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quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (38) - O cacto, Manuel Bandeira



O CACTO - MANUEL BANDEIRA


Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:

Laocoonte constrangido pelas serpentes,

Ugolino e os filhos esfaimados.

Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...

Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.


Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.

O cacto tombou atravessado na rua.

Quebrou os beirais do casario fronteiro,

Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,

Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:


- Era belo, áspero, intratável.


                                              (Petrópolis, 1925)


Do livro Libertinagem, de 1930

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COMENTÁRIO:

Ao escolher o poema do dia, lendo Libertinagem, de Manuel Bandeira, fiquei entre "O cacto", "O major" e "Poema de finados", todos eles muito duros, na minha leitura.

(Ao procurar o livro na estante, havia pensado no poema "Andorinha" mas, francamente, não tinha nada que ver comigo. Eu não passei a vida à toa. Fiz coisas importantes coletivamente)

Acabei optando por "O cacto". Tem relação com o meu momento.

William


BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. 14ª impressão. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2000.


domingo, 25 de abril de 2021

25. Libertinagem - Manuel Bandeira



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avó
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
"


Neste sábado à noite, 24 de abril, reli o livro de poesias de Manuel Bandeira, Libertinagem (1930). Foi a enésima leitura. Li em voz alta, declamei, interpretei. Até chorei com a "Evocação do Recife". Também me emociono muito com outros poemas do livro.

Durante minhas viagens a trabalho a Recife, tanto no Sindicato quanto na Cassi, era comum nas conversas com os recifenses falarmos do poema de Bandeira e citar as ruas. Ainda hoje esse poema é muito presente para os pernambucanos.

Neste mês de abril, dei uma atenção aos modernistas. Reli Oswald de Andrade e Mário de Andrade, 3 livros daquele e o Pauliceia Desvairada deste. Quero reler Macunaíma, mas vou começar duas leituras clássicas pesadas e o nosso herói sem caráter vai esperar um pouco (ou seja, "sem caráter" significa sem característica bem definida, já nos explicava o professor Wisnik).

Essas leituras dos modernistas são leituras de descansos das leituras engajadas, a do Moby Dick, um catatau de 650 páginas que pretendo acabar hoje, e a do neurocientista Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano, criador de tudo. Uma leitura de ciência.

É difícil escolher um ou dois poemas do Libertinagem, ele é muito marcante. Muitos poemas são bastante conhecidos como, por exemplo, "Vou-me embora pra Pasárgada", "Andorinha" e "Poética", que já declamei em sarau.

Difícil escolher um poema para brindar essa postagem...

Pelo contexto no qual vivemos hoje, escolhi o "Profundamente", poema que tive o privilégio de ver analisado em sala de aula na Universidade de São Paulo.

O "Poema de Finados" também é muito forte e muito adequado a milhares de famílias que enterram seus familiares vitimados pelo genocídio da pandemia, genocídio causado pelo regime político que viu no vírus uma oportunidade de barbarizar o país.

Enfim, esse é um clássico a se ler toda hora, todo dia, a vida toda.

William


Bibliografia:

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.


domingo, 6 de setembro de 2020

De homens e cavalos



Leão Tolstói.

Refeição Cultural

Quase nunca lembro sonhos ou pesadelos. Quase. Desta vez, tive um pesadelo e me lembro dele. Foi forte a cena, um horror! Um homem rasgava o próprio pescoço e nos olhava enquanto o sangue jorrava... despertei.

De manhã, ao acordar, me dei conta que o sonho ruim foi ainda consequência da leitura da noite anterior. Fiquei bastante impressionado com o conto de Tolstói: Kolstomer (História de um cavalo), escrito entre 1863 e 1886. Terminada a leitura da história daquele cavalo de raça malhado, fiquei com a cabeça a mil. Eu já havia lido o conto em 2008, mas não me lembrava dele.

"Sim, sou filho de Liubesni I e de Baba. Meu nome de linhagem é Mujique I. Sou Mujique I e, para os da rua, Kolstomer, assim apelidado pelo vulgo em razão de minha marcha ampla, que nunca teve igual em toda a Rússia. Não há no mundo um cavalo de sangue mais nobre que o meu..."

Em linhas gerais, o conto narra a história de um cavalo de raça, que nasce com a cor da pele diferente da de seus pares (nasceu mosqueado, malhado) e sua vida será marcada e definida por isso: a cor de sua pele. E ele terá uma vida desgraçada, mesmo sendo de linhagem nobre.

Tolstói faz várias críticas à sociedade a partir da história do cavalo Kolstomer. O escritor dá voz ao cavalo e as reflexões do animal em relação ao animal humano são profundas, duríssimas e mais atuais que nunca. O animal humano capitalista é colocado em seu devido lugar pelo animal cavalo.

Os humanos levam suas vidas baseadas na lorota, no faz de conta, na palavra e não através de fatos. É aquela lição de Cazuza "Suas ideias não correspondem aos fatos...". As principais palavras na linguagem do animal humano são os pronomes "meu", "minha", "teu", "tua". É a posse de tudo. 

"Minha casa", "minha mulher", "meu cavalo", "minha terra". Mas o sujeito nunca viveu na casa; é outro que fica com sua mulher; não é ele que alimenta e anda no cavalo; e nunca pisou na terra que diz ser sua. Todas essas verdades são apontadas pelo cavalo Kolstomer em suas observações sobre o animal humano.

E o conto é duro e violento como a vida é. A violência é como a violência que sofremos neste instante no país destruído e entregue aos fascistas, genocidas, bárbaros ignorantes, brancos da casa grande, bilionários e capatazes com os poderes nas mãos.

Enfim, o conto me deixou bolado. O final do conto é duro, é o cotidiano de todos que tiveram vidas miseráveis por preconceito, por mandonismo, por falta de oportunidades e liberdades. Dormi bastante impressionado.

Só para lembrar mais um caso de homens e cavalos, nunca me esqueço de um poema de Manuel Bandeira, que faz profunda crítica à sociedade burguesa, comparando seus membros a cavalos, enquanto observa cavalos na pista de corrida. O poema se chama "Rondó dos cavalinhos", do livro Estrela da Manhã (1936).

"Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo..."

Os versos vão se repetindo a cada estrofe, e para o leitor do poema vai ficando claro pela sonoridade das consoantes "nh... n... m... n..." (mmm) que ao olhar os graciosos cavalos correndo lá na pista, o que mais chama a atenção do eu lírico é o mastigar voraz dos animais humanos dentro do salão burguês onde se encontram num possível jóquei clube.

E, por fim mesmo, a história de Kolstomer, a brutalidade animalesca em que nos encontramos no país pós golpe de Estado e dominado pelo mal, tudo isso me fez lembrar do ambiente onde cresci, ainda no final da ditadura civil-militar dos anos 1964-1985, lá em Uberlândia. 

Eu tinha meus doze ou treze anos e via nas ruas de terra onde morava os cavalos e burros amarrados em postes sendo espancados para serem "amansados". Era muito grotesco aquilo. Às vezes, a sessão de tortura durava o dia todo. Cresci vendo aquilo. Mas a molecada também era bruta como seus familiares que espancavam cavalos...

Avançamos para um mundo um pouco mais civilizado nas décadas seguintes, com governos democrático-populares como os do Partido dos Trabalhadores no Brasil, para voltarmos à barbárie de novo agora, por golpe e entrega do poder aos semeadores do caos contra o povo. A humanidade parece não ter jeito mesmo... só acabando.

William


Bibliografia:

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira. 14ª impressão. Rio de Janeiro, 2000.

TOLSTOI, Leão. Obra Completa, Volume III. Nova Aguilar, 2004.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (VI)


Cerejeira uspiana nas proximidades da Letras.

(Atualização em 21/10/19)

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim durante as aulas do Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de Teoria Literária II, matéria na qual estamos estudando a leitura de poesias ao longo do semestre.

A interpretação dos ensinamentos, consubstanciada nestas anotações, é de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual que eu tenha cometido pode ser sanado pelo(a) leitor(a) buscando-se outras fontes para esclarecer a dúvida ou informação conflitante.

Este é um espaço de compartilhamento gratuito de conhecimento, informações e opiniões, dentro do conceito Wiki (What I Know Is).

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Aula de 20/08/19 (Continuação)

Leitura do poema "Encomenda", de Cecília Meireles, poema que pertence à obra Vaga música (1942).

ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

Cecília Meireles, Vaga música (1942)

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As leituras de poemas em sala de aula serão de introdução para que os alunos desenvolvam a capacidade da leitura crítica. O Professor terá pouco mais que uma aula por poema, de maneira que caberá ao aluno aprofundar a capacidade de percepção com os textos críticos e estudos pessoais.

O poema em questão traz muito da poética da autora. Ele é rimado e tem 3 estrofes. A tradição clássica pesou na obra poética de Cecília Meireles.

Vemos que o poema é moderno. Ele não seria do século XIX ou anterior. É do nosso tempo. É do período posterior à vanguarda modernista.

Por que ele não seria de outros períodos e séculos anteriores? A matéria que trata é do cotidiano, é corriqueira, é matéria prosaica. É alguém que vai encomendar uma fotografia.

O Professor nos diz que os românticos faziam isso, mas eles já eram modernos.

O prosaico da cena se completa com outro plano prosaico: o plano da linguagem. Temos aqui uma forma clássica numa linguagem e tema prosaicos.

O poema é muito sugestivo, algo característico nos poemas modernos. São versos simples dotados de sugestão; imagens com algo que vai além do prosaico.

Até o Modernismo, as imagens eram mais explícitas nos poemas. Depois das vanguardas e com as novas poéticas, passaram a ser mais sugestivas.

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O Professor cita como exemplo de imagens mais sugestivas o poema de Drummond "Cota Zero" do seu primeiro livro Alguma Poesia (1930).

"COTA ZERO

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?"

COMENTÁRIO (meu, não do Professor): Ao situarmos esse poema de Drummond com o todo de Alguma Poesia, fica mais fácil compreendermos as temáticas que o poeta aborda na obra, poemas como "A rua diferente", "Poema que aconteceu", "Poema do jornal", "Sinal de apito", dentre outros, nos quais o poeta lida com a chegada do futuro que trouxe tecnologias que colocam em segundo plano os seres humanos, a velocidade das mudanças nas coisas do dia a dia, e a posição de um Eu lírico que não necessariamente exalte de forma positiva essa chegada do futuro como faziam os vanguardistas de sua época como, por exemplo, os futuristas.

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Voltando a Cecília Meireles...

O poema "Encomenda" contém 3 estrofes. E aí? A poetiza teria errado? Sentimos no poema que há algo fragmentado. O Eu lírico parece não ter esgotado o assunto. Ele poderia ter sido mais explícito após a 3ª estrofe.

Temos aqui outra característica interessante da modernidade. Os versos são rigorosos na forma, mas parecem ser parte de um todo que não está explícito ali. Marcas do tempo. Fragmentos. Esses são traços decisivos na poesia moderna.

IMPRESSÕES DOS ALUNOS

Após uma terceira leitura do poema em sala de aula, os alunos falam de suas impressões: temos a ideia de uma ausência, de uma falta ("uma cadeira vazia"). Existe uma certa tensão em relação ao tempo. A fotografia retém o tempo; o eu lírico não consegue reter o tempo. 

Vemos também no Eu lírico uma ambivalência em relação às marcas do tempo. Da mesma forma que o Eu lírico pede que o fotógrafo corrija a "testa sombria" pede também que "derrame luz na minha testa", vemos no Eu lírico o medo do artifício, do falso, e a busca de uma verdade. 

"Deixe a ruga" e "Não meta fundos de floresta/nem de arbitrária fantasia..."

Qual o tom do Eu lírico no poema? É importante tentar captar o sentimento.

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COMENTÁRIO: vou finalizar essa parte da aula e recomeçar depois. Como já disse em alguma postagem dessas sobre aulas, é difícil organizar anotações corridas em uma postagem minimamente coerente e inteligível. Cheguei num ponto das anotações no qual preciso parar para estudar alguns textos críticos para compreender algumas questões sobre figuras de linguagem e outras coisas. Sincero eu, né?

Enfim, a postagem segue depois...

William

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21/10/19, RETOMANDO A POSTAGEM DA AULA

Metáfora ou Metonímia? Quais figuras de linguagem aparecem no poema? O título "Encomenda" é metafórico ou metonímico?

Eu interrompi a postagem para estudar um texto que o professor Ariovaldo produziu para facilitar o nosso entendimento a respeito de algumas figuras de linguagem. Ele nos explica em seu texto Antítese, Oxímoro, Símile, Metáfora, Metonímia e Sinédoque.

O título

No poema de Cecília Meireles, "Encomenda" é um título metonímico, está no contexto do poema. De fato, no plano da linguagem literal temos um poema que aborda a encomenda de uma reprodução de fotografia. É um contexto prosaico e comercial. O Eu lírico vai até um estabelecimento comercial para encomendar uma fotografia e dá algumas instruções de como quer que a encomenda seja feita.

Quando o título é metafórico, o sentido está de forma alegórica, em outro plano da linguagem.

Atenção: o fato do título deste poema de Meireles ser "Encomenda" e não "Fotografia", por exemplo, já é outra coisa. Aqui já seria possível analisar e interpretar através de um estudo dos sentidos do poema.

O título é importante, ele concentra o sentido do todo. É interessante refletir e entender o título ao final da leitura do poema, mais que no início.

1ª estrofe

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

A palavra "desejo" abre o poema, no 1º verso. Se lembrarmos a relação comercial entre um cliente e um estabelecimento, teremos essa expressão nela: o que a senhora deseja? Desejo...

Na poesia tudo pode ser ambíguo. A palavra atende à camada aparente, mas também a que está em outro plano da linguagem.

O Eu lírico está falando de algo profundo, a encomenda de algo que mexe com a sua subjetividade, o desejo implica dois planos:

- o comercial, de compra e venda de um produto;
- o metafórico, que se refere à interioridade do Eu lírico.

Planos de sentido

2º verso: "como esta - o senhor vê? - como esta"

Os poemas modernos, prosaicos, têm um plano de sentido para além daquele que está explícito na linguagem aparente.

Além da reprodução do cenário da foto em si, vemos aqui o desejo de reprodução de uma condição, de um contexto que está na foto, daquela felicidade que se vê nela.

Os versos vão adentrando no plano subjetivo, mas devemos ficar atentos também ao plano mais objetivo do texto, o comercial.

A foto de modelo passa uma ideia de tempo, foto antiga, meio apagada. No presente, o Eu lírico já não é propriamente jovem, essa seria a ideia. A festa teria sido recentemente? Não parece. Poderia ser uma foto da juventude ou da infância? Talvez.

O poema tem uma construção muito interessante. O plano aparente, o plano comercial, não é interrompido, ele vai até o fim do poema. Ao mesmo tempo, a cada verso, a cada estrofe, o Eu lírico vai apresentando o que quer e o que não quer daquele instante captado na foto e que se vai reproduzir. Vemos aqui a busca do sentimento de alegria e felicidade registrado naquele momento do passado.

O professor nos falou também sobre a sonoridade da 1ª estrofe.

2ª estrofe

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.


Em que sentido a 2ª estrofe amplia o sentido da 1ª?

O Eu lírico continua descrevendo ao fotógrafo como quer a fotografia. A condição atual do Eu lírico está presente na cena e não na foto antiga, que servirá de modelo.

TEMPOS VERBAIS: no 3º verso da 1ª estrofe temos o registro de um passado feliz - "em que para sempre me ria". O pretérito imperfeito dá o tom de felicidade continuada. Na 2ª estrofe temos o presente da enunciação. Os verbos são todos do presente, inclusive no imperativo, dando ordem: "derrame"; "deixe".

METONÍMIA: "testa sombria" - estranhamento. Testa está no lugar de outra palavra.

O professor nos explica que o sentido é metonímico quando se substitui um termo abstrato por um termo concreto. "testa sombria" = "olhar sombrio", "alma sombria", "pensamentos sombrios". Seria algo da interioridade do Eu lírico.

Na 2ª estrofe temos uma mudança em relação à 1ª. Nesta, sensação de eterna festa, alegria; naquela, sentimento mais sombrio, meio deprimido, contido.

SONORIDADE: "Comtenho a testa sombria" - "t" e "b" som explosivo, duro. Toda consoante nasal tem algo de fechado, interior: "m", "n", "m". A vogal "i" tônica é muito forte no final do verso, isso dá um contraste interessante.

"derrame luz na minha testa" - escolha verbal estranha. Derramar luz, algo cinestésico. Tem um sentido superior, como um batismo onde se derrama alga simbolizando o Espírito Santo.

Lembrar: quando um poema é prosaico, teremos algo de sentido superior, em outro plano de linguagem.

(segue depois...)

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (V)


Cerejeiras na avenida da FFLCH-USP.


Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim durante as aulas do Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de "Teoria Literária II", matéria na qual estamos estudando a leitura de poesias ao longo do semestre.

A interpretação dos ensinamentos, consubstanciada nestas anotações, é de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual que eu tenha cometido pode ser sanado pelo(a) leitor(a) buscando-se outras fontes para esclarecer a dúvida ou informação conflitante.

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Aula de 20/08/19

Leitura do poema "Encomenda", de Cecília Meireles, poema que pertence à obra Vaga música (1942).

Antes de entrarmos na leitura do poema, o professor continuou as explicações que vinha fazendo na aula anterior a respeito da metodologia de leitura de poemas.

Relembrando: o(a) leitor(a) que pretende interpretar o poema lido para além do prazer da leitura, deve seguir procedimentos e metodologia adequados.

- Comentário
- Análise
- Interpretação

COMENTÁRIO

É um esclarecimento do texto, ele deve ser o mais objetivo possível. É prévio. É o início de tudo após as primeiras leituras de contato com o poema.

Antes de mais nada, devemos ir ao léxico e consultar um dicionário para saber os sentidos das palavras que tenhamos dúvidas ou que não conheçamos.

Referências históricas ou biográficas podem ser importantes na leitura do poema ou mesmo do livro em que o poema está contido.

ANÁLISE

É o momento seguinte ao comentário. É compreender o objeto e suas partes e a função que elas desempenham na estrutura do poema. Momento de detalhar o poema.

"O poema é feito de pequenos nadas" (o Professor nos disse que essa expressão seria de Manuel Bandeira)

Na análise já começa a existir a subjetividade do leitor crítico.

INTERPRETAÇÃO

A interpretação é o que há de mais subjetivo na leitura do poema. Interpretar é dar sentido ao poema.

No entanto, a interpretação não é uma viagem desconectada de tudo. Ela deve se basear na análise e nos comentários relativos ao poema.

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A análise é o momento das partes; a interpretação é o momento do todo. Uma obra pode ter várias leituras, mas a leitura tem que ter unidade.
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O leitor que vai analisar o poema será uma espécie de anatomista do poema.

ANÁLISE-COMENTÁRIO - é um comentário mais ligado à estrutura do verso como, por exemplo, o verso conter "x" sílabas poéticas, com acento tônico em tais e tais sílabas etc.

ANÁLISE-INTERPRETATIVA - já é um passo adiante. É uma leitura concatenando os versos e as estrofes com uma ideia do todo.

Identificar uma rima é uma análise-comentário; ver o sentido da rima é uma análise-interpretativa.

FUNÇÃO POÉTICA DA LINGUAGEM - o Professor cita Roman Jakobson sobre as diferentes funções da linguagem. A função poética tem um eixo da similaridade que se projeta no eixo da contiguidade.

O discurso da poesia é feito de equivalências que formam sequências. Ou seja, o poeta diz várias vezes o que está querendo dizer. Uma palavra, uma imagem, um verso vão se repetindo ao longo do poema. As palavras e imagens vão sendo retomadas.

É um discurso circular.

A leitura de um poema é muito baseada em compreender as suas tensões.

Na próxima postagem vamos entrar na leitura em classe do primeiro poema: "Encomenda", de Cecília Meireles.

William

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (IV)


Relva florida na USP. 

(Atualização em 14/10/19)

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim durante as aulas do Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de "Teoria Literária II", matéria na qual estamos estudando a leitura de poesias ao longo do semestre.

A interpretação dos ensinamentos, consubstanciada nestas anotações, é de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual que eu tenha cometido pode ser sanado pelo(a) leitor(a) buscando-se outras fontes para esclarecer a dúvida ou informação conflitante.

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Aula de 08/10/19 (Continuação II)

Para ver a primeira parte dessa postagem clique aqui, e para a segunda parte, aqui.

Metro e Rima

Metro e rima são duas questões que caminham juntas nos poemas, uma depende da outra.

O que é metro? É medida.

Por que falamos de metro? Há uma diferença básica entre prosa e verso. Diferentemente da prosa, o verso tem um metro, uma medida que contribui para o ritmo.

A prosa é contínua, não para, vai embora. É um movimento ininterrupto. 

O verso não. Ele é marcado. Ele tem medida, tem um metro. Isso favorece o ritmo.

Não é que a prosa não tenha ritmo, mas ele é menos expressivo por ser menos notado.

Na construção civil, o metro serve para medir espaço. Na poesia, serve para medir o tempo.

Ritmo

O que é ritmo? É o modo como se dá o movimento. 

Ritmo pressupõe movimento. Mas não é o movimento. Entendemos o ritmo em função do movimento.

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O ritmo é uma consciência do movimento.
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Ao dizer "o jogo é eletrizante" estamos qualificando o movimento. O ritmo é uma qualificação do movimento.

Poderíamos dizer que onde não houver ritmo, não há vida, pois não há movimento.

O Professor Antonio Candido diz que o ritmo é vital, é a alma do verso. Um verso sem ritmo é morto.

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VERSOS LIVRES: um poema em versos livres tem que ser bem lido, caso contrário o leitor tira todo o sentido dos versos e do poema.
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Não há movimento que não seja alternado, a não ser que seja um movimento maquinal, mecânico.

Sem alternância, nós não perceberíamos o ritmo. A alternância gera o ritmo do poema.

Tem ritmo em quase tudo: na natureza, nos jogos, na música. A música e a poesia são artes temporais. Pintura, escultura, arquitetura são artes espaciais.

Ao ficar em dúvida sobre esses conceitos acima, achei na internet uma explicação interessante no site Estudante de Filosofia:

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"Classificação das Artes

(...)

(1) Artes espaciais. Incluir-se-iam entre as artes espaciais todas as artes plásticas. Seria proveitoso, neste ponto, distinguir as bidimensionais, como o desenho e a pintura, e as tridimensionais, como a escultura e a arquitetura. Características definidoras dessas artes seriam sua situação espacial, sua atemporalidade - não implicam um desenvolvimento no tempo -, e o fato de que o sentido mais importante para sua apreciação estética é a visão, motivo por que também foram chamadas "artes visuais".

(2) Artes temporais. Seriam temporais todas as artes que implicam um processo no tempo. Costumam distinguir-se as artes sonoras, como a música instrumental - que, além disso, é intermitente, isto é, só existe como tal quando é executada - e as artes verbais, que compreenderiam gêneros literários como a poesia e o romance.

(3) Artes mistas. Consideram-se na área das artes mistas as disciplinas artísticas em que intervêm, combinados, elementos pertencentes aos dois grupos anteriores. O teatro, por exemplo, ainda que seja um gênero literário, inclui a representação espacial; a dança é ao mesmo tempo espacial e temporal; e a ópera compreende, além disso, componentes literários, assim como o cinema." (site Estudante de Filosofia)
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Em nenhuma dessas artes, o ritmo é o mesmo. As linguagens se diferenciam, cada uma delas tem a sua própria linguagem.

PROSÓDIA

O que se alterna no verso para criar o ritmo? As sílabas tônicas em relação às átonas. Vejamos o exemplo abaixo:

"absolutamente" = ab/so/lu/ta/men/te

De início, toda palavra (advérbio) terminada em "mente" tem a sílaba tônica em "men", é uma paroxítona.

ab/so/lu/ta/men/te

Só que ninguém pronuncia uma palavra com 4 sílabas átonas antes da tônica sem intervir de alguma forma na prosódia dela. Nós acabamos por colocar mais acentos tônicos, acentos prosódicos (secundários), para darmos ritmo à pronúncia da palavra.

O segundo acento ou demais acentos pressupõem subjetividade. Nessa palavra, em geral teríamos:

ab/so/lu/ta/men/te (palavra de origem: ab/so/lu/to)

Mas conforme o contexto ou dialeto, o falante coloca um acento tônico até no início da palavra:

ab/so/lu/ta/men/te

Há casos, inclusive, de cacoépia, onde o falante pronuncia de forma não prevista na norma padrão em relação ao acento tônico.

a/bi/so/lu/ta/men/te

É preciso tonicizar as sílabas mesmo onde não há tônicas. Vamos analisar outra palavra:

"jacarandá" = ja/ca/ran/

Onde colocaríamos o segundo acento tônico? Dificilmente seria na sílaba "ran" porque duas sílabas tônicas não ficariam juntas na palavra. 

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IMPORTANTE PARA O RITMO - O ideal de pronúncia de uma palavra da língua portuguesa seria alternância entre sílabas tônicas e átonas. 
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As sílabas tônicas até aparecem juntas em frases e versos, mas o falante tem que resolver isso.

A POESIA é um fato da língua, mas a poesia organiza o ritmo da língua.

Enfim, quando houver 2 átonas, dá pra aceitar; 3 átonas, deve-se criar acentos secundários; 4 átonas, jamais.

Um exemplo de tônicas e a solução de acentos secundários em um verso de Augusto dos Anjos. Segundo o professor, o poeta era muito respeitado pelos modernistas.

"misericordiosíssimo carneiro"

mi/se/ri/cor/dio//ssi/mo/ car/nei/ro (11) = 10
 1 / 2/ 3/ 4/  5/  6/  7/  8/   9/   10

É um verso chamado de decassílabo heroico, com 10 sílabas poéticas e tônicas na 6ª e 10ª sílabas.

Como fica a questão de haver 5 sílabas átonas anteriores à sílaba "sí"? Não dá, né!

Temos que colocar acentos secundários. Vamos colocá-los entre parênteses. 

Etimologia da palavra = misericórdia

2ª etimologia da palavra = miria

Então, teríamos:

mi/se/ri/cor/dio//ssi/mo/ car/nei/ro
     (2)      (4)         6         (8)          10

AGORA SIM, demos ritmo à pronúncia das palavras e ao verso ao colocarmos os acentos secundários. Essa é a forma como preparamos uma leitura adequada de um verso e de poemas.

E assim terminamos a postagem da aula sobre metro e ritmo.

William

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Na próxima aula, vamos começar a leitura de poemas em sala. Vamos ler "Encomenda", de Cecília Meireles, de Vaga música (1942). Acesso aqui.

sábado, 12 de outubro de 2019

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (III)


Relógio da USP, na área em frente à FFLCH.


(Atualização em 14/10/19)

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim durante as aulas do Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de "Teoria Literária II", matéria na qual estamos estudando a leitura de poesias ao longo do semestre.

A interpretação dos ensinamentos, consubstanciada nestas anotações, é de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual que eu tenha cometido pode ser sanado pelo(a) leitor(a) buscando-se outras fontes para esclarecer a dúvida ou informação conflitante.

Este é um espaço de compartilhamento gratuito de conhecimento, informações e opiniões, dentro do conceito Wiki (What I Know Is).


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Aula de 08/10/19 (Continuação I)

Veja aqui a postagem anterior que tratou principalmente da questão do metro. Agora vamos ver alguns fenômenos de junção de sílabas e vogais nas poesias.

Retomando a estrofe do poema "Balada do morto vivo" (1954), de Vinicius de Moraes:


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"Um/ cons/tan/te/ bal/bu/ci/o = 7
Co/mo o/ de al/guém/ mui/to em/ /goa = 7
Pa/re/ci/a/ vir/ do/ ri/o" = 7

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Para as conceituações, recorro à Moderna Gramática Portuguesa, do Professor Evanildo Bechara, 37ª Edição Revista e Ampliada, Editora Lucerna, Rio de Janeiro, 2006. Alguns casos abaixo, utilizei também conceitos do site Recanto das Letras.


- CRASE = mo+o 

Fusão de dois ou mais sons iguais num só, como acima (Bechara).


- SINALEFA = de+al /deal/ e to+em /toem/

Junta-se as duas vogais e ouve-se os dois sons. 

Na gramática de Evanildo Bechara está dito que é a perda de autonomia de uma vogal para tornar-se semivogal e, assim, constituir um ditongo com a vogal seguinte.


- ELISÃO = é o desaparecimento de uma vogal quando pronunciada junto de outra vogal diferente:

O exemplo dado pelo Professor Ariovaldo foi um verso do poema "O elefante" de Drummond:

"Fabrico um elefante"

Fa/bri/co/ um/ e/le/fan/te = 7

Fa/bri/cum/e/le/fan/te = 6


- AFÉRESE = é a supressão de uma forma no início do vocábulo. Exemplo em Castro Alves:

"Es/ta/mos": em um verso de 11 sílabas poéticas, o verso ficaria com 10 sílabas com o uso da forma "'Sta/mos".


- SÍNCOPE = é a supressão de um fonema no meio do vocábulo. Um exemplo em Camões:

"inimigo" = "imigo" ou "maior" = "mor".

Também temos as proparoxítonas que perdem sílabas: "séculos" = "séc'los". Esses procedimentos foram mantidos pelos poetas do Modernismo Brasileiro.


- APÓCOPE = é a supressão de um fonema no fim do vocábulo. Um exemplo do Parnasianismo:

"mármore" = "mármor"

RESUMO: Supressão da vogal:

No início = Aférese
No meio = Síncope
No fim = Apócope

CURIOSIDADE: o poeta João Cabral de Melo Neto, no Modernismo, não suprime a vogal, mas ele não considera a sílaba.

CURIOSIDADE 2: proparoxítonas são palavras difíceis de serem pronunciadas. Por isso, muitas vezes a pronúncia é contada como paroxítona:

Ex: Lâmpada = Lâm / pada (não se considera "pada" como 2 sílabas e sim como uma só).


TENDÊNCIAS

O professor explica algumas tendências na língua portuguesa em relação aos versos:

2 vogais átonas = a tendência é de juntarem-se.

2 vogais, sendo uma tônica = a tendência é não juntarem-se. 

2 vogais tônicas = elas não se juntam.

DICA: Ao analisar os versos de um poema, veja primeiro os versos que não têm encontros vocálicos e depois veja os versos que têm esses fenômenos para avaliar caso a caso.

No Brasil, até o Modernismo, os poetas estavam obrigados à regularidade. Havia procedimentos e licenças poéticas para que os poemas estivessem dentro das normas de regularidade.

Drummond, por exemplo, seus versos têm regularidade, mas são irregulares quanto ao metro. Os poetas modernos têm ritmo muito marcante. Os poetas têm liberdades que antes não eram aceitas.

Na modernidade a preocupação passou a ser o ritmo.

Ao analisar um poema não metrificado com regularidade, identificar o que estaria "estranho", porque o diferente pode indicar coisas interessantes no plano dos sentidos.


QUANDO UM DITONGO VIRA HIATO E UM HIATO VIRA DITONGO

"hiato" é um hiato e "dói" é um ditongo. Mas há exceções diversas, licenças poéticas de autores e obras.

- SINÉRESE = quando um hiato é transformado em ditongo.

Ex: em Augusto Gil, poeta português do século XIX:

"mas/ o/ seu/ o/lhar/ ma/go/a/do, = 8 (7)
tão/ ma/go/a/do,/ tão/ lin/do," = 7

O hiato deve ser lido como ditongo no 1º ma/goa/do.

Por que? Vamos lembrar a dica de sempre verificar o verso no qual a metrificação está diferente da regularidade. Lembrar também o que o professor nos fala, que um poema é feito de sequências de equivalências.

O 2º verso é mais cadenciado, mais lento, temos até a palavra "tão". O 2º verso enfatiza o 1º verso, está no plano do sentido do poema:

tão ma/go/a/do
tão lin/do


- DIÉRESE = é quando um ditongo é transformado em hiato. É algo bem mais raro, o professor nos disse.

A palavra "sau/da/de", de 3 sílabas, pode ser usada pelo poeta com o som de 4 sílabas: "sa/u/da/de".

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A sequência final dessa aula vai tratar do ritmo. Será outra postagem: veja aqui.

William

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (II)



Ipês da FFLCH-USP, na
Av. Prof. Luciano Gualberto.

(Atualização do texto em 14/10/19)

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim durante as aulas do Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de "Teoria Literária II", matéria na qual estamos estudando a leitura de poesias ao longo do semestre.

A interpretação dos ensinamentos, consubstanciada nestas anotações, são de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual que eu tenha cometido pode ser sanado pelo(a) leitor(a) buscando-se outras fontes para esclarecer a dúvida ou informação conflitante.

Este é um espaço de compartilhamento gratuito de conhecimento, informações e opiniões, dentro do conceito Wiki (What I Know Is).

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Aula de 08/10/19 - Metro e Rima

Questões sobre os teorias do verso

Ritmo, sonoridade, metro, figuras de linguagem, dentre outras.

Post Scriptum: segundo Candido em - O estudo analítico do poema - os fundamentos do poema são: sonoridade, ritmo, metro e verso (CANDIDO, 3ª edição, pág. 9)

Metro - noções gerais

Metro e rima são duas questões que caminham juntas nos poemas, uma depende da outra.

O que é metro? É medida.

Por que falamos de metro? Há uma diferença básica entre prosa e verso. Diferentemente da prosa, o verso tem um metro, uma medida que contribui para o ritmo.

A prosa é contínua, não para, vai embora. É um movimento ininterrupto. 

COMENTÁRIO: pensando a respeito dessa explicação, lembrei-me do livro de Roberto Bolaño que estou lendo Nocturno de Chile (2000). O romance de ficção contém 2 (dois) parágrafos em sua estrutura, um com 111 páginas e outro com uma linha. Nenhum exemplo seria mais perfeito para entender como a prosa pode ser contínua, ir embora, nunca acabar.

O verso não. Ele é marcado. Ele tem medida, tem um metro. Isso favorece o ritmo.

Não é que a prosa não tenha ritmo, mas ele é menos expressivo por ser menos notado.

Na construção civil, o metro serve para medir espaço. Na poesia, serve para medir o tempo.

Vamos entender o metro, analisando uma estrofe do poema "Balada do morto vivo" (1954), de Vinicius de Moraes.

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"Um constante balbucio
Como o de alguém muito em mágoa
Parecia vir do rio"
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O verso do meio é evidentemente maior (se medirmos com o metro dos pedreiros), mas o que nos interessa é a temporalidade.

O metro do pedreiro é dividido em centímetros; o do poeta é a sílaba.

Escansão: ato de escandir o verso, dividir o verso em unidades silábicas. No dicionário a palavra está definida como ato de decompor um verso em seus elementos métricos.

Um/ cons/tan/te/ bal/bu/ci/o = 8
Co/mo/ o/ de/ al/guém/ mui/to/ em/ má/goa = 11
Pa/re/ci/a/ vir/ do/ ri/o = 8

De início, vemos que temos 8/11/8 sílabas gramaticais.

Porém, na tradição poética, não se conta a última ou últimas sílabas após a última sílaba tônica. É tradição! Ou seja, é uma convenção e não uma norma padrão, por assim dizer.

Contamos as sílabas métricas até a última tônica, e desconsideramos o que vem depois.

O professor comentou que há mestres da linguagem que consideram essa tradição e outros que não a consideram. Citou Manuel Said Ali como um dos grandes filólogos da língua portuguesa que não consideram essa contagem.

No curso, vamos seguir a tradição que predomina com mais vigor.

Um/ cons/tan/te/ bal/bu/ci/o = 7
Co/mo/ o/ de/ al/guém/ mui/to/ em/ /goa = 10
Pa/re/ci/a/ vir/ do/ ri/o = 7

Nesse momento, o professor leu os versos assim como contamos acima 7/10/7. O segundo verso não ficou bom. Ficou sem ritmo.

É necessário unir algumas sílabas gramaticais. Não é só uma questão de unir por unir. O 1º e o 3º verso não apresentam fenômenos passíveis de união como aqueles que veremos no 2º verso. Eles são mais regulares.

mo+o / de+al / to+em

Co/mo o/ de al/guém/ mui/to em/ /goa = 7

AGORA SIM, o verso é espacialmente maior, mas tem o mesmo número de unidades temporais; os 3 versos, agora, são regulares, têm o mesmo tempo.

Um/ cons/tan/te/ bal/bu/ci/o = 7
Co/mo o/ de al/guém/ mui/to em/ /goa = 7
Pa/re/ci/a/ vir/ do/ ri/o = 7

A estrofe agora tem o mesmo número de sílabas poéticas.

Agora, sabemos que os 3 versos têm uma certa regularidade, são de feição clássica. O que é clássico tende à regularidade.

LOGO, ao analisar essa estrofe do poema, temos que nos atentar para o que foge à regularidade. Dos 3 versos, qual seria o mais importante? O verso central, pois ele traz elementos de atenção.

O poeta deixou o verso maior para enfatizar o plano do sentido.

Vejamos as nasais: Mo/ guéM/ Mui/ eM/ Má/ (criam uma espécie de imitação do som - m m m m m)

DICA: sempre que observarmos irregularidades na leitura do poema, é bom verificarmos se não é possível ligá-las ao plano do sentido no poema, como ocorre no verso central em análise.

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A aula seguirá numa próxima postagem onde o professor vai descrever alguns fenômenos de junção de sílabas e vogais. Leia a sequência aqui.

William

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Post Scriptum: as releituras da postagem são importantes, além de poder revisar os conceitos, já que estou estudando eles, é possível corrigir erros na língua padrão. Ao reler o texto pela enésima vez em 14/10/19, encontrei um erro de português. Não sou infalível, sou um aprendiz até o último dia de minha vida.