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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Opinião - O povo não é nem de direita nem de esquerda


Atividade no BB em 2012. Foto: Lazarri.


Refeição Cultural

Opinião


O povo não é nem de direita nem de esquerda

Há um processo de politização do povo pela direita, mas podemos politizar as pessoas também se lutarmos contra o sistema de dominação atual


1. INTRODUÇÃO

Escrevo esta reflexão no momento seguinte ao resultado das eleições municipais do Brasil. O articulista é pessoa com experiência na política: fui dirigente sindical e representei com mandatos eletivos a classe trabalhadora por quase duas décadas. Já fui também líder estudantil, síndico de condomínio, membro de conselhos e gestor eleito de autogestão em saúde.

Ao longo de minha vida alternei visões de mundo diametralmente opostas. Sendo hoje uma pessoa materialista e sem nenhum tipo de fé em explicações místicas da vida humana, já fui católico praticante, uma pessoa movida pela fé cristã. Também frequentei e estudei o espiritismo e o candomblé. Já fiz curso completo de gnose, uma escola de autoconhecimento. Diria que sou, hoje, humanista e anticapitalista.

Já tive os preconceitos comuns da cultura brasileira, preconceitos que perduram há séculos nesta ex-colônia sul-americana. O principal preconceito que tive pela minha ambientação dos anos oitenta adiante, quando me tornei jovem adulto no Brasil, foi o preconceito relativo às diversas formas de amor, orientação sexual e relacionamentos humanos, ignorância que só superei ao ser politizado e educado pelo movimento sindical brasileiro.

Já senti ódio, muito ódio em minha vida, e desde pequeno. Já enfrentei um lawfare, um processo administrativo inventado pelos meus adversários políticos para destruir minha história e minha vida. Acreditem: muitas pessoas podem sucumbir aos processos de destruição e assédio. Ninguém merece ser acusado injustamente de algo que não fez. O lawfare teve seu uso político pretendido e depois do objetivo alcançado foi arquivado por falta de provas e materialidade. Acho que minha saúde nunca mais foi a mesma.

Fiz essa introdução em minha reflexão para situar as leitoras e leitores do texto que não tenham o hábito de ler meus artigos no blog, que talvez não me conheçam há mais tempo. Minha experiência de vida e militância exigem de mim um esforço para compreender as questões das diversas formas de fé das pessoas, os ritos e vícios da política sindical e partidária e as causas e efeitos das ferramentas ideológicas do preconceito, que incluem as novas ferramentas tecnológicas das big techs.

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2. A IMPORTÂNCIA DA SOLIDARIEDADE DE CLASSE

Antes de escrever alguma coisa a respeito do resultado dos processos eleitorais que se encerraram nesta semana - com a prevalência expressiva das candidaturas de direita nas cidades do país -, quero registrar algum comentário a respeito da absolvição pelo Supremo Tribunal Federal do companheiro José Dirceu: fiquei feliz com a absolvição. Que bom que lutadoras e lutadores de nosso lado da classe receberam nossa solidariedade nos momentos mais difíceis de suas vidas! Nossos inimigos de classe não têm solidariedade alguma conosco.

Eu não teria como enumerar as diversas lideranças de nosso lado da classe trabalhadora que foram vítimas de novos métodos de assédio, tortura e eliminação da vida política e, inclusive, da vida biológica por parte dos detentores do poder econômico e político instalado no Brasil há cinco séculos: a casa-grande, para resumir os opressores do povo brasileiro.

Pelos papéis que tiveram nas lutas de libertação do povo brasileiro nas últimas décadas, cito as seguintes lideranças de esquerda que sofreram perseguição política e uso da máquina estatal contra suas vidas e suas liberdades: Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, José Genoino, José Dirceu, Luiz Gushiken e João Vaccari Neto, com quem militei no Sindicato dos Bancários. Todos foram vítimas de processos de lawfare para destruir suas vidas e de seus familiares e atingir o Partido dos Trabalhadores e, consequentemente, toda a esquerda brasileira.

O presidente Lula foi vítima de mentiras contra si desde os anos setenta, quando se tornou líder sindical. As mentiras foram escalando até que ele fosse preso sem crime e sem provas por 580 dias para que não disputasse as eleições de 2018. A presidenta Dilma Rousseff foi presa e torturada na juventude por lutar contra a ditadura no país. Após ser eleita com 54,5 milhões de votos em 2014, sofreu um impeachment sem crime e sem provas. Sofri muito durante esses processos que acompanhei como dirigente dos bancários! A dor era de adoecer por ver fazerem o que fizeram com nossas lideranças!

O mesmo sofrimento e impotência contra a injustiça sentimos quando a casa-grande condenou e ou prendeu sem crime e sem provas José Genoino, José Dirceu, Luiz Gushiken e João Vaccari Neto. Genoino e Dirceu, lutadores da mesma geração de Dilma e Lula. Gushiken e Vaccari, líderes da categoria bancária do Novo Sindicalismo brasileiro. Acusar lideranças da classe trabalhadora, destruir suas histórias e expô-las à execração pública a partir dos anos dois mil passou a ser a nova ferramenta de tortura e eliminação de lideranças das lutas populares.

Até hoje, temos visto serem inocentadas lideranças populares vítimas de processos de lawfare, como nos casos famosos "Operação Lava Jato" e "Ação Penal 470" (conhecida como "Mensalão" para achincalhar as vítimas). Gushiken foi absolvido por falta de provas pouco antes de falecer em 2013 e a notícia saiu nos rodapés dos jornalões e revistas que o execraram por anos. O mesmo se deu com Vaccari, preso por condenações revistas por falta de provas. Me lembro de ter me posicionado em defesa de Vaccari no auge dos massacres midiáticos que sofríamos em 2015 (ler artigo aqui).

Fico feliz e aliviado pela notícia da absolvição do companheiro José Dirceu neste momento da história brasileira. Sempre suspeitamos das práticas criminosas daquela gente da tal "República de Curitiba". O tempo foi o senhor da razão. Lendo o livro de memórias de Dirceu, temos orgulho das pessoas que ao longo da vida estiveram do lado certo da história, do lado do povo.

Essas revisões tardias de processos criminais inventados contra pessoas que representam a resistência ao avanço das políticas liberais, privatistas e contrárias aos interesses da classe trabalhadora reforçam uma questão central entre nós de esquerda: a necessidade da solidariedade entre nós nos momentos em que estamos sob ataques de nossos inimigos de classe.

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3. NEM DE DIREITA NEM DE ESQUERDA

Tive a oportunidade de participar de reuniões políticas em bases comunitárias nos últimos dois anos. Naqueles espaços de reflexões populares me lembrei muito dos tempos de representação sindical nos bancários e também dos ambientes familiares de muita pobreza e simplicidade.

Sempre que começam as reuniões nas comunidades, as pessoas que se atrevem a se inscrever para falar vão logo marcando suas posições dizendo que não gostam de política, nem dessa coisa de partido A ou B. Aí sim falam da questão do ônibus, do posto de saúde, das carências em casa, da falta de vaga na escola, segurança no bairro etc.

A questão de se classificar alguém como sendo de esquerda ou de direita e outras classificações comuns na boca da militância orgânica dos movimentos sociais ou de acadêmicos e intelectuais passa longe do dia a dia da ampla maioria das pessoas. O povo em geral não gosta de gente de esquerda "cagando" regras para ele.

Se voltar ao tempo em que fazia a base do sindicato, visitando locais de trabalho da categoria bancária ou participando de reuniões, plenárias e assembleias, poderia dizer a mesma coisa em relação a classificações de trabalhadores como de direita ou de esquerda.

Buscando na memória lembranças dos ambientes onde nasci e cresci, a parentada toda e os amigos e conhecidos na adolescência e na primeira fase de adulto jovem é a mesma coisa. Ninguém que conheci tinha esses papos de ser de direita ou de esquerda. 

É evidente que identificar fenômenos sociológicos e definir as coisas do mundo humano é importante para nós que nos interessamos em compreender e mudar a realidade social não natural. 

A desigualdade social, a injustiça contra as pessoas, o privilégio de poucos em contraposição à miséria da maioria, tudo isso são fenômenos não naturais. E podemos mudar a realidade porque somos seres históricos e fazemos a história diariamente.

As ciências humanas que se debruçam sobre os fenômenos sociológicos são necessárias, repito. O mestre Paulo Freire diz que só se educa gente. Ou seja, é possível educar e politizar as pessoas.

3.1. ALGUMAS LEITURAS INTERESSANTES

Eu, particularmente, gosto dos estudos e das conclusões do professor e sociólogo Jessé Souza a respeito do comportamento das classes dominantes e das classes subalternas. Concordo que as elites são corruptas e manipuladoras do povo. Entendo os motivos para ele definir um segmento do povo como "o pobre de direita".

Por outro lado, também apreciei as definições que ouvi dias atrás do professor e historiador marxista Valério Arcary, em entrevista ao Mauro Lopes, ao dizer que não concorda em se chamar um segmento do povo como "pobres de direita". 

Ele alegou na entrevista que importantes camadas da população estão em condições tão precárias de subsistência diária que elas não podem se dar ao luxo de recusar uma cesta básica, um telhado novo, alguma ajuda de políticos que lhes pedem o voto em troca de algo essencial.

Aí, penso na análise do professor Alysson Mascaro, jurista e filósofo do direito marxista, que em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, após o primeiro turno das eleições, disse que a direita e a extrema-direita politizaram o povo, que agora teria uma consciência de direita. Já a esquerda fica defendendo o sistema capitalista, a ordem estabelecida e fazendo coraçãozinho. 

Por fim, cito a tese "Os sentidos do lulismo" do professor e cientista político André Singer como um estudo que fez muito sentido para mim. De maneira geral, gostei das reflexões dele sobre as características do povo brasileiro e o comportamento dos diversos estamentos sociais ao longo das eleições para presidente entre 1989 e 2010. Fiz uma leitura do livro com postagens comentadas. (ler aqui)

Entendi que o que menos pesou no voto das pessoas foram questões como "esquerda" ou "direita" em relação aos candidatos Collor e Lula, FHC e Lula, Lula e Serra, Lula e Alckmin, Dilma e Serra. Os eleitores decidiram de forma muito prática seus votos em relação ao que era melhor para eles e da forma como viam o mundo, incluindo crenças, medos, cultura, preconceitos etc.

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4. QUAL A MINHA OPINIÃO SOBRE O CENÁRIO E SOBRE O FUTURO?

Vivemos um momento histórico com ferramentas tecnológicas que não existiam em outras fases da história humana. O ser humano é um animal movido à paixões e sentimentos, uma espécie que organizou o mundo a partir das abstrações criadas pela mente humana. 

O livro "O verdadeiro criador de tudo", do professor neurocientista Miguel Nicolelis, nos explica isso. A comunicação virtual e as redes sociais dominadas por algumas corporações, as big techs, sincronizam milhões de seres humanos em frações de segundos. 

Num mundo plataformizado e baseado na economia da atenção, viramos commodities e não mais seres livres. O professor e sociólogo Sérgio Amadeu, da UFABC, fala bem sobre o tema.

Quando as ideias que nos movem são inoculadas em nossa mente de forma sistêmica e intencional para ditar nosso comportamento como se dá hoje, questiono se ainda temos "livre-arbítrio".

O sistema capitalista está por trás da organização e movimentação da sociedade humana global. Não vou discorrer sobre isso. Seria exaustivo neste artigo que precisa terminar. Conto com o conhecimento que as leitoras e leitores desta reflexão já possuem.

Como identificação de fenômeno social, concordo com os professores Jessé Souza e Alysson Mascaro. A direita tem sido exitosa em estabelecer suas ideias no cotidiano das pessoas em todos os segmentos da sociedade, inclusive entre as classes subalternas e exploradas. Eu entendo que ser proprietária dos meios de produção e de criação de ideias tem peso central na prevalência das ideias de direita no mundo.

No entanto, tendo a concordar com as impressões dos professores Valério Arcary e André Singer em relação ao comportamento prático que as classes sociais têm na hora de se posicionarem em eleições ou na sobrevivência diária. As pessoas se movem à direita, centro ou esquerda de acordo com seus interesses imediatos e não por adesão ou militância a tais conceitos teóricos.

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ELEIÇÕES MUNICIPAIS BRASILEIRAS: baseado no que estou argumentando, fica fácil compreender o resultado das eleições em 2024, com o domínio amplo dos partidos de direita disfarçados sob a alcunha de "Centrão" em milhares de cidades do país. O dinheiro das emendas do orçamento público irrigando as candidaturas contra nós da esquerda mais os preconceitos e mentiras prevalentes nos meios digitais das plataformas somados aos tradicionais meios da imprensa de direita são bases efetivas da vitória da direita nas urnas. Reconheço, também, a incapacidade atual da esquerda de compreender e representar as necessidades e anseios da classe trabalhadora. Estamos distantes das bases. 

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É verdade que o domínio totalitário dos meios de produção por parte da classe dominante tem pesado para que o mundo experimente essa ascensão das ideias de direita, inclusive sobre as classes vítimas da crise do capital. Somos seres movidos pelas paixões e sentimentos: uma abstração divulgada de forma massiva em segundos pelas redes sincroniza milhões de pessoas - sentimentos como o ódio -, por exemplo. E o ódio cega as pessoas e impede o império da razão.

Na guerra de conquista das ideias, os donos dos meios estão vencendo, mas entendo que nós podemos enfrentar o avanço da direita e extrema-direita, que representam os privilegiados do mundo, nos posicionando a favor da mudança e a mudança está em questionar o sistema vigente - o capitalismo - e exigir outra forma de organização da sociedade humana.

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Contestar o capitalismo e a captura dos recursos públicos em prejuízo do povo e em privilégio de poucos é algo básico para uma liderança ou organização de esquerda.

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5. PARTIDOS, SINDICATOS E ASSOCIAÇÕES

Não acredito em mudanças substantivas e perenes na sociedade humana sem organizações sociais por trás dessas mudanças. Movimentos populares episódicos - uma ocupação, uma greve, uma mobilização por questão A ou B -, por mais que sejam bonitos de se ver, não têm acúmulos crescentes com capacidade de alterar a realidade geral. Eu pensava isso em relação aos Fóruns Sociais Mundiais quando não aceitavam partidos, sindicatos e governos.

É minha opinião que nós temos que ter partidos políticos, sindicatos e associações que liderem movimentos de massas para questionar e forçar as mudanças necessárias para disputar os rumos de uma comunidade humana. 

Temos que ter atuação constante e não só em períodos eleitorais. Ampliar nossa força nos parlamentos deve ser consequência de trabalhos realizados na base o ano todo e com coordenação local e nacional. Temos que mudar essa lógica personalista de nomes e mandatos prevalecerem sobre projetos e coletivos locais, temáticos e programáticos de esquerda, lutas de classe.

Para isso, as lideranças populares precisam exigir as mudanças necessárias das velhas burocracias encasteladas em partidos, sindicatos e associações que são estratégicos para a classe trabalhadora, mas que têm deixado insatisfeitas as bases sociais por completa ausência nas bases.

Tenho visto surgirem novas lideranças nos partidos de esquerda e nos movimentos organizados. Temos que fortalecer e apoiar essa juventude que está dando as caras. 

Se permitirmos que as ideias da burocracia partidária e sindical prevaleçam - ideias de conciliações improdutivas com adversários e inimigos na atualidade e parcerias ruins com nossos algozes -, não mudaremos a realidade na qual as ideias de direita e extrema-direita estão prevalecendo nas camadas populares que, repito, não são nem de esquerda nem de direita.

Nossos partidos de esquerda, sindicatos e organizações populares podem fazer a diferença, mas para isso é necessário que mudem e ouçam as bases e as novas lideranças que estão chegando para fazer história. Que Brasil e mundo queremos em 2035 e 2050? Para pensar 2026 temos que pensar o que queremos para o mundo.

William Mendes


sexta-feira, 10 de março de 2023

Leitura: Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador (2012) - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 10 de março de 2023. Noite de sexta-feira.


"Enquanto os meios de pagamento cresçam, cada fração de classe pode cultivar o seu lulismo de estimação. Responsável, apesar de algo populista, para os bancos. Nacionalista, ma non troppo, para os industriais. Promotor do emprego, embora precário, para o proletariado. Apoiador do crédito para a agricultura familiar, ainda que relutante quanto a enfrentar o latifúndio, para os trabalhadores rurais. Por isso, o presidente pode pronunciar, para cada uma delas, um discurso aceitável, usando conteúdos diferentes em lugares distintos e, sobretudo, tomando cuidado para que os conflitos não impliquem radicalização e mobilização. Porém, o entusiasmo, capaz de sustentá-lo nos momentos difíceis, como foi o 'mensalão', o lulismo só vai encontrar em meio ao subproletariado, o que está relacionado ao fato de que, como toda solução arbitral, tem como prioridade atender à própria base, a que garante a sua continuidade. Daí que, de todas as políticas adotadas, a integração do subproletariado seja a decisiva." (p. 203)


Terminei hoje a leitura desse ensaio fundamental de André Singer sobre Lula e o fenômeno do lulismo na história do Brasil e do povo brasileiro. O livro é espetacular ainda hoje, mais de uma década após a publicação da tese do jornalista e cientista social.

O livro é dividido em quatro capítulos, além da introdução e de um posfácio.

- Introdução: Alguns temas da questão setentrional

1 - Raízes sociais e ideológicas do lulismo

2 - A segunda alma do Partido dos Trabalhadores

3 - O sonho rooseveltiano do segundo mandato

4 - Será o lulismo um reformismo fraco?

- Posfácio: No meio do caminho tinha uma pedra

Ao longo da leitura dos capítulos fiz postagens com alguns comentários e citações. Sobre a Introdução, ver aqui. A leitura do 1º capítulo comentei nesta postagem aqui. Os comentários do 2º capítulo podem ser lidos aqui. E as impressões do 3º capítulo, aqui.

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O TESTE ELEITORAL DO LULISMO

"A vitória de Dilma Rousseff na eleição de outubro de 2010 mostrou a vigência do realinhamento e garantiu por pelo menos mais quatro anos a extensão do lulismo..." (p. 169)

A eleição de 2010 comprovou o que Singer demonstra ao longo do livro. O perfil dos eleitores de Lula mudou entre 1989 e 2010, inverteu-se, houve um realinhamento. Os muito pobres e subproletários que sempre votaram contra a esquerda até 2002 foram decisivos nas eleições de Lula em 2006 e Dilma, indicada por Lula na eleição seguinte.

LULISMO

É o governo Lula melhorar a vida do povão sem nenhuma arruaça ou revolução.

"A transferência de votos de Lula para Dilma entre os mais pobres e no Norte/Nordeste implica que o projeto político de reduzir a pobreza sem contestar a ordem, particularmente nos bolsões de atraso regional em que a pobreza se fixou ao longo da história brasileira, conquistou corações e mentes, tornando plausível a longa duração para o lulismo que venho supondo desde o início desta exposição." (p. 175)

EXPORTAÇÃO DE COMMODITIES AJUDOU O LULISMO

Singer afirma que a expansão mundial da economia e a valorização das commodities contribuíram para o sucesso dos governos Lula. Mas não foi só isso. As políticas de governo foram mais que centrais.

"Foi a fortuna da conjuntura internacional associada à virtù de apostar na redução da pobreza com ativação do mercado interno que produziu o suporte material do lulismo." (p. 179)

AUMENTO DO EMPREGO E RENDA DO TRABALHO 

"Isso quer dizer que o fator fundamental na redução da desigualdade durante o governo Lula foi o expressivo aumento do emprego e da renda, na qual a valorização do salário mínimo teve rol crucial, e não as políticas compensatórias, fossem elas de corte neoliberal ou não." (p. 184)

ERA PRA SER UM REFORMISMO "FORTE", MAS O POSSÍVEL FOI UM REFORMISMO "FRACO"

Singer explica que o desejo do petismo com "o espírito de Sion", o grupo que criou o PT nos anos 80, era pra termos um reformismo forte, mas a realidade se impôs e após os anos noventa, principalmente a partir de 2002 com a "Carta ao povo brasileiro" - prevaleceu "o espírito do Anhembi" e tivemos um reformismo fraco, sem rupturas e contestação ao capitalismo. 

"As condições para o programa de combate à pobreza viriam da neutralização do capital por meio de concessões, não do confronto. A manutenção da tríade juros altos, superávits primários e câmbio flutuante faria o papel de acalmar o capital. De outro lado, a simpatia passiva dos trabalhadores, para quem a ativação do mercado interno e a recuperação do mercado de trabalho representavam benefícios reais, garantiu a paz necessária para não haver radicalização. Após o 'mensalão' e a emergência do lulismo, sobretudo no segundo mandato, com sustentação social própria formada pelos votos do subproletariado, Lula pôde implantar a fórmula 'ordem e mudança' com maior liberdade e resultados melhores, como vimos no capítulo anterior." (p. 188/189)

Em resumo:

"ao tomar das propostas originais do PT aquilo que não implicava enfrentar o capital como seria o caso da tributação das fortunas, revisão das privatizações, redução da jornada de trabalho, desapropriação de latifúndios ou negociação de preços por meio dos fóruns das cadeias produtivas, o lulismo manteve o rumo geral das reformas previstas, não obstante aplicando-as de forma muito lenta. É a sua lentidão que permite interpretá-lo como tendo um sentido conservador..." (p. 192/193)

REFORMISMO FRACO

"A conversão da segunda alma do PT ao lulismo (o espírito do Anhembi) e seu correspondente ideológico, o desenvolvimento de um capitalismo popular, deixou vazio o lugar do anticapitalismo, hoje disputado por pequenas siglas como o PSOL e o PSTU, já que a esquerda do PT tem impacto dentro do partido, mas pouco fora dele. Essa situação carrega um paradoxo: o de que a esquerda no Brasil ganhou e perdeu, ao mesmo tempo, com a ascensão do lulismo. No momento em que um projeto reformista, mesmo fraco, avança na redução da sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente, aumentando o contingente proletário, a luta ideológica parece recuar para um estágio anterior ao conflito capital/trabalho." (p. 219)

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COMENTÁRIO

Eu tive acesso à tese de André Singer sobre o lulismo durante o segundo mandato do presidente Lula. Era dirigente sindical dos bancários no Sindicato e na Confederação e achei a tese muito coerente com a realidade que vivíamos no país.

Muitas impressões que tinha a respeito da sociedade brasileira foram confirmadas com os dados que Singer apresentava em relação às eleições presidenciais desde a redemocratização. Os pobres não votavam e não simpatizavam com a esquerda. Exemplo: minha família de pobres e conhecidos pobres. Votaram no Collor, no FHC e na pqp, menos no Lula e no PT.

A eleição de Lula em 2002 teve toda uma conjuntura favorável. O neoliberalismo tinha fodido com o país e com o povão, tinha dizimado a classe média também, parte dela composta por funcionários públicos e ex-públicos - demitidos pelas privatizações -, a classe trabalhadora se ferrou com os tucanos.

Vi, vivi e ajudei a construir os mandatos de Lula e Dilma como dirigente da classe trabalhadora entre 2003 e 2018, tenho em minha pele todas as nossas conquistas do 1º dia do mandato de Lula até o golpe contra Dilma em 2016. Fomos do inferno ao céu com o PT no governo e do céu ao inferno com os bandidos no poder entre 2016 e 2022.

A volta de Lula à presidência do Brasil em 2023 é, na minha opinião, a vitória do lulismo. Não tínhamos outra liderança no país capaz de conquistar os 50,9% dos votos válidos na eleição viciada de 2022 através de uma máquina fraudulenta e corrupta que usou o orçamento público e meios desonestos para tentar manter os milicianos no poder central.

Acho o livro muito atual, mesmo considerando que Singer o escreveu antes das manifestações de junho de 2013, antes da Lava Jato, antes de Aécio e Cunha, antes do golpe e antes da aberração que colocaram no poder em 2018, com Lula preso numa masmorra de forma ilegal e sem poder concorrer.

A leitura já nem teria sentido para mim, recolhido em casa, fora do movimento político por não caber mais nos espaços onde militei por mais de duas décadas. O mundo mudou e as pessoas mudaram, não há mais convívio político se a gente tem personalidade e posição política, e nunca fui de paparicar ninguém.

Após uma conversa com o amigo e companheiro de tantas jornadas, o mestre Carlindo do Dieese, acabei pegando o livro na mão e toquei a leitura até o fim. Foi bom! Clareei mais ainda minha visão do mundo no qual estamos enfiados.

Basta. Registrada a impressão. André Singer é um cientista político que nos legou uma grande interpretação do povo brasileiro e do Brasil. 

Obrigado, Singer!

William


Post Scriptum (12/3/23): No sábado pela manhã, li o posfácio do livro - "No meio do caminho tinha uma pedra". Nele, André Singer nos fala um pouco de seu percurso formativo, de sua experiência como jornalista e professor no Departamento de Ciência Política da USP e a gênese da ideia do lulismo. O texto é dividido em 3 partes: tempos de esperança, tempos de experiência e tempos de reflexão. Gostei muito do texto. Cito abaixo um conceito de Singer que já conhecia dos tempos de leitura de Edward Said (ler aqui) sobre a questão do papel do intelectual.

"Penso que cabe ao intelectual participar da vida pública de modo peculiar. Justamente por não ser representante, a não ser de si mesmo, ele tem a liberdade de falar o que os profissionais não podem dizer. Deve fazer uso dessa franquia para, com a bagagem do conhecimento acumulado, intervir na agenda pública, usando, sem medo, o senso de perspectiva histórica que o treino intelectual propicia. A sociedade necessita de balizas fundamentadas no mar de eventos encapelados que os jornais, revistas, televisões e páginas de internet oferecem dia a dia." (p. 247)


Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


quinta-feira, 9 de março de 2023

Lendo: Os sentidos do lulismo (IV) - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 09 de março de 2023. Madrugada de quinta-feira.


A leitura do capítulo 3 - "O sonho rooseveltiano do segundo mandato" - foi lenta, demorou três dias. É meu estado de espírito que não ajudou. Ao mesmo tempo em que leio e aprendo com o livro, e acho espetacular o desenvolvimento da tese de André Singer, que assino embaixo, fico buscando sentidos para este novo conhecimento. Ando achando tudo em vão, até estudar. Pra que? Quem quer saber disso? De certa forma, eu já sei a essência da tese e das coisas da política. Foram mais de duas décadas como dirigente político.

Aqueles que estão no poder ou disputando o poder estão preocupados em estudar e conhecer alguma coisa? O mundo vai sendo dominado por malandros profissionais manipuladores da fé e sofistas que têm boa lábia em redes sociais - em geral pregando o ódio e mentiras -, todos a serviço do capital. Pós-verdade... o que domina o rumo da humanidade e do planeta Terra é a pós-verdade e não necessariamente a verdade, que talvez nem exista, afinal de contas as coisas são como são e as narrativas vão se estabelecendo sobre atos e fatos.

Vamos ao que interessa, algumas leves passagens do capítulo.

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O SONHO ROOSEVELTIANO DO SEGUNDO MANDATO

Singer anuncia o que vai desenvolver no capítulo:

"Todavia, quais as condições reais para transformar em fatos o sonho rooseveltiano da maneira como aparece na descrição de Krugman, ou seja, de acesso a uma vida material 'reconhecidamente decente' e 'similar' num curto espaço de alguns anos'? Para além das peças de campanha, quais as forças sociais e políticas efetivamente a favor de diminuir rapidamente a pobreza e a desigualdade? Em particular, quais classes e quais partidos estão comprometidos com esse objetivo? Por meio de tais perguntas, este capítulo deseja mapear o solo material e político da agenda lulista ao cabo de dois mandatos presidenciais. Examinarei, em primeiro lugar, os avanços na redução da pobreza e da desigualdade; em segundo, os conflitos macroeconômicos que limitaram ou aceleram o ritmo da empreitada; e, em terceiro, as relações de classe envolvidas no processo." (p. 129)

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A POBREZA MONETÁRIA CAI RÁPIDO; A DESIGUALDADE, DEVAGAR

Achei bem interessante a explicação que Singer dá sobre a diferença entre diminuição da pobreza e da desigualdade.

Pobreza - "De acordo com o economista José Eli da Veiga, por exemplo, a pobreza, na linha do prêmio Nobel Amartya Sen, deveria ser entendida como 'privação de capacidades básicas' e 'jamais [...] medida apenas com estatísticas de insuficiência de renda'." (p. 129)

Ao longo do texto, Singer apresenta algumas dificuldades ao se considerar a "renda monetária" para auferir parâmetros de pobreza e desigualdade. Às vezes, 1 (um) centavo muda a categoria de segmentos populacionais e isso não quer dizer nada em relação à vida prática das famílias. No entanto, ele diz que não deve ser desprezado o tamanho dos indicadores de diminuição da pobreza monetária durante os governos Lula.

SEM O GOLPE, PODERÍAMOS TER AVANÇADO ENTRE 2011 E 2020

"Se as diferenças entre o Ipea e a FGV mostram o quanto há de relativo nas medições de pobreza, cabe notar que as medições de ambos apontam na mesma direção: a década 2011-20 pode ser para o Brasil aquela em que a totalidade dos cidadãos passe a usufruir de condição que os organismos internacionais consideram acima da pobreza (monetária) absoluta..." (p. 133)

Desgraçados esses canalhas, canalhas, canalhas da Lava Jato, da casa-grande e da extrema-direita que interromperam os governos petistas por golpe só para que a vida do povo pobre brasileiro não avançasse mais. E regredimos de forma trágica nesses 7 anos de Temer e Bolsonaro, chegamos ao fundo do poço da miséria no país.

PODERÍAMOS TER TIDO O "NEW DEAL TUPINIQUIM..." SEM O GOLPE

"Pode representar que a quase metade da população que não dispunha de renda mínima até meados da década de 1990 passará a dispor de recursos suficientes para assegurar, ao menos, a alimentação. Não será o fim da pobreza, mas talvez seja o fim da pobreza (monetária) absoluta, aquela que impede a pessoa de sequer se alimentar. Poderá significar o ponto de partida para a vida 'decente' do New Deal, porém certamente não a chegada." (p. 133)

CONJUNTO DE MEDIDAS LULISTAS QUE AUMENTARAM O ACESSO AO DINHEIRO POR PARTE DOS POBRES

"Convém recordar que o aumento do acesso ao dinheiro por parte dos pobres no governo Lula não ocorreu apenas por meio do Bolsa Família. Houve um expressivo crescimento do emprego, do valor do salário mínimo e do acesso ao crédito, e seria um erro ignorar tais elementos." (p. 135)

REDUÇÃO DA POBREZA É DIFERENTE DE REDUÇÃO DA DESIGUALDADE

"O Ipea constata, entretanto, que 'o movimento recente de redução da pobreza tem sido mais forte que o da desigualdade'. Enquanto a taxa de pobreza absoluta, medida pelo Ipea, teve uma redução de 36% entre 2003 e 2008, o índice de Gini reduziu-se de 0,58 para 0,55, numa queda de apenas 5% no mesmo período." (p. 139)

COMO OS RICOS TAMBÉM LUCRARAM NO GOVERNO LULA, DESIGUALDADE SE REDUZIU MAIS LENTAMENTE QUE A POBREZA

"Os largos gastos do Tesouro com o pagamento de juros e os altos lucros das empresas durante o governo Lula seriam sinais visíveis do aumento da desigualdade funcional..." (p. 140)

Fechando essa parte do capítulo, Singer diz que a classe média perdeu poder de compra durante o aumento do poder de compra das classes de baixo. Em nota (49), é citado trecho de entrevista com o sociólogo Simon Schwartzman de 2010: "Houve um achatamento do padrão de vida da classe média. Ela sofreu nesse processo, porque depende muito mais dos serviços, cujos preços aumentaram muito, como escolas e saúde privadas." (p. 142)

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A SUAVE INFLEXÃO DO SEGUNDO MANDATO

Nessa parte, Singer aponta outras medidas centrais dos governos Lula como, por exemplo, o Crédito Consignado, as medidas desenvolvimentistas de Mantega, dentre outras.

CRÉDITO CONSIGNADO

"Ter descoberto que com uma quantidade relativamente modesta de recursos e opções que não dependiam do orçamento da União (como o caso do crédito consignado) era possível revitalizar regiões muito carentes, como o interior nordestino, foi o que garantiu, juntamente com a melhora da conjuntura econômica internacional, o sucesso da fórmula lulista." (p. 145)

GUIDO MANTEGA

"Outra fase do governo começa com a ascensão de Guido Mantega ao Ministério da Fazenda, em março de 2006, favorecendo a química com menos neoliberalismo e mais desenvolvimentismo que iria, depois, caracterizar todo o segundo mandato." (p. 146)

GERAÇÃO DE EMPREGOS FOI RETOMADA APÓS INÍCIO DA CRISE DO SUBPRIME

Com o início da crise financeira internacional, as empresas brasileiras começaram a demitir, mesmo desconsiderando as demandas do mercado interno. Contudo, já em 2009 e 2010 o governo Lula havia conseguido retomar com força a geração de empregos. Isso foi central para o sucesso do governo e do povo brasileiro.

"Nessa etapa, que se estende até a irrupção da crise financeira internacional no Brasil (último trimestre de 2008), houve maior valorização do salário mínimo, alguma flexibilização dos gastos públicos e redução dos juros, diminuindo, sem eliminar, a dose do componente conservador na fórmula lulista. Do ponto de vista da fração de classe que sustenta o lulismo, o principal efeito dessa reformulação foi que a geração de empregos se acelerou, passando a ser decisiva no combate à pobreza." (p. 147)

Lembrando que Lula terminou o governo em 2010 com uma taxa de desemprego na casa dos 5,3% (dezembro), quase pleno emprego.

A POLÍTICA DO SALÁRIO MÍNIMO FOI FUNDAMENTAL NA REDUÇÃO DA POBREZA

Singer nos lembra que a chegada de Guido Mantega foi central para as decisões relativas ao aumento do salário mínimo. Em 2006, o aumento real foi de 13%. Nos anos seguintes: 5,1% (2007), 4% (2008), 5,8% (2009) e 6% (2010). 

Imaginem a importância desses aumentos para 17 milhões de aposentados que recebiam à época um salário mínimo como benefício social! Esses recursos movimentaram a economia interna das cidades brasileiras e favoreceram as famílias dos subproletários e proletários.

"É provável que, isoladamente, a valorização do SM tenha sido a decisão mais importante da segunda fase, da mesma maneira que a criação do BF foi da primeira." (p. 148)

A IMPORTÂNCIA DA PETROBRAS

Singer nos lembra da capacidade da empresa Petrobras contribuir para o crescimento do país. Durante o período analisado (2006 e 2008), ela sozinha conseguia investir mais que o governo federal.

"Houve, no mesmo sentido, multiplicação da inversão realizada pelas estatais, cabendo lembrar que a Petrobras, sozinha, tem mais capacidade para tal do que a União em seu conjunto..."  

E cito a nota 63 que dá os números: "(...) Enquanto a média de investimento da União ficou em 0,7% do PIB entre 2006 e 2008, a da Petrobras foi de 1% do PIB no mesmo período." (p. 149)

LULA CRIOU CÍRCULO VIRTUOSO MESMO DURANTE A CRISE MUNDIAL

"As empresas voltadas para dentro incrementaram o investimento para aproveitar as oportunidades, gerando postos de trabalho, os quais por sua vez realimentaram o consumo, num círculo virtuoso que conseguiu, finalmente, tocar na contradição fundamental: a massa miserável que o capitalismo brasileiro mantinha estagnada começava a ser absorvida no circuito econômico formal." (p. 150/151)

POLÍTICA ECONOMICA DO 2º MANDATO DE LULA

"Quatro elementos distinguiram a política econômica do 'segundo período': valorização do salário mínimo, desbloqueio do investimento público, redução da taxa de juros e queda do desemprego." (p. 152)

AUMENTO DO CONSUMO POPULAR DURANTE CRISE DO SUBPRIME

"No Brasil, Lula optou por ampliar o consumo popular mediante aumentos do salário mínimo, das transferências de renda, das desonerações fiscais e do alongamento do crediário." 

E com as medidas tomadas e com os bancos públicos o Estado passou a comandar a economia. Isso lembrou o "milagre econômico" entre os anos de 1967 e 1976.

O Minha Casa Minha Vida (MCMV) contribuiu muito com a 3ª fase do governo Lula.

"Graças a essa medida, o desemprego foi contido, tendo sido gerados 1,3 milhão de vagas em 2009 e 2,5 milhões em 2010 (recorde). Na média do biênio, 1,9 milhão de postos foram criados, igual a 2007 (antes da crise)." (p. 153)

SEGUNDO REAL DO LULA

"Em suma, a rápida recuperação da crise se fez sobre novo ciclo de consumo popular, uma espécie de Segundo Real do Lula, desta feita incidindo sobre bens duráveis, sendo elemento decisivo para o sucesso da candidatura Dilma Rousseff em 2010 e dando algum contorno material ao sonho rooseveltiano de vida decente e similar." (p. 153)

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COALIZÕES DE CLASSE

A postagem já está enorme, já cansei e os pontos importantes do capítulo ainda seriam muitos. Como disse no início, eu já li e absorvi muita coisa interessante.

Vou citar um resumo e encerrar a postagem. Se alguém tiver o desejo de aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno "lulismo" leiam André Singer.

"O êxito da candidatura Dilma Rousseff em 31 de outubro de 2010 (à qual voltaremos no próximo capítulo) representou a sobrevivência do lulismo, para além dos mandatos de Lula. Apoiada nos mais pobres, Dilma defendeu a plataforma que interessa à base social subproletária: ampliação da transferência de renda; expansão do crédito popular; valorização do salário mínimo e geração de emprego, tudo sem radicalismo..." (p. 155)

Enfim, Singer nos fala um pouco sobre a questão da "arbitragem" feita por cima, por Lula, para resolver conflitos sem tensão e enfrentamento entre capital e trabalho, sendo isso ideal para aquele perfil de subproletariado e proletariado que quer melhorias, mas sem lutar.

Comenta ainda o quanto o boom das commodities era central naquele período para o Brasil avançar no lulismo. Coisa que deixou de acontecer quando a China reduziu sua atuação no mercado mundial.

Citou ainda o perigo da desindustrialização, sendo necessário sempre uma atuação para equilibrar o peso do setor primário e secundário na economia do país.

Chega por enquanto. Ufa! Que postagem difícil de fazer!

William


P.S.: Para ler comentários sobre o capítulo anterior, é só clicar aqui.


Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


segunda-feira, 6 de março de 2023

Lendo: Os sentidos do lulismo (III) - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 5 de março de 2023. Domingo nebuloso. (só terminei na segunda o texto que comecei no domingo)


A leitura do 2º capítulo do livro de André Singer, me fez olhar para trás e ver a nossa vida brasileira de forma clara e transparente como a água de Bonito (MS). Lula, o PT e o povo brasileiro são bastante próximos daquilo que Singer nos apresenta em sua tese sobre o lulismo. O capítulo 2 se chama "A segunda alma do Partido dos Trabalhadores".

O capítulo analisa um período que vai das eleições de 1989 até as eleições de 2010, da criação do Partido dos Trabalhadores em 1980 ("o espírito do Sion") até a "Carta ao povo brasileiro" em 2002 ("o espírito do Anhembi"). Contrapõe essas duas almas do PT até aquele momento no qual o livro foi editado, 2012.

Ler o livro hoje, entendendo ser uma análise antes das manifestações de junho de 2013, antes do Golpe de 2016, antes de Temer e Bolsonaro, é muito esclarecedor para compreender o Brasil que viveu as eleições de 2022, a vitória do lulismo no ano passado, porque avalio que não foi o PT que venceu as eleições de 2022, foi Lula. E isso nos dá uma fragilidade gigantesca em relação ao futuro, que não existe (só o hoje existe).

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LER E ESCREVER SÃO ATOS DE BUSCA PELO CONHECIMENTO, E UM ATO DE AMOR AO PRÓXIMO

Não tem sido fácil ler. Confesso. Banzo... Faço um esforço pessoal ao ler textos políticos ou materiais formativos que alimentem meu cérebro de algo novo para que eu não caia na rotina imbecilizante que envolveu a humanidade quase que completamente, não posso deixar meu cérebro morrer. Somos natureza, somos matéria, somos o instante, somos finitos. Sou o acúmulo de meus esforços, de minhas relações afetivas e das casualidades do viver. Escrever uma postagem desta dá um trabalho da porra! Contudo, o esforço de fazê-la já é alimento cognitivo, uma refeição cultural. E, às vezes, até contribuo com uma ou duas pessoas que leram esse esforço honesto e compartilhado com o mundo.

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O ESPÍRITO DE SION

Singer nos lembra um pouco do que foi o "espírito" da reunião ocorrida na escola da Congregação Nossa Senhora do Sion no dia da fundação do Partido dos Trabalhadores, em fevereiro de 1980:

"(...) a proposta de fundação do partido, aprovada em Congresso dos Metalúrgicos (janeiro de 1979), falava em criar um partido 'sem patrões', que não fosse 'eleitoreiro' e que organizasse e mobilizasse 'os trabalhadores na luta por suas reivindicações e pela construção de uma sociedade justa, sem explorados e exploradores', expressão que significava, na época, uma referência cifrada ao socialismo." (p. 88)

Em seguida, Singer descreve um pouco das forças políticas e segmentos sociais que participaram daquela construção partidária: grupos de intelectuais de diversas áreas do saber e cultura, grupos religiosos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o movimento sindical mais combativo (novo sindicalismo) e movimentos sociais. É uma mistura de segmentos sociais histórica essa que criou o PT. 

Aliás, as mentiras que a extrema-direita inventa sobre o partido são muito ridículas e só fazem efeito porque as pessoas são muito preconceituosas e ignorantes (ignoram, não sabem)! O PT é um partido de crentes, de gente que tem religião e fé, sou ateu e militei no movimento sindical e partidário por décadas e nunca vi na vida tanto crente junto (pessoa que crê em algo além da matéria)! Talvez a proporção seja de uns 8 em cada 10 esquerdistas que se persignam, que têm seus deuses, santos e orixás. É uma riqueza imensa esse sincretismo religioso!

O partido foi criado pelos trabalhadores organizados a partir do "novo sindicalismo" surgido no final dos anos 70 e início dos anos 80. Até Perry Anderson descreve o PT como algo único no mundo pós-guerra.

"(...) A singularidade brasileira foi anotada por Perry Anderson, para quem o PT constituiu o único partido de trabalhadores de massas criado no planeta depois da Segunda Guerra Mundial." (p. 90)

Singer nos conta que o PT começou a fazer mudanças a partir dos anos 90 por causa do refluxo no mundo do trabalho, eram os efeitos do neoliberalismo, a recessão, desemprego etc.

"(...) Reconhecendo que o quadro havia se transformado, o I Congresso do PT, em 1991, elabora estratégia que busca ampliar o espaço para a luta institucional, uma vez que o movimento social entrara em descenso." (p. 93)

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O ESPÍRITO DO ANHEMBI

André Singer afirma:

"Se existe um momento específico que simboliza a irrupção da segunda alma do PT, acredito ter sido o da divulgação da 'Carta ao Povo Brasileiro', em 22 de junho de 2002..." (p. 95)

Que pena! E eu, bancário do BB recém-eleito diretor do Sindicato em abril daquele ano, estava naquele exato momento aguardando minha liberação do local de trabalho, a agência Vila Iara em Osasco, para começar a atuar como sindicalista no maior sindicato da categoria no país. Isso significa que o meu aprendizado do fazer política já seria com base na 2ª alma do PT e da Articulação Sindical da CUT. Um grupo que entendia que o capitalismo venceu...

"A alma do Anhembi, expressa no programa 'Lula 2002', compromete-se com a estabilidade e atira as propostas de mudança radical ao esquecimento. Enquanto a alma do Sion, poucos meses antes, insistia na necessidade de 'operar uma efetiva ruptura global com o modelo existente', a do Anhembi toma como suas as 'conquistas' do período neoliberal: 'a estabilidade e o controle das contas públicas e da inflação são, como sempre foram, aspiração do todos os brasileiros', afirma." (p. 97)

Eu começaria a aprender a ser sindicalista a partir de agosto de 2002 e enquanto isso, nas profundezas da alma do PT e da CUT, começava uma tendência a aceitar que o capitalismo vinha pra ficar. Eu lia documentos e textos falando do socialismo enquanto objetivos históricos, mas os objetivos imediatos sempre falavam primeiro, afinal, nós tínhamos que apresentar resultados dos processos de negociação entre capital e trabalho. E apresentamos resultados por vários anos seguidos!

"O que estava em jogo, na verdade, era o abandono da postura anticapitalista que o partido adotara na fundação..." (p. 98)

Dias atrás, agora em março de 2023, vi uma entrevista do novo presidente do PT-SP, o companheiro Kiko, ao Breno Altman, e em certo momento fiquei chocado (a gente ainda se surpreende!) ao ver afirmações na linha do que está dito por Singer em relação à alma do Anhembi. O capitalismo venceu... temos que melhorar um pouco a vida das pessoas... etc. E olha que passei a entender melhor o que era "conciliação de classe" uns anos depois de já ser sindicalista.

FIM DO AUTOFINANCIAMENTO DO PARTIDO

Aprendi no movimento sindical a expressão "quem cria, sustenta" em relação a lutar pelo fim do imposto sindical e pela sindicalização massiva dos trabalhadores para termos sindicatos independentes de governo e patrão.

Singer descreve o que aconteceu com o PT quando o espírito do Anhembi passou a dominar o partido. Ele cita um estudo de Pedro Floriano Ribeiro que diz:

"A grande guinada na estrutura de financiamento do PT ocorre em 1996: de um ano a outro, a participação do fundo partidário no total das receitas petistas passa de 12,3% para mais de 72%". (p. 100)

Singer acrescenta que a contribuição de empresas também aumentou a partir dos anos 2000. E termina o parágrafo demonstrando o fim do princípio de quem cria, sustenta.

"Em contraste, a participação dos filiados no financiamento do partido, que fora de 30% em 1989, caíra para menos de 1% em 2004." (p. 100)

O capítulo é longo e não dá pra colocar na postagem muita coisa.

O autor vai explicar o processo de popularização do partido nas classes de menor renda, ocupando o lugar que o MDB teve durante o período da ditadura. O PT vai perder base na classe média e nos grupos mais ideológicos à esquerda.

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"Em resumo, os indicadores empíricos convergem na direção de que, depois de 2002, o partido passa a ter menos força relativa na classe média, nos eleitores de alta escolaridade, no Sul/Sudeste e nas capitais das regiões mais ricas, cuja aceitação o caracterizava desde a fundação. Por outro lado, ampliou em escala significativa o suporte entre os eleitores de baixa renda, de baixa escolaridade, no Norte/Nordeste, nas metrópoles periféricas e no entorno das capitais. O PT vai, portanto, na mesma direção que o lulismo, tornando-se um partido popular." (p. 116/117)

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"PARTIDO DOS POBRES"

"Pode-se dizer que, depois de 2006, o partido ficou muito mais próximo do Brasil do que era até meados dos anos 1990, mostrando que estava certa a intuição de Juarez Guimarães quando ele escreveu que 'o PT tornou-se nos últimos anos mais nacional, mais brasileiro, mais sertão, mais samba, mais negro, mais nordestino e mais amazônico, mais agrário'. (...) Por ter entrado no coração do subproletariado, o PT adquire a feição de 'partido dos pobres', lugar que estava vago na política brasileira desde pelo menos 1989, quando o PMDB foi fragorosamente derrotado pelo fracasso econômico do governo Sarney." (p. 117)

Na conclusão do capítulo, Singer diz que a síntese das duas almas do PT, ainda que uma síntese "provisória" à época, 2012, é que a esquerda passou a ser a minoria nos segmentos que apoiam o PT.

"(...) Isso significa que a base do PT, que era predominantemente de esquerda, passou a abrigar um contingente análogo de eleitores situados à direita, os quais, somados aos de centro, deixam a esquerda em minoria." (p. 118)

E olha que eu percebi isso dentro do movimento social ao longo de duas décadas...

O capítulo termina com Singer avaliando que enquanto durasse as melhorias para o povão, sem nenhuma mudança da ordem econômica e capitalista, o PT poderia ir longe. Só que vieram diversas mudanças internas e externas, crise capitalista, movimentações do imperialismo patrocinando novos golpes de Estado, junho de 2013, Lava Jato etc.

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COMENTÁRIO FINAL

É muito esclarecedor o livro de André Singer, mesmo lendo seus ensaios mais de uma década depois e após ver tudo o que aconteceu no Brasil entre 2013 e 2023.

A mim, que vive por dentro todo o período de ascensão e queda de Lula, do PT e do movimento sindical, fica muito claro entender por que no momento as coisas caminham como caminham, após a volta de nosso grande líder Lula à presidência do país num cenário completamente diferente dos cenários de governos anteriores.

Entendo por que na esquerda não há mais espaço algum para divergências de ideias e debates sobre estratégias e objetivos de futuro. Como diz Hobsbawm na "Era dos extremos", tudo compreender não é tudo perdoar. Uma coisa é entender como as coisas funcionam, outra é concordar com elas.

Chega, cansei de escrever nesta postagem longa.

William


P.S.: Para ler comentários sobre o capítulo anterior, é só clicar aqui.


Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, 3 de março de 2023

Lendo: Os sentidos do lulismo (II) - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 03 de março de 2023. Noite de sexta-feira.


"Eis o motivo de o ex-presidente insistir que 'nunca na história deste país...'. Irritados, os supostos 'formadores de opinião' não percebem que Lula não está se dirigindo a eles e martelam a tecla de que a história não começou com Lula, o que é verdade. Contudo, ouvido vários degraus abaixo, o bordão adquire sentido distinto: Nunca na história dos mais humildes o Estado olhou tanto para eles." (p. 81)


Hoje li o 1º capítulo - "Raízes sociais e ideológicas do lulismo" - do livro de André Singer e mesmo sendo uma análise de um período anterior da história política brasileira, um olhar sobre o comportamento do eleitorado brasileiro entre as eleições de 1989 e as eleições de 2010, é possível vermos explicações para o que ocorreria após o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018. Tenho a impressão, inclusive, que o eleitorado lulista descrito por Singer - os muito pobres e o subproletariado - foi fundamental de novo para a eleição de Lula em 2022.

"A combinação de elementos que empolga o subproletariado é a expectativa de um Estado suficientemente forte para diminuir a desigualdade sem ameaça a ordem estabelecida." (p. 52)

Li o capítulo relembrando o Brasil daquele período. Pertenci ao subproletariado nos anos oitenta e depois ao proletariado, após os anos noventa. Fui sindicalista nos anos dois mil e vivi intensamente cada momento descrito por Singer no capítulo. 

Me lembro como se fosse ontem a crise do "mensalão" em 2005 e 2006, e as crises sucessivas inventadas pelos manipuladores da casa-grande para desacreditar o governo Lula e a esquerda. Me lembro também de nossos acertos como, por exemplo, as campanhas para estabelecermos uma política nacional de valorização do salário mínimo etc.

Talvez a maior parte de nós da militância nunca tenha compreendido que os pobres no Brasil são de direita, são conservadores e não se identificam com a esquerda. Não é culpa deles, isso é uma questão histórica da luta de classes, e sabemos o poder da ideologia da classe dominante e a manipulação da consciência das massas sem acesso à educação e formação política.

A mudança substancial nas eleições de 2006 em relação às eleições de 1989,1994, 1998 e 2002 é que nessas os muito pobres e miseráveis votavam sempre na direita, nos coronéis, nos candidatos da casa-grande e endinheirados das metrópoles e na de 2006 votaram pela primeira vez na "esquerda", em Lula. Isso se repetiu em 2010 ao votar na candidata de Lula. Surgia ali o fenômeno do lulismo.

Os pobres elegeram Collor em 1989 e FHC nas seguintes e Lula só reverteu essa história dos muito pobres votarem na direita após seu primeiro mandato como presidente do país (2003-2006).

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POBRE QUER MELHORIA DE VIDA SEM SE ENVOLVER EM LUTA DE CLASSE

"Identificada como opção que punha a ordem em risco, a esquerda era preterida em benefício de solução pelo alto, de uma autoridade constituída que pudesse proteger os mais pobres sem ameaça de instabilidade. Esse seria o sentido da adesão intuitiva à direita no espectro ideológico. Era comum, nas pesquisas, os eleitores de baixa escolaridade entenderem a direita como o que é 'direito' ou como sinônimo de 'governo', a esquerda sendo o 'errado' e a oposição..." (p. 58/59)

MARX E O 18 BRUMÁRIO

"Marx, em O 18 Brumário, revela que a projeção de anseios numa figura vinda de cima, que deriva da necessidade de ser constituído enquanto ator político desde o alto, é típica de classes ou frações de classe que têm dificuldades estruturais para se organizar." (p. 59)

Pelos números observados nas eleições brasileiras avaliadas antes do fenômeno do lulismo é possível tirar a conclusão que o teto de 30% era da "esquerda" e não do líder "Lula". Ainda na eleição de 1998, isso é observado:

"Em decorrência, os argumentos da campanha de Lula de que Fernando Henrique tinha abaixado 'a cabeça para os banqueiros e agiotas internacionais [...], aumentou os juros [...] e as empresas estão fechando e demitindo' não atraíram mais do que os cerca de 30% de votos válidos que pareciam, então, constituir o teto do candidato, quando, na realidade, eram o teto da esquerda, socialmente limitada pela rejeição do subproletariado no extremo inferior de renda." (p. 62)

ENTRAM EM CENA OS PROGRAMAS DO GOVERNO LULA

Com as políticas sociais do governo Lula ao longo do primeiro mandato, houve uma mudança no perfil dos apoiadores e eleitores de Lula.

"Em resumo, o tripé formado pelo Bolsa Família, pelo salário mínimo e pela expansão do crédito, somado aos referidos programas específicos, e com o pano de fundo da diminuição de preços da cesta básica, resultou em diminuição da pobreza a partir de 2004, quando a economia voltou a crescer e o emprego a aumentar." (p. 68)

Esses resultados DA Política, como nos ensina Marilena Chauí no livro Leituras da Crise (ela discorre sobre a diferença entre a ética da política e a ética na política), fizeram com que Lula fosse reeleito mesmo após o massacre da crise do "mensalão", crise criada pela mídia da casa-grande por praticamente dois anos.

"Ou seja, durante a fase em que os atores políticos tinham a atenção voltada para as denúncias do 'mensalão', o governo concluía em silêncio o 'Real do Lula', que, diferentemente do original, beneficiava apenas a camada da sociedade que não sai nas revistas." (p. 69)

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"SÍNDROME DO FLAMENGO" OU ELEITOR POBRE NÃO TEM IDEOLOGIA PARTIDÁRIA

Singer traz um conceito formulado por Fábio Wanderley Reis usado para explicar a ascensão do MDB nos anos setenta e depois generalizado como visão estrutural da política brasileira.

"A 'Síndrome do Flamengo' faz o eleitor de baixa escolaridade escolher o partido mais ou menos como opta por um time de futebol. O MDB dos anos 1970 era o 'partido do povo', assim como o Flamengo era o 'time do povo'." (p. 71)

Achei interessante essa questão e isso me faz compreender até as mudanças dos eleitores nas últimas eleições, após o golpe de Estado em 2016.

"(...) Ou seja, não um partido de classe, mas do povo. Nesse script, o PT estaria agora substituindo o MDB dos anos 1970, tanto na falta de conteúdo quanto na capacidade de reter a lealdade popular." (p. 73)

LULISMO SE ESTABELECE NO PT

"Em resumo, argumentarei que o lulismo era uma força nova em 2006, a qual aderiu ao PT lentamente, mas acabou por tomar conta do partido, que, por seu turno, já vinha mudando de orientação programática desde 2002." (p. 74)

PROLETÁRIOS DEVERIAM TER MAIS CONSCIÊNCIA DE CLASSE DO QUE SUBPROLETARIADO DESORGANIZADO

"Para trabalhadores com carteira assinada e organização sindical, a luta de classes em regime democrático oferece alternativas de autodefesa em momentos de instabilidade. Porém, os que não podem lançar mão de instrumentos equivalentes, por não estarem organizados, seriam vulneráveis à propaganda oposicionista contra a 'bagunça'." (p. 75)

QUEM SÃO OS SUBPROLETÁRIOS, FOCO DO LULISMO?

"Subproletários são aqueles que 'oferecem a sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais'. Estão nessa categoria 'empregados domésticos, assalariados de pequenos produtores diretos e trabalhadores destituídos das condições mínimas de participação na luta de classes'." (p. 77)

Essa citação conceitual é de Paul Singer dos anos 80 e no texto nos é informado que o subproletariado era nada menos que 48% do PEA (População Economicamente Ativa).

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"Dado o seu tamanho, o subproletariado encontra-se no centro da equação eleitoral brasileira, e o coração do subproletariado está no Nordeste. Não somente porque na região empobrecida, que é a segunda mais populosa do país, habita boa parte dos subproletários, mas porque dela irradiam os subproletários que buscam oportunidade no centro capitalista, que é o Sudeste. Nucleado no Nordeste, onde Lula conta com elementos biográficos, mas estendendo-se para o conjunto do país, o lulismo, segundo indicam os dados eleitorais de 2006 e 2010, fincou raízes no subproletariado brasileiro." (p. 78)

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E AGORA, JOSÉ?

André Singer termina o capítulo com a pergunta de um milhão de reais. Como o PT e a CUT vão organizar a classe trabalhadora como pretendem sabendo dessas características do subproletariado e da multidão na informalidade e fora do alcance das organizações da esquerda?

"Em outras palavras, apesar do sucesso do PT e da CUT, a esquerda nao foi capaz de dar a direção ao subproletariado, fração de classe particularmente difícil de organizar. O subproletariado, a menos que atraído por propostas como a do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), tende a ser politicamente constituído desde cima, como observou Marx a respeito dos camponeses da França em 1848. Atomizados pela sua inserção no sistema produtivo, ligada ao trabalho informal intermitente, com períodos de desemprego, necessitam de alguém que possa, desde o alto, receber e refletir as suas aspirações dispersas. Na ausência de avanço da esquerda nessa seara, o primeiro mandato de Lula terminou por encontrar outra via de acesso ao subproletariado, amoldando-se a ele, mais que o modelando, e, ao mesmo tempo, fazendo dele uma base política autônoma. É isso que obriga a esquerda a se reposicionar." (p. 79/80)

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Capítulo com uma análise inteligente e perspicaz para que possamos compreender o Brasil e o povo brasileiro em relação à sua composição e seu comportamento nas questões políticas.

A primeira postagem sobre o livro de Singer pode ser lida aqui.

William


Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


quinta-feira, 2 de março de 2023

Lendo: Os sentidos do lulismo - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 02 de março de 2023. Noite de quinta-feira.


"Em suma, penso que no lulismo a polarização se dá entre ricos e pobres, e não entre esquerda e direita. Por isso, a divisão lulista tem uma poderosa repercussão regional, e o Nordeste, que é mais pobre, concentra o voto lulista. Daí, igualmente, termos maioria tucana de São Paulo para o Sul, e petista do Rio de Janeiro para o Norte. Isso significa que o lulismo dilui a polarização esquerda direita porque busca equilibrar as classes fundamentais e esvazia as posições que pretendem representá-las na esfera política." (p. 35)


Acabei lendo 50 páginas do livro de André Singer mesmo não sendo meu foco de leitura no momento. Ontem almocei com o grande amigo e companheiro Carlindo, professor e economista que dedicou sua vida ao Dieese e às lutas da classe trabalhadora brasileira. Em nossa conversa, acabei citando alguns livros, autores e textos formativos para minha compreensão política e a tese de Singer sobre o lulismo é um dos textos que me colocaram a pensar muito sobre o Brasil e o povo brasileiro.

O livro foi lançado em 2012 pela Companhia das Letras e é composto de uma "Introdução", que li hoje, e quatro capítulos, um "apêndice" e um "posfácio". O texto introdutório do professor André Singer é muito esclarecedor, honesto no que se propõe e só de ler a introdução, me veio à memória todo um período de minha vida como dirigente sindical e estudioso do movimento social ao qual militei por mais de duas décadas. Eu li o ensaio que Singer havia escrito antes do livro, talvez uns dois ou três anos antes da publicação, mas não conhecia detalhes como se apresentam no livro.

A ideia central do autor é que Lula conseguiu entre a eleição de 2006 e 2010 mudar a característica dos eleitores que o elegeram e que elegeram Dilma em seguida pela identificação ao líder. Os muito pobres, subproletários, não votavam no PT até 2006, era a classe média que votava no PT. Lula com seu mandato, suas políticas de inclusão pelo consumo e seu jeito conciliador conseguiu quebrar a ligação que havia entre os muito pobres e os coronéis e caciques políticos. Singer descreve como isso se deu. É uma tese muito coerente com o que vimos no país.

Vale a pena deixar algumas citações, contudo vale a pena mesmo é ler o livro e compreender o Brasil, Lula, o comportamento do povo quando o assunto é eleição e a política de forma geral. E a tese de Singer é história brasileira pura.

William

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LULISMO = COMBATE À POBREZA

"Em suma, foi em 2006 que ocorreu o duplo deslocamento de classe que caracteriza o realinhamento brasileiro e estabeleceu a separação política entre ricos e pobres, a qual tem força suficiente para durar por muito tempo. O lulismo, que emerge junto com o realinhamento, é, do meu ponto de vista, o encontro de uma liderança, a de Lula, com uma fração de classe, o subproletariado, por meio do programa cujos pontos principais foram delineados entre 2003 e 2005: combater a pobreza, sobretudo onde ela e mais excruciante tanto social quanto regionalmente, por meio da ativação do mercado interno, melhorando o padrão de consumo da metade mais pobre da sociedade, que se concentra no Norte e Nordeste do país, sem confrontar os interesses do capital, ao mesmo tempo, também decorre do realinhamento o antilulismo que se concentra no PSDB e afasta a classe média de Lula e do PT, criando-se uma tensão social que desmente, como veremos, a hipótese de despolarização da política brasileira pós-ascensão de Lula." (p. 15/16)

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POBRE CONSERVADOR VÊ EM LULA A MELHORA SEM BADERNA

"O subproletariado reconhecendo na invenção lulista a plataforma com que sempre sonhara - um Estado capaz de ajudar os mais pobres sem confrontar a ordem -, deu-lhe suporte para avançar, acelerando o crescimento com redução da desigualdade no segundo mandato, e, assim, garantindo a vitória de Dilma em 2010 e a continuidade do projeto ao menos até 2014." (p. 21)

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CLASSES EM SI (MASSAS) E CLASSES PARA SI (COM CONSCIÊNCIA DE CLASSE)

"Em cada um deles (modo de produção asiático, o antigo, o feudal e o moderno burguês) há classes em si, ocupando posições objetivas nas relações de produção. As classes podem transformar-se em classes para si, isto é, conscientes de seus interesses e dispostas a lutar por eles no plano da política. No caso de classes em si que não logram se unificar e conscientizar-se para a ação coletiva, tendem a aparecer na luta política como massa, estruturada de fora para dentro, como acontece em O 18 Brumário (de Marx)." (p. 23/24)

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LULISMO É CONFLITO ENTRE POBRES E RICOS E NÃO ESQUERDA E DIREITA

"Procuraremos argumentar que o lulismo faz uma rearticulação ideológica, que tira centralidade do conflito entre direita e esquerda, mas reconstrói uma ideologia a partir do conflito entre ricos e pobres." (p. 32)

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LULISMO E VARGUISMO

"(...) o lulismo representa a criação de um bloco de poder novo, com projeto próprio, para cuja compreensão as noções de política de massa (O 18 Brumário) e de revolução passiva (Gramsci) me parecem úteis, desde que filtradas pela cor local. Um poder aparentemente acima das classes que leva adiante a integração do subproletário à condição proletária, assim como o varguismo soldou os migrantes rurais à classe trabalhadora urbana por meio da industrialização, da CLT e do PTB." (p. 45)

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Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

090222 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 9 de fevereiro de 2022. Quarta-feira.


Após ler 4 livros em janeiro, decidi dar um tempo com leituras de romances e clássicos da literatura mundial. Tenho coisas a resolver que vêm sendo adiadas por uma certa comodidade e por opção de focar algo que dê prazer pessoal como a leitura. Acho que vou ter saudades de uma boa leitura por prazer.

Estou trabalhando a revisão e impressão de meus textos produzidos neste blog ano passado. São 275 postagens. A releitura me permite fazer uma retrospectiva cultural e uma avaliação pessoal. A revisão está dando muito trabalho, boa parte das postagens são reflexões e comentários sobre a leitura de mais de 50 livros e sobre a vida. Faltam ainda ler e imprimir umas 70 postagens, os últimos 3 meses e meio do ano de 2021.

Outra empreitada que precisa ser feita definitivamente neste momento de minha vida é a avaliação de milhares de papéis, documentos, revistas, livros etc, acumulados ao longo de décadas como adulto que adquiria materiais com a intenção de estudar e melhorar os conhecimentos gerais sobre o mundo e a existência. 

São coisas muito interessantes, mesmo as mais antigas. No entanto, eu sou outro, o momento é outro, o mundo é outro. Até para jogar fora ou doar alguma coisa é necessário o escrutínio de tudo aquilo. Foda! Eu quis ser poliglota, quis ser erudito, quis ser professor. Acabei sendo o que fui, um bancário, um sindicalista, um representante da classe trabalhadora. Um eterno estudante. E agora estou fora daquele mundo e boa parte daqueles materiais perderam o sentido para mim. 

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Singer e a tese do lulismo.

LULISMO EM 2010... LULISMO EM 2022. BINGO!!!

Li uma entrevista da BBC Brasil com o jornalista e cientista político André Singer, de 19/2/2010, muito interessante.

Na época, eu tinha interesse no tema como uma liderança da categoria bancária. Cheguei a ler o longo artigo de Singer sobre sua tese do lulismo. Vi muito sentido na teoria. Ainda hoje vejo sentido.

Os eleitores de Lula mudaram entre a eleição de 2002 e 2006. Os eleitores de Dilma e do PT em 2010 também já tinham características diferentes. 

Ao ler o artigo hoje, 12 anos depois, pude ver muita coerência com o Brasil que temos. Uma parte dos eleitores de Lula não é nem de esquerda, nem de direita. São pobres e remediados conservadores nos costumes, não gostam de "baderna" nem agitação, não são militantes de lutas sociais. Só querem as coisas que todos deveriam ter e um Estado que ajude as pessoas a terem esses bens de consumo.

Dá uma dó danada jogar o texto fora. Mas eu tenho zilhões de textos assim, papéis, papéis. E agora já é uma leitura só para mim, não sou representante de nada, não sou influenciador de ninguém. Nem as pessoas próximas a mim querem opinião de alguma coisa. A opinião da gente não serve mais, nem nas merdas de bolhas nas quais vivíamos na última década de algoritmos.

Mas valeu a leitura. Singer demonstra muita perspicácia em suas teorias e leituras de mundo.

No verso do texto encontrei um rascunho meu de uma palestra para bancári@s falando sobre o papel dos delegados sindicais. Contei a origem da organização da categoria bancária desde os anos oitenta etc e tal. Eu fazia muito isso. 

Feito o registro.

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BRASIL DE NAZISTAS, RACISTAS, MILICIANOS E TORTURADORES

Opinião

Sei que é inútil comentar alguma coisa sobre os fatos diários dos absurdos que passamos a viver desde o golpe de Estado em 2016. Bolsonaro está no poder porque ele foi colocado lá pela casa-grande brasileira. Ele foi colocado lá pela imprensa golpista e seus empresários. 

O golpe contra a democracia, contra o povo, contra o Brasil foi um conluio que envolveu os donos do poder: os caras que usam talheres à mesa (não são bolsonários na etiqueta) e estão nas instituições do Estado nacional. Temer e o clã Bolsonaro e toda a alcateia eleita em 2018 são frutos desse processo conduzido pela casa-grande.

O rapaz YouTuber e o deputado que fizeram apologia ao nazismo e defenderam o direito de haver um partido nazista no Brasil (Monark e o Kataguiri) são produtos do processo de destruição da política conduzido pela casa-grande brasileira. Dois anos atrás, um apresentador do SBT (Marcão do povo, em 8/4/20) defendeu que o presidente fizesse campos de concentração para os doentes por Covid-19. Falou isso no ar.

Mas o marco, o divisor de águas, da mudança do Brasil mais justo que vínhamos construindo para essa desgraça na qual estamos, ocorreu no dia da votação no Congresso Nacional do afastamento da presidenta Dilma Rousseff (17 de abril de 2016), afastada sem crime algum, mesmo tendo sido eleita com 54,5 milhões de votos. 

Dilma, mulher, mãe, cidadã brasileira, foi torturada na ditadura brasileira de 1964-85. Os depoimentos na Comissão da Verdade revelaram horrores vividos pelas vítimas de tortura. Pancadas, afogamentos, choques, estupros, atos inimagináveis feitos algumas vezes com os filhos das vítimas vendo aquilo. Ratos colocados nos órgãos genitais das mulheres. Os torturadores eram "o pavor" das vítimas. Dilma sobreviveu às torturas.

Naquele dia da votação do afastamento de Dilma, o então deputado Jair Bolsonaro pegou o microfone da Câmara Federal, em rede nacional, e disse estar votando em homenagem ao torturador Ustra, "o pavor de Dilma Rousseff". Apesar de ser inacreditável, aquele homem fez isso.

Esse criminoso não saiu preso, não foi processado, não foi excluído da vida política e pública do país. Pelo contrário, seguiu cometendo crimes como esse e por conluio de todas as instituições do Estado chegou à presidência em 2018, num processo político viciado e cheio de fraudes e ilegalidades como as fake news

Aqui estamos em fevereiro de 2022. Brasil destruído pelo golpe de 2016, depois daquela excrescência lesa-pátria da Lava Jato, depois das "eleições" de 2018; 633 mil mortos por Covid depois, cá estamos nesta situação que estamos...

Chega por hoje.

(só pra lembrar: são "ficha limpa" os bolsonaros, o Queiroz, o Moro e mais dezenas de gente dessa laia)

William