântico rumo a América.

"Fui a Roma. Me arrodillé ante el Santo Padre. Lloré. Tuve sueños inquietantes. Veía mujeres que se rasgaban las vestiduras. Veía al padre Antonio, el cura de Burgos, que antes de morir abría un ojo y me decía: esto está muy malo, amiguito. Veía una bandada de halcones, miles de halcones que volaban a gran altura por encima del océano Atlántico, en dirección a América. A veces el sol se ennegrecía en mis sueños."

Tanto na história dentro do romance veríamos golpe de Estado e a instituição da barbárie contra o povo, como na vida real ocorreria nas Américas, naqueles anos de regimes autoritários, uma certa operação batizada de "Operação Condor", cujos predadores sanguinários aniquilaram milhares de presas, presos políticos.

LITERATURA E PODER DO ESTADO, 2ª PARTE

Urrutia/Ibacache volta ao Chile após sua passagem pela Europa. Seu fluxo de pensamento faz um panorama rápido do processo de eleição de Allende, crise política e golpe de Estado.

Bolaño descreve o narrador repassando toda a literatura clássica da humanidade - a grega, principalmente - durante o período em que o padre se internou em seus aposentos. Enquanto isso, a direita chilena derrubava o governo de Allende. Findo o processo do golpe, Urrutia pensa o seguinte após o bombardeio do palácio La Moneda, morte de Allende e o início da ditadura:

"qué paz. Me levanté y me asomé a la ventana: qué silencio. El cielo estaba azul, un azul profundo y limpio, jalonado aquí y allá por algunas nubes."

A paz do poeta e crítico Urrutia/Ibacache não foi tão completa ao que parece, porque o narrador nos conta que depois do golpe tentou escrever poesia e a coisa saiu meio demoníaca:

"Los días que siguieron fueron bastante plácidos y yo estaba cansado de leer a tantos griegos. Así que volví a frecuentar la literatura chilena. Intenté escribir algún poema. Al principio sólo me salían yambos. Después no sé lo que me pasó. De angélica mi poesía se tornó demoníaca."

Ao longo da narrativa em fluxo de pensamento, o narrador nos deu várias pistas a respeito de sua personalidade. Além de não querer confrontação, de se dizer razoável, e de afirmar no presente da enunciação que está melancólico, nos revela agora também questões bem íntimas sobre si mesmo: os desejos sexuais. Lidar com isso o deixa furioso:

"Escribía sobre mujeres a las que zahería sin piedad, escribía sobre invertidos, sobre niños perdidos en estaciones de trenes abandonadas. Mi poesía siempre había sido, para decirlo en una palabra, apolínea, y lo que ahora me salía más bien era, por llamarlo tentativamente de algún modo, dionisíaco. Pero en realidad no era poesía dionisíaca. Tampoco demoníaca. Era rabiosa. ¿Qué me habían hecho esas pobres mujeres que aparecían en mis versos? ¿Acaso alguna me había engañado? ¿Qué me habían hecho esos pobres invertidos? Nada. Nada. Ni las mujeres ni los maricas. Y mucho menos, por Dios, los niños. ¿Por qué, entonces, aparecían esos desventurados niños enmarcados en esos paisajes corruptos? ¿Acaso alguno de esos niños era yo mismo?"

AULAS DE MARXISMO A PINOCHET

Através dos senhores Odeim e Oido, Urrutia/Ibacache é contratado para dar aulas de marxismo à junta militar que tomou o poder no Chile. Essa parte das memórias é impressionante. O programa das dez aulas sobre marxismo poderia ser seguido à risca por qualquer um de nós para se conhecer um panorama geral sobre Marx e seus ensinamentos.

Ao final do curso, o senhor Urrutia volta a seus aposentos e não consegue dormir. Seus pensamentos são intensos. Chora.

"Me puse a dar vueltas por el cuarto mientras una marea creciente de imágenes y de voces se agolpaban en mi cerebro. Diez clases, me decía a mí mismo. En realidad, sólo nueve. Nueve clases. Nueve lecciones. Poca bibliografía. ¿Lo he hecho bien? ¿Aprendieron algo? ¿Enseñé algo? ¿Hice lo que tenía que hacer? ¿Hice lo que debía hacer? ¿Es el marxismo un humanismo? ¿Es una teoría demoníaca? ¿Si les contara a mis amigos escritores lo que había hecho obtendría su aprobación? ¿Algunos manifestarían un rechazo absoluto por lo que había hecho? ¿Algunos comprenderían y perdonarían? ¿Sabe un hombre, siempre, lo que está bien y lo que está mal? En un momento de mis cavilaciones me eché a llorar desconsoladamente, estirado en la cama, echándoles la culpa de mis desgracias (intelectuales) a los señores Odeim y Oido, que fueron los que me introdujeron en esta empresa. Después, sin darme cuenta, me quedé dormido."

Temos aqui uma reflexão possível por parte do narrador: O medo e o ódio foram responsáveis por suas desgraças intelectuais... talvez por sua pusilanimidade.

Vieram tempos tristes, sem graça, chatos. Por causa do toque de recolher, não podia haver saraus, encontros dos intelectuais e artistas. Essas são as lembranças que Urrutia narra nesse momento de sua história.

LITERATURA E BARBÁRIE

E então, aparece María Canales e, com ela, a oportunidade dos encontros e saraus em sua mansão: artistas e intelectuais voltam a se reunir de duas a três vezes por semana para beber, cantar, declamar poesias e passar as noites reproduzindo a cultura do país.

Falando a si mesmo e ao jovem envelhecido, sua voz da consciência, o narrador nos confessa: "Pero la historia, la verdadera historia, sólo yo la conozco. Y es simple y cruel y verdadera y nos debería hacer reír, nos debería matar de la risa. Pero nosotros sólo sabemos llorar, lo único que hacemos con convicción es llorar."

O final da história é um final duro, a descoberta do porão de tortura, da relação do casal com a CIA e com a ditadura, a convivência da cultura com a barbárie naquele espaço, tudo isso nos coloca a pensar sobre muitas questões, sobre o papel dos artistas, dos intelectuais, da produção artística e cultural em um país, sobre literatura e sociedade.

A personagem María Canales, a quem o padre Urrutia visitou muito tempo depois dos fatos e após o fim da ditadura, faz uma provocação a ele, dizendo que a literatura se faz assim, como se dava naqueles tempos. A questão fica martelando em sua consciência.

"y dijo que así se hacía la literatura en Chile. Yo incliné la cabeza y me marché. Mientras conducía, de vuelta a Santiago, pensé en sus palabras. Así se hace la literatura en Chile, pero no sólo en Chile, también en Argentina y en México, en Guatemala y en Uruguay, y en España y en Francia y en Alemania, y en la verde Inglaterra y en la alegre Italia. Así se hace la literatura. O lo que nosotros, para no caer en el vertedero, llamamos literatura."

----------

CONVITE A LEITURA DE NOCTURNO DE CHILE EM TEMPOS DE AUTORITARISMO NAS AMÉRICAS DO SÉCULO XXI

Uma obra de ficção literária é boa quando ela é completa em si, como neste caso do romance de Bolaño, a economia da obra dá conta da história, o leitor não precisa saber de nenhum contexto externo a ela para compreendê-la. O professor Antonio Candido nos ensina essa lição no texto “Os elementos de compreensão”. Vejamos o que diz sobre isso:

“Uma obra é uma realidade autônoma, cujo valor está na fórmula que obteve para plasmar elementos não-literários: impressões, paixões, ideias, fatos, acontecimentos, que são a matéria-prima do ato criador (...) o elemento decisivo é o que permite compreendê-la e apreciá-la, mesmo que não soubéssemos onde, quando, por quem foi escrita.”

A emoção estética se dá e se realiza quando lemos este romance de Bolaño. Os elementos internos nos permitem perfeitamente a compreensão do enredo, mesmo para um leitor não-chileno ou sul-americano conhecedor da história das ditaduras dos anos sessenta a oitenta.

Uma obra de ficção é melhor ainda quando ela permite ampliar a interpretação no plano dos sentidos. Neste caso, além do sentido material, presente no texto, podemos ampliar o sentido ao associarmos o texto com fatos e eventos no plano externo da obra.

O texto crítico de Grínor Rojo “2000 El ridículo espantoso (además de chileno) em Nocturno de Chile” nos abre um leque de interpretações incrível. As críticas contidas no romance em relação à política e à literatura, incluindo a relação dos escritores e demais produtores de cultura, amplia bastante os aspectos a serem considerados no plano dos sentidos.

Alguns dos aspectos elencados por Rojo citamos na leitura que fizemos como, por exemplo, a questão do jovem envelhecido como a consciência mais profunda de Urrutia ou o sonho simbólico dos falcões atravessando o Atlântico e as ditaduras que ocorreriam nas Américas naquele período.

Uma questão que fica latente nesse momento, nesse exato momento em que lemos o romance de Bolaño, seria a oportunidade que nos dá a leitura da frase final do livro, o 2º e último parágrafo, que talvez seja a própria voz do escritor e não do personagem, como diz Rojo e Moreno: “Y después se desata la tormenta de mierda.”.

Que expressão mais premonitória seria essa tormenta de merda, se pensarmos o cenário colocado em 2019 na região, Chile, Brasil, Bolívia, Uruguai, Argentina, Equador e demais países em face dos últimos acontecimentos políticos. Poderíamos tranquilamente reler esse clássico de Bolaño com a seguinte sugestão na denominação: Noturno do Chile – ainda a tormenta.

Enfim, a obra literária é muito sugestiva, tanto no plano interno do romance, quanto na ampliação da leitura no plano dos sentidos, a considerarmos neste início de século XXI a ascensão da direita nos países da América do Sul e a volta de pensamentos fascistas e antidemocráticos.

William Mendes


BIBLIOGRAFIA:

BOLAÑO, Roberto. Nocturno de Chile. Espanha: Debolsillo, 1ª edición; 2017.

BOLAÑO, Roberto. Noturno do Chile. São Paulo: Companhia da Letras; 2004. 

CANDIDO, Antonio. “Os elementos de compreensão”. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 5ª ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975, 1º vol., p. 34-36. 

ROJO, Grínor. “2000 El ridículo espantoso (además de chileno) en Nocturno de Chile”. Las novelas de la dictadura y la postdictadura chilena – Quince ensayos críticos. Volumen II. 1ª ed. – Santiago: LOM ediciones, 2016.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

131119 - Diário e reflexões (Fluxo de pensamento)



Natureza linda, mesmo no inferno.

Refeição Cultural

Tenho textos para ler, muitos textos para ler. Pior, quer dizer, melhor: os textos são muito bons. São textos literários ou textos de crítica literária. Caramba! É tudo que eu queria fazer! Ler bons textos, sentir o prazer da leitura. E o pior é que está muito difícil ler no contexto desgraçado em que nos encontramos, já que somos brasileiros. O país virou o inferno após o golpe de Estado. Pior: nós descobrimos ao acordar que o brasileiro não é nunca foi e não poderia ser cordial. Cordial uma ova! Como um povo explorado, vindo da escravidão, do estupro, da desapropriação, da violência contra a mulher, contra o negro, contra as pessoas com deficiência, contra qualquer um diferente dos da laia dos da casa grande e dos seus agregados adestrados capitães do mato, conselheiros acácios, como poderíamos ser dóceis, gentis, tolerantes e solidários com outrem? Se tudo o que recebemos na vida secular foi coice, chicote, humilhação, fome, dor, estupro, arrogância, manipulação?

Funcionou o envenenamento inoculado e enfiado goela abaixo de cada um de nós pela Globo e demais lixos midiáticos que durante anos semeou, acordou e libertou o monstro que estava contido em cada animalzinho que somos desde que começamos a nascer nesta terra por estupro, violência, negócio, acordo, e raras vezes por amor e consideração. Agora somos todos bestas-feras. Estamos com raiva. Estamos sem tolerância. Não acreditamos em mais nada e ninguém. Se estamos assim, não podemos ser humanos; se humanos, não podemos ser assim. Que coisa! Somos coisa? Nossa natureza não é coisa, temos um telencéfalo altamente desenvolvido e mão preênsil, como diz o cineasta Jorge Furtado em seu clássico Ilha das flores de 1989. Mas então, que não sejamos coisa!

Enfim, em meio às notícias do inferno... advogada que publica em conta de Twitter um chamado para que estuprem e matem as filhas de algumas autoridades; invasão da embaixada da Venezuela no Brasil por milicianos e com apoio dos milicianos no poder institucional do país; publicação no Diário Oficial do fim da previdência pública para o povo pobre do país; o presidente que decreta o fim do seguro de acidente de trânsito no país (Dpvat) para se vingar de ex-parceiro de coisas e partido e dane-se o povo no trânsito; o filho do presidente que apaga as contas de redes sociais porque alguma coisa de errada deve ter nelas ou talvez seja porque ele cansou disso e quer levar uma vida mais introspectiva; bolsonarista que chuta cozinheira de restaurante; bolsonaristas que fazem vaquinha virtual pra contratar sniper pra matar o presidente Lula... enfim, notícias do inferno. A advogada que conclamou a estuprarem e matarem está livre; os mandantes do assassinato de Marielle Franco estão livres; o "deputado" que elogiou um torturador e a tortura numa sessão da Câmara em 2016 está livre; o sujeito que conclamou o povo do Acre a fuzilar petistas segue solto (foi conduzido ao posto de presidente)...

E eu que tenho que desenvolver dois trabalhos de conclusão de semestre em disciplinas de Literatura Hispano-Americana nos próximos dias, duas monografias ou dois textos argumentativos que avaliem algum aspecto ou temática que tenha chamado minha atenção nas obras de Margo Glantz e Roberto Bolaño. Tá difícil, juro pra vocês, tá difícil achar um recanto, uma reentrância desintoxicada do meu cérebro para feito tão belo, tão nobre, quanto esse da natureza humana das artes literárias...

William
Cidadão brasileiro intoxicado

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

041119 - Diário e reflexões



Livros, por que não os leio?
Por afazeres não prioritários...

Refeição Cultural

Dias que passam. Coisas que acontecem. Mudanças em andamento (o mundo está sempre mudando). Alguns preveem para onde caminhamos... suposições, pois tendências são viáveis, adivinhações não. O acaso, o imponderável, acontece. Se o impossível fosse impossível, tudo hoje seria como dantes. Enfim... estou aqui, um dos sete bilhões de humanos que respiram nesta terra.

Estou há dias fazendo um trabalho de escola, de conclusão de uma disciplina na graduação da Faculdade de Letras. Não imaginava que o evento "fazer um trabalho de escola" me colocasse a pensar tanto sobre minha vida, sobre o sentido de tudo neste momento de minha vida, quiçá neste momento do país. Que foda! As reflexões mexeram comigo. Não vi sentido no esforço de fazer o trabalho. Piorou minha situação de desencontros com os sentidos. Qual o sentido das coisas? O que fazer com esses minutos horas dias meses anos que talvez tenha pela frente?

Nesse instante um AVC paralisa ou diminui uma vida no planeta. Um infarto. Alguém ao volante olhando pro celular acaba de jogar longe um motociclista parado no semáforo (já era...). Uma bala perdida (ou mirada). Um desarranjo de reprodução celular chamado pela sociedade contemporânea de câncer está em andamento num monte de gente por aí, talvez em mim, em você. Um prédio que desaba (tá ficando tão comum). Uma bomba que cai (talvez atômica). Viver é perigoso! E viver é viver, uns dizem que viver não é preciso (navegar, sim), outros dizem que chegou um tempo em que não adianta morrer, que a vida seria uma ordem. Enfim...

Sobre os sentidos, sobre o sentido de fazer trabalho de escola e provas, no meu caso, não no de outra pessoa. No meu caso. Se eu pensar bem, vou concluir que não tem sentido o tempo que estou focando para me submeter a avaliações, eu não preciso de certificado algum, eu preciso de prazer, não de endosso sobre o que sei ou o que não sei. Assistir às aulas de literatura dá um prazer danado, é muito legal poder abrir os olhos e mente para a percepção de tudo que há nas obras. É aprender a ler melhor. Mas canudo, nesta fase de minha vida? Não tem sentido. Se fosse possível, seria ouvinte de salas de aulas a vida toda, porque as explicações e interpretações dos mestres, as referências e bibliografias e roteiros de leituras possíveis são sugestões fantásticas de pesquisas para engrandecimento pessoal.

Por outro lado, o que estou falando pode incentivar a pregação da ignorância terraplanista dos tempos de ultradireita. É um dilema, porque os tempos são de pregação da ignorância olavista. Um imbecil que desfaz da educação formal, se diz sabedor de tudo e não sabe porra nenhuma e tem uma legião de seguidores; ampliou-se a tendência das bolhas de redes sociais, virtuais ou não, em que as pessoas de todas as classes sociais e grupos de afinidades passam a entender como verdade aquilo que pensam e não as coisas como são. 

E saber que nada sabemos talvez seja a maior proximidade que tenhamos com a verdade, sabermos que somos muito ignorantes, que não temos noções basilares de quase nada do conhecimento humano, que somos muito carentes de educação formal, de professores e mestres que nos abram os olhos, iluminem nossas ideias e nos deem oportunidades de crescimento intelectual.

Voltando a mim, que saco toda essa conclusão a que cheguei! Quando olho para trás, quando vejo minha natureza, percebo que tudo tem ligação, tudo. Eu não gosto de me enquadrar em exigências periféricas que avalio serem menos importantes que os conteúdos. Não querer usar uma vestimenta numa função social não tira a capacidade da pessoa de exercer aquilo que deve exercer; nunca quis usar gravatas no Banco do Brasil e também não achei que usar terno fosse relevante para ser diretor de uma das maiores entidades de saúde do país. 

Meus conhecimentos, minhas ideias e minha prática são mais importantes que a casca. Da mesma forma, o conteúdo de um trabalho de monografia é mais importante do que aquelas mil exigências de margem, tamanho de fonte, forma de citar, ABNT etc. Inclusive, o conteúdo próprio do aluno deveria ser mais importante que a opinião dos autores e críticos famosos (na minha opinião de um dos sete bilhões). Eles já são consagrados e não deveriam inibir as divergências dos alunos. Enfim...

Que fazer, que fazer nesses instantes dias meses quiçá anos que ainda tenho, sem contar com balas perdidas, AVC, cânceres, prédios, bombas, fascistas? Que fazer? 

Há semanas penso num texto do escritor chileno Roberto Bolaño, que faleceu novo, aos 50 anos, onde ele refletia sobre literatura e enfermidade - "Literatura + enfermidad = enfermidad" -, contido no livro El gaucho insufrible, finalizado em 2003. 

Deixo a citação do excerto que tanto me abalou e que me tem feito pensar sobre os sentidos de tudo:

"ENFERMEDAD Y KAFKA

Cuenta Canetti en su libro sobre Kafka que el más grande escritor del siglo XX comprendió que los dados estaban tirados y que ya nada le separaba de la escritura el día en que por primera vez escupió sangre. ¿Qué quiero decir cuando digo que ya nada le separaba de su escritura? Sinceramente, no lo sé muy bien. Supongo que quiero decir que Kafka comprendía que los viajes, el sexo y los libros son caminos que no llevan a ninguna parte, y que sin embargo son caminos por los que hay que internarse y perderse para volverse a encontrar o para encontrar algo, lo que sea, un libro, un gesto, un objeto perdido, para encontrar cualquier cosa, tal vez un método, con suerte; lo nuevo, lo que siempre ha estado allí" (BOLAÑO, p. 129). 

----------------------------

E PENSAR QUE após essa postagem, vou pegar o trabalho de quase 30 páginas e reler e colocar um pouco das exigências de normas de apresentação de trabalhos (cada não cumprimento tira 1 ponto ou 0,5 ponto na nota). Engraçado, se o meu trabalho estiver com um conteúdo razoável e eu não cumprir umas 5 ou 6 exigências técnicas, ele vai valer de 5 a zero, e não de 10 a zero. Na boa, acho isso uma coisa sem sentido!

Enfim, o que tem sentido nos dias que correm?

E PENSAR AINDA que após uma jornada de dedicação a autogestão em saúde na qual fui diretor eleito, ainda terei que me manifestar (ou não) nos próximos dias sobre uma consulta que haverá e que vai influenciar nos destinos da entidade e dos associados dela e dos trabalhadores do Banco do Brasil...

Bibliografia:

BOLAÑO, Roberto. El gaucho insufrible. Alfaguara. Primera edición: España, 2017.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

091019 - Diário e reflexões (Fluxo de pensamento)



Meu fígado, num momento
de extremo estresse...

Refeição Cultural

E o tempo passa. Passa a cada segundo. E não volta mais. O coração batendo do jeito que pode. Não sabemos se as artérias e veias estão nos seus perfeitos estados de dutos que transportam as matérias necessárias a nossa vida a todos os pontos do corpo que alimentam: células das mais diversas funções. Ter estudado por quase dois anos as matérias teóricas e práticas das áreas biológicas de um curso de graduação de Educação Física foi algo revelador a respeito da natureza humana para este ser animal que reflete neste instante. Muito do que sou foi forjado naquele período de experiência prática da vivência diária. Quando as aulas começaram, eu não me lembrava de absolutamente nada dos velhos estudos de ciências do colegial. Já estava com vinte e sete anos e trabalhava como bancário. Havia me formado em Ciências Contábeis. Ao ouvir uma aula sobre célula fiquei perdido. Mas o ser humano é capaz de fazeres espetaculares. Qualquer ser humano. Eu busquei em casa um livro antigo daqueles de biologia para o 2º grau e li as centenas de páginas como se fosse um livro de ficção científica, um romance literário. Em poucos dias, eu já estava acompanhando as aulas no mesmo nível ou melhor um pouco em relação aos meus colegas de classe, a maioria na faixa etária dos vinte anos. Mitocôndrias, núcleo da célula, ribossomos, lisossomos e elementos do tipo já não eram bichos estranhos para mim. Depois fui conhecer o corpo humano, aprender de verdade sobre a vida de um ser animal humano. Foi algo modificador do que eu era até aquele instante. Eu me lembro da primeira vez que entramos no laboratório de anatomia. O professor fez um discurso inicial para nós, e havia um cadáver em cima de uma mesa. Estava coberto com um plástico e não dava para vê-lo. O professor nos disse que teríamos que ter muito respeito pelo corpo que ali estava. Aquele corpo havia sido uma pessoa que viveu como qualquer um de nós e que era necessário muito respeito ao estudarmos nele para conhecer o corpo humano. O professor retirou o plástico e nos deixou à vontade durante aquela primeira aula prática para tocarmos o corpo, para nos acostumarmos com aquele ambiente onde passaríamos o ano estudando anatomia humana. Quando eu olho para trás, acho que aqueles momentos foram marcantes para mim em relação a me modificar como ser humano. Eu não fazia parte ainda do movimento sindical de forma orgânica e nas aulas de Educação Física comecei a me humanizar mais que antes daquela experiência. Eu era muito duro, muito rude, como a vida havia me feito. Quanto tempo! Já se passaram mais de duas décadas. Diversas mudanças de rotas fizeram parte da minha jornada. Diversas mudanças de rotas fizeram parte da jornada do Brasil e dos brasileiros. Diversas mudanças de rotas estão a caminho de minha vida e da vida do país e do povo deste país. E isso tudo não é nada para a grandeza do planeta que habitamos, para a grandeza do tempo, para a grandeza do Universo. Tudo isso é um nada. Mas eu estou aqui. Ainda estou aqui. O sangue circula nas minhas artérias e veias. É provável que esteja mais espesso. Não sei como andam minhas células, o número de mitocôndrias nelas. Meu coração bate umas sessenta e cinco vezes por minuto. A gente diz que o coração está triste, mas na verdade esse sentimento vem de outros órgãos. Mas também é verdade que esse e outros sentimentos afetam o bater do coração e as condições das artérias e veias que transportam os materiais necessários ao funcionamento do corpo que nos mantém como seres vivos. Essa reflexão foi um pouco parecida com o fluxo de pensamento que alguns escritores diferenciados produzem com seus personagens em obras fantásticas de ficção. James Joyce fez isso em Ulisses (1922), quando Molly Bloom, a esposa de Leopold Bloom, colocou-se a pensar por quase cinquenta páginas em algo nunca visto numa obra literária. Agora estou lendo o mesmo procedimento noutra obra de um autor também diferenciado, Roberto Bolaño. Lá se vão mais de cinquenta páginas de fluxo de pensamento de um personagem na obra Nocturno de Chile (2000). Sebastián Urrutia Lacroix está refletindo sem parar, buscando lembranças e explicações nos cantos da memória ("rebuscaré en el rincón de los recuerdos aquellos actos que me justifican..."). Enfim, o sangue circula, ainda que mais espesso, circula porque o coração bate, ainda que mais triste. Estou vivo! E aprendendo ainda... quiçá buscando justificativas nos rincões da memória...

William

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Leitura: Chamadas telefônicas (1997) - Roberto Bolaño





Refeição Cultural

A leitura deste romance de Roberto Bolaño está sendo feita no contexto de estudos sobre o autor em uma disciplina na graduação da Faculdade de Letras, da FFLCH, na Universidade de São Paulo. Na noite de hoje terei aula com a professora Laura Hosiasson sobre o conto El Gusano. Na aula passada, discutimos a respeito do primeiro conto do romance, Sensini.

A matéria e as aulas são muito legais e despertou em mim o desejo de ler toda a obra do escritor. Já adquiri vários livros dele e comecei a lê-los.


O Verme - (El Gusano)

Informações relevantes e frases do conto

O conto O Verme abre a segunda parte do livro, que está dividido em três partes - Chamadas telefônicas, Detetives e Vida de Anne Moore - e a história se passa na Cidade do México (DF); o narrador tem 16 anos e se chama Arturo Belano, um alter ego do escritor Bolaño.

- O jovem narrador faltava às aulas para perambular por livrarias e ir ao cinema.

- A atriz citada no conto é personagem da vida real, atriz mexicana, Jacqueline Andere.

- O narrador faz referência ao livro A queda, de Albert Camus.

- No autógrafo da atriz, feito no livro de Camus, está escrito: "Para Arturo Belano, um estudante liberado, com um beijo de Jacqueline Ambere." (p. 78)

- O Verme e o narrador têm origens comuns num lugar chamado Sonora. O narrador, de Santa Teresa, o Verme, de Villaviciosa.

Frases

- "Parecia um verme branco, com seu chapéu de palha e um cigarro de Bali pendurado no lábio inferior" (p. 73)

- "Era, constatei, um animal de costumes, tal como eu" (p. 73)

- "Se não tinha dinheiro, como acontecia com frequência, costumava roubá-los indistintamente numa ou noutra" (sobre livros e livrarias, p. 74)

- "A ruiva é mais moça, é mais inocente, é mais irresponsável; isto é, mais feliz" (p. 74)

- "Sua flacidez, apesar de tudo, era mais de ordem moral do que física" (p. 79)

- "Dos pátios escapava um mau cheiro que às vezes era insuportável. Disse que era insuportável para a alma, inclusive para a falta de alma, inclusive para a falta de sentidos" (p.  83)

- "Uma vez perguntei de que tipo de mulheres gostava (...) Por fim disse: tranquilas. E depois acrescentou: mas só os mortos estão tranquilos. E ao fim de um instante: nem os mortos, pensando bem" (p. 85)

O final do conto me pareceu triste, me transmitiu resignação a respeito da vida, uma vida humana de encontros e desencontros, de chegadas e partidas.

------------------------------

A Neve

Início e informações sobre o conto:

"Eu o conheci num bar da rua Tallers, em Barcelona, deve fazer uns cinco anos. Quando soube que eu era chileno veio me cumprimentar, ele também havia nascido naquelas bandas." (p. 86)

Um dos personagens se chama Rogelio Estrada e tem trinta e poucos anos, como o próprio narrador, o outro personagem.

Rogelio pergunta se o narrador tem tempo para ouvir sua história e assim começa o conto. Vai contar que é filho de liderança do Partido Comunista do Chile e que foi para a União Soviética após o golpe de Estado.

Na URSS: "Naquela época eu me fazia chamar Roger Strada". (p. 90)

Duas Moscou:

"Meu pai morava numa Moscou de papéis e memorandos, Moscou dos burocratas com ordens, contraordens, temas do dia, rixas internas, ódios internos, uma Moscou ideal. Eu vivia numa Moscou de drogas e prostituição, mercado negro e alegria, ameaças e crimes." (p. 90)

Os personagens no conto, Roger e Natália, apreciam a obra do escritor russo de origem ucraniana Mikhail Burgákov.

O mafioso para quem Roger trabalha, Misha Pavlov, é grande leitor de escritores russos como Dostoiévski, Tchékhov, Gógol e outros mais.

A história dentro da história termina de forma surpreendente. O conto termina ao estilo de Bolaño.

Frases

- "Seu sorriso parecia permanentemente instalado entre o espanto e a malícia" (p. 86)

- "Quando mostrei o diploma a meu pai, rolaram no rosto do velho lágrimas de emoção. Acho que foi aí que acabou minha adolescência" (p.89)

- "Depois de meia hora de felicidade me dei conta de que estava apaixonado. Era a primeira vez que isso me acontecia" (p. 94)

- "Veja como são as coisas: tudo me pareceu bem, então, tudo me pareceu conforme (como dizia meu pai), respirando com força, tranquilo, livre" (p. 99)

------------------------------

Sigo com a leitura dos contos deste romance de Roberto Bolaño.