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sábado, 13 de dezembro de 2025

Vendo filmes (XXXIII)


O grito de Crisóstomo.


Refeição Cultural


O DIVERSO É O COMUM

Certa vez, quando era adolescente, cheguei numa madrugada, vindo da rua, e dei um longo grito no quintal de minha avó, onde morávamos, e assustei muita gente. Foi um ato insano. Foi um grito de dor. Não deveria ter feito aquilo, mas fiz. Devia estar numa deprê impossível de suportar.

Ao assistir ao filme "O filho de mil homens" me lembrei na hora desse episódio de minha vida ao ver Crisóstomo gritar em frente ao mar para aliviar sua dor e sua solidão.

Vi por esses dias três filmes que me deixaram pensativo, filmes cuja temática central diria ser as idiossincrasias desse fantástico animal que somos, os seres humanos, únicos na natureza enquanto espécie que cria abstrações que dominam os criadores e únicos no comportamento mesmo sendo bilhões de indivíduos da mesma espécie. 

Os filmes "O filho de mil homens" (2025), "O pior vizinho do mundo" (2022) e "Papai" (2023) se interligaram em minhas reflexões ao me fazerem pensar nas complexidades das relações humanas, nas violências dolorosas dos preconceitos humanos e nas possibilidades de mudança contidas em cada um de nós, enquanto seres incompletos e biologicamente preparados para as adaptações aos ambientes aos quais estamos inseridos como seres vivos e tentando sobreviver. 

Crisóstomo (Rodrigo Santoro), Otto (Tom Hanks), Clark (Sean Penn) e as personagens com as quais interagem e convivem ou por um curto espaço de tempo ou por toda uma vida refletem a questão que me deixou bolado nesses dias: o quanto somos diversos e o quanto a solidão de alguma forma marca a vida de boa parte da sociedade humana, muitas vezes pelo fato de não nos encaixarmos naqueles padrões violentos impostos a nós por outros.

O rapaz que gritou no quintal de casa numa madrugada lá nos anos oitenta sentia uma dor impossível de suportar no peito. Crisóstomo grita quando precisa aliviar a dor que sente no peito. A solidão nesses casos não era solitude, era incompletude. 

Otto encontrou certo dia a cor em sua vida, o motivo de seguir adiante. Depois sua vida ficou cinza, opaca. O rapaz que não se encontrava na vida, que vivia a esmo num mundo cinza, encontrou a cor nas veredas que trilhou, depois encontrou sentidos nas coisas que lhe destacaram para fazer.

Na conversa entre Clark e a jovem Girlie vemos os acasos do destino que definem as vidas de todos nós, fuck esse papo furado de controle da situação... controle o cacete! Ninguém controla nada! Assim foi minha vida também... de vereda em vereda...

Quando vi, estava fora de casa. Quando vi, brigava com todo mundo, queria viver, queria morrer, queria amar. Quando vi era pai, aventureiro, sindicalista, tinha emprego fixo quase sob tortura de um governo desgraçado.

Acho que Crisóstomo nunca foi condutor. Otto nunca foi condutor. Incrível, mas Clark não conduziu sua vida, o acaso a definiu. Nunca conduzi minha vida. Ela foi indo, indo, a esmo. Só fiz foi tentar fazer o correto da jornada.

Concluí muita coisa da existência. Vejo o diverso a cada olhar ao redor... Vejo muita dor e solidão também... Queria poder aliviar a dor de muita gente...

Hoje nem gritar eu posso...

Como nos ensina Rubem Alves em seu texto perfeito "O nome" (ler aqui), vivemos numa gaiola, o nosso nome, e já se esperam tudo de mim, e de Crisóstomo, e de Otto, e de Clark, e de cada um de vocês.

O que nos salva das gaiolas dos nomes são os imponderáveis que a existência nos apresenta a cada amanhecer e anoitecer. 

Enfim, as histórias das personagens desses filmes, suas dores, as violências e preconceitos que viveram, os encontros e as descobertas, as relações humanas pelo simples fato de existirem, me fazem encerrar de forma otimista as reflexões.

Amanhã será outro dia, por muito tempo ainda. Não só para mim, um personagem do mundo, mas para todos nós, viventes desse mundo cheio de diversidade. 

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FILMES


O filho de mil homens (2025) 

Direção: Daniel Rezende. Roteiro: Daniel Rezende, Valter Hugo Mãe, Duda Casoni. Com: Rodrigo Santoro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Johnny Massaro, Rebeca Jamir, Grace Passô e elenco.

Sinopse (Netflix):

Em uma pequena vila, um pescador solitário (Crisóstomo) com o sonho de ter um filho se conecta, de forma extraordinária, a um grupo de pessoas e seus segredos.

Comentário: 

O filme retrata de forma surpreendente as questões complexas ligadas às relações humanas, abordando o quanto a violência e as diversas formas de preconceitos podem afetar a vida das pessoas, alterando o curso de suas histórias.

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O pior vizinho do mundo (2022)

Direção: Marc Forster. Roteiro: David Magee Com: Tom Hanks, Mariana Treviño, Rachel Keller, Manuel Garcia-Rulfo, Cameron Britton, Juanita Jeannings, Mack Bayda.

Sinopse (Netflix):

Decepcionado com o mundo e cansado da dor do luto, um aposentado rabugento planeja pôr um fim nesse sofrimento, mas tudo muda quando conhece uma família cheia de vida.

Comentário:

Filme muito bom! Otto é o vizinho ranzinza que gosta das coisas certas e das regras respeitadas em seu condomínio de casas, algo muito difícil de se ver. Ao longo da história, vamos conhecendo as particularidades de Otto e fica mais fácil entender como cada um de nós é diferente e único no tecido social chamado sociedade humana.

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Cena do filme "Daddio"

Papai (Daddio), de 2023. 

Direção: Christy Hall. Com: Sean Penn e Dakota Johnson.

Sinopse (Wikipedia):

Após aterrissar no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, uma jovem toma um táxi para regressar ao seu apartamento em Manhattan, Nova York. Durante a corrida, e o trânsito intenso por causa de um acidente, ela e o taxista Clark conversam sobre diversos temas, inclusive os relacionados à vida pessoal deles.

Comentário:

Poderia parecer uma história sem verossimilhança o nível da conversa entre a jovem passageira e o motorista se não tivéssemos o hábito de pegar táxi ou aplicativo e de repente começar a ouvir as histórias mais absurdas ou até mesmo contar a um estranho questões de foro íntimo. Gostei do filme e fiquei pensando também sobre as idiossincrasias de cada ser humano.

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É isso! 

Essa foi mais uma postagem da série sobre filmes.

O texto anterior pode ser lido aqui.

William

domingo, 31 de dezembro de 2023

São Silvestre 2023 - Minha história de superação


Fui, corri, completei os 15 Km.

Refeição Cultural

E no fim, corri para fazer uma pessoa feliz, alguém com o coração apertado... eu mesmo! A sensação de concluir o percurso da prova é incrível! Desejaria a emoção a todas as pessoas do mundo!


"Daqui alguns dias teremos no Brasil mais uma edição da tradicional Corrida de São Silvestre. Queria correr a prova. Não dou conta. A natureza e a realidade são implacáveis com os seres naturais. Fui para o Sabiá conversar com o meu corpo. Corri, andei, senti minhas energias. Para me arriscar numa empreitada que exigisse a quantidade de energia que o percurso da prova exige, teria que ser algo cuja finalidade fosse um feito grandioso, que valesse para a coletividade, ou para um coração apertado; gastaria toda essa energia para salvar uma vida, para lutar contra uma injustiça, para mudar o mundo, para fazer uma pessoa feliz." (minha reflexão em 23/12/23, em Uberlândia)


No filme icônico Forrest Gump - O contador de histórias (1994), o personagem Forrest (Tom Hanks), após uma grande tristeza em relação à mulher amada, decide pegar seu tênis, calçá-lo e sair correndo para lidar com a dor que está sentindo em seu peito. Corre, corre, corre de uma ponta a outra do país, vai de um oceano ao outro e volta. Depois, quando sua amada Jenny diz que gostaria de ter estado lá com ele, Forrest diz a ela que sim, ela estava lá... é uma das cenas mais lindas do cinema que eu conheço!

São Silvestre 2009.


Uma vez eu corri a São Silvestre como o personagem Forrest... teve até pessoas que gritaram pra mim - "run Forrest, run!". Foi legal!

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11ª participação na São Silvestre

Eu não corria a São Silvestre desde 2019, ano anterior à maior pandemia que o mundo viu em um século. Nós que estamos aqui sobrevivemos ao genocídio empreendido pelo governo brasileiro à época. Infelizmente, 700 mil pessoas morreram, muitos amig@s e pessoas queridas de cada um de nós. Somos pessoas de sorte! Eu sou uma pessoa de sorte, como diz a música I'm Lucky Man, da banda The Verve. Eu sempre registro isso, porque entendo que é uma realidade.

A minha condição física após a pandemia regrediu bastante. Percebi isso.

Neste ano, tentando retomar um pouco do condicionamento físico, pensando na saúde e na qualidade de vida, voltei a praticar algum tipo de atividade física. A corrida de rua é o meu esporte favorito. Apesar de saber que tenho desgaste na estrutura do quadril, decidi retomar a caminhada e a corrida em trote leve.

Fiz um treinamento intensivo de caminhadas antes de agosto para fazer uma romaria de cerca de 80 Km (ver aqui), romaria que não fazia também desde 2019. Deu tudo certo e acabei me animando no final de setembro para voltar à São Silvestre.

Assim que me inscrevi no início de outubro, vi que a coisa seria mais complicada para mim. Fiz um planejamento para treinar nos três meses até a prova no dia 31 de dezembro e na segunda corrida do treino (8/out) senti uma contusão. Fiquei arrasado... andar 80 Km sim, correr 15 Km, não!

Repensei tudo ainda em outubro. Passei semanas me recuperando e sem poder correr. Pedalei um pouco, fiz um pouco de musculação e andei, andei, andei. Decidi que precisaria diminuir meu peso para ficar mais leve para minha estrutura física. Cortei algumas coisas que sempre comi, o pastel da feira, carnes muito gordurosas, o pãozinho, diminuí o arroz, doces e chocolates etc.

Quando voltei a correr meus trotes no meio do mês de novembro, aí foi que vi que o buraco era mais embaixo... que dificuldade da porra pra correr pequenas distâncias. Não era só a estrutura musculoesquelética que estava ruim, a cardiorrespiratória também. Ferrou geral!

Meio que desistindo sem desistir, corri três vezes em novembro, distâncias bem pequenas, só para avaliar batimento cardíaco, energia corporal, músculos e tendões das pernas etc. E segui andando bastante e emagrecendo um pouco. Corri mais duas vezes na primeira quinzena de dezembro. Diminuí 3 Kg no peso. E assim fui para o Natal com a família em Uberlândia. Já não pensava mais correr a São Silvestre neste ano.

Pq. do Sabiá, o paraíso.


Aí, em Uberlândia, tudo mudou entre os dias 22 e 26 de dezembro. Sou apaixonado pelo Parque do Sabiá! Quem não conhece precisa conhecer um dia aquele lugar. Pista de 5K, banheiros limpos em diversos pontos, água gelada, natureza impecável. Sério, acho que se eu morasse lá, até uma maratona eu ainda correria, mesmo fodido do quadril.

No feriado do Natal, decidi ir para lá nos dias 22, 24 e 26. Queria ficar algumas horas lá. Além da questão mental que se cura lá, tem a pista pra correr e caminhar.

No dia 22, me concentrei e decidi correr um pouco. A ideia era ver se corria 5K e sentir minha energia. Corri a volta e andei mais uma. Terminei relativamente bem. Mas pensei nos 15 Km e decidi não correr a São Silvestre. Foi o dia que joguei a toalha (citação acima).

Aí no dia 24, fui pro Sabiá pensando em outra estratégia de treinamento e para encontrar minha energia vital perdida. Amig@s, corri 9 Km acompanhando a pulsação e andando alguns metros sempre que estava alta, para voltar ao aceitável. Fiquei tão admirado que pensei que se tivesse mais algumas semanas, eu correria os 15K da São Silvestre.

No dia 26, antes de ir embora, acordei bem cedo, tomei um café, e fui para o Parque do Sabiá me despedir daquele paraíso. Meio pesado do café, andei rápido o 1º Km sem trotar. Depois mergulhei no trote, chuva leve, silêncio e pouca gente naquela manhã. Completei os 10K de boa. A alegria que senti internamente, só quem corre pode entender...

Chegando em São Paulo, fui retirar o Kit da prova no dia 29. Aquele clima das pessoas na maior expectativa me deu uma comichão incrível! Fiquei daquela hora em diante pensando se iria ou não para a Paulista pelo menos para correr um pouco e parar caso achasse que estava sem energia para a prova toda.

Av. São João. BB, Banespa e
Martinelli. Parte de minha vida
está ali para sempre.


Amig@s, fiz minha corrida concentrado, tranquilo, andei um pouquinho quando precisou. Curti o percurso e a festa como todo mundo curtiu. O centro de São Paulo é lindo!!!

Subi a Brigadeiro correndo a maior parte do trajeto. Cheguei com tanto arrepio e emoção no corpo que repito o que disso no início. Desejaria que todas as pessoas do mundo sentissem o quanto é gostosa a sensação que os corredores e corredoras têm quando terminam uma prova... É de encher os olhos... de alegria, não de tristeza.

É isso! Depois de uma superação dessas, a gente termina o ano sonhando até em correr provas maiores em 2024, do jeitinho que a gente pode.

Feliz Ano Novo a todas, todos e todes! A gente pode muita coisa, basta acreditar e perseverar!

William


sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Vendo filmes (IX)



Refeição Cultural

Filmes que me fizeram refletir sobre o comportamento humano e que me deixaram em alerta sobre o presente e o futuro da sociedade humana e do planeta Terra.

Um dos filmes está em cartaz e assisti no cinema, dirigido por Martin Scorsese, sobre a história de assassinatos e manipulações do povo indígena Osage na região de Oklahoma, EUA, no início do século vinte.

O outro filme é do final da primeira década dos anos dois mil, dirigido por Clint Eastwood, e retrata um dos momentos da vida de Nelson Mandela, já liberto e eleito presidente da África do Sul.

Por fim, um filme do início do século, dirigido por Steven Spielberg, sobre um jovem norte-americano que acabou virando um dos maiores falsários e estelionatários dos Estados Unidos, e sua perseguição pelo FBI.

Os três filmes são baseados em fatos reais. Eu gostei de todos eles.

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FILMES

Assassinos da Lua das Flores (2023) - Direção: Martin Scorsese. Com Robert De Niro (interpreta o poderoso "político" William Hale), Leonardo DiCaprio (interpreta Ernest Burkhart, sobrinho de Hale) e Lily Gladstone (no papel da osage Mollie Kile). O filme é baseado numa história real dos anos 1920, em Oklahoma, história relatada em um livro de David Grann. Os indígenas da etnia Osage descobrem petróleo em suas terras e a partir daí os brancos farão de tudo para se apropriarem do ouro negro e das terras indígenas.

COMENTÁRIO: Assistimos ao filme no cinema e a história é tão envolvente que nem percebemos as mais de 3 horas de duração da sessão. A cada novo filme sobre a história dos norte-americanos e a essência do que seria a "América", mais me convenço do quanto os Estados Unidos não são referência alguma para a sociedade humana que vislumbro no planeta Terra. Senti a mesma coisa ao assistir ao filme de Scorsese O irlandês (comentário aqui). 

A violência no trato com o outro e a xenofobia, o desprezo pela vida humana e o foco absoluto na acumulação de propriedades ao invés de valorização dos seres humanos são bases sólidas da cultura norte-americana. Para aquele povo ou a maioria dele, tudo tem seu preço, tudo. Fiquei pensando na violência dramática que nós brancos invasores praticamos ao contatar povos originários em qualquer lugar do mundo. Triste demais o enredo do filme, principalmente porque sabemos que o genocídio de indígenas se deu ao longo de séculos de invasões. A direção de Scorsese é sensacional e as interpretações de DiCaprio, De Niro e Gladstone estão excelentes, dignas de premiação.

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Invictus (2009) - Direção: Clint Eastwood. Com Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela e Matt Damon no papel do jogador de Rúgbi François Pienaar. Com o fim do regime racial do Apartheid, com eleições nacionais incluindo a participação de todos - brancos e negros -, a África do Sul elege Nelson Mandela presidente da república. O líder sul-africano enfrenta uma situação de crise em todas as áreas do país, incluídas as áreas econômica, política e social, e o racismo segue alimentando o ódio entre brancos e negros. Mandela vê no Rúgbi, um esporte nacional, uma oportunidade para unificar o país e quebrar a barreira racial do povo sul-africano.

COMENTÁRIO: Demorei para ver esse filme. Confesso que assistir em 2023 a esse filme que nos apresenta uma história real de Mandela me fez sentir um aperto no coração, me deixou emocionado e chorei algumas vezes. Por que? Além de ter lido a autobiografia de Mandela e passar a conhecer com mais detalhes a vida e a luta de Madiba e do povo negro sul-africano reunido através do Congresso Nacional Africano (CNA), avalio que homens pacifistas como Mandela, Gandhi e Lula, ainda vivo e maior estadista global, não teriam ou têm, no caso de Lula, espaço num mundo de humanos surdos e robotizados pela mudança de comportamento mental ocorrida nas últimas duas décadas pelas máquinas de redes sociais e suas parafernálias algorítmicas usadas em escala global para alterar o comportamento da espécie humana. 

Com a mudança de comportamento humano, o diálogo e a política que fizemos por milênios, ou pelo menos por séculos - que só ocorrem com humanos que ouvem, que se toleram, que estão abertos ao convencimento -, vão se esgotando. As relações humanas tendem a acabar, as amizades, o amor, a solidariedade, os sentimentos nobres. 

Ao não sabermos mais conviver com a divergência, voltamos a ser como os animais selvagens na natureza. Os tempos de destruição do cérebro humano são os tempos de canalhas e sofistas manipuladores de gentes ignorantes e abobalhadas, são tempos de trumps, bolsonaros e outros vigaristas como aquele que está disputando as eleições na Argentina neste fim de semana... muito triste tudo isso, vermos o fim de figuras como Mandela e Lula (algum tempo adiante) e não termos reposição de humanos como esses.

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Prenda-me se for capaz (2002) - Direção: Steven Spielberg. Com Leonardo DiCaprio, Tom Hanks, Christopher Walken e demais elenco. O agente do FBI Carl Hanratty (Hanks) persegue de forma obsessiva o vigarista Frank Abagnale Jr (DiCaprio) para colocá-lo atrás das grades. O rapaz é muito esperto e sempre passa a perna no agente do FBI.

COMENTÁRIO: É mais um filme baseado em fatos reais ocorridos nos anos sessenta nos EUA. Achei interessante relembrar como funcionavam os bancos e as formas de pagamento naquela época. O rapaz estelionatário, além de se passar por profissões complexas sem saber nada sobre elas - copiloto de avião, médico pediatra e advogado -, falsificava cheques como ninguém. 

Me lembrei do trabalho de bancário nos anos oitenta e noventa. Nós fazíamos cursos para conhecer sobre assinaturas, sobre formas de falsificar cheques e dinheiro etc. No filme, Frank passava cheques em tudo quanto é lugar sabendo até quanto tempo se demorava para compensar o cheque e descobrir que ele era falso. Nós caixas dos anos noventa tínhamos que saber até se o local de emissão do cheque (a praça) era feriado ou não porque isso influenciava em quantos dias o cheque seria pago ao recebedor daquela ordem de pagamento.

Gostei do filme. O jovem DiCaprio interpreta muito bem os papéis que representa desde quando era garoto.

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As sugestões anteriores sobre filmes podem ser lidas aqui.

É isso! Reflexões culturais compartilhadas.

Abraços aos leitores e leitoras!

William Mendes


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Vendo filmes (VIII)


O sol que dá a vida é o mesmo
que pode causar a morte.

Refeição Cultural

Catarses através da sétima arte...


Nesta postagem faço breves comentários sobre três filmes bem diferentes um do outro. 

Um filme antigão que só fui ver agora e que me impressionou pela ousadia do tema e da produção: O império dos sentidos.

Um filme muito interessante sobre a história de um rapaz com autismo ou Transtorno do Espectro Autista (TEA) em busca de uma realização. Temática atual de O milagre de Tyson.

E um filme encantador e assustador ao mesmo tempo: Finch. Uma história de amor e amizade entre um homem e um cachorro num mundo apocalíptico.

Todos eles me fizeram refletir sobre os temas e sobre a vida.

William

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FILMES

O império dos sentidos (1976) - Japão e França. Direção: Nagisa Ôshima. Com Eiko Matsuda no papel da ex-prostituta Sada e Tatsuya Fuji no papel de Kichizo. Filme conta a história de amor e paixão de Sada e Kichizo no Japão dos anos trinta. É um filme erótico, mas é considerado um filme de arte e marcou época.

COMENTÁRIO: Nos anos oitenta ouvia-se muito falar sobre esse filme japonês, eu era adolescente e fiquei curioso por muito tempo. Acabou que a vida foi passando e eu nunca vi o filme. A cena do ovo na vagina da atriz era uma das referências desse clássico. Dias atrás, acabei conhecendo finalmente O império dos sentidos, dirigido por Nagisa Ôshima e estrelado pela bela Eiko Matsuda no papel de Sada. Que filme doido! Imagino como deve ter causado impacto nos anos oitenta onde pôde ser visto. O casal de amantes vai se entregando compulsivamente aos novos prazeres que o sexo pode proporcionar a eles e a situação vai ficando cada dia mais extravagante. É doido! Finalmente conheci O império dos sentidos! Nunca é tarde para se conhecer coisas velhas (novas)!

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O milagre de Tyson (2022) - EUA. Direção e roteiro: Kim Bass. Com Major Dodson no papel do jovem Tyson Hollerman. Garoto com TEA (Transtorno do Espectro Autista), educado em casa por sua mãe e filho de um famoso treinador de futebol americano do Estado passa a frequentar a escola onde o pai é técnico e após sofrer bullying decide que quer correr e vencer uma maratona para ser aceito pelo pai. Ele contará com o apoio do maratonista Aklilu (Barkhad Abdi).

COMENTÁRIO: Gostei do filme! É mais comum em filmes que apresentam personagens com algum grau de deficiência física ou intelectual abordar as habilidades desenvolvidas pelos PcD em áreas da cultura ou das intelectualidades. Rain Main (1988) foi um dos filmes que marcaram época com a interpretação do autista Raymond por Dustin Roffman. O filme sobre o jovem Tyson Hollerman tem uns clichês básicos como o pai de Tyson querer ser o pai da moral e dos bons costumes, coisa ridícula sendo ele um típico personagem que caracteriza bem o que é o cidadão médio norte-americano. No entanto, acompanhar o dia a dia do garoto superando o bullying e as dificuldades inerentes à sua condição de não atleta de alta performance na corrida de longa distância é emocionante. Vale a pena ver o filme!

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Finch (2021) - EUA. Direção de Miguel Napochnick. Com Tom Hanks. Num futuro pós-apocalíptico, homem doente cria um robô com a intenção de cuidar de seu cachorro. O filme teria outro nome, Bios, quando foi anunciado em 2017 e produzido em 2019, antes da pandemia de Covid-19, e só foi lançado dois anos depois ao ser vendido para uma empresa de streaming, Apple TV.

COMENTÁRIO: Assisti ao filme em um ônibus de viagem. O enredo é excelente! Tom Hanks interpreta Finch, sobrevivente humano de um mundo superaquecido durante o dia por causa da destruição da camada de Ozônio do planeta Terra. O roteiro é muito bem-feito e deixa o telespectador envolvido na trama do início ao fim. O cenário é assustador e muito realista para as pessoas minimamente informadas sobre as consequências da emergência climática vivida por nós nesta quadra da história. É impossível não nos encantarmos com o cachorro Goodyear, companheiro de Finch naquele mundo quase sem vida e o pequeno robô Dewer. E para completar a equipe que luta pela vida temos Jeff, robô criado para cuidar do cachorro na ausência de Finch. É um road movie que nos deixa pensativos. E muito! A história tem amor, amizade, confiança e momentos de suspense e é difícil não se emocionar. Recomendo. Gostei demais e a trilha sonora é espetacular!

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Post Scriptum - Caso tenham interesse em ler comentário anterior sobre filmes é só clicar aqui.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Forrest Gump: destino? Acaso? Correndo, refletindo.



Forrest Gump.

Refeição Cultural

Os últimos dias têm sido muito estressantes em meu trabalho. Na semana anterior, as longas jornadas diárias me fizeram passar o final de semana prostrado de cansaço. 

Se as cargas físicas e emocionais fossem sazonais, nossa psique aguentaria sem drama. Mas o trabalho que desenvolvo é de estresse ininterrupto, semana a semana. Foi assim esses três dias de segunda, terça e quarta.

Hoje, quando foi 18 horas, saí do trabalho, desliguei o celular e cheguei a minha casa desesperado para colocar um tênis e sair para a rua, fosse para caminhar ou correr. Meu Tendão de Aquiles do pé direito não está bom já faz uns 13 dias.

Comecei a correr pelas alamedas da região que moro e logo pensei na cena do clássico Forrest Gump. Insisti em correr mesmo com o tendão estando sensível. Corri 7k em 44'.


Existe destino ou fazemos nosso destino? Coincidências ou acasos?

Coincidência? Cheguei da corrida, tomei banho e deitei no sofá para descansar. Assim que minha esposa clicou nos canais, lá estava ele, o filme Forrest Gump, no começo.

Hoje, o filme me emocionou várias vezes. É como estou: sensível como meu tendão.

Esse filme é um dos melhores filmes que conheço. A cena em questão, que citei acima, é a cena em que Forrest Gump ganha um tênis de sua amada Jenny, em uma de suas voltas do mundo (ela sempre vai embora).

Após um dos melhores dias de sua vida ao lado da amada, Forrest acorda sozinho de novo. Desolado, ele senta na varanda, olha para o horizonte e sai para correr. E correu; correu; correu.

Forrest correu 3 anos, 2 meses, 14 dias e 16 horas. Ele queria correr (entendo que precisava correr). Ele diz em suas reflexões que iam em seus pensamentos sua mãe, o tenente Dan Taylor, o amigo Bubba e, principalmente, sua amada Jenny.

Parece que minha vida atual me exige que eu coloque um tênis e corra, corra, corra. Acho que é para esquecer as coisas e poder olhar o amanhã, o futuro. Prosseguir.

Em outro momento em que Forrest fala sobre seu tempo nas estradas, nos mares e correndo, ele está descrevendo para Jenny o que viu pelos belos lugares por onde passou. Desertos, montanhas, oceanos. Jenny diz que gostaria de ter estado lá, e Forrest lhe explica que ela estava lá!

No leito de morte de sua mãe, ela explica a Forrest que está morrendo e que isso faz parte da vida. Ela fala sobre o conceito de destino, questionando esta lógica de que as coisas estão dadas. Explica que a vida é como uma caixa de chocolate, pois nunca se sabe o que vai se encontrar. Deixa a lição ao filho para aproveitar as oportunidades e fazer o seu destino.

O tenente Dan já abordava o destino de forma mais determinista. O que está escrito no destino, tem de ser.

Forrest termina refletindo sobre os dois conceitos e pensa que pode ser as duas coisas. Pode haver o destino e pode haver o acaso, e então fazemos o nosso destino.

E eu, que penso?

É duro de definir. Como tenho uma mente curiosa, um espírito filosófico, sempre me peguei pensando nisso, mas desde muito adolescente.

E não acho possível ter posição conclusiva.

Minha vida toda foi como uma caixa de chocolate...

Quando olho como fui parar nas coisas onde parei, fazer as coisas que fiz, as veredas que andei... nos dá muito a pensar! Muito!

Hoje precisava correr. Durante a corrida, lembrei das reflexões que o filme Forrest me traz. O acaso me colocou na frente o filme de Forrest. Agora vou dormir.

Não concluo nada sobre destino, sobre acasos.

A vida é muito parecida com uma caixa de chocolate.


William Mendes


Post Scriptum: se eu fosse falar da trilha sonora do filme, então... seria uma belezura, porque a trilha do filme é o mundo!!!

sábado, 10 de abril de 2010

Refeição Cultural 48 - O resgate do soldado Ryan, 1998, Spielberg

Foto de William Mendes abr/10.
(atualizado em 11/04/10)

Cheguei a casa nesta sexta-feira, cansadaço da semana de trabalho e acabei colocando o filme de Spielberg sobre um evento real da 2a GM - o desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944 - e sobre um evento ficcional - o resgate de um soldado americano, cujos três irmãos haviam morrido no mesmo conflito.

A opção pelo filme foi meio circunstancial, pois meu filho o assistiu com os amigos para fazer um trabalho de escola. Como eu não via o filme há muito tempo, resolvi dar uma olhada.

Aliás, dar uma olhada é modo de dizer porque na verdade são quase três horas de sofrimento na cadeira, pois além do martírio dos 2o minutos iniciais - o banho de sangue na tela reproduzindo o desembarque na praia dos soldados americanos sob fogo cruzado dos alemães - o restante do filme segue com a tensão do cotidiano da guerra, de não saber sobre o minuto seguinte.

Destaco a excelente interpretação do ator Tom Hanks. É impressionante como grandes filmes que marcaram uma geração - a minha - têm a interpretação desse ator, filmes como Forrest Gump e O Náufrago.

Após o filme, li um pouco sobre a 2a GM. Foram 20 páginas de uma velha apostila do Anglo sobre o conflito.

REFLEXÃO
Terminado o filme, fiquei pensando sobre a guerra e sobre nós, humanos de ontem e de sempre.

Não tenho uma visão otimista dos humanos quando olho as crianças e a juventude ao meu redor. Eu os acho deprimentes e vazios. Não existem mais valores como respeito ao próximo, ética, caráter, solidariedade e noção de justiça coletiva. Não existe!

O que fazer? Penso que devemos insistir na educação, mas primeiro deveríamos educar os adultos para então ser possível somar a educação em casa com a educação na escola.

Como os adultos estão deseducando seus filhos, dizendo que eles mandam no mundo e mandam nas pessoas que prestam serviços pagos por seus pais - educação, saúde, limpeza, transporte etc - não tem sido possível conjugar a liberdade que as gerações anteriores pensaram e conquistaram com a ideia de ética e de valores humanos como caráter, solidariedade e senso do respeito ao coletivo e ao próximo, que são tão necessários nas liberdades democráticas.

Pensar um mundo mais justo e igualitário, com menos guerras e intolerâncias, que conjugue democracia e liberdade, passa necessariamente por mudar os adultos que estão criando seres egoístas, egocêntricos e individualistas que não conseguem perceber sequer que todos vivem no mesmo espaço-mundo e que dependem uns dos outros para tudo, desde o pãozinho que comem até o ar que respiram.

Estamos atentos a isso? O que eu e você estamos fazendo neste momento, neste dia, em relação a isso?