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sábado, 30 de agosto de 2025

O sentido da vida (8)



"Sentia-me três vezes desgraçado: meu pelo era mosqueado, haviam-me castrado e os homens imaginavam que eu não pertencia a Deus nem a mim mesmo, como é próprio de todo ser vivente, e sim, a um cavalariço." (Kolstomer - História de um cavalo, Tolstói, 1886)


As relações sociais dão sentidos ao viver


Qual seria o sentido da vida, se não há nada dessas abstrações inventivas do animal humano, aquele que dominou a natureza, inventou a linguagem e ao final se perdeu acreditando em suas próprias abstrações?

Passou o dia envolvido com um texto extraordinário do século XIX, criado por um dos maiores escritores da Rússia, Leão Tolstói. No enredo, o narrador nos conta a história de Kolstomer, um cavalo que sofreu preconceito, violência e abandono, algo comum na vida de milhões de pessoas neste mundo cruel.

A leitura definitivamente é uma das invenções humanas que podem contribuir para dar significados à vida das pessoas. Ler literatura, ciências e história permite aos leitores se libertarem da triste sina da ignorância, o principal motivo para milhões de animais humanos serem escravos manipulados por espertalhões. 

Naquele dia, refletiu sobre muitas coisas, todas elas ligadas ao sentido da vida: ao parabenizar seu pai pelo aniversário de 83 anos, agradeceu a ele por tudo que fez para todas as pessoas que ele ajudou a se estabelecerem neste mundo cruel e injusto.

Ainda estava pensativo sobre o sentido da vida do personagem Kolstomer... mas o sentido da vida de seu pai, e de sua mãe, e de sua própria vida era mais compreensível àquela altura da existência. 

É notório o sentido de complementaridade e de interdependência que existe na vida da espécie humana na natureza. A vida de seu pai contribuiu para a existência de muitas pessoas da família, assim como sua própria vida naquele momento. 

O ser humano é um ser social por natureza. As relações nos dão sentido.

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sexta-feira, 18 de abril de 2025

Livro: A morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstói



Refeição Cultural 

"'Aí está, morreu; e eu não' - pensou ou sentiu cada um. Quanto aos conhecidos mais próximos, os assim chamados amigos de Ivan Ilitch, pensaram então involuntariamente também que precisavam, agora, cumprir umas obrigações muito cacetes, ir às exéquias, e também fazer uma visita de pêsames à viúva." (A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói, 2015, p. 9)


Peguei Lev Tolstói para ler novamente a história de Ivan Ilitch.

Estou me sentindo meio Ivan Ilitch. Deve ser por isso que peguei Lev Tolstói. 

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O primeiro capítulo já começa contando aos leitores que Ivan Ilitch morreu. Deu no jornal. 

As pessoas da relação cotidiana no trabalho de Ivan Ilitch souberam da notícia e tiveram que fazer as exéquias ao morto e família. 

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No segundo capítulo, conhecemos a história de Ivan Ilitch: 

"um homem capaz, alegre, bonachão, comunicativo, mas um severo cumpridor daquilo que considerava seu dever; e considerava como seu dever tudo aquilo que consideravam como tal as pessoas mais altamente colocadas. Não era um adulador quer quando menino, quer já homem feito..." (p. 18)

Ivan Ilitch cresceu profissionalmente, casou-se, formou família. 

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"(...) Quando a instalação ia em meio, já superava a sua expectativa. Compreendeu o caráter comme il fault, elegante, nada vulgar, que tudo assumiria depois de pronto. (...) De uma feita, subiu numa escadinha, a fim de mostrar ao forrador de paredes, que não o estava compreendendo, como ele queria o serviço, tropeçou e caiu, mas, sendo forte e ágil, conseguiu segurar-se e chocou-se apenas de lado com o ressalto de uma moldura. O machucado lhe doeu, mas a dor passou logo. Durante todo esse tempo, Ivan Ilitch sentia-se particularmente alegre e com saúde..." (p. 30/31)

E então, certo dia, Ivan Ilitch sofre um pequeno acidente doméstico, uma queda. Aparentemente, sem consequências, deixando nele um pequeno hematoma na região. 

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Os prazeres 

"(...) Quanto aos prazeres de Ivan Ilitch, consistiam nos pequenos jantares, para os quais ele convidava senhoras e cavalheiros de elevada posição social, e essa maneira de passar o tempo com eles assemelhava-se à maneira habitual pela qual estes o passavam, de tal modo como a sua sala de visitas assemelhava-se a todas as salas de visitas." (p. 34)

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As alegrias 

"(...) As alegrias no serviço eram alegrias do amor-próprio; as alegrias em sociedade eram alegrias da vaidade; mas as verdadeiras alegrias de Ivan Ilitch eram as do uíste..." (p. 34/35)

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A doença 

"- Nós, doentes, provavelmente fazemos ao senhor muitas vezes perguntas inconvenientes. Num sentido genérico, é uma doença perigosa ou não?...

O médico olhou-o com severidade, com um olho só, por trás dos óculos, como se dissesse: acusado, se o senhor não se mantiver nos limites das perguntas que lhe são apresentadas, serei obrigado a tomar providências para o seu afastamento da sala das sessões..." (p. 38)

Com o passar do tempo, Ivan Ilitch se torna uma pessoa irritadiça, com certo gosto amargo na boca e indisposição às refeições. 

Isso afeta as relações de todos na família. 

Ivan Ilitch sente na consulta com o médico famoso o que imagina (agora na condição subalterna) sentir as pessoas sob seu crivo quando está exercendo sua autoridade de juiz: um bosta.

Saiu da consulta sem saber se era grave ou não o que tinha.

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Caio é mortal... mas Ivan também?

"O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógica de Kiesewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e nesse caso era absolutamente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais, ele era Vânia (diminutivo de Ivan), com mamãe, com papai..." (p. 49)

Os médicos divergiam quanto ao diagnóstico da doença de Ivan Ilitch (lembrando que estamos na década de 1880).

Segundo alguns diagnósticos, o problema poderia ser no ceco. 

O ceco é uma das partes do intestino grosso, órgão composto pelos cólons ascendente, transverso, descendente, sigmoide, reto e ânus. O ceco fica ao lado do apêndice. Imaginem o tratamento do sistema digestório no século XIX...

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Acolhido pelo mujique Guerássim

"(...) via que ninguém haveria de compadecer-se dele, porque ninguém queria sequer compreender a sua situação. Guerássim era o único a compreendê-la e a compadecer-se dele..." (p. 56)

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O silêncio constrangedor (e o blá blá blá da mentira)

"No meio da conversa, Fiódor Pietróvitch lançou um olhar a Ivan Ilitch e calou-se. Os demais olharam o doente e calaram-se também. Ivan Ilitch dirigia para frente os seus olhos brilhantes, provavelmente indignação com todos. Precisava-se consertar isto, mas não havia nenhum jeito de consegui-lo. Devia-se de algum modo romper aquele silêncio. Ninguém se decidia, e todos estavam com medo de que de repente fosse rompida a mentira decente, e se tornasse claro a todos aquilo que na realidade existia..." (p. 64)

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O fim

A novela caminho para o fim, ou seja, o início: a morte de Ivan Ilitch. 

O ser humano moribundo vivência seus últimos momentos na Terra. 

Tolstói descreve de maneira única e sensível os últimos dias de um moribundo. 

Eu fico por aqui na postagem. A riqueza de detalhes fica para cada leitor(a).

Foi minha terceira leitura de "A morte de Ivan Ilitch" (1886).

Ando me sentindo meio Ivan Ilitch... espero viver bastante e ter um fim diferente do fim do personagem clássico.

William 


Bibliografia:

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman. Texto em apêndice: Paulo Rónai. São Paulo: Editora 34, 2009 (2a edição).

sábado, 15 de janeiro de 2022

43. As três irmãs / Contos - Anton Tchekhov



Refeição Cultural - Cem clássicos

Finalizei a leitura do livro de Anton Tchekhov (1860-1904) que tenho em casa. Considero que o escritor russo é um autor clássico e com isso contabilizo a leitura do livro dentro de minhas leituras de clássicos da literatura mundial. Foi o 2º livro do ano.

Entre leitura atual e leituras anteriores, praticamente li o livro duas vezes. A primeira leitura do drama As três irmãs (1901) foi em novembro de 2006. Eu era estudante de Letras na USP. Refiz a leitura nesta semana. 

AS TRÊS IRMÃS

Achei a postura daquelas personagens da família Prosorov uma boa alegoria de parte do povo brasileiro situado nas chamadas classes médias, um povo sem ação, crédulo em soluções miraculosas para problemas reais, uma gente que espera que as coisas aconteçam independente de ações pessoais e que as mudanças esperadas lhe caiam do céu. Fiz uma postagem dias atrás na qual falo um pouco sobre o drama (ler aqui).

Os contos são muito bons apesar de ter achado alguns longos demais e cansativos para o leitor. Mas a qualidade de Tchekhov na forma de narrar é inegável.

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O BEIJO

O conto "O beijo" é muito interessante! É um conto de 1887. Um batalhão do exército acampa próximo a um daqueles casarões da fidalguia russa durante exercícios militares e alguns líderes são convidados a tomar chá no casarão.

Tchekhov trabalha a hipocrisia e os jogos de cenas e aparências da burguesia russa. Ao mesmo tempo mostra o povão levando a vida, no caso deste conto os soldados, que sonham com prazeres e com uma vida melhor alcançando a posição daqueles sujeitos da burguesia. 

Ler aqui comentário que fiz da leitura anterior.

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KASCHTANKA (RELATO)

Uma graça esse conto cuja personagem principal é uma cadelinha com cara de raposinha. Adorei a narrativa. O conto de 1887 tem momentos dramáticos e momentos leves. 

A personagem principal se perde de seu dono e leva uma vida em outro ambiente, onde vai viver aventuras estranhas em sua vida de cachorra.

Para leitura de comentário que fiz sobre o conto, ler aqui.

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VIÉROTCHKA

Esse conto de 1887 traz uma história de amor não correspondido. Para ler o comentário que fiz na leitura anterior, clique aqui.

Em quase todas as narrativas, Tchekhov descreve cenas ou ações de leitores e leitoras e leituras. No drama As três irmãs, o escritor faz críticas severas aos autores russos de seu tempo, depõe contra as obras deles.

Neste conto vemos a descrição de uma personagem leitora. Tchekhov é duro com a personagem.

"Diante de Ogniov, estava a filha de Kuznietzov, Viera, moça de vinte e um anos, geralmente triste, descuidada no trajar e interessante. As moças que devaneiam muito e passam dias inteiros deitadas, lendo tudo o que lhes vêm às mãos, que se enfadam e entristecem, vestem-se geralmente com desleixo..." (p. 151)

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UMA CRISE

Neste conto de 1888, um jovem sai com outros dois amigos e vão para a zona do meretrício, o bordel. A noitada leva o rapaz a ter sentimentos de culpa e o desejo de salvar todas as mulheres naquela condição de prostituição. A partir daí vemos tudo o que acontece na narrativa. O ponto de vista do narrador aborda questões religiosas e posturas bem machistas, condizentes com a época.

"'Como tudo é pobre e estúpido!', pensou Vassíliev. 'Em toda esta miuçalha que vejo agora, o que pode tentar um homem normal, incitá-lo a cometer o terrível pecado de comprar por um rublo uma pessoa viva? Eu compreendo qualquer pecado cometido por causa de brilho, beleza, graça, paixão, gosto, mas o que existe aqui? Em prol do que se cometeu aqui pecados? Aliás... não se deve pensar!'" (p. 165)

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UMA HISTÓRIA ENFADONHA DAS MEMÓRIAS DE UM HOMEM IDOSO

Outra narrativa grande, cinquenta páginas. Boa estória. O enredo lembra um pouco o clássico de Tolstói, A morte de Ivan Ilitch (1886). A narrativa de Tchekhov é de 1889. Ler comentários sobre o conto aqui.

O personagem é um professor, um homem de ciências, e a narrativa tem bons momentos filosóficos. Bem atual para os tempos de negacionismo que vivemos no século XXI. O enredo mostra também as hipocrisias das classes médias e burguesas e o mundo das aparências. A família deve 5 meses de salários ao funcionário da casa e manda rios de dinheiro para complementar renda do filho que está no exterior. A família está quebrada, mas a filha faz aulas de piano etc.

Teria muitas citações interessantes pra fazer, mas daria muito trabalho para concluir a postagem.

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ENFERMARIA Nº 6

Ao ler "Enfermaria nº 6", de Tchekhov, é inevitável a lembrança da complexa questão dos manicômios e casas de repouso para pessoas indesejáveis nas famílias e nas sociedades humanas. O conto é de 1892. Para ler comentários sobre o conto clicar aqui.

Um pouco antes, em 1881, o nosso Mestre do Cosme Velho, Machado de Assis, publicava no Brasil o conto O alienista, nos contando sobre os residentes ou pacientes da Casa Verde, governada pelo doutor Simão Bacamarte. 

O tom irônico no estilo de Machado não tem relação com a narrativa dramática de Tchekhov sobre os residentes do pavilhão nos fundos do hospital local deste conto, mas o tema tem semelhanças. 

Como lidar com doentes, com pessoas que não se enquadram nos padrões determinados pelos pensamentos hegemônicos nos meios sociais existentes? Quem é louco e quem não é? Quem define quem é louco?

Outra boa referência sobre essas casas de reclusão é o filme brasileiro Bicho de Sete Cabeças (2000), filme estrelado por Rodrigo Santoro e dirigido por Laís Bodanzky. O tema é duro, duríssimo!

O final do conto, uma novela eu diria, é surpreendente!

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Enfim, lidos 7 textos de Tchekhov! Vamos ver quantos autores vou ler neste ano que começa. Alguns autores e autoras serão leituras de primeira vez.

William


Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.

sábado, 12 de junho de 2021

120621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Eu não estava interessado nos Hell's Angels, mas a questão mais ampla que me preocupava era se nós tínhamos, como Strini havia sugerido, nos prendido a uma forma de pensar que já não era mais revolucionária..." (MANDELA, 2012, p. 612)


Temos que pensar de forma revolucionária, temos que ter utopias!

Sábado, 12 de junho. Quando me levantei pouco depois das 6 horas da manhã, o dia estava com uma neblina rara de se ver. Queria terminar mais um capítulo da autobiografia de Nelson Mandela e às 7h já estava no texto.

Ontem, ouvi também um bate papo entre o jurista Pedro Serrano, o historiador Fernando Horta e o linguista Gustavo Conde que me deixou muito pensativo. Ouvir Pedro Serrano não é qualquer coisa para um militante de esquerda e para alguém que luta por justiça social. 

Serrano disse em suas reflexões que o tempo atual é de completa superficialidade nos pensamentos e nos conceitos, nos objetivos e nas questões contemporâneas. A esquerda e a direita são extremamente superficiais. E ele tem razão, na minha opinião. As causas são sempre focadas nas questões emergenciais e não há projetos com engajamentos para médio e longo prazo.

Ao ouvi-lo argumentando sobre a superficialidade das pessoas e dos projetos e objetivos das forças políticas e sociais, concordei com ele que precisamos recuperar os projetos e causas que nos norteiem o futuro coletivo, que nos apontem caminhos para salvar a humanidade e o mundo onde vivemos. Estamos falando em utopias! O que nos move? A que mundo pertencemos? 

Aí pego os exemplos tirados da leitura da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. A libertação do povo negro sul-africano e o fim do regime racial do apartheid só foi possível porque havia um projeto de futuro, coletivo, de todo um povo, que sofria e que queria mudar aquilo, queria a liberdade, a igualdade, queria usufruir tudo o que a terra pode oferecer a um povo e tudo o que a humanidade criou. E a luta em busca desse sonho, desse objetivo, durou décadas.

Repito a preocupação de Mandela, que citei acima: será que nossa forma de pensar já não é mais revolucionária? Nos acostumamos às merdas com as quais estamos lidando? Não sonhamos mais mudar a realidade?

Isso é sério! Temos que pensar a respeito disso, avaliar com franqueza qual tem sido o sentido de nosso viver e tomar decisões sobre o que queremos pessoal e coletivamente, para nós e para o mundo no qual vivemos.

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Tenho pensado a respeito disso, mesmo aos 52 anos de idade, mesmo fora do movimento organizado de lutas sociais ao qual participei por duas décadas. Avalio que estamos pensando de forma superficial, sim. Todos nós da esquerda. E não acho que vamos mudar a nossa história se não tivermos um projeto de mundo, de humanidade, de vivência para as próximas décadas e estratégias e táticas desenvolvidas para chegarmos lá; o "nós" aqui, o plural majestático, é porque estou falando de nós, nós humanos, nós humanidade, nós seres vivos.

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METÁFORA DA HORTA

"Uma horta era uma das poucas coisas na prisão que se podia controlar. Plantar uma semente, observá-la crescer, cuidar dela e então colhê-la, proporcionava uma satisfação simples, porém duradoura. A sensação de ser o zelador de um pequeno pedaço de terra oferecia um pequeno gosto de liberdade.
  De certa forma, eu via a horta como uma metáfora para certos aspectos da minha vida. Um líder também deve cuidar da sua horta; ele também planta sementes, e então observa, cultiva e colhe o resultado. A exemplo do jardineiro, um líder deve se responsabilizar pelo que cultiva; ele deve ocupar-se com seu trabalho, tentar repelir os inimigos, preservar o que pode ser preservado, e eliminar o que não pode prosperar.
" (p. 597/98)


Profunda essa metáfora que Mandela usa. Em certas situações na vida temos pouca ou nenhuma capacidade de controlar os acontecimentos. Mas sempre há coisas que podemos controlar minimamente, como nosso comportamento, por exemplo. Nossas atitudes são provocadas pelo mundo exterior a nós, é verdade, mas desenvolver técnicas e capacidade de controlar nossas atitudes é algo fundamental para um militante de esquerda e um lutador das causas sociais. Soube que isso é possível ao ser dirigente e líder das lutas dos bancários, negociador e gestor de entidades de classe.


O ENSINAMENTO EM "GUERRA E PAZ"

"Um livro que li muitas vezes foi o grande trabalho de Tolstói, Guerra e Paz (apesar de o título conter a palavra guerra, este livro era permitido). Fiquei particularmente fascinado pela descrição do General Kutuzov, a quem todos na corte russa subestimaram. Kutuzov derrotou Napoleão precisamente porque não foi seduzido pelos valores superficiais e efêmeros da corte, e tomou suas decisões com base em uma compreensão visceral de seus homens e seu povo. Isso me lembrou novamente que, para realmente liderar o seu povo, a pessoa deve também verdadeiramente conhecê-lo." (p. 601)


Outro grande momento do livro de Mandela foi essa passagem na qual ele cita uma obra clássica da literatura mundial, seus personagens e a vida real. Aliás, a citação fala da superficialidade da vida na corte, assim como Pedro Serrano dos tempos que correm.

"para realmente liderar o seu povo, a pessoa deve também verdadeiramente conhecê-lo"

Amig@s, essa é uma questão crucial. Por quase duas décadas fui dirigente sindical e por esse mesmo período de militância fiz trabalho de base junto aos trabalhadores que representava. Nunca deixei de estar nos locais de trabalho porque não conseguiria realizar nada das lutas que empreendi se não estivesse em relação aberta e franca com as pessoas que representava e, é claro, se não tivesse objetivos e utopias a perseguir e nortear meu caminho.

É isso.

Temos que ter utopias, temos que deixar de sermos superficiais, temos que desenvolver projetos e estratégias para salvar o planeta Terra e a humanidade. Entendo que essa é uma tarefa da esquerda. É uma tarefa que não vai a lugar algum sem o engajamento dos jovens e a participação das demais gerações que aqui estão.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


sexta-feira, 16 de outubro de 2020

5. A morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstói



"'Será possível que eu me tenha enfraquecido tanto mentalmente? - disse de si para consigo. - Bobagem! É tudo tolice, não devo entregar-me à hipocondria e, tendo escolhido determinado médico, preciso seguir estritamente o seu tratamento. É assim que vou agir...' (...) Era fácil dizê-lo, mas impossível executar. A dor do lado não cessava de atormentá-lo, parecia cada vez mais forte, tornava-se permanente, o gosto na boca era cada vez mais esquisito, estava com a impressão de ter hálito asqueroso, e cada vez tinha menos apetite, menos forças. Não podia mentir a si mesmo: acontecia nele algo terrível, novo e muito significativo, o mais significativo que lhe acontecera na vida. E era o único a sabê-lo, todos os que o cercavam não compreendiam ou não queriam compreender isso, e pensavam que tudo no mundo estava como de costume. E isto atormentava Ivan Ilitch mais que tudo..." (TOLSTÓI, 2007, p. 41)


Refeição Cultural - Cem clássicos

Estou fazendo um apanhado geral das leituras de livros clássicos que li ao longo da vida. 

O momento no qual nos encontramos é propício para isso, porque a vida parou após o aparecimento da pandemia mundial de Covid-19. O mundo parou. Depois recomeçou. E o novo "normal" não é normal, é uma porcaria. 

De certa forma, os avanços sociais que haviam sido conquistados em décadas e séculos de lutas dos povos retrocederam em favor dos poucos donos do mundo, os capitalistas. 

Presos à nova realidade, aqueles que têm como se manter, têm uma oportunidade de preencherem o espaço de seus tempos ociosos com coisas desse tipo - ler, escrever, criar, organizar coisas domésticas -, coisas a serem feitas no espaço de seus lares, confortáveis lares em geral, já que os que podem fazer isso são a minoria das minorias. 

A maioria esmagadora precisa estar na rua, buscando uma forma de sobreviver, está lá fora com o vírus e com a violência do necrocapitalismo. Todos - privilegiados e desassistidos de tudo - estão sob o risco da morte morrida, aquela de AVC, infarto, câncer, doenças tratáveis e não tratadas, acidentes fatais etc. A maioria pobre e sem direitos sociais, porém, está sob o risco da morte matada, que são diversas as formas, e cujos responsáveis são, via de regra, os donos do poder.

Enfim, a postagem é para apurar minhas leituras clássicas. 

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Li A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, três vezes. Cada leitura contou com um contexto e com um leitor diferente. Como escrevi neste blog as impressões das três leituras, fiquei surpreso ao reler a postagem de cada uma delas. Muito interessantes!

A primeira leitura, em 2008, foi motivada pela história do jovem Chris McCandless, que ficou conhecido postumamente após vir a público sua aventura no Alaska, através do livro e do filme Na natureza selvagem. Nosso nobre Alex Supertramp, nosso superandarilho, tinha alguns livros contigo durante suas andanças e busca de felicidade. A morte de Ivan Ilitch era um deles. Eu fiquei acabado, destruído e demorei a me recuperar após ver o filme e ler o livro sobre Chris McCandless. Para ler a postagem é só clicar aqui.

Na segunda leitura, em 2012, eu havia concluído que precisava reler o clássico de Tolstói porque percebi que não havia fixado na memória as questões principais da novela sobre o senhor Ilitch. Minha sobrinha havia me perguntado sobre a obra e eu não soube falar a respeito dela. Também não tinha tanto encantamento pela novela quanto meus companheiros do movimento sindical. A releitura foi muito boa pelo que se percebe na postagem. Ler aqui.

A terceira vez que li a novela foi em 2017, eu era dirigente e gestor de saúde. Meu olhar na leitura teve muito dessa nova experiência que eu havia incorporado em minha vida. Também foi uma leitura bastante interessante. Ler comentário aqui.

É isso. Pelo que percebi, cada vez que abordo uma leitura clássica já realizada, buscando sentimentos e lembranças nas anotações e nas dobras da memória, vejo que ela teve alguma importância para mim, tendo consciência ou não a respeito dos efeitos da leitura. Os teóricos e críticos literários falam sobre isso, que as grandes obras nos marcam, independente de lembrarmos delas lá na frente ou não.

William


Bibliografia:

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34, São Paulo, 2007.


domingo, 6 de setembro de 2020

De homens e cavalos



Leão Tolstói.

Refeição Cultural

Quase nunca lembro sonhos ou pesadelos. Quase. Desta vez, tive um pesadelo e me lembro dele. Foi forte a cena, um horror! Um homem rasgava o próprio pescoço e nos olhava enquanto o sangue jorrava... despertei.

De manhã, ao acordar, me dei conta que o sonho ruim foi ainda consequência da leitura da noite anterior. Fiquei bastante impressionado com o conto de Tolstói: Kolstomer (História de um cavalo), escrito entre 1863 e 1886. Terminada a leitura da história daquele cavalo de raça malhado, fiquei com a cabeça a mil. Eu já havia lido o conto em 2008, mas não me lembrava dele.

"Sim, sou filho de Liubesni I e de Baba. Meu nome de linhagem é Mujique I. Sou Mujique I e, para os da rua, Kolstomer, assim apelidado pelo vulgo em razão de minha marcha ampla, que nunca teve igual em toda a Rússia. Não há no mundo um cavalo de sangue mais nobre que o meu..."

Em linhas gerais, o conto narra a história de um cavalo de raça, que nasce com a cor da pele diferente da de seus pares (nasceu mosqueado, malhado) e sua vida será marcada e definida por isso: a cor de sua pele. E ele terá uma vida desgraçada, mesmo sendo de linhagem nobre.

Tolstói faz várias críticas à sociedade a partir da história do cavalo Kolstomer. O escritor dá voz ao cavalo e as reflexões do animal em relação ao animal humano são profundas, duríssimas e mais atuais que nunca. O animal humano capitalista é colocado em seu devido lugar pelo animal cavalo.

Os humanos levam suas vidas baseadas na lorota, no faz de conta, na palavra e não através de fatos. É aquela lição de Cazuza "Suas ideias não correspondem aos fatos...". As principais palavras na linguagem do animal humano são os pronomes "meu", "minha", "teu", "tua". É a posse de tudo. 

"Minha casa", "minha mulher", "meu cavalo", "minha terra". Mas o sujeito nunca viveu na casa; é outro que fica com sua mulher; não é ele que alimenta e anda no cavalo; e nunca pisou na terra que diz ser sua. Todas essas verdades são apontadas pelo cavalo Kolstomer em suas observações sobre o animal humano.

E o conto é duro e violento como a vida é. A violência é como a violência que sofremos neste instante no país destruído e entregue aos fascistas, genocidas, bárbaros ignorantes, brancos da casa grande, bilionários e capatazes com os poderes nas mãos.

Enfim, o conto me deixou bolado. O final do conto é duro, é o cotidiano de todos que tiveram vidas miseráveis por preconceito, por mandonismo, por falta de oportunidades e liberdades. Dormi bastante impressionado.

Só para lembrar mais um caso de homens e cavalos, nunca me esqueço de um poema de Manuel Bandeira, que faz profunda crítica à sociedade burguesa, comparando seus membros a cavalos, enquanto observa cavalos na pista de corrida. O poema se chama "Rondó dos cavalinhos", do livro Estrela da Manhã (1936).

"Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo..."

Os versos vão se repetindo a cada estrofe, e para o leitor do poema vai ficando claro pela sonoridade das consoantes "nh... n... m... n..." (mmm) que ao olhar os graciosos cavalos correndo lá na pista, o que mais chama a atenção do eu lírico é o mastigar voraz dos animais humanos dentro do salão burguês onde se encontram num possível jóquei clube.

E, por fim mesmo, a história de Kolstomer, a brutalidade animalesca em que nos encontramos no país pós golpe de Estado e dominado pelo mal, tudo isso me fez lembrar do ambiente onde cresci, ainda no final da ditadura civil-militar dos anos 1964-1985, lá em Uberlândia. 

Eu tinha meus doze ou treze anos e via nas ruas de terra onde morava os cavalos e burros amarrados em postes sendo espancados para serem "amansados". Era muito grotesco aquilo. Às vezes, a sessão de tortura durava o dia todo. Cresci vendo aquilo. Mas a molecada também era bruta como seus familiares que espancavam cavalos...

Avançamos para um mundo um pouco mais civilizado nas décadas seguintes, com governos democrático-populares como os do Partido dos Trabalhadores no Brasil, para voltarmos à barbárie de novo agora, por golpe e entrega do poder aos semeadores do caos contra o povo. A humanidade parece não ter jeito mesmo... só acabando.

William


Bibliografia:

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira. 14ª impressão. Rio de Janeiro, 2000.

TOLSTOI, Leão. Obra Completa, Volume III. Nova Aguilar, 2004.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Releitura: O último leitor (2005) - Ricardo Piglia




Refeição Cultural

"Um território devastado no qual alguém reconstrói o mundo perdido a partir da leitura de um livro. Melhor seria dizer: a crença no que está escrito num livro permite manter e reconstruir o real perdido..." (Piglia, na página 145 de O último leitor)


Li este livro do professor e escritor argentino Ricardo Piglia em 2008. É um livro de reflexões sobre leitores e leituras. Sobre atos de leituras. O autor faleceu no início de 2017 aos 75 anos de idade.

Ao reler dias atrás uma postagem minha sobre um conto de Piglia - "A ilha" -, texto contido em seu livro "Cuentos Morales" (1995), acabei pegando em minha estante "O último leitor" (2005), livro muito reflexivo.

Nesta obra, Piglia nos leva a pensar sobre o mundo dos escritores e, consequentemente, nos leva ao mundo dos leitores, que complementam e dão sentido à produção literária, que nada seria sem o leitor.

Piglia aborda os atos de leitura de nada mais nada menos Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Ernesto Che Guevara, James Joyce, Liev Tolstói, dentre outros. Cada capítulo é uma viagem de conhecimento para nós leitores.

Não vou falar sobre cada um dos capítulos do livro, pois a intenção da postagem é despertar nos leitores do blog o interesse nas reflexões que Piglia registrou naquele que ele afirma ser seu livro mais pessoal, como leitor, inclusive.

Neste leitor que vos fala, a releitura do livro uma década depois da primeira leitura reacendeu algumas preocupações e sentimentos que trago comigo desde o fim da adolescência: meu tempo está passando e sigo sem ter lido grandes clássicos da literatura mundial. É desesperadora a tomada de consciência disso.

Quando Piglia aborda James Joyce, fico leve e transito bem pelo capítulo, afinal li "Ulisses" (1922) e "Dublinenses" (1914). Por outro lado, quando Piglia fala de Borges e de Raymond Chandler, me sinto mal, porque não conheço suas obras. 

Dois livros centrais nos ensaios de Piglia e de quase toda crítica literária que conhecemos, eu nunca acabei de ler, porque sabemos o final e isso dificulta muito a minha leitura de algum clássico: "Madame Bovary" (1857), de Flaubert, e "Anna Kariênina" (1877), de Tolstói. É um absurdo eu não ter terminado a leitura, mas não terminei.

Me lembro da birra que tive para terminar a leitura do clássico de Guimarães Rosa - "Grande Sertão: veredas" (1956) - porque quando adolescente tive acesso ao segredo de Reinaldo (Diadorim), segredo que o autor esconde dos leitores até as últimas páginas do relato do jagunço Riobaldo Tatarana.

Vejam abaixo um exemplo das questões abordadas por Piglia num dos capítulos do livro:

ANNA KARIÊNINA E TOLSTÓI

No capítulo "O lampião de Anna Kariênina", Piglia faz uma bela análise e reflexão sobre a leitura de literatura dentro da própria literatura. Grandes personagens da história literária nos são apresentadas como leitoras nos enredos de romances.

A personagem Anna lê romances ingleses no livro de Tolstói, publicado em 1877. Da mesma forma Emma Bovary é leitora de romances no clássico "Madame Bovary", de Flaubert, publicado em 1857. Piglia não faz referência a autores brasileiros, mas quem nunca leu em Machado de Assis ou José de Alencar personagens femininas que são leitoras incansáveis de romances?

Outra característica deste capítulo é pontuar a importância da luz e da forma de iluminação possível para os leitores de romances nos séculos passados - velas, lampiões, lamparinas, luzes fugazes em geral. Legal a ideia de uma luz que ilumina o romance assim como uma história de ficção que pode iluminar a nossa vida.

Neste sentido de busca existencial, Piglia cita Sartre, que diz: "Por que se leem romances? Falta alguma coisa na vida da pessoa que lê, e é isso que ela procura no livro. O sentido, evidentemente, é o sentido de sua vida, dessa vida que para todo mundo é torta, mal vivida, explorada, alienada, enganada, mistificada, mas acerca da qual, ao mesmo tempo, aquele que a vive sabe muito bem que poderia ser outra coisa.".

Não precisamos generalizar a tese de Sartre, pois muitos leitores leem por distração e simples prazer na leitura, mas que parte dos leitores leem com um sentido muito mais profundo, isso é fato.

Outro ponto muito atual sobre leitoras de romances é a questão que Piglia nos traz sobre como eram vistas as mulheres leitoras durante muito tempo e que reflete sobre o papel e o lugar das mulheres na sociedade machista: 

"De alguma maneira, a feminização do leitor de romances confirma os preconceitos dominantes sobre o papel da mulher e da inteligência feminina. Os romances eram considerados adequados para as mulheres, vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. Os romances, circunscritos ao reino da imaginação, eram o oposto da leitura prática e instrutiva.".

É mole! Que sacanagem a sociedade machista passar séculos tratando as mulheres dessa forma.

POR FIM

O livro "O último leitor" é um livro de leitura para sempre, ou seja, para a vida inteira para aquele ou aquela que o tem na estante.

É inevitável ler um capítulo sobre Kafka e querer ler ou reler tudo que você tem dele e ir atrás do que falta das obras publicadas por ele ou postumamente.

É impossível não ficar martirizado com o peso na consciência de leitor por não ter lido clássicos como "Robinson Crusoé" (1719), de Daniel Defoe, ou "As viagens de Gulliver" (1726), de Jonathan Swift, ou ainda "Moby Dick" (1851), de Herman Melville. Sim, amig@s, eu ainda não li estes três livros!

Percebem como é difícil pegar para ler um livro de economia, história e política, como li recentemente "A desordem mundial" (2016), de Luiz Alberto Moniz Bandeira, um catatau de 600 páginas (ler sobre AQUI), e não ficar com certo remorso caso a maioria dos livros que eu optar por ler não sejam os clássicos que me faltam? Posso morrer sem ter lido grandes feitos literários da humanidade.

Enfim, sigamos adiante com as leituras, com os atos de leitura e como últimos leitores que estão sempre em busca das descobertas e, quem sabe, das respostas para as perguntas que temos ou que não sabemos que temos, apesar de elas estarem em nós.

William


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Leitura: A morte de Ivan Ilitch (1886) - Lev Tolstói



Esta edição é traduzida diretamente do russo. Recomendo.

Refeição Cultural - Mortes que não importam aos outros

Me peguei pensando a respeito da morte. Eu estava para postar um comentário sobre minha terceira leitura de uma das mais famosas obras de Tolstói - A morte de Ivan Ilitch (1886). Cada releitura em nossa vida é uma nova leitura porque o leitor é outro, é um novo leitor. Eu era um em 2008, era outro em 2012 e sou este que vos fala neste momento em 2017.

Em 2008 ainda fervilhava em mim o mundo das Letras por ter sido por tanto tempo aluno da FFLCH-USP. Em 2012 eu já estava bastante envolvido com a formação sindical no ramo financeiro (Contraf-CUT) e iria assumir as negociações nacionais do Banco do Brasil como coordenador da Comissão de Empresa dos Funcionários (COE-Contraf). Hoje sou gestor de operadora de saúde no modelo de autogestão e conheço relativamente bem como opera o setor de saúde no Brasil e conheço alguma coisa em relação aos modelos no mundo.

Nesta releitura de Tolstói, me incomodou muito o descaso das autoridades médicas com o paciente, o sistema de saúde vigente à época do senhor Ivan Ilitch, na Rússia czarista da segunda metade do século 19. A forma como o paciente é tratado me incomodou sobremaneira. 

Das outras vezes, já havia me incomodado com o tratamento frio e pouco humano dos profissionais de saúde, mas também ficou martelando em mim a forma como todas as pessoas ao redor do senhor Ilitch se comportavam de forma hipócrita e com interesses absolutamente pessoais em levar algum tipo de vantagem com a morte daquele ser humano.

Então... eu reli o livro porque meu filho me perguntou se eu conhecia esta obra e se poderia dar de presente para ele. Fiquei feliz com o pedido e aproveitei para reler também.


French 87th Regiment Cote 34 Verdun 1916 -
Foto de domínio público sobre a 1ª GM,
autor desconhecido.

Hoje, assisti a um documentário encontrado na internet por puro acaso. Era a respeito da 1ª Guerra Mundial. O programa de pouco mais de uma hora era apresentado por um jovem youtuber chamado Castanhari, em um site chamado Canal Nostalgia. O jeito como o rapaz se comunica é bem interessante para a geração atual.

Enfim, eu sou um apreciador de história. Estudar história para mim é algo do prazer, do autoconhecimento e uma forma de melhorar minha compreensão de mundo. Foi bom rever o tema "guerras mundiais".

Estamos passando por um momento mundial de grandes riscos para a humanidade. As mudanças políticas e econômicas nas Américas, na Europa, no Ocidente e Oriente, podem caminhar no próximo período para novas guerras de extermínio de milhões de pessoas.

Aí fiquei pensando a respeito da morte, das mortes que não importam para os outros. Eu aprendi a valorizar a vida de cada ser humano, de cada ser vivo neste Planeta. É muito duro vermos o sofrimento da personagem Ivan Ilitch sem o devido respeito e atenção por parte dos profissionais de saúde e das pessoas ao seu redor. 

Mas durante um período de guerras, ou quando a maldade é a nova ordem e a vida humana perdeu o valor e os novos valores não incluem o foco no ser humano, o que vemos é não valer nada centenas, milhares e até milhões de vidas humanas.

Numa guerra, numa disputa de grupos rivais, sociedades rivais, sem a política para mediar e permitir o espaço do outro, vemos o que ocorreu nas guerras trágicas de nossa história mundial. Cada batalha morria-se 400 mil pessoas, depois mais 200 mil, depois mais um milhão...

Chega! Pensar em guerras e pensar em mortes é uma merda.

Eu gostaria de ver novamente a democracia restabelecida em meu País, o respeito às diferenças prevalecendo, e o mundo e as sociedades vivendo sob a égide da paz com mais solidariedade e valores humanos em alta, em detrimento do dinheiro e do poder absoluto de uns poucos sobre as imensas maiorias.

William (será que estou sonhando alto?)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Releitura: A morte de Ivan Ilitch - Tolstói


Tolstói em foto de 1908.
Fonte da imagem: Wikipedia.

Refeição Cultural - A morte de Ivan Ilitch – Tolstói

CLÁSSICO RUSSO de 1886

Comprei essa edição que tenho em 2008 na feira de livros da FFLCH - USP e li imediatamente. Ela é traduzida por Boris Schnaiderman e tem apêndice de Paulo Rónai. Minha primeira leitura não foi muito boa, pois não foi uma leitura atenta.

Lembro-me de companheiros do movimento sindical falarem de forma entusiasmada sobre esse livro. Não me ficou essa impressão da leitura que havia feito.

Há poucas semanas, quando estive em Uberlândia, na casa de meus pais, também tive a oportunidade de perceber que realmente a minha primeira leitura foi pouco atenta.

Minha sobrinha, que acabava de ser aprovada nos exames para entrar na Universidade Federal de Uberlândia, mostrou-me uma questão da prova que era a respeito do livro.

Ao ler a questão, vi que não me lembrava de nada da obra para iniciar a resposta. Sequer me senti em condições de fazer um bom chute.

Era evidente que precisava ler novamente este clássico da literatura russa e de Leão Tolstói.

Comentários sobre a primeira leitura AQUI.


MINHA RELEITURA

Nesta leitura, confesso que senti uma agonia imensa ao longo da história. Que tristeza!

Várias coisas foram passando por minha cabeça.


A FRIEZA BUROCRÁTICA DO SISTEMA DE TRATAMENTO DE SAÚDE

A frieza burocrática do tratamento dado ao senhor Ivan por parte das “autoridades médicas” me lembrou uma discussão moderna da medicina, onde há uma forte crítica pelo fato dos médicos especialistas não tratarem pessoas, pacientes que são seres humanos com dor e com sofrimento pela não-saúde.

Os profissionais e especialistas da medicina moderna tratam de “órgãos” e “partes de um corpo”. Eles não tratam de uma pessoa. Se alguém está sentindo dor e sofrendo com um problema de rim operado, não é problema do médico do rim. Dor é com o anestesista. Não adianta reclamar de dor com um especialista em coração, pois ele vai lhe dizer que não é com ele, ele trata de coração.

Como a descrição do sofrimento do senhor Ivan Ilitch se passa no século XIX da Rússia Czarista, pudemos ver que a questão da frieza no tratamento com as pessoas doentes vem de muito, muito longe.


A SOLIDÃO DOS MORIBUNDOS NA DOENÇA

Outra questão muito forte no livro é a dor profunda e solitária das pessoas no leito de morte.

Essa solidão existe independente da crença ou não-crença de cada um. É uma solidão da dor. É a solidão do medo do desconhecido, do sentir o instante de não mais existir.

A dor do orgulho ferido pelo que pode acontecer fisicamente conosco no fim.

Foi uma tristeza para mim lembrar-me do fim de minha querida tia Alice, que faleceu de câncer em um espaço de tempo muito parecido com o da personagem entre o ir ao médico, perceber-se que há algo errado e o fim. Será sempre muito difícil vivenciar a perda das pessoas queridas.


A DENÚNCIA DA FRIEZA DO ENTORNO SOCIAL

É muito forte a denúncia da hipocrisia da estrutura social quando chega a hora da morte de uma pessoa com boa posição profissional e com nível de chefia no sustento do lar. Isso fica muito claro na obra, quando falamos dos estamentos sociais na burocracia do Estado, na substituição da hierarquia dos cargos, como também na “hierarquia” da família e dos agregados.

A morte de um líder ou pessoa bem posicionada passa a ser oportunidade para os outros na estrutura social e ausência de sustentação financeira na estrutura familiar.

Quantos de nós faremos falta pela ausência da companhia, do amor, do afeto e pela simples presença como seres humanos?

A pensar...

William


Bibliografia:

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34. 1ª Edição 2006 (1ª reimpressão 2007)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Livro - A morte de Ivan Ilitch - León Tolstói (1886)



León Tolstói - foto da Wikipedia.

Refeição Cultural

Pois é, poderia parafrasear assim a máxima popular: "preenchendo lacunas culturais por vias tortas".

Comprei em 2008 este livro de Tolstói vendo-o por acaso sobre um dos trocentos balcões da feira de livros da FFLCH na USP.

Por acaso, também fiquei sabendo da existência deste livro através da história de Chris McCandless, personagem real inspirador do livro e do filme Na natureza selvagem. Era um dos livros que ele carregava consigo no Alaska.

"Instalado de novo no abrigo corroído do Fairbanks 142, McCandless retomou a rotina de caçar e colher. Leu A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e O homem terminal, de Michael Crichton..." (Na natureza selvagem, de Jon Krakauer)

Por se tratar de Tolstói, é um romance bem pequeno - pouco mais de 70 páginas (na verdade podemos dizer que é uma novela). É considerado, no entanto, uma das obras mais perfeitas da literatura mundial.

Eu o achei bem triste. Profundo. Bem real. Bastante atual.

Engraçado! Estava hoje pensando na superficialidade e vazio das pessoas e das relações humanas neste mundo pós-moderno: NÃO GOSTO DO QUE VEJO AO MEU REDOR. NÃO GOSTO!

Ivan Ilitch descobriu isso em um momento crítico de sua vida. Sofreu muito com isso.

Sigo buscando o conhecimento. Tentando encontrar a sabedoria todos os dias...

William


Bibliografia:

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34. 1ª Edição 2006 (1ª reimpressão 2007)

Leituras sobre Chris McCandless e Tolstói




Refeição Cultural


Ontem, terminei a leitura do livro de Krakauer sobre a aventura de Alexander Supertramp, ou seja, McCandless, o jovem da história "Na natureza selvagem".

Continuo ouvindo a trilha sonora do filme na voz de Eddie Vedder todos os dias.

Fiquei pensando nos livros que ele leu e carregou por suas andanças. Comprei hoje e estou terminando o romance de Tolstói "A morte de Ivan Ilitch", na tradução de Boris Schnaiderman, pela Editora 34.

Tudo bem! Também estou tentando me preparar para a difícil prova de Morfologia que farei em breve (o mesmo que física quântica pra mim).

Também tenho a matéria de Filologia pra fazer um trabalho nos próximos dias.

Estou focando meu objetivo de estar no início de minha caminhada na Espanha em maio do ano que vem.

William


POST SCRIPTUM (2014)

Pois é, a vida e suas surpresas... eu tive que abortar a minha peregrinação no Caminho de Compostela pela 2ª vez. Quem sabe um dia eu a faça... (enquanto isso, vou fazendo a minha caminhada em MG todo ano como fiz novamente em 2014, onde tive a grata surpresa de fazê-la na companhia de meu filho)

As matérias da faculdade em questão foram finalizadas bem. Só descobri agora que o sistema da FFLCH acusa que devo uma matéria de Literatura Portuguesa para completar as duas grades - Português e Espanhol... é mole?

domingo, 28 de setembro de 2008

As guerras e as pazes de todos nós...


Minissérie sobre a obra tolstoiana.

Refeição Cultural

Guerra e Paz - Leão Tolstói (VOINA I MIR)

Li uma introdução de Oscar Mendes sobre Leão Tolstói e sua obra Guerra e Paz. Muito interessante!

Cheguei a iniciar a leitura do primeiro tomo da obra - tenho a edição em dois volumes das Grandes Obras da Cultura Universal, volume 6, quinta edição, de 1997, editora Itatiaia, BH/RJ.

Iniciei mas não pude seguir lendo. Acabei por ceder e assisti a uma produção de 8h sobre a "epopeia russa". (não gosto de assistir a filmes baseados em livros clássicos sem antes lê-los)

Aliás, é estranho! Acho que ainda não rolou aquela empatia e firmeza de propósito entre Tolstói e eu. Já encarei os dois volumes de Ana Karênina e larguei o segundo tomo faltando pouco mais de uma centena de páginas. Talvez seja o problema das obras famosas cujo final já sabemos.

Quer um outro exemplo em que larguei um livro faltando um teco pra acabar? Os sertões e as veredas de Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas. Como vamos tirar da cabeça a imbecilidade imperdoável da Rede Bobo de Televisão do Roberto Marinho, que fez um seriado na década de 80, seriado que inicia a estória contando o segredo da obra?

Segredo que é a alma do romance, pois nem o jagunço-narrador Riobaldo Tatarana, que conta o passado a um forasteiro, 
denuncia quem realmente era seu amigo Diadorim (em uma visita que deve ser ao menos de três dias para ouvir o narrador jagunço falar sobre sua vida).

É isso! comecei falando de Guerra e Paz russa para terminar falando da eterna Guerra e Paz de espírito de um jagunço do Brasil, típico representante do povo oriundo da miséria secular.

O povo brasileiro negro, índio, branco, amarelo, mestiço, mulato, mameluco, pardo em tonalidades e cores várias, é o resultado da exploração por parte dos brancos europeus. Finda a escravidão dos negros e depois dos imigrantes, ficou uma massa de gente que não era dona de nada e se virou do jeito macunaíma de sobreviver.

Bom, o filme em quatro episódios me deixou encantado. Foi muito bem feito e não me fez perder o interesse de ler os dois volumes de Tolstói. Estão na fila (nada pequena) de minhas leituras.

William

sábado, 20 de setembro de 2008

Leituras, filmes e corridas... o próprio propósito!



Refeição Cultural

Hoje é sábado. Refletindo um pouco, devo ter claro que me alimentei bem esta semana. Alimentos culturais. Senão vejamos:

Assisti a um belo filme agora à tarde: O vale da luz.

Título Traduzido: O Vale da Luz
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 84mins
Ano de Lançamento: 2007
Direção: Brent Shields

O fio condutor da história é a pergunta se existe um propósito na vida. Existe? Não acredito. Principalmente se considerar o princípio de haver um deus que programe tudo para todos. Não vejo mais lógica nisso. Falo desta forma porque cri nisso uma boa parte da minha vida. Hoje, não mais.

Outra reflexão: eu adoro correr. Mas confesso que terei que ser bastante abnegado para acordar neste domingo às 5h da manhã, com um baita frio e chuva, para participar da 16ª Maratona de Revezamento do Pão de Açúcar com o pessoal do sindicato.

Em termos de leitura o sábado não foi muito produtivo. Ainda não consegui ler muito, a não ser um capítulo do livro de Saramago e uma revista.

Li a Revista Fórum que está com matérias muito interessantes; estou lendo mais um livro do maravilhoso escritor José Saramago - Ensaio sobre a lucidez. Sua forma de escrever é impar; Como não li ainda os dois tomos de Guerra e Paz, de Tolstói, cedi e estou assistindo a uma filmagem francesa de 8 horas em 4 filmes. A história é belíssima.

Post Scriptum (2014):

Estava relendo a postagem e lhes digo: eu fui para a corrida. Minha camisa azul do evento está comigo até hoje. Tomamos a maior chuva e frio, mas fui abnegado.

Post Scriptum II (25 de junho de 2016):


Em casa, Brasília, vendo filme e lendo. Esposa e filho presentes...

Sábado novamente, como foi na data original da postagem. Acabei de assistir ao filme mais uma vez. Estou em Brasília, onde trabalho em um mandato eletivo em entidade de saúde dos bancários do Banco do Brasil, a Cassi.

Coincidentemente, estou usando a mesma camisa azul da corrida onde fui abnegado em madrugar no frio e chuva lá em 2008 (post scriptum acima).

Tanta coisa mudou em minha vida nestes oito anos... mas cá estou relendo e revisando minhas postagens no blog.

A respeito da grande questão do filme: se há destino ou predestinação, não sabemos mesmo! O fato é que eu não fui fazendo o que quis em toda a minha vida. A vida foi fazendo o que quis comigo... foda isso, né? Mas estamos fazendo as coisas como devem ser feitas.

Só isso!

domingo, 6 de abril de 2008

Conto: Kolstomer (História de um cavalo) - Leão Tolstói



Comentário do blog: a reprodução deste conto de Tolstói tem objetivos apenas didáticos, porque fez parte do conteúdo de uma matéria que estudamos na Faculdade de Letras da USP. Os sublinhados são anotações do aluno feitos no momento da leitura.

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Breve comentário

O que faz uma obra literária perdurar ao longo do tempo como algo que mereça ser lido nos tempos futuros?

Algumas possibilidades: suas qualidades técnicas em termos de composição; sua importância para o momento histórico vivido; uma quantidade grande de sorte ou acasos para que não se perca em guerras, expurgos, cataclismos etc.

Algumas obras literárias são pequenas preciosidades. Joias raras.

Cito como exemplo, o conto Kolstomer, de Tolstói. Com alguns excertos é possível apreciar a grandeza da técnica, do tema, e do momento histórico (século XIX).

Grandes obras são atemporais. Imagino o mesmo personagem hoje – século XXI – com as mesmas reflexões. 

Alguns trechos do capítulo seis falam por si sós da grandeza do conto.

“Já antes eu tivera certa tendência para a seriedade e a meditação, mas então sofri uma transformação definitiva. Meu pelo, que despertara desprezo tão estranho entre as pessoas, minha desgraça inesperada e, além disso, minha situação especial na cavalhada, que pressentia, mas que não conseguia explicar a mim mesmo, obrigaram-me a concentrar-me ainda mais dentro de meu íntimo. Refleti sobre a injustiça dos homens, que me censuravam por causa da cor da pele; sobre a inconstância do amor materno e, em geral, do amor feminino, que dependia de certas circunstâncias físicas. Principalmente, meditei sobre as particularidades daquele estranho animal a que chamam gênero humano e a que estamos tão estreitamente ligados...”

Vejam, estamos lendo as percepções de um cavalo a respeito de sua vida, a respeito do ser com quem interage – estranho animal humano – e, sobretudo, lendo sobre o teor dos problemas enfrentados por ele de preconceito por sua cor de pele e de outras condições sociais, que ele comenta também ao longo do conto, como origem e jeito de ser.

O melhor das reflexões do cavalo vem quando ele começa a descrever sobre a peculiaridade humana da “propriedade”, de nominar as coisas como posses: seumeusua e minha... É FANTÁSTICO!

“Compreendi muito bem o que dizia a respeito dos açoites e do cristianismo. Mas ficou completamente obscura para mim a palavra seu, pela qual pude deduzir que estabeleciam um vínculo a ligar-me ao chefe das cavalariças. Então, não pude compreender de modo algum em que consistiria tal vínculo. Só muito depois, quando me separaram dos demais cavalos, é que expliquei a mim mesmo o que aquilo representava. Naquela época, eu não era capaz de entender a significação do fato de ser EU propriedade de um homem. As palavras meu cavalo, referindo-se a mim, a um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas como as palavras minha terra, meu ar, minha água.”

Depois de um tempo, o cavalo entende e explica a si mesmo o que significavam aqueles conceitos:

“Querem dizer o seguinte: os homens não dirigem a vida com fatos, mas com palavras. Não os preocupa tanto a possibilidade de fazer ou deixar de fazer alguma coisa, como a de falar de objetos diferentes mediante palavras convencionadas. Essas palavras, que consideram muito importantes, são, sobretudo, meu ou minha, teu ou tua. Aplicam-nas a todas as espécies de coisas e de seres, inclusive à terra, aos seus semelhantes e aos cavalos.”

Agora vêm as conclusões hilárias sobre o quão ridículos somos sobre esses tais direitos de posse e propriedade que arrotamos em relação às pessoas e coisas.

“... convenci-me de que o conceito de meu – e não só com relação a nós, cavalos – não tem qualquer outro fundamento além de um baixo instinto animal, que os homens chamam sentimento ou direito de propriedade. O homem diz minha casa, mas nunca vive nela; preocupa-se só em construí-la e mantê-la (...) Há pessoas que chamam sua uma extensão de terra e nunca a viram nem passaram por ela (...) Há homens que chamam de suas certas mulheres, e estas convivem com outros homens. As pessoas não procuram, em sua vida, fazer o que consideram o bem, e sim a maneira de poder dizer do maior número possível de coisas: É meu...”

Depois de observações tão sábias por parte de nosso personagem cavalo, a conclusão a que ele chega sobre nós, humanos, e eles, cavalos, é LÓGICA, e diria até RACIONAL:

“...só por este fato podemos dizer, com segurança, que, entre os seres vivos, nos encontramos em nível mais alto que o dos homens. A atividade dos homens, pelo menos a dos homens com quem tenho tratado, se traduz em palavras, ao passo que a nossa se manifesta em fatos.”

Nossa! Lembrei-me daquele refrão "Cazuziano" que tanto gosto de usar “suas ideias não correspondem aos fatos”.

MAS, como queremos ser otimistas, vamos dizer que não podemos generalizar toda a raça animal humana, pois como o próprio cavalo referiu, suas conclusões são em relação aos homens com quem tem tratado, acreditamos que existem SIM seres humanos que buscam MAIS FATOS QUE SIMPLES PALAVRAS.


William


Bibliografia:

TOLSTOI, Leão. Obra Completa, Volume III. Nova Aguilar, 2004.


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(Dedicado à memória de M. A. Stakovitch)


CAPÍTULO PRIMEIRO

A abóbada celeste se alteava, a aurora se estendia, o orvalho de um prateado fosco se tornava mais branco, a lua minguante ia perdendo vida e o bosque adquiria sonoridades. A gente já se levantava e, no estábulo da casa senhorial, começavam a ouvir-se, cada vez mais frequentes, os bufidos, os rumores de palha remexida e até mesmo os relinchos, irritados e friorentos, dos cavalos que, reunidos, pareciam brigar por causa de alguma coisa.

- Olá! Está quase na hora! Estão com fome? - exclamou o velho cavalariço, abrindo as portas rangentes do estábulo. - Aonde vais? - gritou, ameaçando uma égua que se havia adiantado.

O cavalariço Nester, com um casaco apertado por uma correia, levava o chicote ao ombro e o pão, enrolado numa toalha, enfiado na cintura. Nas mãos tinha uma sela e um freio.

Os cavalos não se assustaram em absoluto nem os ofendeu o tom zombeteiro. Mostraram-se indiferentes e afastaram-se da porta sem pressa. Só uma velha égua baia, obscura e de grandes crinas, baixou as orelhas e virou-se de costas, rapidamente. Então, uma potranca, que estava mais distante e nada tinha a ver com o assunto, relinchou e empurrou sua vizinha.

- Eh! - tornou a gritar o cavalariço em tom mais alto e mais ameaçador do que antes, dirigindo-se ao fundo do estábulo.

De todos os cavalos que ali se encontravam (havia cerca de uma centena), o que mostrava menos impaciência era um cavalo mosqueado, que permanecia solitário a um canto, com os olhos caídos, lambendo um tronco de carvalho. Não se sabe que gosto achava nele, mas, enquanto o fazia, sua expressão era séria e pensativa.

- Basta de mimos! - exclamou o cavalariço, no mesmo tom de antes, e aproximou-se dele, deixando sobre um monte de esterco a sela e uma manta suja.

O cavalo mosqueado deixou de lamber o tronco e, ficando imóvel, fitou Nester por longo tempo. Não se riu, nem se aborreceu, nem sequer franziu a testa; limitou-se a suspirar profundamente e a virar a cabeça. O cavalariço rodeou-lhe o pescoço com os braços e pôs-lhe o freio.

- Por que suspirar? - perguntou.

O cavalo agitou a cauda, como se dissesse: "Não é por coisa alguma, Nester". O cavalariço cobriu-lhe o lombo com a manta e colocou a sela. O cavalo baixou as orelhas, expressando, ao que parece, seu descontentamento, e por isso Nester chamou-o de inútil e apertou-lhe a cilha. Então, o cavalo se inflou, mas o cavalariço enfiou-lhe um dedo na boca e bateu-lhe com o joelho no ventre, de modo que o animal se viu obrigado a expirar o ar. Apesar disso, baixou as orelhas e até virou a cabeça enquanto o homem lhe colocava a rédea. Bem sabia que isso não lhe serviria de nada, mas achava necessário manifestar que aquilo lhe era desagradável e que sempre o demonstraria. Quando ficou selado, adiantou a pata esquerda e começou a mascar o freio, não se sabe por que motivo, pois já era tempo de que soubesse que um freio não pode ter sabor algum.

Nester montou, com ajuda do estribo curto, desenrolou o chicote, libertou as abas do casaco, sentou-se na sela com esse estilo próprio dos cocheiros, caçadores e cavalariços e sacudiu as rédeas. O cavalo ergueu a cabeça, demostrando que estava disposto a ir onde lhe ordenassem, mas não se moveu do lugar. Sabia que Nester, antes de sair montado nele, teria de dizer muitas coisas, aos gritos, como, por exemplo, dar ordens a outro cavalariço, Vaska, e aos cavalos. De fato, Nester começou a gritar:

- Vaska, Vaska! Soltaste os cavalos? Que fazes, estúpido? Eh! Estás dormindo? Abre, para que as éguas saiam primeiro.

Rangeram as portas e Vaska, semi-adormecido, mal-humorado e segurando um cavalo pelas rédeas, afastou-se para um lado a fim de deixar os animais passarem. Começaram a desfilar, pisando a palha com cuidado e cheirando-a, éguas jovens, potros de crinas cortadas, potrinhos de mama e éguas grávidas, que atravessavam as portas passando as barrigas com precaução. As potras se juntavam de duas em duas e até de três em três, pondo a cabeça sobre o lombo das companheiras e apressando-se em sair, com o que de cada vez recebiam invectivas dos cavalariços. Os de mama às vezes se enfiavam entre as patas das mães de outros e relinchavam sonoramente respondendo à chamada das suas.

Uma potra muito travessa, mal se viu fora, virou a cabeça e pôs-se a dar coices e a relinchar; no entanto, não se atreveu a passar à frente da velha égua cinzenta Kuldiba, que, como sempre, ia à frente da eguada com expressão grave, andar pesado e balançando a barriga. Em poucos minutos, o estábulo, tão animado até pouco antes, ficou triste e vazio; erguiam-se melancólicos os postes do telheiro e só se via a palha pisoteada e revolvida de esterco. Por muito acostumado que estivesse a esse espetáculo, o cavalo mosqueado sentiu uma impressão penosa. Como se fizesse uma saudação, inclinou e levantou de leve a cabeça, suspirou até onde o permitia a cilha que lhe cingia o ventre e, movendo as patas intumescidas, seguiu atrás da égua, levando ao lombo ossudo o velho Nester.

"Sei que, quando sairmos pelo caminho, ele fará fogo e acenderá seu cachimbo de pau com enfeites de cobre, que traz preso a uma corrente" - pensou o cavalo*. - "Isto me alegra, porque, de manhã cedo, quando ainda há orvalho, esse cheiro me agrada e me recorda muitas coisas gratas; só o que me incomoda é que o velho, quando está de cachimbo entre os dentes, fica fanfarrão, imagina que é personagem importante e sempre se senta de lado, machucando-me. Mas, tanto faz! Não é novidade, para mim, sofrer a fim de satisfazer o prazer dos outros. Que o pobre faça castelos! Só os pode fazer quando está sozinho, quando ninguém o vê. Assim, que monte de lado!", continuou a refletir o cavalo, enquanto avançava pelo meio do caminho, pisando cautelosamente com as patas curvadas.

* COMENTÁRIO DO BLOG: O texto é no estilo indireto livre, o narrador conhece tudo sobre a história que vai nos contar. 

CAPÍTULO II


Tendo levado a eguada para junto do rio, onde devia pastar, Nester apeou-se e tirou os arreios do cavalo. Os animais foram-se dispersando lentamente, pelo prado não pisado, coberto de orvalho e de um bafo que subia tanto da terra como do rio, o qual ali fazia uma volta.

Depois de tirar as rédeas do cavalo mosqueado, Nester coçou-lhe o pescoço e ele fechou os olhos, em sinal de agradecimento e de prazer.

- O velho gosta disso - murmurou Nester.

- Na verdade, o cavalo não gostava daquilo; fingia, por delicadeza. Por isso movera a cabeça, em sinal de aprovação*. Logo, de modo completamente inesperado e sem motivo algum, Nester, supondo provavelmente* que uma familiaridade excessiva poderia dar ideia equívoca a respeito de sua importância, empurrou a cabeça do cavalo e, brandindo a rédea, golpeou-lhe as pernas delgadas; e, sem dizer nada, foi sentar-se num tronco, no alto da colina, onde em geral costumava instalar-se.

* COMENTÁRIO: Pelo que se percebe, o narrador demiurgo sabe mais sobre o que pensa o cavalo do que sobre os pensamentos de Nester.

Esse procedimento entristeceu o cavalo mosqueado, mas aparentou indiferença e, movendo a cauda rala e farejando algo, dirigiu-se para o rio, arrancando de passagem algumas ervas, só para distrair-se. Sem prestar atenção ao que faziam a seu redor as éguas jovens, os potros e potrinhos, que se alegravam com a manhã, e sabendo que o mais conveniente à sua saúde e sobretudo a seus anos era beber em jejum e comer depois, escolheu um lugar onde a margem era mais plana, fincou os cascos e esporões na água, enfiou nela o focinho e começou a beber aos sorvos, através dos lábios fendidos, movendo as ancas e agitando com prazer a cauda, de tronco ralo*.

* COMENTÁRIO: O comportamento sábio do personagem Kolstolmer me lembra bastante o personagem de Guimarães Rosa, o Burrinho Pedrês.

Uma égua baia, que sempre enraivecia o velho e lhe causava toda espécie de desgostos, aproximou-se dele andando pelo rio, como se por necessidade, mas realmente com o propósito de turvar-lhe a água diante do focinho. Mas o cavalo mosqueado já havia bebido bastante e, como se não notasse a intenção da égua, tirou tranquilamente, uma após a outra, as patas afundadas no lodo, sacudiu a cabeça e, afastando-se dos jovens, foi pastar. Esteve comendo durante três horas seguidas, quase sem parar em absoluto, mudando somente a posição das patas e tratando de não pisar a relva inutilmente. Depois de ter-se saciado a ponto de se lhe prender o ventre, como um saco, às costelas magras, deitou-se sobre as patas doloridas, buscando o modo por que menos lhe doessem, sobretudo a da direita, que era a mais fraca, e dormiu.

Existe a velhice majestosa, a repulsiva, assim como a velhice lamentável. Também há a majestosa e a repulsiva unidas. A do velho cavalo mosqueado era precisamente deste último gênero*.

* COMENTÁRIO: Os tipos de velhice, segundo o narrador da história de Kolstomer.

Era alto; media pelo menos dois archines e três verchki. Seu pelo era mosqueado de preto; ou antes, fora assim, pois na atualidade as manchas negras se haviam tornado de cor castanha suja. Sua pele consistia de três manchas: uma, na cabeça, estendendo-se até metade do pescoço e com uma calva irregular junto do nariz; as grandes crinas eram em parte brancas e em parte castanhas. A segunda cobria-lhe o flanco direito até a metade do ventre; a terceira, à garupa, abarcava a parte superior da cauda, descendo até metade das ancas. O resto da cauda era branco e matizado. A grande cabeça ossuda, com profundas cavidades sobre os olhos e com o lábio inferior, outrora preto, caído e fendido, pendia pesadamente do pescoço curvo e magro, que parecia de pau. O beiço caído deixava ver a língua pretuça, mordida de um lado, e os restos de uns dentes amarelentos e cariados. As orelhas, uma das quais estava torta, pendiam de ambos os lados da cabeça, e só de vez em quando se levantavam com indolência, para afugentar as pesadas moscas. Uma grande mecha do topete caía-lhe por trás de uma orelha; a testa nua estava afundada e rugosa e a pele tombava, formando bolsas. No pescoço e na cabeça, as veias se entrelaçavam, fazendo nós que se contraíam ao menor contacto com as moscas. Sua expressão era severa, concentrada e cheia de paciência e sofrimento. Suas patas dianteiras arqueavam-se nos joelhos; e numa delas, em que a mancha escura chegava até a metade da perna, havia um inchaço do tamanho de um punho fechado. As patas traseiras eram mais fortes, mas estavam muito roçadas nas ancas, onde por certo não tornaria o pelo a crescer. As quatro patas pareciam desmesuradamente largas em relação à delgadez do corpo. As costelas, embora fortes, estavam tão abertas e tensas, que a pele parecia estar pregada nos espaços intercostais. O peito e o lombo apresentavam sinais de antigos golpes e, na garupa, via-se uma ferida infectada; o tronco da cauda estava pelado e assinalavam-se as vértebras. Também na garupa, de cor castanha e perto da cauda, havia outra ferida, coberta de pelos brancos, do tamanho de uma palma de mão, que parecia produzida por mordedura, e uma cicatriz em forma de espátula. As patas de trás e a cauda estavam sempre sujas, por causa de seus constantes desarranjos intestinais*. O pelo de todo o corpo embora curto, mantinha-se liso. No entanto, e a apesar da velhice repulsiva desse cavalo, um conhecedor afirmaria logo que, em outros tempos, fora um animal magnífico.

* COMENTÁRIO: Na velhice, o personagem Kolstomer tinha diarreias frequentemente. 

Um conhecedor diria, ainda, que só há na Rússia uma raça capaz de produzir ossatura tão ampla, tais cascos, pernas tão delgadas, pescoço tão bem colocado e, sobretudo, crânio tão perfeito, olhos tão grandes, negros e diáfanos, tais nós de veias no pescoço, junto à cabeça e uma pele e pelo tão finos. De fato, havia algo de majestoso na figura daquele cavalo, na terrível mescla de sinais repelentes da decrepitude com a expressão de aprumo e a serena consciência de sua beleza e de sua força.

Como ruína viva, permanecia de pé, em meio do prado coberto de orvalho, enquanto, a seu redor, se ouviam bufar, dar patadas e relinchar os potros novos da cavalhada dispersa.

CAPÍTULO III

Erguera-se o sol por cima do bosque e brilhava radioso, banhando de luz a relva e as sinuosidades do rio. O orvalho secava-se, formando grossas gotas. Aqui e ali, perto de um pequeno pântano e sobre o bosque, esfumavam-se os vapores matinais como tênue nuvenzita. Encrespavam-se as nuvens, mas ainda não se levantara o vento. Do outro lado do rio crescia centeio, verde ainda, e havia cheiro de vegetação fresca e de flores. Com voz rouca, um cuco cantava no bosque, e Nester, deitado de costas, contava quantos anos ainda lhe restariam de vida. Umas calhandras revoluteavam sobre o campo de centeio e o prado. Uma lebre tardia, surpreendida pela cavalhada, saltou para um lugar descoberto e refugiou-se ao pé de um arbusto, prestando atenção aos ruídos. Vaska ficara a dormir com a cabeça na relva e as éguas passaram diante dele, indo mais longe que antes. As velhas bufavam enquanto iam abrindo um sulco na relva e todas escolhiam lugares onde ninguém as pudesse incomodar. Mas já não comiam, apenas se deleitavam em mordiscar as ervas mais gostosas. Imperceptivelmente, toda a manada avançava na mesma direção. E, como sempre, a velha Kuldiba, gravemente à frente dos demais, indicava a possibilidade de ir mais adiante. A jovem Muchka, uma égua negra que tivera pela primeira vez um potrinho, relinchava sem parar e, com a cauda ao vento, chamava o filhote, que folgava a seu lado, de joelhos trêmulos. Uma égua jovem, chamada Lastochka, de cor baia escura e pelo liso e reluzente como se fosse de cetim, baixava a cabeça de modo tal que o negro topete sedoso lhe cobria a testa e os olhos, e brincava com a relva, arrancando-a jogando-a ao chão e pisoteando-a com os cascos úmidos de orvalho. Um dos filhotes maiores, inventor de um brinquedo, já elevara vinte e seis vezes a cauda curta, encrespada em trompa, caracoleando em volta da mãe, que pastava tranquilamente, pois já se acostumara com o caráter do filho, e só de vez em quando o fitava de soslaio, com grande olho negro. Um dos potrinhos menores, preto e cabeçudo, de topete encrespado entre as orelhas, e pequena cauda ainda meio de lado, tal como a tivera nas entranhas maternas, de orelhas tesas e vista fixa, imóvel, olhava o potro folgazão, talvez invejando-o ou talvez a perguntar para que fazia ele aquilo. Uns mamavam, empurrando com o focinho o ventre das mães; outros, sem saber por que, apesar de que as mães os chamassem, corriam desajeitadamente a trote em direção contrária, como se buscassem algo, e logo, sem razão aparente, detinham-se e prorrompiam em relinchos penetrantes e desesperados. Alguns estavam deitados, outros aprendiam a pastar ou se entretinham em coçar-se atrás da orelha com a pata traseira. Duas éguas prenhas estavam separadas do grupo, movendo lentamente as pernas, andando sem deixar de pastar. Via-se que todos respeitavam seu estado e que nenhum potro novo se atrevia a molestá-las. Se alguma potra travessa se atrevia a aproximar-se demasiado, um só movimento de orelhas ou de cauda era suficiente para fazer com que visse a impropriedade de sua conduta.

As potras de um ano de idade, que tinham as crinas cortadas, fingiam ser adultas e sérias; muito raramente saltavam ou se reuniam aos grupos alegres. Comiam a relva com atitude digna, arqueando os pescoços de cisne e meneando as caudas aparadas. Da mesma forma que as grandes, algumas se deitavam, se espojavam ou se coçavam mutuamente. O grupo mais alegre era formado pelos potros de dois e três anos e pelas éguas estéreis, que quase sempre andavam juntas. Entre elas se ouviam bufos, relinchos, saltos e grunhidos. Aproximavam-se umas das outras, colocavam a cabeça sobre as costas da companheira, farejavam-se, brincavam e, por vezes, sacudindo a cauda e levantando-a, corriam a trote ou a galope, com jeito altivo e presumindo diante das companheiras. A mais bonita e empreendedora desse grupo de potras era a travessa potranca baia. As demais a imitavam em qualquer coisa que fizesse e toda a manada a seguia a todos os lugares. Naquela manhã, sentia-se especialmente brincalhona. Inspirara-se-lhe a veia da alegria, como acontece com as pessoas. Depois de haver escarnecido do velho cavalo mosqueado, saíra trotando ao longo da água; em seguida, fingiu que se assustava; relinchou e correu, a toda velocidade, pelo prado, obrigando Vaska a correr atrás dela e das companheiras que a seguiam. Depois, entreteve-se comendo um pouco e espojando-se. Zombou das velhas, cortando-lhes o caminho; separou um potrinho da mãe e perseguiu-o, como se quisesse mordê-lo. A mãe, assustada, deixou de comer, e o potrinho gemia com voz penosa, mas a potranca nem sequer o tocou, limitando-se a fazer-lhe medo e dando com isso um espetáculo que suas companheiras contemplaram com prazer. Depois, ocorreu-lhe apaixonar um cavalinho que puxava um arado, do outro lado do rio, manejado por um camponês. A potra se deteve, levantou a cabeça com ar altivo, virando-a docemente de lado, sacudiu-se e relinchou com voz doce e delicada. Naquele relincho soava a zombaria, mas também havia sentimento e certa tristeza. Expressava desejo, aspiração e promessa de amor.

Ali a codorniz, correndo de um lado para outro, entre os juncais espessos, chama apaixonadamente seu amigo; ali o cuco e a calhandra cantam seu amor e as flores transmitem umas às outras, por meio do vento, o pólen aromático.

"Também sou moça, formosa e forte - dizia a potra em seu relincho - Mas ainda não me foi outorgado provar a doçura deste sentimento, nem sequer ainda me viu um só amante".

E esse relinchar, tão significativo, ressoou pelo prado e chegou até ao cavalinho, que ergueu as orelhas e se deteve. O mujique o fustigou, mas o cavalinho estava enfeitiçado por aquela voz distante e relinchou também. Irritou-se o camponês, puxou as rédeas e deu-lhe uma pancada tão forte na barriga que o animal continuou seu caminho sem ter podido terminar o relincho. Sentiu-se invadido pela doçura e pela tristeza enquanto chegavam à cavalhada, do distante campo de centeio, os sons de seu relincho apaixonado e da voz iracunda do mujique.

Se bastara o som daquela voz para impressionar o cavalinho a ponto de fazê-lo esquecer seu dever, que não teria acontecido se houvesse visto a bela e travessa potra que o chamara, com as ventas dilatadas, aspirando o ar como se algo a atraísse, vibrando em todo o corpo jovem e formoso?

Mas a égua moça não se deteve por muito tempo a pensar em suas impressões. Quando se extinguiu a voz do cavalinho, relinchou zombeteiramente e, baixando a cabeça, começou a escavar a terra com uma das patas, e a seguir foi despertar e encolerizar o cavalo mosqueado. Este era sempre a vítima e o bufão daquela juventude feliz. Faziam-no padecer mais do que as pessoas. Não fizera mal a uns nem a outros. As pessoas precisavam dele, pelo menos; por que, porém, o mortificavam aquelas éguas novas?

CAPÍTULO IV

Ele era velho e elas, novas. Ele era fraco e elas, bem nutridas. Ele estava sempre triste e elas, sempre alegres. Portanto, era ele um ser alheio, completamente diferente e não havia razão para terem pena dele. Os cavalos só costumam ter pena de si mesmos e, de vez em quando, só sentem piedade daqueles em cuja pele podem imaginar a si próprios; mas que culpa teria o cavalo mosqueado de ser velho, magro e feio? Parece que nenhuma. Contudo, segundo os cavalos, era culpado de tudo isso; segundo eles, só têm razão os que são fortes, jovens e felizes, os que têm tudo à sua frente, aqueles cujos músculos estremecem por causa de uma tensão inútil e cuja cauda se levanta em trompa. Talvez o cavalo mosqueado compreendesse isso e, nos momentos tranquilos, reconhecesse que a culpa era sua, que já havia vivido sua vida e que chegara a hora de pagar seu tributo. Mas, no fundo, era um cavalo e, com frequência, incapaz de reprimir sentimentos como o desgosto, a tristeza e a indignação ao contemplar esses jovens que o sentenciavam por uma coisa que também eles teriam de sofrer no fim da vida. Um sentimento aristocrático era também a causa daquele procedimento desapiedado. Cada uma daquelas potras descendia, por parte de pai ou de mãe, do célebre Smetanka; e o cavalo mosqueado era de procedência desconhecida. Era um cavalo adventício*; haviam-no comprado, três anos antes, numa feira, por oitenta rublos em notas de banco.

* COMENTÁRIO: Adventício é forasteiro, de fora. Vemos aqui um tratamento recebido pelo personagem Kolstomer por entenderem que ele é um cavalo bastardo, sem procedência nobre.

A potra baia, como se estivesse dando um passeio, aproximou-se das próprias narinas do cavalo mosqueado e empurrou-o. Este já sabia do que se tratava; sem abrir os olhos, baixou as orelhas e mostrou os dentes. A potra virou as costas e fez como se lhe quisesse dar um coice. O cavalo mosqueado abriu os olhos e afastou-se. Já não tinha sono e começou a comer. A potra travessa aproximou-se de novo dele, seguida por suas companheiras. Uma destas, de dois anos de idade e muito estúpida, que sempre imitava a baia em tudo, ia também fazê-lo desta vez e, como ocorre em tais casos, passou do limite. Em geral, a égua baia aproximava-se do cavalo mosqueado, como se fosse fazer alguma coisa, e passava diante mesmo de seu focinho, sem dirigir-lhe a vista, de modo que ele não sabia se deveria irritar-se ou não; e aquilo era realmente divertido. Desta vez fez o mesmo, mas a que a seguia e que estava especialmente alegre empurrou o mosqueado com toda a desenvoltura. Este tornou a mostrar os dentes, relinchou e, com agilidade inesperada nele, lançou-se atrás dela e mordeu-lhe a anca. A égua respondeu dando forte coice nas fracas costelas do velho, que até emitiu um gemido surdo. Quis correr a persegui-la, mas logo mudou de parecer e se afastou, com suspiro profundo. Provavelmente, toda a juventude da cavalhada considerou como ofensa pessoal a insolência que o velho cavalo se permitira com relação à potra nova; durante o resto daquele dia não o deixaram pastar nem lhe deram um momento de descanso, de modo que até o cavalariço teve de intervir várias vezes para separá-los, sem poder compreender o que havia sucedido. O cavalo mosqueado estava tão ofendido que ele próprio se aproximou de Nester quando o velho se dispôs a recolher a manada e se sentiu mais feliz e tranquilo quando selado e montado.

Deus sabe o que pensaria ao levar às costas o velho Nester. Talvez pensasse, com amargura, na impertinente e cruel juventude, ou, com aquela altivez desdenhosa e silenciosa própria dos velhos, perdoasse seus ofensores; mas o caso é que não deixou suas reflexões transparecerem, até que regressaram à casa*.

* COMENTÁRIO: É estranho, ora parece que o narrador é um demiurgo e sabe tudo sobre os personagens e destinos, ora parece que não sabe o que pensam os personagens. Percebemos que ele sabe tudo sobre Kolstomer, mas não sobre Nester.

Naquela noite, chegaram uns parentes de Nester. Ao conduzir a cavalhada diante das isbás dos servos, notou um carro com um cavalo amarrado à frente da escadinha de sua casa. Apressou-se tanto em recolher a cavalhada que, sem desencilhar o cavalo mosqueado, deixou-o no pátio e, ordenando a Vaska que ele o fizesse, fechou a porta e foi ver seus parentes. Talvez por causa da ofensa feita à potra nova, bisneta de Smetanka, pelo "tinhoso inútil", de pais desconhecidos, comprado numa feira, que havia molestado o sentimento aristocrático de toda a cavalhada, ou talvez porque o cavalo mosqueado, tendo ao lombo a sela alta sem cavaleiro, oferecesse um aspecto estranho e fantástico para as éguas, o fato é que naquela noite sucedeu algo insólito na cavalariça. Todas as éguas, tanto as jovens como as mais velhas, perseguiram o cavalo mosqueado, mostrando os dentes e obrigando-o a correr de um lado para outro; e ouviram-se os coices que lhe davam nos flancos delgados, assim como sua pesada respiração. O cavalo já não podia suportar mais aqueles golpes, nem era capaz de evitá-los. Deteve-se em meio do pátio e sua cara expressou primeiro uma débil raiva senil e impotente e, depois, o desespero. Baixou as orelhas. E, subitamente, aconteceu algo que obrigou todos a ficarem quietos. Viazopurika, a mais velha das éguas, aproximou-se dele, cheirou-o e suspirou. O cavalo mosqueado suspirou também.

CAPÍTULO V

No centro do pátio, iluminado pela lua, via-se a figura alta do cavalo mosqueado e o arção saliente. Os cavalos, imóveis, permaneciam em seu redor, observando profundo silêncio, como se tivessem acabado de inteirar-se de algo extraordinário. E assim era, com efeito.

Eis aqui o que o cavalo lhes contou:

PRIMEIRA NOITE

"Sim, sou filho de Liubesni I e de Baba. Meu nome de linhagem é Mujique I. Sou Mujique I e, para os da rua, Kolstomer, assim apelidado pelo vulgo em razão de minha marcha ampla, que nunca teve igual em toda a Rússia. Não há no mundo um cavalo de sangue mais nobre que o meu. Eu nunca vos teria dito isso. Para quê? Nunca me teríeis reconhecido. Como até há pouco não me havia reconhecido Viazopurika, que esteve comigo em Krenovo. Sem o testemunho dela, não me acreditaríeis. Eu nunca vos teria dito isso. Não necessito da compaixão cavalar. Mas quisestes que eu o dissesse. Pois bem: sou aquele Kolstomer que os caçadores procuram em vão, o Kolstomer que conheceu pessoalmente o conde e que foi vendido por haver vencido o favorito dele, Liebed.

Quando nasci, não sabia o que significava a palavra mosqueado. Acreditava que era um cavalo comum. Recordo que a primeira observação que fizeram sobre minha pele nos surpreendeu profundamente, a mim e a minha mãe. Devo ter nascido de noite; já para a madrugada, bem lambido por minha mãe, estava de pé. Lembro que incessantemente desejava algo e que tudo me parecia muito estranho e simples ao mesmo tempo. Os estábulos ficavam num corredor largo e tépido, com portas de grades, que deixavam ver o exterior. Minha mãe me ofereceu as tetas, mas eu era tão ingênuo que tanto a empurrava com o focinho entre as patas dianteiras como no ventre. De repente, minha mãe se virou para a porta e, passando por cima de mim, afastou-se para um lado. O palafreneiro que tratava de nós contemplava-nos através das grades.

- A Baba pariu! - exclamou, abrindo o ferrolho; e, andando pela palha fresca, abraçou-me com as duas mãos. - Olha, Taras, é um potro mosqueado. Parece uma pega.

Soltei-me de seus braços, e caí de joelhos.

- Que diabrete! - disse o cavalariço.

Minha mãe ficou inquieta, mas não fez nada para defender-me. Limitou-se a suspirar profundamente e afastou-se um pouco. Chegaram outros cavalariços e puseram-se a examinar-me. Um deles correu a avisar o chefe do estábulo. Todos se riam de minhas manchas e me davam nomes estranhos. Nem mesmo minha mãe entendia o significado dessas palavras. Até então, não houvera em nossa linhagem um só cavalo de pele mosqueada. Não pensávamos que isso pudesse ser mau de qualquer forma. E já então todos louvavam minha constituição e minha força.

- Como é esperto! Não se pode segurá-lo! - disse o palafreneiro.

Pouco depois chegou o chefe das cavalariças e estranhou minha cor; pareceu até ficar desgostoso.

- A quem puxou esse monstro? O general não quererá deixá-lo nas cavalariças - disse ele. - Ah, Baba, boa coisa nos fizeste! - acrescentou, dirigindo-se a minha mãe. - Teria sido melhor que fosse calvo; mas mosqueado...

Minha mãe nada respondeu e, como sempre em tais casos, suspirou.

- A quem terá saído? Parece um mujique. Não podemos deixá-lo na cavalhada, seria uma vergonha. No entanto, é um bom cavalo - dizia o chefe, assim como todos os demais, enquanto me contemplavam.

Poucos dias depois, o general em pessoa veio ver-me. De novo, não sei por que, todos se horrorizaram e invectivaram minha mãe pela cor de minha pele.

- No entanto, é um bom cavalo, um cavalo muito bom - diziam todos os que me viam.

Até a primavera, ficamos separados, cada qual com sua mãe; e só algumas vezes, quando o sol derretia a neve do telhado dos estábulos, nos levavam ao grande pátio coberto de palha fresca. Ali conheci todos os meus parentes, tanto os próximos como os afastados. Ali vi como, por portas diferentes, saíam as éguas mais famosas daquele tempo, com seus rebentos. Entre elas se encontravam a velha Golanka, Muchka, a filha de Smetanka, Krasnuka e a hacaneia de sela Dobrokotika. Todas as celebridades daquela época se reuniam ali com seus filhos, passeavam ao sol, espojavam-se na palha fresca e cheiravam-se mutualmente, da mesma forma que os cavalos de hoje. Não esqueço até agora o aspecto que apresentava aquela eguada, cheia de potras formosas. Estranha-vos pensar que, em meu tempo, fui jovem e esperto, mas foi assim. Ali se encontrava também esta mesma Viazopurika, que então era uma potranca de um ano, simpática, alegre e cheia de vivacidade; mas direi, sem querer ofendê-la, que, embora aqui a considerem uma raridade de seu sangue, naquele estábulo era um dos piores exemplares. Ela mesma o confirmará.

Minha pele mosqueada, que tanto desagradava aos homens, era, em compensação, apreciada pelos cavalos. Todos me rodeavam e, admirados, brincavam comigo. Comecei a esquecer as palavras das pessoas a respeito de minha pele e sentia-me feliz. Mas não tardei a conhecer a primeira dor de minha vida, causada por minha própria mãe. Quando a neve começou a derreter-se, as codornizes piavam sob os beirais dos telhados e a primavera começou a sentir-se com mais força no ar; minha mãe transformou-se com relação a mim. Seu caráter mudou por completo. Ora, sem causa aparente, começava a brincar, correndo pelo pátio, coisa que não convinha em absoluto à sua idade; ora permanecia pensativa e relinchava; ora mordia e trocava coices com as companheiras. Às vezes, cheirava-me e fungava, com desgosto. Ou então, saia a tomar sol e apoiava a cabeça no pescoço de sua prima Kupchika, ficando a coçar-lhe o lombo por muito tempo, em atitude pensativa, sem deixar que me aproximasse de suas tetas. Um dia, o chefe das cavalariças ordenou que pusessem freio em minha mãe e levaram-na do estábulo. Minha mãe relinchou; respondi e quis acompanhá-la, mas nem sequer ela me fitou. Taras, o criado, agarrou-me no momento em que fechavam a porta atrás de minha mãe. Precipitei-me, derrubando-o sobre a palha, mas a porta estava fechada e só pude ouvir os relinchos de minha mãe, que se afastava. Já não me chamava e em sua voz se distinguia uma expressão completamente diferente. A seus relinchos responderam outros muito possantes; segundo soube depois, eram os de Dobri I, que, conduzido por dois cavalariços, ia ao seu encontro. Não me lembro como Taras saiu do estábulo; sentia-me demasiado triste. Pressentia que acabara de perder para sempre o amor de minha mãe. "E tudo isso, só por ser um cavalo mosqueado", pensava, recordando as palavras dos homens a respeito de minha pele. Foi tal a raiva que me invadiu que comecei a dar pancadas com a cabeça na parede do estábulo, até cair exausto e coberto de suor.

Ao fim de algum tempo, minha mãe voltou. Ouvia-a chegar a trote e aproximar-se do estábulo com passos diferentes. Abriram-lhe a porta; mal a reconheci, tanto se havia rejuvenescido e embelezado. farejou-me, fungou e começou a relinchar. Por sua expressão, notei que já não me queria. Falou-me de como Dobri era formoso e de quanto o amava. Aqueles encontros se repetiram e cada vez mais esfriavam minhas relações com a minha mãe.

Em breve nos deixaram sair ao prado. Então, conheci novas alegrias, que substituíram a perda do amor materno. Tinha amigas e companheiros; aprendemos juntos a comer a relva, a relinchar como os mais velhos e a galopar em volta de nossas mães, com a cauda erguida. Foi um período feliz. Tudo me era perdoado; todos me estimavam, me admiravam e eram condescendentes, fizesse eu o que fizesse; mas isso durou pouco. Não tardou a acontecer-me uma coisa terrível".

O cavalo mosqueado suspirou profundamente e afastou-se do grupo.

Amanhecera já desde algum tempo. As portas rangeram e entrou Nester. Os cavalos se separaram. O cavaleiro arranjou a sela do velho mosqueado e levou a cavalhada para fora.

CAPÍTULO VI

SEGUNDA NOITE

Depois de novamente recolhidos os cavalos, voltaram eles a reunir-se em redor do velho mosqueado.

"No mês de agosto, separaram-nos de nossas mães - disse o cavalo, continuando sua narrativa. - Senti pesar intenso. Via que minha mãe levava em suas entranhas meu irmão mais novo, o célebre Usane, e que eu já não era para ela o mesmo de antes. Não sentia ciúmes, mas tornava-me cada vez mais frio em relação a ela. Além disso, sabia que, ao separar-me de minha mãe, levar-me-iam ao departamento dos potros, onde estes eram encerrados em grupos de dois ou três e de onde saía para o ar livre, todos os dias, uma manada de potros novos. Fiquei com o potro Mili; era um cavalo de sela e mais tarde foi montado pelo imperador, sendo reproduzido em selos, gravuras e estátuas. Então, não passava de um filhote de pelo delicado e reluzente, pescoço de cisne e patas delgadas e retas. Sempre estava alegre e mostrava-se afetuoso e amável; sempre estava disposto a brincar, a lamber-se e a fazer pilhérias tanto com os cavalos como com as pessoas. Sem querer, tornamo-nos amigos, porque vivíamos juntos; e essa amizade se manteve durante toda a nossa adolescência. Era alegre e despreocupado; já naquela época começava a interessar-se pelo amor, brincava com as éguas jovens e zombava de minha inocência. Para grande infelicidade minha, quis imitá-lo, por amor-próprio; e muito depressa deixei que o amor me arrastasse. Esta inclinação precoce foi a causa de uma mudança importantíssima em meu destino. Acontece que me enamorei.

Viazopurika tinha um ano mais do que eu e éramos muito bons amigos; mas, para os fins de outono, observei que começava a evitar-me... Não contarei a triste história de meu primeiro amor; a própria Viazopurika deve lembrar-se de minha louca paixão, que terminou com uma mudança importantíssima em minha vida. Os cavalariços expulsaram Viazopurika e me deram uma sova. Conduziram-me a um estábulo especial, onde passei a noite inteira relinchando, como se pressentisse o acontecimento que iria ocorrer no dia seguinte.

De manhã, chegaram ao pátio do estábulo o general, o chefe das cavalariças, o palafreneiro e os ajudantes; e armou-se grande gritaria. O general ralhava com o chefe, que se desculpava, dizendo que ele não havia mandado que me soltassem e que os ajudantes o haviam feito por sua conta. O general ameaçou mandar açoitar a todos eles e disse que não poderiam ser conservados todos os potros. O chefe prometeu cumprir suas ordens. Depois, calaram-se e saíram dali. Não compreendi nada; mas notei que algo se tramava contra mim.

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No dia seguinte, deixei de relinchar para sempre e tornei-me o que sou agora. O mundo mudou completamente ante meus olhos. Nada me era agradável; fechei-me em mim mesmo e comecei a refletir. A princípio, tudo me pareceu odioso. Até deixei de comer, de beber e de andar. Nem sequer pensava em brincar. Às vezes, vinham-me desejos de caracolear, de galopar ou de relinchar; mas imediatamente se apresentava a terrível pergunta: "Para quê? Com que fim?" E minhas últimas forças me abandonavam.

Certa vez me tiraram à noite, quando a cavalhada regressava do prado. De longe avistei uma nuvem de poeira e os contornos confusos de nossas mães. Ouvi os relinchos alegres e o ruído dos cascos. Detive-me, embora o freio, puxado pelo criado que me levava, me ferisse a nuca; e fitei a cavalhada que se aproximava da mesma forma por que se fita a felicidade que se perdeu para sempre. As éguas aproximavam-se e pude distinguir, uma por uma, as silhuetas belas, majestosas, sãs e bem nutridas que eu conhecia. Algumas delas também me olharam. Já não sentia a dor que me produzia o freio que o criado puxava. Esqueci-me de minha condição e, sem querer, relinchei e corri a trote; mas meu relincho soou triste, lamentável e ridículo. As éguas não se riram de mim, mas notei que muitas desviavam a vista, por decoro. Ao que parece, eu lhes inspirava repulsa, dó, desgosto e, sobretudo, riso. Fazia-as rir o meu pescoço esquálido e inexpressivo, a minha cabeça enorme (durante aquele tempo eu havia emagrecido), minhas amplas patas sem garbo e meu porte estúpido ao empreender um leve trote em volta do criado, por hábito antigo. Ninguém respondeu a meu relincho e todos me viraram as costas. Logo compreendi tudo: compreendi até que ponto me tornara estranho para todos eles, e nem lembro sequer como voltei.

Já antes eu tivera certa tendência para a seriedade e a meditação, mas então sofri uma transformação definitiva. Meu pelo, que despertava desprezo tão estranho entre as pessoas, minha desgraça inesperada e, além disso, minha situação especial na cavalhada, que pressentia, mas que não conseguia explicar a mim mesmo, obrigaram-me a concentrar-me ainda mais dentro de meu íntimo. Refleti sobre a injustiça dos homens, que me censuravam por causa da cor da pele; sobre a inconstância do amor materno e, em geral, do amor feminino, que dependia de certas circunstâncias físicas. Principalmente, meditei sobre as particularidades daquele estranho animal a que chamam gênero humano e a que estamos tão estreitamente ligados*, e sobre as particularidades a que se devia minha condição, que pressentia mas não chegava a entender. A importância dessa particularidade e das propriedades humanas sobre as quais ela se baseava foi-me revelada pelo acontecimento seguinte.

* COMENTÁRIO: Esse trecho de reflexão do personagem Kolstomer é profundo, é atual demais!

Foi no inverno, na época das festas. Durante todo o dia haviam-me deixado sem comer e sem beber. Posteriormente, inteirei-me de que isso acontecera porque o palafreneiro se embriagara. O chefe dos estábulos veio ver-me e, ao verificar que eu não tinha ração, começou a invectivar o criado (que não se encontrava ali) com palavras grosseiras; depois, saiu. No dia seguinte, o palafreneiro, acompanhado de outro criado, entrou no estábulo para dar-me a ração. Notei que estava especialmente pálido e triste. Sobretudo, em suas largas costas notava-se algo de significativo, que despertava compaixão. Atirou o feno por cima da grade, com gesto de aborrecimento e, quando me aproximei, com a intenção de por a cabeça em seu ombro, assestou-me um murro tão forte, em pleno focinho, que retrocedi. Depois, deu-me um pontapé na barriga.

- Se não fosse por causa desse tinhoso não teria acontecido nada! - exclamou.

- Por que dizes isso? - perguntou o outro criado.

- Falta de cuidado: o chefe não inspeciona os cavalos do conde. Mas o seu potro, vem visitá-lo duas vezes por dia.

- Deram-lhe esse mosqueado de presente?

- O diabo sabe se o deram ou se o venderam. O fato é que podemos matar de fome os cavalos do conde; ele não se preocupa com isso, em absoluto. Atreva-se alguém, no entanto, a deixar sem ração o seu potro. "Deita-te", disse-me ele. E começaram a acoitar-me. Não parece cristão. Tem mais pena dos animais que das pessoas. Deve ser herege. O bárbaro contou pessoalmente os açoites que me davam. Nem mesmo o general manda açoitar assim. Fiquei com as costas todas lanhadas.

Compreendi muito bem o que dizia a respeito dos açoites e do cristianismo. Mas ficou completamente obscura para mim a palavra seu, pela qual pude deduzir que estabeleciam um vínculo a ligar-me ao chefe das cavalariças. Então, não pude compreender de modo algum em que consistiria tal vínculo. Só muito depois, quando me separaram dos demais cavalos, é que expliquei a mim mesmo o que aquilo representava. Naquela época, eu não era capaz de entender a significação do fato de ser eu propriedade de um homem. As palavras "meu cavalo", referindo-se a mim, a um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas como as palavras "minha terra", "meu ar", "minha água"*.

* COMENTÁRIO: Essa crítica social de Tolstói na segunda metade do século XIX é fantástica! 

No entanto, elas exerceram sobre mim enorme influência. Sem cessar pensava nelas e só depois de longo contato com os seres humanos pude explicar-me a significação que, afinal, lhes é atribuída. Querem dizer o seguinte: os homens não dirigem a vida com fatos, mas com palavras. Não os preocupa tanto a possibilidade de fazer ou deixar de fazer alguma coisa, como a de falar de objetos diferentes mediante palavras convencionais. Essas palavras, que consideram muito importantes, são, sobretudo, meu ou minha, teu ou tua. Aplicam-nas a todas as espécies de coisas e de seres, inclusive à terra, aos seus semelhantes e aos cavalos.

Além disso, convencionaram que uma pessoa só pode dizer meu a respeito de uma coisa determinada. E aquele que puder aplicar a palavra "meu" a um número maior de coisas, segundo a convenção feita, considera-se a pessoa mais feliz. Não sei por que as coisas são desse modo; mas sei que são assim. Durante muito tempo procurei compreender isso, supondo que daí viria algum proveito direto; mas verifiquei que isso não era exato.

Muitas pessoas das que me chamavam seu cavalo nem mesmo me montavam; mas outras o faziam. Não eram elas as que me davam de comer, mas outros estranhos. Também não eram as pessoas que me faziam bem, mas os cocheiros, os veterinários e, em geral, pessoas desconhecidas. Posteriormente, quando ampliei o círculo de minhas observações, convenci-me de que o conceito de meu - e não só com relação a nós, cavalos - não tem qualquer outro fundamento além de um baixo instinto animal, que os homens chamam sentimento ou direito de propriedade. O homem diz "minha casa", mas nunca vive nela; preocupa-se só em construí-la e mantê-la. O comerciante diz "minha loja", ou "meus tecidos", por exemplo, mas não faz suas roupas com os melhores tecidos que vende na loja. Há pessoas que chamam sua uma extensão de terra e nunca a viram nem passaram por ela. Há outras que dizem serem suas certas pessoas que nunca viram nesta vida e a única relação que têm com elas consiste em causar-lhes dano. Há homens que chamam de suas certas mulheres, e estas convivem com outros homens. As pessoas não procuram, em sua vida, fazer o que consideram o bem, e sim a maneira de poder dizer do maior número possível de coisas: é meu. Agora estou persuadido de que nisso reside a diferença essencial entre nós e os homens. Portanto, sem falar de outras prerrogativas nossas, só por este fato podemos dizer, com segurança, que, entre os seres vivos, nos encontramos em nível mais alto que o dos homens. A atividade dos homens, pelo menos a dos homens com quem tenho tratado, se traduz em palavras, ao passo que a nossa se manifesta em fatos. Assim, pois, o chefe das cavalariças açoitou o criado porque havia adquirido o direito de chamar-me seu cavalo. Este descobrimento, que profundamente me consternou, assim como os conceitos que minha pele despertara entre as pessoas e a volubilidade de minha mãe, obrigaram-me a tornar-me o cavalo sério e pensativo que sou.

Sentia-me três vezes desgraçado: meu pelo era mosqueado, haviam-me castrado e os homens imaginavam que eu não pertencia a Deus nem a mim mesmo, como é próprio de todo ser vivente, e sim, a um cavalariço*.

* COMENTÁRIO: Passa o tempo, termina um século e começa outro, e a humanidade continua com os mesmos problemas causados pelo animal humano, em relação aos demais seres vivos e os biomas do planeta Terra.

Disto se derivaram numerosas consequências. A primeira delas foi que me separaram dos outros cavalos, alimentaram-me melhor e me ajaezaram antes do que em geral costuma fazer-se. Ajaezaram-me, pela primeira vez, aos dois anos de idade. Lembro-me de que o chefe das cavalariças, que imaginava que eu lhe pertencia, em companhia de uma série de criados, começou a pôr-me arreios, esperando que eu me encabritasse ou me rebelasse. Amarraram-me com cordas, para introduzir-me entre varais. Puseram-me às costas uns arneses em forma de cruz, que ataram às varas, para que eu não desse coices; e eu só esperava uma oportunidade de demonstrar-lhes meu amor ao trabalho. Assombraram-se ao ver que me portava como um cavalo velho. Passearam comigo e fui-me exercitando a correr a trote. Cada dia que se passava, maiores eram os meus progressos, de maneira que, três meses depois, o próprio general e muitos outros louvaram minha andadura. Mas, coisa estranha: como imaginavam que eu não me pertencia a mim mesmo, e sim ao chefe dos estábulos, minhas andaduras tinham aplicações muito diferentes das dos meus companheiros.

A meus irmãos, os potros, faziam com que corressem e cronometravam suas corridas. Examinavam-nos detidamente, atrelavam-nos a carruagenzinhas douradas e os cobriam com ricas gualdrapas. Eu, porém, puxava a carruagem comum do cavalariço, quando ele ia tratar de seus assuntos em Chesmene e outras aldeias. Tudo isto era devido à minha pele e, sobretudo, a que, na sua opinião, eu não pertencia ao conde, mas ao chefe dos estábulos.

Amanhã, se ainda vivermos, contar-vos-ei a consequência principal que teve para mim o direito de propriedade que o chefe dos estábulos se atribuía".

Durante todo aquele dia, os cavalos trataram Kolstomer com respeito. Mas o trato que Nester lhe dispensou foi tão grosseiro como sempre. O cavalinho do mujique, ao aproximar-se a cavalhada, relinchou; e a jovem égua baia tornou a exibir sua coqueteria.

CAPÍTULO VII

TERCEIRA NOITE

Saiu a lua e seu fino alfanje iluminou a figura de Kolstomer, que permanecia no meio do pátio. Os cavalos se agruparam à sua volta.

"A consequência principal e extraordinária de não pertencer eu ao conde nem a Deus, mas ao chefe das cavalariças - continuou o velho mosqueado - foi que aquilo que em geral constitui o nosso maior mérito, isto é, a marcha rápida, deu motivo a que me expulsassem da cavalhada. Um dia, faziam provas com Liebed, e o cavalariço, que chegava de chesmene montado em mim, aproximou-se da pista. Liebed passou junto de nós; corria bem, mas bamboleava-se e não tinha aquela pureza de movimentos que eu adquirira ao exercitar-me. Instantaneamente, ao contacto de uma pata com o chão, eu levantava a outra, sem fazer o menor esforço em vão, aproveitando-me disso para correr para a frente. Quando Liebed passou diante de nós, corri para a pista e o chefe das cavalariças não me reteve.

- Querem que experimentemos o meu mosqueado? - gritou.

E, quando Liebed chegou por segunda vez perto de mim, o cavalariço soltou-me. Liebed já havia tomado carreira e, por isso, fiquei para trás na primeira volta, mas, na segunda, fui recuperando terreno, alcancei-o e passei à sua frente. Fizeram outra prova e o resultado foi idêntico. Eu era melhor corredor. Isto horrorizou a todos. Decidiram vender-me quanto antes e, para quanto mais longe, melhor, para que nem sequer se ouvisse falar de mim. "Se o conde souber disso, passaremos maus bocados", diziam. E venderam-me a um traficante de cavalos.

Com ele estive pouco tempo. Comprou-me um hussardo, que fora lá a negócios de remonta. Tudo aquilo era tão injusto e tão cruel que me alegrei quando me afastaram de Krenovo, separando-me em definitivo de tudo quanto me era agradável e querido. Permanecendo com a cavalhada eu sofria demasiado. Aos outros esperavam o amor, as honrarias, a liberdade; a mim, só o trabalho e as humilhações, as humilhações e o trabalho, até o fim de minha vida. Por quê? Por que eu era mosqueado e porque, em razão disso, tinha de pertencer a alguém"*.

* COMENTÁRIO: O preconceito e a discriminação geram desigualdade social, aprendi isso na formação política e é exatamente o que Kolstomer está refletindo e nos contando ao olhar para o que a vida em sociedade lhe proporcionou.

Naquela noite, Kolstomer não pôde prosseguir sua narrativa. Aconteceu um fato que semeou agitação entre os cavalos. Rupchika, uma potra prenhe, que escutara o relato desde o início, virou-se de repente e dirigiu-se com lentidão para debaixo do telhado, onde se pôs a gemer tão fortemente que chamou a atenção de todos; depois, deitou-se, levantou-se e tornou a deitar-se. As éguas velhas compreenderam de que se tratava, mas as jovens se inquietaram e, abandonando o cavalo mosqueado, rodearam a enferma. Para o amanhecer, havia um potro novo, que se bamboleava nas perninhas. Nester chamou o criado. Levaram a égua e o potrinho para o estábulo e os demais foram para o prado.

CAPÍTULO VIII

QUARTA NOITE

Ao anoitecer, quando as portas se fecharam e tudo ficou em silêncio, o mosqueado assim continuou:

"Pude fazer múltiplas observações a respeito das pessoas e dos cavalos durante a época em que fui passando de dono para dono. Dois amos foram os que me tiveram por mais tempo: o oficial de hussardos, que era um príncipe; e depois uma velha, que vivia em Nikolai Ivavleni.

Com o hussardo passei os melhores dias de minha vida.

Embora tenha sido ele a causa de minha ruína, embora não tivesse estima a ninguém, eu o estimava e estimo, precisamente por isso. Agradava-me ver que ele era elegante, feliz e rico e que, por isso mesmo, a ninguém amava. Compreendeis esse elevado sentimento cavalar. Sua frieza, sua crueldade e minha dependência dele emprestavam força singular a meu afeto. E, em meus bons tempos, pensava: "Mata-me, extenua-me; sentir-me-ei tanto mais feliz".

Comprou-me do traficante de cavalos, que por sua vez me adquirira do cavalariço por oitocentos rublos. Elogiou-me, porque ninguém tinha cavalos mosqueados. Foi minha época melhor. O hussardo tinha uma amante. Soube disso porque todos os dias eu o levava à casa dela e, às vezes, tinha que levar os dois. A amante era muito bela, o hussardo era distinto e também o era seu cocheiro. Por isso eu queria bem a todos. E vivia a meu gosto. Minha vida transcorria da maneira seguinte: de manhã, o criado vinha limpar-me. Era um moço novo, que procedia de família camponesa. Abria a porta, para que saísse o bafo; tirava o esterco, removia as gualdrapas dos cavalos e começava a raspar-me o corpo com escovas, brossa e almofaça. Eu, de brincadeira, mordiscava-lhe a manga e batia com as patas no chão. Depois, levavam-nos, uns após os outros, a umas tinas de água fria; e o rapaz admirava minha pele mosqueada, minhas patas retas "como umas flechas", meus cascos largos e meu lombo lustroso, "sobre o qual se podia dormir". Enfiava feno pelas grades da porta e colocava aveia na manjedoura de carvalho. Depois, vinha Feofane, o cocheiro principal.

O amo e o cocheiro se pareciam. Ambos eram valentes e não gostavam de ninguém, a não ser de si mesmos; por isso, todos os apreciavam. Feofane costumava usar camisa vermelha e calças de feltro. Gostava de vê-lo chegar, nos dias de festa, com os cabelos untados de brilhantina. Costumava exclamar: "Então, não te lembras de mim?" E empurrava-me com o cabo do forcado, mas sem fazer-me dano, só para pilheriar. Eu compreendia imediatamente; agachava as orelhas e rangia os dentes. Havia um potro preto que formava parelha com outro. De noite, também me atrelavam com ele. Chamava-se Polkane, não entendia as brincadeiras e era mau como um demônio. No estábulo, permanecíamos um ao lado do outro e ele me atormentava seriamente. Feofane não lhe tinha medo. Costumava aproximar-se dele claramente e soltar um grito; o potro parecia disposto a matá-lo, mas Feofane esquivava-se e conseguia lançar-lhe a corda ao pescoço. Uma vez, tomamos ambos a rédea nos dentes, em Kuznietski. Mas nem o amo nem o cocheiro se assustavam; ambos riram, gritaram às pessoas que se afastassem e depois retomaram as rédeas para que não atropelássemos ninguém.

Servindo ao hussardo, perdi minhas melhores faculdades e a metade de minha vida. Ali comecei a ressentir-me das pernas. Mas, apesar disto, foi a melhor época de minha existência. Às doze horas costumavam atrelar-nos, depois de nos untarem os cascos e de nos refrescarem o topete e as crinas.

O trenó era de junco trançado e tapizado de veludo: os arneses tinham pequenas fivelas de prata e as rédeas eram de seda. 

Os arneses ajustavam-se tão bem que, quando estávamos prontos e encilhados, não se podia distinguir onde terminavam eles e onde começava o cavalo. Costumavam atrelar-me num telheiro. Chegava Feofane - que tinha as cadeiras mais largas que os ombros - com um cinturão vermelho que lhe chegava quase debaixo dos braços; examinava os arreios, sentava-se e, depois de ajeitar o cafetã, dizia umas palavras por pilhéria, preparava o chicote apenas por formalidade, pois quase nunca me fustigava e exclamava: "Andemos". Saíamos pela porta da cocheira; a cozinheira, que ia esvaziar o balde, parava no umbral; e os homens que traziam lenha ao pátio olhavam-nos com os olhos esbugalhados. Dávamos uma voltazinha e parávamos. Então chegavam os lacaios e os outros cocheiros, que se punham a falar. Assim esperávamos todos, por vezes, até três horas seguidas, junto à porta da casa, dando de vez em quando um pequeno passeio e detendo-nos de novo. Finalmente, ouvia-se barulho junto à porta; saía correndo o encanecido e barrigudo Tikone, vestido de fraque e ordenava: "A carruagem!" Então não havia a maneira estúpida de gritar: "Para a frente!", como se eu não soubesse que se deve andar para adiante e não para trás. Feofane estalava a língua. Aproximávamo-nos da escada e aparecia o patrão, ao mesmo tempo displicente e apressado, como se nada houvesse de surpreendente em Feofane, ou nos cavalos. O cocheiro estirava os braços e curvava as costas a ponto de parecer impossível que os mantivesse assim por muito tempo. O príncipe trajava barretina e um capote de pele de castor que lhe cobria o belo rosto corado, de sobrancelhas negras, que nunca deveria encobrir-se. Fazendo tilintar o sabre e as esporas, caminhava pelo tapete, como se tivesse pressa, sem prestar atenção a mim e a Feofane, quando todos nos admiravam. Ao chegar à escada, eu sacudia a cabeça e minhas finas crinas, saudando o príncipe. Quando estava de bom humor, ele pilheriava com Feofane; e este, virando levemente a cabeça e sem baixar os braços, fazia um sinal imperceptível com as rédeas, que eu entendia. Empreendia a marcha, estremecendo em cada músculo e lançando a neve suja sob a parte dianteira do trenó. Também não havia naquele tempo o costume tolo de gritar: "Eh!", como se o cocheiro sentisse alguma dor; mas só "Cuidado!" Feofane gritava: "Atenção! Cuidado!" e as pessoas se afastavam, detinham-se e, virando o pescoço, contemplavam o formoso cavalo, assim como o patrão e o cocheiro, todos distintos.

Eu gostava de passar à frente dos carros velozes. Quando Feofane e eu víamos de longe uma parelha que merecesse nosso esforço, lançávamo-nos atrás dela como um torvelinho e, pouco a pouco, a alcançávamos. Então eu já não me preocupava em lançar a neve para o trenó. Alcançava o carro, fungava por cima da cabeça do ocupante; depois, alcançava a parelha, que não tardava em deixar para trás, ouvindo só o ruído que produzia e que se ia perdendo. tanto o príncipe como Feofane e eu mantínhamos silêncio, aparentando que tínhamos nossas coisas a tratar e que nem havíamos notado aqueles maus cavalos. Eu gostava de passar à frente dos carros velozes e também de encontrar-me com um bom trotador; um instante fugaz, um barulho, um olhar, e continuávamos, cada qual para o nosso lado".

Rangeram as portas e soaram as vozes de Nester e de Vaska.

QUINTA NOITE

O TEMPO COMEÇAVA A MUDAR. Estava nublado; pela manhã não via orvalho; mas fazia calor e os mosquitos eram muito incômodos. Quando recolheram a cavalhada, os cavalos se reuniram em torno do mosqueado, que assim terminou seu relato:

"Minha vida feliz terminou depressa. vivi ali somente dois anos. Ao fim do segundo inverno, ocorreu o acontecimento mais grato de minha vida e, em seguida, a minha maior desgraça. Foi durante o carnaval. Eu havia levado o príncipe às corridas. Tomavam parte Atlasni e Bichok. Não sei que fiz na tribuna, mas o caso é que, ao sair dali, ele ordenou a Feofane que me levassem à pista. Lembro-me de que me colocaram junto a Atlasni. Este estava atrelado a um coche leve; eu, em compensação, puxava um trenó. Numa curva, derrubei-o; saudaram-me com risos e gritos de entusiasmo.

Levaram-me a um passeio pela pista, por onde me seguiu a multidão. Cinco pessoas ofereceram ao príncipe milhares de rublos por mim. Ele se limitava a rir, mostrando os dentes brancos.

- Não, para mim ele não é um cavalo, é um amigo. Não aceitarei ouro em troca dele. Adeus, senhores - disse, e acomodou-se no veículo. - Para Stokinka - ordenou.

Era a residência de sua amante. Dirigimo-nos para lá. Aquele foi o último dia venturoso de minha vida.

Chegamos à casa de sua amante. O príncipe dizia que aquela mulher era sua, mas ela se enamorara de outro e fugira com ele*. Meu amo ficou ciente disso ao chegar à sua casa. Eram cinco horas. Sem desatrelar-me, foi atrás dela. Pela primeira vez me açoitaram com o látego e me fizeram galopar. Pela primeira vez diminuí o passo e, envergonhado, tratei de corrigir-me quando, de repente, ouvi o príncipe gritar com voz furiosa: "Corre!" O chicote silvou, senti sua mordedura e me lancei a galope, batendo com as patas contra os ferros da parte dianteira do trenó. Alcançamo-la a vinte e cinco verstas mais adiante. Consegui levar o príncipe, mas passei a noite inteira a tremer e sem poder comer nada. Pela manhã, deram-me água, bebi e deixei de ser para sempre o cavalo que era*. Estive doente, atormentaram-me de muitos modos. Curaram-me, segundo dizem os homens. Meus cascos ficaram gretados, as pernas se me dobraram, afundou-se-me o peito e senti-me fraco e frouxo. Venderam-me então a um traficante de cavalos que me alimentou com cenouras e não sei com que coisas mais. Conseguiu fazer de mim algo que não se parecia em absoluto com o que eu havia sido, mas que poderia, no entanto, enganar a um profano. Eu já não tinha vigor nem podia correr como antes. Além disso, cada vez que surgia um comprador, o traficante entrava no estábulo, acoitava-me com um chicote e metia-me medo, até enlouquecer-me. Em seguida, disfarçava os sinais das pancadas e saía. Comprou-me uma velhinha. Limitava-se a frequentar o mosteiro de Nikolai Iavleni; mas acoitava seu cocheiro. Este vinha chorar em meu estábulo; ali fiquei sabendo que as lágrimas têm agradável sabor salgado. Depois, a velhinha morreu. Seu administrador levou-me para a aldeia e me vendeu a um mercador**. Mais adiante, tive indigestão de aveia e fiquei ainda mais doente. Venderam-me a um camponês. Trabalhei arando a terra, sem comer quase nada, e feri uma perna com a relha do arado. Tornei a cair doente. Um cigano me adquiriu, em troca de outra coisa. Atormentou-me horrivelmente, até que por fim acabou por vender-me ao administrador desta fazenda. E aqui me tendes".

* COMENTÁRIO: E aí, quando o tal conceito de propriedade falha na sociedade humana, o tal "seu" e "meu", quem paga são as outras pessoas e espécies. Ao ser traído, o príncipe arrebentou com Kolstomer, que nunca mais teve saúde após o esforço ao qual foi exposto pelo homem traído.

** COMENTÁRIO II: Uma velhinha religiosa que açoita o seu cocheiro...

Todos se calaram. Começou a choviscar.

CAPÍTULO IX

AO ANOITECER do dia seguinte, quando a cavalhada regressava, encontrou-se com o patrão, que ia acompanhado por um convidado. Kuldiba olhou de través as duas figuras, masculinas: um era o jovem dono, que estava de chapéu de palha; o outro, um militar alto, grosso e flácido. A velha égua fitou os homens com receio e baixou as orelhas; os demais se assustaram, especialmente quando o patrão e seu amigo se enfiaram entre os cavalos, falando a respeito deles e examinando-os.

- Comprei este tordilho a Voiekov - disse o amo.

- E de onde é essa potranca preta de patas brancas? É muito bonita!

Examinaram vários exemplares, detendo-se de vez em quando. Também notaram a égua baia.

- Esta é de raça! ficou-me dos cavalos de sela de Krestovo - disse o patrão.

Não podiam ver bem todos os cavalos enquanto estivessem soltos. O patrão chamou Nester e este, esporeando apressadamente com os saltos dos sapatos, tocou para a frente. Notava-se que o cavalo não protestaria ainda que o obrigasse a correr assim até ao fim do mundo, até que lhe faltassem as forças. Estava mesmo disposto a galopar, o que intentou fazer com a pata direita.

- Posso afirmar decididamente que não existe na Rússia exemplar melhor do que esta égua - disse o dono, apontando uma delas.

O amigo louvou-a. O amo corria de um lado para outro, inquieto, apontando e contando a história e a origem de cada cavalo. O hóspede se aborrecia a escutá-lo e preparava perguntas para dar a impressão de que se interessava por aquilo.

- Sim, sim - dizia, distraído.

- Olha as patas, olha as patas - dizia o dono, sem responder a suas perguntas. - Custou-me muito dinheiro, mas já me deu três potros e continua a trotar.

- Trota bem? - perguntou o amigo.

Assim examinaram todos os cavalos. Já não restava nada para ver. Ambos se calaram.

- Então, vamo-nos?

- Vamo-nos.

Dirigiram-se para a porta. O amigo se alegrava de que houvesse terminado a exibição e de que fossem para casa, onde poderia comer, beber e fumar; sua alegria foi evidente. Ao passar junto de Nester, que continuava montado, esperando ordens, o convidado deu uma palmada, com a mão grossa, na garupa do mosqueado.

- Parece pintado! - exclamou. - Eu também tive um cavalo mosqueado. Não te lembras? Já te contei...

Ao ouvir que o amigo não se referia a seus cavalos, o amo não lhe prestou atenção. Voltava a cabeça sem cessar para contemplar a cavalhada.

De repente, soou um relincho inexpressivo, débil e senil, junto a seus próprios ouvidos. Era o cavalo mosqueado que começara a relinchar, mas se interrompera, como envergonhado. Nem o hóspede nem o amo prestaram atenção àquele relincho e se encaminharam para casa. Kolstomer reconhecera no velho oficial obeso o seu querido amo Serpukovskoi, o elegante, brilhante e rico oficial de hussardos.

CAPÍTULO X

CONTINUAVA A CHOVISCAR. Os estábulos estavam escuros, mas a casa senhorial tinha um aspecto inteiramente diverso. Haviam servido o chá da tarde num luxuoso salão. O dono da casa, sua esposa e o convidado, que chegara de fora, estavam diante da mesa.

A mulher, que se sentara em frente ao samovar, achava-se em estado interessante, o que se notava porque se mantinha erecta, por sua gordura e por seu avultado ventre; sobretudo, por seus olhos, grandes olhos que fitavam com expressão doce e grave.

O dono da casa tinha nas mãos uma caixa de charutos excepcionais; segundo afirmava, ninguém possuía charutos assim e dispunha-se a jactar-se deles diante de seu convidado. Era um homem elegante e bem penteado. Seu terno, fresco e folgado, era confeccionado em Londres. De sua corrente pendiam grandes e valiosos berloques. Seus óculos de ouro eram grandes, maciços e com turquesas engastadas. Usava barba à Napoleão III. Sua esposa ostentava um vestido de musselina de seda estampada, com grandes flores de cores vivas e umas fivelas especiais de ouro cravadas em seus cabelos louros, não de todo naturais. Tinha os braços sobrecarregados de pulseiras e os dedos de anéis, todos valiosos. O samovar era de prata e o serviço de chá muito fino. O lacaio, magnífico com seu fraque, a camisa de peito engomado e a gravata branca permanecia junto à porta, como uma estátua, aguardando ordens. Os móveis eram recurvados e de cores vivas; os papéis das paredes, escuros, com grandes flores. Perto da mesa, uma cadelinha extraordinariamente delgada fazia tilintar sua coleira de prata; tinha um nome inglês muito estranho. Os esposos, que não sabiam inglês, pronunciavam-no mal*. Num canto, entre jarrões de flores, havia um piano incrusté. Tudo era novo, luxuoso e raramente visto. Tudo parecia muito bem, mas tinha um timbre de vulgaridade, de riqueza e de falta de gostos espirituais.

* COMENTÁRIO: A questão do complexo de vira-lata não é uma coisa da burguesia brasileira, é um complexo global. A vulgaridade vira-lata da burguesia e nobreza dos países europeus e asiáticos é mais antiga que andar pra frente. Na Rússia do século XIX era costume nominar as coisas em francês e inglês porque era chique, era "nobre"...

O dono da casa era um caçador empedernido, robusto e sanguíneo, um desses homens que nunca se esgotam, que usam peliça de zibelina, mandam valiosos ramos de flores às artistas, bebem os vinhos mais caros e das melhores marcas em hotéis luxuosos, oferecem em concursos prêmios com seu próprio nome e mantêm a mulher mais dispendiosa.

O hóspede, Nikita Serpukovskoi, era homem de mais de quarenta anos, alto, gordo e calvo, com grandes bigodes e suíças. Devia ter sido muito elegante. Via-se que decaíra física, moral e economicamente.

Tinha tantas dívidas que era obrigado a trabalhar para que não o encarcerassem. Presentemente, dirigia-se à capital da província, onde desempenharia o cargo de chefe de cavalariças. Haviam-no conseguido para ele uns parentes muito influentes. Vestia blusa e calças azuis, de qualidade que só um ricaço poderia ostentar, e assim eram sua roupa inferior e seu relógio de marca inglesa. Calçava botas com solas magníficas, de um dedo de grossura.

Nikita Serpukovskoi gastara uma fortuna de dois milhões e ainda devia cento e vinte mil rublos. Um tipo de vida desse estilo sempre deixa a possibilidade de encontrar crédito e a de viver com o mesmo luxo por espaço de uns outros dez anos. Estes iam chegando a seu fim e as vantagens estavam terminando, de modo que Nikita começava a achar triste a vida. Pouco a pouco, ia-se entregando à bebida, isto é, o vinho lhe fazia efeito, coisa que antes não ocorrera. Sua decadência se notava principalmente em seu olhar inquieto, na insegurança de suas inflexões de voz, assim como de seus movimentos. essa inquietude despertava atenção por se notar que era recente. Adivinhava-se que em sua vida nunca temera a nada e a ninguém; mas havia chegado a essa perturbação, imprópria de sua natureza, através de penosos sofrimentos. Os donos da casa o compreendiam e trocavam olhares entre si, deixando os comentários para quando estivessem recolhidos ao leito; suportavam e até obsequiavam o infeliz Nikita. O aspecto de homem feliz que o jovem dono da casa apresentava humilhava Nikita e obrigava-o a recordar seu passado, perdido para sempre, e a invejá-lo.

- Não a incomoda o fumo do charuto, Mary? - perguntou, dirigindo-se à senhora, com aquele tom especial que só se adquire com a experiência, cortês e amável mas não de todo respeitoso, que os homens de alta sociedade costumam empregar ao falar com mulheres manteúdas, a fim de distingui-las das esposas legítimas.

Não que desejasse ofendê-la; ao contrário, desejava as boas graças tanto dela como de seu marido, embora coisa alguma no mundo o fizesse confessar tal coisa. Apenas, estava acostumado a falar desse modo a tais mulheres. Sabia que ela haveria estranhado e talvez mesmo se ofendesse se a tratasse como a uma verdadeira dama. Ao mesmo tempo, era preciso manter um matiz de respeito para com a mulher legítima de um seu igual. Sempre tratava respeitosamente tais mulheres, não por compartilhar de certas convicções expressas nas revistas (nunca lia essas porcarias) acerca do respeito que é devido a todas as pessoas, acerca da escassa importância do matrimônio, etc., mas porque todo homem decente assim procede, e ele o era, embora decaído.

Apanhou um charuto. Mas o dono da casa, agarrando desajeitadamente um punhado inteiro, ofereceu-lhos.

- Vais ver como são bons. Toma.

Nikita repeliu os charutos com um gesto da mão e em seus olhos fulguraram, mal perceptíveis, a humilhação e a ofensa.

- Obrigado - disse, tirando a cigarreira. - Prova dos meus cigarros.

A esposa do dono da casa era sensível. Notou o que ocorrera e se apressou em iniciar uma palestra com Serpukovskoi.

- Gosto muito do cheiro do fumo. Eu mesma fumaria, se não fumassem já à minha volta.

Ao dizer isso, sorriu com seu formoso e afável sorriso. Nikita Serpukovskoi respondeu com um sorriso débil. Faltavam-lhe dois dentes.

- Não, toma este, - insistiu o dono da casa, com sua escassa sensibilidade - . Os outros são menos fortes. Fritz, bringen Sie noch eine Kasten - ordenou -, dort zwei*.

* Nota do livro: Fritz, traga-lhe mais uma caixa. Há duas ali.

O lacaio alemão trouxe outra caixa de charutos.

- De quais gostas mais? Dos fortes? Estes são muito bons. Leva-os todos - insistiu.

Alegrava-o ter uma pessoa diante da qual podia alardear possuir tantas coisas caras e, portanto, não reparava em nada. Serpukovskoi acendeu um charuto e apressou-se em continuar a conversa iniciada.

- Então, quanto te custou o Atlasni? - perguntou.

- Muito caro, Mais de cinco mil rublos. Mas recompensou-me. Vou dizer-te os filhos que teve.

- Servem para correr? - perguntou Nikita.

- Como não? Um deles acaba de obter três prêmios: em Tula, em Moscou e em São Petersburgo, onde correu com o Varoni, de Voiekov.

- Ainda não está domado de todo e parece-me que tem muito sangue holandês - disse Serpukovskoi.

- E que me dizes das mães? Amanhã eu tas mostrarei. Paguei três mil rublos por Dobrinia e dois mil por Laskavaia.

E de novo, pôs-se a enumerar suas riquezas. A esposa notava que Serpukovskoi se sentia magoado e que só fingia escutar.

- Querem tomar mais chá? - perguntou.

- Não - disse o dono da casa, e continuou a falar.

A mulher levantou-se. O marido deteve-a e beijou-a.

Ao fitá-los, Serpukovskoi iniciou para eles um sorriso fingido; mas, quando o dono da casa se levantou e, abraçado à mulher, se dirigiu para a porta, suspirou e seu rosto mudou de repente de expressão, manifestando desespero e, mesmo, raiva.

CAPÍTULO XI

O DONO DA CASA voltou risonho e sentou-se junto a Nikita. Ambos ficaram calados por algum tempo.

- Dizias-me que foi Viekov quem to vendeu - falou Serpukovskoi, afetando indiferença.

- Sim, comprei-lhe Atlasni. Sempre tive desejos de comprar éguas nas cavalarias de Dubovitski, mas agora só lhe restam exemplares que não valem nada.

- Faliu - disse Serpukovskoi, e logo se deteve, olhando à sua volta.

Recordou que devia a Dubovitski vinte mil rublos e que, se se falava da falência de alguém, muito maior motivo haveria para que se falasse da sua própria. Ficou silencioso.

Ambos se calaram durante bastante tempo. O dono da casa pensava em que poderia vangloriar-se diante de seu convidado. Serpukovskoi tratava de encontrar um meio de demonstrar que não se considerava arruinado. A nenhum dos dois, porém, ocorria qualquer ideia, embora procurassem animar-se com charutos. "Seria bom beber um pouco" - pensava Serpukovskoi. "O remédio é beber, do contrário morrerei de aborrecimento com este homem" - dizia a si mesmo o dono da casa.

- Ficarás aqui por muito tempo? - perguntou Serpukovskoi.

- Um mês, mais ou menos. Queres cear agora? Fritz, a ceia está pronta?

Passaram à sala de jantar. Sob a lâmpada havia uma mesa com candelabros e cheia de coisas extraordinárias: sifões, bonecas nas rolhas das garrafas, vinhos raros em frascos, frios variadíssimos e vodka. Beberam, comeram e tornaram a beber. E a palavra se animou. Serpukovskoi ficou vermelho e falou sem timidez. Falaram de mulheres. Cada qual contou coisas das suas, uma cigana, uma bailarina, uma francesa.

- Deixaste a Mathieu? - perguntou o dono da casa.

Era a amante que arruinara Serpukovskoi.

- Foi ela quem me abandonou. Ai, amigo. Quando recordo o que esbanjei em minha vida! Hoje, em compensação, mil rublos alegram-me. Sentir-me-ei feliz quando me afastar de todos. Não posso continuar em Moscou. Para que falar?

O dono da casa aborrecia-se, escutando Serpukovskoi. Tinha desejos de falar de si mesmo e de vangloriar-se. O outro, por sua vez, queria relatar seu passado brilhante. O dono da casa serviu-lhe vinho e esperou que ele terminasse para dizer-lhe como cuidava de suas cavalariças, havendo-as organizado como ninguém até então o fizera. Também queria dizer-lhe que sua Mary o amava de todo o coração, e não apenas pelo dinheiro.

- Queria dizer-te que em meus estábulos - começou a falar, mas Serpukovskoi o interrompeu.

- Posso dizer que houve um tempo em que eu amava a vida e em que sabia viver. Falas-me das carreiras. Pois bem, dize-me: qual é o mais velos dos teus cavalos?

O dono da casa alegrou-se por poder falar de seus cavalos e se dispôs a fazê-lo, mas Serpukovskoi tornou a interrompê-lo.

- Sim, sim - disse. - Vós, que vos dedicais a criar cavalos, só o fazeis para vangloriar-vos e não para desfrutar da vida. Meu caso era diferente. Já te disse antes que tive um cavalo mosqueado. Tinha umas manchas iguais às daquele que teu palafreneiro montava. Que cavalo era! Não poderias tê-lo conhecido. Foi no ano de quarenta e dois. Eu havia chegado a Moscou e fui ver um traficante. Vi lá aquele mosqueado e gostei dele. O preço? Mil rublos. Comprei-o e utilizei-o para minha carruagem. Nunca conheci cavalo melhor em velocidade, força e beleza. Então, eras um menino e não o poderias ter conhecido. Mas suponho que terás ouvido falar dele. Moscou inteira o conhecia.

- Sim, ouvi falar dele - disse o dono da casa com má vontade. - Mas queria dizer-te que meus...

- Então, ouviste falar daquele cavalo? Comprei-o sem saber se era de raça, sem ver documento algum. Depois, fiquei sabendo. Fizemos averiguações, eu e Voiekov. Era filho de Liubesni I e chamava-se Kolstomer. Por causa de suas manchas haviam-no dado ao cavalariço dos estábulos de Krenovo, que o castrou e o vendeu a um traficante. Hoje em dia, meu amigo, não existem cavalos assim. Oh, que tempos, aqueles! Ai, mocidade! - e trauteou uma canção cigana; começava a embriagar-se. - Como eram bons aqueles tempos! Eu tinha vinte e cinco anos e oitenta mil rublos de prata de renda. Não tinha um só cabelo branco e meus dentes eram como pérolas. Tudo que eu empreendesse me saía bem; mas tudo isso acabou.

- Mas, naqueles tempos, os cavalos não eram tão fogosos - disse o dono da casa, aproveitando a pausa de seu convidado. - Digo-te que os meus primeiros cavalos começaram a correr...

- Teus cavalos? Os daquela época eram muito mais fogosos!

- Mais?

- Sim. Lembro-me, como se fosse agora, de que um dia, em Moscou, fui às corridas com Kolstomer. Nenhum cavalo meu corria. Eu não gostava dos trotadores. Tinha-os de puro sangue: General, Cholé, Maomé. Mas atrelava o mosqueado. Tinha um cocheiro magnífico, de que muito gostava. Também se arruinou, entregando-se à bebida. Quando cheguei à pista, perguntaram-me: "Quando terás cavalos de corrida?" Repliquei: "Que o diabo carregue os vossos rocins" Tenho um cavalo mosqueado que corre melhor do que todos estes!" "Mas não é capaz de ganhar uma corrida!" "Pois aposto mil rublos". Apostamos. O meu ganhou por cinco segundos e eu carreguei os mil rublos da aposta. Mas isso não é nada. Com cavalos de puro sangue, com uma troica, percorri cem verstas em três horas. Moscou inteira sabe disso.

E Serpukovskoi começou a mentir, tanto e tão bem que o dono da casa não pôde dizer uma só palavra e permaneceu triste, sentado à frente dele; só para distrair-se enchia seu copo, assim como o do convidado.

Começava a clarear; mas ambos continuavam sentados. O dono da casa aborrecia-se mortalmente. Pôs-se de pé.

- Bem, vamos dormir - disse Serpukovskoi, levantando-se também. Dirigiu-se ao quarto que lhe haviam destinado, tropeçando e deitando a rir.

                      ***

O dono da casa estava com sua mulher.

- É um homem insuportável. Embebedou-se e não para de dizer mentiras.

- E fez-me a corte.

- Receio que me peça dinheiro.

Serpukovskoi havia-se deitado na cama sem tirar a roupa.

"Parece-me que menti demais, mas dá no mesmo - pensou. - Deu-me bom vinho, mas é um verdadeiro porco. Nota-se que é comerciante. também eu sou um porco - acrescentou, pondo-se a rir. - Antes, era eu quem sustentava os outros; agora, sustentam-me. a Vinklercha me sustenta, aceito seu dinheiro. É isso mesmo, isso mesmo" Tenho que tirar a roupa; acho que não conseguirei descalçar as botas".

- Eh, criado" - chamou; mas fazia muito tempo que o lacaio que lhe haviam destinado tinha ido dormir.

Serpukovskoi sentou-se e tirou a blusa, o colete e as calças, a muito custo; mas só com enorme trabalho conseguiu descalçar-se. A barriga o estorvava. Tirou uma bota com o maior esforço e, depois de lutar com a outra, começou a cambalear, cansado. Finalmente, tombou sobre a cama, tal como estava, com a bota no pé. E começou a roncar, enchendo o quarto de cheiro de fumo, de vinho e de repugnante velhice.

CAPÍTULO XII

SE KOLSTOMER recordou mais coisas naquela noite, suas meditações foram interrompidas por Vaska, que, depois de pôr-lhe uma gualdrapa, montou nele e foi para uma taberna, junto a cuja entrada o deteve até ao amanhecer, em companhia do cavalo de um camponês. Lamberam-se mutualmente. Pela manhã, ao sair com a cavalhada, o mosqueado não fazia mais do que coçar-se. "Como me arde!" - pensava.

Decorreram cinco dias. Chamaram o veterinário, que disse, triunfalmente:

- É sarna. Será preciso vendê-lo aos ciganos.

- Não vale a pena. Matem-no. Mas que desapareça daqui hoje mesmo.

A manhã era clara e luminosa. A cavalhada saiu para o pasto, mas Kolstomer ficou no estábulo. Chegou um homem estranho, magro, sujo, escuro, cujo cafetã tinha manchas. Era o magarefe. Segurou a rédea de Kolstomer e, sem olhá-lo, levou-o. Kolstomer caminhou tranquilamente, sem virar a cabeça, arrastando como sempre as patas e empurrando a palha. Ao atravessar a porta, quis aproximar-se do poço, mas o homem lhe disse:

- Não adianta.

O magarefe e Vaska, que o acompanhava, chegaram a um barranco, por trás de uma olaria. Como se aquele lugar, tão comum, tivesse algo de extraordinário, detiveram-se ali. Depois de entregar a rédea a Vaska, o homem tirou o cafetã, arregaçou as mangas, extraiu do cano da bota uma faca e uma pedra de afiar e pôs-se a afiá-la. O mosqueado aproximou-se da rédea e quis mordiscá-la, para distrair-se, mas não a conseguiu alcançar e, suspirando, fechou os olhos. Seu beiço pendia, deixando a descoberto os amarelos dentes cariados. Começou a dormitar, ao som do ruído que a faca produzia na pedra. Só lhe contraía de vez em quando a perna enferma. De repente, sentiu que lhe erguiam a cabeça e abriu os olhos. Dois cachorros, que estavam à sua frente, fitavam-no. Um farejava na direção do magarefe; o outro permanecia sentado, sem tirar a vista do cavalo, como se esperasse alguma coisa precisamente dele. O mosqueado olhou-o e começou a esfregar o queixo contra a mão que o segurava.

"Com certeza, vai fazer-me um tratamento - pensou. - Pois que o faça!"

Com efeito, notou que lhe haviam feito algo na garganta. Sentiu dor; estremeceu e moveu a pata; mas, contendo-se, esperou para ver o que aconteceria depois. Uma coisa líquida começou a escorrer-lhe a jorro pelo pescoço e pelo peito. Suspirou profundamente e sentiu-se melhor. Havia-se aliviado de todo o peso da vida. Fechou os olhos e começou a inclinar a cabeça, que ninguém mais segurava. A seguir, seu pescoço principiou a dobrar-se. Tremeram-lhe as pernas, todo o seu corpo cambaleou. Foi maior sua surpresa que seu medo. tudo se tornava tão novo... Fez um movimento para a frente, como se quisesse levantar-se, mas suas pernas se travaram e começou a cair para um lado; ao tratar de dar um passo, tropeçou e caiu sobre o costado esquerdo. O magarefe esperou que as convulsões terminassem, espantou os cães que se haviam aproximado e, depois, apanhou o cavalo por uma das patas, colocando-o de costas. Mandou que Vaskas o segurasse e começou a tirar-lhe a pele.

- Era um bom cavalo - comentou Vaska.

- Se estivesse melhor alimentado, teria dado um bom couro - replicou o magarefe.

Naquela noite, quando a cavalhada regressou do prado, os que passaram pelo lado esquerdo da colina puderam ver lá embaixo uma coisa avermelhada junto da qual se achavam alguns cães e sobre que revoluteavam corvos e abutres. Um dos cachorros segurava a carcaça com as patas e movia a cabeça, arrancando pedaços, que produziam estalidos. A potra baia deteve-se, espichou o pescoço e farejou o ar por longo tempo. Tiveram que obrigá-la a seguir caminho.

               ***

Ao amanhecer, numa baixada do velho bosque, uivavam alegremente cinco lobinhos. Quatro deles eram quase iguais, e o quinto, menor, tinha a cabeça mais cinzenta do que o corpo. Uma loba magra e que recomeçava a deitar pelo saiu dentre os matagais, arrastando a barriga avultada, de úberes pendentes, e sentou-se diante dos lobinhos, que a rodearam, formando um semicírculo. Então, aproximou-se do pequeno, virou uma pata e agachou a cabeça e, depois de umas tantas contrações convulsivas, abriu as fauces dentadas e atirou um grande pedaço de carne de cavalo. Os lobinhos maiores se precipitaram para ela, mas a mãe os conteve, ameaçadora, deixando aquele pedaço de carne para o pequeno. Este, como aborrecido, agarrou-o e pôs-se a devorá-lo, sem deixar de grunhir. A loba fez o mesmo para os outros quatro lobinhos e depois deitou-se junto a eles, para descansar.

Ao fim de uma semana, só restavam o crânio e outros dois ossos atrás da olaria; tudo mais havia desaparecido. No verão, passou por ali um camponês que se dedicava a recolher ossos; carregou aqueles, que aproveitou para diversas coisas.

                     ***

O corpo de Serpukovskoi, que havia andado, comido e bebido pelo mundo morto em vida, foi sepultado muito depois. sua pele, sua carne e seus ossos não serviram para nada. Da mesma forma pela qual, desde fazia vinte anos, seu corpo morto em vida havia sido um enorme estorvo para os outros, seu enterro foi uma complicação a mais. Desde muito tempo ninguém precisava dele; fazia muito que constituía uma carga para todos. No entanto, outros mortos em vida semelhantes a ele acharam conveniente, ao enterrá-lo, vestir seu corpo obeso, que não demorou a decompor-se, com um bom uniforme, calçá-lo com boas botas, depositá-lo num caixão novo, com borlas nos quatro cantos. Também acharam oportuno colocar o esquife numa caixa de chumbo e trasladar seus restos a Moscou, onde desenterraram outros restos humanos para dar sepultura a esse corpo putrefacto, coberto de vermes, com uniforme novo e botas lustrosas*.

* COMENTÁRIO: Não deixa de ser instigante o final do conto, sendo apresentado aos leitores o destino dos dois personagens, Kolstomer e um de seus donos, Nikita Serpukovskoi. Tolstói nos vincula positivamente a Kolstomer mesmo após a sua morte, pois até os ossos tiveram alguma forma de retorno aos ambientes biológicos e sociais - com destaque para o lobinho de cor distante de seus irmãos. Já em relação aos humanos, o conto inteiro é uma crítica profunda ao meio social ao qual vivia, a sociedade humana. 

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Bibliografia:

TOLSTOI, Leão. Obra Completa. Volume III. Nova versão, anotada, de João Gaspar Simões, Natália Nunes, Oscar Mendes e Milton Amado. Nova Aguilar, 2004.