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sábado, 25 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (55) - Tardio canto, Cecília Meireles



TARDIO CANTO - CECÍLIA MEIRELES


Canta o meu nome agreste,

cheio de espinhos

o nome que me deste,

quando andei nos teus caminhos. 


Canta esse nome amargo,

hoje perdido,

no tempo largo,

sem mais nenhum sentido.


Como esperei teu canto,

noites e dias!

Necessitava tanto!

Tu não podias...


Ouço o teu grito ardente,

cigarra do deserto!

Mas já não sou mais gente...

Não ando mais tão perto...


De Vaga música, 1942.

---

COMENTÁRIO:

Canto não, canto não. Tô sem canto. 

Meu coração sem encanto. Meu cotidiano, vez em quando, sufoco até no meu recanto. 

Por enquanto, seguimos, quiçá em pranto, sem canto, sem recanto, sem encanto.

Não, não canto.

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (51) - Canção mínima, Cecília Meireles



CANÇÃO MÍNIMA - CECÍLIA MEIRELES


No mistério do Sem-Fim,

equilibra-se um planeta.


E, no planeta, um jardim,

e, no jardim, um canteiro;

no canteiro, uma violeta,

e, sobre ela, o dia inteiro,


entre o planeta e o Sem-Fim,

a asa de uma borboleta.


De Vaga Música, 1942.

---

COMENTÁRIO:

Que poema da esperança!!! Que lindo! Que necessário!

E pensar que quando a poeta anunciou ao mundo este poema, "entre o planeta e o Sem-Fim" a morte ocupava jardins e canteiros do planeta na luta contra o nazifascismo. 

E hoje, "No mistério do Sem-Fim", entre trumps, bilionários e mentirosos nazifascistas, "equilibra-se um planeta"...

Que os deuses do Sem-Fim privilegiem as borboletas, lançando suas fúrias sobre esses prexenetas!

William 


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (37) - Velho estilo, Cecília Meireles



VELHO ESTILO - CECÍLIA MEIRELES


Corpo mártir, conheço o teu mérito obscuro:

tu soubeste ficar imóvel como o firmamento,

para deixar passar as estrelas do espírito,

ardendo no seu fogo e voando no seu vento...


Corpo mártir que és dor, que és transe, que és silêncio,

e onde, obediente, vai batendo o coração,

sei que foste esquecido, e, quando um dia te acabares,

não é por ti que os olhos chorarão.


Ninguém viu que tu foste o solo e o oceano dócil

que sustentou jardins e embalou tanta viagem,

que distribuiu o amor, e mostrou a beleza,

dando e buscando sempre a sua própria imagem. 


Um dia tu serás símbolo, ideia, sonho,

tudo o que agora apenas eu compreendo que és:

porque um dia virá que, nesta marcha do infinito,

alguém se lembrará que o mais alto dos cânticos

pousou, na terra, sobre uns pobres pés.


Do livro Vaga música (1942)

---

COMENTÁRIO:

Antes de mais nada, dedico este poema à minha mãe Dirce Mendes e ao presidente Lula.

"Corpo mártir que és dor, que és transe, que és silêncio, / e onde, obediente, vai batendo o coração,"

Desejo que o corpo mártir siga firme no silêncio do bater do coração. 

Desejo resiliência até para o meu próprio corpo mártir, porque, de verdade mesmo, me importo mais com as faltas que minha ausência traria do que com os prazeres que sorveria por estar aqui presente na vida.

Sigamos descobrindo poesias.

William 


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (24) - Canção excêntrica, Cecília Meireles



CANÇÃO EXCÊNTRICA - CECÍLIA MEIRELES


Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

projeto-me num abraço

e gero uma despedida.


Se volto sobre o meu passo,

é já distância perdida.


Meu coração, coisa de aço,

começa a achar um cansaço

esta procura de espaço

para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida

não me animo a um breve traço:

- saudosa do que não faço,

- do que faço, arrependida.


Vaga música, 1942.

---

COMENTÁRIO:

Também "Ando à procura de espaço/para o desenho da vida". E meu coração nem de aço é mais, agora é só um pedaço do aço que já foi um dia. 

Meu coração "começa a achar um cansaço".

Lendo algumas vezes este poema de Cecília Meireles, fui me vendo como o próprio Eu-lírico.

Faz alguns anos a canção da minha vida virou uma canção extravagante, fora da ordem na qual se encontrava; afastada do habitual. Uma "Canção excêntrica".

Meu ritmo entrou em completo descompasso... 

Não desisto, ainda busco o compasso.

"Se volto sobre o meu passo,/é já distância perdida."

Sei que o compasso está no amanhã, não no passado. Mas é tão difícil!!!

Sigamos lendo poesia. Enquanto há vida, há espaço "para o desenho da vida".

William Mendes


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (9) - Epigrama, Cecília Meireles



EPIGRAMA - CECÍLIA MEIRELES


A serviço da Vida fui,

a serviço da Vida vim;


só meu sofrimento me instrui, 

quando me recordo de mim.


(mas toda mágoa se dilui:

permanece a Vida sem fim.)


Do livro Vaga Música, de 1942

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COMENTÁRIO:

Este Epigrama de Cecília Meireles é danado! Danado!

Quanto mais leio, mais me identifico com ele. 

É muito conceito em tão poucas linhas! Abrangente.

Seis versos! Muitas vidas!

Fiquei vendo minha vida passada num filme rápido, como aquele delírio de Brás Cubas, que viu todos os séculos em instantes.

Dos dez aos vinte, dos vinte aos trinta, dos trinta aos cinquenta... servir servir servir às vidas dos outros, pra sobrar quase nada pra nós, pra 99% de nós todos.

A gente até que tenta ter nossos momentos, momentos de olhar pra nós mesmos... 

Mas logo em seguida, a prioridade em nós mesmos se vai, e volta a servidão total aos outros, às coisas sem importância, às futilidades.  

Certas classes, certas castas, são ambientadas desde pequenas a servir. Outras, a sorver a servidão dos outros. 

Nossos eus são engaiolados num viver para servir, de maneira que não nos sintamos à vontade quando o sentido do viver sejamos nós mesmos, nossos sonhos e prazeres. 

Quando nos damos conta, já estamos no servir aos outros, às coisas, ao invés das coisas nos servirem.

Nisso, o tempo todo, voltamos à "Vida sem fim", sem um fim consciente e desejoso do fundo de si.

---

CONHECENDO CECÍLIA MEIRELES

Ganhei de presente a coleção completa dos poemas de Cecília Meireles. Já li os 7 primeiros livros dela. 

Vaga música é seu 8° livro de poesia.

Sigamos lendo poesia neste mês de dezembro. 

William Mendes 


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


segunda-feira, 17 de julho de 2023

Diário e reflexões (17/07/23)



Refeição Cultural

Osasco, 17 de julho de 2023. Segunda-feira. 


"Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

(...)

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

(...)

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.
"

(Canção de alta noite, Cecília Meireles)


Tenho andado e corrido sempre que posso. Já não tenho mais ilusões e objetivos a alcançar com corridas e caminhadas, meu quadril desgastado me tirou esse pequeno prazer que tinha na vida. Corro e ando com dores porque essa atividade aeróbica é necessária para me manter vivo. Pedalo também, mas pedalar é minha terceira opção: gosto menos. Sem ilusões de correr uma maratona, até uma meia-maratona já era... Corri 10 provas da São Silvestre, mas não sei se volto a participar dela algum dia.

Hoje andei 20 Km entre o fim da tarde e a noite. Foi um teste pra ver qual tênis é melhor para andar longas distâncias, pra ver como o meu quadril se comporta, como meu corpo se comporta, energia vital etc. A caminhada foi tranquila. Cansei um pouco, mas dentro do esperado. O tênis não me deu bolha, mas minhas unhas dos dedões dos pés doeram bastante. Parece que minhas unhas já não suportam a carga de longas distâncias. É a natureza, sou natureza e tudo mudou. Me parece que minhas romarias de dezenas de quilômetros já eram também.

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Não li nem escrevi como gostaria nos últimos dias. Estou com um monte de textos iniciados e não finalizados, leituras em andamento e textos meus em produção.

"O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
- todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

(A doce canção, Cecília Meireles)

Alguns textos no mundo das ideias não foram feitos porque tenho dúvidas se os faço ou não. Um deles, por exemplo, é sobre a destruição das pessoas pelo excesso de consumo de bebidas alcoólicas. Eu morro por dentro todas as vezes em que vejo pessoas queridas se destruindo com bebidas.

Textos sobre política, sobre acontecimentos de nosso governo, textos sobre a entidade de saúde que geri tempos atrás, textos sobre livros e cultura e linguagem. Tenho tido uma dúvida incômoda sobre escrever ou não escrever. Tem dia que tenho vontade de deletar as redes sociais que tenho e parar de escrever. Depois reflito e concluo que se fizer isso, morro... de alguma forma morro.

Sobre os livros a ler tenho dilemas também, dúvidas semelhantes sobre ler ou não ler isso ou aquilo. História, política, literatura, poesia, crônica, ciência, filosofia etc. Como a natureza é a mudança, eu mudei e mudo a todo instante. O que acumulei pra ler perdeu o sentido porque tudo mudou. Evidente que tenho que buscar sentidos e significados para estar no mundo, mas a materialidade e minha percepção de mundo estragaram um calhamaço de ilusões que me moviam: histórias a se criar. Não tenho ilusões como antes.

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Pra fechar o registro escrito nesta página virtual da rede mundial, tem a percepção de que a injustiça e a impunidade vencem quase sempre. Ao longo da vida a pessoa talvez tenha relações diversas com as injustiças que presencia. Na primeira fase, ela se incomoda e se move no sentido de se engajar de alguma forma para mudar o mundo e as injustiças do mundo. Depois a vida vai seguindo e a pessoa ora vê avanços ora vê retrocessos. Chega uma hora na qual a pessoa percebe que o mal e a injustiça fizeram parte da história da sociedade humana desde sempre. As formas de luta para mudar a realidade a gente vê que estão desgastadas ou não funcionam mais. A maldade e a impunidade seguem. Fazer justiça com as próprias mãos não rola. Se engajar numa revolução contra aquela casta que está sempre impune, não rola porque parece que nem rola mais esse papo de revolução. E a natureza já te cobrou o seu tempo por aqui.

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É isso. Registro de reflexões do momento. Já se passaram 7 anos do golpe de 2016. Todas as desgraças dos dois governos golpistas seguem impunes. Todas sim! Ser inelegível um deles não é justiça. Os caras não estão presos, nem o vice traidor, nem o clã ladrão, nem trocentos parlamentares e juízes e procuradores e delegados e delegadas que destruíram o país e mataram mais de meio milhão de pessoas estão presos. Nem os "empresários" fdp (depois que FHC criou a lei de "empresário" não pagar impostos em 1995 qualquer fdp se diz empresário... que me perdoem os honestos, mas ô raça do caralho!). Estão todos e todas de boa por aí, nas redes sociais, nos fancy restaurants etc.

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William


Post Scriptum: os poemas da poeta Cecília Meireles chegaram depois do instante das minhas ideias registradas. As poesias são assim, sintetizam em imagens o que nos vai dentro d'alma.


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se
                                         [explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?
" ("Os últimos dias", CDA)


Último dia do ano, último livro do ano (foram 57 obras lidas). Ano passado li A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. Que livro! Cinquenta e cinco poemas porradas. Neste mês de dezembro, reli o livro dentro de um projeto de ler toda a poesia de Drummond em ordem cronológica. Com isso, reli os 4 livros que já conhecia e José, de 1942.

Que livro! Perfeito para os tempos que correm. Drummond diz que o livro é um livro que traz características de um tempo, de uma época, tanto do poeta quanto do mundo, que vivia a mortandade da 2ª Guerra Mundial, nazismo, fascismos, Estado Novo de Vargas. Não falo que o livro é perfeito para os tempos que correm!

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"E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias
                        [grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso
          [pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.
" ("Os últimos dias", CDA)

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Difícil um poeta no qual meu Eu se veja melhor nos Eu-líricos dos poemas do que Drummond. Difícil alguém que me represente mais do que Drummond e seus personagens.

RETROSPECTIVA DE LEITURAS POÉTICAS

Com a releitura de A Rosa do Povo, encerro um ano de bastante leitura de poemas. Li os 5 livros iniciais de Drummond, são 170 poemas. Agora vou pras novidades, tudo que não conheço dele em 18 livros a ler.

No começo do ano li as poesias de Bertolt Brecht. Li uma coletânea de 260 poemas publicados entre 1913-1956. Que poemas, também! Demais!

No primeiro semestre, li poemas de outros poetas modernistas - Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira. De Mário li Pauliceia Desvairada (1922) e Losango Cáqui (1926). De Oswald li Pau-Brasil (1924). De Manuel Bandeira li Libertinagem (1930). Tudo releituras.

Em agosto li Espumas Flutuantes (1870), de Castro Alves. Reli também Distraídos venceremos (1987), de Paulo Leminski.

Finalmente, li o clássico Odisseia, de Homero, em versos, na tradução do maranhense Odorico Mendes, o patriarca da transcriação.

Por fim, li vários livros de Cecília Meireles, dentro de um projeto de ler as obras poéticas completas da poeta.

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Registro feito. Repito: de tudo que li, ninguém chega perto de Carlos Drummond de Andrade em relação à identificação entre Eu-lírico e Eu mesmo.

É isso.

William


Post Scriptum: fiz uma postagem de retrospectiva cultural do ano de 2021. Foram 57 obras lidas no ano. Para ler a postagem é só clicar aqui.


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Viagem (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural


"Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
" (p. 245/6)


Ufa! Seguimos na viagem ao mundo da poesia de autores brasileiros.

Terminei a leitura do livro Viagem (1939), de Cecília Meireles. É o 7º livro de poesias que leio da poeta brasileira. Cecília, agora, é a poeta da qual mais li poesias até hoje. Com a leitura dos 100 poemas de Viagem, passo a conhecer 359 poemas dela. Quer dizer, não contei os poemas de Paulo Leminski, mas já li sua obra completa também: Toda Poesia (2013). Não sei se a quantidade de poemas de Leminski é tão grande quanto a de Meireles.

Para registrar corretamente, o livro do Paulo Leminski que tenho contém: quarenta clics em curitiba (1976), caprichos & relaxos (1983), distraídos venceremos (1987), la vie en close (1991), o ex-estranho (1996), winterverno (2001) e poemas esparsos. Os nomes todos com letra minúscula, caixa baixa, fazem parte da edição que tenho. Ler aqui comentários sobre o livro de Leminski.

Tenho um longo caminho pela frente para ler e conhecer a obra poética dos principais poetas brasileiros. Já conheço um pouco de João Cabral, de Manuel Bandeira, de Drummond, Castro Alves, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Cecília Meireles. Alguns deles tenho a obra completa e falta só seguir lendo e conhecendo. Imaginem a lacuna gigante... nada de Vinícius de Moraes, Cora Coralina, Ferreira Gullar, Mário Quintana, irmãos Campos, só pra citar alguns poetas que não li nada ainda.

Vou ler a obra completa de Cecília Meireles. O incentivo veio do fato de ter ganhado essa edição de minha companheira tempos atrás e agora decidi ir lendo aos poucos. No primeiro volume, que estou lendo agora, são 13 livros. Acabei de ler o 7º. Agora conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937), Morena, pena de amor (1939) e Viagem (1939).

Também tenho as obras poéticas completas de Drummond. Vou lê-las também (postagens sobre ele ver aqui). Por décadas, o poeta itabirano foi o autor do qual eu mais conhecia poemas, isso porque já havia lido e sempre reli os 3 livros iniciais dele - Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934) e Sentimento do Mundo (1940). Ano passado, li A rosa do povo (1945). Agora preciso expandir meu conhecimento de Drummond. Vamos aos poucos lendo sua obra das décadas seguintes.

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CECÍLIA MEIRELES E VIAGEM

O livro é denso, não considero de leitura fácil. Senti dificuldade na compreensão de diversos poemas, assim como foi na releitura de Brejo das Almas, de Drummond. Alguns poemas são impenetráveis para este leitor que registra a experiência da leitura. Não tenho problema algum em dizer isso.

Gostei muito da série de poemas chamados por Cecília de "epigramas". São 13 epigramas. Alguns são demais!

Para citar alguns dos poemas com os quais me identifiquei e que me agradaram bastante, fico com "Retrato", "Epigrama nº 2" sobre a Felicidade e o tempo, "Canção" (p. 255, pois há outros com o mesmo nome), "Solidão", "Murmúrio", "Epigrama nº 4" sobre o choro, "Epigrama nº 5" sobre a gota d'água que resiste ao vento, "Pausa", "Cantiga" (p. 323) com o bem-te-vi, "Epigrama nº 12" sobre a engrenagem e o inseto, "Vento", dentre outros.

O poema "Destino" trabalha com duas imagens se contrapondo: pastora de nuvens x pastores da terra. É muito interessante!

O poema "Quadras" tem algumas estrofes bem legais, do tipo:

"Passarinho ambicioso
fez nas nuvens o seu ninho.
Quando as nuvens forem chuva,
pobre de ti, passarinho.
" (p. 310)

*

"Ao lado da minha casa
morre o sol e nasce o vento.
O vento me traz teu nome,
leva o sol meu pensamento.
" (p. 311)

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Adorei o poema "Onda". Ele contém 8 estrofes e deixo abaixo a primeira e a última.

"Onda

Quem falou de primavera
sem ter visto o teu sorriso,
falou sem saber o que era.

(...)

mas quem falou de deserto
sem nunca ver os meus olhos...
- falou, mas não estava certo.
" (p. 316)

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Como não dava pra deixar aqui vários poemas, deixo um dos epigramas de Viagem.

"Epigrama nº 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.
" (p. 252)

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COMENTÁRIO FINAL

Quanto mais leio os poemas de Cecília Meireles mais vou compreendendo a sua poética. Pesquisar informações a respeito de sua biografia também tem sido fundamental para mim. 

A cada texto ou entrevista com alguém falando sobre a intelectual, melhor fica minha compreensão dos poemas que já li (os 7 primeiros livros), que cobrem a vida dela entre a infância e a idade adulta, quase quarenta anos, época em que seu marido faleceu, por não superar a depressão profunda que sofria.

A autora lidou com mortes e perdas ao longo da vida e isso influenciou a pessoa que era e a sua poética. O pai morreu antes dela nascer, a mãe quando tinha 3 anos, depois a babá Pedrina e a avó que a criou, depois o marido. 

Isso não quer dizer que Cecília Meireles fosse uma pessoa triste e ou depressiva. As experiências com as perdas fizeram com que ela visse a vida como passageira, fugaz e, por ser religiosa, na minha leitura, ela via a vida como algo além da existência terrena. Nos poemas que já li, há um Eu-lírico que traz constantemente uma temática mística e metafísica.

É isso. Seguimos lendo poesia e conhecendo autores, autoras e poemas brasileiros.

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Morena, pena de amor (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Aos poucos, vamos conhecendo a obra poética de Cecília Meireles. Li mais um livro da poeta - Morena, pena de amor, de 1939. Foram 130 poemas nesta publicação, 129 numerados e uma abertura que dá início aos poemas.

Agora, já li e conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937) e Morena, pena de amor (1939).

Somando os 130 poemas aos 129 das outras 5 publicações, agora conheço 259 poemas dessa grande poeta e intelectual brasileira.

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MORENA, PENA DE AMOR

"Queria só um sorriso.
Mas deram-me um beijo.
Perdi metade do juízo
e fui dar ao Paraíso.
São Pedro, vendo-me a cara,
dizia: 'Mas que pequena!
Com uma estrela tão clara
numa boca tão morena!'

(Qual seria esse tesouro?
Seria o teu beijo?
Seria o sorriso?
Ou apenas o ouro
do meu dente siso?)
" (p. 191)

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Assim começam os poemas desse trabalho poético de Cecília Meireles.

"1

Me chamam Morena
por ser minha cor.
Mas meu nome é Pena,
Pena de Amor.
"

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Selecionei alguns momentos muito sonoros e prazerosos da obra.

"5

Não perguntes nada,
não perguntes, não.
Tenho uma espada,
enferrujada,
atravessada
no coração.

Como está quebrada,
não se põe a mão.
" (p. 192/193)

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"15

Os meus morenos suspiros
por morenos campos vão,
dentro de morenos rios,
por morena solidão.

Ai, morena sorte
da vida terrena,
ai, morte morena,
ai, terrena morte...
" (p. 195/196)

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"26

Choro de pena,
choro de alegria,
me chamam Morena.
Sou Melancolia.
" (p. 200)

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"32

Chamei Deus - e estava ausente,
ou fez-se desentendido.
Não há nada que atormente
como um chamado perdido.
" (p. 202)

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O próximo poema é muito legal. Basta lembrarmos que Drummond já tinha nos apresentado seu poema "Quadrilha", em Alguma Poesia (1930).

"34

Eu estou sonhando contigo,
tu estás sonhando com ela,
e ela com o teu amigo,
e ele comigo ou com ela...

Tudo sonha e oscila
nas ondas do mundo:
em cima, a lua tranquila,
tranquila, a morte, no fundo.
" (p.202/203)

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"40

De dia, te andei buscando,
de noite, a buscar-te andei.
De tanto andar procurando,
perdi-me e não te encontrei.
" (p. 205)

---

"48

Semeei plantas de amores,
nasceram ódios de espinho.
Não foi da mão nem das flores,
foi condição do caminho.
" (p. 207)

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Anotei diversos poemas que me tocaram ou que são muito expressivos para mim. Seria muito trabalhoso postar muitos deles. 

Fecho a seleção com o poema que fala da solidão.

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"62

Bateram na noite escura,
fui abrir com precaução.
Perguntei: 'Quem me procura?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Entrou-me pela vidraça
um vulto de escuridão.
Perguntei: 'Mas quem me abraça?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Viverei com alegria
e sem outra condição
que a da companhia
desta Solidão...
" (p. 214/215)

---

CONHECENDO AOS POUCOS CECÍLIA MEIRELES

Hoje vi uma palestra muito interessante na internet a respeito da obra Cânticos (1927), ministrada pela professora Lúcia Helena Galvão, num canal chamado "Nova Acrópole Brasil". A palestrante destaca as mensagens místicas em sua interpretação dos 26 poemas. Outra parte interessante da palestra foi a biografia de Cecília Meireles.

Enfim, sigo avançando na leitura dos poemas da poeta, professora, pintora, educadora, poliglota e tradutora e grande intelectual brasileira Cecília Meireles.

O próximo livro de poesias dela é premiado, vou ler a seguir Viagem (1939).

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

121121 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"INFÂNCIA

        A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé." 

(DRUMMOND. In: Alguma Poesia - 1930)


Sexta-feira, 12 de novembro de 2021.


Dias atrás, reli o livro de poesias que apresentou o poeta Carlos Drummond de Andrade para o Brasil e o mundo. Alguma poesia é um livro que me arrepia só de mencioná-lo! Neste poema - "Infância" -, o Eu-lírico compara sua história à de Robinson Crusoé, personagem do romance do escritor inglês Daniel Defoe, publicado em 1719.

Já no finalzinho das Memórias póstumas de Brás Cubas (1880/81), romance de Machado de Assis que marcou uma revolução na literatura brasileira, o defunto-autor cita um gesto de Gulliver, personagem do romance do escritor irlandês Jonathan Swift, obra lançada em 1726.

"Multidão, cujo amor cobicei até a morte, era assim que eu me vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Ésquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver." (ASSIS. In: Memórias póstumas de Brás Cubas. Cap. XCIX)

Sou um homem de mais de cinquenta anos de idade. Passei boa parte de minha vida lendo alguma coisa aqui e ali de literatura. Desejo e sede de saber eu sempre tive. Não tive foi tempo livre para ler tudo o que gostaria. Trabalhei muito para os capitalistas e fiz os estudos mínimos exigidos de pessoas como nós da classe trabalhadora. Li bastante se me comparar com os meus pares da classe e com o povo brasileiro. Mas me falta muita leitura ainda. São lacunas culturais imensas, que me incomodam muito.

Dessas citações e referências acima, por exemplo, eu não li ainda As aventuras de Robinson Crusoé e As viagens de Gulliver. Só fui ler Prometeu acorrentado este ano (ver comentário aqui). Percebem minhas lacunas culturais? Aprendi a ter a humildade de saber que me faltam muitas leituras, mas tenho a consciência de quem não passou a vida à toa à toa (como a andorinha de Manuel Bandeira). Passei a vida sendo explorado pelos donos do poder e lutando contra essa exploração da classe trabalhadora, se não li mais romances e poesias não foi por opção, foi por necessidade do viver.

Drummond mesmo, tenho centenas de poemas seus a conhecer. Só conheço seus primeiros trabalhos, até os anos quarenta. Cecília Meireles, essa poeta e intelectual multifacetada, só passei a conhecer alguns poemas seus recentemente. Estou interessado em ler toda a obra de Drummond e de Meireles. Se o tempo de existência me permitir, seguirei lendo eles.

Essa introdução trabalhosa de meu diário cultural e de reflexões é para registrar que comecei ontem a leitura de Robinson Crusoé. Lá vamos nós viajar no tempo e na literatura mundial. Crusoé vai se somar aos meus clássicos lidos recentemente como, por exemplo, Moby Dick e Decamerão

Desejo que a casualidade do viver me permita completar a leitura e saber finalmente a história de Crusoé. Apesar dessa lacuna cultural, não tenho dúvidas sobre a boniteza da história do Eu-lírico do poema de Drummond. Daqui a algumas semanas saberei também das aventuras de Crusoé.

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LUTO E PESAR

Estou muito triste, muito abalado e me solidarizo com o falecimento de Dôia, economista e militante socialista. Dôia era companheira de nosso querido Bemvindo Sequeira. Nosso casal militante e socialista, que tem vivido em Portugal, contraiu Covid-19 dias atrás e Dôia, como era chamada carinhosamente, não resistiu. Bemvindo está se recuperando aos poucos da Covid. Ele esteve nesta sexta-feira em uma live com Kiko Nogueira e Pedro Zambarda, do site DCM.

É tudo muito triste... a vida é um instante, somos muito frágeis, apesar de sermos muito fortes quando lutamos como militantes por um mundo mais justo e solidário. Companheiro Sequeira, receba o nosso carinho. 

- Companheira Dôia, presente!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. - São Paulo: Panda Books, 2018.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

A festa das letras (1937) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Que delícia foi a leitura desta obra de Cecília Meireles em parceria com Josué de Castro - A festa das letras (1937).

Quando li o texto introdutório, não entendi nada, parecia um texto perdido sobre alimentação e saúde. Aí no último parágrafo os autores explicaram o intuito da obra:

"A festa das letras procura ser um pretexto agradável para fazer chegar às crianças, revestidos de certo encantamento, esses primeiros preceitos de higiene alimentar, indispensáveis à sua vida."

E aí começam os poemas, seguindo letra a letra do alfabeto. A, B, C... 23 poemas.

Pelo pouco que conheço de poesia, posso dizer que foi uma experiência nova, diferente. Agradável experiência!

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"Ah! Ah! - pois o A, com a sua cartolinha bicuda,

                    parece o chefe do batalhão.

                Para na frente de todas as letras

                e grita: A... A... A... A... Atenção!"

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E assim vamos nos divertindo com as formas, sons, ritmos dos versos e das estrofes poéticas.

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"(...)

        Sou o B, sou o B que não tem igual:

        B de Banana, Bananeira, Bananal...

O B que tem sempre - ontem, hoje e amanhã -

                      a Banana-maçã!

                    que tem um tesouro

                        de Banana-prata

                         e Banana-ouro!"

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Adorei a festa do M...

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"M, M, M, de onde vem você?

- Eu venho do Mato, todo o Mundo vê!


- M, M, M, você que procura?

- Menino que goste de fruta Madura!


- M, M, M, que é que você traz?

- Mangas, Mangabas, Maracujás!


- M, M, M, que Mais você tem?

- Mamões, melancias e Melões, também!"

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Uma festa essa experiência com as letras de Cecília Meireles e Josué de Castro. 

Com a leitura desse quinto livro de poesias de Meireles, passo a conhecer agora 129 poemas da poeta, jornalista, professora, escritora e intelectual brasileira.

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

domingo, 7 de novembro de 2021

Cânticos (1927) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Dando sequência à leitura e contato com as poesias de Cecília Meireles, li neste domingo o 4º livro da poeta - Cânticos (1927) -, livro que reúne 26 poemas numerados de I a XXVI.

Alguns dos poemas me trouxeram algumas reflexões a respeito da questão da temporalidade individual e da temporalidade coletiva, de classe, histórica. Mesmo sabendo que o Eu-lírico tem um viés religioso na sua relação emissor e receptor nas imagens poéticas, é possível a identificação com a temática da temporalidade e sua agonia pela brevidade da vida humana.

Os poemas I, II e o XXIV, quase no final, se encaixaram perfeitamente na temática do dilema (e angústia) da brevidade de nossa temporalidade existencial individual e a questão mais histórica das realizações humanas enquanto espécie.

Lembrando que vi um vídeo de Mauro Iasi, no canal Café Filosófico da TV Boitempo, vídeo do dia 5/11/21, que me pôs a pensar muito sobre a questão da temporalidade do indivíduo versus a temporalidade da classe. Vejam lá no YouTube caso tenham interesse.

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"I

Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,*
Como Deus.
" (p. 138)


"*Verso-base: Estarás em tudo,"

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O poema é tão moderno que me lembrou a COP26 em Glasgow discutindo a destruição do mundo por parte dos humanos e do capitalismo. Alguns países e corporações (humanos!) destroem o meio ambiente porque podem (como dizem os bilionários "fazemos porque podemos") e que se danem as formas de vida na Terra hoje e num futuro próximo.

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"II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade...
É a eternidade.
És tu.
" (p. 138/139)

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E o poema XXIV me lembrou de novo as reflexões de Mauro Iasi, que somos fruto de uma temporalidade coletiva, histórica, somos a cultura e as pessoas que nos antecederam e assim por diante.

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"XXIV

Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai.
Esta que me deu corpo é minha Mãe.
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram
Em espírito.
E esses foram sem número.
Sem nome.
De todos os tempos.
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.
Todos os que já viveram.
E andam fazendo-te dia a dia
Os de hoje, os de amanhã.
E os homens, e as coisas todas silenciosas.
A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.
O teu mundo não tem polos.
E tu és o próprio mundo.
" (p. 152)

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E assim conheci mais um livro de Cecília Meireles. Com essa obra Cânticos passo a conhecer 106 poemas da poeta, escritora, professora e intelectual brasileira.

William


Post Scriptum (15/11/21): assisti na internet a uma palestra muito interessante sobre esta obra de Meireles: "A filosofia nos Cânticos de Cecília Meireles", com a professora Lúcia Helena Galvão, de um canal chamado "Nova Acrópole Brasil". A biografia de Meireles e a análise dos poemas-cânticos foram muito interessantes. A palestrante exalta a questão mística da poeta e do Eu-lírico, o que é válido, e a interpretação que ela dá para os 26 poemas é muito coerente, tem verossimilhança, para falar algo característico das boas obras literárias e poéticas.

Post Scriptum II: essa interpretação mais mística dada à obra de Meireles não invalida a leitura mais materialista que fiz dos poemas. O texto me permite olhar a questão da temporalidade do ponto de vista individual e do ponto de vista histórico, enquanto homem isolado e enquanto humanidade, enquanto grupo e classe.


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

sábado, 6 de novembro de 2021

39. Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos


Li mais uma vez o livro de poesia de estreia de Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia -, lançado em 1930, um clássico do poeta modernista e da poesia brasileira.

Do início ao fim do livro temos 49 poemas com pernas, coxas, tetas, nádegas, olhos, bigode... "pernas brancas pretas amarelas", "coxas das romeiras", "pernas adjetivas", "coxa morena", "pernas que passam". Cito isso só para não acharmos que só os estrangeiros têm os seus joyces e suas personagens blooms na primeira metade do século vinte.

Poemas de humor, de crítica e denúncia social, poemas que anunciam os efeitos da modernidade tecnológica nas pessoas. Poemas que contrapõem a cidade e o campo, a velocidade do centro urbano e a lentidão da vida no interior.

Que livro! A gente lê os poemas e quer sair divulgando e comentando com as pessoas e com o mundo o quanto os poemas se encaixam naquilo que estamos vivendo. Os poemas falam por nós, falam de nossa angústia frente ao Brasil e ao mundo em destruição acelerada. Que livro! Caraca!

Estou lendo poesias e conhecendo autores, obras, e livros que tenho em casa. Tenho as poesias completas de Cecília Meireles, de Drummond e diversos livros de outros autores. Mas li pouca poesia em minha vida, não conheço praticamente nada de poesia. E a vida é um instante, é um sopro efêmero. Então é ler e reler e sentir as poesias que nos legaram nossos poetas.

já li os 3 primeiros livros de Meireles, lançados em 1919, 1923 e 1925. Os estilos dos livros, temas e formas são bem diferentes dos de Drummond, que também conheço pouco, praticamente só conheço os primeiros livros de poesia dele - 1930, 1934, 1940 e 1945. 

MEIRELES

- Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925).

DRUMMOND

- Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940), A rosa do povo (1945).

Se formos sobrevivendo neste mundo, vamos conhecendo mais um pouco sobre eles - Meireles e Drummond. Estou indo na leitura por ordem cronológica, pela facilidade de ter as obras completas.

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EXÍLIO? NÃO QUERO IR PRA LUGAR NENHUM

Vivemos tempos nos quais um dos principais temas nas cabeças e corações das pessoas progressistas e decentes é o exílio, o ir-se embora daqui do Brasil destruído, seja pra Pasárgada ou qualquer outro lugar longe do bolsonarismo.

Não acho justo abrir mão de meu país por causa dessa burguesia canalha e vil, burguesia que estragou tudo que construímos ao colocar no poder o crime organizado. Não me agrada sequer pensar em mudar, em ir embora daqui. Tenho trauma de mudanças também. Contei na minha vida mais de dez mudanças em dez anos por causa da vida proletária. Minha vida era mudar de aluguel em aluguel porque era preciso.

Cara, que saco isso! Eu não quero ir embora, não quero deixar o meu país. Mas sei que tá foda! A impressão é que não recuperaremos nosso mundo, que não nos veremos livres do bolsonarismo, essa doença odiosa.

Nesse contexto de vida social do país, Drummond é tudo! Cada poema é uma crítica e um contexto, o Eu-lírico pode ser qualquer um de nós a qualquer tempo.

Mas deixo o poema "Lagoa" pra dizer que aqui é minha terra e aqui gostaria de viver e morrer.

"LAGOA

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
" (p. 29)


Aqui é minha terra e nós temos que superar o bolsonarismo, essa gente do mal, gente odiosa, e reconstruir nossa terra, nosso ambiente, nossa cultura, nossas vidas.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Baladas para El-Rei (1925) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
a solitude nebulosa e irreal do ambiente...

(...)

E silenciosos, como alguém que se acostuma
a caminhar sobre penumbras, mansamente,
meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma..." ("Suavíssima", p. 121/122)


E aos poucos vou conhecendo Cecília Meireles. Nesta manhã, li seu 3º livro - Baladas para El-Rei - publicado em 1925. Agora conheço 80 poemas das primeiras 3 obras da autora.

É interessante como os ensinamentos do professor Ariovaldo Vital (FFLCH-USP) não falham quando se trata de leitura de poesia. Ler o poema a primeira vez, depois ler uma segunda vez. Buscar no dicionário as palavras que não se conhece. Ver se há alguma referência externa ao poema que possa ajudar na análise e interpretação de sentidos - vida da autora, questões de época etc. Sugestões básicas para uma boa leitura de poema.

Na leitura de hoje, pesquisei a palavra "solitude" e eu não tinha uma noção boa sobre o sentido. Solitude é um isolamento voluntário e com um sentido mais positivo, enquanto solidão é um isolamento que pode causar algum tipo de dor ou tristeza, algo mais negativo no sentido.

E para fazer esta postagem revi a questão do uso da palavra "poetisa" ou "poeta" para o gênero feminino. Em termos de dicionário e Língua Portuguesa padrão, ambas estão corretas. No entanto, ideologicamente, fico com o termo "poeta" para dizer a poeta Cecília Meireles. É o termo preferido em relação às lutas de gênero.

Outra pesquisa que influenciou no entendimento de um dos poemas foi saber que a personagem "Pedrina" do poema "Para a minha morta" foi a babá de Cecília Meireles, criada com a avó materna desde os 3 anos de idade.

"PARA A MINHA MORTA

(...)

Pedrina minha, és a mais doce das memórias
para a minha alma, a vida inteira alma de criança,
amando sempre o encantamento das histórias

de Barba Azul, de Ali Babá, de um rei de França...
Pedrina minha, és a mais doce das memórias...
" (p. 124/125)

---

A leitura dos poemas de Cecília Meireles, até o momento, me trouxe uma identificação grande com o Eu-lírico. Os poemas e a autora me lembram de uma fase da vida na qual eu cria em todas as formas de misticismo.

Além disso, a poeta cria imagens magníficas em seus versos. Seus poemas encantam pela beleza das construções. Veja abaixo um exemplo de imagem poética, do poema "Oração da noite", ainda de um livro anterior dela - Nunca mais (1923):

"Acendi luzes, desdobrando espaços," (p. 54/55)

É lindo demais!

No poema "Dos pobrezinhos" (p. 117) o Eu-lírico fala para as nossas vítimas da pandemia de Covid-19 e para seus entes queridos.

"DOS POBREZINHOS

Nas tardes mornas e sombrias,
de céus pesados, mares ermos,
e horas monótonas e iguais,

eu penso logo nos enfermos,
na escuridão de enfermarias
tristes e mudas de hospitais...
" (p. 117)

---

Finalizo a postagem citando um excerto do poema que mais gostei de Baladas para El-Rei. Pensa nessa imagem contida em um dos versos do poema: "Anda em choro a folhagem..." ao falar sobre o outono.

"DO MEU OUTONO

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a
                                     [folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angústia irremediável da paisagem...
" (p. 114/115)


É isso!

Tem valido a pena conhecer a poeta Cecília Meireles.

William



Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Instantes com Cecília Meireles



Refeição Cultural

Osasco, 2 de novembro, Dia de Finados.


"POEMA DA DESPEDIDA

Eleito, ó Eleito,
não tornarão mais os meus olhos
a procurar pelos ares
os lírios dos teus pés...
Nunca mais erguerei os braços,
como se erguem as asas,
nesta loucura
de chegar aonde estás...
Eleito, ó Eleito,
não voltarei a sonhar
que me apareces,
que me ouves,
que me acolhes...
" (p. 85)


Nesta manhã de Finados, peguei o volume 1 de Poesia completa, de Cecília Meireles, e após ler um pouco na internet sobre a biografia dela, li de forma muito concentrada a segunda parte do livro Nunca mais... e Poema dos poemas (1923). A primeira parte havia relido dias atrás.

O Poema dos poemas é composto por 21 poemas, divididos em 3 partes de 7 poemas. Ao ler os lamentos do Eu-lírico conversando com um receptor que nunca se mostra, que não acolhe, que não ouve, que não vê - ou se vê, não interfere em nada -, e ao ver o desenlace dessa busca do Eu-lírico, eu me transportei para o meu passado, décadas atrás, aquele passado de buscas místicas e religiosas daquele que fui.

Mesmo sendo quem sou hoje, compreendo perfeitamente essa relação mística e de busca que os seres humanos vivenciam nas diversas fases de suas vidas. Passei décadas clamando por ser visto e ouvido e acolhido por um ser superior e todo poderoso como faz o Eu-lírico de Cecília Meireles. E no final, o Eu-lírico encontra a Sabedoria. Não sei se tive o mesmo êxito.

"POEMA DA SABEDORIA

(...)

Sabedoria! Sabedoria!
Só te encontrei nos abismos,
quando vim descendo
da altura da solidão...
Depois do renunciamento...
Depois de tudo e de todos...
Depois de mim...
Sabedoria! Sabedoria!
Abençoa-me,
porque sofri,
buscando-te!
E, por encontrar-te e querer-te,
faze-te meu Destino...
Deixa-me viver em Ti!...
" (p. 104)

---

Um orgulhozinho: enquanto lia sobre a vida de Cecília Meireles, vi que ela foi oradora de sua turma de formatura. Fiquei lembrando de outras personalidades que também têm em suas biografias o fato de terem sido oradoras em suas turmas escolares e acadêmicas. 

Naquele instante de leitura, me veio uma espécie de orgulho, uma vaidadezinha, porque eu fui escolhido orador de nossa turma de Ciências Contábeis, turma de 1991 a 1994, da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco, a antiga FEAO-FITO. 

Nossa turma tinha mais de 100 alunos e nos dávamos muito bem. Foi um privilégio ser o orador e até hoje tenho guardado comigo o texto que fiz e que foi lido em nossa formatura. Me lembro de praticamente todas as pessoas, colegas do curso. Tenho ainda um carinho imenso por elas. Um beijo e um abraço fraterno a cada um e cada uma que esteja por aí nesse nosso mundo, vasto mundo.

William

Post Scriptum - clique aqui para ler a postagem sobre a primeira leitura dessa obra de Meireles.


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (VI)


Cerejeira uspiana nas proximidades da Letras.

(Atualização em 21/10/19)

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim durante as aulas do Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de Teoria Literária II, matéria na qual estamos estudando a leitura de poesias ao longo do semestre.

A interpretação dos ensinamentos, consubstanciada nestas anotações, é de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual que eu tenha cometido pode ser sanado pelo(a) leitor(a) buscando-se outras fontes para esclarecer a dúvida ou informação conflitante.

Este é um espaço de compartilhamento gratuito de conhecimento, informações e opiniões, dentro do conceito Wiki (What I Know Is).

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Aula de 20/08/19 (Continuação)

Leitura do poema "Encomenda", de Cecília Meireles, poema que pertence à obra Vaga música (1942).

ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

Cecília Meireles, Vaga música (1942)

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As leituras de poemas em sala de aula serão de introdução para que os alunos desenvolvam a capacidade da leitura crítica. O Professor terá pouco mais que uma aula por poema, de maneira que caberá ao aluno aprofundar a capacidade de percepção com os textos críticos e estudos pessoais.

O poema em questão traz muito da poética da autora. Ele é rimado e tem 3 estrofes. A tradição clássica pesou na obra poética de Cecília Meireles.

Vemos que o poema é moderno. Ele não seria do século XIX ou anterior. É do nosso tempo. É do período posterior à vanguarda modernista.

Por que ele não seria de outros períodos e séculos anteriores? A matéria que trata é do cotidiano, é corriqueira, é matéria prosaica. É alguém que vai encomendar uma fotografia.

O Professor nos diz que os românticos faziam isso, mas eles já eram modernos.

O prosaico da cena se completa com outro plano prosaico: o plano da linguagem. Temos aqui uma forma clássica numa linguagem e tema prosaicos.

O poema é muito sugestivo, algo característico nos poemas modernos. São versos simples dotados de sugestão; imagens com algo que vai além do prosaico.

Até o Modernismo, as imagens eram mais explícitas nos poemas. Depois das vanguardas e com as novas poéticas, passaram a ser mais sugestivas.

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O Professor cita como exemplo de imagens mais sugestivas o poema de Drummond "Cota Zero" do seu primeiro livro Alguma Poesia (1930).

"COTA ZERO

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?"

COMENTÁRIO (meu, não do Professor): Ao situarmos esse poema de Drummond com o todo de Alguma Poesia, fica mais fácil compreendermos as temáticas que o poeta aborda na obra, poemas como "A rua diferente", "Poema que aconteceu", "Poema do jornal", "Sinal de apito", dentre outros, nos quais o poeta lida com a chegada do futuro que trouxe tecnologias que colocam em segundo plano os seres humanos, a velocidade das mudanças nas coisas do dia a dia, e a posição de um Eu lírico que não necessariamente exalte de forma positiva essa chegada do futuro como faziam os vanguardistas de sua época como, por exemplo, os futuristas.

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Voltando a Cecília Meireles...

O poema "Encomenda" contém 3 estrofes. E aí? A poetiza teria errado? Sentimos no poema que há algo fragmentado. O Eu lírico parece não ter esgotado o assunto. Ele poderia ter sido mais explícito após a 3ª estrofe.

Temos aqui outra característica interessante da modernidade. Os versos são rigorosos na forma, mas parecem ser parte de um todo que não está explícito ali. Marcas do tempo. Fragmentos. Esses são traços decisivos na poesia moderna.

IMPRESSÕES DOS ALUNOS

Após uma terceira leitura do poema em sala de aula, os alunos falam de suas impressões: temos a ideia de uma ausência, de uma falta ("uma cadeira vazia"). Existe uma certa tensão em relação ao tempo. A fotografia retém o tempo; o eu lírico não consegue reter o tempo. 

Vemos também no Eu lírico uma ambivalência em relação às marcas do tempo. Da mesma forma que o Eu lírico pede que o fotógrafo corrija a "testa sombria" pede também que "derrame luz na minha testa", vemos no Eu lírico o medo do artifício, do falso, e a busca de uma verdade. 

"Deixe a ruga" e "Não meta fundos de floresta/nem de arbitrária fantasia..."

Qual o tom do Eu lírico no poema? É importante tentar captar o sentimento.

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COMENTÁRIO: vou finalizar essa parte da aula e recomeçar depois. Como já disse em alguma postagem dessas sobre aulas, é difícil organizar anotações corridas em uma postagem minimamente coerente e inteligível. Cheguei num ponto das anotações no qual preciso parar para estudar alguns textos críticos para compreender algumas questões sobre figuras de linguagem e outras coisas. Sincero eu, né?

Enfim, a postagem segue depois...

William

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21/10/19, RETOMANDO A POSTAGEM DA AULA

Metáfora ou Metonímia? Quais figuras de linguagem aparecem no poema? O título "Encomenda" é metafórico ou metonímico?

Eu interrompi a postagem para estudar um texto que o professor Ariovaldo produziu para facilitar o nosso entendimento a respeito de algumas figuras de linguagem. Ele nos explica em seu texto Antítese, Oxímoro, Símile, Metáfora, Metonímia e Sinédoque.

O título

No poema de Cecília Meireles, "Encomenda" é um título metonímico, está no contexto do poema. De fato, no plano da linguagem literal temos um poema que aborda a encomenda de uma reprodução de fotografia. É um contexto prosaico e comercial. O Eu lírico vai até um estabelecimento comercial para encomendar uma fotografia e dá algumas instruções de como quer que a encomenda seja feita.

Quando o título é metafórico, o sentido está de forma alegórica, em outro plano da linguagem.

Atenção: o fato do título deste poema de Meireles ser "Encomenda" e não "Fotografia", por exemplo, já é outra coisa. Aqui já seria possível analisar e interpretar através de um estudo dos sentidos do poema.

O título é importante, ele concentra o sentido do todo. É interessante refletir e entender o título ao final da leitura do poema, mais que no início.

1ª estrofe

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

A palavra "desejo" abre o poema, no 1º verso. Se lembrarmos a relação comercial entre um cliente e um estabelecimento, teremos essa expressão nela: o que a senhora deseja? Desejo...

Na poesia tudo pode ser ambíguo. A palavra atende à camada aparente, mas também a que está em outro plano da linguagem.

O Eu lírico está falando de algo profundo, a encomenda de algo que mexe com a sua subjetividade, o desejo implica dois planos:

- o comercial, de compra e venda de um produto;
- o metafórico, que se refere à interioridade do Eu lírico.

Planos de sentido

2º verso: "como esta - o senhor vê? - como esta"

Os poemas modernos, prosaicos, têm um plano de sentido para além daquele que está explícito na linguagem aparente.

Além da reprodução do cenário da foto em si, vemos aqui o desejo de reprodução de uma condição, de um contexto que está na foto, daquela felicidade que se vê nela.

Os versos vão adentrando no plano subjetivo, mas devemos ficar atentos também ao plano mais objetivo do texto, o comercial.

A foto de modelo passa uma ideia de tempo, foto antiga, meio apagada. No presente, o Eu lírico já não é propriamente jovem, essa seria a ideia. A festa teria sido recentemente? Não parece. Poderia ser uma foto da juventude ou da infância? Talvez.

O poema tem uma construção muito interessante. O plano aparente, o plano comercial, não é interrompido, ele vai até o fim do poema. Ao mesmo tempo, a cada verso, a cada estrofe, o Eu lírico vai apresentando o que quer e o que não quer daquele instante captado na foto e que se vai reproduzir. Vemos aqui a busca do sentimento de alegria e felicidade registrado naquele momento do passado.

O professor nos falou também sobre a sonoridade da 1ª estrofe.

2ª estrofe

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.


Em que sentido a 2ª estrofe amplia o sentido da 1ª?

O Eu lírico continua descrevendo ao fotógrafo como quer a fotografia. A condição atual do Eu lírico está presente na cena e não na foto antiga, que servirá de modelo.

TEMPOS VERBAIS: no 3º verso da 1ª estrofe temos o registro de um passado feliz - "em que para sempre me ria". O pretérito imperfeito dá o tom de felicidade continuada. Na 2ª estrofe temos o presente da enunciação. Os verbos são todos do presente, inclusive no imperativo, dando ordem: "derrame"; "deixe".

METONÍMIA: "testa sombria" - estranhamento. Testa está no lugar de outra palavra.

O professor nos explica que o sentido é metonímico quando se substitui um termo abstrato por um termo concreto. "testa sombria" = "olhar sombrio", "alma sombria", "pensamentos sombrios". Seria algo da interioridade do Eu lírico.

Na 2ª estrofe temos uma mudança em relação à 1ª. Nesta, sensação de eterna festa, alegria; naquela, sentimento mais sombrio, meio deprimido, contido.

SONORIDADE: "Comtenho a testa sombria" - "t" e "b" som explosivo, duro. Toda consoante nasal tem algo de fechado, interior: "m", "n", "m". A vogal "i" tônica é muito forte no final do verso, isso dá um contraste interessante.

"derrame luz na minha testa" - escolha verbal estranha. Derramar luz, algo cinestésico. Tem um sentido superior, como um batismo onde se derrama alga simbolizando o Espírito Santo.

Lembrar: quando um poema é prosaico, teremos algo de sentido superior, em outro plano de linguagem.

(segue depois...)