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sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


sexta-feira, 9 de maio de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural 

Osasco, 9 de maio de 2025. Sexta-feira.


O tempo para os seres vivos segue correndo. A cada segundo, o tempo de vida de qualquer organismo vivo diminui. É a natureza, é o ciclo da vida.

Essa questão temporal independe do fato de um ser vivo ter acabado de chegar à sua forma de vida ou não. Uma tartaruguinha, um bebê humano, um burrinho pedrês, um velho felino sem chão, uma pessoa com décadas de vida. O tempo está correndo para todos eles. E está diminuindo. Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Acordei me lembrando dessa questão temporal. E me quedei cismando com as ideias em minha mente. Faz um tempo que percebi a urgência do tempo para mim. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. 

Que tenho que fazer para esses dias? A declaração do imposto de renda. Uns exames médicos de rotina, preventivos, que o relapso não os fez no tempo ideal.

Eu tenho que resolver a questão de incluir ou não imagens para finalizar a edição impressa de minhas memórias da vida sindical, as "Memórias de um trabalhador politizado pelos bancários da CUT". Para impressão, as imagens precisam de boa resolução e aí complica. Preciso finalizar esse trabalho realizado. O livro não será vendido. Vou presentear pessoas com aquelas histórias. 

E o tempo segue acelerado. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Não é só o meu tempo que está correndo. É o de todos os seres vivos que está diminuindo. 

O que fazer primeiro? O que priorizar neste instante? O imposto, os exames, sei. Esse bendito livro.

Meus textos de vinte anos de blogs... acho que tenho que seguir fuçando nisso. Lendo, diagramando, encadernando. 

Tive um tipo de vida até a confecção desses milhares de textos e outra vida durante aquele período de representação política da classe trabalhadora. Tenho que deixar esses cadernos numa estante, mesmo que seja para alimentar cupins ou o fogo.

Ao reler as postagens, vejo não só a vida do escritor delas, mas do povo brasileiro, do país e do mundo, uma época. 

E tenho que fazer outra coisa também. Os textos do meu pai e da minha mãe precisam ser preservados, organizados, quiçá publicados e encadernados. 

Meus pais têm pouca instrução formal, duas pessoas muito inteligentes! Dois sobreviventes pobres deste país miserável e violento. E meus pais escreveram suas histórias, seus sentimentos, reflexões e orações. Seus amores e pesares. Tenho que preservar essas histórias humanas.

O tempo corre... tic-tac, tic-tac, tic-tac. 

William 


terça-feira, 25 de junho de 2024

31 de 100 dias



31. Hoje completei um dos eixos investigativos sobre minha condição de saúde. Como meu cotidiano se transformou numa rotina de dores na região do quadril e sistema locomotor, incluindo até a região dorsal e abdominal, estou fazendo a minha parte para a manutenção de minha existência e procurando resolver a questão. Devo isso às pessoas de meu círculo familiar mais próximo.

Pelos exames e informações dos profissionais da área, estou com o sistema urinário em ordem. Exames de PSA e demais exames de imagem e físicos indicam que está tudo normal com rins, bexiga, ureter e próstata.

Por um lado, isso é bom e tira uma cisma que a pessoa com dores crônicas tem em seus pensamentos, achando que está com tudo quanto é coisa ruim. Estado de não saúde é foda! Lembrar que tem partes no corpo que incomodam porque doem é um saco!

Por outro lado, se está tudo bem com minha próstata e sistema urinário, agora é levar os exames de imagens sobre a condição de minha estrutura locomotora e do quadril para o profissional responsável por essa área. 

Essa coisa de saúde é tão esquisita que se o cara disser que tenho desgastes mesmo, mas que posso conviver com isso, ficarei satisfeito. Sigo a vida com as dores locais. 

Das experiências com estudos de anatomia do período que frequentei uma graduação de Educação Física com a experiência na gestão de saúde, prefiro evitar cirurgias e, se possível, fazer exercícios de reforço na região.

Enfim, sigamos. Depois de décadas de vida, uma vida cheia de veredas, aprendi que viver é uma oportunidade. E que os humanos são seres históricos (e posso seguir fazendo a minha), e que só se ensina gente, como diz Paulo Freire (e quero aprender coisas novas todos os dias), e seguirei fazendo a minha parte para estar no mundo com as pessoas.

Diferente do que pensei por muito tempo em minha existência, não desejo encurtar meu percurso na natureza.

William


quarta-feira, 3 de abril de 2024

Acaso 55



Refeição Cultural

Osasco, 3 de abril de 2024. Quarta-feira.


Acaso 55

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que antes dos cinquenta eu passei a controlar a pressão arterial antes de infartar ou ter um acidente vascular cerebral. Poderia já ter morrido antes não fosse isso. Na época das bebedeiras era tão ignorante que comia sal na mão com cerveja.

Foi um acaso eu ter virado gestor de saúde e, como pessoa da área, fazer os acompanhamentos primários e descobrir que era hipertenso e passar a controlar a pressão, uma das doenças crônicas que agravam e matam boa parte da população mundial.

Foi por acaso que ao ser convidado para disponibilizar meu nome para compor uma chapa nas eleições de uma autogestão em saúde, como candidato a diretor e encabeçar a chapa por entenderem que meu nome agregava, eu tinha um diploma de graduação em Ciências Contábeis, exigência protocolar para a inscrição da chapa.

Foi por acaso que eu me formei em Ciências Contábeis. Quando terminei o segundo grau não estava pensando em fazer faculdade naquele momento da vida. Um vizinho conhecido, um certo dia, me chamou para fazer um vestibular na região, Osasco, e acabei escolhendo um dos três cursos disponíveis e fiz a prova e entrei e me formei. Isso depois de organizar greve estudantil. Que orgulho tenho ao lembrar que uma turma de cem alunos me escolheu para ser o orador.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que fui parar em São Paulo antes dos dezoito anos. Me lembro que discuti em casa e acabei indo embora. Mas tinha outros motivos, penso eu. Não se conseguia trabalho em Uberlândia nos anos oitenta e eu estava cansado de trabalhos braçais e humilhantes, eu estava a fim de uma garota em São Paulo, apesar de saber que seria difícil conquistá-la. Soube que teria um lugar pra ficar no início se fosse pra SP.

Foi por acaso que ao visitar familiares em São Paulo, fiquei sabendo que haveria uma vaga na casa de minha avó após o casamento de um dos primos que moravam com ela, em uma das casas de meu tio. Era uma espécie de república, os primos dividiam as despesas da casa. Sairia um, entraria outro, eu.

Foi por acaso virar bancário depois de uns serviços gerais em Sampa. No começo, o trampo foi pesado, descarregar caixas de palmito de caminhões com umas vinte toneladas e entregar por toda a grande São Paulo. Depois, fui caixa de lanchonete no Itaim Bibi, a noite toda vendo a playboyzada na farra. Não me lembro como, mas virei bancário do Unibanco.

Foi por acaso que dei atenção ao pessoal do sindicato e passei a ajudar na organização de uma greve. E me sindicalizei e passei a sindicalizar todo mundo. Por acaso mesmo, porque quase todo mundo trabalhava em banco, como meus primos e primas e amigos, e nem por isso o pessoal dava bola para o sindicato. Poderia ser um bosta bolsonarista décadas depois se não tivesse me politizado com o sindicato.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que não morri algumas vezes por aí, alimentando estatísticas das mortes de homens jovens. Já dirigi um carro em estrada por dezenas de quilômetros com curto na parte elétrica, sem luz nenhuma, farol, lanterna, uma loucura irresponsável. E com muito sono. Por muito tempo dirigi minhas motos alcoolizado entre os dezoito e os trinta anos. Coloquei minha vida em risco inúmeras vezes. E por acaso fui vivendo.

Foi por acaso, imagino, as vezes em que quase morri mesmo sem ter culpa ou fazer alguma loucura. A vida tem um quê de acaso. Ir e voltar para Mogi das Cruzes por meses, de moto, com chuva, de noite, naquelas curvas da estrada, cento e cinquenta quilômetros por dia, foi uma sorte da porra sair ileso disso. Foram tantas finas e tantos sustos. Puta merda!

Foi por acaso, talvez, me levarem para o hospital quando morava sozinho e estava me desmanchando em vômito e diarreia após uma intoxicação alimentar, salmonela se não me engano, e quando acordei de madrugada no hospital me disseram que foram horas no soro para recuperar minha pressão que chegou a 8x3 ou coisa do tipo.

Não sei se foi por acaso, mas tem o acaso nisso, ter passado tantos anos de minha vida querendo morrer e não ter morrido. Cheguei a pensar em interromper a vida e cheguei a falar essa merda para a minha mãe. Anos depois, fui entender que provavelmente passei a adolescência e uma fase de adulto com uma forte depressão sem nunca ter tratado isso um dia sequer. Sobrevivi.

Aí já é uma viagem dessas quase místicas, ou do acaso bem acaso, que após meus pais não conseguirem ter filhos porque minha mãe perdia em abortos espontâneos, uma gravidez acabou vingando, a gravidez da qual nasci. E um dia eu iria dizer àquela mãe que não queria mais viver... os filhos são foda algumas vezes nesse mundo dos humanos.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

De acaso em acaso fui vivendo. Imaginem, depois de uma adolescência dura num país miserável e violento, percebi após os trinta anos que a cor branca de minha pele fez a diferença nas estatísticas, os jovens pretos e pardos morriam em número muito acima da média nas estatísticas das mortes de brasileiros. Os de pele branca já nasciam “com o cu pra lua” por causa da cor da pele. Minha irmã negra sobreviveu, mas comeu o pão que o diabo amassou. Nunca saberei o que uma pessoa preta sofre por causa da cor da pele.

Foi por acaso que escolhi o Banco do Brasil e não a CET ao passar nos dois concursos ao mesmo tempo no início dos anos noventa. O fato de ter sido bancário por dois anos no Unibanco e o fato de a jornada de trabalho ser de seis horas fizeram toda a diferença. Eu me lembro que odiava trabalhar, trabalho para mim era a lembrança de humilhação e cansaço e falta de tempo para fazer o que eu gostaria de fazer. Voltei à categoria por acaso.

Foi por acaso que aconteceu tanta coisa na minha existência que ficaria aqui, de vereda em vereda, avaliando os caminhos que trilhei e fui sobrevivendo.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência

Foi por acaso que virei sindicalista, foi por acaso que escolhi fazer Letras após um amigo do Banco do Brasil me convidar para assistir aulas de ouvinte na USP. No entanto, foi com muito esforço que estudei pra passar na Fuvest. E foi com escolhas difíceis que priorizei a representação sindical em prejuízo do curso de Letras.

Foi por acaso que entrei numa faculdade de Educação Física, me apaixonei pelo curso e não pude terminar porque não tinha dinheiro para pagar a mensalidade. Uma das maiores tristezas da vida. Nunca me esqueci das aulas de anatomia, biologia, da turma e do contexto que me levou à faculdade.

Foi por acaso que vivi amores, esses acasos, os do coração, são os melhores acasos da vida humana. Foi por acaso que me tornei pai. Foi por acaso que me humanizei e a fúria diminuiu.

Foi por acaso que viajei e fiz as melhores aventuras de minha vida. Sempre o acaso colocou uma vereda que me levava à natureza, ao rapel, à cachoeiras, cavernas, ao paraquedismo, aos acampamentos e regiões de mato – que adoro -, às praias e biomas diversos.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência

Foi por acaso que conheci a Itália e a Espanha. Foi por puro acaso que me peguei nos Estados Unidos a trabalho. Foi por acaso o convite para ir a Cuba.

Por acaso fiz a habilitação em espanhol. Me encantei com a língua durante o Ciclo Básico. Entrei na USP pensando em fazer inglês. Aliás, aprendi a falar inglês para o gasto porque queria ir embora do Brasil como muitos jovens queriam na época.

Foi por acaso que me humanizei num dos momentos mais duros da vida, tempos de fúria, tempos de revolta. Aí virei sindicalista e a formação política me salvou, talvez tenha salvo a sequência de minha existência após os trinta anos.

 

Por puro acaso cheguei aos cinquenta e cinco anos de existência.

Foi por acaso que entrei como cotista numa cooperativa e comprei a tão sonhada casa própria, um apartamento em Osasco.

Foi por acaso que passei a vida ouvindo mais música estrangeira do que música brasileira. Não posso me culpar por isso. Minha origem foi diferente da origem da maioria dos sindicalistas que conheci. Enquanto muitos cresceram em ambientes de militância, eu vivia num bairro miserável na adolescência sem ninguém de esquerda na família.

 

Acasos e esforços... e agora?

Passei o dia do aniversário pensando na vida, no passado que não me pertence, no futuro que não existe, só se eu acordar amanhã, e no presente, que passei pensando na vida no dia 3 de abril, pensando nas veredas que trilhei, nas que não pude trilhar, no que fiz e no que não fiz. Na lista do que queria e não quero mais.

Lembrar de tantos acasos na minha existência não diminui meu esforço honesto e muitas vezes quase impossível para superar as merdas da sobrevivência que quase nos fazem desistir de seguir. A partir dos acasos, tenho a clareza que teve muito esforço de minha parte, muito. Não me diminuo. Sei o meu valor.

 

Sei do esforço de voltar à construção onde passei a manhã quebrando concreto no primeiro dia de ajudante de encanador. Sei do esforço de não desistir quando tinha que furar aquelas latas de palmito podre.

Sei do esforço de não desistir quando o cansaço me fazia chorar e eu seguia. Fiz o que tinha que ser feito desde muito jovem. Passar em vestibulares de faculdades privadas e públicas, concursos públicos, todo guaraná em pó que tomei pra ficar acordado teve sua importância.

 

E sei que por ser branco tive vantagem em relação aos meus pares da classe subalterna à qual pertencíamos, classe trabalhadora explorada. Minha irmã sofreu as consequências da falta de oportunidade por ser negra. E as mulheres sempre foram preteridas por serem mulheres, tive vantagem nisso também. No Brasil, já é sorte nascer homem e branco por causa de nossa história violenta e miserável. Absurdo isso! Sorte ou azar por ser homem ou mulher, branco ou preto...

Me lembro da dona da escola de idiomas onde trabalhei me dizer para não contratar mulher porque mulher só dava dor de cabeça, menstruava, tinha enxaqueca, filhos, faltava muito etc. Dona Glória não era uma mulher naquele contexto, era uma capitalista. E o gerente do BB que me fez aprender serviço de funcionário sendo eu estagiário porque ele dizia que não iria ensinar nada para a colega do banco porque ela era mulher... que safado fdp!

 

Eu não posso escrever tudo o que pensei durante o dia. Não posso escrever muita coisa que penso, que sinto ultimamente, neste momento.

Nunca imaginei na minha vida, quando olho para trás, quando me vejo antes dos vinte, entre os vinte e os trinta, e até depois disso, mesmo tendo mudado como ser humano, nunca imaginei chegar aos 55 anos de idade.

Espero ter vivido dignamente a maior parte de minha existência, de ter feito coisas boas e de não ter feito merdas que tenham prejudicado pessoas. Se prejudiquei alguém, peço desculpas.

 

Sem pertencimento

Estou num momento de reflexão e de procura, algo muito pessoal, de muita solidão. Mas sou politizado e a consciência me ajuda hoje a seguir adiante. Tenho uma leitura pessimista do futuro da humanidade, mas não é algo determinista, que imobilize a ponto de deixar as coisas como estão.

O ser humano é um animal fantástico e poderia e pode mudar as coisas de uma hora para outra, se quiser e se realizar um conjunto de coisas. Educação pode mudar as pessoas e as pessoas mudarem o mundo. Como diz Paulo Freire, só se educa gente!

Minha mente está como um caleidoscópio de imagens e coisas. Eu poderia fazer muita coisa pela experiência que adquiri nesta caminhada de 55 anos de acasos e esforços. Poderia, mas percebi que o melhor que fiz, por acaso, foi ser sindicalista dos bancários. Me perdi depois disso.

Não sei se farei alguma coisa ainda. Mas estando por aqui, estou cuidando dos meus. E não fazendo mal a ninguém, espero.

william


domingo, 31 de março de 2024

Natais - 1972


Dilma Rousseff: mulher guerreira, lutou
para que os natais do povo fossem melhores.

Refeição Cultural

"Em 1970, Dilma foi presa e submetida a torturas em São Paulo (Oban e DOPS), no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. As torturas aplicadas foram o pau de arara, a palmatória, choques e socos, que causaram problemas em sua arcada dentária. No total, foi condenada a seis anos e um mês de prisão, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos. No entanto, conseguiu redução da pena junto ao Superior Tribunal Militar (STM) e saiu da prisão no final de 1972." (Site Memórias da Ditatura


31 DE MARÇO DE 2024

Nesta série de textos sobre os natais que fizeram parte de minha vida, e os contextos que fizeram parte daqueles natais, me deu vontade de citar a grande mulher brasileira Dilma Rousseff, tanto por ela ter sido uma mulher que enfrentou a violência do regime de exceção e do mundo machista naqueles primeiros anos de recrudescimento da ditadura brasileira, quanto por hoje ser um dia de rememorar essas lutas que fazem parte de nossa história brasileira. 

Não podemos jamais apagar a trágica história do golpe de Estado em 1964. Pelo contrário, temos que relembrar, cobrar punição aos golpistas e agentes do Estado que violentaram o povo e nossa democracia.

Nesses 60 anos do golpe, temos que dizer de maneira firme: - Ditadura nunca mais! Sem anistia para os golpistas do passado e do presente!

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Meus pais no início dos anos setenta.

NATAL DE 1972

Naquele Natal eu tinha uns três anos e nove meses e minha irmã um pouco mais. Não sei como foi o Natal da família. Não me lembro porque era muito novo. 

O que sei é que a gente morava no bairro Rio Pequeno, Butantã, região Oeste da Grande São Paulo.  

Uma coisa que era muito comum no verão, de dezembro a março, era chuva, muita chuva, e enchentes, muitas enchentes. Nossa rua tinha enchente constantemente por causa do córrego do Rio Pequeno, hoje canalizado em parte e conhecido como Avenida Politécnica, que vai até a Raposo Tavares. 

Talvez o Natal da gente tenha sido sob enchente, vai saber.

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TEMPOS DE VIOLÊNCIAS E GUERRAS

Os tempos eram tempos de violência. Imagino meus pais, pessoas simples, ao verem os noticiários naquele ano. 

No Brasil, a ditadura havia decidido eliminar qualquer grupo de pessoas que lutasse pela volta da democracia. A ordem naquele momento era executar os opositores ao regime. Vi dias atrás uma entrevista emocionante do José Genoino a Hildegard Angel falando sobre essa época.

OLIMPÍADAS DE MUNIQUE - Naqueles meses finais de 1972 o mundo havia acompanhado o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, no dia 5 de setembro. Palestinos do grupo Setembro Negro invadiram os aposentos da delegação israelense e o desfecho foi a morte de diversos atletas e treinadores. 

REGIME SIONISTA DE ISRAEL E A CAUSA PALESTINA - A questão árabe-palestina havia recrudescido desde 1967, quando o governo sionista de Israel atacou de surpresa Egito, Síria e Jordânia entre os dias 5 e 10 de junho (Guerra dos seis dias), conquistando de forma ilegal a Faixa de Gaza, a Península do Sinai, Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, matando milhares de árabes-palestinos e destruindo as forças militares daqueles países.

MÍDIA MANIPULADORA HÁ DÉCADAS - Se considerarmos a mídia canalha que temos hoje (2024), a mesma daquela época (os mesmos grupos), imaginem como as notícias chegavam para os meus pais e o povo brasileiro... neste momento de genocídio do povo palestino, com a Faixa de Gaza destruída e mais de 40 mil crianças, mulheres e civis palestinos mortos, não sai na imprensa empresarial uma linha contra Israel. 

Resumindo, faz mais de 50 anos que meus pais veem a mesma manipulação informativa por parte da imprensa canalha brasileira.

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ACIDENTE NOS ANDES - Outro evento que ficou conhecido no mundo em 1972 foi a queda na Cordilheira dos Andes do avião que levava jogadores de rugby do Chile. Semanas depois, alguns sobreviventes foram encontrados. Para sobreviver, tiveram que comer carne humana. 

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UNIR A FAMÍLIA - Neste 31 de março de 2024, vivo um momento de incerteza quanto ao Natal deste ano. Sinto que será difícil reunir nosso núcleo familiar mais próximo como fizemos nos últimos anos. Farei o que estiver ao meu alcance para que estejamos todos juntos nesta data de confraternização.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série, o ano de 1971, pode ser lido aqui. Para ler o texto seguinte, clicar aqui.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Natais - 1971



Refeição Cultural

Neste momento da história, início do ano de 2024, a sociedade humana vive os seus dilemas como deve ter vivido no início da década de setenta do século passado. 

Estamos cozinhando num mundo superaquecido e nossas crianças e adultos não olham mais para o horizonte, nem precisaríamos mais de visão ocular curvada para perceber o mundo ao redor. Hoje, bastaria uma visão plana para ver uma tela na frente do rosto. Com isso, você pode morrer atropelado mesmo sendo a pessoa mais atenta e cuidadosa do mundo. Mesmo que você olhe, outro não vai olhar e bum... Ninguém olha mais pra frente... até os cachorros vira-latas são mais espertos que boa parte dos humanos andando nos ambientes do mundo.

Se naquela época o mundo vivia sob uma abstração chamada "guerra fria", e o mundo polarizava duas formas de sociedades humanas se organizarem, através de modelos de Estado capitalistas ou socialistas, seja lá o que isso quisesse sugerir à época, hoje o capitalismo venceu o socialismo e temos alguns humanos de carne e osso com riquezas maiores que a soma das misérias de bilhões de humanos no planeta todo. Detalhe: isso é considerado "normal", é normalizado, isso não escandaliza meu vizinho, meu familiar e sequer altera a gana de alguém que se diz de "esquerda" para se engajar mais para mudar essa realidade da sociedade humana. É a minha impressão de observador.

As crianças de nossa sociedade ocidental (acho que no mundo todo) estão sendo aculturadas nos primeiros anos de vida a terem o desejo de serem youtubers ou "influenciadoras", seja lá o que isso queira dizer, e não mais cientistas, professoras, engenheiras, médicas, historiadoras. A ciência não parou de avançar em diversas áreas da sociedade humana. A tecnologia segue sendo alterada. Tudo está cada dia mais rápido no processamento, menor no tamanho, mais automático e instantâneo, e tudo tem contribuído para o ser humano se transformar em outra coisa, em relação às abstrações que nos fazem humanos. Não somos galinhas, jacarés, moscas, pombas, leões, gafanhotos por termos desenvolvido cérebros que nos transformaram em homo sapiens.

Tenho dúvida se seguiremos sendo sábios e se seguiremos existindo nas próximas décadas. Décadas mesmo! Não ousaria especular se estaremos no planeta daqui a alguns séculos, como estivemos séculos atrás.

Pelo que tenho lido e estudado, o ser humano está regredindo rapidamente em suas características mais definidoras daquilo que nos fez seres humanos ao longo da evolução de nossa espécie.

Não sou determinista nem acredito em hipotéticos futuros determinados e definidos. No entanto, toda mudança de rota precisa de um momento de virada de tendência. Ainda não vejo sinais de mudança no horizonte humano.

Teríamos que mudar muita coisa a partir de hoje. 

Quem está a fim de mudança da realidade política, social e econômica do mundo? No passado, tanto capitalismo quanto socialismo tinham visões de uso do planeta como se a natureza fosse inesgotável. Um sistema venceu, outro virou palavrão. Mas a forma de uso do planeta segue a mesma. Consumir até acabar.

É uma reflexão. Talvez tenhamos produzido em uma semana de festas e comemorações de fim de ano em 2023 mais lixo e destruição do que todo o ano de 1971, quando eu tinha meus dois aninhos e pouco de idade. Mesmo considerando as guerras de lá e as guerras de hoje.

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NATAL DE 1971

Como terá sido o Natal de nossa família? Eu não tenho a menor ideia também. 

Sei que o mundo recebia estarrecido as imagens da Guerra do Vietnã. Sei que a classe trabalhadora se fodia no Brasil. O regime autoritário era aliado da elite para enriquecê-la, sugando os recursos do Estado e do povo em benefício de poucos. 

A ditadura brasileira promovida pela elite vira-lata arrepiava pra cima das organizações de resistência e a regra desde o AI5 era sequestrar, torturar e assassinar a militância que lutava para recuperar a democracia no Brasil. 

Uma das vítimas da ditadura foi a nossa querida presidenta Dilma Rousseff. Nessa época, a jovem militante estava presa e sofria tortura... mas resistiu bravamente! Que mulher extraordinária! Ela seria no futuro presidenta do Brasil e sofreria novamente a violência de um país machista, misógino e antipovo.

O militante de esquerda e combatente contra a ditadura, Carlos Lamarca, foi pego pelo regime em uma emboscada em setembro daquele ano, foi fuzilado sem dó.

A imprensa empresarial, boa parte dela, lambia as botas dos milicos e falava mentiras contra a resistência democrática o tempo inteiro. 

Será que meus pais caíam na lorota dos meios de comunicação de massa? Avalio que o poder midiático das imagens e versões narrativas com efeito de "verdade" por parte dos meios televisivos e jornalísticos era muito forte, quase irresistível. Só quem tinha acesso a outras visões de mundo tinha chance de questionar os meios midiáticos do poder político e econômico do país.

Quando me tornei adulto soube que meu pai era brizolista, ufa! Bom sinal! Brizola e Lula eram lideranças da classe trabalhadora que enfrentavam a ditadura financiada pela elite vira-lata tupiniquim. Nosso metalúrgico sindicalista, Lula, iria trilhar uma história única nas décadas seguintes neste canto de mundo chamado Brasil.

Fiquei feliz ao saber que as duas vezes nas quais meu pai foi candidato a vereador, uma em São Paulo, quando era taxista, e outra em Uberlândia, quando era radialista, foram pelo PDT. Ao fuçar nos papéis velhos da família, vi os panfletinhos do Palmério. 

É isso! O Natal de 1971 talvez tenha sido em Uberlândia ou em Goiânia, pelo que pude especular com minha mãe. Na foto, vemos meu tio Jorge, eu no colo da vovó Cornélia, mamãe, e tia Alice com a Telma no colo. Pelo que minha mãe explicou, a cena se passa em MG.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui. O texto seguinte pode ser lido aqui.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Natais - 1970



Refeição Cultural

Passamos o Natal de 2023 em Uberlândia, Minas Gerais. Conseguimos repetir a reunião familiar do ano anterior, o Natal de 2022, o primeiro após o auge da pandemia mundial. 

Quase repetimos a reunião da ceia natalina anterior, "quase" porque meu cunhado passou com a família dele neste 2023 e nem sequer nos vimos. Mas tivemos também neste Natal familiares do marido de minha sobrinha. 

Os Natais em família vêm mudando ano a ano. Eu tenho consciência de que tudo muda, pois somos natureza e somos seres históricos. A história humana segue seu curso, seguimos fazendo história, percebamos ou não isso. A mudança é uma das certezas que temos no mundo natural. 

A cada reunião familiar, fica em alguns de nós uma sensação estranha de que talvez aquela confraternização tenha sido a última. Não sei se muitas pessoas têm sentido a mesma coisa, mas comigo tem sido assim. 

Apesar da consciência a respeito das mudanças constantes de tudo na vida e nos ambientes do mundo onde vivemos, algumas mudanças são resultado de transformações pelas quais os seres humanos estão passando e não são mudanças boas, na minha avaliação. Vejo com preocupação para onde vamos enquanto espécie humana.

Tenho elaborado reflexões aqui no blog sobre o risco que a sociedade humana enfrenta neste momento da história. 

Me pergunto se os seres humanos serão ainda passíveis de serem educados, e me pergunto também se seremos no próximo período seres sociáveis. Pode ser que nosso nível de alteração desde a tenra idade nos faça seres frios, insensíveis, autômatos como máquinas e sem as características essenciais dos seres humanos.

Enfim, eu me esforcei para contribuir para que tudo corresse bem neste Natal em família... nunca se sabe se teremos outro. Fiz o que esteve ao meu alcance para reunir as pessoas que amamos, para pôr juntas pessoas que não se dão mais como antigamente e coisas do tipo.

Entendo que o momento pelo qual passa a humanidade nos cobra um esforço consciente para reunir pessoas, uma boa vontade de cada um de nós para tentar restabelecer a comunhão entre as pessoas, a solidariedade, o perdão, a tolerância à alteridade, precisamos resgatar os laços humanos de amor e amizade.

Neste Natal, viajei de coração aberto, busquei energias positivas para o ato desafiador de viver num mundo em desfazimento, num mundo cuja agenda permanente pautada em nossas vidas humanas pelas mídias sociais é a aparência, os extremismos, os ódios e medos, os cancelamentos de pessoas, a guerra.

Em Uberlândia, busquei renascer em mim mesmo nos momentos nos quais estive sozinho no Parque do Sabiá, aquele paraíso. E também busquei a compreensão das coisas nas relações com as pessoas. 

Precisamos encontrar maneiras de unir pessoas em prol de agendas que foquem o bem comum, a paz interior e a paz nas relações sociais. Essa não é a agenda dos donos momentâneos do poder econômico... Mas deve ser a nossa, pessoas de boa vontade. 

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NATAL DE 1970

Como terá sido o nosso Natal de 1970? Onde será que estávamos, o nosso núcleo familiar? Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu?

Nas conversas com minha mãe, tentei especular essas coisas do passado, mas as memórias já vão ficando distantes e de difícil organização. Vendo fotos antigas, vi que os lugares eram diferentes do nosso lar.

Minha mãe me disse que quando era possível, a família viajava para a casa de alguns familiares. Goiás ou Minas Gerais eram destinos possíveis em um final de ano. Nós vivíamos em São Paulo à época.

Hoje, com a formação política e a experiência de vida que tenho, e sendo alguém que gosta de estudar a nossa história enquanto classe trabalhadora e povo brasileiro, consigo imaginar bem melhor a vida de meus pais e familiares nos anos sessenta, setenta e oitenta.

Para ilustrar o clima e o cenário nos quais meus pais viviam as nossas histórias, como estou fazendo nesta série, destaco alguns eventos que fizeram parte do contexto brasileiro e mundial naquele ano de 1970, que chegava ao fim no Natal e naqueles dias de Ano Novo.

No Brasil, a ditadura civil-militar estava num período muito violento para os dissidentes e adversários do regime de extrema-direita, bancado pela elite do país e pelos Estados Unidos da América.

COPA DO MUNDO DE FUTEBOL

O Brasil se tornou tricampeão de futebol no México, em junho. Pelé brilhou e a seleção da Copa de 1970 talvez tenha sido uma das melhores de todos os tempos (assim como a de 1982, imagino eu). Vencemos a Itália por 4x1 no Estádio Azteca, na Cidade do México. 

O regime ditatorial usou de todas as formas a conquista da seleção canarinho para fazer política favorável ao governo. Perguntei aos meus pais sobre a Copa do Mundo de 1970 e eles se lembraram daquela onda positiva no dia a dia do país.

MORREM JIMI HENDRIX E JANIS JOPLIN

Na postagem sobre o ano de 1969, falei sobre o evento cultural que marcou o mundo em agosto daquele ano, o Festival de Woodstock. O ano em que nasci... Hendrix e Joplin estavam no auge de suas carreiras no mundo do Rock and Roll.

Pois é! Eles morreram antes do Natal de 1970. Hendrix em setembro e Joplin em outubro, ambos com 27 anos de idade. Foram perdas terríveis para o rock mundial. Eu não sei se isso afetou meus pais proletários no Brasil. Talvez não.

Os Beatles também já não existiam mais naquele Natal, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos formalizou o fim do grupo naquele ano de 1970, após rompimentos internos desde 1969.

O SOCIALISTA SALVADOR ALLENDE É ELEITO NO CHILE

Só para finalizar a contextualização da véspera do Natal de nossa família e do Brasil e do mundo em 1970, nosso vizinho sul-americano, o Chile, terminava aquele ano com um presidente marxista eleito pelo povo numa eleição disputadíssima em setembro. Salvador Allende obteve 36,2% dos votos, à frente do candidato da direita com 34,9% e do terceiro colocado da democracia cristã com 27,8%. O congresso referendou o resultado e a América do Sul tinha naquele momento um presidente eleito defendendo o socialismo.

Provavelmente meus pais, como milhões de brasileiras e brasileiros, estavam focados em sobreviver diariamente na labuta de seus dias.

É isso! Aquele garotinho da foto que abre a postagem sou eu, ainda experimentando os momentos iniciais da vida naquele final da década de sessenta.

William


Post Scriptum: o capítulo anterior dessa série pode ser lido aqui. E o capítulo seguinte pode ser lido aqui.

Post Scriptum II: as informações sobre o ano de 1970 que incluí no texto foram pesquisadas na enciclopédia livre, Wikipedia.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Natais - 1969


Que bom ver meus pais sorrindo!


Refeição Cultural

Estamos em Uberlândia para passar o Natal com meus pais e familiares. Meu momento é de procura pela compreensão, de observação das coisas, devo me esforçar para sentir o instante com a intensidade que significa a fragilidade da vida. O que vejo ao meu redor é a fragilidade. Tudo é frágil e passível de se desfazer num piscar de olhos. Não é assim a própria vida?

As relações são frágeis. A casa é frágil. A natureza é frágil, apesar de sua força e potência. Todo mundo precisa de todo mundo e ainda assim somos feitos para nos sentirmos altamente livres de quaisquer relações com outras pessoas, outros seres, outras realidades. Pura mentira! Autoengano. O real e o imaginário se interligam e seguimos diariamente assim, com a falsa ideia de independência em um mundo cada dia mais interligado e dependente em tudo. Tudo! 

A natureza é nossa casa. A casa da gente é como a natureza. A casa ou a natureza tanto acolhe quanto oprime. Acolhimento e opressão são consequências de fatores interligados sem a nossa capacidade de intervenção - o acaso -, como também somos responsáveis por fazer da natureza e da nossa casa ambientes acolhedores e livres de opressão.

Neste momento do mundo, Natal de 2023, tenho algumas hipóteses sobre o comportamento humano em constante mudança. Me questiono sobre um possível amanhã refletindo a respeito de qual ser humano haverá no mundo. 

Seremos ainda animais passíveis de serem educados no sentido de sermos "homens e mulheres cultivados" (Mircea Eliade) com conhecimentos gerais? Seremos seres sociáveis num futuro próximo? No sentido de sermos seres coletivos e solidários com outras pessoas e espécies e preocupados com qualquer coisa externa a nós mesmos? E, por fim, seremos ainda seres que escrevem, que registram em signos linguísticos a nossa história do mundo e de nós mesmos? Ou seremos sociedades ágrafas, apostando a preservação de toda a nossa cultura e conhecimento em áudios e vídeos e nuvens de empresas capitalistas, as big techs?

Essas hipóteses são baseadas em observações e estudos que venho realizando nos últimos anos. Basta olhar ao meu redor, na cotidianidade de Osasco, de São Paulo ou de Uberlândia, do Brasil, do mundo que chega até mim, para ler a tendência do comportamento humano e do mundo dominado por esse animal.

A fragilidade das coisas me impressiona. Ao observar e compreender um pouquinho melhor o cotidiano das pessoas e da vida na sociedade atual, eu consigo substituir o ódio e a raiva que senti boa parte de minha vida por um sentimento de compaixão, amor e uma certa dor por sentir o quanto as pessoas estão sufocadas nos problemas cotidianos do viver, boa parte deles insolúveis por falta de um novo olhar para as coisas que importam na vida: a própria vida em coletividade, já que não somos nada sozinhos. 

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NATAL DE 1969

O Natal de 1969 foi o meu primeiro Natal na sociedade humana.  

Eu não tenho a menor ideia de como foi. Eu tinha mais ou menos uns 9 meses de idade. 

O que sei é que nasci pouco antes do famoso festival de Woodstock, ocorrido em agosto numa fazenda de gado em Bethel (NY), nos Estados Unidos. 

Não sei se meus pais curtiam aquele tipo de som com solos de guitarra de Jimi Hendrix e aquela voz incrível de Janis Joplin. Eu iria gostar de Rock e daqueles roqueiros e roqueiras quando crescesse...

Pelas fotos dos meus pais daquela época, sei ao menos que meu pai usava um cabelo com topete e talvez brilhantina e minha mãe usava aqueles cabelos mais ou menos curtos, penteados com escova e às vezes com laquê. 

O homem (espécie animal homo sapiens) havia pousado na Lua no mês de junho, imaginem só! Neil Armstrong saiu da Apollo 11, deu uns passos na Lua e acabou vendo que a Terra não é plana, é redonda (hoje tem gente ignorante suficientemente para duvidar até disso!). E aquela façanha espacial do ser humano foi transmitida pela TV ao vivo. 

Como será que meus pais receberam essa notícia? Difícil imaginar! 

Quero acreditar que em alguns momentos daquele ano de 1969, anos de chumbo aqui no Brasil, meus pais tiveram também momentos de alegria e descontração, como na foto que ilustra esta postagem.

O que sei é que tudo anda muito frágil no mundo de 2023, até na casa de meus pais, tudo anda como um castelo de cartas que pode se desmanchar a qualquer segundo com um esbarrão involuntário... 

O tempo vivido com as pessoas queridas e de nossas relações se torna cada dia mais importante e único. Carpe Diem! Aproveitem o seu dia!

Pensem nisso nesses dias de Natal. Eu estou pensando.

William

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Post Scriptum: o primeiro texto desta série de postagens, pode ser lido aqui. O capítulo seguinte pode ser lido aqui.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Natais - 1968


Natal de 2022, Uberlândia, MG.

Refeição Cultural

Para os cristãos o Natal é uma data na qual se comemora o nascimento de Jesus Cristo, filho de Deus. Mais que um simples nascimento, a data tem uma simbologia religiosa na qual Deus se fez presente no mundo humano, através de seu filho em carne e osso. 

Jesus, o filho de Deus, esteve entre nós por cerca de três décadas e suas mensagens foram de amor ao próximo, solidariedade ao se dividir o pão e de paz na terra. As elites da época não concordaram com ele e o crucificaram por isso. 

Foi numa comunidade com esse tipo de cultura religiosa que eu nasci em 1969. 

Ano passado, após ausências por causa da pandemia mundial de Covid-19, passei o Natal com meus pais, irmã, sobrinhos, esposa e filho, tia e primo e respectivos/as cônjuges.

Como Natal significa nascimento, no Natal de 2022 também houve uma expectativa na comunidade onde nasci, o Brasil, do nascimento de uma nova era, um período de mais esperança para o povo brasileiro por estarmos vivendo o fim de um período macabro do qual sobrevivemos ao genocida e miliciano que ocupou a presidência do país, e por estarmos começando um período que seria comandado por Lula e pela frente ampla que venceu as eleições. 

É sabido por todos, até pelos adversários minimamente honestos do presidente Lula, que o foco do governo ao longo do mandato de quatro anos será seguir algumas das mensagens que o filho de Deus pregou durante sua passagem pela Terra: amor e acolhimento ao próximo, solidariedade ao incluir o pobre no orçamento público e diminuir a desigualdade social, trazendo um pouco de paz nesta terra.

Estamos terminando o primeiro ano do governo Lula, um cristão daqueles que podemos dizer que faz de sua vida prática o critério da verdade. Lula correu o mundo pregando a paz entre os povos, a distribuição da riqueza produzida pelos seres humanos e a proteção aos biomas do planeta Terra. 

O risco de suas propostas serem desconsideradas pelas elites do mundo segue alto, como aconteceu com Jesus dois milênios atrás.

Sigo apoiando e torcendo pelo sucesso de nosso querido presidente Lula nesta tarefa de melhorar a vida dos pobres e despossuídos do Brasil e do mundo, pois sabemos que Lula é um legítimo cristão. 

Repito, sabemos que as elites vão tentar crucificá-lo por tentar dividir o pão (o orçamento público)... essa história é bem antiga... nós temos que estar alertas e preparados para defender pessoas como o presidente Lula, pessoas que defendem um mundo mais justo e solidário para todas as pessoas e seres vivos.

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NATAL DE 1968

Como terá sido o Natal de meus pais em 1968? 

Eu não sei. Eu estava no ventre de minha mãe, havia sido concebido mais ou menos em julho e nasceria no início de abril do ano seguinte. 

O que sei é que o Brasil passava por um momento duro de sua história política. Não havia democracia. 

O imperialismo financiava golpes em toda a América Latina. A ditadura civil-militar havia começado em 1º de abril de 1964, dia da mentira, e naquele mês do Natal de 1968 o regime ditatorial havia decretado o Ato Institucional nº 5 (AI5) e tudo seria pior para o povo trabalhador brasileiro. 

Meus pais e a pequena filha adotiva com pouco mais de 1 ano de idade faziam parte do povão que sofreria as consequências daquela desgraceira toda promovida pela elite tupiniquim com apoio dos Estados Unidos. 

Por lá, Martin Luther King havia sido assassinado a tiros em 4 de abril, na cidade de Memphis, Tennessee. King era uma liderança do movimento negro, pastor batista e um pacifista e defendia a igualdade de direitos entre todas as pessoas, independente de origem, etnia, gênero, crenças, visões de mundo.

Por aqui, os metalúrgicos de Contagem (MG) desafiaram patrões e ditadores e realizaram greve histórica. Em Osasco, na grande São Paulo, uma greve iniciada em julho na Cobrasma e depois expandida para outras fábricas enfrentou o regime fascista dos militares e endinheirados e deixou para a classe trabalhadora brasileira grande exemplo que cresceria mês após mês num movimento que daria origem ao Novo Sindicalismo.

Pensei na foto que tenho de minha mãe aos 22 anos com aquele barrigão de uns 6 a 7 meses de gestação. Seu olhar me passa a impressão de preocupação. Eram tempos duros para a classe trabalhadora brasileira.

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Começo aqui uma nova série de postagens no blog. Imaginar e relembrar os natais que vivi e que vivemos neste mundo mundo vasto mundo.

William


Post Scriptum: o capítulo seguinte desta série pode ser lido aqui.


sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Lembranças - Capítulo 10



Refeição Cultural

Osasco, 8 de setembro de 2023. Sexta-feira (19h40)


MEU PAI

Neste momento no qual escrevo, não sei onde meu pai está. Durante o dia, estaria na estrada. Ontem, meu pai saiu de casa e foi parar em Goiás, onde viu dois irmãos. Hoje, seus planos eram ir para o Mato Grosso, para a cidade onde reside um cunhado e família.

Se fosse possível um diálogo com meu pai, eu gostaria de procurar com ele onde ou quando foi que as relações com a família se tornaram tão difíceis. Os tempos são tempos nos quais o diálogo está se tornando algo quase impossível entre as pessoas. Em geral, na maioria dos casos, as pessoas não estão mais abertas ao diálogo. Só se for para o outro dizer amém.

Ao longo da vida, e dos autores que tive a oportunidade de ler, aprendi que não é possível sabermos a dor dos outros. A dor de alguém é algo indescritível e de uma intensidade que só a pessoa que sofre sabe o que está passando. Só essa questão já é suficiente para nos fazer respeitar a dor dos outros. Eu sei que meu pai padece de dores há anos. Dores físicas e sobretudo dores da alma. E isso talvez tenha feito meu pai ir se tornando a pessoa que é hoje.

Ao acordar nesta manhã, e ver uma mensagem no celular para ligar para os meus familiares para saber notícias, talvez notícias de meu pai, acabei inventando algum preparo para receber notícias ruins, preparo que não existe. Fui primeiro enfiar a cabeça embaixo do chuveiro por alguns minutos. Depois liguei e felizmente eram só atualizações sobre o dia de ontem.

Enquanto meu corpo sentia a água morna do chuveiro cair sobre mim, uma das coisas que pensei foi a respeito de algum tipo de morte idealizada, menos sofrida. Ninguém gosta de pensar sobre aquele dia que todos enfrentarão, o dia de nossa morte. No entanto, se houvesse algum tipo de previsão ou planejamento para esse dia de nosso fim, evidente que seria melhor partir sem sofrer, num lugar confortável, com alguém que nos ama por perto, sem dores, frio, sozinho etc. 

E fiquei muito triste ao pensar até como hipótese em alguém que amamos partir sofrendo sozinho. Acho um risco um homem com mais de oitenta anos dirigindo sozinho o dia todo pelas estradas brasileiras. Meu pai é um cara teimoso, não ouve mais ninguém. Isso dificulta muito as relações e a forma de cuidar dele. O sentimento de impotência que tenho sentido em relação a não conseguir dar sequer opiniões talvez racionais às pessoas é algo que aperta o coração da gente.

Quando pensei no dia de nosso fim, da morte que chegará para todos nós, foi por saber que pessoas se colocam em situações desnecessárias de risco, às vezes. E, às vezes, as pessoas morrem por isso. E aprendi que a vida é uma oportunidade.

Não desejo uma má morte nem para meus desafetos nem para os inimigos de nossa classe trabalhadora. Se eu fosse Light Yagami (Kira), do clássico anime Death Note, daria um destino final sem dor e rápido para todas as pessoas marcadas para morrer.

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SOMOS FRUTOS DO MEIO SOCIAL NO QUAL VIVEMOS

Tenho refletido sobre a vida e sobre o nosso mundo, algo que fiz menos do que gostaria ao longo da vida, durante o período de lutas sindicais meu foco era cem por cento a luta de classes, era um soldado das causas que representava e encarava isso como uma guerra, uma batalha de vida ou morte. Sou assim. Quando me entrego a uma causa, me entrego de corpo e alma.

Hoje, compreendo muito melhor diversas etapas de minha vida, atos e fatos ocorridos em meu percurso existencial e ao meu redor. Ao longo dos anos de estudo sobre o Brasil e sobre o povo brasileiro fui vendo como um filme minha gente dentro dos acontecimentos do tempo e da história. Fui compreendendo a minha origem, a de minha família, a do povo brasileiro.

Meus pais, seus pais e irmãos, e depois as dezenas de primos e primas, e nossos filhos, somos todos tipos comuns do povo brasileiro. Brasileiros. Somos frutos desta terra e isso não é qualquer coisa. Somos brancos e mestiços de origem nas classes subalternas do país, gente que se virou como milhões de iguais para sobreviver e conseguir seu lugar ao sol.

Qualquer branco ou mestiço de minha família poderia tranquilamente ser personagem do clássico conto machadiano "Pai contra mãe", todos nós poderíamos ser Candido Neves ou Clara... 

Aliás, minha gente poderia ser qualquer dos tipos construídos por nossos grandes escritores na tentativa de entender o Brasil e o povo brasileiro: digo os personagens que não eram os senhores donos de tudo. Seríamos os agregados, os não proprietários, os que foram sobrevivendo de bico por aí. (hoje, alguns dos que se ajeitaram na vida foram pescados pela balela da meritocracia)

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CEM ANOS DE SOLIDÃO

O que sei é que ao longo de nossas vidas, enfrentamos momentos duros juntos, meus pais e eu, meu pai e minha mãe. As memórias que guardamos são formadas das mais diversas formas, algumas sem a menor explicação ou coerência lógica. A vida vai nos deixando na memória lembranças boas e ruins do nosso viver.

Tenho boas e más lembranças da minha relação com meus pais, com os familiares mais próximos, com pessoas que marcaram a minha vida para sempre. 

Fico tão triste ao ver no que nos transformamos nos últimos anos, pessoas intolerantes, egocêntricas e rápidas em romper relações de toda uma vida por não aceitarmos conviver com a diversidade de ideias e visões de mundo. Vivemos uma solidão do tamanho dos "cem anos de solidão", do García Márquez.

Me lembro de uma imagem de um livro de Inglês na qual uma mulher olhava a esmo, sozinha numa mesinha ao redor de diversas mesas cheias de gente. O título para a imagem era "alone in the crowd". Nunca me esqueci disso. Me parece que aquela imagem e aquele conceito encaixaram-se na minha vida.

Quem não se sente sozinho muitas vezes ou algumas vezes, mesmo cercado de pessoas, que atire a primeira pedra. Ao olhar a vida para trás, vou avaliando algumas vezes nas quais me lembro de ter sentido uma solidão do tamanho do mundo. Felizmente, fui vivendo e cheguei até aqui, superando até os momentos nos quais não queria mais nada. Não tenho receio em dizer sempre que sou um homem de sorte.

Me lembro de ter discutido com meu pai quando fui embora da casa de meus pais aos dezessete anos. Tenho quase certeza de que o responsável por tudo naquela época fui eu, eu era a fúria. 

Me lembro de quando cumprimentei meu pai com um beijo após ter me tornado aluno de uma graduação de Educação Física em Mogi das Cruzes. Assim que vi um jovem servindo o exército cumprimentar o nosso professor na porta da sala de aula achei aquilo impactante. A cena me fez dar um beijo no meu pai. Já tinha uns dez anos que eu havia ido embora de casa.

Me lembro dos perrengues que passamos juntos, meu pai e eu, quando meu pai precisava de assistência médica e não tinha. Uma vez, em São Paulo, fomos atrás de uma internação para meu pai tratar dos rins e tivemos até que ir à imprensa para denunciar que meu pai não conseguia ser atendido com dores insuportáveis nos rins. 

Me lembro que passei anos tendo plano de saúde por ser funcionário de banco público sem querer usar o plano porque eu não achava justo ter atendimento e meus pais não terem. Uma vez, fiquei tão mal em casa que achei que iria morrer e só consegui me levantar da cama uns três dias depois. Nunca soube o que tive. Não usei o plano de saúde.

Me lembro dos meus pais correndo pra cima e pra baixo pra buscar atendimento médico para meus sobrinhos pequenos. Meus pais são humildes e pessoas simples, mas como a maioria dos pais, viram bichos quando estão sendo injustiçados por não conseguirem o que deveriam ter como direito: atendimento médico.

Me lembro de muita coisa. Tenho fuçado muito em minhas memórias...

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Espero que meu pai chegue aonde esteja indo. Espero que ele esteja bem.

Já são quase dez horas da noite e ainda não temos notícias do pai andando por aí pelas estradas brasileiras.

William


Post Scriptum: por volta de meia-noite, consegui a informação de que meu pai chegou ao destino pretendido, à casa de meus tios. Para aumentar a tristeza do dia, soube que meu tio, que tem enfrentado uma doença grave, teve uma piora em sua condição nos últimos dias. Estamos na torcida por sua melhora.

Post Scriptum II: o texto anterior sobre minhas "Lembranças" pode ser lido aqui.


terça-feira, 30 de agosto de 2022

Pai, parabéns pelos seus 80 anos! Saúde e paz!



Feliz aniversário, pai!

Hoje pela manhã fiquei olhando fotos de meu pai ao longo de décadas de vida neste nosso Brasilzão miserável e lascado desde sua invasão pelos bárbaros do Norte. 

Os brancos europeus chegaram chegando por aqui. Mataram os povos daqui, estupraram as mulheres, trouxeram escravizados povos da África. Fomos nascendo por séculos miscigenados, filhos e filhas de mulheres subjugadas por homens machistas e brutalizados pelo meio. Povo brasileiro!

Meu pai completa hoje 80 anos de idade. Não é qualquer coisa viver aqui por 8 décadas nessa terra miserável onde poucos mandam em tudo, onde uma elite má e vil subjuga milhões de homens, mulheres e crianças como se todos nós fôssemos propriedades de suas fazendas-cidades, fazendas disfarçadas de cidade, mas com um coronel que manda até hoje em tudo.

Não terá festa nem reunião de família e amigos para celebrarmos esse feito de meu pai de sobreviver 80 anos no Brasil. Estamos todos meio que afastados pelo que nos tornamos, pelo que nos tornaram. Vítimas do embrutecimento que experimentamos forçadamente. Após escrever, vou ligar pro meu pai e parabenizá-lo e agradecer por tudo que vivemos juntos até aqui. Sobrevivemos... 

(já brigamos juntos para meu pai ter atendimento médico, o pai já teve infarto, AVC... sobrevivemos)

Meu pai é de uma família de poucos recursos, meu pai e minha mãe. Foram vivendo como milhões de brasileiros das classes subalternas. Sobreviveram aos anos 40 e 50. Veio o golpe militar e a ditadura por mais de duas décadas. No conluio dos ricos com os militares, o povão se lascou por décadas.

Meus pais se casaram em 1964. Minha mãe não conseguia ter filhos como eles gostariam. A Telma chegou em 1967 e eu em 1969. Crescemos em São Paulo na década de 70. E mudamos para Minas Gerais na década de 80. A vida seguiu difícil. Ditadura militar que só fodia com os pobres. Depois os anos difíceis de Sarney e Collor etc. 

Dos anos 90 adiante tivemos o neoliberalismo dos fernandos e depois nos anos dois mil tivemos os melhores anos da vida do povo brasileiro, o povão trabalhador e pobre, os anos de governos do Partido dos Trabalhadores, os anos de Lula melhorando a vida do povão como nós. 

(como disse Lula no debate para uma candidata: o porteiro, a empregada e o motorista dela viram a vida melhorar durante os governos do PT)

Pois é, em 2016 veio o golpe de Estado que nos fez voltar ao passado, numa terra pior do que tudo que nós com mais de 50 anos conhecíamos até agora, só sabíamos da história de miséria e maldade contra o povo ao estudar a história do Brasil. E agora é só miséria desde que colocaram a máfia no poder com o presidente vampiro traidor e depois a milícia que está lá agora.

Todos nós, todos mesmo, somos sobreviventes nessa terra dominada por gente má e vil ao longo de séculos. A casa-grande e seus capitães do mato e seus ideólogos fizeram dessa terra um lugar duro de se viver. Somos sobreviventes... meu pai é um sobrevivente... eu sou um sobrevivente. E sobrevivendo nessa terra, endurecemos.

As relações familiares e entre as pessoas em geral não são mais as mesmas. Estamos todos muito difíceis para nos relacionarmos com as outras pessoas. E com isso nos afastamos das pessoas que mais amamos e dos familiares, dos amigos e conhecidos. E temos que ter humildade e coragem para desfazer toda essa distância e isolamento. 

Tenho refletido sobre isso. Ao observar e estudar o que o capitalismo, as ferramentas tecnológicas da atualidade e as redes sociais fizeram com os seres humanos, tenho clareza de que todos nós somos vítimas desses sistemas que nos tornaram de difícil convivência uns com os outros. Temos que resistir a isso. Temos que nos reunir e reaproximar uns dos outros.


Pai, feliz aniversário! Agradeço por tudo que foi possível o senhor fazer por nós ao longo dessas oito décadas de vida, seis décadas de sua vida dedicadas e vividas com a mãe, comigo e a Telma, com o Victor e a Stefani, com a Ione, o Mário e a Olga, e com as pessoas mais próximas da família.

Saúde e paciência, pai! E paz em seu coração!

Um abraço do filho que está longe fisicamente, mas que está à disposição para o que o senhor precisar.

William


sábado, 4 de setembro de 2021

040921 - Diário e reflexões


Filhos de Palmério e Dirce num momento feliz.

Refeição Cultural

Sábado, 4 de setembro. Segundo ano da pandemia mundial de coronavírus. Quinto ano do golpe de Estado no Brasil. Terceiro ano do regime militar-bolsonarista.

PANDEMIA

A infecção pelo vírus Sars-Cov-2 não é uma gripezinha. Até o momento, já foram infectados no mundo 220 milhões de pessoas, e morreram 4,6 milhões de pessoas. Aqui onde vivemos, o país jabuticaba, morreram 582.670 pessoas, e foram infectadas 20,9 milhões de vítimas. (Johns Hopkins University)

Não há cura para a infecção pelo coronavírus, mas há vacinas. Estudos diversos demonstram que a infecção pelo vírus deixa sequelas em mais de 1/4 das vítimas, que podem passar a ser doentes crônicos. 

A ampla maioria dos vacinados no mundo e no Brasil são os ricos, são os brancos (a distribuição das vacinas é para os países desenvolvidos e nos não desenvolvidos a distribuição é desproporcional, é para segmentos privilegiados). Os mortos são em sua imensa maioria os mais vulneráveis da sociedade humana: pobres e descendentes de povos africanos ou originários em terras colonizadas pelos europeus. Não estamos no mesmo barco... estamos no mesmo mar, alguns de iates e transatlânticos e a maioria em jangadas improvisadas e boiando sem nada.

ANIVERSÁRIOS SOLITÁRIOS

Minha mãe completa hoje 75 anos de vida. Uma vida brasileira, de uma mulher brasileira da base da pirâmide social. Mãe, meus parabéns pelo seu aniversário e desejo que a senhora esteja bem, na medida do possível para os dias que correm, e que continue conosco por muito tempo. Te amo.

Meu pai completou 79 anos de vida no dia 30 de agosto. Uma vida brasileira, de um homem brasileiro da base da pirâmide social. Dei os parabéns ao meu pai também desejando a ele que esteja bem na medida do possível nesses tempos. Te amo pai.

Neste sábado, que seria dia de festas e reunião com as pessoas que amamos, meus pais estão sozinhos em casa. Não haverá festa, não haverá reunião de família. Segue o amor incondicional que sentimos uns pelos outros. 

Minha mãe faz 75 anos e não teremos abraços e confraternização presencial...

Se já não bastassem as duas datas importantes na semana para mim e para nossa família, amanhã, domingo, dia 5 de setembro, é a data de casamento de meus pais. Eles se casaram em 5/9/1964, ou seja, completam 57 anos de casados. E não haverá reunião nem confraternização nenhuma.

Eu fico me perguntando se sou um idiota, se sou um cuzão ou algo parecido por seguir até hoje respeitando as recomendações da ciência em relação à pandemia. Desde que essa peste começou, nunca mais fui ver meus pais, irmã e sobrinhos. Nunca tive medo de morrer. Nunca. Mas temo pela morte das pessoas que amo. Essa abstração "amor" é uma das diversas abstrações do cérebro humano. Se importar com os outros...

Compartilhei com minha irmã e com meu filho e esposa minha angústia por não estar hoje na casa de meus pais e por deixá-los sozinhos nestas datas. Eles me confortaram e disseram que estamos fazendo o correto em não nos unirmos neste momento lá. Pior seria irmos lá, alguém morrer de Covid e depois ficarmos com o peso na consciência para sempre... Sei lá!

Estamos num fim de semana de feriado prolongado. Milhões de pessoas no Brasil estão aglomerando neste exato momento em que escrevo. O sol está forte, as praias estão lotadas, os parques idem, as pessoas estão enchendo a cara, bebendo o que podem e o que não deveriam porque a bebida alcoólica está fodendo a vida e a SAÚDE das pessoas mais que qualquer outra droga chamada de "ilícita", ou seja, droga que não foi definida pelos governos para pagar impostos. Cigarros e álcool, que matam milhões por ano, são drogas "lícitas" e tá liberado geral. Dane-se a saúde do usuário e a saúde da coletividade. 

A pessoa fuma um baseado de maconha e fica alegre ou sonolento. A pessoa ingere bebida alcoólica, fode fígado, rins e diversos sistemas a longo prazo e fica bêbada em algumas horas e causa mortes e acidentes irreversíveis e tudo bem. É uma hipocrisia desgraçada essa sociedade humana!

QUASE TODO MUNDO AGLOMERA (JOGO DE DADOS E PROBABILIDADES)

Estamos num mundo conectado pelas redes sociais e pela internet e redes de comunicação. Em minutos de pesquisas e visualização, vemos que praticamente todas as pessoas que conhecemos, que são nossos contatos, já se reuniram com seus familiares e amigos queridos nesse período de pandemia. 

Os especialistas das áreas que lidam com a ciência e a pandemia explicam os riscos de aglomeração, mesmo estando vacinada parte das pessoas, mesmo usando máscaras, porque as cepas atuais são mais contagiosas pelo ar e ao comerem e beberem juntos (sem máscara, óbvio), multiplica-se exponencialmente o risco de transmissão do vírus. E talvez, agravamento, e talvez morte da pessoa querida. Tudo são cálculos de risco, estatísticas e probabilidades...

É provável que eu e algumas pessoas como eu sejamos uns cuzões em não se encontrarem com as pessoas amadas. Também não estou acusando quem se reúne e aglomera, cada um cada um. Jogo de dados e probabilidades...

Afinal, pode ser que eu e ou as pessoas que amamos morram num segundo qualquer de qualquer coisa, afinal somos tão frágeis como animais, um coração que para, uma artéria ou veia que estoura ou entope, um câncer que nos emperre o funcionamento normal dos sistemas corpóreos. Um vírus de Covid pego mesmo com todos os cuidados que recomendam. Que dirá morrer de um tiro, uma pancada, um acidente qualquer.

RESPONSABILIDADE SOCIAL E COLETIVA 

Eu tive a oportunidade de conhecer pessoas e espaços que me transformaram politicamente. O meio me fez ser o que sou. O mundo do trabalho, o familiar e o estudantil. Meu aculturamento me fez ser o que sou. A consciência política do animal humano que sou hoje me faz ser assim.

Eu poderia ser um troglodita bolsonarista, qualquer um poderia ser um direitista no Brasil porque os ambientes em que vivemos nesta terra escravagista são propícios a isso. Acabei não sendo por acaso um direitista: veredas. 

Me tornei uma pessoa de esquerda. Isso me dá uma responsabilidade social que não tinha até uns vinte e poucos anos.

Chega de reflexões neste registro diário. Feliz aniversário, mãe! Aglomerem-se aqueles que quiserem. No Brasil, não sabemos sequer o que vai acontecer daqui a três dias...

William