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sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


domingo, 2 de agosto de 2026

Leitura: Tal Pai Tal Filho



Refeição Cultural

Já faz alguns anos, meu pai me entregou um caderno de textos, organizados por ele mesmo, reunindo textos meus e textos dele. O caderno se chama Tal Pai Tal Filho.

Já li trechos do caderno várias vezes, mas nunca li o caderno inteiro. A gente tem o costume ruim de fazer isso com as pessoas queridas, amigos e familiares. Tudo no cotidiano é mais urgente e importante que as nossas relações de afeto.

Quando acordei neste domingo, uma semana antes do domingo dos pais, tive um impulso de pegar o caderno que meu pai idoso fez pra mim e lê-lo completamente, corretamente. É o mínimo que eu já deveria ter feito desde quando ele mo presenteou.

A primeira metade são textos meus retirados do blog Refeitório Cultural, textos que tratam de minha relação com os pais e com meu filho. São textos sobre pais e filhos. Alguns são incríveis! São declarações de amor, agradecimentos, reflexões em momentos de dor e angústia. 

Durante um curto período, meu pai passou a escrever bastante, já depois dos setenta anos. Até antes: "Divagando pela vida", ele finaliza aos 67 anos, no dia de seu aniversário. Ele conseguiu mexer com computador e internet até o período da pandemia mundial, já perto de seus oitenta anos. Naquele momento, meus textos tinham ao menos um leitor: meu pai!

A coletânea que ele fez pra ele e pra mim é incrível! Ao me entregar aquele caderno, anos atrás, meu pai pode ter querido dizer várias coisas, várias! Respeito por mim, amor, orgulho pelo filho que teve. Um pedido de socorro, por solidão em um ambiente de desentendimento na própria casa. Um chamado para que eu visse a história incrível da vida dele, que nunca havia sabido de forma tão organizada. 

De meus textos, ao relê-los, fiquei estupefato. Não me lembrava com detalhes daqueles acontecimentos e sentimentos. 

Escrevi um sobre idosos, estando na UTI com meu pai infartado em 2012. Imagino que seja um de meus melhores textos sobre a importância de se amar os idosos.

Meu pai reuniu textos nos quais falo de meu filho, de minha mãe, de mim e ele com nossas duras vidas vividas.

Aí começa a história da vida dele. Incrível! Dá vontade de ler em voz alta numa roda de amigos e familiares. De parar a cada parágrafo e comentar sobre aquela vida, aquela gente, aquele mundo de onde nós viemos. Qualquer pessoa minimamente conhecedora do Brasil do século vinte, sabe que aquela narrativa é sobre todos nós.

Enfim, neste momento, apenas comecei a leitura da história da vida de meu pai, de meus pais, dessa gente de onde viemos, de muitos de nós. 

A vida é um instante. Enquanto me afogo no catarro de uma gripe insistente, posso deixar de existir num instante. O mesmo com meu velho pai, próximo de completar 84 anos. O mesmo com meu filho, que num rolê com algum exagero na bebida, pode se pôr em risco desnecessário...

Fiz muitas das coisas que meu pai fez na juventude. Meu filho, idem. Bebemos mais do que o saudável. Meu pai ainda fumou por 37 anos. Cada vida é única. Cada história de vida, também. Os contextos e o mundo nunca são os mesmos, apesar das escolhas serem talvez parecidas.

Sou grato por estarmos vivos neste domingo. 

William 

02/08/26

sexta-feira, 17 de julho de 2026

HQ: Persépolis - Marjane Satrapi



Refeição Cultural

"Naquele dia, aprendi uma coisa fundamental: só podemos ter dó de nós mesmos quando ainda é possível suportar a infelicidade... quando ultrapassamos esse limite, o único jeito de suportar o insuportável é rir dele." (Marjane Satrapi)


Soube pela imprensa que a autora de Persépolis faleceu em junho deste ano. O HQ é muito conceituado e traduzido para diversas línguas. Sua publicação original se deu em 4 volumes, entre 2000 e 2003. Eu não conhecia Marjane Satrapi e sua obra. 

Decidi ler esse clássico importante de Marjane, uma autobiografia, para conhecer sua história e um pouco sobre a cultura persa. Encontrei uma bela edição da Quadrinhos na Cia - Companhia das Letras -, em volume único, com tradução de Paulo Werneck.

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É PRECISO SABER PERDOAR... MAS QUEM QUER PERDÃO POR MATAR?

(Marji e sua mãe em casa, após Marji e amiguinhos planejarem linchar o filho de um assassino do regime anterior)

- Mas, mãe, o pai do Ramin matou...

- Eu sei.

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- É o pai dele! O Ramin não tem nada a ver com isso!

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- Além do mais, não sou eu nem você quem vai fazer justiça. E é preciso saber perdoar. 

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(Marji e Ramin na rua)

- Seu pai é um assassino, mas você não tem nada a ver com isso! Eu te perdoo!

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- Ele não é assassino! Ele matou uns comunistas, e os comunistas são o demônio!

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(Marji com a mãe em casa)

- Mãe, falei com o Ramin. Ele disse que o pai dele fez bem em matar os comunistas. 

- Meu Deus! Ele repete tudo o que ele ouve. Um dia ele entende...

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- É preciso saber perdoar! É preciso saber perdoar!

(Marji pensa: "eu tive a sensação de que era uma pessoa muito boa.")

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A AVÓ DOS SEIOS COM PERFUME DE JASMIM

(Na véspera da viagem, a vovó foi dormir lá em casa)

- Posso dormir com você?

- É pra isso que eu estou aqui!

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(Fiquei olhando a vovó se trocar. Toda manhã, ela colhia jasmins e punha no sutiã, para se perfumar. Quando tirava o sutiã, as flores iam caindo dos seios dela.)

(Era um espetáculo.)

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- Vovó, como você faz pra manter os peitos tão redondos, nessa idade?

- Ponho cada um numa tigela de água gelada, por 10 minutos, de manhã e à noite. 

(Era verdade. E eu já sabia que ela fazia isso. Só queria ouvi-la contar.

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- Vou sentir saudade. 

- Mas eu vou visitar você, lá. 

(Ela também estava mentindo.)

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- Olha, não quero dar uma de moralista, mas vou te dar um conselho que sempre vai ser útil pra você. 

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- Na vida, você vai encontrar muita gente idiota. Se te ferirem, pensa que é a imbecilidade deles que os leva a fazer o mal. Assim você vai evitar responder às maldades deles. Porque não tem nada pior no mundo do que a amargura e a vingança... seja sempre digna a você mesma. 

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(Eu estava sentindo o cheiro do peito da minha avó, era bom. Nunca vou esquecer aquele perfume. 

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A PIETÁ DE MARJANE COM UM CHADOR NEGRO NA CABEÇA DE MARIA 

De volta ao Irã, após 4 anos em Viena, Áustria, Marjane participa do concurso nacional para entrar na universidade e consegue uma vaga.

Ela passou maus bocados em Viena, chegou a morar na rua por meses, no inverno, e quase morreu.

Ao voltar ao país islâmico, enfrentou uma forte depressão e quase morreu durante uma crise.

Ela nos conta que ficou bem feliz com o seu desenho da Pietá, de Michelangelo, adaptada para o mundo islâmico. O desenho fez parte de sua prova de vestibular. Ela passou em Artes Graficas.

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COMENTÁRIO FINAL 

Terminei a leitura emocionado. Agora conheço o clássico Persépolis e a história de Marjane Satrapi, que faleceu muito cedo, aos 56 anos de idade. 

Conhecendo sua história através de Persépolis, eu fiquei pensando no quanto Marjane deve ter sofrido em fevereiro deste ano, já deprimida, ao saber do bombardeio da escola em Minab, que vitimou mais de uma centena de meninas iranianas.

A história de Marjane é a história de milhões de meninas e mulheres desse mundo humano injusto e dominado pela violência dos homens. 

Temos que lutar pela igualdade de direitos entre homens e mulheres e pela liberdade das mulheres em relação aos homens. 

Estamos num momento de retrocessos nos direitos fundamentais das pessoas e esse fato só nos deixa a opção de lutar pela igualdade, liberdade e justiça. 

Ler e conhecer obras como a de Marjane Satrapi é uma forma de tomar conhecimento da condição das mulheres no mundo. 

William 

17/07/26

domingo, 15 de março de 2026

Livro: Infância - Graciliano Ramos



Refeição Cultural 

LITERATURA BRASILEIRA 


"Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero." (G. RAMOS, "Um cinturão", p. 32)


Graciliano Ramos tinha 53 anos de idade quando publicou o livro Infância, em 1945. É um livro duro, sem meias palavras. A infância do personagem foi muito dura, de violência gratuita no cotidiano. A criança do romance é ele mesmo, o garoto que nasceu em 1892 no agreste de Alagoas.

São 39 capítulos de memórias do personagem adulto que conta sua infância no interior do Nordeste nos últimos anos do século XIX e início do século XX. 

O adulto narrador do romance é um escritor maduro e com uma obra de referência na literatura brasileira: Graciliano Ramos. Porém, as memórias do escritor, na forma de romance, são as memórias de todos nós, são universais.

A crítica literária tem longa história de estudos sobre discursos narrativos que mesclam realidade e ficção em obras literárias. Toda memória tem um quê de ficção porque preenchemos lacunas e damos sentidos a ela.

A técnica literária e a capacidade ímpar de Graciliano Ramos em mergulhar leitores em suas memórias da infância nos faz ver em cada capítulo - que para mim são contos - as nossas histórias pessoais e cotidianas da infância e adolescência.

Fui escrevendo minhas impressões enquanto ainda lia o romance, antes de finalizar os 39 capítulos. Não queria que a leitura acabasse... As histórias do livro são como as passagens da bíblia para as pessoas religiosas. O ideal seria ter a obra à cabeceira da cama. Cada parágrafo é uma lição, uma reflexão, um prazer ao ler texto bem escrito.

Certa vez, enquanto era aluno de Letras, fiz um poema abordando três autores que me influenciavam naquele momento (com uns trinta anos de idade): Caeiro, Drummond e Graciliano Ramos (ler aqui). Dizia que, ao final de meu desenvolvimento com a escrita, queria chegar à técnica literária de Ramos. O que desejava ser como escritor é o que leio em Infância. Demais!

As histórias da leitura e dos leitores, como nos contou magnificamente Alberto Manguel (um exemplo aqui) são únicas ao longo dos tempos. O personagem de Infância nos conta que até os nove anos de idade, seguia sem conseguir ler e entender o sentido dos textos. Sendo a história do escritor, vemos que aquela criança se tornou um dos melhores escritores do país.

Após ler mais algumas histórias - a do capítulo "Fernando" é fascinante -, avancei para as últimas cinco do livro. Repito: o romance-bíblia deveria ficar na cabeceira da cama para sempre. Queria escrever assim!

(E pensar que quis ser literato e professor, até entrei em uma faculdade de Letras e as veredas da vida me levaram a ser sindicalista...)

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"Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa - e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo." ("A criança infeliz", p. 237)

Esse era o método de ensino no país no início do século XX...

Amigos leitores, cada conto (capítulo) é uma história comum a inumeráveis crianças do Brasil e do mundo, do passado e do presente...

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura do livro Infância (1945) foi marcante para mim, foi uma leitura de reencontro com Graciliano Ramos. Uma leitura de descoberta e de compreensão a respeito do escritor que sempre admirei e do qual eu não conhecia seu passado, seu ambiente de aculturamento e formação.

O posfácio "Graciliano Ramos e o Sentido do Humano", de Octavio de Faria, que faz parte da minha edição do livro, ampliou ainda mais a minha compreensão a respeito da poética do escritor.

Um dos livros impactantes em minha vida, que me levou inclusive a escrever uma crônica relativa à minha infância e adolescência, é justamente Angústia (1936), considerado por Octavio de Faria, a obra principal de Graciliano Ramos. 

Ao ler o livro no início dos anos dois mil e após entrar na faculdade de Letras, me lembrei de meus dias de ajudante de encanador ao ler as reflexões do personagem Luís da Silva (ler aqui).

Eu já havia tido o privilégio de ler Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938), além de Angustia. Cheguei a escrever em um poema que meu sonho era alcançar o estilo Graciliano Ramos de escrever após uma suposta evolução na produção literária. Utopia! G. Ramos é único!

Ao ler Infância, neste momento de meu viver, compreendi a obra toda de Graciliano Ramos. Agora vejo claramente Fabiano e toda a dureza do enredo de Vidas Secas. Como não entender Paulo Honório, de São Bernardo?

Ao terminar a leitura demorada de Infância, porque lia um capítulo ou conto e parava, concluí que a minha natureza psicológica é mais Graciliano Ramos que qualquer outro autor pelo qual nutro admiração. 

Machado de Assis, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade são deuses para mim, assim como Graciliano Ramos. Mas quando olho para a minha vida, o meu percurso da infância até aqui, sou Graciliano. E minha infância até os dez anos foi o inverso da dele, mas a adolescência minha... foi a infância dele: miséria e violências sociais.

Não tenho outra opção em minha vida torta de leitor repleto de lacunas culturais a não ser ler Memórias do Cárcere (1953), do autor espelho de minha psicologia, daquilo que se costuma chamar alma. 

Espero que dê certo completar o percurso dos romances do mestre Graciliano Ramos. Ele teria muito que escrever para nós, quando faleceu no auge de sua produção, como aconteceu a Guimarães Rosa.

Viva a literatura!

William

domingo, 19 de outubro de 2025

Instantes (15h36)



Refeição Cultural

LEITURAS


A leitura é um ato humano transformador. É uma das formas de transmissão de conhecimento e de educação. Todas as pessoas no mundo deveriam ter acesso a alfabetização e às diversas opções de meios de leitura. Tive o privilégio de ser um leitor desde muito pequeno. Porém, sei que não li quase nada ainda...

Quando garoto, lendo gibis, aprendi sobre as moscas tsé-tsé que causam a doença do sono. Há 50 anos, começava a ler e aprender...

Mais recentemente, ao ler o livro O verdadeiro criador de tudo, do neurocientista Miguel Nicolelis, compreendi melhor a vida e me livrei de vários questionamentos que fiz por décadas. 

Hoje, sei que muitas coisas são como são. Mas sei que somos sujeitos históricos e podemos mudar o mundo e criar novos mundos.

Leituras... aprendizados...

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ISAAC ASIMOV

"(...) O Sr. Daugherty diz que naqueles dias todos aprendiam a fazer os rabiscos quando eram crianças e como decifrar aquilo, também. Fazer rabiscos era chamado 'escrever' e decodificar os rabiscos 'ler'. Ele diz que havia uma espécie diferente de rabisco para cada palavra e eles costumavam escrever livros inteiros em rabiscos..." (ASIMOV, Isaac. "Um dia" in: Os melhores contos, 2018)


De minhas imensas lacunas culturais, infindáveis, Isaac Asimov era uma delas. Havia chegado a mais de meio século de existência sem ter lido um texto sequer do cientista e escritor.

Neste fim de semana li dois contos de Asimov. Ontem li "Um dia" e hoje "Amor verdadeiro". As estórias são incríveis! Gostei muito!

Seus contos nos apresentam personagens e cenários futurísticos meio impensáveis na vida cotidiana de meados do século passado. Uma máquina eletrônica que cria estórias para contar às crianças ou um computador pessoal inteligente que dialoga com o dono e busca para ele no mundo todo uma namorada ideal.

Perceberam o quanto ele antecipou o que qualquer pessoa tem hoje com essas geringonças de IA?

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GRACILIANO RAMOS

"Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação." (RAMOS, Graciliano. "Um cinturão" in: Infância, 1995)


Graciliano Ramos é um dos mestres da literatura brasileira para mim, junto com Machado de Assis e João Guimarães Rosa. 

Minha edição do livro Infância (1945) me acompanha há décadas (ela é de 1995), já se mudou comido diversas vezes, e repousa na estante atual de casa.

Li nestes dias os primeiros textos do livro, podemos dizer capítulos, mas são textos independentes, poderíamos chamá-los também de contos porque têm início, meio e fim. Cada texto é uma viagem ao passado de todos nós que fomos crianças no Brasil do século passado.

Os textos são de uma riqueza impressionante! Leio um deles e paro. Aquelas cenas ficam comigo até a próxima leitura.

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MEMÓRIAS DE TODOS NÓS

As leituras devem ser feitas, temos que seguir lendo. Enquanto lemos, aprendemos, conhecemos os mundos, criamos novos mundos.

Até meu livro de Memórias, que está aos poucos indo parar em algumas estantes do mundo, já foi lido por algum leitor ou leitora, e eu mesmo fico relendo os capítulos para me certificar, talvez, de que tenha escrito algo que valesse a pena ser compartilhado.

Cada capítulo é um pequeno conto também, com início, meio e fim, uma lembrança de fazeres sindicais dos trabalhadores da categoria bancária. 

Sigamos lendo e nos esforçando para nos mantermos humanos. A leitura é um ato humano, de humanos e para humanos.

William

19/10/25

Domingo

terça-feira, 16 de setembro de 2025

O último poema

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O ÚLTIMO POEMA


O primeiro poema foi um balanço dos trinta anos.

A infância feliz e depois infeliz, do amor ao ódio.

Exploração infantil na venda do seu trabalho.

As relações de afeto, sempre regadas com lágrimas.


Aos trinta, já era pai e funcionário de banco público.

Formado, por acaso, em Contábeis. Não se formou

em Educação Física porque o salário não deu.

Passou no vestibular e entrou nas Letras...


A vida andou. Virou sindicalista. Se politizou.

Por duas décadas, outra vida, um novo homem.

Aos cinquenta, virada radical nos papéis sociais.

Saiu do BB. Da representação. Do espaço de atuação.


Aos cinquenta e seis anos, o mundo se desfaz.

Na política e na economia do seu país e do mundo, 

a extrema-direita e o capitalismo em crise estrutural

estão colapsando a sociedade humana e a Terra mãe.


No pessoal, o balanço da vida se parece com o mundo.

A saúde: bomba-relógio: genética e veredas da vida.

As relações: o retrato dos tempos: incomunicabilidades.

Teria contribuições a fazer... sente que não vai rolar.


William Mendes

16/09/25

terça-feira, 15 de julho de 2025

Instantes (12h49)



Refeição Cultural

No romance, estou numa parte na qual parece ser o fim para o senhor Barnstaple, ele está numa reentrância na rocha em um penhasco. Abaixo, o desfiladeiro, acima, rochas por onde escorregou até ali, fugindo de seus pares terráqueos. Ele avalia que as opções nessa situação são duas: esperar a morte por inanição ou se jogar para a morte.

Estou com as palavras do professor Domenico de Masi circulando pelas sinapses de meu cérebro criador de tudo. Vi uma aula dele sobre o tema "O ócio criativo" (no ICL). Ele explica sobre o trabalho, seu objeto de análise e estudos por décadas. 

Nas minhas reflexões, me lembrei do sofrimento que o trabalho significou em minha vida. Vejo a trabalhadora limpando a piscina, trabalhando, e me lembro do meu primeiro dia como ajudante de encanador antes dos dezesseis anos... depois me lembro daquelas latas de palmito podres que tinha que abrir pra jogar fora... Temos que trabalhar para sobreviver.

De Masi nos conta que por milênios, o trabalho não tinha essa interpretação recente de "dignificar" o homem (mulher nem era considerada em relação aos direitos nos mundos dos homens). Trabalhar era castigo divino, era para escravizados. Dignificar os homens era através da filosofia, da arte, do belo, dos esportes e da gestão da Pólis

Esse papo de trabalhar dignifica o homem veio dos últimos dois séculos, da era industrial. Locke, Smith e Marx mudaram o olhar sobre o trabalho. Segundo De Masi, desde sempre (milhares de anos de homo sapiens), nosso objetivo foi trabalhar pouco ou não trabalhar. 

Isso me parece ter todo o sentido!

Agora temos máquinas e tecnologias para livrar a espécie humana da maior parte do trabalho ruim, insalubre, de risco e humilhante. E também de trabalhos mais considerados pelas sociedades. Poderíamos viver para o belo, para estudar e criar, para a cultura. Mas 99% estão no "corre" por um trabalho qualquer, até por um prato de comida, e 1% acumula tudo.

Pior: isso é normalizado!

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Confesso que estou tão cansado quanto meu corpo, que cansou de sobreviver dez anos a mil.

Por consciência, busco sentidos. Mas confesso que está difícil encontrar sentidos. 

Me despeço amanhã do paraíso, da singela colônia de férias dos professores na Praia Grande. 

Voltarei para o caos.

Will i am 

15/07/25

sábado, 5 de julho de 2025

Livro: Fábulas (1922) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- Na minha opinião, as fábulas mostram só duas coisas: primeiro que o mundo é dos fortes; e segundo que o único meio de derrotar a força é a astúcia..." (Fala do Visconde de Sabugosa, p.173)


O livro "Fábulas" de Monteiro Lobato foi publicado em 1922. Foi o segundo da coleção Sítio do Picapau Amarelo, saiu após "O Saci" (1921).

Estou lendo a obra um século depois. Eu concordo com a avaliação acima do personagem Visconde de Sabugosa. Só a astúcia para derrotar a força. 

Em que mundo vivia o autor um século atrás? Em que mundo vivemos hoje? Num mundo no qual a força se impõe contra a diplomacia e os consensos; em mundos que não querem mais conciliar.

A Alemanha e a Itália das primeiras décadas do século passado, o Japão lá no Extremo Oriente, se impuseram pela força (seriam o Eixo na 2a GM). Os Estados Unidos de Trump e o "Estado" de Israel de Netanyahu estão se impondo pela força. O império da força sem limites diplomáticos... esses são os tempos. 

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O LOBO E O CORDEIRO

Outra fábula recontada por Monteiro Lobato um século atrás é mais atual que todas as outras: a do lobo e o cordeiro.

"Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto.

- Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? disse o monstro arreganhando os dentes - Espere, que vou castigar tamanha má-criação!...

O cordeirinho, trêmulo de medo, respondeu com inocência:

- Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta...

(...)

O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:

- Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!

E - nhoc - sangrou-o no pescoço. 

     Contra a força não há argumentos." (p. 118/119)

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COMENTÁRIO FINAL 

O livro contém 74 fábulas, algumas ótimas, muitas interessantes, e outras ruins e sem sentido.

Algumas fábulas são atemporais, vêm de séculos e séculos atrás. E suas lições permanecem sábias até hoje.

Foi o 4° livro que li de Monteiro Lobato nas últimas semanas. 

Fico com o ensinamento de Italo Calvino: é melhor ler que não ler os clássicos!

Sigo lendo e aprendendo.

William 


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. Fábulas. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Livro: O Saci (1921) - Monteiro Lobato

 


Refeição Cultural

"Dizem - respondeu o Saci - que, quando uma mulher tem sete filhos machos, o sétimo vira lobisomem na noite das sextas-feiras. Sai então pelos campos, invade os galinheiros (onde come um produto das galinhas que não é o ovo) e também assalta e devora os cães e as crianças que encontra pelo caminho..." (p. 79/80)


Ao pesquisar sobre a obra de Monteiro Lobato, vi que "O Saci" foi o primeiro volume da coleção Sítio do Picapau Amarelo, publicado em 1921.

Nesse primeiro livro, vemos personagens clássicas do folclore brasileiro como, por exemplo, a Mula Sem Cabeça, a Iara, o Lobisomem, o Negrinho do Pastoreio e o Boitatá. 

A Cuca e o Saci-Pererê são personagens que fizeram parte da infância das crianças brasileiras. A adaptação para exibição na TV se deu nos anos setenta, na Rede Globo em parceria com a TVE e o MEC (1977 a 1986). Quando pude ver alguma coisa sobre o Sítio, foram episódios dessa época.

Como disse nos comentários dos primeiros volumes que li dessa coleção (ler aqui), o leitor de hoje tem dificuldade com a linguagem de Monteiro Lobato em relação a diversas questões sensíveis como, por exemplo, a forma de tratamento a grupos sociais de nosso país.

No entanto, avalio que não é por isso que se deva desmerecer a importância inovadora da obra de Lobato nas primeiras décadas do século vinte no que diz respeito a uma literatura feita para crianças e adolescentes.

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PERSONAGENS

Nas adaptações das lendas feitas por Monteiro Lobato, ele não segue necessariamente a tradição que a maioria das pessoas conhece. 

Na lenda da Mula Sem Cabeça, por exemplo, é mais conhecida a história na qual ela é concubina de um sacerdote. No entanto, no livro ela é esposa de um rei e come cadáveres de crianças no cemitério local.

Algumas histórias de Lobato são bem assustadoras se pensarmos o público-alvo e a sociedade na qual seus livros circulavam, crianças e o Brasil do início do século vinte.

A lenda do Boitatá do livro tem semelhança com uma das vertentes que encontrei ao pesquisar sobre a personagem folclórica. O próprio Pedrinho fala ao Saci que ele conhece a história da cobra de fogo como sendo fogo-fátuo.

Ao ler sobre o Lobisomem foi inevitável pensar qual dos filhos de minha avó Deolinda seria o lobisomem da família (risos). 

Minha avó teve nove filhos homens e o sétimo deve(ria) ter sido o bichão... não me lembro agora, mas se brincar é o meu pai... (os dois mais velhos já faleceram e um dos mais novos também). 

Brincadeira, meu pai é um dos mais velhos e não um dos mais novos. Ele não é o lobisomem da família. 

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É isso! Sigamos lendo Monteiro Lobato. Já li 3 livros dele e tenho mais 4 em casa para ler.

William


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Saci. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Livro: Aventuras de Hans Staden (1927) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"Aventuras de Hans Staden, o homem que naufragou nas costas do Brasil em 1553 e esteve oito meses prisioneiro dos índios tupinambás, narradas por Dona Benta aos seus netos Narizinho e Pedrinho."


Depois de ler "O Picapau Amarelo" (1939), agora foi a vez de ler "Aventuras de Hans Staden" (1927), da Coleção Sítio do Picapau Amarelo (1921-1947), de Monteiro Lobato.

Nesta aventura, Dona Benta conta aos netos eventos pesados se pensarmos o público infantil, pois o que mais tem na história é canibalismo, os tupinambás comeram gente do início ao fim.

Como leitor treinado, sempre busco adequar minha expectativa ao contexto no qual a obra foi lançada: a época, o lugar e as linhas gerais pretendidas pelo autor, se souber isso.

Disse no comentário sobre o primeiro volume que li de Monteiro Lobato (aqui) que ele é um escritor de seu tempo histórico. A linguagem usada por ele não me agrada como leitor do primeiro quarto do século XXI, acho ruim a forma como se trata a questão indígena, por exemplo. Mas não posso desconsiderar a importância da obra de Lobato.

Para compreender melhor o personagem retratado no volume procurei ler alguma coisa sobre Hans Staden. Eu não li o livro dele. Acho até que tenho uma edição em casa, mas não procurei a obra.

Por considerar o vanguardismo de Monteiro Lobato nas mais de duas dezenas de livros da Coleção Sítio do Picapau Amarelo, avalio que está boa a forma como ele contou a história do personagem capturado pelos tupinambás em meados do século XVI no Brasil.

Sigamos com a leitura de Monteiro Lobato.

William


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. Aventuras de Hans Staden. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2022.


domingo, 8 de junho de 2025

Livro: O Picapau Amarelo (1939) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- E agora, Visconde? Que fazer?

O Visconde coçou as palhinhas do pescoço. Não achou remédio. Os sábios são criaturas indecisas; não resolvem nada." (Monteiro Lobato, O Picapau Amarelo, p. 148)*


O Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens fizeram parte de minha infância de alguma forma, pelo que me lembro. Acho que assistia às aventuras de Pedrinho, Narizinho, a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa através da televisão nos anos oitenta. 

Ao pesquisar a respeito de qual série televisiva tive contato na infância, vi que foi a da adaptação da Rede Globo em parceria com a TVE e MEC, exibida entre os anos de 1977 e 1986, período no qual eu tinha entre 8 e 17 anos.

Os livros, contos ou textos políticos de Monteiro Lobato eu nunca tinha lido. Essa edição que li foi uma dessas que compramos em bancas de livros expostas em corredores de shopping center. Foram 15 reais bem investidos, na minha avaliação. O que se faz hoje com esse valor? Pode-se comprar um livro de Monteiro Lobato!

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FÁBULAS E FAZ DE CONTA ENTRE CRIANÇAS E ADULTOS

Ao ler os livros de fantasia e mundo do faz de conta das fábulas infantis e infanto-juvenis que fizeram parte da infância de muita gente e avaliar o que virou o mundo humano nas primeiras décadas do século XXI, mundo no qual grupos de pessoas põem celular na cabeça para contatar extraterrestres para salvá-los de uma suposta ditadura esquerdista no Brasil, fico pensativo sobre a condição lastimável da espécie humana neste momento da história. 

A fantasia e faz de conta atualmente dominam a mente de adultos como, por exemplo, aqueles seguidores de uma seita messiânica liderada por um certo clã de políticos de extrema-direita no país. 

Acho que são diferentes as fantasias e abstrações criadas na literatura e outras formas de cultura e as manipulações de massa feitas pelos donos do poder e suas máquinas com objetivos de ganhos pessoais em detrimento de prejudicar as massas manipuladas.

Ou seja, vamos ler mais literatura e acessar mais formas de cultura e ficar menos nas redes sociais cujas donas são as corporações chamadas big techs que hoje atuam para mudarem o comportamento de seus usuários de forma criminosa.

É minha opinião.

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PRODUÇÕES CULTURAIS RETRATAM OS MUNDOS

Uma questão do mundo atual que se discute em relação à produção de cultura de outras épocas é sobre as qualidades e defeitos dos criadores das produções culturais em suas épocas e contextos. Escritores e outros intelectuais das artes são seres sociais e são sujeitos de suas épocas.

A linguagem e formas de tratamento no livro de Monteiro Lobato, escrito em 1939 no Brasil, podem ser consideradas hoje inadequadas, racistas e preconceituosas. Este leitor que leu o livro agora em 2025 acha isso.

No entanto, as obras literárias e culturais ao longo da história humana retratam o mundo e a visão das pessoas daquele mundo em qualquer tempo e lugar. 

Óbvio que cada pessoa é diferente em uma determinada comunidade humana. O ser humano Monteiro Lobato em 1939 pode ser que tenha sido racista, xenófobo, misógino, elitista ou qualquer outra forma de avaliar comportamentos e ideias das pessoas em 2025.

No entanto, achar que só Monteiro Lobato ou só fulano ou cicrano usava a linguagem que o escritor usa para criar romances ficcionais na primeira metade do século XX no Brasil é tapar o sol com a peneira, ou seja, não considerar aquele mundo no qual vivia o escritor. 

É isso que penso após décadas de vivência e contato com a educação e formação política que tive a oportunidade de acessar como ser humano que já mudou radicalmente de opinião e visão de mundo por causa do contato com outros tipos de pensamentos nas suas mais diversas formas de apresentação aos outros.

Mais complicado para uma criança ou adolescente do que ler um romance de Monteiro Lobato com linguagem da época do Brasil da primeira metade do século XX é uma criança ou adolescente em 2025 conviver no meio de gente que põe celular na cabeça em grupo no meio da rua pedindo intervenção de extraterrestres por qualquer que seja o motivo. O exemplo que essas crianças estão recebendo de seus adultos vai ferrar geral o mundo no qual todos nós vivemos hoje e amanhã.

Vou ler mais Monteiro Lobato.

William


*Post Scriptum: ia me esquecendo. Por que usei a citação acima sobre os sábios que não resolvem nada? No instante que li, me lembrei na hora dos debates que tinha quando sindicalista e acadêmico a respeito das diferenças abissais entre a academia e o mundo sindical na hora de definir reivindicações, estratégias e táticas e soluções para os conflitos entre capital e trabalho. Os sindicalistas, mesmo acadêmicos ou com bagagem intelectual, têm uma diferença enorme em relação aos professores e intelectuais que tanto admiramos: na hora do conflito, da greve por exemplo, os sindicalistas estão com milhares de pessoas na busca de solução para aquele conflito real nas ruas e nos locais de trabalho, o ideal passa longe da solução para aquele conflito. Aprendi isso e respeito muito essa condição do sindicalista, que busca achar solução intermediária que seja decidida pelo conjunto de trabalhadores envolvidos. Via de regra, o acadêmico vai espinafrar a solução encontrada porque ela não leva ao socialismo ou à mudança de condição social etc. Muitas vezes, greves longas sem acordos intermediários acabam por só negociar os dias parados, sem avanço algum para os trabalhadores.


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Picapau Amarelo. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


sexta-feira, 18 de abril de 2025

O privilégio da branquitude



Estava caminhando pela avenida. Ao ver uma viatura da milícia do governo fascista não senti medo de uma eventual abordagem de rotina. Sou branco.

Não consigo ser feliz em uma sociedade assim. Podem me chamar do que quiserem.

O privilégio da cor da minha pele pesou em meu percurso de vida desde minha primeira venda de horas de trabalho aos onze ou doze anos. 

Ao entrarem na sala de aula do Hortêncio Diniz e me escolherem para aquele emprego de ver TV e anotar os comerciais, num bairro pobre e de maioria preta ou parda, sem dúvida o racismo estrutural pesou para escolherem aquele menino branco "bonitinho".

Por mais esforçado que tenha sido em qualquer venda de minha força de trabalho, por quase quarenta anos, tenho claro que a cor branca de minha pele pesou no meu percurso de vida no Brasil. 

Meritocracia o caralho!

William 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Poema 24: Ao modo Mario Quintana


AO MODO MARIO QUINTANA


A vida foi assim:

Quando vi, era criança feliz no Jardim Ivana.

Quando vi, era criança infeliz no Marta Helena.

Quando vi, era ódio e vontade de morrer.

Me vi mudado, organizando o mundo.

Quando fui ver, estava cancelado, por quê, não sei.

Faria diferente se outra oportunidade tivesse?

Não! Fiz o melhor que pude do meu tempo.


William Mendes

15/01/25 (Diálogo com o poema "Seiscentos e sessenta e seis)


domingo, 2 de fevereiro de 2025

Poema 7: Envelhecemos


ENVELHECEMOS


Eu a via andando pela passarela

da estação de trem do Altino,

muito pequenininha que era;

crianças largadas ao destino.


Eu passava por ela indo para o sindicato.

Ela e a família mulambenta

iam e vinham brigando e brincando;

vidas sem oportunidades.

Quede o governo, o Estado?


O tempo foi passando... seguimos pelas ruas;

um quarto de século de encontros e desencontros:

"Tio, paga um lanche pra mim?"


A criança envelheceu rápido, sobreviveu como pode.

Quando a via pelas ruas, já no corpo adolescente,

na lembrança via a carinha da infância, sempre.


Hoje quando a vi, se levantando da calçada,

doeu fundo o coração ao ver aquela senhora.

Ia eu com minhas dores no quadril,

vinha ela toda encolhida e mulambenta.


Envelhecemos pelas ruas.

As oportunidades que tive

não teve aquela criança. 

Dois animais humanos

numa sociedade desumana.


Podemos mudar tudo isso.

A sociedade do amanhã depende

das oportunidades oferecidas 

para as crianças do presente.


William 

02/02/25


domingo, 19 de janeiro de 2025

Livro: Ismaelillo - José Martí



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


“Así mis pensamientos

Rebosan en mí vívidos,

Y en crespa espuma de oro

Besan tus pies sumisos,

O en fúlgidos penachos

De varios tintes ricos,

Se mecen y se inclinan

Cuando tú pasas—hijo!”

(Do poema "Penachos vívidos")


A leitura do primeiro livro de poesia de José Martí, dedicado a seu filho pequeno, apelidado de Ismaelillo, nos mostra um homem extremamente amoroso. Estamos falando de um combatente revolucionário, Apóstolo da Independência de Cuba. 

Eu ainda não conhecia uma obra literária e poética inteira dedicada a um filho pequeno. Achei os poemas belíssimos, amorosos, que expõem o humanista por trás do libertador de Cuba e dos povos escravizados. 

A primeira mensagem de crença no melhoramento das pessoas e num futuro melhor para a humanidade diz tudo sobre Martí:

“Hijo: 

Espantado de todo, me refugio en ti. 

Tengo fe en el mejoramiento humano, en la vida futura, en la utilidad de la virtud, y en ti. 

Si alguien te dice que estas páginas se parecen a otras páginas, diles que te amo demasiado para profanarte así. Tal como aquí te pinto, tal te han visto mis ojos. Con esos arreos de gala te me has aparecido. Cuando he cesado de verte en una forma, he cesado de pintarte. Esos riachuelos han pasado por mi corazón. 

¡Lleguen al tuyo! 

              [Nueva York, 1882]”


Fui encontrar essa crença na educação, na ciência e na solidariedade como bases para melhorar a sociedade humana em pessoas como Ernesto Che Guevara, Fidel Castro e Paulo Freire, por exemplo. 

Conheci algo mais.

(No momento em que escrevo, estou descrente de um mundo com humanos melhores, e pior ainda sobre a nossa Terra devastada)

Obrigado, José Martí!

William 


Bibliografia:

(de “Martí en su universo (Edición conmemorativa de la RAE y la ASALE): Una antología [Spanish Edition] por José Martí)


sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (47) - Mi caballero, José Martí



MI CABALLERO - JOSÉ MARTÍ


Por las mañanas

Mi pequeñuelo 

Me despertaba

Con un gran beso.

Puesto a horcajadas

Sobre mi pecho,

Bridas forjaba

Con mis cabellos.

Ebrio él de gozo,

De gozo yo ebrio,

Me espoleaba

Mi caballero: 

¡Qué suave espuela

Sus dos pies frescos!

¡Cómo reía 

Mi jinetuelo!

Y yo besaba

Sus pies pequeños,

Dos pies que caben

En solo un beso!


Do livro Ismaelillo, de 1882.

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COMENTÁRIO:

Hoje li o livro de versos de José Martí dedicado ao seu filho, que tinha por apelido Ismaelillo.

Durante a semana, fiquei vendo algumas crianças brincando na colônia de férias dos professores e pensei um pouco nas crianças em seu universo.

Cada criança é única. E com um pouco de reflexão não é difícil perceber como são diferentes umas das outras. Cada criança é um universo de possibilidades. E todas elas devem ser respeitadas em suas características individuais. 

A questão central na formação das crianças são as oportunidades, os estímulos, o ambiente onde se desenvolvem e o amor que é dado a elas. Além, é claro, da educação!

O poema que escolhi é de um grande educador, José Martí. Aqui, ele verseja momentos de amor com seu pequeno filho. 

José Martí, por suas ideias e por suas práticas, se tornou o Apóstolo da Independência de Cuba, sua pátria querida. Ele nos legou uma vasta obra com pensamentos sobre diversas áreas do conhecimento humano. 


William 


Bibliografia:

(de “Martí en su universo - Edición conmemorativa de la RAE y la ASALE: Una antología [Spanish Edition]” por José Martí)


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natais - 1982



Refeição Cultural

Osasco, 24 de dezembro de 2024. Terça-feira.


SENTIMENTOS E IMPRESSÕES

Naquele minuto no farol me senti culpado por toda a desgraça humana... A mãe com a criança no farol da Vila Yara me azedou o dia. Deu um misto de raiva, tristeza, impotência, desesperança no ser humano. Vergonha da minha espécie animal.

Tenho sentido uma vontade imensa de não contatar nenhum ser humano nos últimos dias. E sei que a sensação é uma espécie de sintoma de algo psicológico - uma estafa qualquer. Não posso permitir que essa bobagem me impeça de encontrar pessoas quando aparecer a oportunidade. Mas posso selecionar encontros.

Racionalmente, tenho conhecimento acumulado para saber que sou um ser social, que minha espécie é absolutamente dependente de relações humanas para tudo. Basta sentir uma dor ou sofrer um acidente que veremos se somos seres autossuficientes ou não. 

Natal traz as tradições e costumes culturais que tentam permanecer mesmo tendo mudado tudo no mundo. Confraternizar com um grupo de pessoas, reunir para comemorar a data ou o acontecimento (Jesus): tradições do período natalino no Ocidente.

Entra ano sai ano a sociedade humana tenta manter essa tradição associada ao objetivo principal da data: vender coisas, circular dinheiro, ostentar poder, felicidade e sucesso. Jesus... usam o nome dele para defender cada merda, que fala sério! (faz arminha...)

Quem não tiver dinheiro como as famílias nas ruas das cidades, que se dane. Não se esforçaram ou Deus não olhou para elas. Fôssemos urubu, barata ou ratazana não explicaríamos as coisas cotidianas assim. Abstrações são coisas do animal humano. Ideologias. Naturalizar o que não é natural.

UBERLÂNDIA 

Como vislumbrei ao longo dos últimos dois anos nos quais comecei a escrever esta série de textos sobre o Natal em minha família, não nos reuniremos com a família lá de Uberlândia. Mas fico contente de saber que a família lá estará reunida hoje.

Fui visitar os pais e a família dias atrás. Aproveitei com consciência cada instante que passei com minha mãe e meu pai. O arroz com feijão na presença de minha mãe por cinco dias foi vivido intensamente. Foi um instante precioso. Nunca se sabe do amanhã.

Como se diz na linguagem corrente, o "corre" de todo mundo não permitiu sequer que os sobrinhos comecem comigo uma pizza... Pedi as pizzas, mas foi minha mãe, meu pai e eu. A gente percebe as mudanças na vida e a vida deve seguir. Em cinco dias, vi por minutos familiares queridos. Enfim, são os tempos.

OSASCO

Voltando aos instantes da manhã de hoje, na Vila Yara, no mercado local, pensei em comprar uma ou duas cervejas. Eu tinha o hábito de tomar em casa uma latinha para relaxar em alguns dias do mês. Depois de ter na família problemas com álcool, nunca mais me senti à vontade para tomar socialmente uma cervejinha. Tomo com conhecidos, mas hoje não quis pegar a cerveja.

CULTURA DO CANCELAMENTO 

Tem uma coisa que está me matando, me fazendo refletir sobre abandonar tudo que tenha relação com movimento social: a cultura do cancelamento na esquerda, que virou uma arma tão letal que eu não consigo entender onde está a inteligência das pessoas que são de esquerda. 

Sermos manipulados pela cultura do cancelamento é algo tão estúpido que qualquer idiota deveria perceber que há um projeto para foder qualquer liderança de nosso campo que se destaque na luta contra nossos inimigos. 

Quer eliminar uma liderança de esquerda? Faça uma acusação de assédio sexual, pedofilia, corrupção etc. Pode ser anônima a denúncia. No dia seguinte, os "nossos" já não se contaminarão com o acusado... cancelado.

A gente do nosso lado vai se lamentar... dizer que está arrasada com a denúncia... e que "vamos esperar a apuração dos fatos". Pronto. Cancelado! A esquerda brasileira não aprendeu absolutamente nada com a Lava Jato. Onde está a inteligência da esquerda?

Estou azedo, estou amargo. Odeio injustiça desde quando tinha treze ou quatorze anos e passei a entender a injustiça de um garoto trabalhar em serviços de merda e humilhantes por causa da miséria social imposta pela burguesia desgraçada do país e do mundo.

Eu fui vítima de lawfare com carta anônima e passei o mesmo que outras lideranças de esquerda estão passando com esses processos de assassinato de reputações e histórias de militância e tenho raiva do comportamento bovino da esquerda em não defender os seus e simplesmente participar do processo de cancelamento.

De certa forma, a cultura do cancelamento só comprova a leitura que eu tenho das relações utilitaristas que predominam hoje na sociedade humana, inclusive nos círculos de maior proximidade nas relações. Se a pessoa tem alguma utilidade para a outra, beleza. Não tem utilidade, desconsidera... cancela.

Temos que refazer as relações humanas na sociedade. É o que eu avalio.

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NATAL DE 1982

O Natal pode ter sido ainda na casa da Dona Nenzinha ou já na casa alugada no quarteirão de cima, na Av. Quilombo dos Palmares, Marta Helena. Acho que mudamos 3 vezes em 3 anos. 

Eu já tinha mais de 13 anos nesse Natal. 

Meu pai tinha um bar, a Choupana, que vendia bebidas, lanches, salgados e tinha uma mesa de pebolim. 

Eu e ele éramos bons no pebolim porque se perdêssemos não entrava dinheiro no caixa (mas ganhar do Ruizinho era foda!). 

O bairro era de gente muito simples e tinha uma molecada e adultos muito violentos, algo como gangues mesmo. 

Eu já andava nas ruas como todo mundo da minha idade, tinha os bailinhos (chamados de "brincadeira"), e se a gente não fosse amigo ou conhecido do pessoal, a gente era inimigo... 

Nunca me esqueço da casa na Quilombo dos Palmares por causa do milharal que plantamos na frente e por causa de um tênis azul que me roubaram do varal. 

Como o ladrão era um cara foda do bairro, tive que conviver com o cara usando o meu tênis...

A música era algo que marcava os momentos de nossa vida nos anos 80. 

Nessa época surgiam bandas nacionais como Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho e, no cenário pop internacional, Michael Jackson lançava o álbum Thriller e Madonna aparecia pro mundo com seu 1º single Everybody

Eu adorava música som sobre som, e o tio Jorge era quem nos apresentava as músicas antigas "chonadas". 

MUNDO

O ditador da vez era o Figueiredo e na Argentina teve a Guerra das Malvinas. 

O Sílvio Santos lambia cada presidente de plantão. Nunca me esqueci daquelas chamadas do canal dele "A semana do presidente". Que merda, isso! Tive que crescer vendo essa dobradinha entre os endinheirados que exploravam a gente e os fdp das casernas militares.

O ditador de plantão da Argentina, Galtiere, para lançar uma cortina de fumaça sobre a grave crise econômica, social e política que predominava no país após anos de desgoverno militar, inventou de invadir as Ilhas Malvinas para unificar o povo argentino, já que o tema era de grande apelo popular e patriótico.

O resultado foi trágico. Centenas de jovens argentinos faleceram numa guerra de poucos dias em uma luta desproporcional de um exército armado e preparado contra um exército sem armamento e condições adequadas.

Mesmo sendo criança, me lembro das notícias na televisão sobre a Guerra das Malvinas. Lógico que só adulto fui entender melhor o quanto a junta militar foi fdp e responsável pela morte de jovens argentinos. 

A sacanagem dos ditadores ao menos serviu para pôr fim à ditadura e para a volta da democracia pouco tempo depois.

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Enfim, essa foi mais uma reflexão em período natalino.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Natais - 1981


Meu minuto no paraíso: Parque do Sabiá.

Refeição Cultural

Uberlândia, 16 de dezembro de 2024. Segunda-feira.


Vim visitar meus pais e familiares alguns dias antes do Natal deste ano. Nossa porção paulista não virá a Minas Gerais como fizemos nos dois últimos anos.

Felizmente, pude rever a abraçar pais, irmã e cunhado, sobrinhos e família, tia e primo. Tenho muitos familiares na cidade, mas a correria dos afazeres que tento encaminhar quando venho aos meus pais dificulta fazer outras visitas a tios e primos. Mas sei que estão bem, é o que nos deixa feliz.

Vim pensando muito nas questões da temporalidade da vida e no instante presente, que é único. Estou ainda com a frase que ouvi de uma entrevista antiga de Fernanda Montenegro, ao responder sobre medo da morte e dizer que tem pena de morrer, porque viver é poder ver o céu azul, estar com pessoas que se ama, ter acesso a conhecimento e cultura etc.

É isso, querida Fernanda Montenegro, pode acreditar que ontem, ao passar por uma floreira cheia de borboletas coloridas em festa, sob um céu azul intenso, parei e fiquei lá vários minutos VIVENDO...

Viver é a oportunidade de ver um céu azul e 
flores e borboletas coloridas num instante único.

Outra coisa que me preocupa sobre a efemeridade da vida é a questão da memória, da essência do que nós seres humanos somos, nossas memórias e nossa identidade, guardadas em nossa mente, em nosso cérebro de bilhões de neurônios que nos fazem ser o que somos, a partir do aculturamento que cada um de nós teve ao longo da vida.

Tenho um desafio enorme como cada semelhante nosso: viver o presente e o amanhã, caso ele exista para mim.

Honestamente, avalio que as relações humanas estão ruins, em todos os âmbitos sociais, aqui e acolá, e não podemos desistir de mudar o comportamento humano individualista, intolerante e sem paciência alguma para a alteridade e a diversidade de pensamentos e características pessoais. A mesmice em qualquer espécie é a morte dela.

Tenho tanta coisa nas ideias para falar sobre isso que vou fazer o contrário, não vou rabiscá-las aqui.

Conversando com minha mãe ontem, só poderia dizer que ambos lamentam nossas experiências e pequenas sabedorias não servirem para nada para as pessoas que amamos. A gente vai se cansando de tentar passar alguma coisa de boa que aprendemos por sobreviver neste mundo duro que sobrevivemos. Ninguém quer saber de nossa opinião, nem no ambiente familiar, nem nos grupos onde um dia convivemos socialmente.

Eu tenho consciência sobre as coisas do mundo. Burro não diria que sou. Sei do meu lugar no mundo. E sei que no momento atual desse mundo nenhum de meus conhecimentos e acúmulos tanto pessoais como coletivos serve para nada, sequer para as pessoas mais próximas a mim. Isso é um fato e a vida de todo mundo segue neste minuto e no seguinte, até não seguir mais.

Enfim, tenho a impressão nesta véspera de mais um Natal que há um espírito de pouca solidariedade entre as pessoas, tenho a leitura que algumas daquelas recomendações do cristianismo estão fora de moda: o perdão de forma gratuita, acolher a quem pensa diferente, não querer ao outro o que não se quer para si mesmo e vários ensinamentos que o homem Jesus Cristo pregou em sua passagem por este mundo.

Eu sou ateu há mais de duas décadas, mas por três décadas fui criado e aculturado na ambiência do cristianismo da igreja católica. Às vezes, acho que sou hoje mais dogmático e seguidor das palavras de Jesus do que muita gente que se diz religiosa e só usa o nome de Deus e do Cristo para arrotar ódio, violência, vingança, individualismo, intolerância e manifestações demoníacas do tipo, caso houvesse demônios por aí.

Enfim, estou procurando equilíbrio, algum sentido para a vida minha e de todos nós, e acredito na inteligência humana e na educação e formação política. Não sou determinista. Nós podemos criar e mudar tudo porque é da nossa natureza humana fazer isso.

Sigamos tentando viver, contribuir para o mundo e as pessoas no mundo e lutando por salvar o próprio mundo, a natureza onde todos nós vivemos.

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NATAL DE 1981

Nosso Natal deve ter sido em Uberlândia (MG), para onde nos mudamos desde o início do ano anterior. 

A gente morava numa casa de fundo na Av. Comendador Alexandrino Garcia, no Marta Helena. Na casa da frente, a proprietária era a Dona Nenzinha, benzedeira da região. 

Me lembro que ela me dava uns trocados para copiar rezas em folhas de papel para ela dar aos fiéis. Ela me benzia de "espinhela caída". 

Fiz da 5ª a 8ª série na E. E. Hortêncio Diniz. 

Foi um tempo de mudanças para mim. Me lembro da casa pequena e do quintal com pés de frutas. 

É incrível como meu mundo de criança mudou! Tirando bolinhas de gude, que segui jogando e ganhando latas de bolinhas - que em MG se chamavam bilocas -, eu não empinei mais pipas porque ninguém brincava disso e de outras coisas que fazíamos em São Paulo. 

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Mundo

Tenho uma leve lembrança dos atentados que Ronald Reagan (EUA) e o Papa João Paulo II sofreram em 1981. Eles foram baleados. 

Ainda na política, sei que os desgraçados dos milicos iriam promover um atentado num festival de MPB para culpar a resistência civil e democrática na véspera do dia dos trabalhadores, mas se ferraram, a bomba explodiu no colo de um dos fdp. 

O evento é conhecido como Atentado do Riocentro.

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Os milicos em 2022 - A história no Brasil é um treco bem jabuticaba, só aqui mesmo. Décadas depois de impunidade e anistias a fdp golpistas, não é que meses atrás, uns milicos de merda, junto com um "presidente" de merda (ele é cagão mesmo), organizaram um novo golpe de Estado até com listinha de assassinatos de autoridades da República! Iam explodir o Aeroporto de Brasília, matar Lula, Alckmin e um ministro do STF etc. Esse mundo é um lugar velho... as coisas são antigas e vêm de longe.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.