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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Livro: Poemas - T. S. Eliot



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


O livro Poemas, de 1920, é o segundo livro de T. S. Eliot. Estou lendo uma bela e bem-acabada edição da Companhia das Letras, organizada, traduzida e com posfácio do professor Caetano W. Galindo.

Registro o mesmo sentimento que tive ao ler o primeiro livro dele Prufrock e outras observações, de 1917: não é uma poética de fácil compreensão para mim, prefiro outros autores. Mas estou firme na leitura. 

Deste livro o poema que mais gostei foi "Lune de Miel" (comentário aqui).

T. S. Eliot é contemporâneo de James Joyce. Deve ser por isso que os versos sem muito sentido para mim sejam meio doidos como algumas passagens de Ulysses, de Joyce, também traduzido por Galindo (comentário aqui).

Meu desejo é conhecer mais autores e suas poéticas. É reduzir minhas lacunas culturais. 

O próximo livro de Thomas Stearns Eliot é um dos mais aclamados da crítica: A terra devastada, de 1922. Vamos ver se os poemas me agradam mais.

Eu tenho um compromisso com a sinceridade e a honestidade na produção de meus textos aqui no blog. Por isso sou sincero em dizer como foi a leitura de autores e suas obras. 

Enfim, mais um livro lido neste início de ano.

William 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Leitura de poesia (50) - Gerontion, T. S. Eliot



GERONTION - T. S. ELIOT


     Thou hast nor youth nor age

But as it were an after dinner sleep

Dreaming of both


Eis-me aqui, um velho num mês seco,

Um menino lê em voz alta, espero a chuva.

(...)


Depois de tal saber, qual perdão? Pense agora

Que a história abunda em passagens ardilosas, corredores engenhosos

E saídas, ilude em sussurrantes ambições,

Nos guia por vaidades. Pense agora

Que ela dá quando nos vemos distraídos

E o que dá, dá com tão amplas confusões

Que dar mata de fome o desejo. Dá tarde demais

O em que não se crê mais, ou caso ainda,

Somente na memória, paixão repensada. Dá cedo demais

A mãos fracas, o que se pensa ser supérfluo

Até que recusar propaga um medo. Pense

Que medo nem coragem salvam. Perversos vícios

São cria de nosso heroísmo. Virtudes

Nos são impostas por nossos impudentes crimes.

Tais lágrimas colhem-se da árvore que dá fúria.

(...)


Versos do Poema "Gerontion" de 1920

Tradução de Caetano W. Galindo.

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COMENTÁRIO:

Ao ler este poema, fiquei pensando no acontecimento no dia de hoje nos Estados Unidos: a posse de Trump e aquela corja de gente no evento, com direito a saudação nazista e tudo.

É interessante reproduzir a nota de Galindo sobre este poema:

"Thou hast nor youth nor age: O título grego do poema significa 'velhinho'. A epígrafe shakespeariana vem de Medida por medida (ato III, cena I). Na cena um personagem diz a outro que a morte é consequência natural de uma vida que é por definição passageira. 'Tu não tens juventude nem idade,/ Mas como se fosse mera sesta depois da refeição/ Sonhando com essas duas coisas.'" (p. 370)

-

"Depois de tal saber, qual perdão? Pense agora

Que a história abunda em passagens ardilosas, corredores engenhosos"


Pois é, a história abunda de passagens ardilosas...

Estamos vendo o repeteco da história e suas passagens ardilosas com o que vem se passando com os Estados Unidos e com o mundo prestes a conhecer o resultado por sermos guiados por vaidades... E sabendo como foi a história, como perdoar?


"Guides us by vanities."

Aquele ajuntamento de feras humanas no evento de hoje me parece ter relação com a epígrafe shakespeariana do poema:

"Tu não tens juventude nem idade,/ Mas como se fosse mera sesta depois da refeição/ Sonhando com essas duas coisas."


Guiados por vaidades... Que cena dantesca: o velho irado, os donos das big techs, o manipulador nazista...

Estejamos preparados...

William


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (10) - Tia Helen, T. S. Eliot



TIA HELEN - T. S. ELIOT


A srta. Helen Slingsby, minha tia solteirona,

Tinha uma casa pequenina, quase em área elegante,

Mantida por criados que somavam quatro.

Agora, quando ela morreu, ficou calado o céu,

E seu canto da rua, calado.

Cortinas fechadas, o papa-defunto limpou seu calçado -

Sabia bem que coisa assim já houvera antes.

Aos cães deixou legados abundantes,

Mas logo após morreu também seu papagaio.

O relógio da lareira ainda batia no consolo,

E o lacaio sentou sobre a mesa da sala

Tendo a segunda criada no colo -

Ela, tão ciosa quando em vida da patroa.


Poema de 1917

Tradução: 

Caetano W. Galindo.

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COMENTÁRIO:

Adorei o final do poema (risos). Viva a classe trabalhadora!


No original também é legal:

"The Dresden clock continued ticking on the mantelpiece,

And the footman sat upon the dining-table

Holding the second housemaid on his knees - 

Who had always been so careful while her mistress lived."


(Ha ha ha!) Maravilha!


William Mendes


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (3) - Prelúdios, T. S. Eliot



PRELÚDIOS - T. S. ELIOT

I

O entardecer de inverno se acomoda, 

Cheiro de bife que entre as casas passa.

Seis da tarde. 

As pontas desses dias de fumaça. 

E agora a chuva repentina inunda

A escória imunda 

Das folhas murchas postas aos teus pés 

E dos jornais do terreno baldio;

A chuva cai mofina

Em persianas rotas, chaminés, 

E preso a um coche logo ali na esquina, 

Ferve um cavalo inquieto no frio.


E logo cada poste se ilumina.

(...)


Poema de 1917

Tradução:

Caetano W. Galindo

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COMENTÁRIO:

Eliot é mais uma de minhas lacunas culturais. A lista de autores dos quais nunca li nada é enorme. Confesso com humildade. 

Após ler os primeiros poemas de seu primeiro livro "Prufrock e outras observações", de 1917, escolhi postar a parte I do poema "Prelúdios". É a que mais gostei até agora. 

Seu poema mais famoso é "A terra devastada", de 1922.

Ao ler algumas páginas do excelente "Posfácio" feito por Galindo fiquei perplexo com as curiosidades da vida do autor, que foi um bancário e depois editor.

T. S. Eliot foi contemporâneo a Ezra Pound, Virginia Woolf, James Joyce e outras celebridades do mundo das artes e cultura de sua época. 

Ele ganhou o Nobel de Literatura. Eliot nasceu nos Estados Unidos e desenvolveu boa parte de sua carreira na Inglaterra. 

É isso. Contatei nesses três primeiros dias de leitura de poesia poetas que não havia lido ainda: Jorge Luis Borges, Maiakóvski e T. S. Eliot. 

Vamos ver o que invento para amanhã. 

William Mendes


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


terça-feira, 14 de maio de 2024

Leituras Capitais - S.O.S.



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1310

Osasco, 14 de maio de 2024. Terça-feira.


S.O.S.

O subtítulo da matéria de capa já anuncia a que ponto falimentar chegamos na sociedade humana.

"Na tragédia gaúcha, agravada pelo aquecimento global, o Brasil solidário e consciente se digladia com a parcela negacionista, inconsequente e velhaca"

A reportagem está se referindo aos fdp que estão atuando para piorar a situação de centenas de milhares de vítimas das inundações no Rio Grande do Sul, produzindo e divulgando mentiras em escala industrial (chamadas de fake news) para prejudicar os trabalhos de salvamento e recuperação de 90% das cidades do Estado atingido pela violência climática (consequência da destruição do mundo pelo capitalismo).

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A IMPUNIDADE dos mentirosos é o maior incentivo para se continuar a inventar mentiras! Além dos gabinetes do ódio dos bolsonaristas e extremistas da direita, a imprensa comercial dos barões, velha e canalha, produz mentiras nos jornais e revistas e TVs e rádios e nada acontece a ninguém... Em algumas situações e contextos sociais, na minha opinião, produção proposital de mentiras deveria ser tratada como traição em guerra, com pena capital. Estamos em guerra! Só não vê quem não lê o mundo e só não fala quem acha melhor ficar na moita e se fazer de neutro.

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É tanta merda que dá até preguiça de comentar. Prefeitos e parlamentares canalhas (todos de partidos de direita e extrema-direita) utilizando o tempo para lacrar em redes sociais, uns fdp mesmo, tempo que seria necessário a salvar vidas e agir para minorar as consequências da tragédia climática anunciada pela ciência há tempos. Tragédia agravada por causa dos neoliberais hipócritas que mudaram as leis de proteção ambiental e que não fizeram investimentos e manutenção em sistemas de contenção que existem há décadas para suportar momentos de grande volume de chuvas. A tragédia tem culpados! A tragédia deve ser politizada porque poderia ser evitada!

E o pior para quem estuda História é que sabemos que situações de miséria e carência não geram consciência política, nunca gerou consciência de classe. Pelo contrário, sem educação e formação política, a tendência é haver movimentos oportunistas à direita, povo sofrendo e sem educação e cultura é povo à mercê de canalhas aproveitadores da fé das pessoas e políticos extremistas pregando fascismo e autoritarismo. E, infelizmente, educação libertadora e formação política são coisas que nossos governos Lula e Dilma perderam a oportunidade de fazer durante os mandatos do Partido dos Trabalhadores desde 2003. Concordo com Frei Betto nessa leitura.

Não seria hora de acordar e começar a politizar a classe trabalhadora? Somos seres históricos, sempre é tempo de mudar. Não existe um futuro pré-determinado, o futuro é uma construção do hoje, construção humana. Podem inventar as explicações mitológicas que quiserem, mas o amanhã bom ou ruim depende do que fizermos ou não fizermos hoje.

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A EDIÇÃO 1310 E SUAS EXCELENTES MATÉRIAS E ARTIGOS

A leitura de uma edição completa da revista CartaCapital é uma oportunidade que seu leitor(a) tem de se atualizar sobre temas diversos e relevantes ocorridos no Brasil e no mundo. A partir dessas informações, é possível formar opinião ou gerar curiosidade de aprofundamento na questão de interesse.

Intelecção - Meu caso de leitor da revista, por exemplo. Ao ler toda a revista consigo ter uma compreensão melhor do mundo da forma como ele é, as coisas todas estão imbricadas umas nas outras, tudo é causa e consequência das decisões que tomamos diariamente enquanto sociedade humana. As matérias das seções "Seu país", "Economia", "Nosso Mundo" e "Plural" se interligam inevitavelmente.

CAPITALISMO, ESTADO MÍNIMO E O EFEITO BORBOLETA

A matéria de capa sobre as consequências das inundações e violências climáticas (p. 16) está conectada com a matéria sobre a privatização dos serviços funerários na cidade de São Paulo (p. 37), sob gestão de neoliberais de merda. Com o foco no lucro de alguns e prejuízo de todos é o povo que se ferra, sempre!

Quando serviços públicos que interferem diretamente na vida de toda a coletividade passam para a mão de algum fdp que vai focar no lucro com aquilo, é óbvio que na outra ponta estão as pessoas, os milhares e milhões de usuários dos serviços ruins das "empresas" de alguns sujeitos que estão em paraísos na terra, cercados de luxo, longe das consequências da falta de Estado na vida de toda a cidadania. 

É o caso dos donos da Enel em São Paulo (que se danem as pessoas sem luz por vários dias!). Será o caso dos futuros donos da Sabesp (que se danem as pessoas sem água...). É o caso dos donos dos serviços funerários na capital paulista. É o caso dos donos das empresas públicas privatizadas no Rio Grande do Sul.

Essa gente que defende ausência de Estado no capitalismo é um misto de pessoas que não têm educação libertadora e formação política porque não tiveram oportunidade (não associam causa e consequência das coisas) com pessoas que estão no topo da hierarquia do poder econômico e político e que não concordam com sociedades igualitárias e mais justas para todas as pessoas. Defendem o privilégio, o privado, privar todos em benefício de alguns...

O caso do Rio Grande do Sul e o povo brasileiro daquela região é um exemplo típico do cenário mundial. Não fosse Lula o presidente do Brasil neste momento, a situação daquelas irmãs e irmãos estaria muito pior do que já está. 

E tem mais: os negacionistas e mentirosos que se aproveitam do caos para lacrar e monetizar suas contas em redes sociais são passageiros em tragédias como essas. O que aconteceu no RS mudou a vida de centenas de milhares de pessoas para sempre. Daqui alguns dias, a comoção nacional vai diminuir, e se não houver ESTADO, órgãos públicos, recursos públicos, agências dos CORREIOS, BANCOS PÚBLICOS, SUS, as pessoas não terão como recomeçar suas vidas. 

Não é o capitalismo neoliberal que vai recuperar a vida de toda a gente do Rio Grande do Sul. É o Estado, é o público, o coletivo, é a solidariedade da coisa pública. Não é o privilégio que salva o povo.

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A ERA DAS CATÁSTROFES - Aldo Fornazieri (p. 21)

"A degradação ambiental, que provoca morte entrópica do planeta, é resultado de uma concepção de mundo, de formas de conhecimento científico, social e religioso com que a humanidade construiu um mundo no qual se destrói a natureza e mantém bilhões de indivíduos na pobreza. O parâmetro principal da medida de todas as coisas não é a vida ou o bem-estar, mas o lucro rápido."

O artigo de Fornazieri é esclarecedor, ele fala sobre a tese do Antropoceno, uma era na qual o ser humano tornou-se a força impulsionadora da degradação ambiental e catalisadora das condições para a catástrofe ecológica.

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MORDOMO DO RENTISMO

Na seção de economia, a matéria sobre o bolsonarista Campos Neto, colocado no Banco Central para bloquear os avanços na economia do país sob gestão de eventual governo progressista (como o de Lula), me deixa pensando muito sobre o que é e o que não é crime... Qual o tamanho da consequência negativa das decisões desse sujeito em manter juros altíssimos (em favor dos bilionários rentistas) na vida de milhões de pessoas comuns em nosso país?

Como medir todo o mal que um sujeito pode fazer ao povo de uma comunidade humana? Um sujeito com o poder de bloquear o crescimento do emprego e renda de mais de uma centena de milhão de pessoas? Na minha opinião, opinião de quem estudou economia por muito tempo, o comando do Banco Central é desastroso, enviesado, e claramente focado no privilégio de alguns em prejuízo de milhões de pessoas.

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IDEOLOGIAS DE CANALHAS

Duas matérias desta edição dão bons exemplos sobre canalhices criadas a soldo, ideólogos que criam teses e ideias para justificar os interesses e os privilégios dos donos do poder em detrimento das massas humanas exploradas.

Na matéria "Traquinagens econométricas", assinada pelo professor Belluzzo e por Nathan Caixeta (p. 43), assino embaixo o que eles denunciam sobre um tal Instituto Fiscal Independente (IFI) e um de seus ideólogos que justificam a importância de um "superávit primário estrutural" e blá blá blá com um objetivo final de dizer que expansão fiscal é uma merda e que austeridade fiscal é a salvação da humanidade... (que nos diga a respeito o povo do Sul, o que pensam os desabrigados sobre isso?)

Na outra matéria "Falsificação histórica", de Will Hutton, à página 54 da seção "Nosso Mundo", vemos outra tentativa de ideólogos, no caso ideóloga (e negra), de negar o peso da escravidão para o sucesso da acumulação capitalista do império inglês ao longo de séculos, séculos de exploração e usurpação de um quarto do planeta Terra. Canalhice... os tempos são de negacionismo, de imposição de pós-verdades por parte dos donos do poder.

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CULTURA

Na última vez que consegui ler uma edição completa de CartaCapital (ver aqui), acabei sendo instado a ler "Ricardo III" de Shakespeare por causa de uma matéria da revista.

Agora, fiquei curiosíssimo com a matéria sobre Caetano Galindo, professor da Universidade Federal do Paraná, autor de dois livros abordados na matéria que chamam a atenção dos amantes da leitura.

Eu gostei muito da versão do Ulisses, de James Joyce, traduzida por Galindo (comentário aqui). Achei o texto diferente em relação à tradução do Houaiss, que já havia lido. Óbvio que o leitor era outro também, duas décadas depois. 

A matéria de Luis Capagnoli, uma entrevista, me instigou tanto que talvez até vá à Feira do Livro em São Paulo neste ano, coisa que não costumo fazer. Galindo será uma das atrações.

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É isso!

A leitura de mais uma edição de CartaCapital me fez pensar e me trouxe de forma organizada um conjunto de informações sobre a atualidade. Valeu a pena a leitura.

Abraços e recomendo o jornalismo da equipe liderada por Mino Carta.

William Mendes


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A alucinação de Ulisses - Joseph Strick



Refeição Cultural

O filme de Joseph Strick - A alucinação de Ulisses (1967) é uma adaptação para o cinema do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Gostei demais do filme por ver na tela o resultado do esforço de Strick em ser fiel à obra.

Li o livro de Joyce pela primeira vez em 2002, numa tradução de Antônio Houaiss. Foi uma façanha e tanto para mim à época. Reli o clássico neste ano pandêmico, agora na versão traduzida por Caetano Galindo. Minha compreensão da obra foi bem melhor desta vez, talvez por ser duas décadas mais vivido que antes.

Ao assistir ao filme, eu não esperava uma adaptação tão esforçada em ser fiel ao livro. Em geral, diretores e roteiristas fazem versões bem diferentes do texto original.

Gostei das interpretações de Milo O'Shea como Leopold Bloom, Barbara Jefford como Molly Bloom e Maurice Roeves como Stephen Dedalus.

O filme é rodado em preto e branco. As imagens e cenários nos transportam para o cenário da Dublin de Bloom e Joyce nos anos vinte. Me identifiquei com o filme desde o primeiro minuto ao ver a cena da torre que abre a estória.

Depois vemos diversas cenas muito legais. Para quem leu a obra a identificação é imediata. O enterro de Dignam, as cenas na praia - tanto do monólogo de Dedalus no início, quanto de Bloom e a menina "coxa" no final do dia -, "coxa" como diz o personagem e nosso Brás Cubas (a respeito de Eugênia).

E o fechamento com o monólogo de Molly Bloom: é demais!

Adorei o filme! Filme para rever!

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RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM (1977)

A adaptação para o cinema do romance sobre o jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce, livro lançado em 1916, anterior ao romance Ulysses, também foi bem fiel à obra. Gostei.

Rodado na Irlanda, o filme nos leva ao cenário descrito por Joyce. 

A cena da palmatória no jovem Dedalus nos revolta, uma violência absurda enquanto regra educacional e mais absurda ainda por ser aplicada de forma injusta ao garoto por causa de seus óculos quebrados, razão para não fazer as lições e com autorização do professor em sala de aula. Mesmo assim, foi punido pelo carrasco...

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Praticamente completei meu percurso com James Joyce. Não pretendo ler Finnegans Wake. Tenho muita coisa na frente para ler e acho que não volto ao escritor para essa tentativa de leitura, até porque sei que a obra é maluca demais para essa fase que estou de leituras na vida. 

Os filmes foram verdadeiros achados (em casa!) porque os comprei faz muito tempo e nem me lembrava direito que tinha filmes baseados na obra de Joyce.

Enfim, seguimos lendo e vendo adaptações para o cinema e televisão de clássicos literários.

William


1. Postagem final sobre a leitura de Ulysses, na tradução de Galindo. Clique aqui.

2. Postagem sobre a leitura de Retrato do artista quando jovem. Clique aqui.

3. Postagem sobre a leitura do Ulisses, na tradução de Houaiss. Clique aqui.


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Ulysses - Penélope (A Cama)



Refeição Cultural

"(...) aí ele não ia acreditar no outro dia que a gente não fez alguma coisa marido tudo bem mas amante não dá pra enganar depois de eu dizer pra ele que a gente não faz mais nada claro que ele não acreditou..." (p. 1052)


Quinta-feira, 30 de setembro. Segundo ano da pandemia mundial de Covid. 

Terminei a releitura de Ulysses (1922), do escritor irlandês James Joyce. Essa experiência foi feita numa edição publicada em 2012, traduzida por Caetano W. Galindo. Foi presente do amigo Sérgio Gouveia.

A primeira vez que li este clássico da literatura mundial foi em 2001. Desta vez, a leitura foi bem melhor, aproveitei mais cada capítulo do livro. Mas foi cansativo, confesso. Foram 5 meses! Comecei a ler a obra dia 1º de maio, dia dos obreiros (rsrs). Não terminei a leitura pedindo mais. Terminei com um sentimento de missão cumprida.

PENÉLOPE (A CAMA) - CAPÍTULO 18

O último capítulo é demais, é um feito na história da literatura de todos os tempos. Setenta páginas em fluxo de pensamento, sem pontuação, a transcrição de uma pessoa pensando livremente madrugada afora, Marion Bloom, Molly. 

Por ser um monólogo interior, não tem censuras. E então lemos as coisas mais surpreendentes, escandalosas, livres que poderíamos imaginar em páginas de um livro de literatura.

Ler hoje é surpreendente, então imagino ler os pensamentos de Molly em 1922. Não à toa, há registros da época de queima de volumes do livro em alguns lugares do mundo.

"(...) ia ser muito melhor pro mundo ser governado pelas mulheres do mundo você não ia ver as mulheres saírem se matando e chacinando quando é que a gente vê uma mulher rolando por aí de bêbada que nem eles fazem ou jogando a última moedinha que têm e perdendo nos cavalos sim porque uma mulher não importa o que ela faça ela sabe quando parar claro que eles nem iam estar no mundo se não fosse a gente eles não sabem o que é ser mulher e ser mãe e como é que eles iam saber onde é que eles iam estar todos se não tivessem todos eles uma mãe pra cuidar deles..." (p. 1099)

Além de ser uma personagem livre em todos os seus atos e pensamentos, Molly pensa nas grandes questões de gênero que já se discutiam e que seriam bandeiras importantes nas lutas das causas das mulheres e dos movimentos libertários e progressistas.

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COMENTÁRIO FINAL

Essa releitura foi muito interessante. Por mais que tenhamos alguma lembrança de uma leitura feita duas décadas antes, a leitura de Ulysses foi praticamente uma leitura nova. O leitor de 52 anos é absolutamente outro leitor que aquele de 32 anos.

A tradução de Caetano W. Galindo também é muito diferente da tradução do Antônio Houaiss, edição que li na primeira vez. São diferentes, não me cabe dizer que uma é melhor que a outra.

Outro salto de qualidade nesta leitura foi aproveitar a oportunidade para ler em versos a obra referência do Ulysses de Joyce, a Odisseia de Homero. Li a tradução ("transcriação" segundo Campos) do maranhense Manuel Odorico Mendes, numa edição especial do professor Antonio Medina.

Também reli contos de Dublinenses (1914) e finalmente li Retrato do artista quando jovem (1916), a obra que introduz o personagem Stephen Dedalus, ainda jovem. Muitos críticos consideram tanto Dedalus quanto Bloom alter egos de Joyce.

SEGUIMOS LENDO OS CLÁSSICOS

Enfim, mais um clássico lido durante esta pandemia mundial de Covid. Li alguns clássicos exigentes neste ano e meio: ao Ulysses, de Joyce, somam-se: Decamerão (1353), de Boccaccio; Moby Dick (1851), de Herman Melville; O processo (1925), de Franz Kafka; e Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert.

Com o mundo como está, afirmo e reafirmo com muita convicção o pensamento de Italo Calvino: é melhor ler do que não ler os clássicos.

William

Um leitor


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sábado, 25 de setembro de 2021

250921 - Diário e reflexões


Vivi muitas histórias aqui na Letras-FFLCH.


Refeição Cultural

Sábado, 25 de setembro.

Que tenho a registrar nesta página de blog?

LITERATURA

Estou terminando a releitura do clássico Ulysses (1922), de James Joyce. Li a obra pela primeira vez duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. A leitura foi difícil. Comecei diversas vezes e recomecei a leitura por não entender nada. Desta vez, estou relendo uma edição traduzida por Caetano W. Galindo, presente do amigo Sérgio Gouveia. Cheguei ao último capítulo, o monólogo interior de Molly Bloom. Agora meu entendimento da obra foi bem melhor. 

De novidade, li também o livro sobre o personagem Stephen Dedalus, Retrato do artista quando jovem (1916), publicado antes de Ulysses. Quando terminar a leitura, vou ver os dois filmes que tenho em casa e considero que minha missão com James Joyce estará concluída. Não pretendo ler Finnegans Wake (1939). O livro de contos de estreia do autor irlandês - Dublinenses (1914) -, já li várias vezes alguns dos contos.

Vi hoje uma entrevista muito esclarecedora com o professor Caetano Galindo, tradutor da edição que estou lendo. Ele fala sobre Joyce e Shakespeare. Muito interessante!

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LETRAS NA FFLCH-USP

Após vinte anos, vai chegando ao fim a minha relação formal com a Universidade de São Paulo. Entrei na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas no vestibular de 2000 e comecei o curso de bacharel em Português e Espanhol em 2001. Quando entrei minha vida era uma, meu projeto era ser professor, mas "no meio do caminho tinha uma pedra..." e de repente as veredas do grande sertão vida me levaram para outros destinos. Virei dirigente sindical no ano seguinte e a prioridade em minha agenda passou a ser as lutas dos trabalhadores. 

Após uma década tentando fazer as matérias obrigatórias, achei que havia concluído os créditos necessários ao bacharelado nas duas disciplinas. Fui trabalhar em Brasília. Voltei para São Paulo em 2018 e fui pedir minha colação de grau e meu diploma. Descobri que faltava fazer uma matéria obrigatória na grade curricular de minha época e precisei retornar ao curso e fazer mais dois anos de matérias pela grade atual e, quase quarenta créditos depois, concluí o percurso e me parece que agora chegou a hora de colar grau e pegar o diploma de bacharel para guardar em casa.

Confesso que ao perceber nesta semana o fim de meu cadastro nos sistemas da USP fiquei meio deprimido, senti um vazio dentro de mim, algo estranho. Acho que sempre senti um amor profundo pela Universidade, queria ser professor lá. A vida caminhou diferente. É isso. Vou sentir falta de ser "da USP".

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TODO CAMBIA (TUDO MUDA)

Andei refletindo a respeito de mudanças. Como nos lembra Mercedes Sosa: "Todo cambia". As veredas de minha vida me exigiram muitas mudanças e isso deve ter influenciado quem sou e o que sou porque somos hoje o resultado de todo o percurso que já fizemos.

Mudei de São Paulo aos 10 anos. Depois mudei de Minas Gerais aos 17 anos. Até os 30 anos de idade, precisei mudar do local onde vivia quase todo ano (contei na memória 10 mudanças!). Isso me fez sofrer muito. Morei em cada lugar... 

Ter que sair de um lugar logo que se adapta a ele é foda! E alguns lugares eram terríveis, tanto que tenho uma relação ruim com baratas por isso. Dia desses, ouvi a excelente entrevista do Mano Brown com Lula. Mano Brown, eu sei o que é morar num quintal com um monte de casas e um banheirinho em comum... é foda!

A mudança para Brasília por 4 anos foi uma situação difícil para minha família. As pessoas acabam tendo que viver a vida dos outros e as consequências vêm. A volta para São Paulo foi difícil também por causa do contexto no qual as coisas se deram. Três anos depois, ainda não consegui me ver livre dessa mudança inacabada. Juntou um monte de coisas. Para dar algum conforto aos que sofreram por minha causa, acabei deixando coisas inacabadas. 

Para tornar as coisas mais difíceis, vieram as mudanças radicais no nosso mundo, o golpe de Estado, a ascensão do Mal, a destruição de tudo.

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Fim das reflexões. Preciso providenciar a papelada pedida pela USP para concluir essa relação de amor que tive com a nossa querida FFLCH. Saio da Universidade aos 52 anos de idade, mas acho que a Universidade nunca vai sair de mim. Tenho muito amor pela USP, pela FFLCH, pelas Letras e pela educação.

William


Ulysses - Ítaca (A Casa), parte II



Refeição Cultural

"O que continha a primeira gaveta destrancada?

(...) dois preservativos de borracha parcialmente desenrolados com espaço para emissão, adquiridos pelo correio na Caixa 32, C.P., Charing Cross, London, W.C. (...) 2 cartões fotográficos eróticos que mostravam: a) coito bucal entre señorita nua (vista de costas, posição superior) e torero nu (visto de frente, posição inferior): b) violação anal por figura religiosa do sexo masculino (integralmente vestido, olhar abjetado) de figura religiosa do sexo feminino (parcialmente vestida, olhos diretos), adquiridos por correio na Caixa 32, C.P., Charing Cross, Londres, W.C." (p. 1016)


Vencidas as cem páginas do capítulo 17 de Ulysses, de James Joyce. Agora faltam os fluxos de consciência de Molly Bloom, naquela madrugada de 17 de junho de 1904.

Imaginem como foi para os leitores e comunidades a recepção de Ulysses na Irlanda, na Inglaterra e nas demais partes do mundo no ano de 1922 ao lermos acima essa pequena amostra do conteúdo da obra. Interessante, não é?

Após o fim da leitura do capítulo "Ítaca" nesta manhã de sábado, vi na internet uma entrevista muito esclarecedora do professor Caetano W. Galindo, tradutor desta versão que estou lendo. Ele fala sobre James Joyce e William Shakespeare e as explicações de Galindo são imperdíveis para os amantes de literatura e dos dois autores comentados.

Apesar do cansaço que me deu neste momento de proximidade do fim da leitura, uma obra como essa vale a pena ler, vale sim. Também acho interessante e válido buscar informações a respeito da repercussão da obra ao longo do tempo. As grandes obras literárias se incorporam às culturas das sociedades humanas.

Ulysses tem uma história de leitura com a comunidade internacional após 1922 assim como O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha a tem após 1605. Idem para Moby Dick após 1851, assim como Decameron após 1353. Para mim, leitor, é um privilégio ter tido a oportunidade na vida de ler tais clássicos.

Joyce concentrou em Ulysses muitas informações do mundo, da Irlanda, da literatura de Shakespeare e da literatura clássica; e mais: religião, política, imperialismo, capitalismo, linguagem, psicologia e comportamento humano, sociedade.

UM DIA NA VIDA DE UM TRABALHADOR


A contabilidade de Bloom nos mostra um pouco a respeito do personagem e do próprio cotidiano dos cidadãos dublinenses. O que comem, como se comportam, como funciona a sociedade em que vivem.

O dia do publicitário Bloom teve contato com a morte no enterro do Dignam, e teve contato com a vida, quando passou pela maternidade do hospital; conhecemos as preferências alimentares dele; vimos que ele se banha em locais públicos; e percebe-se que o dinheiro que tem é contado, os trabalhadores vivem no limite do ter e não ter dinheiro. Vimos isso no começo da obra, quando Stephen Dedalus e amigos contaram as moedas no bolso para saber como passariam o dia.

Outro momento interessante do capítulo foi quando vimos a descrição dos livros constantes na estante de Bloom, entre eles livros de Shakespeare, Spinosa e A. Conan Doyle (p. 998). Bloom poderia ser considerado um "homem cultivado" como diz Eliade, pois tem livros de Astronomia, Geometria, Geografia, História, Psicologia, Filosofia etc.

O capítulo tem de tudo. Do nobre e sagrado ao profano e tosco. Por exemplo: Enquanto mijam na grama, Bloom e Dedalus observam uma estrela cadente (p. 992).

Enfim, agora vamos para o fechamento com Molly Bloom.

William


Post Scriptum: a postagem anterior pode ser vista aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sábado, 14 de agosto de 2021

Ulysses - Sereias (A sala de concertos)



Refeição Cultural

Retomei a leitura de Ulysses, de James Joyce, na tradução de Caetano W. Galindo. Hoje li o capítulo 11, foram 50 páginas.

A leitura foi difícil, mais que a de outros capítulos. O pessoal está bebendo num local e cantando. Joyce nos faz perceber o quanto é complicado entender tudo que pessoas bebendo falam. As palavras ficam pela metade, as frases não se concluem etc.

Cenas literárias

BLOOM PUBLICITÁRIO

Bloom, que é publicitário, observa um cartaz na porta de entrada do ambiente, uma propaganda de marca de cigarro:

"(...) o sábio Bloom olhava na porta um cartaz, sereia estirada fumando onde as ondas são belas. Fume Sereia, a mais refrescante tragada." (p. 440)

ALITERAÇÕES

"O calvo Pat que é mouco mitrava os guardanapos. Pat é um garçom ruim das oiças. Pat é um garçom que só serve para servir. Rii rii rii rii. Ele serve para servir. Rii rii. Um servo só serve. Rii rii rii rii. Ele só serve para servir. Serve para servir como um serve que serve. Rii rii rii rii. Ro! Servir como um servo." P. 464)

OUVIR O BARULHO DO MAR NAS CONCHAS

Eu já tive uma concha gigante e vivia ouvindo o barulho do mar dentro dela, ao colocar o ouvido.

"Bloom pela porta do bar viu uma concha segurada em seus ouvidos. Ouviu mais vagamente o que ouviam elas, cada uma por si própria só, e então cada uma pela outra, ouvindo o marulho das ondas, alto, um rugido silente." (p. 464)

COM O FILHO MORTO, ÚLTIMO VARÃO DE SUA RAÇA

"Eu também, último da minha raça. Milly estudante. Bom, culpa minha quem sabe. Sem filho. Rudy. Tarde demais agora. Mas e se não? Senão? Se ainda?" (p. 469)

BLOOM AVALIA SE...

"Uma puta rançosa com um chapéu de marinheiro de palha preta enviesado vinha lustrosa dia afora cais adentro na direção do senhor Bloom. Quando primeiro viu aquela forma encantadora. É, é ela. Estou tão só. Noite úmida na alameda. Duro. Quem estava? Unzurro. Aí ó. Fora da jurisprudência dela por aqui. O que é que ela? Espero que ela. Psst! Por acaso precisa de roupa lavada. Conhecia a Molly. Me derrubou. A senhora cheinha que estava com você com a roupa marrom. Te pega no contrapé. Aquele encontro que a gente marcou. Sabendo que nós nunca, bem, quase nunca. Perto demais do meu caro demais o meu lar doce lar. Está me vendo, ou não? Feia de dar medo à luz do dia. Rosto de patê. Dane-se! Ah, bom, ela tem que viver que nem todo mundo. Olhar aqui pra dentro." (p. 476)

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Havia parado a releitura do Ulysses porque a ideia era ler junto com o meu amigo que me presenteou a edição traduzida por Galindo. Como meu amigo não vai conseguir ler agora e eu já havia lido bastante, vou até o fim do clássico.

A sugestão de ler o principal clássico de Joyce foi muito produtiva para mim. Por causa da releitura, acabei lendo Odisseia em versos, na tradução de Odorico Mendes, e li também Retrato do artista quando jovem (1916), o livro anterior a este e que retrata o personagem Stephen Dedalus na infância e adolescência.

É isso. Seguimos lendo e dando algum sentido à vida neste momento tão sem sentido da história humana. O homem está acabando com a possibilidade de vidas no planeta e não me parece que algo vá deter isso.

William



Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Retrato do artista quando jovem, James Joyce



Refeição Cultural

De maneiras distintas, planejadas ou por acaso, as leituras diárias de livros seguem acontecendo em minha vida, felizmente. Terminei a leitura de Retrato do artista quando jovem (1916), do escritor irlandês James Joyce.

Este livro não estava em meus planos de leitura atual. A edição que tenho estava lá, quietinha na estante, comprada em um sebo por 7 reais há muito tempo. Aí um amigo me convidou para lermos juntos Ulisses (1922). Eu havia lido esse clássico duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. Topei reler o clássico joyceano. (Houaiss adotou o nome com "i" e Galindo com "y")

Meu amigo Sérgio Gouveia me deu de presente a bela edição de Ulysses, traduzida por Caetano Galindo. Começamos a ler a obra, mas como usa acontecer na leitura por prazer, às vezes as questões do cotidiano de vida nos pegam pelo caminho e não conseguimos seguir na leitura. Comigo já aconteceu isso dezenas de vezes.

Meu amigo não está conseguindo se dedicar no momento à leitura do Ulysses e com isso vou avaliar se sigo adiante ou não. Já li mais de 400 páginas da edição e provavelmente vou terminar a leitura.

Da releitura de Ulysses (uma leitura gera outras), reli alguns contos de Dublinenses (1914) e acabei pegando o livro que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, personagem no Ulysses de Joyce que representa Telêmaco, filho do herói Ulisses, da Odisseia de Homero, obra referência para o clássico joyceano. Leopold Bloom e Molly Bloom completam o trio moderno na reinterpretação da odisseia grega.

STEPHEN DEDALUS, ALTER EGO DE JOYCE

"- Olha aqui, Cranly - disse ele. - Tu me perguntaste o que eu faria e o que eu não faria. Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza." (p. 244)

Aí está uma coisa que realmente Joyce decidiu fazer na vida e fez: exprimiu-se de modo tão inovador e tão livremente em relação à arte literária que produziu romances com técnicas e linguagens que marcaram a literatura mundial a partir dos anos vinte do século passado.

Como disse no início da postagem, seja de forma planejada ou por acaso, da sugestão de releitura do Ulysses, acabei lendo a Odisseia em versos. Da Odisseia, li 3 clássicos gregos - Prometeu Acorrentado, Édipo Rei e Antígona. E finalmente conheci o romance - Retrato do artista quando jovem - que apresenta o jovem Dedalus, uma espécie de alter ego do próprio autor.

Seguimos lendo e buscando na cultura alguma satisfação nesse momento existencial de tanta tragédia como vivemos no Brasil, destruído por um golpe de Estado em 2016, golpe tão devastador ou mais que os efeitos da pandemia mundial de Covid. Após Temer e Bolsonaro, é como se o país tivesse sido queimado e jogado sal para que nada mais voltasse a germinar um dia. 

Espero que possamos recomeçar após a passagem desse mal no Brasil, mal causado pelo capitalismo e pelo imperialismo, mal que destruiu o nosso mundo, matou o nosso povo e tirou de nós as condições de nos refazermos para o futuro.

William



Post Scriptum (30/10/21): assisti ontem ao filme Retrato do artista quando jovem (1977), de Joseph Strick, uma adaptação ao livro de Joyce. Enfim, começo a ler e ver as diversas obras adquiridas décadas atrás e guardadas em casa. A adaptação do diretor foi bem fiel ao livro, não foi uma daquelas adaptações psicodélicas que alguns diretores fazem de obras clássicas. Novamente, causou revolta as cenas de violência contra alunos por parte do sistema educacional: ajoelhar no meio da sala, espancar as crianças com palmatória etc. Outra coisa que me chamou atenção são as cenas de pregações de religiosos aterrorizando fiéis a respeito dos pecados, dos mandos de deus e dos martírios eternos do inferno. Que foda isso! Eu me lembro perfeitamente disso em minha infância e adolescência como jovem que acreditava nessas abstrações humanas. E pensar que isso move o mundo e as sociedades desde que o homo sapiens é homo sapiens...


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.

domingo, 18 de julho de 2021

Ulysses - Rochedos Errantes (As Ruas)



Refeição Cultural

" O senhor Dedalus ficou reto e puxou de novo o bigode.
   - O senhor arrumou algum dinheiro? Dilly perguntou.
   - Onde é que eu ia arrumar dinheiro? o senhor Dedalus disse. Não tem um cristão em Dublin que me empreste quatro pence.
   - O senhor arrumou, disse Dilly, olhando em seus olhos.
   - Como é que você sabe? o senhor Dedalus perguntou, sarcástico.
   O senhor Kernan, satisfeito com o pedido que conseguira, caminhava cheio de si pela Jame's Street.
   - Eu sei que arrumou, Dilly respondeu. O senhor estava no Scotch?
   - Mas não estava mesmo, o senhor Dedalus disse, sorrindo. Será que foram as freirinhas que te ensinaram a ser tão impertinente? Toma.
   Ele lhe entregou um xelim.
   - Vê o que você consegue fazer com isso, ele disse.
   - Eu acho que o senhor arrumou cinco, Dilly disse. Dê mais do que isso...
". (p. 406)


A filha tenta de toda forma conseguir alguns tostões com o pai para terem o que comer em casa. O pai gasta o que tem no boteco, mas se nega a dar dinheiro pra família. Essa é uma cena comum nos enredos das narrativas de James Joyce.

Mais adiante dessa cena acima, Stephen Dedalus encontra a irmã na rua e ao falarem sobre livros, ficamos sabendo que até os livros são penhorados para se conseguir algum dinheiro (p. 413). Miséria. Miséria.

Já no início do romance, a questão do dinheiro é muito marcante nas cenas do dia: pela manhã, com Stephen Dedalus e Buck Mulligan, quando contam os centavos no bolso para tomar um drink no fim do dia. Depois, quando Dedalus recebe seu parco salário de professor.

É o capitalismo em seu reino de origem, o Reino Unido. O capitalismo da metrópole Inglaterra, que subjuga os irlandeses. Miséria. Miséria.

Hoje li o capítulo 10 de Ulysses, na tradução de Caetano W. Galindo. No quadro explicativo do romance, feito por Joyce, a relação do capítulo é com os "Rochedos Errantes" na Odisseia de Homero. Essa parte do dia se passa nas ruas, o horário é o das três horas da tarde. O símbolo do capítulo é "Cidadãos" e a técnica é "Labirinto".

Gostei do capítulo! Ele é todo dividido em cenas de pessoas nas ruas, abordando o ponto de vista delas. Em uma cena um personagem anda, conversa, pensa em fluxo de consciência. Depois entra em cena outro personagem. Mais outro. E assim vai. Eles dialogam entre si. No final, quando membros da elite circulam pelas ruas, apresenta-se todos olhando para o conde de Dudley e sua senhora. Desde o garoto cego (que percebe o burburinho) até os personagens principais.

Ao ler ontem um capítulo do Retrato do artista quando jovem, cujo personagem principal é o jovem Stephen Dedalus, uma espécie de alter ego de Joyce, vemos o quão marcantes são os problemas sociais oriundos da miséria advinda com o capitalismo e dos preconceitos e crendices das religiões - católicos e protestantes. 

Fico inconformado com isso. Que desgraça essas abstrações humanas - capitalismo, dinheiro, deuses - que destroem qualquer possibilidade de alcançarmos uma sociedade justa, solidária e sustentável ao longo dos séculos. Estamos fadados ao fim da vida no planeta Terra. Isso me parece o caminho natural das coisas: o fim.

Como o fim não é instantâneo, seguimos vivos por hoje. ainda temos o sol neste domingo em Osasco. Parte de nós ainda tem comida e recursos para as necessidades básicas (a maioria não tem). Estamos todos doentes e alguns não têm sequer noção disso (alienação). Estamos expostos além do necessário por causa da forma como os humanos decidiram organizar a sociedade.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Retrato do artista quando jovem - James Joyce



Refeição Cultural

"   - Podem voltar para os seus lugares, vocês dois.

     Fleming e Stephen ergueram-se, encaminhando-se para os seus bancos, e se sentaram. Stephen, rubro de vergonha, abriu correndo um livro com a mão fraca e se inclinou sobre ele, a face bem perto da página.

     Era injusto e cruel, porque o médico lhe havia dito para não ler sem os óculos! E ele já escrevera para casa, aquela manhã mesmo, para que lhe mandassem um outro par. E o Pe. Arnall tinha dito que ele não precisava estudar até que os novos vidros chegassem. Portanto, ter sido chamado de fingido diante da classe, e ter apanhado de palmatória quando sempre tirava o cartão de primeiro ou de segundo e era o chefe dos Iorkistas! Como podia o prefeito dos estudos saber que era patranha? Tinha sentido os dedos do prefeito tocarem-no quando apresentara a mão; até cuidara que lhe ia apertar as mãos num cumprimento, pois os dedos do prefeito estavam macios e firmes; mas depois, logo depois, tinha ouvido o zunido da manga da batina e a pancada. Fora crueldade, e não fora nada bonito fazê-lo ajoelhar no meio da classe, depois; e o Pe. Arnall dissera a ambos que podiam voltar para os seus lugares, sem fazer nenhuma distinção entre eles..." (JOYCE, 1987, p. 62/63)


A cena descreve o jovem Stephen Dedalus sendo castigado com a palmatória no colégio sem ter feito nada de errado. Ao castigarem outro garoto aproveitaram para castigar ele também, por escolha aleatória, porque estava sem óculos durante uma lição em sala de aula. Antes dessa cena, lemos outra descrevendo o açoite dos garotos com palmatória. É nojento e cruel saber que isso era a norma nas escolas de outras épocas.

Stephen Dedalus é uma espécie de alter ego de James Joyce, que enfrentou sérios problemas de visão em sua vida. Neste primeiro capítulo do livro, também vemos discussões entre irmãos (tios) na família de Stephen por causa de diferenças religiosas entre católicos e protestantes, algo muito presente na vida dos irlandeses.

Ao terminar a leitura dessa obra de Joyce, terei completado a trilogia dele mais significativa, na minha opinião. Já li diversas vezes os contos de Dublinenses (1914) e estou relendo o grande clássico Ulysses (1922), o qual havia lido duas décadas atrás. A experiência da leitura é outra, tanto porque sou outro quanto porque as traduções são diferentes, primeiro li a de Houaiss e agora leio a de Galindo. Retrato do artista quando jovem é intermediário aos dois, lançado em 1916. A tradução é de José Geraldo Vieira.

Estou terminando a leitura em versos da Odisseia, de Homero, obra referência de Joyce para a odisseia de Leopold Bloom por Dublin, em Ulysses. Stephen Dedalus, personagem que leio no Retrato, é o mesmo Dedalus da epopeia joyceana pela Dublin do dia 16 de junho de 1904.

É isso, seguimos lendo e buscando conhecimento e cultura para que suportemos com resiliência o Mal e tenhamos resistência para viver, mesmo que tristes, por causa da realidade que enfrentamos no Brasil pós golpe da casa-grande e pós predomínio da banalidade do mal com o bolsonarismo e a destruição do Estado nacional e das instituições do país.

Quero sobreviver mais um pouco porque ainda tenho pessoas que dependem de mim. Estudar, ler e escrever são tarefas revolucionárias em tempos de ignorância, apagamento da história das lutas da classe trabalhadora e predomínio da pós-verdade por parte dos capitalistas e seus ideólogos e lacaios.

Resistir!

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Ulysses - Lestrigões (O Almoço)



Refeição Cultural

Depois de uma semana sem ler os três livros para os quais estou empenhado na leitura - Ulysses (James Joyce), Odisseia (Homero) e O Verdadeiro Criador de Tudo (Miguel Nicolelis) - retomei a leitura de Joyce nesta manhã de quinta-feira 27.

Durante a pausa, li obras menores, livros pequenos, alguns clássicos. Da mitologia grega, li Prometeu Acorrentado, supostamente de Ésquilo (ler postagem aqui), Antígona, de Sófocles (comentário aqui) e Édipo Rei, de Sófocles (ler aqui); li um conto belíssimo de Saramago, A ilha desconhecida (ler aqui); li duas narrativas do francês Honoré de Balzac (aqui) e li narrativas curtas de Jack Kerouac, líder da geração Beat (comentário aqui). 

De verdade, foi bem melhor ter lido isso que ler ver ouvir as merdas da política genocida de meu país. A pandemia não terá fim no Brasil - não temos vacina nem medidas restritivas - e as mortes oficiais chegam perto dos 500 mil humanos (são mais de um milhão de mortos por problemas respiratórios: Covid-19 + Síndrome Respiratória Aguda Grave, SRAG); nossas vidas não valem um tostão furado - morremos a qualquer minuto -; a CPI sobre a pandemia não vai dar em nada contra o clã miliciano e a "boiada segue passando" e não teremos mais os ecossistemas brasileiros - seremos um deserto continental - e sem empresas públicas.

2023 - Eu não acredito que Lula será presidente do Brasil em 2022 (se é que haverá eleições). Lula presidente seria possível se a política não tivesse sido destruída pelo golpe de Estado e se o processo de construção do ódio não tivesse sido um sucesso e gerado uma cultura de banalidade do mal e nazifascismo no país... a anomia, a violência e a miséria vão longe por aqui, e com apoio popular e dos manipuladores da casa-grande. 

A esquerda não compreendeu ainda o mundo paralelo no qual vive parte considerável do povo deste país. Só o regime no poder tem acesso a essa parte da população. Estamos falando de dezenas de milhões de animais humanos.

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ULYSSES

"Deteve-se de novo e comprou da velha das maçãs dois bolinhos por um tostão e partiu a massa quebrantável e jogou os fragmentos no Liffey. Está vendo? As gaivotas adejaram silenciosas, duas depois todas, de suas alturas, caindo sobre a presa. Foi-se. Cada migalhinha." (p. 293)


No capítulo que li hoje, "Lestrigões", Bloom saiu da redação do Freeman onde trabalha como publicitário e estamos na hora do almoço. O capítulo teve muito fluxo de consciência e diálogos com pessoas na rua e em ambientes internos.

Teve uma passagem com pombas que me lembrou da música dos Mamonas Assassinas... muito engraçado!

"Diante da imensa porta alta da casa do parlamento irlandês um bando de pombos voou. Sua festinha depois das refeições. Em quem é que a gente vai fazer? Eu fico com o sujeito de preto..." (p. 306)

O sujeito de preto que a pomba escolhe é o Leopold Bloom, que está assim porque esteve no funeral de Paddy Dignam às 11 horas da manhã.

Aí me lembrei dos belos versos dos Mamonas:

"As pombas quando avoam/ por incrível que pareça/ ficam sobrevoando/ com seu cu amirando/ em nossas cabeças..." (Mundo Animal)

O TEMPO NO FLUXO DE PENSAMENTO E O TEMPO LINEAR DA LEITURA

Tem uma questão interessante. Eu gastei uma hora para ler o que o Bloom diz que foram cinco minutos. Essa é uma questão dos diversos tempos das narrativas que os críticos explicam.

"O Dignam levado no carrinho. A Mina Purefoy barriga inchada numa cama gemendo pra arrancarem uma criança de dentro dela. Nasce um a cada segundo em algum lugar. Outro morre a cada segundo. Desde que eu dei comida pras gaivotas cinco minutos. Trezentos bateram as botas. Outros trezentos nasceram, lavando o sangue, todos são lavados no sangue do cordeiro, balindo méééééé." (p. 309)

Bloom alimentou as gaivotas lá na página 293. Gastei uma hora de leitura.

O capítulo foi fascinante. Bloom faz críticas a diversas coisas. Pensa a respeito da quantidade de filhos que os irlandeses fazem. Critica cardápios de comida vegetariana e nessa parte é interessante ele associar a alimentação sem carnes a maior facilidade para versejar, pensando ser impossível para um comedor de carnes brutamontes fazer versos. Na parte que cito abaixo, ele está falando da comida vegetariana dos poetas e literatos.

"A meia dela está frouxa no tornozelo. Eu detesto isso: de uma falta de gosto. Esse pessoalzinho literário etéreo todos eles são. Sonhadores, nebulosos, simbolísticos. Estetas é o que eles são. Eu não ia ficar surpreso se fosse aquele tipo de comida que produz o seu igual ondas do cérebro o poético. Por exemplo um daqueles policiais suando cozido irlandês na camisa; não dava pra espremer nem um versinho de poesia dali. Não sabem nem o que é poesia. Tem que estar num certo humor." (p. 311)


Essa parte abaixo mereceu até uma foto minha apontando o mindinho pro céu... achei legal a cena.

"Deu meiavolta e, parado entre os toldos, estendeu a mão direita com o braço esticado para o sol. Sempre quis tentar isso. É: completamente. A ponta de seu dedo mínimo apagava o disco solar. Deve ser o foco onde os raios se cruzam..." (p. 312)

Acabei comendo um pão com queijo e mostarda após ler o Bloom comendo seu lanche assim.

Bloom ainda ajuda um jovem cego a atravessar a rua.

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Como disse nas outras postagens da leitura do Ulysses, na tradução de Caetano W. Galindo, estou tendo um aproveitamento muito melhor desta vez em relação à compreensão que tive na leitura duas décadas atrás, na tradução de Houaiss.

A leitura da postagem sobre o capítulo anterior pode ser feita aqui.

Abraços, amig@s leitores.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


quarta-feira, 19 de maio de 2021

Ulysses - Éolo (O Jornal)



Refeição Cultural

"As máquinas tilintavam em compasso três por quatro. Prensando, prensando, prensando. Agora se ele ficasse paralisado ali e ninguém soubesse como parar aquelas prensas elas iam continuar tilintando sem nem dar por isso, imprimir e comprimir e oprimir e deprimir. Bagunçar a coisa toda. Precisa ter cabeça fria." (JOYCE, 2012, p. 250)


Mais um capítulo vencido do clássico Ulysses, de James Joyce. Li o capítulo 7 e me aproximo da página 300 da minha edição com tradução de Caetano W. Galindo. Estou lendo bem concentrado e meu entendimento está sendo muito bom, bem melhor que da outra vez que li duas décadas antes.

Acho que as estratégias adotadas pelo tradutor Galindo facilitaram a leitura do romance em nossa língua. A leitura que fiz anteriormente foi na tradução de Antônio Houaiss e tive muita dificuldade de compreensão. Deixo bem claro que a experiência do leitor pesa bastante também, eu sou outro, minha bagagem é outra ao ler agora e aos trinta anos de idade.

A verdade é que desta vez eu consigo descrever o que li até agora, o andar do romance nos sete capítulos que li. Ao olhar o esquema da obra feito pelo próprio Joyce, o quadro esquemático, fica mais claro ainda. 

Sobre este capítulo "Éolo" cujo cenário é o jornal, o quadro esquemático diz que a "arte" é a "retórica" e isso fica bem claro ao ler os diálogos e pensamentos e eventos que acontecem no cenário.

É necessário ter atenção para ler o romance porque os fluxos de pensamento estão o tempo todo no meio das frases que não são diálogos. Tem que se atentar para isso. Inclusive para perceber quem está pensando no fluxo de pensamento.

Enfim, seguimos avançando na epopeia joyceana pela Dublin de antigamente, no dia 16 de junho de 1904. 

Será que consigo acabar a leitura até o "Bloomsday"? (difícil, tenho 800 páginas pela frente...)

Abraços, amig@s leitores.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.