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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Livro: Cassems 15 anos - autogestão em saúde: um sonho possível



Refeição Cultural

Reli o livro comemorativo dos 15 anos de existência da Caixa de Assistência dos Servidores de Mato Grosso do Sul. Eu o ganhei do presidente da autogestão, o dr. Ricardo Ayache, em 23/08/17, quando visitei o Hospital Cassems Campo Grande. Naquela data, estava cumprindo agenda como diretor de saúde da nossa autogestão dos funcionários do Banco do Brasil, a Cassi (ler aqui).

Antes de 2017, eu já vinha acompanhando a Cassems por estudar sistemas de saúde, sobretudo os modelos de autogestão. Os servidores de Mato Grosso do Sul criaram a Caixa de Assistência em 2001, pois o Previsul havia falido e os servidores estavam sem plano de saúde. A sugestão e o incentivo foram do governador à época, Zeca do PT, e de Gleisi Hoffmann, que trabalhava em seu governo (ler aqui).

Um dos motivos para reler o livro sobre a história da autogestão dos servidores de Mato Grosso do Sul foi voltar a ter algum contato com as lideranças sindicais do Banco do Brasil e tomar conhecimento das questões em debate relativas a autogestão dos funcionários do BB, a Cassi. Uma das pautas debatidas pela comunidade de associados ativos e aposentados e o patrocinador é o déficit atual e alternativas de custeio. O tema é recorrente na Cassi desde sua criação há oito décadas.

Quando participei da gestão da Cassi, como diretor de saúde eleito, entre 2014 e 2018, o déficit do Plano de Associados era uma das questões centrais no dia a dia da autogestão e do funcionalismo do banco. Ao estudar a história de nossa Caixa de Assistência, vi que a questão sempre esteve presente na agenda.

Como gestor da Cassi, tratei de estudar o mercado onde as operadoras e autogestões atuam e passei a conhecer como funciona o setor de saúde, inclusive conheci um pouco a respeito de nosso Sistema Único de Saúde (SUS) e as regulações vigentes.

A Cassems surgiu em 2001 após o Previsul ter falido e os servidores de Mato Grosso do Sul ficarem sem plano de saúde e de previdência. O livro conta detalhes da história da autogestão. 

Uma das questões que mais me chamaram a atenção quando era gestor da Cassi e ainda hoje, quase uma década depois, é a opção das direções da Cassems pela verticalização, por investir em estruturas próprias de saúde para enfrentar o agressivo mercado privado de venda de serviços de saúde - a chamada "rede credenciada" -, nome mais conhecido pelos usuários de planos de saúde.

Enfim, é sempre bom reler livros que nos trazem novos conhecimentos e que nos fazem refletir sobre as coisas. A Cassems e seus associados acertaram muito com suas escolhas em relação a criarem estrutura verticalizada de saúde. 

A autogestão vai completar 25 anos em 2026 e pelo que percebo estão no caminho correto. São quase 200 mil beneficiários, em números contidos no livro. É muita gente! São 10 hospitais e uma estrutura robusta de atendimento em saúde.

Autogestões como a Cassi e outras entidades de saúde de trabalhadores deveriam estudar a história de sucesso da Cassems, que, aliás, se inspirou na Cassi para ser criada.

É isso! Sigamos lendo, estudando e diminuindo nossa incompletude.

William

23/12/25

terça-feira, 26 de março de 2024

Leitura (I): Fundamentos, regulação e desafios da Saúde Supl. no Brasil - Sandro L. Alves



Refeição Cultural

Leitura de livros - anotações e comentários


A leitura do livro Fundamentos, regulação e desafios da Saúde Suplementar no Brasil, de Sandro Leal Alves, lançado em 2015, foi motivada pela necessidade de me atualizar no tema já que havia sido convidado a participar de um planejamento estratégico de uma operadora de saúde na modalidade de autogestão e eu seria uma das pessoas responsáveis por compartilhar a experiência em gestão de uma das maiores operadoras de autogestão em saúde no país, a Cassi dos funcionários do Banco do Brasil.

O convite para compartilhar a experiência e os conhecimentos que adquiri ao ter sido gestor eleito de saúde da Cassi foi feito pela Unafisco Saúde, a autogestão do Sindifisco Nacional, Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil. Fui contatado pelo Diretor de Plano de Saúde do Sindifisco Nacional, Adriano Lima Correa, e prontamente me coloquei à disposição para compartilhar o que sei sobre o tema. Desde já, agradeço ao Adriano e ao Isac Falcão, presidente do Sindifisco Nacional, o convite, a acolhida e a troca de experiências que tivemos durante o evento da Unafisco Saúde. Desejo sucesso no alcance dos objetivos traçados no planejamento.

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ANOTAÇÕES E COMENTÁRIOS

O livro de Sandro Leal Alves é muito bem escrito, o que facilita bastante a leitura de um livro técnico. E os conceitos sobre o setor de saúde suplementar estão bem explicados.

Eu tenho divergência à forma como o direito humano à saúde é tratado no livro, mas compreendo como os liberais tratam a questão. No capitalismo tudo é mercadoria e a saúde não seria diferente. Aproveitemos, então, os ensinamentos técnicos do livro, e façamos o debate de ideias sobre as diversas formas de pensar o mundo.

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MUTUALISMO

Gostei da explicação que o autor dá sobre o tema mutualismo. Vejamos:

"O mutualismo foi o termo pinçado da biologia pela literatura securitária para definir a cooperação entre indivíduos mediante a agregação de seus riscos. Na Biologia, quando a interação entre duas espécies proporciona ganhos recíprocos decorrentes da associação entre elas, há mutualismo." (p. 42)

Em seguida, Sandro traz o conceito para a área da seguridade:

"O seguro fornece, nestes termos, uma possibilidade mutuamente benéfica ao reduzir o custo do risco para os segurados que se dispõem a contribuir para um fundo comum em troca da garantia de acesso a estes recursos na eventual ocorrência de infortúnios individuais. Se a troca é voluntária, como ensinam os manuais de Economia, a realização do comércio é um jogo de soma positiva em que todos os agentes envolvidos ganham, melhorando sua situação. O seguro contribuiu para a alocação dos riscos da sociedade permitindo que um agente avesso ao risco consiga transferi-lo, mediante o pagamento de um prêmio de risco, para um agente comprador de riscos que é a seguradora." (p. 42)

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PLANO DE SAÚDE É SEGURO

Achei interessante essa explicação sucinta da questão. O autor esclarece que as regulações são diferentes, mas que as regras estatísticas e atuariais são as mesmas. Eu tenho pontos de observação sobre isso, quando penso o modelo assistencial da Cassi, mas depois comento a respeito.

Vou citar a frase inteira para comentar o que penso em seguida:

"Uma primeira observação importante é notar que as regras estatísticas e atuariais que permitem a existência de um plano de saúde são as mesmas do seguro. O fato de terem regulações diferentes não muda um aspecto essencial de sua natureza: o risco. O elemento de agregação dos riscos é exatamente o mesmo, independentemente se o seguro é realizado para a proteção do patrimônio, de um automóvel ou de riscos associados ao adoecimento. A diferença aqui, evidentemente, é que no caso da saúde não se pode repor a saúde como se faz no caso de um bem, mas é possível oferecer indenização ou acesso aos serviços de saúde como forma de tratamento ou mitigação dos danos aos indivíduos.

O que se segura não é a saúde em si, pois não é possível, mas a diagnose e o tratamento, que frequentemente geram despesas médicas, laboratoriais e hospitalares que poderiam ser proibitivamente elevadas ou levar uma família a situações financeiras bastante desconfortáveis por pagamento direto." (p. 42/43)

COMENTÁRIO

Nesta explicação do autor, é possível apontar algumas leituras a partir de minha experiência ao conhecer o modelo de saúde que a Cassi vem tentando implantar desde a reforma estatutária de 1996. 

Por 5 décadas (1944 a 1995), a Caixa de Assistência dos Funcionários do BB teve uma lógica que se encaixava no conceito acima. Era um fundo mútuo de recursos para cobrir o acesso a serviços de saúde após a realização dos riscos comuns aos participantes do sistema.

Ou seja, o foco do uso do recurso daquele fundo mútuo era no reparo ou mitigação do dano realizado e não na prevenção ao dano.

E aí eu reforço que os custos nesta área, saúde, são impagáveis, e não só "desconfortáveis" por uma questão essencial do mercado capitalista: lucro máximo possível. Quem vende serviços de saúde visa lucro e a outra ponta, quem consome, deve estar precisando ou sendo convencida a precisar dos serviços... óbvio que a conta não fecha.

CASSI APÓS 1996

O objetivo pretendido pelos patrocinadores do fundo mútuo da Cassi a partir de 1996 (trabalhadores e BB) era outro, era utilizar de forma distinta os recursos financeiros da Caixa de Assistência, era passar a cuidar da saúde de seus assistidos ao longo de décadas, passando assim a usar melhor os mesmos recursos ao precisar ir ao mercado que visa lucro comprar serviços de saúde. Era outra lógica do uso dos recursos.

Para isso, após 5 anos de experimentos de modelos (1996-2001), a Cassi optou pela Estratégia de Saúde da Família (ESF), um tipo de Atenção Primária à Saúde (APS), com estruturas próprias de atendimento primário (CliniCassi), para organizar um sistema de saúde privado com mais controle no uso dos recursos e com bons resultados em prevenir doenças crônicas e seus agravamentos ao longo do tempo para aquela população assistida e fidelizada ao modelo.

Durante a nossa gestão (2014-2018), desenvolvemos estudos que comprovaram pela 1ª vez a eficiência do modelo ESF/CliniCassi na Caixa de Assistência, com estrutura própria - que faz toda a diferença - com profissionais assalariados em equipes de família e gestão em saúde e rede credenciada. Não eram "parceiros" do mercado que saem do projeto assim que recebem propostas melhores para ganharem mais em suas clínicas-empresas. Uma CliniCassi própria não visa lucro, uma CliniCassi "parceira" terceirizada visa lucro.

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RISCO MITIGADO - Ou seja, os riscos daquela população assistida por aquele recurso mútuo poderiam ser alterados, mitigados, ao longo do tempo. E nós provamos isso. Os estudos que fizemos demonstraram que uma parte da população vinculada ao modelo ESF tinha um uso melhor dos recursos do fundo após 3 anos ou mais de permanência no modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF)

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É POSSÍVEL EVITAR DOENÇAS (RISCOS)

Uma questão fundamental para diferenciar as explicações do autor nesta parte do livro e a experiência que ganhei ao estudar e gerir o modelo assistencial da Caixa de Assistência por 4 anos é que os estudos da estatística e dos cálculos de riscos trabalham com dados realizados e um modelo preventivo em saúde tem dificuldades em dar números a despesas evitadas, não realizadas.

O livro de Sandro cita Cechin e afirma:

"Como explica Cechin, 'contrair doenças é um evento futuro e imprevisível para cada indivíduo. Mas a incidência de doenças em uma população pode ser estatisticamente estimada com boa precisão para cada patologia. A estatística nos informa quantos, mas não poderá identificar quem'."

É e não é exatamente assim, na minha opinião. 

Tanto é que no final desse trecho do livro, escrevi um comentário por me lembrar de minhas divergências técnicas com os atuários e os setores na Cassi que só se debruçavam em números e pouca atenção davam ao modelo ESF na Caixa de Assistência. 

Eu insistia que a base de dados para os cálculos deveria ser melhor calibrada considerando a população que já era vinculada (fidelizada) ao modelo ESF porque o comportamento do risco dessa população e o uso do recurso do sistema eram diferentes da base de dados padrão que se baseava em parâmetros gerais de uma população que não estava em um sistema preventivo como a ESF.

A DIFERENÇA DA CASSI COM ESF EM RELAÇÃO AOS OUTROS

Esta afirmação abaixo - regra genérica - não se aplicaria à população Cassi vinculada (fidelizada) à Estratégia de Saúde da Família há mais de 3 anos.

"O plano de saúde ou o seguro saúde não evita que o segurado adoeça, mas se adoecer ele terá garantido o serviço de diagnóstico e recuperação ou será indenizado pelas despesas incorridas, conforme dispuser o contrato." (p. 44)

Aqui está a questão que o Dr. Vecina fala na reportagem da revista CartaCapital nº 1294, que citei no artigo que fiz a respeito do tema (ver aqui). Os planos e seguros de saúde vendem a promessa de redes credenciadas e não "saúde", esse e o ponto central. E eu reafirmo o que é claro para quem consegue ver: não há dinheiro que pague tudo o que o "mercado" ofereça porque o objetivo é lucro com a doença e não saúde.

Meu comentário final sobre essa parte dos fundamentos técnicos sobre mutualismo foi feito no livro após o box nº 2 (p. 45), que fala sobre "A lei de grandes números e a saúde suplementar". A essência do texto é para reafirmar os dados estatísticos sobre riscos de saúde realizados.

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"A lei dos grandes números só funciona se os eventos forem independentes, ou seja, se a chance de adoecimento de um indivíduo deve ser independente da chance de adoecimento dos demais. Por isso, as operadoras procurar "espalhar" os riscos. A operadora, com base na agregação de riscos e na Lei dos Grandes Números, pode ofertar planos de saúde a custo relativamente baixo. Quanto maior for a carteira segurada de riscos similares, maior será a estabilidade de resultados de eventos que uma operadora pode esperar e maior será a precisão do cálculo atuarial, ou seja, menor será o desvio em torno da média."
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Só que eu estou afirmando que se há um sistema onde os riscos são mitigados por anos a fio, em populações que ficam décadas no sistema, os dados genéricos exteriores a esse sistema não são a melhor base comparativa para se calcular riscos desse sistema preventivo e mitigador dos riscos que geram o uso dos recursos.

MEU COMENTÁRIO A RESPEITO: Pelos motivos apresentados no Box 2, que mostram que os cálculos e estatísticas são baseados na premissa de que a população do grupo vai adoecer conforme os dados existentes na sociedade é que eu, diretor de saúde da Cassi à época, afirmava que era possível precificar com valores menores a sustentabilidade do Plano de Associados e Cassi Família 2, cujas populações com maiores riscos fossem fidelizadas ao modelo ESF (e parte já estava cadastradas e vinculada ao modelo ESF como provamos), porque o adoecimento e uso dos recursos seriam menores do que os dados de mercado tradicional usados nas estatísticas.

Explico melhor: à época (entre 2015 e 2017), tínhamos um sistema com mais de 500 mil participantes, no qual 180 mil estavam cadastrados num modelo de saúde preventivo e que monitorava os assistidos e que atuava para melhor uso da rede, e dentro desses cadastrados perto de 50 mil já eram vinculados (fidelizados) demonstrando comportamento melhor do que os demais participantes do sistema. Essas informações não poderiam jamais serem desconsideradas nos cálculos atuariais da Cassi.

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CONCLUO ESSE PRIMEIRO COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA DO LIVRO

Enfim, esses são alguns comentários a partir da leitura do livro sobre saúde suplementar.

Outros pontos podem vir em outras postagens sobre a leitura.

William Mendes


Bibliografia:

ALVES, Sandro Leal. Fundamentos, regulação e desafios da Saúde Suplementar no Brasil. Rio de Janeiro: Funenseg, 2015.


quarta-feira, 13 de março de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 13 de março de 2024. Quarta-feira.


Dias entre coisas amenas e coisas graves...


ESTUDOS SOBRE SAÚDE SUPLEMENTAR

Andei lendo nos últimos dias um livro técnico sobre saúde suplementar. Imagino que poucas pessoas leem um livro desse tipo, inclusive o segmento que trabalhe com saúde suplementar. A vida é muito corrida e provavelmente o tempo das pessoas que estão na fase de venda de suas forças de trabalho seja gasto na correria de fazer coisas automáticas do cotidiano, com pouco tempo para estudo e reflexão. E ainda tem a opção por ficar horas na internet nas horas nas quais as pessoas não estariam trabalhando...

O livro é muito bom na questão de conceitos técnicos sobre a área que descreve e o autor escreve bem. Como sou um homem de esquerda percebi o tempo todo o quão liberal é o autor, defensor incansável do livre mercado, do mercado que se regula sozinho e do quanto deve-se evitar que governos interfiram em mercados. O livro é sobre saúde suplementar e o autor acredita piamente que saúde é uma mercadoria. Tudo bem, isso faz parte da linha hegemônica da sociedade na qual vivo. 

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SAÚDE NÃO É MERCADORIA

Claro que discordo dessa leitura: saúde não é mercadoria. Mas não posso deixar de estudar e conhecer a realidade por causa disso.

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Não vou conseguir terminar a leitura antes de um bate-papo que fui convidado a fazer com gestores e operadores de uma autogestão em saúde nesta semana. Mas depois vou terminar o livro, só tenho a ganhar com a leitura, com a atualização de um conhecimento técnico que adquiri por representar um grande segmento de pessoas quando fui gestor de uma autogestão em saúde. Soma-se a esse conhecimento de sistemas de saúde o fato de eu ter estudado por um tempo áreas de saúde, o que ampliou minha visão sobre o tema.

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POLÍTICA NO BRASIL (CHEIRO DE IMPUNIDADE NO AR)

Vendo a movimentação do mundo da política, eu fico pensando com meus botões o que se poderia ler nas entrelinhas do que é dito e narrado pelos mais diversos segmentos da sociedade e mais diversificados meios de comunicação. O momento histórico da sociedade humana é hegemonizado pela pós-verdade, pela capacidade dos agentes de imporem suas narrativas sejam elas baseadas em fatos e evidências ou pura ficção, mentira, opinião - fake news e desinformação em massa.

Eu estudo um pouco de comunicação, política e história faz umas três décadas, pelo menos. Algumas coisas que a gente vai vendo se repetir ao longo da vida vão ficando chatas, previsíveis e nos fazem avaliar que certas coisas acontecidas não foram acasos, foram planejadas e esperadas pelos agentes envolvidos. A não prisão do genocida que ganhou de presente em 2018 a presidência da república de um dos maiores países do mundo me dá a impressão que é por algum motivo que não querem dizer: querem que ele fuja.

As desculpas são as mais diversas para se adiar a prisão do líder da tentativa de novo golpe de Estado ocorrida em 8 de janeiro de 2023 e permanente líder e incentivador de dissolução da frágil democracia brasileira, e as desculpas são defendidas pelos mais diversos segmentos à esquerda, centro e direita. O espectro político ao qual pertenço, a esquerda, está repleto de gente que acha que o criminoso deve ficar solto enquanto durarem as fases intermináveis de investigações e oitivas etc etc. Mesmo enquanto ele e seus "parsas" destroem provas e ameaçam prováveis testemunhas.

Eu tenho a impressão que não querem e não vão prender Bolsonaro. Estão com medo de prenderem o sujeito, é o que leio nas entrelinhas. Medo ou não querem, para contemporizar com a elite golpista.

Estão todos esperando e torcendo para que ele fuja, facilitando a vida dos segmentos políticos e sociais que não pertencem aos seculares círculos do poder real no Brasil - a casa-grande e o entorno comprado por ela nas estruturas do Estado - segmentos que preferem há séculos adiar o confronto armado e definitivo entre a elite canalha e a massa de gente explorada e miserável - afrodescendentes e os demais pobres excluídos dos direitos da cidadania. A esquerda, a intelectualidade progressista, as lideranças de movimentos sociais sabem que novos golpes virão, que a injustiça vai seguir aumentando contra a nossa gente fora do 1%, mas não querem organizar o confronto final entre nós e eles. E assim eles sempre darão novos golpes e novas tomadas de poder na marra. 

REVOLUÇÃO À DIREITA NO BRASIL

Eu tenho uma leitura que o regime liderado por Temer e Bolsonaro, por sete anos, realizou uma revolução, uma revolução conservadora e também reacionária, conservadora no sentido de manutenção absoluta do poder desses segmentos seculares de todas as estruturas do Estado nacional, públicas e privadas, e reacionária no sentido de desfazer as conquistas que haviam sido conquistadas pelas massas e classes subalternas em mais de um século de lutas em todas as áreas da cidadania. 

Bolsonaro, seja um imbecil ou não, um desqualificado ou não, liderou a revolução à direita que desfez nossos direitos políticos, econômicos e sociais e ele não fez nada do que fez "dentro das quatro linhas". Tudo foi na força, na imposição, de forma autoritária e o nosso lado ficou vendo, ameaçando reagir de forma insuficiente e burocrática e chorando pelos cantos.

É o que penso, sinceramente. Espero muito ser uma leitura exagerada e errada. Errar é humano. Ficarei muito feliz se tudo correr conforme deveria correr, os processos acontecerem, os direitos de defesa e as condenações desse criminoso e de sua corja de criminosos de longa data serem respeitados etc, e torço para ver a justiça prevalecer ao final como deveria acontecer com qualquer pessoa. 

NOSSA HISTÓRIA É DE IMPUNIDADE PARA A CASA-GRANDE

Mas a história da impunidade para essa gente da casa-grande fala mais alto no Brasil. 

Aqui só pretos e pobres vão presos e morrem diariamente em penas de morte decretadas pelos capitães do mato fardados, morrem nas mãos da justiça presos sem nunca serem sequer julgados, perdem direitos, vivem na merda... essa é a história da gente da nossa classe, da classe trabalhadora, a gente que tem cor - que tem que justificar a cor! -, gente que tem o alvo desenhado em si desde que nasceu.

Feito o registro de minhas impressões e reflexões do dia.

William


Post Scriptum: é engraçado, pra não dizer que é triste... nesta semana de eleições em uma entidade corporativa que conheço, tem três chapas concorrendo. Em duas delas, tem gente que praticou mentiras e fake news contra mim, e estão por aí livres leves e soltas. As forças políticas das três chapas já se beneficiaram de alguma forma de invenções criadas para assassinar minha honra e história. A política é assim. Não deveria ser, mas é assim.


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Leitura: Operários Sem Patrão - Lorena Holzmann


 

Refeição Cultural 

"Se havia, em tese, a oportunidade democrática de acesso à palavra para todos os participantes da assembleia, eram poucos os que efetivamente dela se apropriaram. Nas representações dos trabalhadores o discurso era prerrogativa dos que sabiam falar bem, dos que tinham 'coisas certas para dizer'. Era o reconhecimento do discurso competente, 'no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminadas para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência' (Chauí, 1982:2)." (p. 129)


A leitura do livro Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001), de Lorena Holzmann, me trouxe lembranças de minha jornada de sindicalista e me fez refletir sobre as chances de sucesso nos projetos alternativos à hegemonia do capitalismo como forma atual de produção e distribuição material e intelectual das necessidades humanas. 

A edição do livro que li não é minha, é de um amigo de meu filho. Acabei lendo este estudo - que tem por base uma tese de doutorado - por ter surgido a oportunidade nesta semana ao recebermos a visita do jovem Mateus em casa. O livro nos é apresentado pelo saudoso Paul Singer.

Pertencimento - uma das ideias conceituais que pensei ao ler a história dos trabalhadores das antigas Indústrias Wallig - depois "Cooperativas Wallig" - foi a questão do pertencimento, a importância de ter um sentimento de pertencer a algo quando se engaja numa luta qualquer, principalmente uma luta coletiva. 

Trabalhei com essa ideia-força ao longo de minha vida de organização e representação da classe trabalhadora: pertencimento. 

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RESUMO DO CASO ANALISADO NO LIVRO

"Este estudo primoroso de Lorena Holzmann tem por base tese de doutoramento, aprovada na Universidade de São Paulo, em 1992. O seu objeto é a Indústria Wallig, que chegou a se celebrizar como fabricante do fogão a gás mais prestigioso do Brasil, e foi atingida pela grande recessão de 1981-83. Mas, o seu fechamento enquanto empresa capitalista não foi aceito pelos operários, seu sindicato e a própria opinião pública do Rio Grande do Sul. Os trabalhadores formaram duas cooperativas - uma fundição e uma mecânica - e após muita luta conseguiram alugar as instalações da massa falida para prosseguir as operações da antiga empresa." (Paul Singer, na apresentação do livro)

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CAIXAS DE ASSISTÊNCIA DE TRABALHADORES SÃO MODELOS DE COOPERATISMO

Pensei muito na minha experiência como gestor eleito (2014-2018) de uma associação, uma Caixa de Assistência, da qual quase a totalidade da comunidade envolvida com ela não tem noção alguma do que a Cassi é: uma autogestão em saúde. E a parte que tem noção disso faz de tudo para apagar a característica central do que essa associação é: um modelo assistencial baseado no cooperativismo e na solidariedade. 

Ao ser gestor do modelo de saúde da Cassi, pesquisei a história da associação, o trânsito dela na comunidade ao longo de décadas, desde os anos quarenta até o momento no qual era gestor. Por incrível que pareça, o banco patrocinador, que tem acesso integral ao corpo de associados e poderia educar e orientar os participantes a aderirem ao sistema de atenção primária, fez em uma década de implantação do modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF) um vídeo institucional sobre o que era e como funcionava a ESF. Um vídeo. Enquanto isso, o foco da comunicação era a venda de planos de saúde, ao invés de focar na essência da Cassi: o Plano de Associados. Por quatro anos, viajamos pelo Brasil para falar da ESF. O modelo ganhou credibilidade e aderência como essência de nosso modelo cooperativo e solidário de assistência à saúde.

Após nossa saída, o que vejo é uma Cassi que se apresenta como uma empresa capitalista do mercado de saúde, vendendo inúmeros planos ruins de saúde que não têm a menor relação com o que a Cassi deveria fazer - cuidar da saúde de seus associados - e a ESF foi deixada de lado, e a "empresa" aposta no mercado para tudo. É uma lástima. Essa autogestão com um modelo fantástico de cooperativismo na área da saúde dos trabalhadores terá muitas dificuldades de seguir existindo. Um sistema cooperativo se referenciar na indústria capitalista da saúde é arriscar sua existência.

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CONFRONTO ENTRE CAPITAL E TRABALHO (O DINHEIRO SEMPRE DIVIDE AS PESSOAS)

A distribuição das "sobras" no primeiro ano das cooperativas me lembrou as discussões sobre a PLR dos bancários (Participação nos Lucros e Resultados)

"(...) Desse modo, a ideia inicial de que o empreendimento era de todos, foi se diluindo, solapada pela diferença de interesses que se tornaram manifestas no interior das Cooperativas." (p. 90)

No estudo de Lorena Holzmann, ela tomou conhecimento do quanto a unidade inicial dos cooperados se diluiu assim que entrou em pauta a primeira distribuição das sobras (resultados positivos) das cooperativas.

É justo distribuir de forma desigual os lucros ou sobras?

A justiça ou injustiça dos critérios dividiu os associados para sempre. A PLR da categoria bancária enfrentou o mesmo debate de critérios desde a sua instituição em 1995 nos acordos da categoria: distribuição linear ou distribuição desigual de acordo com salários e funções dos trabalhadores na hierarquia do banco (ou da cooperativa)?

É justo dar cotas maiores do resultado para aqueles que já ganham mais na pirâmide salarial da empresa? Afinal de contas, o esforço para conseguir o resultado positivo não foi de todos? A folha de pagamentos já remunera mais ou menos ao longo do ano de acordo com as habilidades e responsabilidades de cada trabalhador.

Isso aconteceu nas duas cooperativas oriundas das Indústrias Wallig. Uma forma de distribuição se opunha a outra. Cada associado tinha cotas diferentes na cooperativa. Os antigos tinham mais, os novatos quase nada. Aí depois de todo mundo ralar para conseguir o resultado positivo, os caras de cima, da administração, definiram que as sobras seriam distribuídas de acordo com as cotas de cada um... o povo do chão da fábrica viu centavos e os de cima ficaram com todo o resultado... (é foda!)

Participei desses debates por mais de uma década na categoria bancária. Os bancários criaram um critério misto ao longo de quase três décadas. Isso na regra geral, porque os bancos deram um jeito de premiar os de cima ou "mais chegados" com programas individuais não contratados com os sindicatos.

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FÉRIAS ERAM FÉRIAS MESMO

"O sistema de descanso anual implantado era considerado pela direção das Cooperativas como superior ao direito a férias disposto na CLT, pois seu objetivo 'salutar de recuperação e composição de forças' não poderia ser mercantilizado, impedindo o trabalhador de trocar por dinheiro o 'recurso sanitário de restauração de seu desgaste físico e mental', como foi declarado por um entrevistado." (p. 103)

Achei interessante essa questão de forçar que as férias fossem cumpridas em descanso mesmo pelos trabalhadores. (ou seja, que as férias fossem compridas...)

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PARTICIPAÇÃO SOCIAL 

"O 'fim da síndrome de participação' e a autonomização do Conselho fez com que emergisse entre alguns associados a certeza de que tinha havido a apropriação das instâncias decisórias por um pequeno número de associados. Isso teria ocorrido mesmo com a renovação obrigatória de parcelas de cada um dos Conselhos (o de Administração e o Fiscal), já que houvera, no primeiro deles, um processo de cooptação, pelos interesses de associados do setor administrativo..." (p. 135)

Será que essa questão acima não se tornou a realidade em nossas organizações de classe hoje?

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A DIFICULDADE DE SE ATINGIR A SONHADA IGUALDADE 

"As inúmeras linhas de segmentação da coletividade, opondo seus integrantes a partir do tipo de atividade que exerciam (trabalho na produção x trabalho na administração), antiguidade (fundadores x novatos), propriedade do capital (grandes cotistas x pequenos cotistas) determinaram uma complexa teia de interesses divergentes que, mal equacionados, levaram ao aprofundamento da desigualdade." (p. 148)

Interessante: a leitura desse estudo de caso foi como ver um filme a partir de minhas memórias ainda frescas de décadas de organização da classe trabalhadora, as dificuldades reais e materiais de se alcançar a unidade e a solidariedade de classe etc. Vi um filme de memórias através do livro!

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ALGUMAS REFLEXÕES 

Durante a leitura desse estudo de caso de uma indústria que faliu e da luta de seus trabalhadores para mantê-la por causa de seus empregos, pensei um pouco sobre essa nossa caminhada humana em busca de sobrevivência e de realização.

Fiquei me lembrando das experiências humanas em busca de organizações sociais baseadas em cooperativismo e solidariedade, que tendem a ser mais justas e com melhores oportunidades a todas as pessoas.

Me lembrei de exemplos enormes como o caso da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), experiência da classe trabalhadora que durou décadas (1917-1991) e que mudou o cenário político mundial.

Me lembrei de organizações de trabalhadores como as nossas caixas de assistência e previdência dos trabalhadores do Banco do Brasil: a Cassi e a Previ.

Me lembrei de cooperativismo como aquele que fez o apartamento onde moro, que custou aos associados um valor muito menor do que o valor que seria comprá-lo pelos modelos hegemônicos do capital.

E me lembrei de algumas realidades atuais, me lembrei da China e de Cuba, dois casos alternativos ao modelo hegemônico de organização social no mundo do século atual, o modelo de produção e distribuição de riquezas identificado com os conceitos de capitalismo, neoliberalismo e imperialismo.

Não vou desenvolver uma argumentação ou reflexão sobre isso. Isso não é mais meu papel. Já foi.

A China me impressiona. Cuba e os cubanos têm minha solidariedade fraterna. A lembrança sobre a autogestão em saúde dos funcionários do BB me traz uma certa dor porque gosto dela e lamento ela ser uma oportunidade desperdiçada. A Previ é uma segurança que sua comunidade deve estar alerta, pois a cobiça no patrimônio dela enlouquece até seus associados.

É isso. O livro de Lorena Holzmann foi o 24º livro que li neste ano. Todo dia quando percebo que estou aqui no mundo, penso sobre o que posso fazer para aprender algo novo, e tento, só tento, ficar atento para não fazer mal a ninguém. (gostaria de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor, mas hoje não estou fazendo isso)

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Ah, sobre o que disse no primeiro parágrafo do texto, sobre chances de projetos alternativos ao modo capitalista de organizar as sociedades humanas, modelo baseado na religião do dinheiro, na ganância, no egoísmo e no cada um por si, confesso meu pessimismo da razão, apesar de me esforçar para crer no otimismo da ação criadora do ser humano. 

A questão é: quantos jovens estão neste momento focados nas mudanças coletivas inclusivas, solidárias e sustentáveis e não só em seus prazeres pessoais? Ou focados em superar suas dores e angústias pessoais, algo muito real num mundo sem perspectivas? Quantos? Tenho a impressão de que poucos, um número insuficiente para mudar a tendência escatológica dos tempos. 

Estamos sós, todos nós, estamos sós, uma solidão do tamanho da ideia de García Márquez no clássico "Cem anos de solidão". E qualquer saída para a humanidade será uma saída coletiva. Coletiva. Mas estamos sós...

São as minhas impressões. Espero estar errado. Quando era político, acertava mais minhas impressões. Agora, atomizado, espero estar errado em minhas impressões.

William

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Bibliografia:

HOLZMANN, Lorena. Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia. São Carlos: EdUFSCar, 2001.


terça-feira, 21 de julho de 2020

Em defesa do associativismo e da solidariedade




Os bancos públicos mais antigos do país são o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Ambos, mais que centenários, aparecem nos textos políticos, econômicos e literários de grandes autores e personalidades brasileiras desde o século XIX.

O espírito de pertencimento entre os trabalhadores dessas empresas públicas seculares permitiu que ao longo de suas histórias fossem criadas associações com objetivos sempre coletivos e solidários de manutenção da vida, da saúde, dos direitos sociais e da cidadania de forma geral.

Foi assim que os bancários brasileiros, como outras grandes categorias profissionais, criaram no início do século XX associações de organização das lutas reivindicatórias que se transformariam nos sindicatos, federações, confederações e centrais sindicais. Nessas histórias estavam lá os colegas do Banco do Brasil.

Meus colegas do BB criaram em 1904, no dia 16 de abril, a Caixa Montepio dos Funccionarios do Banco da Republica do Brazil, o nosso fundo de pensão Previ, hoje com 116 anos de idade. É belíssima e exemplar a história de unidade, solidariedade e companheirismo dessa comunidade a qual pertencemos, a comunidade de bancários do Banco do Brasil da ativa e aposentados e seus familiares.

Neste momento, estamos em processo eleitoral na Previ para a escolha de parte dos gestores de nossa Caixa de Previdência. O patrocinador, o banco, já indica a metade dos gestores. A outra metade é eleita pelos quase 200 mil associados. Imaginem quanta responsabilidade temos cada um de nós com direito a voto!

São duas chapas concorrentes. Todos os participantes das chapas têm competências técnicas exigidas pela legislação e pelo Estatuto de nossa entidade. O momento econômico, político e social do país é um dos mais complexos na história de nossas vidas, inclusive como membros da comunidade BB, já que os governantes ameaçam nossa existência com a privatização do banco.

Peço a cada colega dessa comunidade que participe do processo democrático conquistado com muita luta. Existem diversas ameaças aos nossos direitos, inclusive ao nosso direito de votar e sermos votados como associados e donos da Previ. 

Votei e peço voto na Chapa 1 - Previ para o associado. A Chapa 1 representa essa história de associativismo e solidariedade que descrevemos aqui. 

A nossa caixa de previdência tem como missão "Garantir o pagamento de benefícios a todos nós, associados, de forma eficiente, segura e sustentável". 

A Chapa 1 conta com o apoio das entidades de classe dos bancários do BB. Ou seja, além das competências técnicas e legais exigidas, ela congrega perspectivas reais de organização de luta na defesa de direitos. Ela é nossa melhor alternativa.

Compartilhem. As eleições são fundamentais para garantirem os nossos direitos de nos expressarmos e decidirmos nossas vidas e de nossos entes queridos.

Abraços fraternos!

William Mendes


Referências:

As informações sobre a Previ foram obtidas no site da Previ.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Instantes (2h30)



A lua como uma luz na longa noite.
Foto de Ione.

Madrugada de segunda-feira, 8 de junho de 2020 (d.C.). 

O domingo trouxe ao menos uma momentânea esperança de um porvir diferente do que tem sido a mesmice da existência sob um país destroçado pelo golpe de Estado em 2016, golpe que retirou o PT do governo federal, que alterou a rota que o Brasil seguia com destino a ser uma das potências do século em que estamos. A esperança momentânea foi ver várias capitais do país recebendo atos com brasileiras e brasileiros indignados com o estado das coisas, milhares e milhares de pessoas que foram para as ruas protestarem contra o racismo, contra o fascismo, contra o bolsonarismo, contra os inumanos que tomaram o poder, foram para as ruas defenderem a democracia. Fico feliz pelos atos deste domingo e, neste momento, meus olhos se umedecem de emoção por ver essa pequena luz na longa noite que nos enfiaram ainda antes de 2016, quando os meios de comunicação da casa grande envenenaram o povo brasileiro e transformaram parte dele numa gente odienta, doente, ignorante, bárbara e sem cura.

Não fossem momentos de luz como ver as pessoas nas ruas lutando pelo bem, disputando espaço com os que vêm ocupando as ruas para defender o mal, a gente estaria mais triste do que já estamos. A gente sofre muito ao ver nossos jovens com seus caminhos interrompidos por esse mal em que nos jogaram. Isso dói. E a gente tem que ser forte, inclusive para auxiliar e apoiar aqueles que ainda têm toda uma vida pela frente e precisam acreditar em um amanhã melhor. Se uma década atrás a nossa vida estava melhorando e as perspectivas eram provenientes das decisões políticas da maioria do povo brasileiro, significa que se chegamos naquele momento uma vez, podemos chegar novamente. O ser humano é um animal absolutamente diferente de qualquer outro na natureza. O imponderável é a marca de nossa existência coletiva ao longo de dezenas de milhares de anos de vivência dos animais humanos. O amanhã sempre pode ser diferente, se não para mim, ou para você, porque somos breves, mas pode ser diferente para nós, que somos também legião, além de indivíduos.

Se estiver vivo nesses dias meses anos serei mais um do lado do bem, enfrentando todo esse mal que se abateu sobre nós como um pesadelo sem fim, mas que tem fim. Mesmo que não tenha mais um papel de representação coletiva, cada boa ação que fizer, pode valer alguma coisa, porque o bem pode vencer o mal, numa soma de pequenos atos.

Não aceite o mal como algo normal na sociedade humana! Não aceite o racismo, não aceite o comportamento odiento dos doentes que aderiram ao bolsonarismo, não aceite a destruição de nosso mundo como algo dado. A vida tem que valer a pena, e vale, porque viver já é possibilidade, já é chance para o imponderável.

William

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Lembranças - Capítulo 3



1º de Maio no Vale do Anhangabaú em 2019.

1º DE MAIO

Hoje é 1º de Maio de 2020, um dos dias mais importantes da classe trabalhadora mundial em relação ao calendário anual. Um dia de reflexões, de balanços, de lutas. Um dia de revigorar as utopias que movem os seres humanos que desejam um mundo mais justo e solidário, igualitário, sustentável, democrático e que tenha a paz mundial como um dos objetivos a serem alcançados. Não haverá evento presencial com trabalhadores e suas lideranças. Estamos enfrentando uma pandemia mundial de Covid-19 e a morte espreita por aí. A recomendação é isolamento social e quarentena.

O cenário brasileiro e mundial neste 1º de Maio é um dos mais adversos da história da classe trabalhadora em décadas de organização e lutas por um mundo com mais oportunidades para todos e com melhor distribuição da riqueza produzida pelos trabalhadores. O mundo do trabalho já enfrentava dificuldades desde a crise do subprime em 2007 quando os Estados nacionais deram trilhões de dinheiros para banqueiros e empresários e vinténs para milhões de pessoas que viviam de suas forças de trabalho. Aí veio a pandemia do novo coronavírus em 2020 e desgraçou de vez as condições de vida dos povos pelo mundo.

O Brasil e o povo brasileiro tiveram datas de 1º de Maio memoráveis durante os anos iniciais do século 21 (entre 2003 e 2015), anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve na Presidência da República na data em questão, com Luiz Inácio Lula da Silva e com Dilma Rousseff. Só para lembrar: aumentos reais consecutivos do Salário Mínimo e dos salários das categorias profissionais, ampliação de direitos trabalhistas e de oportunidades de ascensão social através do financiamento público da educação em todos os níveis e criação de aproximadamente 15 milhões de empregos com carteira assinada. A taxa de desemprego em dezembro de 2014 foi de 4,3% (IBGE), um feito histórico.

Em 2016 veio o Golpe de Estado e a abertura da Caixa de Pandora. Sai de cena governos democráticos e populares com identificação histórica com as classes populares e ao iniciarmos um período de exceção (que gente vil e incautos seguiram chamando de "democracia") entram em cena no comando das instituições do país todas as espécies de gente que não presta - mafiosos, corruptos de colarinho branco, milicianos, estelionatários, manipuladores da fé, uma horda de gente violenta e sem cultura, bárbaros de toda espécie. Um dos organizadores do Golpe assume o governo e começam as reformas que viriam a destruir os direitos dos trabalhadores brasileiros. O coroamento da desgraça toda viria com as eleições fraudulentas de 2018, que nos colocou na situação em que estamos neste 1º de Maio.

Enfim, esses registros de lembranças que comecei a fazer após conhecer há pouco tempo um livro muito interessante de Margo Glantz - Yo también me acuerdo (2014) - não são para escrever sobre a história do Brasil nem da classe trabalhadora brasileira, eu não teria saco para isso nesta altura de minha vida, mesmo que tivesse competência para tal. São para registrar momentos que vivi enquanto cidadão ao longo das últimas décadas. Todos fazemos parte da história porque a história se desenvolve através do cotidiano das gentes. Nada nada fui dirigente eleito por 16 anos de uma das categorias profissionais mais organizadas do país, os bancários. Fiz parte da organização de greves importantes do movimento estudantil como a da FFLCH-USP em 2002. E vivi muitos 1º de Maio, inclusive os debates organizativos do mês que antecedia à organização dos eventos.

Me deu vontade de registrar algumas lembranças que vivi nesta data tão importante para a classe trabalhadora. Não tenho muito fôlego para escrever várias datas, mas algumas não custa tentar.

DIAS D@S TRABALHADORES

2006

ME LEMBRO que em 2006 eu assumi novos desafios no movimento sindical brasileiro. Os bancários decidiram ampliar o escopo de representação da estrutura sindical da categoria para fazer frente às novas formas de exploração por parte dos patrões do setor, os banqueiros. Eles já vinham se organizando em holdings e corporações e ao longo de anos foram retirando os trabalhadores da cobertura da Convenção Coletiva de Trabalho dos bancários (CCT/CUT). Criamos a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e seu primeiro Congresso foi em abril de 2006. Tive a honra e o privilégio de fazer parte dessa história e fui eleito secretário de comunicação da entidade. A experiência seria engrandecedora para mim e por 9 anos (3 gestões) fiz parte da organização nacional dos bancários. O 1º de Maio de 2006 foi na Av. Paulista, com mais de 1 milhão de participantes. Os eixos temáticos eram: fortalecer a democracia, mais e melhores empregos, renda e ampliação de direitos.

Me LEMBRO que o desafio das comunicações me levou a pensar diversas estratégias para aprofundar meus conhecimentos na área. Eu passei a participar de diversos fóruns sobre comunicações, imprensa, jornalismo, mídia etc. Participei do Movimento dos Sem Mídia. Li livros sobre o tema e me aproximei muito do dia a dia da CUT Nacional, sem descuidar do que aprendi com meus companheiros do coletivo do Banco do Brasil no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região: nunca perder o contato com a base, tanto os locais de trabalho quanto o seu sindicato de origem. Participava de todas as reuniões da direção do Sindicato e fazia visita às agências e departamentos do BB - era bom sindicalizador, levava bancários para cursos de formação, para assembleias de base e escrevia muito, muito.

ME LEMBRO que tive o privilégio de atuar na secretaria de comunicação com profissionais da mais alta competência, grandes jornalistas e militantes das comunicações e das causas populares. Até definirmos o modelo de gestão na secretaria da Confederação, aprendi muito tanto com o pessoal da Fórum, sob a liderança do Renato Rovai, quanto sob a liderança do Coelho, amigo de décadas, em outra etapa da secretaria. No mandato seguinte, quando fui para a área de formação, teria a oportunidade de ver na comunicação o brilhantismo do companheiro Ademir. Ou seja, imaginem vocês como fui um privilegiado pela oportunidade de compartilhar os aprendizados e experiências dessas figuras e suas equipes de trabalho.

2007

ME LEMBRO que o ano de 2007 foi um ano intenso para nós do Banco do Brasil. Tivemos mobilizações do movimento e negociações com a Caixa de Assistência dos Funcionários, a Cassi. No dia 9 de abril daquele ano, a Contraf-CUT enviou ofício ao Banco questionando diversas retiradas de direitos dos associados por parte do CD da Cassi (veja reprodução do teor do ofício aqui) e a pressão do movimento sindical fez o Banco e a direção da Cassi voltarem atrás. Ainda sobre a Cassi, participei da Conferência de Saúde da Cassi SP na AABB, no sábado 14 de abril. Neste ano, eu fazia a posse de funcionário novos do BB na Gepes para apresentar o Sindicato a eles e sindicalizava muitos bancários no 1º dia de trabalho. Eu era responsável também pela confecção da revista nacional O Espelho, dedicada aos temas do funcionalismo do Banco do Brasil. Olhando o registro de prestação de contas que eu fazia no blog A Categoria Bancária (mês de abril/2007: ver aqui) percebi que passei vários dias do mês estudando a história de lutas no Banco do Brasil para escrever tese e ou projeto para o BB e os trabalhadores. Nessa época, eu já escrevia bastante para o movimento sindical. O 1º de Maio tinha como um de seus temas o veto do Presidente Lula à Emenda 3, que atacava diversos direitos trabalhistas como férias, 13º salário, FGTS etc. Eu não fui aos atos porque estava terminando os textos sobre o Banco do Brasil.

2008

ME LEMBRO que neste ano tivemos eleições no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Como dirigente da Executiva da Contraf-CUT e do Sindicato, eu já me dividia entre as atividades das duas entidades. Minhas jornadas eram longas, quando ia para a secretaria à tarde é porque já havia estudado a manhã toda ou participado de eventos do Sindicato. Ao rememorar o meu mês de abril de 2008, consultando o blog (mês de abril/2008: ver aqui) percebi que fiz reuniões com os trabalhadores na base ao longo do mês, além das atividades de estudos e construção de conteúdo nacional para os sindicatos filiados à Confederação. O 1º de Maio desse ano tinha como temas centrais a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e a luta pela ratificação das Convenções 151 e 158 da OIT. Os trabalhadores brasileiros tinham uma pauta de avanços nos direitos e não de redução como passou a ser após o Golpe de 2016. 

2009

ME LEMBRO que nesse ano meus desafios no movimento sindical se ampliaram, porque tivemos o 2º Congresso da Contraf-CUT em abril e fui eleito secretário de formação. Ali se iniciava uma das etapas mais produtivas e prazerosas que vivi no movimento sindical, ao lado de valios@s companheir@s do Dieese e de sindicatos de todo o país. Olhando o mês de abril, que antecede o 1º de Maio, vi através do blog uma agenda cheia e produtiva (mês de abril/2009: ver aqui). Realizamos o 20º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil em Brasília (DF); eu fiz um artigo de contribuição aos debates naquela semana. (ler aqui). O papel do BB e as incorporações era um dos eixos temáticos. Meu artigo fala sobre remuneração e condições de trabalho e estratégias de luta. Fiz outro artigo sobre comunicação e formação (ler aqui). O 1º de Maio teve como tema "1º de Maio de luta - Pelo Desenvolvimento com Trabalho, Renda e Direitos" e os eventos foram descentralizados e sem o patrocínio de grandes empresas. O mundo vivia a crise do subprime e nós defendíamos que não eram os trabalhadores que tinham que pagar pela crise. Eu participei das atividades da CUT na Cidade Dutra, zona Sul de São Paulo. Participei também no domingo dia 3 da II Etapa do Circuito Osasco de Corrida de Rua - I Desafio dos Trabalhadores (corri 8k). O nosso Sindicato ajudou a promover a prova e incluiu centenas de bancários no evento. Eu era uma das pessoas voluntárias no Sindicato a sugerir ideias de atividades culturais, de esporte e saúde para aproximar os bancários do dia a dia do Sindicato e apostamos em algumas parcerias em corridas de ruas. Foi um sucesso a iniciativa.

APENAS LEMBRANÇAS E REGISTROS

Passei algumas horas de ontem, 30 de abril, até agora, tarde de 1º de Maio de 2020, Dia dos trabalhadores e trabalhadoras, relembrando dias de lutas, dias de vida. Mas vou parar, por enquanto. Para uma postagem, já está bom. 

Como representante eleito da classe trabalhadora, busquei ao longo de quase duas décadas criar estratégias de politização, formação e informação de meus pares. Os dois blogs que criei tinham esse objetivo. 

O auge dos blogs foi atingido durante o mandato que exerci na Cassi. Naquele momento, cada postagem tinha centenas ou milhares de acessos. Ali eu atingi o objetivo de criar leitores e manter uma relação fiel com eles. Agora isso passou.

Na atualidade, se eu mando o texto produzido por mim para dezenas de pessoas de meu contato ou compartilho em um monte de grupos de Facebook ou WhatsApp, acabo conseguindo que algumas pessoas leiam o texto, chegando a algumas dezenas de acessos. Se eu não divulgo o texto dessa forma, não tem quem os leia. Tenho pensado em não mandar mais pra ninguém. O dia que mando ainda é porque a vaidade falou mais alto.

Palavras, palavras, palavras. Na realidade o que temos aqui no blog é um amontoado de palavras, que tentam contar histórias de luta, reflexões e alguns desabafos, às vezes.

Abraços aos leitores e viva a classe trabalhadora!

William


Post Scriptum:

Para aquel@s que tiverem a curiosidade de ler os outros dois capítulos dessas lembranças, aqui estão os links. Clique aqui para o 1º texto e aqui para o 2º.

 
Fontes de informações:

Blog Categoria Bancária: http://categoriabancaria.blogspot.com/

Cedoc da CUT: http://cedoc.cut.org.br/cronologia-das-lutas

CUT: https://www.cut.org.br/noticias/rumo-ao-1-de-maio-ab21


sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Cassi - Entre a técnica e a política



Artigo de opinião

"Agora vc tá ferrado, meu irmão, porque esse negócio de saúde é um bagulho técnico, e vc é muito sindical como eu..." *


Quando cheguei eleito em 2014 pelos trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil como diretor de saúde da autogestão Cassi sabia que os desafios que teríamos pela frente por quatro anos seriam enormes. 

Em ambiente democrático e com normalidade jurídica e institucional ter representação através do voto direto e ter tempo para executar minimamente um programa ou princípios que defende para a gestão nos dá condições de reverter qualquer quadro adverso, pois é só acreditar naquilo que defende, manter seus propósitos, arregaçar as mangas e buscar apoios nas bases para superar as adversidades.

Essa questão do uso da técnica para manipular e afastar as pessoas interessadas nas consequências das decisões políticas chamadas de "técnicas" é uma das ferramentas mais antigas dos donos do poder para exercer a perpetuação do patrimonialismo e a concentração de renda e poder na mão dos donos do capital, da casa grande.

Durante o mandato de diretor de saúde da Cassi eu tinha diversos desafios para serem enfrentados ao mesmo tempo, por isso que passamos quatro anos praticamente sem dormir direito de segunda a segunda, de manhã tarde e noite, e muitas madrugadas afora, porque tínhamos que estudar e conhecer a técnica e manter a firmeza de propósito da política porque representávamos os trabalhadores.

Eu prometi a mim mesmo que não iria mais fazer pesquisas, estudos e passar horas e dias concentrado nos problemas da Cassi porque hoje tem outras representações fazendo isso. Cheguei a fazer 9 artigos sobre a Cassi e os problemas que ela enfrenta nesse momento. No penúltimo artigo cheguei até a sugerir soluções para reflexão das lideranças e entidades representativas. Enfim, os artigos estão ao final deste texto para algum(a) interessado(a) na leitura.

A técnica e a política

Existem diversas formas de arrecadar recursos para criar um determinado fundo para custear a saúde ou previdência de um conjunto de participantes. As formas que existem são técnicas. A escolha da forma de arrecadar é política.

Existem técnicas até para se passar informações sobre o mesmo tema, de maneira que a técnica pode direcionar o comportamento e a decisão das pessoas para um lado ou para o outro. Assistam "Privacidade hackeada", documentário de 2019, para entenderem das técnicas atuais de manipulação de grandes contingentes de humanos. As democracias representativas como conhecíamos acabaram!

Certa vez, o presidente Lula disse numa entrevista algo que encontrei dentro da gestão da Cassi de forma clara e transparente. De posse do cargo, com um programa e princípios que defendia, ele passou a determinar para ministros e técnicos que implementassem as mudanças que o povo havia escolhido e a resposta dos técnicos era que tal coisa não podia, outra também não etc porque normas e resoluções e notas técnicas proibiam. Ou seja, havia uma máquina burocrática nos escalões inferiores do poder feita para não se mudar nada - manutenção do status quo. Não à toa, vive-se inventando desculpas para bloquear a chegada dos próprios trabalhadores aos espaços de poder, normalmente com desculpas "técnicas" como, por exemplo, exigência de formação x ou y etc.

Quando cheguei à gestão da Cassi a discussão interna, "técnica", era que os desequilíbrios do Plano de Associados eram por culpa da inflação médica; culpa dos participantes porque gastavam muito, porque eram idosos, porque tinham dependentes; os déficits eram gerados porque a Cassi era de estrutura inchada, ineficiente, que todo o dinheiro que o banco colocava não era suficiente por isso; que seria necessário aumentar a contribuição dos associados e que o banco não colocaria mais centavo algum porque não podia por uma questão "técnica". E mais, que o modelo de saúde era questionável, assim como a eficiência dos programas de saúde. O único santo na história era o patrocinador patrão. Enfim, lidamos com esse cenário.

Por ter mandato e por ter tempo, quatro anos, foi possível enfrentar todo o cenário adverso e estudar o modelo assistencial da Cassi; ser timoneiro e liderar estudos técnicos (decisão política) feitos por profissionais que provaram a eficiência da ESF e dos programas de saúde; foi possível valorizar os trabalhadores da Cassi; esclarecer o papel central das unidades regionais e das CliniCassi no modelo assistencial; mostrar a importância da gestão compartilhada com os associados, donos da autogestão. 

Demonstramos a importância da autogestão se apresentar ao seu público, explicando o que ela é e tirando dúvidas, desfazendo mal-entendidos e mentiras sobre a Cassi. Demonstramos que a Caixa de Assistência só sobreviveu por 75 anos e acolheu e cuidou de TODOS os associados porque seu modelo de custeio e de cobertura é solidário e igualitário, com o mesmo peso relativo no salário ou benefício. Sem a solidariedade do modelo de custeio mutualista intergeracional os trabalhadores seriam aos poucos excluídos do Plano. Para explicar tudo isso, tivemos que falar pessoalmente com as lideranças e associados em 170 agendas nas bases da comunidade. (ler aqui)

Fizemos isso por princípio e respeito aos associados, mesmo com entraves "técnicos" que inventavam para tentar nos impedir de ir às bases. Nunca houve tanta reunião presencial com um diretor eleito se disponibilizando aos fóruns da Cassi no país e isso fortaleceu a autogestão naquele período. Detalhe: nunca discriminamos público falando só com grupos de apoio, falamos com TODOS. Acredito que contribuímos para o espírito de pertencimento e para maior empoderamento sobre a autogestão, senão dos usuários e participantes, distantes da administração, ao menos dos conselhos de usuários, dos sindicatos e das associações da comunidade Banco do Brasil.

Por que relembrei essas questões acima?

Porque a autogestão Cassi passa por novos desafios para encontrar saídas para a questão dos desequilíbrios econômico-financeiros e sofre uma séria ameaça de liquidação, com desculpas "técnicas" (decisão política), por  parte de um regime que não esconde a quem representa: o governo Trump e a parte mais retrógrada do rentismo lesa-pátria brasileiro (incluindo os capitalistas donos de negócios privados de saúde). 

O cenário é absolutamente mais complexo do que aquele que vivi entre 2014 e 2018. É por isso que trato com muito cuidado e respeito as posições políticas divergentes dos diversos grupos, lideranças e entidades envolvidos na busca de solução para a Cassi.

Se, por um lado, o novo regime político oriundo de um golpe de Estado em 2016 já deixou claro a que veio, eliminar todo o patrimônio público brasileiro e consequentemente todos os direitos sociais do povo (o que inclui os bancários!), por outro, as lideranças e entidades da classe trabalhadora não conseguiram construir uma unidade de resistência à destruição total de todas as nossas conquistas. Isso é muito sério, eu diria fatal.

O esforço que fiz nestes três meses em que estive com as lideranças e suas entidades representativas foi com o intuito de tentar aproximar as posições divergentes ainda relativas à consulta ao corpo social feita em maio de 2019. Criou-se o grupo do "sim" versus o grupo do "não". A continuidade dessa questão será fatal para a Cassi e para nós associados. Seria necessário as posições divergentes sentarem juntas e buscarem construir um consenso maior que possa conseguir maioria qualificada em nova consulta ao corpo social. Estamos falando de 2/3 e cerca de 75 mil votos favoráveis em eventual proposta de novos recursos para a Cassi.

Ambas posições, aquelas que entendiam que a proposta era a possível para aquela conjuntura - o "sim" -, quanto aquelas que entendiam que era necessário mais avanços para aprovarem a solução para Cassi - o "não" -, ambas tinham legitimidade naquilo que interpretavam: democracia é assim. Passado o processo, sem alcançar o quórum necessário para a entrada de novos recursos ao Plano de Associados, permanece a necessidade de novas receitas para os próximos balanços da Cassi e o cenário conta com uma direção fiscal e prazos definidos para se apresentar orçamentos equilibrados até o final deste exercício de 2019.

Argumentei com diversas lideranças e entidades que qualquer proposta que venha a ser apresentada aos associados, e há todo um processo político e administrativo para que isso ocorra ("técnico"), será fundamental que parte de uma das posições esteja com a outra, independente do motivo de novo posicionamento. No cenário em que estamos, não adiantaria nova consulta cujo resultado fosse semelhante ao de maio. A Cassi continuaria sem recursos novos para o orçamento de 2020 e os seguintes, sem demonstrar que as desconformidades "técnicas" seriam corrigidas no próximo período.

Eventuais propostas construídas por lideranças, grupos ou entidades que não tenham a aderência de representações que defendam junto aos seus associados e que possibilitem alcançar 2/3 de votos válidos serão meras marcações de posição, mas sem eficácia alguma na solução da continuidade ou não da Cassi. Do outro lado, o que percebemos é o pouco ou nenhum interesse na manutenção de autogestões como a Cassi e direitos em saúde como aqueles que os associados da Cassi têm.

Na minha opinião, que não é uma opinião de leigo, haja vista que estive no centro das construções políticas e técnicas dos direitos da comunidade de trabalhadores do Banco do Brasil nos últimos 20 anos, entendo que é fundamental o desejo de dialogar e buscar consensos entre as diversas forças e lideranças que se reunirão na próxima semana para buscar soluções para resgatar a Cassi da estratégia de liquidação em andamento. Se a política não for exercida na sua plenitude, e cada grupo ou liderança mantiver sua posição e ninguém ceder, estaremos fadados a um resultado ruim no encontro nacional que ocorrerá no sábado 28 de setembro.

Tenho certeza que a Cassi é um patrimônio dos trabalhadores do Banco do Brasil e dos sistemas de saúde privados do país, e deveria ser defendida por cada um dos seus quase 200 mil associados, que investem na manutenção da entidade de autogestão com o modelo mais exitoso que há no Brasil, comprovado em estudos técnicos e reconhecido pela própria ANS e pelo mercado que busca copiar o modelo de atenção primária e medicina de família que a Cassi já desenvolve há quase duas décadas.

Abraços a tod@s, muita paciência e tolerância para a busca de uma solução de maioria qualificada para a Cassi.

William Mendes
Associado Cassi e Previ


*frase que ouvi em 2014 de uma liderança sindical antes de tomar posse no mandato eletivo de diretor de saúde na autogestão dos trabalhadores do Banco do Brasil. Pelo que me foi dito pelos profissionais de saúde da Cassi, nunca passei vergonha neles por falar alguma bobagem sobre saúde e gestão de saúde.

1º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/06/unidade-e-participacao-na-defesa-da.html

2º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/06/cassi-e-cassems-tem-muitos-exitos.html

3º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/06/coparticipacao-maior-pode-inviabilizar.html

4º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/o-que-e-cassi-como-fortalecer-associacao.html

5º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/cassi-uma-questao-mais-politica-que.html

6º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/futuro-da-cassi-esta-nas-maos-dos.html

7º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/cassi-como-achar-saidas-nao.html

8º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/cassi-associados-devem-resgatar.html

9º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/08/resgatar-cassi-e-prioridade-dos.html

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Resgatar a Cassi é prioridade dos associados



Opinião

A Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, Cassi, maior e mais antiga autogestão em saúde do país, passa neste momento de sua existência por mais um período de desequilíbrio econômico-financeiro causado por reduções da base da receita operacional e por fatores inerentes ao setor em que opera - o setor de saúde suplementar.

A entidade de saúde dos trabalhadores da ativa e aposentados é gerida de forma paritária pelos próprios associados, sendo a metade da direção eleita pelo corpo social e a outra metade indicada pelo patrocinador do Plano de Associados, o BB. Sendo gerida por ambos patrocinadores do Plano, os dois lados têm direitos e obrigações e responsabilidades com os objetivos e missão da associação.

Missão: "Assegurar ações efetivas de atenção à saúde por meio de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação, para uma vida melhor dos participantes." (Cassi)


Os participantes da Caixa de Assistência são as pessoas assistidas pelo Plano de Associados (402.524) e os clientes dos Planos Cassi Família (270.506), e ainda as 5.918 vidas dos planos de saúde dos funcionários Cassi e dependentes, sendo a razão de ser da associação criada em 1944 o Plano de Associados, constituído por trabalhadores do BB, e hoje composto por titulares da ativa e aposentados, pensionistas e os dependentes. (dados do Visão Cassi e Relatório Cassi 2018)

A comunidade do BB esteve reunida nos dias 1 e 2 de agosto no principal fórum organizativo dos trabalhadores do Banco do Brasil, o 30º Congresso Nacional dos Funcionários (CNFBB), e um dos temas debatidos foi a Cassi e as melhores estratégias para preservar e fortalecer a entidade de autogestão em saúde. Tive a honra de ser convidado para falar sobre nossa Cassi e dividi a mesa com dirigentes eleitos da autogestão.

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Em linhas gerais, a mensagem que passei foi de que é possível resgatar a Cassi das ameaças que ela enfrenta no momento e que para isso é necessário que façamos algo com unidade e estratégia adequada. Disse ainda que talvez haja uma estratégia do novo regime político no país em não retomar as negociações e a busca de solução para as desconformidades econômico-financeiras da autogestão em relação à direção fiscal instituída em 22 de julho e assim deixar que ela fique à mercê de eventuais decisões questionáveis tomadas por órgãos do próprio governo (ANS, SEST etc) como, por exemplo, quererem liquidar as "carteiras" da Cassi: Plano de Associados e Cassi Família.
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Algumas questões:

- Dia nacional de lutas em defesa da Cassi (em 22 de agosto) e organização de plenárias e discussões entre os trabalhadores associados e suas entidades é algo muito importante, bem como o encontro nacional que virá depois. As pessoas precisam sair da condição de conforto em esperar que algo aconteça a partir de agentes externos a nós mesmos, os associados. Temos mais de uma centena de sindicatos, dezenas de associações e conselhos de usuários que devem se envolver no processo de MOBILIZAÇÃO do dia 22 de agosto. Participem!

- As entidades nacionais que compuseram uma mesa permanente com o patrocinador Banco do Brasil desde 2015 - Contraf-CUT, Contec, Anabb, Aafbb e Faabb - podem contribuir muito na organização nacional e na unidade dos associados na busca de solução econômico-financeira para resgatar a Cassi com a entrada de novos recursos que permitam a nossa autogestão voltar à normalidade administrativa corrigindo no próximo período as desconformidades monitoradas pelo órgão do governo (ANS). A bela construção de unidade das entidades já trouxe ganhos com a solução do Memorando de Entendimentos entre outubro de 2016 e dezembro de 2019 e podemos repetir o feito neste momento de sérias ameaças à Cassi.

- Entendo que todo esforço deve ser feito pelas lideranças das entidades sindicais e associativas, bem como dos eleitos pelos associados, em construir uma proposta de entrada de novos recursos para o Plano de Associados - motivo da direção fiscal -, de maneira que se evite as grandes polêmicas e diferenças naturais de pensamento entre os grupos políticos e organizativos da comunidade. Unidade no corpo social é premissa para a solução neste cenário adverso.

- Se buscarmos uma proposta mais simples e focada - aos moldes do Memorando, por exemplo - teremos melhores perspectivas de alcançar 2/3 de aprovação no corpo social (regra estatutária). Lembremos que o objetivo central neste momento é cumprir um programa (Direção Fiscal) com orçamento que equalize as operações da autogestão por dois ou três anos. O patrocinador pode não estar disposto a negociar, mas ter uma proposta de consenso ou maioria qualificada dos associados é o primeiro passo para a solução, inclusive com apoio jurídico, se for o caso, para que haja nova consulta aos associados (é necessária autorização do patrocinador).

O PLANO DE ASSOCIADOS NÃO É MERA "CARTEIRA" DE UMA EMPRESINHA QUALQUER DO MERCADO PRIVADO DE SAÚDE

Por fim, duas coisas chamam a atenção nas últimas semanas:

A nota de esclarecimento da Cassi* no dia 14 de agosto, falando pelo Banco do Brasil e esclarecendo as propostas de custeio do patrocinador e o "compromisso" dele banco em custear individualmente a saúde dos associados de hoje do Plano de Associados em 4,5% em caso da Cassi não existir. E a possibilidade aventada do órgão regulador liquidar o Plano de Associados e consequentemente a autogestão Cassi.

O Plano de Associados não é "carteira" de uma empresinha qualquer do mercado de saúde. Nós somos donos associados da autogestão e não meros "clientes". A Cassi tem um modelo assistencial referência nacional em eficiência na área de atenção primária (APS) e medicina de família (ESF). Temos mais de 180 mil vidas cuidadas no modelo. Já temos estudos que demonstram índices impressionantes de melhor uso de recursos no tratamento de segmentos de participantes mais idosos e mais agravados em saúde.  

Temos um sistema de unidades de atendimento em saúde, as CliniCassi, responsável por fazer com que os assistidos vinculados ao modelo assistencial gastem entre 10% e 40% menos que participantes fora do sistema. Temos a menor despesa administrativa do setor de saúde suplementar em relação aos outros segmentos do setor - medicinas de grupo e cooperativas médicas - e a autogestão Cassi evita que mais de 700 mil pessoas tenham necessidade de buscar atendimento no SUS, já superlotado e sem recursos. Como poderíamos aceitar um órgão do governo (ANS) ter nas suas possibilidades legais "liquidar" o Plano de Associados?

Missão da ANS: "Promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regular as operadoras setoriais - inclusive quanto às suas relações com prestadores e consumidores - e contribuir para o desenvolvimento das ações de saúde no país." (site da ANS em 16/8/19)

Vendo a missão acima, não me parece razoável ou justo que esse órgão tenha poder para nos tirar a Cassi, pois liquidar nossa autogestão seria fazer o contrário de tudo que está escrito naquela missão. Mas a ameaça é real porque os tempos são de fezes, como diz o poeta (pra não dizer que a autoridade máxima do país só fala isso):

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"Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera."
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(versos do poema "A flor e a náusea", do livro "A rosa do povo", de Carlos Drummond de Andrade, 1945) 

Dito isso, chamo a atenção de cada associado e cada associada e suas respectivas entidades representativas que não podemos sequer avaliar uma possibilidade de não resgatarmos a Cassi da situação atual de desconformidades econômico-financeiras porque a nossa autogestão em saúde é infinitamente maior que um "plano de saúde" que buscaríamos no mercado individualmente com um repasse de 4,5% de nossos salários ou benefícios em determinado momento de nossas vidas.

Vamos apostar na unidade e na construção de consensos entre nós para desenvolvermos as estratégias de resgatem a Cassi das ameaças colocadas neste momento, inclusive em relação ao momento político pelo qual passa nosso país.

Abraços e nos colocamos à disposição das entidades e lideranças da comunidade Banco do Brasil para refletirmos juntos a busca de soluções, consensos e unidade do lado dos associados.

William Mendes
Associado Cassi/Previ


*Nota de Esclarecimento da CASSI

A CASSI esclarece que nenhuma das propostas de mudança de custeio apresentadas (em setembro de 2018 e em maio de 2019) alterava a contribuição patronal de 4,5%. Em relação ao benefício definido (obrigação do empregador após a aposentadoria), o Banco do Brasil informou, em nota divulgada em maio de 2019, que não haveria modificações com a mudança do Estatuto Social da CASSI, permanecendo a responsabilidade do patrocinador com a contribuição percentual sobre o valor total do salário ou do benefício dos associados.

O compromisso do Banco do Brasil com a contribuição patronal para a saúde dos seus funcionários da ativa a aposentados é de 4,5%, percentual hoje repassado à CASSI. No caso de não existir mais a Caixa de Assistência, os funcionários da ativa ou aposentados contarão com esses mesmos 4,5% como parte patronal para custear a sua assistência à saúde. O risco de não haver aporte suficiente para solucionar o problema financeiro da CASSI, eliminando as desconformidades apontadas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), é de inviabilizar a continuidade da CASSI e a prestação dos serviços a funcionários da ativa, aposentados e seus dependentes, por meio do Plano de Associados. Se o plano for considerado inviável pela ANS, os beneficiários desporiam dos mesmos 4,5% como contribuição patronal para contratar outra forma de assistência à saúde."

Fonte: Cassi