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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Garrincha - Alegria do povo



Refeição Cultural

Garrincha - Alegria do povo (Brasil, 1962)

Dirigido por Joaquim Pedro de Andrade

Sinopse: A trajetória de Garrincha revela o futebol como catarse para as frustrações do povo. O ídolo inalcançável é desconstruído para expor a realidade cruel dos "contratos escravos" e a falta de direitos, entrelaçando a dor humana aos dribles e gols icônicos do craque. 


Vi no Mubi um documentário muito bom sobre o craque Garrincha. Nas imagens em preto e branco de época, vemos o Brasil dos anos de JK e Jango.

A sinopse do streaming poderia ser melhor. O que vi no documentário não é exatamente o que a sinopse anuncia, não vi a questão dos contratos. Mas o documentário é bom.

Duas coisas me chamaram a atenção: 

1. As imagens das expressões dos torcedores nos estádios de futebol nos anos 50 e 60 são impressionantes. É o nosso povo, a nossa gente odiada pela elite brasileira. 

2. Os dribles de Garrincha, o jogador das pernas tortas. Os defensores adversários diziam que conseguiriam pará-lo porque ele driblava sempre para a direita... e ele passava por todo mundo. Incrível!

Valeu a pena ver Garrincha em sua simplicidade de homem do povo brasileiro. 

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Post Scriptum

Aquele povo brasileiro que vi nos estádios de futebol dos anos 50 e 60 não pode mais frequentá-los, pois as atuais "arenas" cobram ingressos que custam até o salário do mês dos torcedores apaixonados por futebol. E os dribles e a criatividade dos jogadores e do futebol brasileiro já eram... agora os meninos são levados do país crianças e lá fora são "engessados" em esquemas táticos que tiram a liberdade do jogador fazer o que Garrincha e Pelé fizeram com a bola dominada.

William 

15/06/26

segunda-feira, 16 de março de 2026

Vendo filmes (XXXIV)



Refeição Cultural

A EFEMERIDADE DA VIDA HUMANA


Quatro filmes me deixaram pensativo nesses dias, quatro filmes muito diferentes em suas temáticas e enredos, mas que me chamaram a atenção para uma questão: a efemeridade da vida humana. 

As histórias do professor Marcelo ("O agente secreto"), do lenhador Robert ("Sonhos de trem") e do autor de peças teatrais William ("Hamnet") são histórias de todos nós, homens e mulheres do mundo, de hoje e de ontem. 

A história do andarilho Chris McCandless ("Na natureza selvagem") é a história de pessoas que não se encaixam na sociedade humana dominada pela lógica da posse supérflua de coisas, coisas e mais coisas, mercadorias inúteis do fetiche capitalista. 

Uma história se passa nos anos setenta, durante a ditadura no Brasil, outra se passa um século antes, ainda na expansão para o Oeste, nos Estados Unidos, e uma terceira se passa lá na Inglaterra, séculos atrás. 

A história do jovem McCandless é a mais recente, é do tempo da minha adolescência, no início dos anos noventa do século XX. 

O que é a vida humana se a compararmos com a natureza e seus elementos? 

Podemos existir por muito ou pouco tempo, fazer coisas grandes e importantes ou nada de relevância histórica, nossa lembrança pode permanecer por um breve tempo ou por um pouco mais de tempo. No entanto, estamos fadados ao esquecimento, ao desaparecimento. 

A vida e a existência são assim mesmo. E tudo bem. Quer dizer, tudo bem nada! O difícil é aceitar essa nossa pequeneza diante do mundo, da natureza em si.

Ainda estou bolado, pensando nessa questão da efemeridade natural da vida, a partir das histórias das personagens dos filmes. 

Sabedores dessa realidade, deveríamos viver de maneira mais consciente, sorvendo o que importa sem desvios de atenção para coisas irrelevantes. 

E o pior é que não fazemos isso. E a vida passa e não fizemos ou sentimos o que poderia ser feito ou sentido...

A vida é breve, é um instante, mesmo quando se vive algumas décadas... um instante. 

E como estamos vivendo? O que temos priorizado na vida? Já fizemos algo hoje que valha a pena?

Nunca se sabe se ao sair de casa um galho vá cair em nossa cabeça e o fim seja aquele instante. 

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FILMES


O agente secreto (2025)

Direção: Kleber Mendonça Filho. Com: Wagner Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido e elenco.

Sinopse:

Ambientado no Recife, no final dos anos setenta, período de exceção da ditadura no Brasil, o filme conta a história de Marcelo, professor universitário - cujo nome verdadeiro é Armando - que retorna à terra natal após conflitos com um industrial poderoso que paga assassinos de aluguel para perseguir o professor. Marcelo quer encontrar seu filho, que está com os avós, e viver a sua vida e ser feliz.

Comentário:

A cena inicial do filme já me transportou para o passado no qual cresci: policiais bandidos e abusadores tentando receber propina dos cidadãos no cotidiano do Brasil dos anos setenta e oitenta (e ainda hoje). 

Mesmo sendo pobre de pele branca, tomei enquadro dos desgraçados da polícia desde pequeno...

Com os cidadãos afrodescendentes é mil vezes pior, a vida do pobre não vale nada para a polícia da casa-grande: matam o povo periférico mais do que se mata nas guerras. A maioria dos negros e descendentes ocupam as bases da pirâmide social. 

Gostei muito do filme! O que se passou com Armando, ou Marcelo, ser vítima de algum poderoso por qualquer motivo banal, é o retrato do Brasil do passado e do presente. 

Nossa vida pode encontrar o fim só pela casualidade de se cruzar o caminho de um fdp desses, caras do 1% ou do exército dessa casta canalha, que odeia o povo e o Brasil.

Quem nunca ouviu falar do perigo do guarda da esquina... 

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Sonhos de trem (2025)

Direção e roteiro: Clint Bentley. Com: Joel Edgerton, Felicity Jones e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história de Robert Grainier, um lenhador do início do século XX nos Estados Unidos, desde sua adolescência, união com Gladys Olding, com quem constitui família, e suas jornadas e ausências de casa para ganhar o sustento cortando árvores centenárias para a construção de trilhos de trem rumo ao Oeste.

Comentário:

De todos os filmes dos quais teço impressões, "Sonhos de trem" é o de maior temática sobre a brevidade da vida, na minha opinião. 

Num instante, estamos e não estamos mais aqui, somos e não somos mais. 

Num instante, uma árvore com centenas de anos de existência perde a vida, morta por uns minúsculos seres com ferramentas cortantes lá no rés do chão. 

Num instante, um galho de uma árvore centenária cai na cabeça de um ser minúsculo lá no rés do chão e lá se vai a vida, num instante. 

Num instante, um incêndio pode por fim a inumeráveis formas de vida... e das cinzas novas formas de vida podem surgir. Outras vidas nunca mais serão as mesmas após um grande incêndio.

Somos natureza, somos seres quase invisíveis em nossas existências, assim somos nós. Robert é uma existência única, sua esposa e filha também, eu e vocês somos existências únicas. 

Todos somos passageiros do mesmo trem, o trem da vida, o trem da brevidade da vida. 

E todos temos nossos sonhos. E os sonhos nos movem por esses trilhos e caminhos...

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Hamnet: a vida antes de Hamlet (2025)

Direção: Chloé Zhao. Com: Jessie Buckley, Paul Mescal e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história do casal Shakespeare, o nascimento dos filhos, a morte do filho Hamnet ainda pequeno, e o drama que essa perda trouxe à família. A tragédia inspirou o dramaturgo a escrever uma de suas peças mais famosas, Hamlet.

Comentário:

A interpretação brilhante de Jessie Buckley como Agnes Hathaway, esposa de William Shakespeare, rendeu a ela o prêmio de melhor atriz da Academia em 2026. Incrível sua performance, sem dúvida. O prêmio foi merecido.

No entanto, o filme me levou às lágrimas por uma questão sempre muito pessoal, naquilo que mais toca a cada um de nós: a morte e o sentido da vida. No meu caso, a lembrança do dilema dramático do personagem Hamlet, da clássica peça de Shakespeare. 

Ser ou não ser, eis a questão...

A reflexão completa do personagem é desconhecida por aqueles que ainda não conhecem a peça, Hamlet vive sob intensa dor ao saber das traições em família que levaram à morte seu pai. A dor lancinante aumenta ao ver sua mãe esposa de seu tio.

O filme me trouxe reflexões sobre a brevidade da vida, sobre o ser e estar por aqui ou não, me lembrou a difícil superação de não querer ser e estar por aqui por longos anos e pelas oportunidades surgidas por ter sido e ter estado por aqui nas últimas décadas... ser ou não ser... dormir, acordar, talvez sonhar...

Shakespeare, Hamlet, Hamnet... valem a pena!

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Na natureza selvagem (2007)

Direção: Sean Penn - Trilha sonora de Eddie Vedder

Com: Emile Hirsch (Chris), Jena Malone (irmã), Kristen Stewart ("crush"), William Hurt (pai), Marcia Gay Harden (mãe), e elenco. 

Sinopse:

Christopher McCandless, filho de pais ricos, se forma na Universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas. Porém, ao invés de partir para uma carreira prestigiosa e lucrativa, ele escolhe doar suas economias para a caridade, livrar-se de seus pertences e viajar rumo ao Alasca.

Comentário:

Quando vi pela primeira vez o filme baseado na história real de Chris McCandless, dirigido por Sean Penn, a partir do livro de Jon Krakauer, fiquei impactado por muito tempo. 

McCandless nasceu um ano antes de mim e no início dos anos noventa estava em sua busca pessoal por liberdade, autoconhecimento e fuga de uma sociedade humana capitalista, toda ela baseada nas posses de coisas, coisas, coisas. Ele estava de saco cheio de relacionamentos humanos tóxicos e interesseiros e queria se isolar na natureza selvagem do Alasca. 

Na mesma idade e na mesma época, eu procurava respostas para as mesmas perguntas.

Ao rever o filme duas décadas depois, já sabendo da descoberta feita por "Alex Supertramp", o nome que McCandless adotou em seus tempos de andarilho, fiquei pensando em muitas coisas, muitas. 

A lição a respeito da felicidade verdadeira ser alcançada através dos relacionamentos humanos, algo que Chris compreendeu a partir da vivência de sua jornada e também pela leitura de grandes autores como, por exemplo, Tolstoi - e o livro "Felicidade conjugal" -, me pegou de jeito desde o instante que tomei conhecimento da história do jovem andarilho.

"Happiness only real when shared"... (é isso mesmo! é verdade isso! e nesse sentido, posso dizer que fui feliz... os momentos mais marcantes de minha vida foram ao lado de alguém)

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É isso, termina aqui mais um texto da série de comentários sobre filmes que me trazem reflexões sobre a vida.

O comentário anterior pode ser lido aqui

William Mendes 

16/03/26

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Diário e reflexões - Fevereiro



Refeição Cultural

Sábado, 28 de fevereiro de 2026.


FEVEREIRO

AGENDA POLÍTICA

Passei a semana em Brasília, capital federal do país. 

Minha estadia na cidade foi para participar do processo eleitoral do Sindicato dos Bancários. Vim contribuir com o debate na base social da entidade e ao longo da semana fiz campanha nos locais de trabalho do Banco do Brasil, junto com outros companheiros e companheiras. Nós apoiamos a chapa 1, liderada por Rodrigo Britto, a chapa cutista que representa a unidade nacional.

Quando cheguei, no início da semana, estava cheio de expectativas e incertezas. Eu tinha receio se ainda conseguiria fazer o que fiz boa parte de minha vida: conversar com a categoria bancária, desenvolver boas falas nos locais de trabalho e ter alguma atenção dos trabalhadores. Após reflexões coletivas com a militância que apoia a chapa 1, posso concluir que deixei a minha contribuição para o processo democrático. Fico feliz por isso.

Por ter sido convidado, participei de algumas reuniões do movimento sindical bancário no mês de fevereiro, assim como ocorreu em janeiro e dezembro. Tenho o compromisso ético com o movimento sindical cutista de estar sempre à disposição, porque a CUT influenciou decisivamente na formação política que tenho hoje.

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CULTURA

Li apenas um livro no mês de fevereiro, o livro "Fidel Castro, comandante invicto", de Norberto Escalona Rodríguez (comentário aqui). O escritor e jornalista cubano nos conta a respeito da participação dos músicos do Quinteto Rebelde na luta de libertação do povo. Também aborda a participação das mulheres na Revolução Cubana: o Batalhão das Marianas fez história e influenciou as políticas de igualdade que fizeram parte da construção da República Socialista de Cuba.

Estou editando um livro com as poesias que escrevi ao longo da vida. O manuseio do material textual do livro foi um processo interessante. A editora Cleusa Slaviero está me ajudando com o material. 

Encadernei poesias, crônicas e textos da professora e amiga Marili Santos. Foi um processo prazeroso de leitura. Presenteamos a escritora e passamos um dia delicioso com a família dela. 

FILMES - Vi alguns filmes no mês e só não escrevi as minhas impressões e sentimentos sobre eles porque não tive tempo e os textos que faço dão muito trabalho. 

Vimos "Sonhos de trem" (2025, EUA), de Clint Bentley; "A vida invisível" (2019, BRA), de Karim Aïnouz; "O agente secreto" (2025, BRA), de Kleber Mendonça Filho; "Hamnet: a vida antes de Hamlet" (2025, Reino Unido e EUA), de Chloé Zhao. 

Todos os filmes são excelentes e me deixaram pensativo. Todos! Hamnet me fez chorar.

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A VIDA E O MUNDO

A notícia do último dia do mês de fevereiro foi o bombardeio do Irã e o assassinato de dezenas de crianças. Os assassinos são os estados terroristas Estados Unidos e Israel. Eles não vão parar, assim como Hitler e a Alemanha nazista não pararam no passado.

Os terroristas dos Estados Unidos atacaram no início do ano a Venezuela e sequestraram seu presidente e a esposa. Mataram dezenas de pessoas. Vergonhosamente, nenhum dos principais países do mundo exigiram a libertação imediata de Nicolás Maduro e Cilia Flores. Nem o meu país, o Brasil. Sinto vergonha e uma decepção indescritível por essa atitude brasileira.

O império fascista do Norte está matando a população de Cuba de fome, falta de medicamentos e itens básicos para a subsistência. Os genocidas do Norte querem que Cuba vire uma estância balneária dos ricos norte-americanos, o mesmo projeto que têm para a Faixa de Gaza, na Palestina.

Estava olhando da janela do quarto do hotel a bela imagem da cidade de Brasília e pensando a respeito das consequências de ninguém reagir e fazer nada contra os fascistas de Israel e EUA. Eles podem decidir bombardear nosso país, matar nosso presidente e invadir nossa terra para tomarem os recursos naturais que temos. Ninguém vai fazer nada a respeito. Nada.

Esse é o valor da vida humana e dos seres vivos neste momento da história, dia 28 de fevereiro de 2026, pelo Calendário Gregoriano.

Isso não é natural e não deveria ser aceito por nós. Se é para sermos assassinados e explodidos por bombas a qualquer momento, deveríamos ter as nossas bombas para persuadirmos os fascistas a não nos atacarem e para nos defendermos caso nos atacassem para roubar os nossos recursos naturais.

William

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Livro: Forrest Gump - Winston Groom



Refeição Cultural 

LITERATURA NORTE-AMERICANA 


"Sou idiota de nascença. Meu QI é de quase 70, então eu encaixo na definição, pelo que falam. Se bobiar devo estar mais perto de ser um débil mental ou até mesmo um retardado, e pessoalmente prefiro achar que sou um pateta, ou auguma coisa do tipo, e não idiota..." (Groom, 2016, p. 9)


Certa vez, conversando com o amigo Jair Rosa, jornalista da Secretaria de Imprensa do Sindicato, falamos a respeito do personagem Forrest Gump. 

Eu havia corrido a São Silvestre com uma camiseta na qual escrevi "Run, Forrest, run!", e estava com uma barba enorme. Foi uma brincadeira legal! As pessoas na rua me viam e gritavam "Vai, Forrest!"; outras diziam "Olha o Forrest!". Foi divertido!

São Silvestre de 2009

O Jair me disse que seria legal ler o livro Forrest Gump. Eu nem sabia que existia o livro que teria inspirado o filme com a interpretação de Tom Hanks. 

Anos depois, ganhei o livro de minha companheira. Uma bela edição da Editora Aleph, com tradução de Aline Storto Pereira. O livro é de 1986 e o filme de 1994, dirigido por Robert Zemeckis.

Meu amigo me disse que no livro havia mais aventuras de Forrest, além daquelas que vimos no filme. 

Na verdade, a história de Forrest Gump no livro tem diferenças em relação ao filme, algo que considero normal. 

Na verdade, lendo o artigo de Isabelle Roblin - "Da página à tela: a reformulação de Forrest Gump" - incluído na edição que tenho, descobre-se que a história foi reescrita para o filme.

Acho importante citar também o tipo de deficiência intelectual do personagem: Síndrome de Savant, condição chamada no passado de "idiota savant". As pessoas com essa condição têm habilidades extraordinárias em certas áreas como matemática, música, artes e esportes, memória incrível etc.

O filme me marcou muito, de verdade. Tem cenas do filme que me fazem chorar e pensar muito na minha vida. Além, é claro, da trilha sonora espetacular!

Vamos ver o que a obra original nos traz. Ainda estou no começo, o livro é grande.  

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COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

02/02/26

"Mas eu bem sei uma coisa sobre os idiotas. Se bobiar é a única coisa que eu sei de verdade, mas eu li mesmo sobre eles... Li tudo desde o idiota dum tal Dois-toi-és-viquis, até o bobo da corte do Rei Lear; o idiota do livro do Faulkner, Benjie, e até o Boo Radley de O sol é para todos... ele era um idiota de verdade. O que eu gosto mais é o velho Lennie de Ratos e homens. A maioria desses escritores entendeu como funciona, porque seus idiotas são sempre mais espertos do que as pessoas pensam. Bom, eu concordava com isso. Qualquer idiota concordaria. Rá-rá." (Groom, 2016, p. 11)


Terminei a leitura do romance com um nó na garganta, da mesma forma que acontece comigo quando assisto ao filme de Zemeckis.

O mais difícil na leitura de um romance que já foi adaptado para o cinema é conseguir se desfazer das imagens do filme e da caracterização dos personagens, além das diferenças de adaptação do roteiro ou versão dada pelo diretor.

Então, antes de apresentar meu comentário sobre o romance de Winston Groom, registro que o filme é muito bom e que o livro é muito bom também, mesmo sendo obras com enredos bem diferentes. 

O personagem Forrest Gump tem algum grau de deficiência intelectual - Síndrome de Savant - e tanto ele quanto sua mãe sabem disso. Ele é um sujeito grande, de uns dois metros de altura, com uma bunda enorme. Desde pequeno, ele sempre deseja fazer as coisas certas, mesmo quando isso não acontece.

Além de sua mãe, outras pessoas foram importantes e marcaram a vida de Forrest Gump: Jenny Curran, amiga do colégio e amor de sua vida; Bubba, amigo da faculdade e companheiro na Guerra do Vietnã; e Tenente Dan, que conheceu na guerra. Outras personagens também vão aparecendo ao longo das peripécias que marcam a vida de Forrest.

Groom faz uma crítica ácida aos norte-americanos considerados "normais". Ao longo da história do deficiente intelectual Forrest Gump é comum vermos cenas como a do pneu do carro:

Forrest pega uma carona com um rapaz e o pneu do carro precisa ser trocado. Enquanto o motorista troca o pneu, deixa os parafusos caírem no bueiro e fica se lamentando por não poderem resolver o problema e irem embora. Forrest pensa por um instante e sugere ao motorista que tire um dos quatro parafusos de cada um dos três pneus e fixe o pneu trocado. O motorista fica puto e envergonhado por não ter pensado nisso e questiona Forrest "Como você pensou nisso se é idiota?" e Forrest responde "Sou idiota, mas não sou burro!".

O personagem carrega aquela ideia comum dos norte-americanos de se venderem como sujeitos que empreendem e que se dão bem na vida por esse motivo. Algo como "qualquer idiota esforçado consegue fazer qualquer coisa" (idiota no sentido de pessoa comum). É a ideia do self-made man, a meritocracia que manipula tanta gente de nossas classes exploradas e sem os direitos básicos da cidadania.

Forrest ao sabor do acaso vira jogador de futebol americano, astronauta, jogador de pingue-pongue, toca gaita de forma magistral, é campeão de xadrez, lutador de luta livre e outras coisas que vão aparecendo nas veredas que percorre na vida.

Com a produção de camarões, Forrest alcança fortuna e sucesso, mas mesmo com esses sonhos comuns dos homens do capital, algo falta para aquele cidadão, algo que não é dinheiro. Algo que dê sentido e satisfação em sua vida. Percebemos isso quando Forrest insiste em lutar mais após ter conseguido o dinheiro que precisava para o projeto dos camarões. 

Valeu bastante a experiência de ler a obra original que inspirou o filme de sucesso dirigido por Robert Zemeckis em 1994, com interpretações magistrais de Tom Hanks (Forrest Gump), Robin Wright (Jenny Curran), Gary Sinise (Tenente Dan), Sally Field (Senhora Gump), Mykelti Williamson (Bubba) e demais personagens no elenco.

Sobre o filme, reafirmo que sou um fã desde a primeira vez que o vi. E a trilha sonora é inesquecível!

William


Bibliografia:

GROOM, Winston. Forrest Gump. Tradução: Aline Storto Pereira. Ilustrado por Rafael Coutinho. São Paulo: Aleph, 2016.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Jornada nas Estrelas (Star Trek) - 2ª temporada (1967-1968)

 


Refeição Cultural

Após assistir aos episódios da primeira temporada da série original de Star Trek (comentário aqui), iniciei os episódios da segunda temporada. Fui vendo as aventuras da tripulação da USS Enterprise de forma esporádica e lentamente ao longo do ano de 2025.

O acesso atual a filmes, séries, documentários e programas culturais diversos através de plataformas de grandes empresas tem o inconveniente da "indisponibilidade" a qualquer momento. Foi isso que ocorreu com as 3 temporadas da série clássica de 1966/69 de Jornada nas Estrelas na Netflix.

Dias atrás, soube que a plataforma retiraria do ar as 3 temporadas. Fiquei p. da vida. Para não deixar pela metade a temporada que estava assistindo, dei uma acelerada e vi um monte de episódios em poucos dias. Foi cansativo e o fato tirou um pouco do prazer de assistir tranquilamente a série.

Enfim, agora conheço as duas primeiras temporadas da série clássica de ficção científica Star Trek. Desta vez, foram 26 episódios e alguns muito bons.

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EPISÓDIOS


E1. Tempo de loucura ("Amok Time")

SINOPSE: No auge do período de acasalamento de Pon Farr, Spock precisa voltar ao Vulcão (Planeta Vulcano) para encontrar sua futura esposa, prometida desde a infância.

COMENTÁRIO: Os episódios da icônica série de ficção científica foram lançados no auge da guerra fria, final dos anos sessenta. Ao longo da primeira temporada, vi episódios com muitas questões políticas da época. Neste, especificamente, o roteiro me pareceu mais voltado para a antologia da série, para falar um pouco da natureza e da história de Spock. E, finalmente, vi a clássica imagem da mão aberta com os dedos separados em V, um cumprimento dos vulcanos.

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E2. Lamento por Adônis ("Who Mourns for Adonais?")

SINOPSE: Um ser poderoso que diz ser o deus grego Apollo aparece e exige que a tripulação desembarque em seu planeta para adorá-lo.

COMENTÁRIO: Muito bom o episódio, que também poderia ser traduzido por "Quem vai chorar pelos deuses?". A teoria discutida pelos personagens do enredo me fez lembrar do clássico "Eram os deuses astronautas?" (1968), de Erich Von Däniken. Após ter a USS Enterprise retida por uma mão gigante de energia, o capitão Kirk e sua tripulação têm que se submeter ao deus Apolo, que quer ser adorado como os humanos faziam milênios antes. A temporada começou bem!

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E3. Nômade ("The Changeling")

SINOPSE: Uma sonda com inteligência artificial e um sistema assassino vem à USS Enterprise e confunde o capitão Kirk com seu criador.

COMENTÁRIO: É sempre interessante ver ainda nos anos sessenta a questão da IA - burra de forma incorrigível - se contrapondo e desobedecendo seu criador, a espécie humana, essa sim com capacidade de ser inteligente, apesar de boa parte das pessoas não desenvolverem esta habilidade do cérebro do homo sapiens. A inteligência do criador precisou fazer a diferença para que a máquina "inteligente" não destruísse a Enterprise.

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E4. O reflexo no espelho ("Mirror, Mirror")

SINOPSE: Kirk, McCoy, Scotty e Uhura estão em um universo-espelho em uma Enterprise paralela dominada por bárbaros cruéis.

COMENTÁRIO: Essa ideia de um mundo em espelho ao nosso mundo real sempre foi algo imaginado e talvez sonhado pelos seres humanos. É daí a invenção de que poderíamos viajar no tempo, uma abstração da mente humana muito antiga. Estamos viajando ao espaço, é fato. Viajar no tempo, não é possível. Só através da imaginação mesmo.

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E5. Fruto proibido (The Apple)

SINOPSE: Kirk e uma equipe de aterrissagem descem para um planeta de aparência ideal e paradisíaca.

COMENTÁRIO: A tripulação da USS Enterprise encontra um paraíso um pouco diferente da descrição clássica. Os habitantes são inocentes como o casal Adão e Eva era antes da desobediência a Deus, tentados pela serpente a comer o fruto proibido. Apesar de bonitas, as plantas são perigosas e podem matar. O deus local, Vaal (um monumento gigante com cara de serpente), é alimentado pelos habitantes, que vivem quase na escravidão, pois devem obediência cega a Vaal. Akuta, o sacerdote local com quem Vaal se comunica é o líder dos habitantes. O capitão Kirk e sua tripulação farão um pouco do papel do diabo, "desencaminhando" os inocentes habitantes do planeta Gamma Trianguli VI. Quem vai ganhar essa guerra entre o céu e o inferno, Vaal e habitantes ou Kirk e companhia?

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E6. A máquina da destruição (The Doomsday Machine)

SINOPSE: A Enterprise encontra a combalida Constellation, cujo capitão - Matt Decker -, transtornado, está determinado a parar a nave gigante que matou sua tripulação. A máquina destruidora é uma super-arma destruidora de planetas e se não for parada pode destruir o sistema solar dos humanos.

COMENTÁRIO: Este episódio foi um dos melhores que assisti até agora! A roteiro é muito bem construído. Além da verossimilhança na estória, uma máquina programada para destruir planetas gerando assim sua própria energia a partir da síntese dos elementos do planeta destruído, temos a questão das idiossincrasias dos humanos e seus comportamentos contraditórios (com exceção do vulcano Spock, lógico!). Foi tensão até o último minuto do episódio. Fiquei até com bronca da tripulação da Enterprise por ser tão certinha e aceitar receber ordens do capitão Matt Decker. Spock obedeceu a alguém acima dele na hierarquia por ser lógico, mas fiquei p. da vida! Eu não respeitaria o sujeito nem f...

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E7. O Dia das Bruxas ("Catspaw)

SINOPSE: Quando Kirk e sua equipe de aterrissagem chegam ao planeta, são recebidos por neblinas estranhas, um castelo sombrio, bruxas, goblins e um gato preto.

COMENTÁRIO: No episódio, um ser na forma de mulher ou gato - Sylvia -, ameaça o capitão Kirk e sua tripulação com mágicas letais como, por exemplo, "vudu", para dominá-los. A mulher domina a mente dos amigos de Kirk.

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E8. Eu, Mudd ("I, Mudd")

SINOPSE: Harry Mudd volta com um plano para tomar a Enterprise. Ele é rei em um planeta habitado por androides comandados por ele.

COMENTÁRIO: Episódio muito bom! Ver em 2025 um debate sobre IA na forma de robôs com aparência humana em 1968 e os problemas que isso poderia causar aos humanos, e causou décadas depois, é algo espetacular! Seriam várias dimensões para se avaliar, muitas camadas. Fica claro, porém, que não existe Inteligência Artificial, como nos explica hoje o neurocientista Miguel Nicolelis, inteligência é um atributo humano. Sempre há humanos por trás dessas máquinas que são vendidas como IA. Sempre há e haverá o risco à própria humanidade em sentido geral por causa de uns poucos humanos gananciosos que só pensam em si e dane-se todos e o mundo.

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E9. Metamorfose ("Metamorphosis")

SINOPSE: A tripulação da Enterprise encontra uma misteriosa nuvem de energia que os atrai para o planeta Gamma Canaris N.

COMENTÁRIO: Achei o episódio interessante. A entidade inteligente que atraiu o Cap. Kirk, Spock e seus amigos fez o que fez para diminuir a solidão do único humano no planeta, o famoso Zefram Cochrane, inventor do motor de dobra e que já deveria estar morto há muitos anos. Kirk terá que ser um bom ator para lidar com a força alienígena.

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E10. A caminho de Babel ("Journey to Babel")

SINOPSE: A Enterprise recebe diversos diplomatas em conflito - e, dentre eles, o pai de Spock - mas alguém a bordo planeja um assassinato.

COMENTÁRIO:

"- Dê uma razão? Qual o nosso lucro em ferir o Capitão?
- Eu não sei. Não há lógica no ataque de Thelev ao Capitão. Não há lógica no assassinato de Gav.
- Talvez tenha que esquecer a lógica. Pense nas motivações... de paixões ou vantagens. Essas são razões para assassinatos...
"

Esse diálogo entre Spock e um andoriano é a tônica do episódio de Jornada nas Estrelas, um dos melhores desta temporada. No enredo, vemos pai e mãe de Spock, risco sério de morte de personagens importantes da tripulação da Enterprise e excelentes debates sobre a lógica vulcana e a diferença humana nos sentimentos que nos definem para além da lógica. Muito bom!

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E11. O Sucessor ("Friday's Child")

SINOPSE: A Federação está concorrendo com os klingons por uma aliança com os habitantes de Capela IV, uma tribo guerreira.

COMENTÁRIO: Chamou a minha atenção o episódio produzido no final da década de sessenta tratar de disputa de minerais por parte de duas raças, os humanos e os klingons. O mineral de terras raras, como se diz hoje, estava no planeta Capela IV, e seus habitantes estavam sendo disputados para o acordo comercial. O ponto negativo do enredo foi a violência praticada contra uma mulher, um tapa na cara, a agressão partiu de um membro da tripulação da USS Enterprise.

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E12. Os anos mortais ("The Deadly Years")

SINOPSE: Uma equipe de aterrissagem da Enterprise é exposta a uma forma estranha de radiação que acelera o envelhecimento.

COMENTÁRIO: Interessante o enredo. O episódio abordou uma discussão sobre os efeitos do envelhecimento nas pessoas, o efeito individual em cada um. O capitão Kirk, no auge de seus 34 anos, teve que lidar com esquecimentos e outros fatores de eventuais doenças da idade avançada, como artrite.

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E13. Obsessão ("Obsession")

SINOPSE: O Cap. Kirk caça obsessivamente uma criatura em forma de nuvem que encontrou na juventude.

COMENTÁRIO: O enredo vai abordar uma característica humana que os vulcanos não têm: a hesitação. Será que uma hesitação do Capitão James T. Kirk, 11 anos antes, pode ter sido responsável pela morte de uma tripulação de outra nave estelar por uma criatura enfrentada no presente momento?

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E14. Um lobo entre os cordeiros ("Wolf in the Fold")

SINOPSE: Scotty é o principal suspeito da morte de várias mulheres no planeta Angelius II. Entretanto, uma força mais sinistra pode fazer a conexão entre esses assassinatos e outros pela galáxia, incluindo alguns na Terra no final do século XIX.

COMENTÁRIO: Gostei no enredo da questão da fé que os homens depositavam nas máquinas já nos anos sessenta. O computador central da USS Enterprise é utilizado por Kirk e Spock nos interrogatórios para saber quem mente e quem fala a verdade. Se já eram fascinados com essa porcaria do passado, imaginem a ilusão cega que têm hoje nessas IA, nem inteligentes nem artificiais. 

(Como sempre, lamentável a forma como se tratam as mulheres, é um desrespeito absurdo)

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E15. Problemas aos pingos ("The Trouble with Tribbles")

SINOPSE: Kirk precisa lidar com burocratas da Federação, uma nave de batalha klingon e um camelô que vende criaturinhas peludas e famintas como animais de estimação.

COMENTÁRIO: Episódio com tom de humor, de descontração. A USS Enterprise viveu uma superpopulação de pingos, bolinhas peludas vivas.

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E16. Os senhores de Triskelion ("The Gamesters of Triskelion")

SINOPSE: Kirk, Uhura e Chekhov são capturados e escravizados em um planeta distante, onde são treinados para entreter alienígenas entediados.

COMENTÁRIO: Foi dureza assistir ao episódio dos "bons mocinhos" da USS Enterprise no dia que os EUA invadiram e sequestraram o presidente da Venezuela para roubar o petróleo do país (03/01/25). O Cap. Kirk, sempre sem camisa e conquistador de mulheres, é o típico representante desse país imperialista desgraçado.

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E17. Um pedaço da ação ("A Piece of the Action")

SINOPSE: Kirk, Spock e McCoy descem a uma cultura similar às gangues terráqueas dos anos de 1920.

COMENTÁRIO:

"- Um livro sobre as gangues de Chicago fez tudo isso. Incrível. 

- Eles evidentemente tomaram o livro como um projeto de sociedade. 

- Como a Bíblia."

Muito interessante essa conclusão de McCoy...

Qual será a solução para pacificar as gangues no planeta dos iotianos?

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E18. A síndrome da imunidade ("The Immunity Syndrome")

SINOPSE: A Enterprise encontra um organismo gigantesco, sugador de energia, que ameaça a galáxia.

COMENTÁRIO: A tripulação da USS Enterprise estava a caminho das férias quando recebe uma ordem de verificar um evento ocorrido em uma região do espaço. Uma nave com tripulação de vulcanos teve destino trágico e os 400 mortos nos fazem ver um Spock sensibilizado, algo raro num vulcano. 

(Senti o mesmo cansaço que a tripulação do Cap. Kirk ao assistir de forma acelerada os episódios desta temporada já que a plataforma vai tirar a série do ar em alguns dias... que merda, isso!)

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E19. Uma guerra particular ("A Private Little War")

SINOPSE: Kirk volta ao planeta Neural, onde passou algum tempo 13 anos antes. Um amigo da visita anterior hoje é líder de seu povo.

COMENTÁRIO: Numa disputa entre a Federação (representada pela USS Enterprise) e os klingons, as vítimas são os habitantes primitivos do planeta Neural. Era para os habitantes evoluírem lentamente do arco e flecha para armas de fogo, mas os klingons armaram um dos grupos e Kirk precisa decidir se arma o outro lado, interferindo e criando um "balanço de forças", ou não. 

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E20. Volta ao amanhã (Return to Tomorrow")

SINOPSE: Os três últimos membros de uma raça antiga, bem mais avançada que os humanos, querem emprestar os corpos de Kirk, Spock e dra. Mulhall.

COMENTÁRIO: Se pudéssemos manter nossa essência, nossa identidade, existindo após o fim de nosso corpo físico, seria um avanço imenso para os seres humanos. Seria uma questão prática e material de mantermos o nosso "espírito". O episódio tem o enredo baseado nessa ideia de uma inteligência que se mantém após o fim de seu corpo físico. Interessante.

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E21. Padrões de força ("Patterns of Fource")

SINOPSE: Procurando por um observador cultural da Federação desaparecido, Kirk e Spock encontram-se em um planeta cuja cultura segue os moldes do Partido Nazista.

COMENTÁRIO: Episódio sinistro. O nazismo voltou num planeta com duas populações estabelecidas e uma decide unificar seu povo utilizando a ferramenta do ódio ao outro povo, os zeons. A tripulação da USS Enterprise tentará evitar a solução final naquele planeta.

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E22. Por qualquer outro nome ("By Any Other Name")

SINOPSE: Kirk, Spock, McCoy e um par de camisas vermelhas descem para a superfície de um planeta, atendendo a um chamado de emergência falso. 

COMENTÁRIO: Episódio muito bom, tema que nos faz refletir. A raça humana foi totalmente subjugada pela superioridade da raça conquistadora. Os humanos não desistiram de pensar uma solução, usando a inteligência. O final é surpreendente.

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E23. A glória de ômega ("The Omega Glory")

SINOPSE: Kirk encontra Cap. Trace, da USS Exeter, infringindo a diretiva principal e interferindo em uma guerra entre os yangs e os kohms.

COMENTÁRIO: Era o que faltava para começar a fechar o ano da temporada, em pleno período de Guerra Fria: a guerra entre ianques (yangs) e comunistas (kolms) sai do planeta Terra e vai parar em Ômega... os mocinhos são aqueles da bandeira vermelha, azul e branca cheia de estrelinhas...

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E24. O computador supremo ("The Ultimate Computer")

SINOPSE: A Enterprise é escolhida para ser a nave de testes do novo sistema computacional multitrônico M-5, projetado para fazer a nave funcionar sem ajuda humana.

COMENTÁRIO: 

"Os humanos devem continuar fazendo certas coisas para continuarem humanos". 

Bem atual esta frase do Cap. Kirk ao saber que uma IA iria assumir o controle da USS Enterprise sem precisar de ninguém da tripulação de 400 pessoas a partir daquele momento. O episódio foi um dos melhores da temporada. Ele antecipou o clássico HAL 9000 de "2001 Uma odisseia no espaço".

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E25. Pão e circo ("Bread and Circuses")

SINOPSE: A Enterprise descobre um planeta onde o governo opressor é uma versão para o século XX do Império Romano da Terra.

COMENTÁRIO: No episódio, as arenas estão de volta, e as lutas do estilo MMA do século XXI terminam com a morte do derrotado. E tudo em nome da audiência. Com a sede de violência saciada através dos espetáculos de mortes cotidianas, aquela sociedade com um único governante já evitou guerras nos últimos 400 anos.

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E26. Missão: Terra ("Assignment Earth")

SINOPSE: A Enterprise deve observar a história da Terra em 1968.

COMENTÁRIO: Episódio tenso para fechar a temporada da série. São tempos de Guerra Fria e existe uma ameaça de 3ª Guerra Mundial com a detonação de uma bomba nuclear que pode começar o fim da humanidade. 

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AVALIAÇÃO GERAL DA SEGUNDA TEMPORADA

Assim como disse na avaliação sobre a primeira temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas, repito aqui o esforço que tento fazer em imaginar o efeito que a série teve em seu tempo e espaço, os Estados Unidos da segunda metade da década de sessenta do século vinte.

Os pontos altos da temporada ficam com os episódios que abordaram Inteligência Artificial (que não é inteligente) substituindo os seres humanos (E3, E8, E14 e E24), e alguns dilemas filosóficos abordados nos episódios como, por exemplo, no "E6 A máquina da destruição" no qual a tripulação da Enterprise quase é levada à morte por obedecer a ordens estúpidas de um superior fora de si e cheio de desejo de vingança.

Alguns episódios abordam temas, meio século antes, que são muito atuais como a questão da disputa dos recursos energéticos e terras raras. Na ficção, humanos disputam com outras raças e outros seres os recursos de determinados planetas. Na atualidade, os Estados Unidos decidiram acabar com as instituições diplomáticas do mundo, tipo ONU, e partir para a invasão e domínio pela força de outras terras e povos, são os klingons da ficção.

Não é difícil perceber o efeito ideológico e no imaginário dos telespectadores norte-americanos que cada episódio causava após sua exibição. O Capitão James T. Kirk e sua tripulação multiétnica eram os desbravadores de mundos e símbolos da ordem e dos bons exemplos que os terráqueos estavam levando às demais formas de vida no espaço.

O efeito de buscar coesão na população estadunidense ao se verem como os mocinhos salvadores do mundo repleto de gente bárbara, inferior e má deve ter tido algum sucesso, pelo menos por algum tempo. Não estou desconsiderando o prazer em si do entretenimento, óbvio. Mas não sejamos inocentes!

Enquanto os episódios pautavam o bom comportamento dos humanos da Federação Unida de Planetas (a ONU e a OTAN), os bons mocinhos dos EUA financiavam golpes de Estado e ditaduras sanguinárias no "seu quintal", os países da América Latina e Caribe.

E aí, chegamos ao século XXI da vida real, neste exato momento de transição do 1º para o 2º quarto do século, com os Estados Unidos invadindo e bombardeando países soberanos, roubando petróleo e recursos minerais dos outros, tanto nos mares - piratas modernos -, como por terra e pelos ares.

Valeu a pena conhecer um pouco mais da série clássica e original do icônico Star Trek, de Gene Roddenberry e sua refinada equipe de atores e atrizes.

William Mendes

sábado, 13 de dezembro de 2025

Vendo filmes (XXXIII)


O grito de Crisóstomo.


Refeição Cultural


O DIVERSO É O COMUM

Certa vez, quando era adolescente, cheguei numa madrugada, vindo da rua, e dei um longo grito no quintal de minha avó, onde morávamos, e assustei muita gente. Foi um ato insano. Foi um grito de dor. Não deveria ter feito aquilo, mas fiz. Devia estar numa deprê impossível de suportar.

Ao assistir ao filme "O filho de mil homens" me lembrei na hora desse episódio de minha vida ao ver Crisóstomo gritar em frente ao mar para aliviar sua dor e sua solidão.

Vi por esses dias três filmes que me deixaram pensativo, filmes cuja temática central diria ser as idiossincrasias desse fantástico animal que somos, os seres humanos, únicos na natureza enquanto espécie que cria abstrações que dominam os criadores e únicos no comportamento mesmo sendo bilhões de indivíduos da mesma espécie. 

Os filmes "O filho de mil homens" (2025), "O pior vizinho do mundo" (2022) e "Papai" (2023) se interligaram em minhas reflexões ao me fazerem pensar nas complexidades das relações humanas, nas violências dolorosas dos preconceitos humanos e nas possibilidades de mudança contidas em cada um de nós, enquanto seres incompletos e biologicamente preparados para as adaptações aos ambientes aos quais estamos inseridos como seres vivos e tentando sobreviver. 

Crisóstomo (Rodrigo Santoro), Otto (Tom Hanks), Clark (Sean Penn) e as personagens com as quais interagem e convivem ou por um curto espaço de tempo ou por toda uma vida refletem a questão que me deixou bolado nesses dias: o quanto somos diversos e o quanto a solidão de alguma forma marca a vida de boa parte da sociedade humana, muitas vezes pelo fato de não nos encaixarmos naqueles padrões violentos impostos a nós por outros.

O rapaz que gritou no quintal de casa numa madrugada lá nos anos oitenta sentia uma dor impossível de suportar no peito. Crisóstomo grita quando precisa aliviar a dor que sente no peito. A solidão nesses casos não era solitude, era incompletude. 

Otto encontrou certo dia a cor em sua vida, o motivo de seguir adiante. Depois sua vida ficou cinza, opaca. O rapaz que não se encontrava na vida, que vivia a esmo num mundo cinza, encontrou a cor nas veredas que trilhou, depois encontrou sentidos nas coisas que lhe destacaram para fazer.

Na conversa entre Clark e a jovem Girlie vemos os acasos do destino que definem as vidas de todos nós, fuck esse papo furado de controle da situação... controle o cacete! Ninguém controla nada! Assim foi minha vida também... de vereda em vereda...

Quando vi, estava fora de casa. Quando vi, brigava com todo mundo, queria viver, queria morrer, queria amar. Quando vi era pai, aventureiro, sindicalista, tinha emprego fixo quase sob tortura de um governo desgraçado.

Acho que Crisóstomo nunca foi condutor. Otto nunca foi condutor. Incrível, mas Clark não conduziu sua vida, o acaso a definiu. Nunca conduzi minha vida. Ela foi indo, indo, a esmo. Só fiz foi tentar fazer o correto da jornada.

Concluí muita coisa da existência. Vejo o diverso a cada olhar ao redor... Vejo muita dor e solidão também... Queria poder aliviar a dor de muita gente...

Hoje nem gritar eu posso...

Como nos ensina Rubem Alves em seu texto perfeito "O nome" (ler aqui), vivemos numa gaiola, o nosso nome, e já se esperam tudo de mim, e de Crisóstomo, e de Otto, e de Clark, e de cada um de vocês.

O que nos salva das gaiolas dos nomes são os imponderáveis que a existência nos apresenta a cada amanhecer e anoitecer. 

Enfim, as histórias das personagens desses filmes, suas dores, as violências e preconceitos que viveram, os encontros e as descobertas, as relações humanas pelo simples fato de existirem, me fazem encerrar de forma otimista as reflexões.

Amanhã será outro dia, por muito tempo ainda. Não só para mim, um personagem do mundo, mas para todos nós, viventes desse mundo cheio de diversidade. 

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FILMES


O filho de mil homens (2025) 

Direção: Daniel Rezende. Roteiro: Daniel Rezende, Valter Hugo Mãe, Duda Casoni. Com: Rodrigo Santoro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Johnny Massaro, Rebeca Jamir, Grace Passô e elenco.

Sinopse (Netflix):

Em uma pequena vila, um pescador solitário (Crisóstomo) com o sonho de ter um filho se conecta, de forma extraordinária, a um grupo de pessoas e seus segredos.

Comentário: 

O filme retrata de forma surpreendente as questões complexas ligadas às relações humanas, abordando o quanto a violência e as diversas formas de preconceitos podem afetar a vida das pessoas, alterando o curso de suas histórias.

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O pior vizinho do mundo (2022)

Direção: Marc Forster. Roteiro: David Magee Com: Tom Hanks, Mariana Treviño, Rachel Keller, Manuel Garcia-Rulfo, Cameron Britton, Juanita Jeannings, Mack Bayda.

Sinopse (Netflix):

Decepcionado com o mundo e cansado da dor do luto, um aposentado rabugento planeja pôr um fim nesse sofrimento, mas tudo muda quando conhece uma família cheia de vida.

Comentário:

Filme muito bom! Otto é o vizinho ranzinza que gosta das coisas certas e das regras respeitadas em seu condomínio de casas, algo muito difícil de se ver. Ao longo da história, vamos conhecendo as particularidades de Otto e fica mais fácil entender como cada um de nós é diferente e único no tecido social chamado sociedade humana.

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Cena do filme "Daddio"

Papai (Daddio), de 2023. 

Direção: Christy Hall. Com: Sean Penn e Dakota Johnson.

Sinopse (Wikipedia):

Após aterrissar no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, uma jovem toma um táxi para regressar ao seu apartamento em Manhattan, Nova York. Durante a corrida, e o trânsito intenso por causa de um acidente, ela e o taxista Clark conversam sobre diversos temas, inclusive os relacionados à vida pessoal deles.

Comentário:

Poderia parecer uma história sem verossimilhança o nível da conversa entre a jovem passageira e o motorista se não tivéssemos o hábito de pegar táxi ou aplicativo e de repente começar a ouvir as histórias mais absurdas ou até mesmo contar a um estranho questões de foro íntimo. Gostei do filme e fiquei pensando também sobre as idiossincrasias de cada ser humano.

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É isso! 

Essa foi mais uma postagem da série sobre filmes.

O texto anterior pode ser lido aqui.

William