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sábado, 16 de dezembro de 2023

Lembranças - Capítulo 13



Refeição Cultural

Osasco, 16 de dezembro de 2023. Sábado de calorzão.


CONHECI DE PERTO O ÓDIO E A FÉ

"Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto - inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas..." (Grande Sertão: Veredas,
Guimarães Rosa)


Amig@s leitores, sempre que tiverem oportunidade tratem com respeito e carinho os trabalhadores e trabalhadoras que prestam qualquer tipo de serviço a vocês, existem trabalhos duríssimos que alguém faz para nós. Por trás de um trabalho duro realizado para nós, existe um ser humano.


OS ÓDIOS DO MUNDO

Me lembro de pegar o balde, panos, sabão, e mais alguns itens de limpeza e sair a pé de manhã do bairro Marta Helena para atravessar a BR e ir para o bairro Umuarama, onde moravam os ricaços naquelas casas enormes com gramado na frente e carrões nas garagens.

Eu batia palmas ou apertava o botão da campainha e esperava para ver se alguém atendia. 

Era o início dos anos oitenta, nós estávamos em Uberlândia havia pouco tempo, vindos de São Paulo.

Às vezes, dava sorte e a pessoa que atendia era educada e me respondia com respeito quando eu me oferecia para lavar o carro. Não era o jeito mais comum. Mas de vez em quando aparecia alguém e perguntava se eu dava conta de lavar e se lavava direito, e quanto eu cobrava para lavar o carro.

A parte que a gente guarda no fundo do coração ou da alma ou da memória são as agressões e humilhações gratuitas... essas são foda! Como esquecer aquilo? Alguns fdp humilhavam a gente só por tocar a campainha e perguntar se não gostariam que lavasse o carro.

Eu me virava para fazer um serviço bem feito. Eu mal alcançava o teto dos carros. Inventava jeitos de limpar em cima da funilaria. 

Esse foi um dos primeiros trabalhos que me lembro de fazer na infância.

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Me lembro que eu rezava e pedia a Deus e ao filho de Deus e a toda a hierarquia dos céus da religião católica para que o telefone da drogaria não tocasse e, se tocasse, eu rezava para que a entrega não fosse longe ou em alguns lugares foda de entregar o remédio.

Trabalhar naquela drogaria da Rodoviária de Uberlândia foi uma experiência diferente de alguns serviços braçais que já havia feito e foi uma experiência dura também na minha infância. Ainda me lembro da sensação de cansaço e extenuação física após longas entregas.

Minha bicicleta era uma daquelas dos anos oitenta, pesada pra burro se compararmos com as bikes modernas de hoje. 

De memória, me lembro dos nomes de bairros que disparavam as batidas do coração por saber que a entrega seria um sofrimento só: Luizote de Freitas, Custódio Pereira, Segismundo Pereira, Santa Luzia, Cruzeiro do Sul... longe e muita subida para ir até lá.

Confesso que chorava quando o trabalho que fazia era um martírio. Chorava mesmo! Me lembro que chorava de raiva. Era pequeno, mas tinha um sentimento de que aquilo não era justo. Aqueles anos foram me dando um ódio do mundo, de gente endinheirada, um ódio esquisito.

Se fuçar no fundo da memória, consigo me ver ou me imaginar chorando e pedalando aquela bicicleta na chuva indo fazer uma entrega do outro lado da cidade... cresci odiando o "trabalho".

Imaginem vocês como eram os anos oitenta. Os atendentes da drogaria me ensinaram a dar injeção. Eu tinha de quatorze para quinze anos. Aprendi a dar injeção no músculo, intramuscular, e nas veias, intravenosa. 

A frase para ensinar a aplicar injeção na bunda era a seguinte: divide a banda da bunda em quatro partes e aplica no quadrante superior externo. Não tem erro... Puxa um pouquinho o êmbolo antes para ver se não pegou veia e pode aplicar o líquido.

Não era comum aplicar injeção muscular no braço, doía mais, diziam. Também, é só pensar que a gente aplicava aquelas injeções fortíssimas de penicilina e benzetacil. Numa ampola era o pó, na outra o líquido. A gente misturava e aplicava na vítima. Amig@s leitores, eu não era uma "criança" porque a gente tinha que ser adulto cedo...

Apliquei muita injeção depois de andar quilômetros de bicicleta pelas ruas de Uberlândia. O moleque chegava suado, bufando, lavava a mão na casa da vítima e aplicava o remédio em crianças, adultos, idosos, bunda ou braço. E eu era bom para achar veia quando a injeção era intravenosa.

Por ser bom no que fazia, os clientes da drogaria pediam para eu ir... e a raiva que me dava quando era longe pra caralho?

Esse foi um dos trabalhos que me fizeram dormir como uma pedra ao me deitar na cama.

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Me lembro que dos trabalhos pesados e imundos que fiz na minha vida, um dos que me mudaram para sempre foi o de ajudante de encanador. É difícil definir porque embruteci tanto com aquele trabalho. Já fiz um texto sobre a dureza que foi meu primeiro dia de trabalho como ajudante de encanador (ler aqui)

Dias atrás, conversando em casa, o que me veio à memória foi o ódio que senti de uma mulher entojada dona do imóvel onde eu estava trabalhando quando ela soube que algum peão havia usado um vaso sanitário já instalado - a casa ainda estava em obras - e aquela desgraçada mandou o seu Joaquim, meu chefe, retirar o vaso e trocar por outro só porque ele foi usado por um trabalhador da obra... 

Me lembro que na confusão ela ainda decidiu mudar o vaso de lugar e eu tive que quebrar concreto para realocar a porra do vaso daquela sujeita. Na época, os instrumentos de trabalho eram ponteiro, talhadeira e marreta. Não tinha cortador de concreto como hoje.

Esse trabalho é inesquecível para mim, juro para vocês! E o seu Joaquim era um velhinho muito gente boa. Nunca tive problema com ele. Fico tentando me lembrar se o que me marcou foi o quanto era difícil quebrar concreto ou se era mexer em esgotos das casas das pessoas. Minha mão frágil se tornou uma mão incrivelmente grossa e forte.

Me lembro uma vez, décadas depois, de uma bancária da oposição sindical à minha corrente política me tirando (sacaneando) num bar ao dizer que minha mão parecia mão de moça... tive que lembrar a ela que eu era bancário, não era ajudante de encanador... as pessoas não sabem nada da vida dos outros!

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A última lembrança de um trabalho que me marcou e que me levou a ter um conceito muito ruim sobre o "trabalho" foi quando eu trabalhei numa empresa de alimentos, uma fábrica e distribuidora de palmitos, ainda nos anos oitenta, eu com uns 17 anos de idade, já vivendo em São Paulo.

Foi um período duro a começar pela dificuldade de chegar até o depósito onde trabalhava. Os ônibus em meu bairro só passavam lotados no ponto onde eu ficava e fui um dos milhares de passageiros que por muito tempo andou pendurado em portas de ônibus por não conseguir entrar no veículo por estar lotado. A eleição de Luiza Erundina (PT) a prefeita de São Paulo melhorou minha vida de passageiro. Nunca me esqueço disso!

A lembrança ruim não é o quanto é cansativo o trabalho pesado de descarregar caminhão com toneladas de caixas de palmito ou mesmo o trabalho de ficar o dia inteiro pela cidade, andando por corredores escorregadios e subterrâneos de restaurantes chiques entregando o produto. Essa parte é rotina de qualquer ajudante geral de qualquer coisa.

O que me marcou profundamente foram os dias nos quais me colocavam num canto isolado do depósito para abrir e esvaziar latas estufadas de palmito, palmito estragado, podre. A justificativa para aquele trabalho impossível e inacreditável era que a firma não poderia jogar as latas fora daquele jeito porque se alguém abrisse, consumisse aquilo e morresse, a empresa seria penalizada. Ou seja, eu poderia me expor ao botulismo e outras contaminações do tipo, outras pessoas não.

É provável que eu tenha um olfato ruim por causa dos trabalhos com esgoto e por esse de abrir lata de palmito podre. Como o ser humano tem um sistema nervoso altamente adaptável, provavelmente meu cérebro bloqueou parte do meu olfato para sobreviver àquelas condições insalubres nas quais trabalhei na adolescência.

Sentado no chão, eu tinha que fazer um furo na lata primeiro e aí saía um ar podre zunindo com um cheiro insuportável. Após essa etapa, eu abria a lata e jogava o conteúdo fora. Ao final do dia, dos dias de palmito podre, parecia que o cheiro nunca mais sairia de mim. Tomava banho e tinha a impressão que eu estava cheirando a palmito podre... que trampo foda foi aquele!

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A FÉ QUE EU TINHA FOI A LIGA PARA PERMANECER VIVO

Essas lembranças são sobre o ódio que senti por muito tempo em minha vida, um ódio geral, não era de uma pessoa ou algo específico, era uma raiva profunda por achar o mundo um lugar injusto, ruim.

A citação que abre esse texto, do personagem Riobaldo Tatarana, de Grande Sertão: Veredas, fala sobre o ódio que aprisiona a gente, que faz a gente virar escravo daquele(s) ao(s) qual(is) odiamos. É uma reflexão profunda do jagunço aposentado. Tenho claro que não devemos odiar ninguém, nem as piores pessoas do mundo, como vimos no poder no Brasil durante o último golpe de Estado. Odiar é ruim para quem odeia.

Mas essas lembranças também são sobre as diversas concepções de religião que experimentei até uns 30 anos de idade. Fui aculturado e feito gente no ambiente católico de minha família. Aliás, católica é a base religiosa da ampla maioria do povo brasileiro ao longo do tempo - colônia, império e repúblicas. Hoje, a igreja católica vem perdendo espaço no Brasil para as vertentes neopentecostais, muitas delas mais parecidas com empresas de manipulação da fé alheia que espaços de amor ao próximo e solidariedade. 

Além da formação católica, também vivenciei as experiências religiosas dos espíritas e das religiões de matriz africana. É inegável que a religiosidade brasileira por muito tempo foi uma mescla de diversas crenças e misticismos. Costuma-se chamar essa mescla de espiritualidades de sincretismo religioso. 

A gente cresce acreditando em Deus, é batizado, faz primeira comunhão (eu não concluí a minha), vai às missas e se casa na igreja e também vai ao centro espírita tomar um passe ou ao terreiro de umbanda ouvir conselhos dos guias espirituais e pedir favores. Ora acreditamos que vamos para o céu, ora acreditamos que temos diversas vidas e voltamos para cumprir missões na terra etc.

Eu fui muito religioso, intenso na fé como tudo que já fiz na vida. Me persignava o dia inteiro. Frequentava as missas, estudava os textos da bíblia e de outras matrizes religiosas. A religião teve um peso importante na formação do meu caráter e da minha ética. 

EU SEI O QUE SENTE UMA PESSOA RELIGIOSA

Em minha busca atual por compreensão da vida, do mundo e do comportamento das pessoas, tento o tempo todo me colocar no lugar das outras pessoas para facilitar meu esforço na interação com os seres humanos, para insistir em ser um ser social ou sociável, de relações sociais com os outros, com a alteridade, com o diferente, dentro da compreensão de que não somos nada sozinhos, sem a relação com os outros.

E revendo minha vida nas primeiras décadas, tenho a consciência de que a concepção religiosa de mundo teve o seu papel no meu percurso pela existência. Teve sim. Para o bem e para o mal.

Quando eu não suportava mais a vida ruim, injusta, quando estava com raiva, com medo, a fé numa outra vida, já que a vida material era uma bosta, me dava uma base de apoio para o momento seguinte, para o sobreviver mais um dia. Acreditar que em outra vida as coisas poderiam ser melhores é a maior das criações e explicações de mundo que o animal homo sapiens desenvolveu ao longo de sua história na Terra. Não tenho dúvida sobre isso.

O que me lembro sobre ódio e religião no meu percurso de vida me faz refletir muito sobre as pessoas ao meu redor neste momento de minha vida e do mundo.

Aconteceu comigo o inverso do que aconteceu com Saulo de Tarso, o Paulo evangelizador do cristianismo. Ele passou de perseguidor dos cristãos a um dos maiores divulgadores da palavra de Cristo no mundo antigo. Li livros sobre Paulo. 

Eu vivi um período insuportável de fúria com vinte e tantos anos e rompi com qualquer tipo de crença mística. Óbvio que à medida que vivia e que estudava, também questionava as contradições dos dogmas religiosos em geral. O fato é que perto dos trinta anos, minha leitura de mundo não comportava mais a crença religiosa como explicação da vida e do mundo. 

Ficou o respeito ao momento de cada um e cada uma, à visão de mundo de cada pessoa. O que sei é que às vezes sou mais dogmático e seguidor dos princípios cristãos que muita gente que se diz religiosa e praticante. Os Mandamentos estão cristalizados no fundo do meu ser...

Compreender a visão de mundo das pessoas, visões diferentes da minha, é algo básico para uma pessoa como eu, que já mudou tanto, já experimentou tanto, e que ainda procura por pertencimentos, por motivações, que precisa encontrar causas a se engajar.

Cansei por hoje, essas memórias são importantes para o processo de busca de sentidos e compreensões, mas elas nos cansam também.

Abraços às leitoras e leitores.

William


Post Scriptum: a leitura do capítulo anterior desta série de textos de lembranças pode ser feita aqui.


terça-feira, 30 de junho de 2020

Trabalhadores do mundo, uni-vos!





Sobre a greve dos entregadores de aplicativos em 1º de julho

Ao ler uma matéria da Rede Brasil Atual (reportagem no fim do comentário) sobre a greve dos entregadores de aplicativos, marcada para amanhã, quarta-feira, 1º de julho, e tomar conhecimento das condições de trabalho e o nível de super exploração a que estão submetidos milhões de pessoas, a vontade que temos é de chorar. É muita desgraça na nossa cara, no dia a dia e parece que não tem nada a ver conosco!

Mas vamos aos fatos. Chorar não vai sensibilizar os seres humanos exploradores que estão por trás da super exploração dos trabalhadores. Só a luta, só o incômodo, só a mobilização e o transtorno na vida ou nos lucros dos caras que lucram com a desgraça dos outros é que pode gerar alguma condição de mudança de realidade. 

Os explorados precisam se unir e lutar. Às vezes, viver sob certas condições de miséria e sofrimento nos faz até pensar se vale a pena viver. E vale! A vida é um amanhecer de possibilidades, de oportunidades e desafios. Temos que lutar pela vida, pela vida digna. Pela vida com justiça para todos. Com igualdade de oportunidades e tolerância entre as pessoas.

Leiam a reportagem e vejam se alguém decente poderia deixar de apoiar a greve e as reivindicações desses trabalhadores na luta por uma remuneração digna, direitos básicos, condições de trabalho. Nós temos que interromper essa super exploração que vivemos nesse momento de nossa história humana.

A intenção dos poucos humanos que detêm quase tudo, detêm pela força, pela herança, pela manipulação, pela ideologia - o chamado 1% e os lacaios que os mantêm onde estão no topo da cadeia de exploração -, é igualar toda a humanidade por baixo, querem que não existam mais profissões regulamentadas, direitos trabalhistas, previdenciários, sociais, civis, políticos, direitos humanos, para o restante da população fora das bolhas bilionárias nas quais eles se fecham. Vamos aceitar isso?

Não dá! Não dá mesmo! O povo tem que reagir!

William

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Desemprego levou a aumento da procura pela função,
derrubando os rendimentos. Foto: Roberto Parizotti.

Entregadores de aplicativos fazem greve nesta quarta-feira contra exploração


Queda no valor das entregas e fim dos bloqueios indevidos estão entre as principais reivindicações. Consumidor pode ajudar boicotando os aplicativos

Matéria de Tiago Pereira, da RBA. *


São Paulo – Para barrar a sanha dos aplicativos que se alimentam da exploração, entregadores prometem parar as atividades nas principais cidades do Brasil nesta quarta-feira (1º). A greve deve alcançar outros países da América Latina, como Argentina, Chile e México, já que as mesmas empresas estão presentes em diversos locais.

As principais reivindicações são o aumento do valor mínimo das entregas e dos pagamentos recebidos por quilômetro rodado. Eles querem o fim dos bloqueios indevidos. Por outro lado, também consideram injustos os sistemas de pontuação das plataformas.

Em meio à pandemia, pedem ainda o custeio pelas empresas dos equipamentos de proteção individual (EPIs) – luva, máscara, álcool em gel – e licença remunerada para os trabalhadores que foram contaminados. Além disso, os entregadores reivindicam benefícios, como vale-refeição e seguro contra roubo, acidente e de vida.

Em São Paulo, os entregadores marcaram pontos de encontro, às 9h, em cada zona da cidade, na região central, e também em Barueri, Osasco, Embu das Artes e no ABC. Primeiramente, devem percorrer as respectivas regiões, buscando a adesão dos demais colegas. Na sequência, se encontrarão às 14h, na Avenida Paulista, onde realizam uma manifestação.

Posteriormente, ainda na parte da tarde, os entregadores se dirigem até a Ponte Estaiada, na Marginal Pinheiros, zona sul da cidade. Além de “brecar” as entregas do jantar, eles querem que a TV Globo faça a cobertura da manifestação, no horário do jornal local.


Competição

Ifood, Rappi, James, Uber Eats, por exemplo, se definem como empresas de tecnologia, sem vínculos com os trabalhadores. Quando surgiram, as remunerações satisfatórias e a flexibilidade da jornada eram os principais atrativos. Contudo, com o aumento do desemprego e da informalidade, muitos encontraram o seu ganha pão nessa função. Por outro lado, com maior oferta de mão de obra, a concorrência aumentou. Consequentemente, o valor pago aos entregadores caiu.

Pesquisa on-line realizada pela Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que 68,9% dos entregadores tiveram queda nos ganhos durante a pandemia. Antes, 17% diziam ganhar em torno de um salário mínimo (R$ 1.045). Agora, são 34%, um terço do total. Por outro lado, caiu para 26,7% a proporção dos que afirmavam ganhar acima de dois salários mínimos. Antes da pandemia, eram mais da metade (51%).


Insatisfeitos

A reportagem ouviu relatos de três entregadores para saber mais sobre as condições que levaram à greve. As insatisfações não são recentes. Para além da inexistência de direitos, eles reclamam que não recebem qualquer tipo de apoio das plataformas. Agora, com o aumento dos riscos para a saúde e a queda nos rendimentos, a situação se tornou insustentável.


“Motoca”

O entregador conhecido como Mineiro (preferiu não se identificar para evitar eventuais punições) conta que eles se articulam por meio de grupos de WhatsApp. As conversas com vistas à paralisação começaram há cerca de um mês. Ele tem 30 anos, e trabalha há três como entregador de aplicativo. É morador do Parque Bristol, zona sul de São Paulo, mas se desloca fazendo entregas por toda a região metropolitana.

Na sua percepção, o número de “motocas” aumentou cerca de três vezes nos últimos anos. “Se você parar num semáforo aqui, em São Paulo, tem no mínimo 20 motos naquela área reservada. Dessas 20, 19 são entregadores, entendeu?”. Com o aumento da concorrência, o valor pago pelo quilômetro rodado caiu de cerca de R$ 1,5 para R$ 0,93. “Eles estão de brincadeira com a nossa cara. A gasolina aumentou de novo. E a gente não tem condições de ficar bancando.”

Ele também reclama dos bloqueios indevidos. “Quando você é mandado embora de uma empresa, tem que ter uma justificativa. Mas não, eles simplesmente te bloqueiam. Se a pessoa fica doente, eles te bloqueiam. Sofre um acidente, te bloqueiam. Se o cliente reclama, a gente não tem defesa nenhuma, porque simplesmente não tem como falar com os aplicativos.”

Durante a pandemia, Mineiro diz que uma das empresas passou a oferecer máscaras e álcool em gel por apenas dois dias. Mesmo assim, só depois que cerca de 400 entregadores decidiram protestar. Sobre o auxílio para os trabalhadores contaminados, ficou na promessa. “Nunca foi repassado. Até hoje, o único auxílio que eles receberam foi um bloqueio na tela, sem justificativa.” Por esses motivos, ele espera uma adesão à paralisação de “pelo menos 98%” dos colegas.


Ex-empreendedor

Rafael Ferreira, de 33 anos, mora na região da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Ele conta que começou a fazer entregas quando era sócio de um restaurante. Com o fim da sociedade, passou a se dedicar exclusivamente aos aplicativos. No início, há cerca de dois anos, trabalhava “no máximo seis horas por dia”, seis dias por semana. Era o suficiente para garantir o sustento da família.

“Agora, só saio da rua quando bato a minha meta em dinheiro. Pode ser 9 horas da noite, 10, 11. Num dia bom, acabo mais cedo. Não é uma coisa fixa. Mas, com certeza, é preciso trabalhar bem mais hoje para sobreviver do que antigamente.”

Rafael relata que trabalhava apenas com o Ifood. Hoje, está cadastrado em seis aplicativos de entrega. Em um deles, o Uber Eats, foi impedido de trabalhar. “Não me deram a menor justificativa. Simplesmente me bloquearam.”

O pagamento inferior a R$ 1 por quilômetro rodado torna a função praticamente inviável, segundo Rafael. Até porque as empresas não pagam pelo deslocamento até a coleta do produto. Também reclama da falta de infraestrutura para os entregadores, que não contam com elementos básicos, como banheiro e local para fazer as refeições.

Ele lembra que são empresas de entrega, mas que não têm uma única motocicleta. “Tomara que, no dia 1º, os entregadores consigam mostrar a sua força”, afirma. Mas ele teme que muitos colegas “furem a greve” para se beneficiar das melhores taxas oferecidas no dia.


Pedalando

Os jovens que fazem entregas com bicicletas recebem valores ainda menores. Adriano Negocek, de 23 anos, é estudante de Física na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Morador de Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba, ele pedala quase todos os dias cerca de 10 quilômetros até o centro da capital, na hora do almoço. Começou a trabalhar como entregador, no final de 2018, após ser demitido de seu emprego anterior. Apostou na flexibilidade da jornada para poder conciliar o trabalho com os estudos.

Ele conta que tirava, em média, R$ 60 por dia. Agora, durante a pandemia, o rendimento diário caiu para menos de R$ 20 reais. “O valor caiu muito, não só por conta da pandemia. Não sei se é menor o fluxo de pedidos, ou se é pela concorrência que aumentou.” Por conta das entregas, Adriano também revela o receio de contaminar a sua mãe, que é do grupo de risco.

Ele almoça no restaurante universitário, mas sabe que a alimentação é um problema para a maioria dos seus colegas entregadores. Seja pelo preço cobrado pelos restaurantes na região central, onde é maior a demanda por entregas, seja pela falta de um local adequado para aqueles que levam marmita. Adriano também teme que alguns colegas entregadores não participem da greve, com medo de sofrerem bloqueios posteriores.


O consumidor e a greve

Os consumidores também podem ajudar a luta dos entregadores. Acima de tudo, eles solicitam que as pessoas não peçam comida pelos aplicativos neste dia. Se não puderem cozinhar, que se dirijam diretamente aos restaurantes. Além disso, pedem que os consumidores avaliem com a menor nota esses aplicativos, nas lojas virtuais. E deixando também comentários para denunciar a exploração dos trabalhadores.


Fonte: RBA

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*Por que não deixo só o link para a matéria? Porque um tempo depois que as matérias e textos publicados na internet vão ao ar, você não encontra mais eles (Error), simplesmente porque atualizam a página, porque economizam na hospedagem nos servidores etc. Boa parte do conhecimento humano das últimas décadas está desaparecendo porque só estava on-line. Terrível isso!

segunda-feira, 4 de março de 2019

Marx, sobre o duplo caráter do trabalho materializado na mercadoria




Refeição Cultural

"O trabalho, como criador de valores de uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem - quaisquer que sejam as formas de sociedade -, é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana" (O Capital, Karl Marx)


A experiência ao ler este clássico dos clássicos, O Capital, publicado em 1867, por Karl Marx, tem sido trabalhosa nesse meu início, mas ao mesmo tempo, ela vem me proporcionando uma compreensão do quanto Marx é metódico ao desenvolver e apresentar seus estudos.

A leitura é lenta, eu leio muitas vezes cada parágrafo, após andar duas páginas acabo voltando ao início porque um conceito vai ligar com outro e assim por diante. Mas eu não quero ler só por ler, quero compreender o que ele nos apresenta, sem pressa.

Prefiro nas breves postagens fazer mais citações de Marx do que interpretações porque acho mais seguro fazer isso. Aliás, o objetivo das matérias é mais para instigar as pessoas a comprarem o livro, que custou menos de 70 reais, e começarem a leitura dele; ao contrário de ficarmos no diz que diz sobre Marx, ir direto ao seu estudo.

A primeira citação acima, a título de epigrama, é uma questão antiga entre nós do movimento dos trabalhadores; muitas vezes me peguei em debates em congressos e encontros onde o tema "Trabalho" era meio que demonizado, ao invés de se fixar os debates nas questões da exploração e apropriação do trabalho humano na sociedade capitalista e as formas de se evitar essa tragédia.

A MERCADORIA

Nesta primeira parte do Livro Primeiro, que trata do processo de produção do capital, Marx está estudando mercadoria e dinheiro, começando por "A mercadoria".


1. Os dois fatores da mercadoria: valor de uso e valor (substância e quantidade do valor)

Vimos nessa parte que "Tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho requerido para produzir-se um valor de uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais existentes e com o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho".

Fiz uma breve postagem sobre esse item 1 do capítulo. Ler AQUI.

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2. O duplo caráter do trabalho materializado na mercadoria

Agora Marx vai falar sobre o conceito de "trabalho útil", como "aquele cuja utilidade se patenteia no valor de uso do seu produto ou cujo produto é um valor de uso".

O filósofo nos fala sobre a divisão social do trabalho: "Ela é condição para que exista a produção de mercadorias, embora, reciprocamente, a produção de mercadorias não seja condição necessária para a existência da divisão social do trabalho. Na velha comunidade indiana, há a divisão social do trabalho, sem que os produtos se convertam em mercadorias".

Ao nos lembrar que uma mercadoria tem dois fatores, a matéria e o trabalho, Marx cita uma bela frase de William Petty:

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"O trabalho é o pai, mas a mãe é a terra"
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Ainda sobre essa questão da matéria, o filósofo nos faz lembrar das velhas aulas de química, quando aprendemos que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Pelo menos eu aprendi assim nos anos setenta do século passado.

Marx, exemplificando sobre a produção de casacos, nos diz que: "(...) Extraindo-se a totalidade dos diferentes trabalhos úteis incorporados ao casaco, ao linho etc, resta sempre um substrato material, que a natureza, sem interferência do homem, oferece. O homem, ao produzir, só pode atuar como a própria natureza, isto é, mudando as formas da matéria".

À explicação acima, o autor inclui a nota: "Todos os fenômenos do universo, provocados pela mão do homem ou pelas leis gerais da física, não constituem, na realidade, criações novas, mas apenas transformação da matéria".

VALOR DA MERCADORIA

Diz Marx: "O trabalho do alfaiate e o do tecelão, embora atividades produtivas qualitativamente diferentes, são ambos dispêndio humano produtivo (...) O valor da mercadoria, porém, representa trabalho humano simplesmente, dispêndio de trabalho humano em geral".

Nesta parte dos estudos sobre mercadoria e valor, Marx nos alerta em nota que ainda não está considerando questões como salário, preço etc.

Ao analisar uma sociedade qualquer é necessário observá-la de acordo com as condições dadas naquele momento da análise: 

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"O trabalho simples médio muda de caráter com os países e estágios da civilização, mas é dado numa determinada sociedade. Trabalho complexo ou qualificado vale como trabalho simples potenciado ou, antes, multiplicado, de modo que uma quantidade dada de trabalho qualificado é igual a uma quantidade maior de trabalho simples..."
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É aqui que vem a nota de Marx: "Repare o leitor que não se trata aqui de salário ou do valor que o trabalhador recebe por seu tempo de trabalho, mas do valor da mercadoria no qual se traduz seu tempo de trabalho".

Marx vai falar da produtividade ao final deste item, mas antes ele explica mais sobre a acumulação de força de trabalho humano nas mercadorias.

"(...) os valores casaco e linho são cristalizações homogêneas de trabalho; os trabalhos contidos nesses valores são considerados apenas dispêndio de força humana de trabalho..."

e

"Se o trabalho contido na mercadoria, do ponto de vista do valor de uso, só interessa qualitativamente, do ponto de vista da grandeza do valor só interessa quantitativamente e depois de ser convertido em trabalho humano, puro e simples".

PRODUTIVIDADE

Marx nos explica sobre o movimento em sentidos opostos em relação ao duplo caráter do trabalho.

Uma quantidade maior de valor de uso cria, de per se, maior riqueza material, ou seja, dois casacos representam maior riqueza que um. Mas pode haver uma queda no valor da riqueza material dos casacos, quando a produtividade para produzi-los foi maior.

"Produtividade é sempre produtividade de trabalho concreto, útil, e apenas define o grau de eficácia da atividade produtiva adequada a certo fim, em dado espaço de tempo".

Lembrei-me das primeiras páginas do livro quando Marx cita as mudanças no modo de produção inglês. Após a introdução do tear a vapor, o tempo gasto para transformar fio em tecido reduziu-se pela metade. O tecelão inglês com tear manual seguiria produzindo a mesma quantidade de material, só que o valor seria a metade agora.

Enfim:

"A mesma variação da produtividade que acresce o resultado do trabalho e, em consequência, a massa dos valores de uso que ele fornece reduz a magnitude do valor dessa massa global aumentada quando diminui o total de tempo do trabalho necessário para sua produção. E vice-versa".

Marx conclui neste item o seguinte:

"Todo trabalho é, de um lado, dispêndio de força humana de trabalho, no sentido fisiológico, e, nessa qualidade de trabalho humano igualou abstrato, cria o valor das mercadorias. Todo trabalho, por outro lado, é dispêndio de força humana de trabalho, sob forma especial, para um determinado fim, e, nessa qualidade de trabalho útil e concreto, produz valores de uso".

COMENTÁRIO FINAL

O método de avaliação de Marx é muito claro no livro O Capital. É trabalhoso acompanhar o desenvolvimento de seu método dialético porque exige atenção e associação de conceitos.

Como disse ao início da leitura da obra, estou lendo ela sem pressa. Fazer anotações e postagens ajuda em minha própria memorização e compreensão. Ao mesmo tempo, pode ser que meus comentários despertem em algum leitor ou leitora, o interesse em iniciar a leitura de alguma obra que posto aqui no blog Refeitório Cultural.

Abraços aos amig@s leitores,

William
Um leitor


Post Scriptum:

Para as postagens anteriores, clique AQUI na imediatamente anterior.

sexta-feira, 1 de março de 2019

O Capital - Marx analisa valores de uso e de troca nas mercadorias


Quem manda no mundo, nos pergunta Chomsky?
Até o momento, o Capital e seus detentores, avalio.

Refeitório Cultural

"A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em 'imensa acumulação de mercadorias', e a mercadoria, isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza. Por isso, nossa investigação começa com a análise da mercadoria" (Karl Marx, O Capital, Livro I, Primeira Parte)


A mercadoria é considerada por Marx "um objeto externo" que "satisfaz necessidades humanas", sejam quais forem elas. As coisas possuem uma "virtude intrínseca", um valor de uso, mas a utilidade das coisas "constituem fatos históricos" através da descoberta dos diferentes modos, das diversas maneiras de usar as coisas, e isso varia no tempo.

"A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso". Marx vai depois diferenciar "valor de uso" e "valor de troca" no sentido de mercadoria. Coisas como ferro, trigo e diamante têm um valor de uso intrínseco a elas mesmas.

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Marx: "O valor de uso só se realiza com a utilização e o consumo. Os valores de uso constituem o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social dela. Na forma de sociedade que vamos estudar, os valores de uso são, ao mesmo tempo, os veículos materiais do valor de troca". (aqui, ele se refere a sociedade capitalista)
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Os valores de uso das coisas, das mercadorias, serão postos de lado quando se tratar de analisar valores de troca. A relação será outra na sociedade capitalista.

"As propriedades materiais só interessam pela utilidade que dão às mercadorias, por fazerem destas valores de uso. Põem-se de lado os valores de uso das mercadorias, quando se trata da relação de troca entre elas..."

Após discorrer com mais exemplos e citações sobre essa questão do valor de uso, Marx apresenta a questão do produto do trabalho nos valores das mercadorias.

"Se prescindirmos do valor de uso da mercadoria, só lhe resta ainda uma propriedade, a de ser produto do trabalho."

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Trabalho humano abstrato: "(...) Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, também desaparece o caráter útil dos trabalhos neles corporificados; desvanecem-se, portanto, as diferentes formas de trabalho concreto, elas não mais se distinguem umas das outras, mas reduzem-se, todas, a uma única espécie de trabalho, o trabalho humano abstrato."
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Marx explica a questão da força de trabalho humana armazenada na produção das coisas: "(...) Como configuração dessa substância social que lhes é comum, são valores, valores-mercadorias."

De novo: "Um valor de uso ou um bem só possui, portanto, valor, porque nele está corporificado, materializado, trabalho humano abstrato..."

As coisas, as mercadorias, têm "valor" ou valor de troca porque têm determinada quantidade de trabalho nelas.

TEMPO DE TRABALHO SOCIALMENTE NECESSÁRIO PARA A PRODUÇÃO DE UM VALOR DE USO

Tempo de trabalho: "(...) Tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho requerido para produzir-se um valor de uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais existentes e com o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho."

O filósofo nos dá o exemplo de um tecelão que produza manualmente um tecido. Com a indústria produzindo tecidos com tear a vapor, o tempo de produção de tecidos caiu pela metade e apesar do tecelão manual gastar o mesmo tempo de antes, "o produto de sua hora individual de trabalho só representaria meia hora de trabalho social, ficando o valor anterior de seu produto reduzido à metade".

Marx diz que como valores, as mercadorias são apenas dimensões definidas do tempo de trabalho que nelas se cristaliza.

Concluo a leitura deste primeiro item do Capítulo I, que trata  de "Mercadoria", citando o que Marx fala sobre a produtividade e o seu efeito nas questões de valor.

"Generalizando: quanto maior a produtividade do trabalho, tanto menor o tempo de trabalho requerido para produzir uma mercadoria, e, quanto menor a quantidade de trabalho que nela se cristaliza, tanto menor seu valor. Inversamente, quanto menor a produtividade do trabalho, tanto maior o tempo de trabalho necessário para produzir um artigo e tanto maior seu valor. A grandeza do valor de uma mercadoria varia na razão direta da quantidade e na inversa da produtividade do trabalho que nela se aplica."

Destes estudos, o cientista conclui que a substância do valor é o trabalho. Ele complementa explicando que a medida de sua magnitude é o tempo de trabalho.

COMENTÁRIO FINAL

Leitores amig@s, após ouvir por décadas falarem de Karl Marx e do marxismo e da obra O Capital (e dizem que a maior parte do que falam e interpretam é bobagem e equívocos), achei que era minha obrigação ler este clássico, obrigação de leitor e de interessado pelas questões do mundo do trabalho, da classe trabalhadora, e das sociedades humanas.

Essa parte que li é de leitura difícil por causa dos conceitos criados. Li várias vezes nestes dias. Digeri esses ensinamentos de Marx, afinal de contas esse blog se chama Refeitório Cultural por algum motivo justo: aqui lemos obras e textos, refletimos e colocamos nossas ideias, opiniões e registros para aquel@s que quiserem ler. 

Enfim, tenho a opinião que estamos num dos momentos mais dramáticos da humanidade, pois a idiotização dos seres humanos está chegando ao ponto de haver uma espécie de "elogio da ignorância" ou uma "ignorância orgulhosa", ou seja, as pessoas têm orgulho de serem ignorantes. Que coisa bárbara!

Abraços e boas leituras! 

William
Um leitor


Post Scriptum:

Fiz postagens sobre os prefácios às edições de O Capital, prefácios com Marx e depois com Engels, após a morte de Marx. Ler AQUI.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Dia Nacional de Lutas do Povo Brasileiro


(reprodução de matéria)

Contraf-CUT convoca todos os bancários para Dia Nacional de Paralisação Contra as Reformas da Previdência, Trabalhista, e a retirada de direitos dos trabalhadores



O objetivo é que a categoria bancária se una ao movimento e tome as ruas em protesto às reformas golpistas do presidente ilegítimo Michel Temer



Os bancários e bancárias de todo o Brasil vão participar do Dia Nacional de Paralisação Contra as Reformas da Previdência, Trabalhista, e a retirada de direitos, que será realizado nesta quarta-feira (15). A categoria vai se unir ao conjunto de trabalhadores e organizações da sociedade civil para tomar as ruas em protesto contra as reformas golpistas que o presidente ilegítimo Michel Temer quer impor.

A orientação para a participação dos bancários no protesto convocado pelas centrais sindicais foi aprovada pelos delegados e delegadas que participaram do Congresso Extraordinário da Confederação, realizado na semana passada, na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

“Vamos às ruas mostrar que os trabalhadores e a população não vão pagar o pato. Nossas federações e sindicatos estão mobilizando a categoria para que participem fortemente das paralisações em todos os estados, com defesa também dos bancos públicos. Só a luta garante que as reformas da previdência, trabalhista, e todas as propostas golpistas de Temer sejam barradas e não sigam em frente. Os bancários e bancárias da base sabem dos riscos e estão engajados na batalha”, reforça Roberto von der Osten, presidente da Contraf-CUT.

Confira onde haverá mobilização e integre você também a resistência contra os ataques a seus direitos.



Post Scriptum

(reprodução de matéria)

“Fora Temer” entoou em todo o país no Dia Nacional de Paralisação contra as Reformas da Previdência, Trabalhista, e a retirada de direitos


Diversas categorias paralisaram o Brasil para dar um recado claro ao governo golpista

15/03/2017




Os bancários de todo o Brasil se uniram com diversas categorias da classe trabalhadora nesta quarta-feira (15), no Dia Nacional de Paralisação contra as Reformas da Previdência, Trabalhista, e a retirada de direitos dos trabalhadores. ‘Fora Temer’ ecoou nos quatro cantos do País durante as manifestações. Mais de 200 mil trabalhadores e trabalhadoras se manifestaram na capital paulista contra o governo ilegítimo de Temer.

O dia começou com manifestações nas principais vias do País, paralisações dos transportes públicos, fechamento de agências bancárias e greves de diversas categorias em várias cidades brasileiras. À tarde, grandes atos públicos foram realizados nas principais avenidas. As mobilizações foram organizadas pelas centrais sindicais, movimentos sociais e integrantes das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo para pressionar o governo ilegítimo de Temer (PMDB) e o Congresso Nacional a suspenderem a tramitação das reformas que trarão prejuízos à classe trabalhadora.

“Hoje foi um dia histórico da classe trabalhadora, um dia que todas as categorias se uniram para dizer peremptoriamente que somos contra a reforma da previdência. A reforma que somos a favor é a reforma da presidência, nós queremos fora Temer. Desde o começo do dia de hoje, a nossa Confederação acompanhou a movimentação dos bancários no Brasil todo. De Norte a Sul os bancários paralisaram agências. Disseram que não concordam com a Reforma da Previdência, disseram que são contra a Reforma Trabalhista e que são contra a privatização dos bancos públicos, que está em curso também no Brasil hoje. Essas coisas só estão acontecendo porque houve um golpe que retirou a presidenta Dilma e colocou no seu lugar um presidente golpista. Hoje, está claro que a população brasileira não concorda com esse modelo de governo e quer imediatamente fora golpe, fora golpista, fora Temer”, exclamou o presidente da Contraf-CUT, Roberto von der Osten.

Bancários na luta

A categoria bancária demonstrou unidade e mobilização mais uma vez e atendeu ao chamado da Contraf-CUT, Federações e Sindicatos para tomar as ruas contra os ataques aos trabalhadores. Em várias cidades houve paralisações das atividades em agências e complexos administrativos dos bancos públicos e privados, com grande adesão dos funcionários e funcionárias.

A comunicação da Contraf-CUT fez uma grande cobertura da participação da categoria nas manifestações.

"Os trabalhadores estão reagindo e têm de reagir mesmo, porque senão morrem sem se aposentar", disse Juvandia Moreira, vice-presidenta da Contraf-CUT e presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo. "O que está em jogo é o fim da aposentadoria, o fim dos direitos trabalhistas, da CLT, de tudo que conquistamos. Não podemos permitir que isso aconteça e este movimento é uma reação dos bancários e das outras categorias ".

Entre os principais pontos contestados pelos manifestantes estão o estabelecimento de idade mínima de 65 anos para requerer aposentadoria, igual para homens e mulheres, e os 49 anos de contribuição exigidos para acessar a aposentadoria integral, além de impactos negativos que a reforma proposta por Temer causará entre trabalhadores e trabalhadoras rurais. Movimentos sociais e centrais sindicais consideram que a reforma acaba com a possibilidade da maior parte da população conseguir se aposentar, abrindo espaço para os bancos oferecerem planos de previdência privada.

Os trabalhadores também ressaltaram que o argumento do governo Temer sobre o déficit na Previdência é falacioso, já que desconsidera que o orçamento da Seguridade Social contempla previdência, assistência social e saúde, e não apenas o pagamento dos benefícios previdenciários. Outro ponto destacado pelos opositores da reforma é que há muitas desonerações aplicadas pelo governo federal que reduzem o montante arrecadado pela Previdência, além de dívidas da ordem de R$ 487 bilhões.

Fonte: Contraf-CUT

domingo, 13 de março de 2016

A metamorfose (1912) – Franz Kafka




Refeição Cultural - Literatura tcheca

“Gregor Samsa acordou naquela manhã de sonhos agitados e viu-se na sua cama transfigurado num enorme inseto. Estava deitado sobre suas costas, tão duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, pode ver o ventre curvo, castanho, dividido por pregas arqueadas, sobre o qual o cobertor, dificilmente se sustinha e estava a ponto de cair completamente. As inúmeras pernas, deploravelmente finas se comparadas com o resto do corpo, balançavam desamparadas diante dos seus olhos.

- O que me aconteceu?, pensou...”



Assim começa uma das estórias mais fantásticas e mais dramáticas da literatura clássica mundial. Fiz a leitura pela terceira vez nestes meus 46 anos. O momento por que passa meu país, do absurdo golpismo e fascismo que tomou conta do cotidiano do Brasil, nos remete a leituras que versam sobre mundos distópicos, sobre mundos dramáticos e nos remete a obras de cunho melancólico e depressivo.

Ao longo de um século, várias foram as leituras críticas e interpretativas das obras do autor tcheco Franz Kafka. Neste momento em que reli o drama de Gregor Samsa, evidenciou-me metáforas dramáticas sobre o peso de ser proletário num mundo capitalista e ainda ter que cuidar da família.


“Não parecia um sonho. Seu quarto, um verdadeiro quarto humano, apenas bastante simples, continuava tranquilo entre as quatro paredes bem familiares. Por cima da mesa, se espalhava, aberta, uma série de amostras de tecidos – Samsa era caixeiro-viajante – e estava pendurada uma fotografia que ele, recentemente, havia recortado de uma revista ilustrada e mandara colocar numa linda moldura dourada. Exibia uma moça de chapéu e estola de pele, sentada, a estender um enorme regalo também de peles, no qual todo o seu antebraço desaparecia.”


Fica evidente a condição de Gregor Samsa, proletário. Aliás, a primeira demonstração da metáfora para o trabalho que maltrata está na reflexão de Gregor logo na segunda página, quando lamenta o quanto seu trabalho é cansativo.


“ – Ah, meu Deus! Pensou – Que trabalho cansativo escolhi. Viver viajando, dia sim, dia não. A agitação comercial é mais irritante que o próprio trabalho do escritório, além disso há a cansativa necessidade de viajar, sempre preocupado com troca de trens, fazendo refeições a qualquer hora, num convívio humano superficial que nunca se torna íntimo. Aos diabos com tudo isso!”


Aff! Se eu trocar o transporte citado por ele (trem) por avião, posso utilizar essa expressão do cansaço de viver viajando. Aliás, eu poderia ter escolhido o conforto de passar meu mandato sentado no escritório da sede da empresa que administro, mas não é de minha natureza e nem meu perfil ficar sem ir às bases sociais que represento. A consequência é dobrar as jornadas de trabalho para dar conta do dia a dia do escritório, e da agenda de viagem às bases.


Logo em seguida, Gregor imobilizado na cama como um inseto, lembra o quanto gostaria de dormir mais um pouco porque “o ser humano precisa de seu sono”. Lembra que não pode ter regalias como os comerciantes para quem vende os produtos e nem como o seu chefe, que tem que suportar falando sentado do alto de sua mesa para baixo ao lidar com Gregor. Tudo porque ele tem que trabalhar ainda uns cinco anos para pagar uma dívida de seus pais.

Por fim, ali imobilizado, começa o desespero de Gregor por sua condição porque ele vai perder o trem para o trabalho.


“Mas, e agora, o que deveria fazer? O próximo trem sairia às sete horas; para embarcar precisaria correr como louco, o mostruário ainda não estava na mala e ele mesmo não se sentia preparado e ativo. E mesmo que pegasse o trem, seria inevitável uma repreensão do chefe, pois o contínuo da firma teria esperado junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado sua ausência. O contínuo era uma criatura do chefe, invertebrado e sem pensamentos próprios...”


Alguma semelhança com o que os trabalhadores vivem nos seus locais de trabalho cada vez mais degradados por assédio, condições humilhantes, e colegas puxando o tapete uns dos outros?


E a questão da dedicação total ao patrão, não querendo faltar nem quando está doente?


“E, se avisasse que estava doente? Mas isso seria desagradável e suspeito, pois durante os cinco anos de serviço Gregor nunca tinha adoecido. Certamente o chefe o visitaria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais pela preguiça do filho e não aceitaria desculpas, apoiado no médico, para quem não existia doentes, só pessoas inteiramente saudáveis, mas refratárias ao trabalho. E, será que estava tão enganado, dessa vez? Certamente, com exceção de uma sonolência inútil depois de tão longo sono, Gregor sentia-se muito bem e até mesmo com uma fome especialmente forte...”


Já no início do século passado, havia a relação complicada entre alguns médicos e os capitalistas para atestarem que o empregado estava bom para trabalhar e não parar a produção.

(poderia seguir incluindo excertos marcantes, mas vale a pena recomendar que o leitor e a leitora abram o livro e leiam a obra)

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Enfim, a releitura da obra neste momento me fez sentir uma tristeza e uma certa impotência doída.

Neste momento histórico (2016), os empresários capitalistas preparam um Golpe de Estado no Brasil contra um governo e um partido que mudaram objetivamente, após a eleição de um metalúrgico nordestino em 2002, a vida de dezenas de milhões de miseráveis e de proletários, gente à margem da sociedade como, por exemplo, os milhões de brasileiros afrodescendentes em um Brasil que foi o último país a abolir a escravidão dos seres humanos de pele negra.

Os patrões, os capitalistas, parte da estrutura burguesa montada para a manutenção do status quo burguês, que inclui o poder de polícia para ser usado para controle e repressão dos proletários rebeldes e não submissos e, no mundo moderno, os donos dos meios de comunicação, que são os mesmos capitalistas donos dos meios de vida e dos meios de produção, enfim, esses golpistas manipulam a população para se juntarem a eles no golpe e perseguir e aniquilar os movimentos sociais mais importantes do país e protetores dos direitos das minorias – sindicatos, movimento rural, estudantil, partidário de esquerda.

Estamos vivendo um momento kafkiano, mas não ficcional.


William Mendes

segunda-feira, 4 de junho de 2012

JORNADA DE TRABALHO – REFLEXÕES


Capa de minha edição.



Pensando o trabalho bancário à luz de Marx


El Capital

Magnitud del valor, tiempo de trabajo socialmente necesario


“La sustancia del valor es el trabajo. La medida de la cantidad de valor es la cantidad de trabajo…

(…)

La productividad, pues, del trabajo depende, entre otras cosas, de la habilidad media de los trabajadores, de la amplitud y eficacia de los medios de producir y de circunstancias exclusivamente naturales; por ejemplo:

La misma cantidad de trabajo está representada en 8 (ocho) fanegas de trigo, si la estación ha sido favorable, y en 4 (cuatro) en el caso contrario…(p.8)


Aqui temos uma citação muito importante para entender na categoria bancária a questão do sistema de metas e a eterna tentativa dos bancos de remunerar os trabalhadores por resultado baseado no atingimento de metas e não por suas jornadas corretas de trabalho – 6 horas diárias.

Essa é a lógica do capital de não pagar pela compra da força de trabalho por jornadas determinadas (limitadas) por uma legislação e por conquista oriunda das lutas dos trabalhadores.


CUMPRIR A JORNADA DE TRABALHO É META REALIZADA

Os bancários de uma agência trabalharam a mesma “jornada” na tentativa de oferecer produtos financeiros e no atendimento dos clientes e usuários.

Terem sido realizadas 8 ou 4 operações, ou seja, atender clientes e ou vendas de produtos naquela “estação” (naquele dia/jornada) é REALIZAÇÃO DE METAS, fruto das horas de trabalho de todos e não somente daqueles que finalizaram as operações.


“Por regla general, si la productividad del trabajo aumenta disminuyendo el tiempo necesario para la producción de un artículo, el valor de este artículo disminuye, y recíprocamente, si la productividad disminuye, el valor aumenta. Mas cualesquiera que sean las variaciones de su productividad, el mismo trabajo crea siempre el mismo valor, funcionando durante igual tiempo, solo que suministra en un tiempo determinado una cantidad mayor o menor de valores de uso u objetos útiles, según que aumente o disminuya su productividad…”


Aqui se fala do aumento da riqueza material, fruto da produtividade do trabalho humano:

“Aunque gracias a un aumento de productividad se produzcan en el mismo tiempo dos vestidos (roupas) en vez de uno, cada vestido seguirá teniendo la misma utilidad que antes de duplicarse la producción; pero con dos vestidos se pueden vestir dos hombres en lugar de uno; así, pues, hay aumento de riqueza material

Sin embargo, el valor del conjunto de objetos útiles sigue siendo el mismo: dos vestidos hechos en el mismo tiempo en que antes se ha hecho uno, no valen más de lo que precedentemente uno solo.” (p.8)


POR QUE ISSO OCORRE?

Porque a substância do valor de uma mercadoria está na força de trabalho acumulada nela:

“(...) las mercaderías revelan solamente que en su producción se ha gastado una fuerza de trabajo. De otro modo: que en ellas se ha acumulado trabajo…” (p.7)


OU SEJA,

Quanto mais clientes e mais contas abertas e mais produtos financeiros forem vendidos com a mesma quantidade de trabalho, maior será a produtividade e maior a criação de riqueza (quem se apropria dela?).

A quantidade de trabalho dos bancários na agência é medida pelas horas de trabalho somada da jornada de cada um deles, independente de qual deles finalizou a gravação de um produto ou operação qualquer.

“Cualquier modificación el la productividad que haga más fecundo el trabajo, aumenta la cantidad de artículos que ese trabajo proporciona, y por lo tanto, la riqueza material;

Pero no modifica el valor de esa cantidad, de ese modo aumentado materialmente, si continúa siendo idéntico el tiempo total de trabajo empleado en su fabricación…” (p.9)





COMENTÁRIO FINAL

É evidente que aqui não estamos abrangendo todos os outros fatores que existem no processo bancário como, por exemplo, as tarifas cobradas, os valores dos salários pagos por cada função dentro da agência, as horas extras não pagas  etc.

Na lógica colocada pelo capital, quando um ou outro bancário dentro da agência não atinge as metas, o sistema faz com que as pessoas sejam as culpadas, demitindo ou descomissionando aquelas de "menor produtividade". Pura invenção do capital, porque a produtividade do sistema só tem aumentado há décadas e não se paga mais salário aos bancários por isso. 


Pelo contrário, após um aumento de folha de pagamento por campanha salarial, os bancos demitem os bancários com salários maiores e contratam com salários inferiores, readequando suas fopags.

Para se pensar seriamente em qualquer discussão de jornada de trabalho bancária é necessário que o sistema seja outro, enfim, a remuneração do bancário não poderia depender de valores atrelados a cumprimento de metas. Os bancários deveriam receber salários por suas funções e responsabilidades e com jornadas de 6 horas de trabalho de segunda à sexta-feira.

Bibliografia:
MARX, Karl. El Capital. Editorial ALBA. 1999, Madrid.

sábado, 4 de julho de 2009

Machado critica aumento na JORNADA e HORAS EXTRAS em 1862


Esta carta de Machado de Assis, de 1862, discute problemas de jornada de trabalho, da falsa vantagem das horas extras, das más condições de trabalho e do mal aproveitamento das verbas públicas.

A carta é um "achado" para nós que vivemos neste mundo do século XXI tão distante daquele de 1862. E, paradoxalmente, tão perto!, por haver os mesmos problemas já apontados por nosso escritor maior e serem ainda hoje, tão reais e não resolvidos.

Os argumentos de Machado de Assis são incontestáveis aos homens de consciência que buscam "a elucidação da verdade".

A diferença entre os tempos e a reivindicação fica por conta da qualidade da crítica de quem a faz. Melhores palavras para descrever problemas tão antigos e ainda tão modernos, só mesmo as do nosso escritor Imortal.


Ao redator dos “Ecos Marítimos”

Meu caro. — Praz-me acreditar que, nos longos anos da nossa intima e nunca estremecida amizade, tenho-te dado sobejas provas de que não costumo subordinar as minhas opiniões ao interesse ou conveniências, e que, errôneas ou verdadeiras, são-me elas sempre ditadas pela consciência. Sabes, que não pertenço ao número desses otimistas que têm sempre nos lábios um elogio e nos bicos da pena uma justificação para todo ato de poder, somente porque é do poder.

E, pois, tentando defender o atual ministro da Marinha de acusações que julgaste dever dirigir-lhe, faço-o constrangido, é verdade, por achar-me em divergência com um amigo a quem muito prezo, mas sem temor de que me classifiques entre os turiferários e amigos interesseiros de que falaste no teu primeiro artigo.

Nesta contenda ficaremos colocados em campos opostos, tomaremos mesmo caminhos diversos, mas como ambos temos o mesmo fim, como ambos visamos ao mesmo norte — a elucidação da verdade, — espero que nos encontremos, e então, como agora, nos poderemos apertar as mãos, porque nem tu nem eu teremos de corar.

Não tratando por enquanto do teu primeiro artigo, porque nele te limitas a formular capítulos de acusação, que prometes desenvolver mais tarde, ocupar-me-ei com as censuras, que no segundo fazes ao sistema que se está seguindo no fabrico do vapor Amazonas.

Pensas que semelhante obra seria mais pronta e economicamente realizada, prorrogando-se as horas de trabalho, mediante abono de gratificações de sesta aos operários.

Por este, dizes tu, lucraria o governo que mais cedo teria à sua disposição o Amazonas; lucrariam os operários que com esse acréscimo de salário proporcionariam às suas famílias maior soma de bem estar; lucrariam finalmente os cofres do Estado que poderiam aumentar suas receitas com o aluguel do dique.

Para admitir estas conclusões, seria mister conceder-te que a produção do trabalho durante 2 horas de sesta é equivalente ao salário de meio-dia, em tais casos abonado como gratificação, o que contesto.

O trabalho ordinário começa nos nossos arsenais ao nascer do sol e termina às 4 horas da tarde, apenas com interrupção de meia hora concedida para o almoço; o extraordinário ou sesta prolonga-se dessa hora ao anoitecer.

Assim o sistema que preconizas exige do operário um esforço continuado de 13 horas!

E acreditas que um homem possa, no nosso clima, e durante a estação chuvosa, trabalhar com a mesma atividade e perfeição por tão dilatado espaço de tempo, exposto aos raios do sol, que os gigantescos refletores de granito formados pelas paredes do dique, tornam ainda mais abrasador?

O bom senso dir-te-á que não.

Um ou outro indivíduo, dotado de constituição mais robusta, realizará este supremo esforço no primeiro ou segundo dia, porém, exatamente sucumbirá tentando ultrapassar esse limite.

Mas, dir-me-ás, o meio que indico tem por si a sanção de inveterada prática!

Nem tudo o que é velho é bom; e não ignoras que mais de um abuso existe enraizado na nossa administração pelo emperrado espírito de rotina.

Vês, portanto, que a adoção do alvitre por ti sugerido, longe de produzir as vantagens que apontas, prejudicaria os cofres públicos, que teriam de pagar pela obra feita quantia superior ao seu merecimento; prejudicaria ao serviço naval dando como pronto um vapor que, pelo mal acabado do seu fabrico, teria mais tarde de voltar à posição de disponibilidade.

Isto é intuitivo; e seguramente te escapou, porque apenas examinaste a questão por uma face.

O dique, como bem dizes, não foi construído para cevar os cofres do Tesouro, porém, para prestar o seu valioso auxílio ao material da nossa armada; conseguintemente, que importa que os navios neles se demorem mais ou menos dias, se por este modo executam-se radicalmente os consertos de que carecem?

Precipitação é antípoda de perfeição.

Se isto não fora um axioma, citar-te-ia, como exemplo, o vapor Oyapock, que segundo é voz geral saiu do dique fazendo água.

(aqui Machado passa a outro ponto)

Passemos ao outro ponto.

O ministro da Marinha não se intrometeu em atribuições privativas de outrem nem procurou exercer pressão sobre o espírito dos peritos do arsenal, no intuito de arrancar-lhe opinião favorável ao vapor Princesa de Joinville; sua intervenção neste negócio foi estritamente legal e ditada pelos preceitos da prudência e de justiça.

A companhia dos paquetes, como é de praxe, requereu que esse navio fosse vistoriado, mas, empregando as restrições mentais em que é vezeira, não falou do casco, porém simplesmente da máquina; e os peritos, que sabem ser aquele o ponto vulnerável, lavraram o seu parecer em termos genéricos, declarando que haveria imprudência em arriscar o vapor em uma viagem no oceano.

Frustrada a estratégia, voltou a companhia requerendo que se discriminassem os quesitos que tinham servido de base ao juízo da comissão; ao que, como era de seu dever, deferiu o Ministro. Eis quanto pela marinha se fez, nesse negócio; o mais pertence ao Ministro das Obras Públicas.

A meu ver fora melhor ter-se negado à companhia permissão para fazer seguir semelhante vapor aos portos do norte; porém, como foi ela limitada pela proibição de conduzir passageiros, acautelando-se por essa forma a segurança do público, qualquer desastre superveniente apenas alcançará a tripulação e companhias de seguro, que só terão o direito de queixar-se da sua imprudência, visto que perfeitamente conhecem os riscos que vão correr.

Não posso, todavia deixar de notar que a companhia, anunciando a saída do Joinville, calasse tão importante circunstância!

Acredita-me, amigo, abre mão de pequenas polêmicas de que não poderás tirar glória, não malbarates em pouquidades o talento que Deus te concedeu; volta-te para os grandes interesses do país, disseca as profundas chagas que corroem o nosso corpo social, põe a descoberto a podridão desses cancros que, sob o nome de companhias, absorvem o melhor dos nossos recursos; e protesto-te que, nesse terreno, não tendo forças para acompanhar-te, pelo menos te aplaudirá - O sincero amigo - M. de A.


8/2/1862

Bibliografia:
ASSIS, Machado de. Crítica & Correspondência. In: Obras Completas. Editora Globo, 1997.