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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um apólogo - Machado de Assis



Refeição Cultural

Conto publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1° de março de 1895 (com o título "A agulha e a linha") e depois reunido no livro de contos Várias histórias, em 1895.

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UM APÓLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.

Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde  me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

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COMENTÁRIO DO BLOG

Este conto breve é muito interessante! Na primeira publicação, na Gazeta de Notícias, Machado de Assis o chamou de "A agulha e a linha", segundo o estudioso John Gledson. Quando a narrativa foi reunida em livro, o escritor a denominou "Um apólogo".

Apólogo é uma narrativa moral, um texto com personagens inanimados que ganham voz e ação (prosopopeia) e participam da história contada.

Nesta história que nos mostra a disputa de vaidade entre a agulha e a linha, debatendo entre elas qual seria mais importante, podemos observar que ambas têm seu valor no trabalho de coser as roupas que depois serão usadas pelos humanos em ocasiões diversas. 

No entanto, uma acabou "vencendo" o debate, como acontece hoje nas disputas alimentadas em redes antissociais que dominam o universo humano neste momento da história. 

Uma não realizaria o trabalho sem a outra na história. Linha sem agulha ou agulha sem linha demonstra a importância do trabalho conjunto. 

Poderíamos usar essa narrativa moral em diversos exemplos de nossa vida em sociedade. Precisamos uns dos outros. 

Uma obra pública financiada com recursos do governo federal e do estado ou município só saem do papel pela ação de ambos. Porém, governos locais usam omitir do povo a ação decisiva do governo federal.

Enfim, o conto machadiano, o apólogo, é mais atual que nunca, se pensarmos no cenário das eleições brasileiras de 2026. 

Lula recuperou o país após a tragédia bolsonarista, organizou a economia e está financiando estados e municípios em obras importantes. E os prefeitos e governadores, sem caráter ou ética, omitem essa informação por motivos políticos. 

Sigamos lendo literatura de qualidade e melhorando nossa interpretação do mundo. 

William 

18/08/26

sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Livros com as vozes das mulheres


Lendo e aprendendo com as mulheres 

Ao fazer minha contagem dos cem clássicos da literatura universal, percebi que foram poucas as autoras que li na vida, bem poucas. Senti a necessidade de mudar essa característica de meu percurso de leituras até aqui. Quero ler mais livros de autoras, tanto romances quanto livros de outras áreas do conhecimento humano.

Além de olhar para a frente e escolher mais autoras para ler, vou fazer uma retrospectiva do passado e recordar o que já li de livros de mulheres. Porém, também lerei mais livros sobre as mulheres, mesmo que não sejam escritos por elas.

As vozes femininas são essenciais para nós todos, independente da área onde atuamos, da visão de mundo que tenhamos, ler e ouvir o ponto de vista das mulheres é fundamental para construirmos uma sociedade humana que supere a violência ancestral dos homens em relação às mulheres.

Criando este espaço no blog com as leituras que já fiz de autoras de livros dos mais diversos gêneros discursivos e áreas de conhecimento, vou sistematizando minhas experiências com as autoras, e também vou revendo e aprendendo com as vozes femininas.

A página estará em constante modificação, pois estará em construção permanente.

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Obras lidas e comentadas no blog em ordem cronológica:


2024

1. Canção para ninar menino grande (2018) - Conceição Evaristo (link)

2.


2025

1. Bagagem (1976) - Adélia Prado (link)

2. Cachorro velho (2005) - Teresa Cárdenas (link)

3. Pequena coreografia do adeus (2021) - Aline Bei (link)


2026

1. Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana (2024) - Aline Marcondes Miglioli (link)

2. Clandestina (2024) - Ana Corbisier (link)

3. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei (link)

4. Persépolis (HQ 2000/2003. No Brasil, 2007) - Marjane Satrapi (link)

5. Poemas e maravilhas de Marili Santos - Ano 2013 (link)

6. Yargo (1979) - Jacqueline Susann (link)

7.


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Livros que me impactaram muito:

1. O diário de Anne Frank (1947) - Org. Otto Frank e Mirjam Pressler

2. Felicidade fechada (2017) - Miruna Genoino

3. Banzeiro Òkótó (2021) - Eliane Brum

4. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei

5. Evocación (2008) - Aleida March

6. Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída (1978) - Kai Hermann e Horst Rieck

7. Lula, filho do Brasil (1996/2003) - Denise Paraná 

8.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Leitura: O alienista - Machado de Assis



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


A obra do escritor Machado de Assis (1839-1908) é uma das mais fascinantes da literatura brasileira. O Bruxo do Cosme Velho é basicamente um autor do século XIX, publicou durante décadas, mas também escreveu textos marcantes nos primeiros anos do século XX, incluindo romances, contos e outros gêneros. Sua obra é de domínio público.

A primeira publicação deste blog de cultura Refeitório Cultural, em dezembro de 2007, foi "O alienista" (1882), do mestre criador da Academia Brasileira de Letras. Ler o conto aqui.

O texto de Machado era classificado por boa parte da crítica como conto, porém vem sendo considerado atualmente como uma novela. O autor o denomina conto e, se tivermos dúvidas, podemos acatar o escritor e criador da narrativa e seguir considerando a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte como um conto. 

Reproduzo abaixo o texto de "Advertência" que Machado de Assis colocou no livro que reuniu contos que ele já havia publicado em folhetins. O livro Papéis Avulsos (1882) traz como primeiro conto "O alienista", que havia saído em "A Estação" entre outubro de 1881 e março de 1882.

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ADVERTÊNCIA

     Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.

     Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

     Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição. 

                                        Machado de Assis

Outubro de 1882.

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COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA

A advertência do escritor Machado de Assis ao reunir os contos que compõem Papéis Avulsos me lembrou uma passagem do próprio conto "O alienista", quando o Padre Lopes aponta uma qualidade do Dr. Simão Bacamarte:

"A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

- Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: - a modéstia."

A modéstia...

Na advertência ao Papéis Avulsos, Machado diz aos leitores algo digno da observação e análise do Dr. Simão Bacamarte...

"O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): 'E aqui há sentido, que tem sabedoria'. Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra."

O nosso escritor é modesto, cita o evangelista e diz haver sentido em seus textos reunidos, menos a sabedoria... 

Machado com certeza seria recolhido à Casa Verde naquele segundo momento no qual o Dr. Bacamarte libertou 4/5 da cidade e região recolhidos por terem algum desequilíbrio das faculdades mentais e só aqueles com perfeito equilíbrio mental estavam recolhidos ao manicômio.

Não nos esqueçamos que nosso mestre, além de modesto, era um gênio da ironia.

Pelas minhas anotações, li "O alienista" pela oitenta vez desde que conheci a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte. É leitura de prazer! De esperança na humanidade ao saber que nossa espécie pode escrever assim. 

A cada leitura, mais admiração tenho por Machado de Assis, por sua genialidade, por sua universalidade.

Todas as vezes que li este conto fiz o exercício de olhar ao meu redor e refletir sobre todas as questões colocadas sob análise na história do Dr. Simão Bacamarte, personagem que estudou a loucura sob o escrutínio da ciência. 

Estou assim, modestamente (rsrs) olhando a loucura e os mentecaptos ao meu redor. Talvez sejam todos normais e eu seja a pessoa com um (d)esequilíbrio das faculdades mentais...

William 

11/08/26

sábado, 27 de junho de 2026

Livro: Os cem melhores contos brasileiros do século - Italo Moriconi



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


Um dos livros iniciados há mais tempo e não finalizados por mim era a seleção de contos brasileiros do século vinte, organizados por Italo Moriconi. 

O livro foi lançado no ano 2000 e eu tenho a minha edição pelo menos desde 2004, por ter anotações datadas nas páginas.

Moriconi organizou os contos e autores por períodos cronológicos. A primeira parte - "De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana" - já havia lido todos os contos, alguns deles, diversas vezes. 

A segunda parte - "Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos" - também havia lido. Ao retomar a leitura, estava terminando a terceira parte - "Anos 60 - Conflitos e desenredos". 

Foi desse ponto adiante que segui lendo, agora, contos já conhecidos por mim e fui sendo apresentado a contos e autores novos. 

Se minha vista permitir - tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo que me incomoda muito -, vou caminhar neste livrão até o fim. São 600 páginas. 

30/05/26

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De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana

Destaco dessa primeira seleção o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. É um dos melhores contos do Bruxo do Cosme Velho, na minha opinião. A temática é a escravidão dos povos africanos e seus descendentes no Brasil e a forma como essa violência era naturalizada naquela sociedade. 

Também tenho muita admiração pelos contos "Baleia", de Graciano Ramos, que depois se transformaria no clássico "Vidas secas". E "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto. Boa demais essa narrativa!

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Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos

De passar os olhos pelo índice de contos dos Anos 40/50, me lembrei na hora de "Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá", de Bernardo Elis. Sofri junto com os protagonistas... foda!

Destaco também "Viagem aos seios de Duília", de Aníbal Machado; "O peru de Natal", de Mário de Andrade; e "Afogado", de Rubem Braga. 

O caso com a Duília me fez pensar muito, à época, sobre a forma de lidar com as lembranças do passado. Rubem Braga nos fez sentir na pele o risco de morrer ao se aventurar no mar. E sempre recomendo o conto de Mário de Andrade a pessoas com relações paternas conflituosas. Demais essa narrativa!

Destaco ainda "Um cinturão", de Graciano Ramos. No livro de Moriconi, li o conto em 2011 e 2021. Ao relê-lo este ano (2026), no livro "Infância", fiquei muito impactado com a história do garoto. Horror!!!

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Anos 60 - Conflitos e desenredos

Da seção Anos 60, por meu gosto, e de memória, destaco "A máquina extraviada", de José J. Veiga, conto excepcional! 

Quando Moriconi organizou o livro, na virada do século, eu não havia lido ainda J. Veiga. Felizmente, em meados da segunda década deste século, peguei pra ler os livros do autor e li mais da metade da obra do escritor goiano. Ele é único!

Fernando Sabino também é excelente, seu conto "O homem nu" é muito bom.

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Anos 70 - Violência e paixão 

Gostei muito de alguns contos da seleção dos Anos 70. Os mais impactantes foram os três de Rubem Fonseca, nossa! O "Feliz ano novo" me deixou muito mal, são os acontecimentos ao redor da gente ainda hoje!

Amei o conto de Clarice Lispector! Os olhos enchem de lágrimas só de pensar no amor pela literatura. É mesmo uma "Felicidade clandestina".

Merecem meu destaque "O elo partido", de Otto Lara Resende; "A balada do falso Messias", de Moacyr Scliar; e "A maior ponte do mundo", de Domingos Pellegrini.

Ao final do conto "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", de José Cândido de Carvalho, pensei em mim e no Sindicato, e depois em minha volta pra casa... me vi como Lulu Bergantim. 

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Anos 80 - Roteiros do corpo

Alguns contos desta seleção me incomodaram muito, ou me fizeram refletir sobre o tema abordado. Isso é muito bom! Até concluí que devo seguir lendo contos para dar a mim mesmo a oportunidade da novidade no meu cotidiano, em termos de histórias ficcionais. 

O conto de Ivan Ângelo, "Bar", foi um soco no meu queixo, fiquei muito tempo com o maxilar doído.

Na temática da luta permanente das mulheres pelo direito aos próprios corpos e vidas, gostei dos contos "Intimidade", de Edla Van Steen, "I love my husband", de Nélida Piñon, e de "Flor do cerrado", de Maria Amélia Mello. Muito bom também "Aqueles dois", de Caio Fernando Abreu.

Adorei "Obscenidades para uma dona-de-casa", de Ignácio de Loyola Brandão. 

Destaco ainda o conto de João Ubaldo Ribeiro, "O santo que não acreditava em Deus". Ao comentar sobre ele com a esposa, ela disse que tem um filme baseado na estória. 

O "Conto (não conto)", de Sérgio Sant'Anna, foi um dos melhores textos da seleção dos Anos 80.

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Anos 90 - Estranhos e intrusos

Na seleção de contos dessa década final do século vinte, alguns textos mexeram comigo também, um certo incômodo na leitura. Alguns pelo tema, outros pela forma da narrativa. 

Sérgio Sant'Anna é destaque com o conto "Estranhos". Tema bem diferente do seu "Conto (não conto)" da década anterior. Nesse de agora é sexo na veia. O outro tem uma pegada filosófica. 

O conto "Olho", de Myriam Campelo, é daqueles que a gente lê escondido, com vergonha de alguém saber que lemos aquilo, que alguém teve coragem de escrever aquilo. Me lembrei do Alberto Manguel falando sobre suas leituras infantis de livros proibidos da estante de seu pai (Uma História da Leitura).

O conto de Marina Colasanti "A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain" me deixou muito pensativo, dormi com ele e ainda penso a respeito. Mexeu comigo, me fez escrever um de meus textos da série "Instantes".

Para fechar meus destaques da seleção dos Anos 90, cito Luis Fernando Verissimo e seu pequeno e belo "Conto de verão n° 2: Bandeira Branca". De arrepiar e emocionar o leitor. Pelo menos este leitor que vos fala.

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Comentário final 

E então, duas décadas depois de iniciada a leitura de Os cem melhores contos brasileiros, na opinião de Italo Moriconi, concluí o livro. Já era tempo, né?

A crítica literária tem algumas vertentes quando se pensa o papel da literatura na sociedade humana. 

Quando fiz faculdade de Letras, li o texto do professor Antonio Candido "O direito à literatura" e fui convencido pelo mestre que a literatura é um direito humano fundamental, pois fabular nos faz humanos.

Independente da maneira como se escreve e se lê literatura - romances, contos, crônicas e demais formas de textos artísticos - as narrativas ficcionais nos agregam vivências, experiências e aprendizados que nos modificam, nos transformam em outras pessoas, ou seja, as personas ficcionais alteram nossas personas reais. Isso é bom!

Ler um livro como esse com dezenas de autoras e autores brasileiros que não conhecia ou até já tinha ouvido falar, mas que nunca havia lido nada de suas autorias nos dá uma consciência incrível do quanto sabemos pouco ou quase nada de tudo. 

Sou formado em Letras, já li bastante se comparar minha bagagem com as médias de leitores do país, mas sei que não conheço quase nada de literatura brasileira e universal.

Reconheço com humildade esse fato e me disponho a seguir lendo e escrevendo aqui sobre minhas refeições culturais, enquanto a natureza me permitir.

Claro, como defini desde o início, tudo que souber quero partilhar de forma gratuita com as pessoas. Quando se compartilha conhecimento estamos atuando para melhorar as pessoas e o mundo. 

William 

27/06/26

sábado, 13 de setembro de 2025

Diários com Machado de Assis (17)



Refeição Cultural

Jaboticabal, 13 de setembro de 2025. Sábado.


Sou admirador de nosso escritor Machado de Assis, um fenômeno da natureza da espécie humana, nascido no século XIX num canto do mundo chamado Brasil. O "nosso" que usei acima é referente a essa coisa em comum entre eu, você e Machado: a gente nascida no nosso canto, essa terra habitada por povos originários antes da chegada dos europeus e após os séculos de exploração e gestão do país com o olhar de fora, para o bem dos outros e não para o bem do povo que aqui nasce, vive e morre.

Para não dizer que nada sei de Machado, posso dizer que já li todos os seus romances e algumas dezenas de contos de sua autoria. Aí, pensei em conhecer alguma coisa sobre sua obra poética, e faz alguns meses li o primeiro livro de poesias do Bruxo do Cosme Velho: Crisálidas, publicado em 1864 (comentário aqui). Achei uma leitura exigente, diferente de quando leio poesias com linguagem mais prosaica. 

Não quero dizer com isso que poesia com linguagem prosaica é simples, pois as imagens e metáforas podem ser mais complexas que em poesias com linguagem mais rebuscada.

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Antes de seguir com a reflexão ou refeição cultural, faço uma observação que andei pensando. Eu tenho escrito comentários sobre livros, poemas, filmes e gêneros da cultura já faz quase duas décadas. Ao ouvir uma análise de um crítico de cinema, o PH Santos, na qual ele explicava o que é de fato uma "crítica" reforçou em mim a leitura de que o que faço em meus textos no blog não são críticas literárias ou sobre filmes, pois não são baseadas em questões técnicas da referida arte. No entanto, o fato de meus textos não serem "críticas" não tira alguma contribuição que eles tenham a respeito da obra comentada, pois meus textos são impressões e comentários sobre os efeitos daquela obra sobre minha pessoa, um cidadão dedicado à compreensão do mundo e da vida. Ou seja, meus textos têm o seu valor, mesmo não sendo formalmente "crítica" literária ou sobre filmes.

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Voltando aos poemas de Machado de Assis, após a leitura de seu primeiro livro de poesia, comecei a ler o segundo livro, Falenas, de 1870. Aproveitei longas horas de estrada para ler alguns poemas de nosso escritor maior.

Interrompi a leitura do livro Falenas para ler alguma crítica a respeito do tema e estou lendo artigos muito interessantes de um estudioso do autor. O articulista se chama José Américo Miranda, pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo, e suas contribuições para a compreensão das obras poéticas de Machado são esclarecedoras.

Amigas e amigos leitores, vou seguir na leitura dos artigos sobre esses dois livros de Machado. Pensei em escrever esse comentário da série "Diários com Machado de Assis" porque ter acesso a conhecimentos compartilhados é uma coisa extraordinária da parte boa dos seres humanos.

Sigamos aprendendo sobre literatura e nossos grandes autores e suas obras.

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Instantes

Pelo momento que estou vivendo, é inevitável pensar sobre os sentidos da existência humana. Inevitável. Até uns trinta anos de idade, avaliando de onde estou com quase o dobro da idade, e com a experiência que a sobrevivência me deixou nas entranhas do ser animal, teria vivido uma vida de um jeito e só daquele jeito. Uma vida para mim, egoisticamente para mim e pronto. Não tinha a formação política que adquiri pelas veredas da vida. Antes, tinha um ódio ferrenho do mundo, depressão, indignação, falta de perspectiva de futuro. Se tivesse tombado pelo caminho, não teria tido a oportunidade de conhecer outras possibilidades da vida humana. Vivi até aqui e até Machado de Assis conheci melhor após os trinta anos, a segunda parte da existência que por acaso tive.

Apesar da impotência que sinto hoje, neste instante, em relação ao mundo e às pessoas que gostaria de ajudar, impotência em relação a não poder fazer algo por pessoas queridas, algo que só elas mesmas poderiam querer fazer por si mesmas, eu adquiri uma consciência que me dá uma espécie de responsabilidade para estar vivo, para combater o cansaço que meu corpo apresenta, pois se eu deixar rolar, a vida se esvai num curto espaço de tempo, contrariando as estatísticas do meu perfil social, estatísticas que me dariam até umas três décadas ainda caminhando pela Terra.

A expressão pesada de nosso grande escritor na foto acima, com mais ou menos 65 anos em 1904, me deixa sempre pensativo. Machado é um grande representante de nossa espécie, um grande brasileiro, um escritor e intelectual muito à frente da mentalidade de seu tempo de vida, um homem que se tivesse vivido só a metade de sua vida, não teríamos a oportunidade de conhecer a produção humana que ele nos legou após seus trinta e poucos anos. Vejam com é a vida e o viver, o ir vivendo.

Se eu tivesse deixado de existir com meus trinta anos, não teria tido a oportunidade extraordinária que tive de, do nada, me politizar e viver uma vida de lutas coletivas, deixando de ser só mais um egoistazinho desses que temos aos montes por aí, e sabendo que nem viver eu queria quando já tinha vinte e poucos anos.

Tudo isso tenho pensado ao estudar o mundo, a vida, ao ver os jovens ao meu redor, ao tentar compreender os comportamentos das pessoas e tentar compreender, mesmo sem aceitar, mas compreender por que as coisas e as pessoas são como são. Tento me imaginar no lugar e no tempo delas hoje, aquele que fui com a idade delas.

Tenho uma certeza: não posso julgar absolutamente nada das atitudes dos jovens ao meu redor. Não sei se seria diferente deles, na condição que estava antes, e na qual eles se encontram agora, neste mundo e sociedade colapsados.

Chega por hoje.

William

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Livro: Deuses humanos - H. G. Wells



Refeição Cultural

"Isso é o que fazemos agora habitualmente neste mundo. Pensamos diretamente uns para os outros. Determinamos transmitir o pensamento e é transmitido imediatamente, contanto que a distância não seja grande demais. Agora usamos sons neste mundo apenas para poesia e para o prazer e nos momentos de emoção ou para gritar de longe, ou com animais, não para a transmissão de ideias da mente humana para outra mente irmã. Quando eu penso para você, o pensamento é refletido em sua mente, desde que encontre ideias correspondentes e palavras adequadas em sua mente. Meu pensamento se reveste de palavras em sua mente, palavras que vocês parecem ouvir - e naturalmente em sua própria língua e com suas frases habituais. Muito provavelmente, os membros de seu grupo estão ouvindo o que estou dizendo a você cada um com suas próprias diferenças de vocabulário e sintaxe." (p. 50)


O livro de Herbert George Wells, Deuses humanos, veio até mim de forma casual, o vi numa banquinha de livros num shopping center. Paguei por ele quinze reais.

Pelo que pesquisei, o livro não é daqueles mais conhecidos do autor inglês como Guerra dos mundos, A ilha do Dr. Moreau, O homem invisível, A máquina do tempo e outros. 


LIVRO 1 - A IRRUPÇÃO DOS TERRÁQUEOS 

No enredo, o senhor Barnstaple, um trabalhador do periódico Liberal - um subeditor e um faz-tudo -, reflete sobre a necessidade de férias, ele está esgotado pela rotina no trabalho e também em casa. Quer férias até da família. 

Sendo assim, ele pega o carro e sai escondido por uns dias. Dirige a esmo e numa derrapada se vê em outro mundo. Começa aí sua experiência em "Outro Lugar", um lugar chamado Utopia.

Outro carro com um grupo eclético, incluindo um político do partido Conservador inglês, foi parar naquele mundo também. Personagens: sr. Cecil Burleigh, líder Conservador; sr. Rupert Catskill, secretário de Estado para a Guerra; temos ainda o chofer, Lady Stella, Freddy Mush (secretário de Rupert) e o padre Amerton.

O senhor Barnstaple é um liberal, mas:

"De fato, o sr. Barnstaple estava deixando de ter esperanças, e para tipos como ele, esperança é o solvente essencial sem o qual a vida não pode ser digerida. Sua esperança sempre havia sido o liberalismo e o generoso esforço liberal, mas ele começava a achar que o liberalismo jamais faria nada além de se sentar curvado com as mãos no bolso, resmungando e implicando com as atividades de homens mais vulgares, porém mais enérgicos, cujas atividades iriam, inevitavelmente, acabar com o mundo." (p. 12/13)

O senhor Barnstaple tem um pequeno automóvel:

"Era um carro de dois lugares. Era conhecido na família como Banheirinha, Mostarda Colman e Perigo Amarelo. Como esses nomes sugerem, era um carro baixo, conversível, de uma cor amarela clara. O sr. Barnstaple o usava para ir de Sydenham ao escritório, porque fazia cinquenta quilômetros por galão e era muito mais barato do que uma passagem de temporada." (p. 15)

Uma ideia é destaque na saída furtiva do senhor Barnstaple de casa para descansar uns dias:

"(...) Mas não importava muito. Qualquer caminho levava para Outro Lugar, e ele podia seguir para o norte depois." (p. 18)

Localização temporal

"O dia era um desses dias de sol claro característicos da grande seca de 1921 (...) enquanto estivesse dando as costas para Sydenham e o escritório do Liberal, não importaria para qual direção seguiria." (p. 18)

Outro Lugar

O grupo de terráqueos estabelece uma troca de informações e conhecimentos com os indivíduos daquele mundo e assim segue o enredo do romance ficcional. 

Serviço Universal

A base da organização social em Utopia é um novo método de cooperação econômica: o serviço universal para o bem comum.

O novo modelo social surgiu lentamente após a última Era de Confusão. Não houve revolução. Foram séculos de educação e ciência. 

Personagens utopianos até esta parte da leitura (livro um): sr. Serpentine, sr. Urthred, Lion, Lychnis.

Mais personagens

Mais adiante, aparecem novos personagens: Lorde Barralonga, o chofer Ridley, a srta. Greta Grey, Hunker - o rei do cinema -, o francês Emile Dupont e Penk. O bando chegou atropelando e matando um cidadão de Utopia. 

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LIVRO 2 - A QUARENTENA

A segunda parte do romance começa anunciando uma epidemia na população de Utopia causada pelos germes trazidos pelos estrangeiros terráqueos. 

Os utopianos eram como os povos originários das terras invadidas pelos homens brancos europeus em meados do segundo milênio da chamada era cristã. 

De forma sintética, resumiria que o grupo de terráqueos foi isolado num castelo no alto de uma montanha. Os doze humanos discutem sobre o que fazer, sendo o sr. Barnstaple o único divergente na proposta do grupo.

O subeditor do Liberal não vê sentido na ideia do grupo de se contrapor aos utopianos e fazer de Utopia o que seria a sociedade humana naquele momento em 1921. Os utopianos estavam séculos à frente em avanços sociais, pensava o sr. Barnstaple. 

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LIVRO 3 - UM NOVATO EM UTOPIA

"- Aqui - disse ela - não há descanso. Todos os dias homens e mulheres acordam e dizem: 'Que coisa nova faremos hoje? O que vamos mudar?'.

- Eles transformaram um planeta selvagem, com doenças e desordem, numa esfera de beleza e segurança. Fizeram a selva das motivações humanas conter união, conhecimento e poder." (p. 192)


Nesta parte da história veremos o desfecho da aventura do sr. Barnstaple. 

Para mim, como leitor, foram esclarecidas várias dúvidas em relação ao enredo do romance de H. G. Wells.

Certas afirmações pejorativas feitas pelos utopianos sobre a raça humana me deixaram perplexo, no sentido de que poderiam ser ditas hoje, um século depois do enunciado, e não como ficção, mas como descrição do que somos.

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COMENTÁRIO FINAL 

"Em Utopia, assim como na Terra, houvera pessoas escuras e morenas, e permaneciam distintas. As várias raças interagiam socialmente, mas não procriavam muito entre elas; em vez disso, purificavam e intensificavam suas belezas e dons raciais (...) Houvera uma certa eliminação deliberada de tipos feios, malignos, estreitos, estúpidos e soturnos durante os doze anos anteriores." (p. 197)


Esse enunciado é de um século atrás. Chocante, não? Porém, as ideias contidas no texto fazem parte de um romance ficcional. 

No entanto, ideias semelhantes foram ditas faz poucos anos, já no século XXI, por um deputado federal à época para uma entrevistadora negra. Bolsonaro disse para Preta Gil que seus filhos não tinham risco de namorar negras porque foram bem-educados...

Preta Gil processou o sujeito por racismo e teve ganho de causa. Infelizmente, a cantora faleceu ontem. (Preta Gil, presente!)

O livro de H. G. Wells, de 1923, traz uma temática absurdamente atual um século depois. 

A ficção traz de volta o tema da existência de um não lugar, um lugar nenhum idealizado, assim como fez Thomas More em 1516, com sua célebre obra "Utopia".

Nessas idealizações de mundos imaginários entram de tudo: socialismo ou comunismo, eugenia, tecnologias impossíveis etc.

Quando peguei o livro na banca de promoções de livros baratos não imaginava do que se tratava o enredo. Foi sorte minha, li um livro muito bom!

Recomendo a leitura dessa obra posterior ao período mais notabilizado do autor, entre 1895 e 1905, quando saíram seus grandes clássicos de ficção. Dessa fase eu li "A guerra dos mundos" (1898) e achei o enredo fascinante (comentário aqui). 

Seguimos lendo porque a leitura é uma das maravilhas da espécie animal homo sapiens. Como diz Paulo Freire, só se educa gente! Leitura educa as pessoas.

William Mendes


Bibliografia:

WELLS, H. G. Deuses humanos (Men like Gods). Tradução de Santiago Nazarian e Thelma Nóbrega. Barueri, SP: Amoler, 2022.

sábado, 5 de julho de 2025

Livro: Fábulas (1922) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- Na minha opinião, as fábulas mostram só duas coisas: primeiro que o mundo é dos fortes; e segundo que o único meio de derrotar a força é a astúcia..." (Fala do Visconde de Sabugosa, p.173)


O livro "Fábulas" de Monteiro Lobato foi publicado em 1922. Foi o segundo da coleção Sítio do Picapau Amarelo, saiu após "O Saci" (1921).

Estou lendo a obra um século depois. Eu concordo com a avaliação acima do personagem Visconde de Sabugosa. Só a astúcia para derrotar a força. 

Em que mundo vivia o autor um século atrás? Em que mundo vivemos hoje? Num mundo no qual a força se impõe contra a diplomacia e os consensos; em mundos que não querem mais conciliar.

A Alemanha e a Itália das primeiras décadas do século passado, o Japão lá no Extremo Oriente, se impuseram pela força (seriam o Eixo na 2a GM). Os Estados Unidos de Trump e o "Estado" de Israel de Netanyahu estão se impondo pela força. O império da força sem limites diplomáticos... esses são os tempos. 

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O LOBO E O CORDEIRO

Outra fábula recontada por Monteiro Lobato um século atrás é mais atual que todas as outras: a do lobo e o cordeiro.

"Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto.

- Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? disse o monstro arreganhando os dentes - Espere, que vou castigar tamanha má-criação!...

O cordeirinho, trêmulo de medo, respondeu com inocência:

- Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta...

(...)

O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:

- Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!

E - nhoc - sangrou-o no pescoço. 

     Contra a força não há argumentos." (p. 118/119)

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COMENTÁRIO FINAL 

O livro contém 74 fábulas, algumas ótimas, muitas interessantes, e outras ruins e sem sentido.

Algumas fábulas são atemporais, vêm de séculos e séculos atrás. E suas lições permanecem sábias até hoje.

Foi o 4° livro que li de Monteiro Lobato nas últimas semanas. 

Fico com o ensinamento de Italo Calvino: é melhor ler que não ler os clássicos!

Sigo lendo e aprendendo.

William 


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. Fábulas. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Livro: O Saci (1921) - Monteiro Lobato

 


Refeição Cultural

"Dizem - respondeu o Saci - que, quando uma mulher tem sete filhos machos, o sétimo vira lobisomem na noite das sextas-feiras. Sai então pelos campos, invade os galinheiros (onde come um produto das galinhas que não é o ovo) e também assalta e devora os cães e as crianças que encontra pelo caminho..." (p. 79/80)


Ao pesquisar sobre a obra de Monteiro Lobato, vi que "O Saci" foi o primeiro volume da coleção Sítio do Picapau Amarelo, publicado em 1921.

Nesse primeiro livro, vemos personagens clássicas do folclore brasileiro como, por exemplo, a Mula Sem Cabeça, a Iara, o Lobisomem, o Negrinho do Pastoreio e o Boitatá. 

A Cuca e o Saci-Pererê são personagens que fizeram parte da infância das crianças brasileiras. A adaptação para exibição na TV se deu nos anos setenta, na Rede Globo em parceria com a TVE e o MEC (1977 a 1986). Quando pude ver alguma coisa sobre o Sítio, foram episódios dessa época.

Como disse nos comentários dos primeiros volumes que li dessa coleção (ler aqui), o leitor de hoje tem dificuldade com a linguagem de Monteiro Lobato em relação a diversas questões sensíveis como, por exemplo, a forma de tratamento a grupos sociais de nosso país.

No entanto, avalio que não é por isso que se deva desmerecer a importância inovadora da obra de Lobato nas primeiras décadas do século vinte no que diz respeito a uma literatura feita para crianças e adolescentes.

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PERSONAGENS

Nas adaptações das lendas feitas por Monteiro Lobato, ele não segue necessariamente a tradição que a maioria das pessoas conhece. 

Na lenda da Mula Sem Cabeça, por exemplo, é mais conhecida a história na qual ela é concubina de um sacerdote. No entanto, no livro ela é esposa de um rei e come cadáveres de crianças no cemitério local.

Algumas histórias de Lobato são bem assustadoras se pensarmos o público-alvo e a sociedade na qual seus livros circulavam, crianças e o Brasil do início do século vinte.

A lenda do Boitatá do livro tem semelhança com uma das vertentes que encontrei ao pesquisar sobre a personagem folclórica. O próprio Pedrinho fala ao Saci que ele conhece a história da cobra de fogo como sendo fogo-fátuo.

Ao ler sobre o Lobisomem foi inevitável pensar qual dos filhos de minha avó Deolinda seria o lobisomem da família (risos). 

Minha avó teve nove filhos homens e o sétimo deve(ria) ter sido o bichão... não me lembro agora, mas se brincar é o meu pai... (os dois mais velhos já faleceram e um dos mais novos também). 

Brincadeira, meu pai é um dos mais velhos e não um dos mais novos. Ele não é o lobisomem da família. 

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É isso! Sigamos lendo Monteiro Lobato. Já li 3 livros dele e tenho mais 4 em casa para ler.

William


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Saci. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Livro: Aventuras de Hans Staden (1927) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"Aventuras de Hans Staden, o homem que naufragou nas costas do Brasil em 1553 e esteve oito meses prisioneiro dos índios tupinambás, narradas por Dona Benta aos seus netos Narizinho e Pedrinho."


Depois de ler "O Picapau Amarelo" (1939), agora foi a vez de ler "Aventuras de Hans Staden" (1927), da Coleção Sítio do Picapau Amarelo (1921-1947), de Monteiro Lobato.

Nesta aventura, Dona Benta conta aos netos eventos pesados se pensarmos o público infantil, pois o que mais tem na história é canibalismo, os tupinambás comeram gente do início ao fim.

Como leitor treinado, sempre busco adequar minha expectativa ao contexto no qual a obra foi lançada: a época, o lugar e as linhas gerais pretendidas pelo autor, se souber isso.

Disse no comentário sobre o primeiro volume que li de Monteiro Lobato (aqui) que ele é um escritor de seu tempo histórico. A linguagem usada por ele não me agrada como leitor do primeiro quarto do século XXI, acho ruim a forma como se trata a questão indígena, por exemplo. Mas não posso desconsiderar a importância da obra de Lobato.

Para compreender melhor o personagem retratado no volume procurei ler alguma coisa sobre Hans Staden. Eu não li o livro dele. Acho até que tenho uma edição em casa, mas não procurei a obra.

Por considerar o vanguardismo de Monteiro Lobato nas mais de duas dezenas de livros da Coleção Sítio do Picapau Amarelo, avalio que está boa a forma como ele contou a história do personagem capturado pelos tupinambás em meados do século XVI no Brasil.

Sigamos com a leitura de Monteiro Lobato.

William


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. Aventuras de Hans Staden. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2022.


domingo, 8 de junho de 2025

Livro: O Picapau Amarelo (1939) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- E agora, Visconde? Que fazer?

O Visconde coçou as palhinhas do pescoço. Não achou remédio. Os sábios são criaturas indecisas; não resolvem nada." (Monteiro Lobato, O Picapau Amarelo, p. 148)*


O Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens fizeram parte de minha infância de alguma forma, pelo que me lembro. Acho que assistia às aventuras de Pedrinho, Narizinho, a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa através da televisão nos anos oitenta. 

Ao pesquisar a respeito de qual série televisiva tive contato na infância, vi que foi a da adaptação da Rede Globo em parceria com a TVE e MEC, exibida entre os anos de 1977 e 1986, período no qual eu tinha entre 8 e 17 anos.

Os livros, contos ou textos políticos de Monteiro Lobato eu nunca tinha lido. Essa edição que li foi uma dessas que compramos em bancas de livros expostas em corredores de shopping center. Foram 15 reais bem investidos, na minha avaliação. O que se faz hoje com esse valor? Pode-se comprar um livro de Monteiro Lobato!

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FÁBULAS E FAZ DE CONTA ENTRE CRIANÇAS E ADULTOS

Ao ler os livros de fantasia e mundo do faz de conta das fábulas infantis e infanto-juvenis que fizeram parte da infância de muita gente e avaliar o que virou o mundo humano nas primeiras décadas do século XXI, mundo no qual grupos de pessoas põem celular na cabeça para contatar extraterrestres para salvá-los de uma suposta ditadura esquerdista no Brasil, fico pensativo sobre a condição lastimável da espécie humana neste momento da história. 

A fantasia e faz de conta atualmente dominam a mente de adultos como, por exemplo, aqueles seguidores de uma seita messiânica liderada por um certo clã de políticos de extrema-direita no país. 

Acho que são diferentes as fantasias e abstrações criadas na literatura e outras formas de cultura e as manipulações de massa feitas pelos donos do poder e suas máquinas com objetivos de ganhos pessoais em detrimento de prejudicar as massas manipuladas.

Ou seja, vamos ler mais literatura e acessar mais formas de cultura e ficar menos nas redes sociais cujas donas são as corporações chamadas big techs que hoje atuam para mudarem o comportamento de seus usuários de forma criminosa.

É minha opinião.

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PRODUÇÕES CULTURAIS RETRATAM OS MUNDOS

Uma questão do mundo atual que se discute em relação à produção de cultura de outras épocas é sobre as qualidades e defeitos dos criadores das produções culturais em suas épocas e contextos. Escritores e outros intelectuais das artes são seres sociais e são sujeitos de suas épocas.

A linguagem e formas de tratamento no livro de Monteiro Lobato, escrito em 1939 no Brasil, podem ser consideradas hoje inadequadas, racistas e preconceituosas. Este leitor que leu o livro agora em 2025 acha isso.

No entanto, as obras literárias e culturais ao longo da história humana retratam o mundo e a visão das pessoas daquele mundo em qualquer tempo e lugar. 

Óbvio que cada pessoa é diferente em uma determinada comunidade humana. O ser humano Monteiro Lobato em 1939 pode ser que tenha sido racista, xenófobo, misógino, elitista ou qualquer outra forma de avaliar comportamentos e ideias das pessoas em 2025.

No entanto, achar que só Monteiro Lobato ou só fulano ou cicrano usava a linguagem que o escritor usa para criar romances ficcionais na primeira metade do século XX no Brasil é tapar o sol com a peneira, ou seja, não considerar aquele mundo no qual vivia o escritor. 

É isso que penso após décadas de vivência e contato com a educação e formação política que tive a oportunidade de acessar como ser humano que já mudou radicalmente de opinião e visão de mundo por causa do contato com outros tipos de pensamentos nas suas mais diversas formas de apresentação aos outros.

Mais complicado para uma criança ou adolescente do que ler um romance de Monteiro Lobato com linguagem da época do Brasil da primeira metade do século XX é uma criança ou adolescente em 2025 conviver no meio de gente que põe celular na cabeça em grupo no meio da rua pedindo intervenção de extraterrestres por qualquer que seja o motivo. O exemplo que essas crianças estão recebendo de seus adultos vai ferrar geral o mundo no qual todos nós vivemos hoje e amanhã.

Vou ler mais Monteiro Lobato.

William


*Post Scriptum: ia me esquecendo. Por que usei a citação acima sobre os sábios que não resolvem nada? No instante que li, me lembrei na hora dos debates que tinha quando sindicalista e acadêmico a respeito das diferenças abissais entre a academia e o mundo sindical na hora de definir reivindicações, estratégias e táticas e soluções para os conflitos entre capital e trabalho. Os sindicalistas, mesmo acadêmicos ou com bagagem intelectual, têm uma diferença enorme em relação aos professores e intelectuais que tanto admiramos: na hora do conflito, da greve por exemplo, os sindicalistas estão com milhares de pessoas na busca de solução para aquele conflito real nas ruas e nos locais de trabalho, o ideal passa longe da solução para aquele conflito. Aprendi isso e respeito muito essa condição do sindicalista, que busca achar solução intermediária que seja decidida pelo conjunto de trabalhadores envolvidos. Via de regra, o acadêmico vai espinafrar a solução encontrada porque ela não leva ao socialismo ou à mudança de condição social etc. Muitas vezes, greves longas sem acordos intermediários acabam por só negociar os dias parados, sem avanço algum para os trabalhadores.


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Picapau Amarelo. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.