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quarta-feira, 12 de junho de 2024

18 de 100 dias



18. Enquanto caminhava hoje pela manhã, pensei tanta coisa que acho uma pena as ideias se perderem depois que se chega em casa. Refletia sobre a minha busca de sentidos e objetivos para um viver de curto prazo: realizar alguma coisa a cada centena de dias.

O que quero ter feito até dois de setembro, primeira centena de dias de vida desde que pensei nesta forma episódica de viver em ciclos curtos de existência? 

100 dias pode ser muito tempo e pode ser tempo nenhum para determinadas coisas da existência e da natureza.

Uma pessoa pode melhorar sua saúde em 100 dias ou pode ter sua condição de saúde fodida em uma centena de dias... (minhas dores no quadril vão melhorar ou piorar, por exemplo?)

Uma pessoa pode aprender algo que mude sua vida em 100 dias e pode também passar a viver de negacionismo e desinformação numa espiral tão maluca que vire uma merda em forma humana...

Eu olho ao meu redor e o que vejo é horrível! Que merda virou o mundo! Da mesma forma que olho para fora, olho para dentro de minha vida e também percebo que não estou satisfeito. Sou um homem de sorte, por um lado, e sou uma pessoa que não tem encontrado realização pessoal, por outro. Que fazer?

Não defini um ou mais objetivos claros para perseguir em meu primeiro ciclo de 100 dias. Com o passar dos dias de busca de sentidos e de mudanças para a condição de insatisfação permanente, tenho obtido algumas noções de coisas a fazer.

Tenho que melhorar minha condição de saúde integral. Estou mais atento a isso. Sem a realização dessa tarefa, qualquer outra vai pro saco! Sem saúde e energia não sou nem estou no mundo de forma plena.

Tenho grande insatisfação por ter me tornado uma pessoa desorganizada na vida pessoal, sendo alguém que atuou para organizar o mundo lá fora durante minha militância e representação política. Casa de ferreiro, espeto de pau!

Avaliei nestes 18 dias de buscas por mudanças e sentidos que preciso organizar as mídias que tenho de cultura em geral. Fazer uma espécie de centro de documentação (cedoc), que inclua os livros que tenho, filmes, revistas, apostilas, cadernos, os mais de 5 mil textos que fiz em blogs e que estão em nuvens... ou seja, podem se perder a qualquer momento.

NUVENS

Uma das coisas que pensei enquanto caminhava é sobre essa questão das nuvens. É um erro crasso da humanidade confiar em depositar nossos conhecimentos e culturas em nuvens... ou seja, em meios digitais que estão mantidos em máquinas dos grandes donos do mundo, dos capitalistas, um bando de fdp fascistas que estão destruindo a humanidade e a natureza com todas as formas de vida.

É um erro não guardarmos nossos conhecimentos e culturas em meios físicos. As nuvens, os tais meios digitais servem de backup, mas não se pode deixar que toda a nossa produção humana esteja somente nas máquinas dos fdp donos do mundo, uns merdas como os donos das big techs!

Enfim, enquanto vou vivendo, acho que tenho que organizar o meu cedoc e que isso sirva pra alguma coisa (ou não), mas que esteja por aqui em algum lugar disponível. Podem pôr fogo depois, não sabemos o dia de amanhã. 

Que eu deveria organizar a quantidade enorme de conhecimentos e culturas que sei que tenho, isso deveria! Então, mãos à obra, caralho!

Fiz isso nos últimos dias.

William


sexta-feira, 23 de junho de 2023

Diário e reflexões - Linguagem II



Refeição Cultural

Osasco, 23 de junho de 2023. Sexta-feira.


UM MUNDO DE ANALFABETOS

A primeira postagem deste blog de cultura foi o conto "O alienista" de Machado de Assis, postagem feita em 23 de dezembro de 2007 (ler o conto e comentários aqui). Lembro aos leitores que a obra de Machado é de domínio público: pode ser reproduzida e divulgada sem pagar direitos autorais. Fico contente ao olhar para trás e ver o início desta jornada de leituras, escritas e reflexões: começar com Machado de Assis foi um acerto deste blog.

Machado de Assis, em seu tempo, tinha uma percepção perspicaz de que quase não havia leitores no Brasil do século 19. Eram raras as pessoas que iriam ler o que ele escrevesse nos meios da época, jornais e revistas. Livros tinham públicos menores ainda porque eram de pouco acesso às massas populares. E pouca gente tinha dinheiro também, coisa óbvia num país escravocrata e com poucas pessoas detendo todos os meios materiais: a nobreza e a casa-grande e seus apaniguados, agregados e lacaios.

Ao darmos um salto no tempo, saindo do século 19 de Machado de Assis para o século 21 do Brasil pós-golpe de Estado em 2016, após os governos de merda de Temer e Bolsonaro, e pós-pandemia mundial de Covid-19, vemos um cenário dramático no que diz respeito às perspectivas de acesso à educação formal e às oportunidades de formação intelectual da população brasileira, principalmente quando imaginamos a formação política e cultural da classe trabalhadora e das pessoas sem acesso aos direitos básicos da cidadania.

O cenário atual para a formação do ser humano, na minha opinião, é dramático.

Para além da complexidade das dimensões centrais da vida humana no que diz respeito ao acesso aos meios de sobrevivência - emprego, moradia, assistência médica etc -, tenho uma preocupação cada dia maior com o não aproveitamento das potencialidades inatas ao cérebro humano, essa máquina fantástica desenvolvida na espécie animal homo sapiens ao longo de milhões de anos. 

Tenho uma teoria a respeito da alteração rápida que vem ocorrendo em nossa linguagem humana com o uso das atuais ferramentas tecnológicas que criamos - as redes sociais e aparelhos de comunicação -, que facilitaram a comunicação sem a necessidade de escrever as mensagens. 

Outra preocupação é pelo fato de o domínio dessa tecnologia de comunicação estar concentrado nas mãos de poucos seres humanos, falo das big techs, concentradas em poucas e poderosas corporações. Viramos commodities, dados comercializáveis com o objetivo de lucro. E nos tornamos coisas manipuláveis...

Após a criação e popularização das redes sociais e a ampliação da comunicação social através de vídeos e áudios, a linguagem escrita - uma invenção humana recente e de poucos milhares de anos - vem perdendo relevância e com isso até as pessoas alfabetizadas e de bom grau de instrução formal começam a perder a capacidade de se expressar através da produção de textos escritos. 

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As pessoas ainda são alfabetizadas nas fases escolares, mas depois passam a perder a capacidade de produção de texto escrito por absoluta falta de uso da língua escrita.

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Faz pouco mais de duas décadas, só duas décadas, que as tecnologias de comunicação foram se popularizando rapidamente e cada vez mais pessoas passaram a se comunicar por áudio e vídeo, sem a necessidade de produzir textos escritos. Isso foi fazendo com que as bases da linguagem escrita padrão começassem a se perder: acentos, ortografia, construção sintática, uso de palavras com sentidos semânticos adequados etc. O cérebro humano é muito plástico, se adapta a tudo o tempo todo, se não faz parte de nossa vida ler e escrever, essas habilidades serão deixadas de lado pelo cérebro humano.

Comecei esta postagem falando de nosso grande escritor Machado de Assis e finalizo a reflexão com ele. 

Machado tinha noção da falta de leitores em sua época, e diversos estudos nas últimas décadas abordam a genialidade do Bruxo do Cosme Velho ao criar diversos tipos de leitores e leitoras em seus romances, contos e demais textos e gêneros discursivos. 

Fico pensando o risco que estamos correndo de nos tornarmos uma sociedade mundial ágrafa, sem o registro escrito, após milhares de anos de avanços da sociedade humana justamente por causa dessa invenção revolucionária: a escrita. 

- Ah, William, isso não aconteceria, que exagero!

Entendam a preocupação: se a maioria da população mundial se tornar analfabeta - analfabetismo real, funcional e até político -, se não souber mais o símbolo linguístico, se não tiver boa capacidade de interpretação de textos, ficando o texto escrito restrito a uma pequena porcentagem de pessoas que têm as habilidades de escrever, ler e produzir registros de cultura, teremos um retrocesso incalculável no conhecimento humano produzido ao longo de milênios.

Machado de Assis escreveu como poucos escritores de sua época, e felizmente alcançou no futuro mais leitores que na época da produção de suas obras geniais. Agora corremos o risco de uma população mundial regredir na habilidade inventada por nós de registrar o conhecimento humano através de símbolos linguísticos.

Por incômodo com o tema, talvez volte a ele mais vezes. Aliás, sou só mais um humano na sociedade humana perdendo a capacidade de ler e escrever. Se eu não ler e escrever com regularidade meu cérebro focará em outras coisas para seguir com sua função animal de sobrevivência.

Reflitam sobre isso. Aliás, reflexão leva tempo. Transformar informação em conhecimento leva tempo de reflexão. Vocês conseguem parar com seus cliques e dedinhos subindo telas para refletirem por algum tempo?

William


Post Scriptum: ler aqui postagem anterior sobre Linguagem. A postagem seguinte sobre esta série pode ser lida aqui.


segunda-feira, 5 de junho de 2023

Diário e reflexões - Linguagem


Sancho Panza, La Habana, Cuba.

Refeição Cultural

Osasco, 05 de junho de 2023. Segunda-feira.


UM MUNDO ORAL: O FIM DA LINGUAGEM ESCRITA

"- Aquí encaja bien el refrán - dijo Sancho - de 'dime con quién andas: decirte he quién eres'. Ándase vuestra merced con encantados ayunos y vigilantes: mirad si es mucho que ni coma ni duerma mientras con ellos anduviere..." (Don Quijote de la Mancha, Alfaguara, 2004, p. 730)


Os idiomas com os quais tenho mais contato cotidiano são os idiomas Português, Espanhol, Inglês e Japonês. Português é a minha língua pátria, minha língua mãe. Espanhol estudei na graduação em Letras. Inglês a gente aprende um pouco por ser a língua do imperialismo que domina o mundo, a língua se impõe nos países dos outros. Japonês inventei de estudar e ora estudo ora largo (não sei nada, só umas coisinhas). Não sei com profundidade nenhum desses idiomas, nem a minha língua materna eu sei. Os que sabem línguas estão se tornando exceção e vão desaparecer, sem reposição...

Quando decidi ser aluno na Universidade de São Paulo, no início dos anos dois mil, escolhi prestar o vestibular para o curso de Letras. Entrei na FFLCH e estando na graduação, no ciclo básico do primeiro ano, mudei a intenção de fazer habilitação em Inglês para fazer habilitação em Espanhol. Havia tido contado com disciplinas em Língua Espanhola naquele primeiro ano e fiquei encantado com o idioma.

O mundo andou. O mundo mudou. Mudança é a certeza sempre, tudo muda. Hoje tenho uma teoria, por pura observação, de que a linguagem escrita pode desaparecer ou seu conhecimento voltar a ser um conhecimento de uma pequena parcela dos humanos, como nas eras iniciais dos textos escritos, saber restrito a escribas, "sábios", copiadores etc. Caminhamos para ter um grupo que usa o texto escrito para dominar uma maioria dominada sem dominar a língua. 

Com a predominância da comunicação humana por vídeo, áudio, imagens e memes em redes sociais e meios virtuais quem aprende minimamente a escrever, usar o símbolo linguístico, desaprende em seguida, assim que passa a se comunicar pelas outras formas. O cérebro humano é plástico e se adapta a tudo. Se os humanos não leem e não escrevem, essa habilidade deixa de existir. Lembro aqui que a escrita e os signos linguísticos são uma invenção humana, a escrita não é uma habilidade inata da comunicação como a fala.

Exceção, exceder, excesso, acesso, sucesso, sessão, seção, sucessão, "há" verbo e "a" preposição ou artigo, "afim" e "a fim" etc são palavras da língua portuguesa com sentidos e usos absolutamente diferentes. Se elas não são lidas ou escritas durante um processo de comunicação é evidente que o cérebro perderá a habilidade de usá-las, inclusive no sentido semântico, não só na questão de escrevê-las. Esse exemplo é uma amostra de um problema muito maior.

Comecemos a imaginar a dimensão do problema da perda da capacidade de uso da linguagem escrita. Há um evidente empobrecimento da linguagem humana em andamento. Além da questão central da alfabetização de milhões de crianças e adolescentes, temos o fato de até os alfabetizados estarem perdendo a habilidade que antes tinham, mesmo que minimamente. O treco é complicado, o fenômeno está aí na nossa frente e não me parece que algo possa ser feito para frear essa tendência.

Além dos analfabetos funcionais e analfabetos políticos, há uma tendência a nos tornarmos analfabetos na linguagem como éramos antes de aprender a escrever nas fases iniciais da vida.

Essa é uma leitura só minha ou mais pessoas têm percebido essa tendência de morte da linguagem escrita?

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AS REFERÊNCIAS DE HOJE SÃO "INFLUENCIADORES" ANALFABETOS FUNCIONAIS E POLÍTICOS

A língua de Camões, a língua de Shakespeare, a língua de Cervantes... essas figuras históricas são consideradas referências em suas línguas maternas, pessoas que escreveram muito e cujos textos se tornaram referência de uma linguagem culta, padrão, textos com organização sintática e semântica que poderiam balizar uma comunicação perfeita nas suas respectivas línguas.

O tempo de Camões, Shakespeare e Cervantes passou... E hoje, qual a referência para milhões de pessoas? 

Às vezes, tenho a impressão de que caminhamos para a linguagem predominante ser quase um grunhido, gritos e vociferações. 

As referências não mais de milhares, mas de milhões de seguidores, são pessoas que mal falam a língua básica de seu idioma. A referência na comunicação global tem sido vociferações, grunhidos, repetições de palavrões a cada frase dita por um youtuber ou "influenciador" qualquer de alguma mídia dessas. O mundo está se tornando um mundo dominado por "criadores de conteúdo" como esses aí das redes sociais. Nem estou abordando a questão do "conteúdo" em grande parte sem base na realidade, mentiras, invenções etc.

É essa a reflexão do momento, minha (in)digestão cultural!

William


Post Scriptum: o texto seguinte desta série sobre Linguagem pode ser lido aqui.


quarta-feira, 2 de junho de 2021

020621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Apesar de eu ser uma pessoa gregária, amo a solidão ainda mais. Eu apreciava a oportunidade de ficar sozinho para planejar, pensar, conspirar. Mas uma pessoa pode se cansar da solidão. Eu me sentida terrivelmente isolado de minha família" (MANDELA. 2012, p. 327)


O momento atual do Brasil e do mundo nos entristece o tempo todo. Temos que buscar estratégias e ferramentas psicológicas para fugir à tristeza e demais sentimentos ruins que nos assaltam.

Quase todo mundo tem alguma pessoa querida lutando contra o vírus mortal Sars-Cov-2 (Covid-19) neste instante em que escrevo. Quase todo mundo tem alguma pessoa querida com algum tipo de depressão. Quase todo mundo perdeu pessoas queridas nesses tempos marcados pela morte e não pela vida e pela esperança de dias melhores. Só pela pandemia de coronavírus são quase meio milhão de mortos no Brasil.

Tenho pessoas queridas lutando contra a Covid-19. Tenho pessoas queridas com depressões diversas. Perdi diversas pessoas queridas nos últimos tempos. A referência da vida hoje é o risco da morte, que loucura! Posso estar aqui hoje e morrer em poucos dias pelo vírus, além das mortes severinas. 

Mas como diz meu poeta favorito, Carlos Drummond de Andrade, chegou um tempo em que não adianta morrer e a vida é uma ordem, a vida apenas e sem mistificação. E noutro poema ele diz que temos que viver seja como for e que o essencial é viver.

Outro dia, estava pensando sobre a importância de se registrar e se imprimir e distribuir a nossa história, a nossa luta de classes, os acontecimentos privados e coletivos de nossa vida de classe trabalhadora e de povo explorado pelos poucos usurpadores humanos que se apropriam das coisas do mundo através da violência e da manipulação.

Como eu saberia da história de lutas do povo negro sul-africano e de seus líderes como Nelson Mandela se ele não tivesse registrado em uma autobiografia tudo o que viveram durante décadas até alcançarem a liberdade do povo negro e o fim do apartheid? Tenho um livro de 800 páginas em mãos que conta essa história sob o ponto de vista de Mandela.

E se essa luta do povo negro sul-africano estivesse sendo travada nos últimos 10 ou 15 anos e só estivesse registrada de forma virtual, na internet, no YouTube, no Facebook, no Google? Vocês acham que essa história teria muitas chances de continuar existindo para as pessoas comuns e espalhadas por esse mundão se não estivesse em livros?

Se o filólogo judeu alemão Victor Klemperer não tivesse registrado em diários tudo o que viu acontecer com a língua alemã durante a ascensão e queda do regime nazista de Adolf Hitler e o 3º Reich, dificilmente nós conheceríamos como a língua alemã foi essencial para a implantação do regime nazista, como a língua foi manipulada para fazer toda uma nação apoiar aquilo que foi o nazismo. Ele registrou isso em livro e eu posso ler em casa essa história trágica. E se estivesse só na internet e só de forma virtual?

Eu insisto na sugestão para que os movimentos sociais, sindicais, estudantis e partidários do campo da esquerda e que representam as lutas da classe trabalhadora registrem e imprimam e distribuam (vender a preço de custo) a nossa história de lutas das últimas décadas porque as big techs donas do mundo virtual vão desaparecer com toda a nossa história de lutas "on-line". É fato! É óbvio! Elas fazem parte daquilo que combatemos! Procurem nossas histórias na internet, procurem! O pouco que registramos está desaparecendo... Me falem das conquistas e lutas dos bancários brasileiros das últimas duas décadas...

Editem e imprimam nossas histórias de lutas, seja na forma de diários dos lutadores, seja na forma de livros das entidades (que é um parto fazer porque tem ciumeira de quem vai brilhar mais), de períodos de lutas, por categoria, por tema, de qualquer forma, mas não permitam que a classe trabalhadora seja o maior segmento da sociedade humana (os 99%) pautado somente pelo ponto de vista dos poucos capitalistas donos de tudo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


segunda-feira, 3 de maio de 2021

Ulysses - Introdução de Declan Kiberd (III)



Refeição Cultural

"Daí a severa ironia de Joyce sobre todos os modelos de heroísmo antigo, seja gaélico ou grego. Para aqueles que diziam 'Infeliz da pátria que não tem heróis', ele responderia com o Galileu de Brecht: 'Não! Infeliz da pátria que precisa de um herói!' - uma pátria sonhando eternamente com modelos passados de grandeza e aparentemente incapaz de conceber a si mesma." (p. 79)


Ufa! Vencidas as primeiras cem páginas de minha edição de Ulysses, de James Joyce (presente do amigo Sérgio Gouveia). As informações que obtive com Declan Kiberd vão influenciar a minha releitura do clássico de Joyce, sem dúvida alguma. 

Alguns conceitos explorados pelo professor e intelectual irlandês Kiberd foram de muita relevância para mim e me fizeram olhar para trás e relembrar a leitura de Ulysses duas décadas antes. Li Joyce na tradução do professor Houaiss, na bela edição que tenho até hoje.

Com a "Introdução" de Kiberd foi possível até compreender melhor os contos de Dublinenses, de 1914, que já li e reli algumas vezes. Evidente que agora preciso ler O retrato do artista quando jovem (1916), que também tenho na estante e que me espera há um tempão. Só não sei se ainda terei a oportunidade de encarar o Finnegans Wake. Acho que aí já seria audácia demais de minha parte, com tanta coisa a ler antes de deixar de existir.

Cito algumas questões apresentadas pelo professor Declan Kiberd que me fizeram pensar muito a respeito de Leopold Bloom, James Joyce, a Irlanda e os irlandeses, Molly Bloom e Stephen Dedalus:

- As questões relativas à história colonial do país, seu passado e presente com a Inglaterra, Reino Unido e ou Grã-Bretanha;

- A questão dos nacionalistas irlandeses atrelados a um passado de heróis e ou heroísmo;

- A eterna tensão em relação à linguagem entre colônia e colonizados;

- A questão do homem feminino na figura de Leopold Bloom. 

Olha, o texto foi muito bom para mim enquanto leitor que vai embarcar agora na viagem da releitura de Ulysses em um contexto completamente diferente daquele no qual li a obra na primeira vez.

É isso! Leiam clássicos, amigos e amigas de leituras e estudos. É melhor ler do que não ler os clássicos, como já dizia Italo Calvino.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O escritor e a qualidade da escrita - Bolaño





Achei interessante o conceito que Bolaño apresenta sobre ser escritor, sobre a arte de escrever bem como escritor, sobre uma escritura de qualidade, conceitos presentes no texto "Discurso de Caracas", de 31 de outubro de 1999.

O passaporte de um escritor: a qualidade de sua escritura... (fantástico!)


Excerto:

"Lo cierto es que soy chileno y también soy muchas otras cosas. Y llegado a este punto tengo que abandonar a Jarry y a Bolívar e intentar recordar a aquel escritor que dijo que la patria de un escritor es su lengua. No recuerdo su nombre. Tal vez fue un escritor que escribía en español. Tal vez fue un escritor que escribía en inglés o francés. La patria de un escritor, dijo, es su lengua. Suena más bien demagógico, pero coincido plenamente con él, y sé que a veces no nos queda más remedio que ponernos demagógicos, así como a veces no nos queda más remedio que bailar un bolero a la luz de unos faroles o de una luna roja. Aunque también es verdad que la patria de un escritor no es su lengua o no es sólo su lengua sino la gente que quiere. Y a veces la patria de un escritor no es la gente que quiere sino su memoria. Y otras veces la única patria de un escritor es su lealtad y su valor. En realidad muchas pueden ser las patrias de un escritor, a veces la identidad de esta patria depende en grado sumo de aquello que en ese momento está escribiendo. Muchas pueden ser las patrias, se me ocurre ahora, pero uno solo el pasaporte, y ese pasaporte evidentemente es el de la calidad de la escritura. Que no significa escribir bien, porque eso lo puede hacer cualquiera, sino escribir maravillosamente bien, y ni siquiera eso, pues escribir maravillosamente bien también lo puede hacer cualquiera. ¿Entonces qué es una escritura de calidad? Pues lo que siempre ha sido: saber meter la cabeza en lo oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura básicamente es un oficio peligroso. Correr por el borde del precipicio: a un lado el abismo sin fondo y al otro lado las caras que uno quiere, las sonrientes caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida. Y aceptar esa evidencia aunque a veces nos pese más que la losa que cubre los restos de todos los escritores muertos. La literatura, como diría una folclórica andaluza, es un peligro."


Fonte: Discurso de Caracas

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O novo regime no Brasil segue os passos da Alemanha nazista





Refeição Cultural

"Em Mein Kampf, Hitler, ao tratar de educação, coloca o preparo físico em primeiríssimo lugar. Sua expressão predileta é Körpeliche Ertüchtigung (capacitação física), que ele tomou emprestada do léxico dos conservadores de Weimar. Ele valoriza o Exército do imperador Guilherme como a única organização saudável e vital de um Volkskörper (corpo do povo) apodrecido. Vê no serviço militar, sobretudo ou exclusivamente, uma educação para o desenvolvimento físico. A formação do caráter é uma questão nitidamente menor: dominar o corpo é mais importante do que receber educação. Nesse programa pedagógico, a formação intelectual e seu conteúdo científico ficam por último, sendo admitidos a contragosto, com desconfiança e desprezo. A todo momento se expressa o temor diante do ser pensante e o ódio contra o pensar..." (p. 39/40)


A leitura e o estudo do livro LTI A Linguagem do Terceiro Reich (1947), de Victor Klemperer, é uma oportunidade para que o leitor brasileiro tome ciência do processo linguístico ocorrido na língua alemã durante o nazismo, desde a ascensão de Adolf Hitler até a derrota da Alemanha em 1945.

Durante décadas, os povos do mundo civilizado se perguntaram, geração após geração, como foi possível um monstro como Hitler conquistar corações e mentes de praticamente todo o povo alemão.

Klemperer é um filólogo judeu que analisou as transformações na língua alemã durante o regime nazista. Sobreviveu graças ao heroísmo de sua mulher alemã e pode publicar seus diários e estudos e contribuiu para que a língua alemã passasse por um processo de desnazificação.

Amigos, a linguagem move os humanos, que movimentam o mundo. A palavra salva, a palavra condena. A palavra cria, a palavra destrói. A palavra aproxima, acolhe, e também afasta, dissemina o ódio, a discórdia. 

Com a língua se pensa. Com a linguagem bem aplicada, se manipula e se faz agir sem pensar. Isso foi feito em nosso país como nunca antes na história, depois da chegada de Lula (PT) à Presidência da República, em 2003. Eu adquiri este livro nesta época e vi as transformações ocorrendo. É impressionante a semelhança com o processo nazista!

Eu tive a felicidade e a tristeza de adquirir o conhecimento deste livro ao ter acesso a ele no momento em que a mídia empresarial e secular brasileira (PIG) iniciava o processo de destruição da imagem de Lula, do PT, dos movimentos sociais organizados e passaria a atuar para criminalizar o governo, a esquerda e a política.

Hoje vivemos o resultado do processo de envenenamento do povo brasileiro para que se interrompesse a democracia e a ascensão das classes populares após as seguidas eleições do Partido dos Trabalhadores. O Brasil e o povo nunca tinham vivido momento tão intenso de avanços para as classes populares e também de sua imagem junto aos países do mundo.

A democracia brasileira foi destruída. Hordas de canalhas ocuparam setores dos poderes estatais, tomando o país para eles de forma nunca antes vista, mesmo se compararmos o momento com outros regimes duros em mais de um século de república. Parte da população está idiotizada, vive uma espécie de demência coletiva, faz vista grossa para o mal e os crimes cometidos pelos golpistas no poder. É o caos.

Chegamos num ponto em que não há saída democrática, pacífica. Não há. Talvez houvesse se multidões de pessoas ocupassem as ruas do país e não saíssem mais até os direitos voltarem ao povo, até o patrimônio público ser devolvido, até a pauta do ódio ser substituída pela pauta do amor e da solidariedade. Isso não vai acontecer.

A citação inicial na postagem mostra exatamente o que o novo regime está fazendo. Fim da educação, do livre pensar, do acesso à cultura e à ciência. Querem reproduzir a estratégia do nazismo no Brasil pós golpe. Povo ignorante. Povo fanático. Povo gado.

Chega, já falei demais para o momento.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Teoria do romance I - A estilística (Bakhtin)





Excertos

"O romance é um heterodiscurso social artisticamente organizado, às vezes uma diversidade de linguagem e uma dissonância individual. A estratificação interna de uma língua nacional única em dialetos sociais, modos de falar de grupos, jargões profissionais, as linguagens dos gêneros, as linguagens das gerações e das faixas etárias, as linguagens das tendências e dos partidos, as linguagens das autoridades, as linguagens dos círculos e das modas passageiras, as linguagens dos dias sociopolíticos e até das horas (cada dia tem sua palavra de ordem, seu vocabulário, seus acentos), pois bem, a estratificação interna de cada língua em cada momento de sua existência histórica é a premissa indispensável do gênero romanesco: através do heterodiscurso social e da dissonância individual, que medra no solo desse heterodiscurso, o romance orquestra todos os seus temas, todo o seu universo de autor, os discursos dos narradores, os gêneros intercalados e os discursos dos heróis são apenas as unidades basilares de composição através das quais o heterodiscurso se introduz no romance; cada uma delas admite uma diversidade de vozes sociais e uma variedade de nexos e correlações entre si (sempre dialogadas em maior ou menor grau). Tais nexos e correlações especiais entre enunciados e linguagens, esse movimento do tema através das linguagens, sua fragmentação em filetes e gotas de heterodiscurso social e sua dialogização constituem a peculiaridade basilar da estilística romanesca, seu specíficum."

Os destaques em itálico são do próprio livro.


Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance I - A estilística. Tradução, prefácio, notas e glossário de Paulo Bezerra. Organização da edição russa de Serguei Botcharov e Vadim Kójinov. Editora 34. 1ª edição 2015, 1ª reimpressão 2017.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Texto e Discurso em Língua Espanhola (II) - O problema dos gêneros discursivos (Bakhtin)


Mikhail Bakhtin, imagem da Wikipedia.

Refeição Cultural

Leitura do texto de Bakhtin destacando pontos que achei importantes. A postagem contém textos em português e espanhol.

Estou fazendo esta matéria na faculdade com o professor Adrián. O cara é muito bom. Qualquer equívoco conceitual nas postagens é de minha responsabilidade. 

Volto a lembrar o que disse na primeira postagem (ler AQUI) e também o caráter deste blog: meu intuito é partilhar conhecimento dentro do conceito wiki (What I Know is), sem nenhum interesse econômico-financeiro.


El problema de los géneros discursivos

M. Bajtin


1. Planteamiento del problema y definición de los géneros discursivos


- A língua como base das diversas esferas das atividades humanas: 

"Las diversas esferas de la actividad humana están todas relacionadas con el uso de la lengua..."


- Os enunciados como realização das diversas possibilidades de uso das línguas:

"El uso de la lengua se lleva a cabo en forma de enunciados (orales y escritos) concretos y singulares que pertenecen a los participantes de una u otra esfera de la praxis humana."


- Os enunciados refletem: 

"Contenido temático; estilo verbal (recurso léxico, fraseológico y gramatical) y composición o estructuración."


- Gêneros discursivos:

"Cada esfera del uso de la lengua elabora sus tipos relativamente estables de enunciados a lo que denominamos géneros discursivos."


- Por haver infinitos tipos de discursos escritos e orais, poderia-se imaginar não ser possível analisar e definir parâmetros para os tipos de discursos.


- Um dos gêneros que se estuda há muito tempo são os gêneros literários. Mas o enfoque era sempre literário e artístico e não nos tipos de enunciados que têm uma natureza verbal (linguística) comum. Também se estudou desde a antiguidade os gêneros retóricos. Depois passaram a estudar os gêneros discursivos.


- Enfim, faltava-se estudar a natureza linguística comum dos enunciados.


- Gêneros discursivos primário (simples) e secundário (complexos) são bem diferentes:

"(...) tal diferencia no es funcional. Los géneros discursivos secundarios (complejos) - a saber, novelas, dramas, investigaciones científicas de toda clase, grandes géneros periodísticos, etc. - surgen en las condiciones de comunicación cultural más compleja, relativamente más desarrolada y organizada, principalmente escrita: comunicación artística, científica, sociopolítica, etc."


- A natureza dos enunciados é muito importante no estudo dos gêneros discursivos:

"El menosprecio de la naturaleza del enunciado y la indiferencia del discurso llevan, en cualquier esfera de la investigación lingüística, al formalismo y a una abstración excesiva, desvirtúan el carácter histórico de la investigación, debilitan el vínculo del lenguaje con la vida."


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"El lenguaje participa en la vida a través de los enunciados concretos que lo realizan, así como la vida participa del lenguaje a través de los enunciados."
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- Todo enunciado pode refletir a individualidade do falante ou do escritor, mas nem todo gênero consegue absorver essa individualidade. O gênero literário é o mais produtivo nesse sentido.


- Alguns gêneros discursivos requerem padronização na linguagem como documentos oficiais, ordens militares etc.


- O vínculo orgânico e indissolúvel entre o estilo e o gênero:

"El estilo está indisolublemente vinculado a determinadas unidades temáticas y, lo que es más importante, a determinadas unidades composicionales."

"El estilo entra como elemento en la unidad genérica del enunciado."


- História da sociedade e história da língua:

"Los enunciados y sus tipos, es decir, los géneros discursivos, son correas de transmisión entre la historia de la sociedad y la historia de la lengua."


2. El enunciado como unidad de la comunicación discursiva. Diferencia entre esta unidad y las unidades de la lengua (palabra y oración)

- Desde os estudos linguísticos do século XIX adiante se coloca em segundo plano ou como algo acessório a função comunicativa da língua:

"Se propusieron y continúan proponiéndose otros enfoques de las funciones del lenguaje, pero lo más característico de todos sigue siendo el hecho de que se subestima, si no se desvaloriza por completo, la función comunicativa de la lengua que se analiza desde el punto de vista del hablante, como si hablase solo sin una forzosa relación con otros participantes de la comunicación discursiva."


- O processo complexo, multilateral e ativo da comunicação discursiva ainda hoje enfrenta distorções em sua análise:

"En la lingüística hasta ahora persisten tales ficciones como el “oyente” y “el que comprende” (los compañeros del “hablante”), la “corriente discursiva única”, etc. Estas ficciones dan un concepto absolutamente distorsionado del proceso complejo, multilateral y activo de la comunicación discursiva."

"Así, pues, toda comprensión real y total tiene un carácter de respuesta activa y no es sino una fase inicial y preparativa de la respuesta (cualquiera que sea su forma). También el hablante mismo cuenta con esta activa comprensión preñada de respuesta: no espera una  comprensión pasiva, que tan sólo reproduzca su idea en la cabeza ajena, sino que quiere una contestación, consentimiento, participación, objeción, cumplimento, etc. (los diversos géneros discursivos presuponen diferentes orientaciones etiológícas, varios objetivos discursivos en los que hablan o escriben)."


- O enunciado como elo em uma cadeia de enunciados, de declarações:

"Todo enunciado es un eslabón en la cadena, muy complejamente organizada, de otros enunciados."


- As fronteiras, os limites, de um enunciado enquanto unidade de comunicação discursiva se definem pela entrada do outro sujeito discursivo, seja ele quem for:

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"Las fronteras de cada enunciado como unidad de la comunicación discursiva se determinan por el cambio de los sujetos discursivos, es decir, por la alternación de los hablantes. Todo enunciado, desde una
breve réplica del diálogo cotidiano hasta una novela grande o un tratado científico, posee, por decirlo así, un principio absoluto y un final absoluto; antes del comienzo están los enunciados de otros, después del final están los enunciados respuestas de otros (o siquiera una comprensión silenciosa y activa del otro, o, finalmente, una acción respuesta basada en tal tipo de comprensión). Un hablante termina su enunciado para ceder la palabra al otro o para dar lugar a su comprensión activa como respuesta. El enunciado no es una unidad convencional sino real, delimitada con precisión por el cambio de los sujetos discursivos, y que termina con el hecho de ceder la palabra al otro, una especie de un dixi silencioso que se percibe por los oyentes [como señal] de que el hablante haya concluido."
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- Diferença entre oração e enunciado:

"(...) es necesario explicar previamente el problema de la oración como unidad de la lengua, a diferencia del enunciado como unidad de la comunicación discursiva."


"(...) La oración como unidad de la lengua carece de todos esos atributos: no se delimita por el cambio de los sujetos discursivos, no tiene un contacto inmediato con la realidad (con la situación extraverbal) ni tampoco se relaciona de una manera directa con los enunciados ajenos; no posee una plenitud del sentido ni una capacidad de determinar directamente la postura de respuesta del otro hablante, es decir, no provoca una respuesta. La oración como unidad de la lengua tiene una naturaleza gramatical, límites gramaticales, conclusividad y unidad gramaticales. (Pero analizada dentro de la totalidad del enunciado y desde el punto de vista de esta totalidad, adquiere propiedades estilísticas.) Allí donde la oración figura como un enunciado entero, resulta ser enmarcado en una especie de material muy especial. Cuando se olvida esto en el análisis de una oración, se tergiversa entonces su naturaleza (y al mismo tiempo, la del enunciado, al atribuirle aspectos gramaticales)."


- Características constitutivas dos enunciados como unidades da comunicação discursiva que os diferenciam das unidades da língua (palavra e oração):

1. A alternância dos sujeitos discursivos

"Así, pues, el cambio de los sujetos discursivos que enmarca al enunciado y que crea su masa firme y estrictamente determinada en relación con otros enunciados vinculados a él, es el primer rasgo constitutivo del enunciado como unidad de la comunicación discursiva que lo distingue de las unidades de la lengua."

2. A conclusividade do enunciado

"El carácter concluso del enunciado representa una cara interna del cambio de los sujetos discursivos; tal cambio se da tan sólo por el hecho de que el hablante dijo (o escribió) todo lo que en un momento dado y en condiciones determinadas quiso decir. Al leer o al escribir, percibimos claramente el fin de un enunciado, una especie del dixi conclusivo del hablante. Esta conclusividad es específica y se determina por criterios particulares. El primero y más importante criterio de la conclusividad del enunciado es la posibilidad de ser contestado."

E mais:

"Este carácter de una totalidad conclusa propia del enunciado, que asegura la posibilidad de una respuesta (o de una comprensión tácita), se determina por tres momentos o factores que se relacionan entre
sí en la totalidad orgánica del enunciado: 1] el sentido del objeto del enunciado, agotado; 2] el enunciado se determina por la intencionalidad discursiva, o la voluntad discursiva del hablante; 3] el enunciado posee
formas típicas, genéricas y estructurales, de conclusión."

3. As formas estáveis de gênero do enunciado:

"Pasemos al tercer factor, que es el más importante para nosotros: las formas genéricas estables del enunciado. La voluntad discursiva del hablante se realiza ante todo en la elección de un género discursivo
determinado. La elección se define por la especificidad de una esfera discursiva dada, por las consideraciones del sentido del objeto o temáticas, por la situación concreta de la comunicación discursiva, por los participantes de la comunicación, etc. En lo sucesivo, la intención discursiva del hablante, con su individualidad y subjetividad, se aplica y se adapta al género escogido, se forma y se desarrolla dentro de una forma genérica determinada. Tales géneros existen, ante todo, en todas las múltiples esferas de la comunicación cotidiana, incluyendo a la más familiar e íntima."


COMENTÁRIO:

- Em sala de aula, o professor levanta uma reflexão entre os alunos a respeito de uma afirmação de Bakhtin, de que todo falante da língua utilizaria com seguridade e destreza os gêneros discursivos, mesmo não os conhecendo ou tendo estudado eles. (sublinhado do blog)

"Nos expresamos únicamente mediante determinados géneros discursivos, es decir, todos nuestros enunciados posen unas formas típicas para la estructuración de la totalidad, relativamente estables.
Disponemos de un rico repertorio de géneros discursivos orales y escritos. En la práctica los utilizamos con seguridad y destreza, pero teóricamente podemos no saber nada de su existencia. Igual que el Jourdain de Molière, quien hablaba en prosa sin sospecharlo, nosotros hablamos utilizando diversos géneros sin saber de su existencia. Incluso dentro de la plática más libre y desenvuelta moldeamos nuestro discurso de acuerdo con determinadas formas genéricas, a veces con características de cliché, a veces más ágiles, plásticas y creativas (también la comunicación cotidiana dispone de géneros creativos). Estos géneros discursivos nos son dados casi como se nos da la lengua materna, que dominamos libremente antes del estudio teórico de la gramática. La lengua materna, su vocabulario y su estructura gramatical, no los conocemos por los diccionarios y manuales de gramática, sino por los enunciados concretos que escuchamos y reproducimos en la comunicación discursiva efectiva con las personas que nos rodean. Las formas de la lengua las asumimos tan sólo en las formas de los enunciados y junto con ellas. Las formas de la lengua y las formas típicas de los enunciados llegan a nuestra experiencia y a nuestra conciencia conjuntamente y en una estrecha relación mutua. Aprender a hablar quiere decir aprender a construir los enunciados (porque hablamos con los enunciados y no mediante oraciones, y menos aun por palabras separadas)."


- Aqui podemos anotar um exemplo dado em classe, a respeito do enunciado acima, polêmico em parte:

Sobre a suposta habilidade, seguridade e destreza que os falantes da língua teriam mesmo que não soubessem teoricamente disso, não podemos dizer, por exemplo, na área de atividade humana "educação", no gênero "seminário", que a segurança e destreza são as mesmas num seminário proferido pelo professor em comparação a um seminário proferido por um grupo de alunos.


"(...) y al oír el discurso ajeno, adivinamos su género desde las primeras palabras..."

- No rádio, por exemplo, em poucos segundos é possível que o ouvinte perceba de qual gênero se trata na transmissão: futebol, notícias do trânsito, comercial, horóscopo etc.


- Os gêneros dos discursos já estão disponíveis para os falantes de determinada língua, no seu cotidiano. E outros podem surgir com regularidade. Bakhtin ao dizer que os falantes têm a iniciativa da comunicação discursiva, mas que a realização dos enunciados não são pura criação do falante, ele cita Saussure de forma crítica, ao falar sobre isso.

"Toda una serie de los géneros más comunes en la vida cotidiana son tan estandarizados que la voluntad discursiva individual del hablante se manifiesta únicamente en la selección de un determinado género y en la entonación expresiva. Así son, por ejemplo, los breves géneros cotidianos de los saludos, despedidas, felicitaciones, deseos de toda clase, preguntas acerca de la salud, de los negocios, etc."

e

"Así, pues, un hablante no sólo dispone de las formas obligatorias de la lengua nacional (el léxico y la gramática), sino que cuenta también con las formas obligatorias discursivas, que son tan necesarias para una intercomprensión como las formas lingüísticas. Los géneros discursivos son, en comparación con las formas lingüísticas, mucho más combinables, ágiles, plásticos, pero el hablante tiene una importancia normativa: no son creados por él, sino que le son dados. Por eso un enunciado aislado, con todo su carácter individual y creativo, no puede ser considerado como una combinación absolutamente libre de formas lingüísticas, según sostiene, por ejemplo, Saussure (y en esto le siguen muchos lingüistas), que contrapone el “habla” (la parole), como un acto estrictamente individual, al sistema de la lengua como fenómeno puramente social y obligatorio para el individuo. La gran mayoría de los lingüistas comparte -si no teóricamente, en la práctica- este punto de vista: consideran que el “habla” es tan sólo una combinación individual de formas lingüísticas (léxicas y gramaticales), y no encuentran ni estudian, de hecho, ninguna otra forma normativa."


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Gênero discursivo e expressividade: "escogemos palabras según su especificación genérica. El género discursivo no es una forma lingüística, sino una forma típica de enunciado; como tal, el género incluye una expresividad determinada propia del género dado. Dentro del género, la palabra adquiere cierta expresividad típica. Los géneros corresponden a las situaciones típicas de la comunicación discursiva, a los temas típicos y, por lo tanto a algunos contactos típicos de los significados de las palabras con la realidad concreta en sus circunstancias típicas."
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- Aspectos das palavras: a palavra de ninguém, a palavra dos outros e a minha palavra.

"Los significados neutros (de diccionario) de las palabras de la lengua aseguran su carácter y la intercomprensión de todos los que la hablan, pero el uso de las palabras en la comunicación discursiva siempre depende de un contexto particular. Por eso se puede decir que cualquier palabra existe para el hablante en sus tres aspectos: como palabra neutra de la lengua, que no pertenece a nadie; como palabra ajena, llena de ecos, de los enunciados de otros, que pertenece a otras personas; y, finalmente, como mi palabra, porque, puesto que yo la uso en una situación determinada y con una intención discursiva
determinada, la palabra está compenetrada de mi expresividad."



- A oração como unidade da língua possui certa entonação, mas não entonação expressiva, que se dá sempre no nível do enunciado na comunicação discursiva.

"Así, pues, el momento expresivo viene a ser un rasgo constitutivo del enunciado. El sistema de la lengua dispone de formas necesarias (es decir, de recursos lingüísticos) para manifestar la expresividad, pero la lengua misma y sus unidades significantes (palabras y oraciones) carecen, por su naturaleza, de expresividad, son nuestras."



- Aspectos que definem o enunciado, seu estilo e sua composição:

"En resumen, el enunciado, su estilo y su composición, se determinan por el aspecto temático (de objeto y de sentido) y por el aspecto expresivo, o sea por la actitud valorativa del hablante hacia el momento
temático. La estilística no comprende ningún otro aspecto, sino que sólo considera los siguientes factores que determinan el estilo de un enunciado: el sistema de la lengua, el objeto del discurso y el hablante mismo y su actitud valorativa hacia el objeto. La selección de los recursos lingüísticos se determina, según la concepción habitual de la estilística, únicamente por consideraciones acerca del objeto y sentido y de la expresividad. Así se definen los estilos de la lengua, tanto generales como individuales. Por una parte, el hablante, con su visión del mundo, sus valores y emociones y, por otra parte, el objeto de su discurso y el sistema de la lengua (los recursos lingüísticos): éstos son los aspectos que definen el enunciado, su estilo y su composición. Esta es la concepción predominante."


- A questão do discurso distante, já existente, que acaba por gerar um diálogo com os enunciados que alguém faz na comunicação discursiva.

"El enunciado, pues, ocupa una determinada posición en la esfera dada de la comunicación discursiva, en un problema, en un asunto, etc."

e:

"en muchas ocasiones, la expresividad de nuestro enunciado se determina no únicamente (a veces no tanto) por el objeto y el sentido del enunciado sino también por los enunciados ajenos emitidos acerca del mismo tema, por los enunciados que contestamos, con los que polemizamos; son ellos los que determinan también la puesta en relieve de algunos momentos, las reiteraciones, la selección de expresiones más duras (o, al contrario, más suaves), así como el tono desafiante (o conciliatorio), etc."

e mais:

"Por más monológico que sea un enunciado (por ejemplo, una obra científica o filosófica), por más que se concentre en su objeto, no puede dejar de ser, en cierta medida, una respuesta a aquello que ya se dijo acerca del mismo objeto, acerca del mismo problema, aunque el carácter de respuesta no recibiese una expresión externa bien definida: ésta se manifestaría en los matices del sentido, de la expresividad, del estilo, en los detalles más finos de la composición. Un enunciado está lleno de matices dialógicos, y sin tomarlos en cuenta es imposible comprender hasta el final el estilo del enunciado."


- A questão das citações nos discursos:

"La entonación que aísla el discurso ajeno (y que se representa en el discurso escrito mediante comillas) es un fenómeno aparte: es una especie de trasposición del cambio de los sujetos discursivos dentro de un enunciado (...) El discurso ajeno, pues, posee una expresividad doble: la propia, que es precisamente la ajena, y la expresividad del enunciado que acoge el discurso ajeno."


- De certa forma, um enunciado sempre tem uma questão dialógica com um antes, um enunciado anterior.

"En la realidad, todo enunciado, aparte de su objeto, siempre contesta (en un sentido amplio) de una u otra manera a los enunciados ajenos que le preceden."

e:

"El enunciado no está dirigido únicamente a su objeto, sino también a discursos ajenos acerca de este último."


Fonte: Bakhtin, Mikhail. Estética de la creación verbal. Buenos Aires: Siglo XXI, 2008, (2. ed.) p. 245-290.


COMENTÁRIO FINAL

A leitura e compreensão deste texto foi trabalhosa para mim. Fiz a leitura deste capítulo em espanhol e quase que o capítulo inteiro em outra versão em português.

Os conceitos desenvolvidos aqui por Bakhtin são fundamentais para a primeira unidade da matéria, que é mais geral no programa, pois as outras unidades serão mais focadas na língua espanhola.

Além do estudo de Bakhtin, tivemos também como referência o texto "Tipos e gêneros de discurso" de Dominique Maingueneau (Análise de textos de comunicação), com algumas abordagens distintas e complementares em categorizar e classificar textos e gêneros discursivos.

Passei um bom tempo afastado desta área de conhecimento humano: linguagem, línguas e estudos literários. 

Na última década, o foco de minha atenção cognitiva foi quase todo voltado para as áreas de saúde, direitos sociais e história do mundo do trabalho, sistema financeiro, economia e política em geral.

Não está sendo fácil adaptar meu foco para essa área das letras, principalmente porque não consigo me desligar da visão política e ideológica que tenho do mundo, e sofro muito ao ver a destruição de meu país e da cidadania do povo.

Enfim, estou me esforçando para retomar o estudo das línguas e das literaturas. Se não der certo, não foi por falta de esforço deste cinquentenário que vos fala através deste blog.

William


Post Scriptum:

Clique AQUI para acessar a postagem anterior sobre esta matéria. 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Leitura: Um artista da fome, seguido de Na colônia penal (1924) - Franz Kafka





Refeição Cultural - Mundo kafkiano

"Esta é a situação. O capitão me procurou há menos de uma hora, tomei o depoimento dele e no instante seguinte lavrei a sentença. Tudo foi muito simples. Se eu o tivesse chamado para um interrogatório, só haveria confusão..." (Na colônia penal, 1919)


Ao ler sobre leitores e leituras, e atos de leitores, e atos de leituras, e consequentemente, atos de escritores leitores, cheguei a este pequeno livro de Franz Kafka, dado de presente a mim por minha esposa já faz alguns anos.

Estava lendo a respeito de leitores no livro do escritor argentino Ricardo Piglia - O último leitor (2005) - livro no qual ele dedica capítulos de reflexão a escritores e livros clássicos. Um dos capítulos é sobre Kafka - "Uma narrativa sobre Kafka" - e ao ler o ensaio de Piglia aprendemos tanto sobre o escritor tcheco que o desejo é sair lendo e relendo tudo o que temos dele ou sobre ele.

Do escritor já li duas obras - "O processo" e "A metamorfose" -, esta publicada em vida e aquela após sua morte precoce por tuberculose em 1924. Fuçando em minha estante, encontrei edições de outras obras de Kafka, ainda por serem lidas: "O castelo", "América" e esta coletânea com 4 contos "Um artista da fome", junto com "Na colônia penal".

Fiz uma postagem sobre minha 3ª leitura do livro "A metamorfose", realizada em março de 2016. Aos interessados é só clicar AQUI. Sobre o livro "O processo", que peguei para reler em 2015, fiz postagens naquele ano, associadas ao que estava acontecendo no Brasil, mas não terminei a releitura ainda.

Amig@s, como é interessante ler a respeito do autor e de seu contexto para complementar a nossa leitura crítica de suas obras!

A leitura dos textos do livro "Um artista da fome, seguido de Na colônia penal & outras histórias" foi de boa compreensão porque já entrei na leitura com algum conhecimento prévio sobre eles e sobre o autor.

As estórias "Primeira dor", "Uma pequena mulher", "Um artista da fome", "Josefine, a cantora ou O povo dos ratos" e "Na colônia penal" são de leitura difícil, na minha opinião. O da ratinha cantora, por exemplo, foi um desafio, pois em determinado momento senti que não estava entendendo nada. Fiz uma pesquisa na rede mundial e encontrei um trabalho acadêmico sobre esse conto e foi muito legal a análise feita pelo autor do trabalho.

PRIMEIRA DOR

"Um trapezista - sabe-se que essa arte praticada nas alturas da cúpula dos grandes teatros de variedades é uma das mais difíceis ao alcance do homem - havia, a princípio apenas como um esforço em busca de aperfeiçoamento, mais tarde também por um costume tirânico, ordenado sua vida de modo que, enquanto trabalhasse em uma única temporada, pudesse passar dia e noite em cima do trapézio..."

A ideia de isolamento, de viver numa caverna, para poder escrever e produzir ininterruptamente, está clara neste personagem de Kafka. Sobre essa questão, foi muito interessante a leitura que já havia feito de Piglia sobre o autor tcheco.

UMA PEQUENA MULHER

"(...) Essa pequena mulher está muito insatisfeita comigo, tem sempre algo a criticar em mim, sempre uma injustiça a me imputar, irrito-a por tudo e por nada; se alguém pudesse separar a vida em suas menores partes e analisar cada uma das partezinhas isoladas, sem dúvida cada partezinha da minha vida seria motivo de irritação para ela. Muitas vezes perguntei-me por que a irrito tanto; pode ser que tudo em mim contrarie seu senso estético, seu sentimento de justiça, seus hábitos, suas tradições, suas esperanças, existem naturezas assim, contrárias, mas por que ela sofre tanto com isso? Não existe relação nenhuma entre nós que pudesse levá-la a sofrer por minha causa. Bastaria ela decidir me encarar como um estranho total, o que afinal sou, e eu sequer me oporia a essa decisão, pelo contrário, recebê-la-ia de braços abertos, bastaria ela decidir esquecer minha existência, que eu jamais impus nem seria capaz de impor a ela - e todo o sofrimento desapareceria..."

Ao ler esse excerto, já é possível avaliar como Kafka aborda temáticas de difícil manuseio como a questão da mulher. Na minha leitura de século 21, por exemplo, não gostei do termo usado por ele no conto (se a tradução estiver fiel) ao se referir à mulher como "mulherzinha". Mas literatura tem dessas coisas.

UM ARTISTA DA FOME

"Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Enquanto antes era um bom negócio organizar grandes apresentações do tipo por conta própria, hoje em dia é totalmente impossível. Os tempos eram outros. Naquela época a cidade inteira se ocupava com o artista da fome; a cada dia de jejum o público aumentava; todos queriam ver o artista da fome pelo menos uma vez por dia; nos últimos dias havia quem passasse o dia inteiro sentado diante da pequena jaula; à noite também havia visitação, à luz de tochas, para aumentar o efeito; nos dias bonitos a jaula era transportada ao ar livre, e então eram principalmente às crianças que exibiam o artista da fome; enquanto para os adultos ele não era mais do que um passatempo, com o qual se entretinham porque era moda, as crianças olhavam-no impressionadas, de boca aberta, com as mãos dadas para vencer o temor, enquanto o homem, pálido, vestindo um abrigo escuro, com costelas muito protuberantes, desprezando até mesmo uma cadeira, ficava sentado na palha, com um aceno polido de cabeça, respondia perguntas com um sorriso forçado e estendia o braço por entre as barras, para que pudessem sentir com as mãos sua magreza, quando então ele se recolhia uma vez mais em si mesmo, não se preocupava com mais ninguém, nem mesmo com as graves badaladas do relógio, que era o único móvel no interior da jaula, mas apenas olhava para o vazio com os olhos semicerrados e de vez em quando bebericava um gole d'água para umedecer os lábios."

Esse é o longo primeiro parágrafo do conto. A cena é bem forte. Chamativa.

"O artista poderia jejuar tão bem quanto quisesse, e era o que fazia, mas nada mais poderia salvá-lo; passavam por ele sem ao menos notá-lo. Tente explicar a alguém a arte da fome! Não há como torná-la compreensível a alguém que não a sente..."

Sentiram a pegada do conto? Muitos críticos apontam esse conto como um dos contos mais autobiográficos de Kafka.

Além disso, é um conto bastante metafórico.

JOSEFINE, A CANTORA OU O POVO DOS RATOS

"Nossa cantora chama-se Josefine. Quem nunca a ouviu não conhece a força do canto. Não existe quem não fique deslumbrado com o canto dela, um fato ainda mais admirável porque, em geral, nossa espécie não aprecia a música. A música que mais apreciamos é a paz silenciosa; nossa vida é dura, por mais que tentemos deixar de lado as preocupações do dia a dia, não conseguimos elevar-nos a coisas tão afastadas do nosso cotidiano como a música..."

Esse é outro conto bastante metafórico e hermético, na minha opinião. Após a leitura, fiquei com dúvidas de entendimento. Ao ler um trabalho de interpretação sobre o conto, fiquei com uma compreensão melhor. Terei que reler o conto mais vezes.

NA COLÔNIA PENAL

"O explorador queria fazer várias perguntas, mas ao ver o homem perguntou apenas: 'Ele conhece a sentença?' 'Não', disse o oficial e tentou dar prosseguimento à explicação, mas o explorador interrompeu-o: 'Ele não conhece a própria sentença?' 'Não', disse mais uma vez o oficial, deteve-se por um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais precisa para a pergunta, e então disse: 'Seria inútil comunicá-la. A sentença é aplicada ao corpo' (...) 'Mas ele sabe ao menos que foi condenado?' 'Também não', disse o oficial e abriu um sorriso ao explorador, como se esperasse dele mais alguns questionamentos estranhos. 'Ora', disse o explorador e passou a mão pela testa, 'então este homem também não sabe como sua defesa foi recebida?' 'Ele não teve nenhuma oportunidade de apresentar uma defesa', disse o oficial e desviou o olhar, como se falasse consigo próprio e não quisesse constranger o explorador com explicações sobre coisas tão evidentes. 'Mas ele precisa de oportunidade para apresentar uma defesa', disse o explorador e levantou-se da cadeira..."


Essa é a condição dos condenados na novela de Kafka. Os condenados não sabem que estão condenados, não sabem a sentença e não têm a menor chance sequer de se defenderem. Já viram algo parecido no mundo real? Algum processo entre o Estado e o cidadão, onde o cidadão não tem a menor chance de se defender do sistema?

O melhor vem agora, o juiz e sua postura e seu poder ilimitado, parecendo um caso recente na república bananeira em que vivemos.

"A coisa funciona do seguinte modo. Fui nomeado juiz aqui na colônia penal. Apesar da minha pouca idade. Porque estive ao lado do antigo comandante em todas as ocorrências criminais e sou quem melhor conhece o aparelho. O princípio que guia as minhas decisões é: a culpa é sempre indubitável. Outras cortes podem não se pautar por esse princípio, porque são compostas por muitos membros e também porque têm cortes mais altas acima de si. Não é o que acontece aqui, ou ao menos não era o que acontecia com o antigo comandante..."

Amig@s leitores, apesar da semelhança com fatos reais, isso não é uma descrição do dia a dia do Brasil com seu novo regime de lawfare, é um texto ficcional publicado em 1919 por Kafka.

A novela é chocante, é o cenário típico e constante nos textos de Franz Kafka. Um mundo angustiante, um mundo distópico, com processos absurdos e totalitários contra os frágeis humanos frente a sistemas opressores e aniquiladores.

Enfim, leitura feita e cinco novas estórias de Kafka na bagagem. Recomendo o livro aos leitores e leitoras.

William