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domingo, 28 de fevereiro de 2021

Livro: O chefão - Mario Puzo



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual." (CALVINO, 2000, p. 10/11)


Eu li O chefão (1969), de Mario Puzo, ainda na adolescência. Pela lembrança que tento puxar da memória, li o livro antes dos 17 anos porque acho que a leitura foi anterior a minha volta para São Paulo, depois de morar muitos anos em Uberlândia. Se não me engano, a edição que tenho foi a que li, quando meu primo Jorge Luiz me emprestou na época. Estou com ela porque ele deu seus livros e ganhei alguns deles faz alguns anos.

Peguei o livro para reler no dia 8 de fevereiro desta época pandêmica e de sobrevivência humana sob o poder das máfias no Estado brasileiro. Meu filho estava assistindo aos filmes baseados na obra de Mario Puzo e ao comentarmos a respeito da estória, disse a ele que havia lido o livro na adolescência. Como fiquei interessado em ver os 3 filmes dirigidos por Francis Ford Coppola, pensei comigo: "- Por que não reler antes o livro?". E assim, peguei pra ler o bichão.

O livro é um catatau, é um texto grande. Achei que seria uma leitura rápida, mas não foi. A edição que tenho está dividida em 9 livros. Após ralar na leitura, ainda faltam 100 páginas para acabar. Mas adianto que foi muito bom reler esse clássico da literatura mundial. No livro VI, que retrata o tempo que Michael Corleone passou na Sicília, revi aquela cena que achei interessante o filme ser fiel ao livro, o fato de o personagem ficar com o nariz escorrendo desde que levou o soco que lhe quebrou a mandíbula e lhe deformou o rosto.

Ao reler décadas depois a ficção de Puzo sobre a máfia, estando vivendo sob o domínio da máfia no país em que moro, vemos o quanto é interessante um dos conceitos que Calvino sugere sobre os clássicos (citado acima). Quando adolescente, eu vivia num bairro dominado pela Falange e se não fôssemos "amigos" dos caras, não vivíamos no bairro. O livro sobre a máfia retrata isso. E agora vivemos sob o domínio da máfia em escala gigantesca, nacional. Eu sou outro, o mundo é outro, mas a ficção segue atual. Pobres daquelas e daqueles que hoje não são amigos dos bandidos de colarinho branco no poder.

Tenho que intercalar livros novos com livros a reler, como diz Calvino: "Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo." (p. 11)

A leitura está em andamento, e a postagem também. O blog é um espaço vivo e mutante. Vamos terminar as 100 páginas e vamos assistir aos 3 filmes de Coppola.

Por enquanto é isso. Volto à postagem depois. (28/2/21)

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Fim da leitura do livro em 2/3/21.


COMENTÁRIO PÓS LEITURA

A leitura não foi difícil. Puzo utiliza linguagem cotidiana no texto. O livro contém todos os preconceitos inerentes ao seu tempo, racismo e sexismo são constantes e nos incomodam ao ler a estória. A narrativa sobre o poder das máfias na constituição da sociedade norte-americana é muito bem construída. A trama se passa durante a primeira metade do século XX, indo e voltando ao início do século e ao momento pós 2ª GM.

As famílias dos mafiosos resolvem as coisas comprando autoridades, colocando elas em suas folhas de pagamento, ou simplesmente matando as pessoas que atravessam seus caminhos. Don Vito Corleone, o padrinho, utiliza um sistema baseado em fazer um favor para quem lhe pede algo e a pessoa fica lhe devendo uma. Um dia a pessoa terá que lhe pagar o favor. Don Corleone chama a isso de "amizade", ele é amigo dessas pessoas que lhe devem algum favor. A ficção é atemporal, basta vermos a realidade do país onde vivo, o Brasil, ou a Colômbia, por exemplo.

É isso! Essa ficção nos lembra que sem instituições que funcionem corretamente no Estado, na sociedade onde vivemos, estamos sós, estamos por nossa conta. O Brasil pós-golpe de Estado em 2016 está assim. A máfia e as milícias tomaram o poder e a insegurança e o risco de morte e perseguição se tornaram a nossa realidade.

Triste isso! Viver sob o domínio das máfias.

William


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

2. O velho e o mar - Ernest Hemingway



"Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo...'. " (CALVINO, 2000. p. 9)


Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ele era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarento da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana. O garoto ficava triste ao ver o velho regressar todos os dias com a embarcação vazia e ia sempre ajudá-lo a carregar os rolos de linha, ou o gancho e o arpão, ou ainda a vela que estava enrolada à volta do mastro. A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente." (HEMINGWAY, 2001, p. 13)


No texto de Italo Calvino "Por que ler os clássicos" ele começa abordando aquele constrangimento ou vergonha que muitos leitores sentem por não terem lido uma determinada obra que poderia ser considerada clássica ao serem questionados sobre ela por alguém. 

Acho que, no meu caso, a justificativa mais usada para tal questionamento sobre uma obra não lida seria dizer que comecei e não consegui acabar de ler, ou então digo que não a li ainda, se não tiver ao menos começado a leitura. Seria algo como achar que fosse viver mais uns duzentos anos para poder ler o que gostaria de ler, além das sugestões que recebemos de livros para serem lidos. Acho que já iniciei algumas dezenas de livros que não segui até o fim da leitura.

Esse não é o caso para O velho e o mar (1952), do escritor americano Ernest Hemingway. Eu já li o livro cinco vezes, desde a primeira leitura em 2002. O velho Santiago já me fez pensar muito na existência humana, na condição dos homens frente à grandeza e poder da natureza; já me fez pensar muito na capacidade e necessidade de nunca desistir quando tudo parece dar errado em nossas vidas, mas não temos outra coisa que fazer a não ser fazer o que tem que ser feito, porque estamos vivos e somos o que somos.

Ao rever minhas postagens no blog e ao rever escritos velhos, como a lista de objetivos a cumprir ou coisas a conquistar, lista que fiz há pelo menos um quarto de século, consta lá que eu estabeleci a mim mesmo que deveria ler "cem clássicos". Ao escrever isso, eu não tinha a menor noção da abrangência e dos conceitos teóricos envolvidos na definição do que seria considerado um "clássico". 

Quando entrei na Universidade de São Paulo para fazer um curso de Letras comecei a ter algumas noções sobre os clássicos e me parece que não há nada definitivo e lógico que feche o conceito no que seria ou não seria um clássico. Vários autores falam sobre clássicos e os conceitos são bem abertos. 

Vou aproveitar o momento de minha vida e tentar contar em que ponto estou do meu objetivo de ler cem clássicos. Está claro que a contagem e definição serão arbitrárias e serão os meus cem clássicos.

Ontem, comecei citando a leitura do Era dos extremos, de Hobsbawm. A meu ver, pela relevância da obra e do autor na área do conhecimento humano sobre História, considero um livro clássico. Hoje, cito O velho e o mar, de Hemingway. Ambos, autores e livros, me trouxeram reflexões, ensinamentos e exemplos que marcaram meu comportamento enquanto ser humano.

O velho e o mar tem tantos instantes de sabedoria, que o leitor não consegue ficar sem olhar para o horizonte e refletir ao ler aquele pensamento, seja do personagem, seja do narrador. Veja alguns exemplos:

"'Mas', pensou, 'eu as mantenho sempre na mesma profundidade. O que aconteceu é que acabou a minha sorte. Mas, quem sabe? Talvez hoje. Cada dia é um novo dia. É melhor ter sorte. Mas eu prefiro fazer as coisas sempre bem. Então, se a sorte me sorrir, estou preparado.'" (p. 35)

Se décadas atrás, eu já achava uma espécie de humilhação sentir cãibra naqueles momentos em que contamos com o vigor de nosso corpo, que dizer agora quando a idade avança e às vezes temos cãibras até quando estamos dormindo? A reflexão do velho Santiago é muito profunda e nos toca a todos:

"'Detesto cãibras', pensou o velho pescador. 'É uma traição do corpo. É humilhante ser atacado de diarreia devido a um envenenamento de ptomaínas ou, pela mesma causa, nos vermos obrigados a vomitar.' Mas uma cãibra, se não era humilhante ante os outros, humilhava-o diante dele mesmo, muito especialmente quando estava sozinho." (p. 65)

Finalizo esta postagem com mais dois momentos muito belos e profundos de O velho e o mar. Aliás, dia desses, assisti ao filme O regresso (2015), no qual DiCaprio ganhou o Oscar, e fiquei muito pensativo sobre o homem frente à natureza. É verdade que a tecnologia atual nos fez capaz de destruir a natureza e estamos acabando com ela para sempre. Um ou dois séculos atrás, a natureza ainda se impunha bastante sobre o animal humano.

"(...) Preciso conservar todas as forças que me restam. Meu Deus, nunca pensei que ele fosse assim tão grande.

     'Mas tenho de matá-lo', murmurou o velho. 'Em toda a sua grandeza e glória. Embora seja injusto. Mas vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de aguentar. Eu disse ao garoto que era um velho muito estranho. Agora chegou a hora de prová-lo.'" (p. 67)

E fecho com essa:

"(...) 'Quantas pessoas ele irá alimentar? Mas serão merecedoras de um peixe assim? Não, claro que não. Ninguém merece comê-lo, tão grande a sua dignidade e tão belo o seu modo de agir.'

     'Não compreendo estas coisas', pensou ele. 'Mas é bom que não tenhamos de tentar matar a lua, o sol ou as estrelas. Já é ruim o bastante viver no mar e ter de matar os nossos verdadeiros irmãos.'" (p. 77)

Este livro vale muito a pena ler. Recomendo!

William


Post Scriptum: ao ler as duas outras postagens que fiz sobre leituras do livro, vi que elas seguem com alguma validade. A mais antiga, de 2008, porque tive o trabalho de selecionar vários momentos que geram muita reflexão (ler aqui) e a mais recente, de 2016, porque marca uma época pessoal de muita intensidade (ler aqui).


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.


domingo, 15 de setembro de 2019

Leitura: Revelación Mesmérica (1844) - Edgar Allan Poe




(Originalmente publicado en: Columbian Magazine, EUA, agosto 1844)

Aunque la teoría del mesmerismo esté aún envuelta en dudas, sus sobrecogedoras realidades son ya casi universalmente admitidas. Los que dudan de éstas pertenecen a la casta inútil y despreciable de los que dudan por pura profesión. No hay mejor manera de perder el tiempo que proponerse probar en la actualidad que el hombre, por el simple ejercicio de su voluntad, puede impresionar a su semejante al punto de sumirlo en un estado anormal cuyas manifestaciones se parecen estrechamente a las de la muerte, o por lo menos en mayor grado que cualquier otro fenómeno conocido en condiciones normales; que, en ese estado, la persona así influida utiliza sólo con esfuerzo y en consecuencia débilmente los órganos exteriores de los sentidos y, sin embargo, percibe con agudeza y refinamiento, y por vías presuntamente desconocidas, cosas que están más allá del alcance de los órganos físicos; que, además, sus facultades intelectuales se hallan en un maravilloso estado de exaltación y fuerza; que las simpatías con la persona que así influye sobre ella son profundas, y, finalmente, que su susceptibilidad de impresión va en aumento gradual, al tiempo que, en la misma proporción, se extienden y acentúan cada vez más los peculiares fenómenos producidos.

Digo que sería superfluo demostrar las leyes del mesmerismo en sus rasgos generales; tampoco infligiré a mis lectores una demostración hoy tan innecesaria. Mi propósito es, en verdad, muy otro. Me siento impelido, aun enfrentándome de esta manera con un mundo de prejuicios, a detallar sin comentarios el notabilísimo diálogo que sostuve con un hipnotizado.

Hacía mucho tiempo que tenía la costumbre de hipnotizar a la persona en cuestión (Mr. Vankirk), en quien se habían manifestado la aguda susceptibilidad y la exaltación habituales en la percepción mesmérica. Desde varios meses atrás, Mr. Vankirk padecía una tisis declarada y mis pases habían aliviado sus efectos más penosos; la noche del miércoles 15 del mes actual fui llamado a su cabecera.

El enfermo sufría un dolor agudo en la región cordial y respiraba con gran dificultad, presentando todos los síntomas comunes del asma. En espasmos como aquél generalmente le proporcionaba alivio la aplicación de mostaza en los centros nerviosos, pero esa noche el recurso había resultado inútil.

Cuando entré en su habitación me recibió con una sonrisa jovial, y aunque evidentemente sus dolores físicos eran grandes, su ánimo parecía muy tranquilo.

—Lo mandé buscar esta noche —dijo— no tanto para que mitigara mi dolencia como para que me explicara ciertas impresiones psíquicas que últimamente me han causado gran ansiedad y sorpresa. No necesito decirle cuan escéptico he sido hasta hoy con respecto a la inmortalidad del alma. No puedo negar que siempre ha existido, quizá en esa misma alma que he negado, una especie de vago sentimiento de su propia existencia. Pero esta especie de sentimiento no llegó en ningún instante a la convicción. Era cosa que nada tenía que ver con la razón. Todas las tentativas de investigación lógica me dejaban, a decir verdad, más escéptico que antes. Me aconsejaron que estudiara a Cousin. Lo estudié en sus obras, así como en sus repercusiones europeas y americanas. El Charles Elwood de Mr. Brownson, por ejemplo, cayó en mis manos. Lo leí con profunda atención. Lo encontré lógico de una punta a la otra, pero las partes que no eran simplemente lógicas constituían, desgraciadamente, los argumentos iniciales del incrédulo héroe del libro. En sus conclusiones me pareció evidente que el razonador no había logrado siquiera convencerse a sí mismo. El final había olvidado por completo el principio, como el gobierno de Trínculo. En una palabra: no tardé en advertir que, si el hombre ha de persuadirse intelectualmente de su propia inmortalidad, nunca lo logrará por las meras abstracciones que durante tanto tiempo han constituido el método de los moralistas de Inglaterra, Francia y Alemania. Las abstracciones pueden ser una diversión y un ejercicio, pero no se posesionan de la mente. Aquí, en la tierra por lo menos, la filosofía, estoy convencido, siempre nos pedirá en vano que consideremos las cualidades como cosas. La voluntad puede asentir; el alma, el intelecto, nunca. Repito, pues, que sólo había sentido a medias, pero nunca creí intelectualmente. Mas en los últimos tiempos el sentimiento se ha ahondado hasta parecerse tanto a la aquiescencia de la razón, que me resulta difícil distinguirlos. Creo también poder atribuir este efecto simplemente a la influencia mesmérica. No sé explicar mejor mi pensamiento que por la hipótesis de que la exaltación mesmérica me capacita para percibir una serie de razonamientos que en mi existencia normal son convincentes, pero que, en total acuerdo con los fenómenos mesméricos, no se extienden, salvo en su efecto, a mi estado normal. En el estado hipnótico, el razonamiento y la conclusión, la causa y el efecto están presentes a un tiempo. En mi estado natural, la causa se desvanece; únicamente el efecto, y quizá sólo en parte, permanece. Estas consideraciones me han llevado a pensar que podrían obtenerse algunos buenos resultados dirigiéndome, mientras estoy mesmerizado, una serie de preguntas bien encaminadas. Usted ha observado a menudo el profundo conocimiento de sí mismo que demuestra el hipnotizado, el amplio saber que despliega sobre todo lo concerniente al estado mesmérico, y de este conocimiento de sí mismo pueden deducirse indicaciones para la adecuada confección de un cuestionario.

Accedí, claro está, a realizar este experimento. Unos pocos pases sumieron a Mr. Vankirk en el sueño mesmérico. Su respiración se hizo inmediatamente más fácil y parecía no padecer ninguna incomodidad física. Entonces se produjo la siguiente conversación (en el diálogo, V. representa al paciente y P. soy yo):

P. —¿Duerme usted?

V. —Sí…, no; preferiría dormir más profundamente.

P. —(Después de algunos pases). ¿Duerme ahora?

V. —Sí.

P. —¿Cómo cree que terminará su enfermedad?

V. —(Después de una larga vacilación y hablando como con esfuerzo). Moriré.

P. —¿Le aflige la idea de la muerte?

V. —(Muy rápido). ¡No…, no!

P. —¿Le desagrada esta perspectiva?

V. —Si estuviera despierto me gustaría morir, pero ahora no tiene importancia. El estado mesmérico se avecina lo bastante a la muerte como para satisfacerme.

P. —Me gustaría que se explicara, Mr. Vankirk.

V. —Quisiera hacerlo, pero requiere más esfuerzo del que me siento capaz. Usted no me interroga correctamente.

P. —Entonces, ¿qué debo preguntarle?

V. —Debe comenzar por el principio.

P. —¡El principio! Pero, ¿dónde está el principio?

V. —Usted sabe que el principio es Dios. (Esto fue dicho en tono bajo, vacilante, y con todas las señales de la más profunda veneración).

P. —Pero, ¿qué es Dios?

V. —(Vacilando durante varios minutos). No puedo decirlo.

P. —Dios, ¿no es espíritu?

V. —Mientras estaba despierto, yo sabía lo que usted quiere decir con «espíritu», pero ahora me parece sólo una palabra, tal como, por ejemplo, verdad, belleza; una cualidad, quiero decir.

P. —Dios, ¿no es inmaterial?

V. —No hay inmaterialidad; ésta es una simple palabra. Lo que no es materia no es nada, a menos que las cualidades sean cosas.

P. —Entonces, ¿Dios es material?

V. —No. (Esta respuesta me sobrecogió).

P. —¿Y qué es?

V. —(Después de una larga pausa, entre dientes). Lo veo… pero es una cosa difícil de decir. (Otra larga pausa). No es espíritu, pues existe. Tampoco es materia, como usted la entiende. Pero hay gradaciones de la materia de las que el hombre nada sabe, en que la más basta impulsa a la más sutil, la más sutil invade la más basta. La atmósfera, por ejemplo, impulsa el principio eléctrico, mientras el principio eléctrico penetra la atmósfera. Estas gradaciones de la materia crecen en tenuidad o sutileza hasta que llegamos a una materia indivisa —sin partículas—, indivisible —una—, y aquí la ley de la impulsión y de la penetración se modifica. La materia última o indivisa no sólo penetra todas las cosas, sino que las impulsa, y de esta manera es todas las cosas en sí misma. Esta materia es Dios. Lo que el hombre intenta formular con la palabra «pensamiento» es esta materia en movimiento.

P. —Los metafísicos sostienen que toda acción es reductible a movimiento y pensamiento, y que el último es el origen del primero.

V. —Sí, y ahora veo la confusión de la idea. El movimiento es la acción de la mente, no del pensamiento. La materia indivisa o Dios, en reposo, es (en la medida en que podemos concebirlo) lo que los hombres llaman mente. Y el poder de automovimiento (equivalente en efecto a la volición humana) es, en la materia indivisa, el resultado de su unidad y de su omni-predominancia; cómo, no lo sé, y ahora veo claramente que nunca lo sabré. Pero la materia indivisa, puesta en movimiento por una ley o cualidad existente en sí misma, es el pensamiento.

P. —¿No puede darme una idea más precisa de lo que usted designa materia indivisa?

V. —Las materias que el hombre conoce escapan gradualmente a los sentidos. Tenemos, por ejemplo, un metal, un trozo de madera, una gota de agua, la atmósfera, el gas, el calor, la electricidad, el éter luminoso. Ahora bien, llamamos materia a todas esas cosas, y abarcamos toda la materia en una definición general; sin embargo, no puede haber dos ideas más esencialmente distintas que la que referimos a un metal y la que referimos al éter luminoso. Cuando llegamos al último, sentimos una inclinación casi irresistible a clasificarlo con el espíritu o con la nada. La única consideración que nos detiene es nuestra idea de su constitución atómica, y aun aquí debemos pedir ayuda a nuestra noción de átomo como algo infinitamente pequeño, sólido, palpable, pesado. Destruyamos la idea de la constitución atómica y ya no seremos capaces de considerar el éter como una entidad o, por lo menos, como materia. A falta de una palabra mejor podríamos designarlo espíritu. Demos ahora un paso más allá del éter luminoso, concibamos una materia mucho más sutil que el éter, así como el éter es más sutil que el metal, y llegamos en seguida (a pesar de todos los dogmas escolásticos) a una masa única, a una materia indivisa. Pues, aunque admitamos una infinita pequeñez en los átomos mismos, la infinita pequeñez de los espacios interatómicos es un absurdo. Habrá un punto, habrá un grado de sutileza en el cual, si los átomos son suficientemente numerosos, los interespacios desaparecerán y la masa será absolutamente una. Pero al dejar de lado ahora la idea de la constitución atómica, la naturaleza de la masa se deslizará inevitablemente a nuestra concepción del espíritu. Está claro, sin embargo, que es tan materia como antes. La verdad es que resulta imposible concebir el espíritu, puesto que es imposible imaginar lo que no es. Cuando nos jactamos de haber llegado a concebirlo, hemos engañado simplemente nuestro entendimiento con la consideración de una materia infinitamente rarificada.

P. —Me parece que hay una objeción insuperable a la idea de la absoluta unidad, y ella es la ligerísima resistencia experimentada por los cuerpos celestes en sus revoluciones a través del espacio, resistencia que ahora sabemos, es verdad, existe en cierto grado, pero que, sin embargo, es tan ligera que aun la sagacidad de Newton la pasó por alto. Sabemos que la resistencia de los cuerpos es principalmente proporcionada a su densidad. La unidad absoluta es la densidad absoluta. Donde no hay interespacios no puede haber paso. Un éter absolutamente denso detendría de una manera infinitamente más efectiva la marcha de una estrella que un éter de diamante o de acero.

V. —Su objeción se contesta con una facilidad que está casi en proporción con su aparente irrefutabilidad. Con respecto a la marcha de una estrella, no puede haber diferencia entre que la estrella pase a través del éter o el éter a través de ésta. No hay error astronómico más inexplicable que el que relaciona el conocido retardo de los cometas con la idea de su paso a través del éter, pues por sutil que se suponga ese éter detendría toda revolución sideral en un período mucho más breve que el admitido por esos astrónomos, quienes han intentado suprimir un punto que consideraban imposible de entender. El retardo experimentado es, por el contrario, aproximadamente el mismo que puede esperarse de la fricción del éter en el pasaje instantáneo a través del astro. En un caso, la fuerza de retardo es momentánea y completa en sí misma; en el otro, es infinitamente acumulativa.

P. —Pero en todo esto, en esta identificación de la simple materia con Dios, ¿no hay nada de irreverencia? (Me vi obligado a repetir esta pregunta antes de que el hipnotizado comprendiera cabalmente su sentido).

V. —¿Puede usted decir por qué la materia ha de ser menos reverenciada que la mente? Usted olvida que la materia de la cual hablo es, en todo sentido, la verdadera «mente» o «espíritu» de las escuelas, sobre todo en lo que concierne a sus elevadas propiedades, y es, al mismo tiempo, la «materia» para estas escuelas. Dios, con todos los poderes atribuidos al espíritu, es tan sólo la perfección de la materia.

P. —¿Afirma usted, entonces, que la materia indivisa, en movimiento, es pensamiento?

V. —En general, el movimiento es el pensamiento universal de la mente universal. Este pensamiento crea. Todas las cosas creadas no son sino los pensamientos de Dios.

P. —Usted dice «en general».

V. —Sí. La mente universal es Dios. Para las nuevas individualidades es necesaria la materia.

P. —Pero usted habla ahora de «mente» y de «materia» como lo hacen los metafísicos.

V. —Sí, para evitar la confusión. Cuando digo «mente» me refiero a la materia indivisa o última; cuando digo «materia» me refiero a todo lo demás.

P. —Usted decía que «para las nuevas individualidades es necesaria la materia».

V. —Sí, pues la mente, en su existencia incorpórea, es simplemente Dios. Para crear los seres individuales, pensantes, era necesario encarnar porciones de la mente divina. Así es individualizado el hombre. Despojado de su envoltura corporal sería Dios. El movimiento particular de las porciones encarnadas de la materia indivisa es el pensamiento del hombre, así como el movimiento del todo es el de Dios.

P. —¿Dice usted que despojado de su envoltura corporal el hombre sería Dios?

V. —(Después de mucho vacilar). No pude haber dicho eso, es un absurdo.

P. —(Recurriendo a mis notas). Usted dijo que «despojado de su envoltura corporal el hombre sería Dios».

V. —Y es verdad. El hombre así despojado sería Dios, sería desindividualizado. Pero no puede despojarse jamás de esa manera —por lo menos nunca podrá—, a menos que imaginemos una acción de Dios que vuelve sobre sí misma, una acción inútil, sin finalidad. El hombre es una criatura. Las criaturas son pensamientos de Dios. Está en la naturaleza del pensamiento ser irrevocable.

P. —No comprendo. ¿Usted dice que el hombre nunca podrá desprenderse de su cuerpo?

V. —Digo que nunca será incorpóreo.

P. —Explíquese.

V. —Hay dos cuerpos: el rudimentario y el completo, que corresponden a las dos condiciones de la crisálida y la mariposa. Lo que llamamos «muerte» es tan sólo la penosa metamorfosis. Nuestra presente encarnación es progresiva, preparatoria, temporaria. Nuestro futuro es perfecto, definitivo, inmortal. La vida definitiva constituye la finalidad absoluta.

P. —Pero de la metamorfosis de la crisálida tenemos un conocimiento palpable.

V. —Nosotros sí, pero la crisálida no. La materia que compone nuestro cuerpo rudimentario está al alcance de los órganos de este cuerpo, o, más claramente, nuestros órganos rudimentarios se adaptan a la materia que forma el cuerpo rudimentario, pero no al que compone el cuerpo definitivo. Éste escapa así a nuestros sentidos rudimentarios, y sólo percibimos la envoltura que cae al morir, desprendiéndose de la forma interior, no esa misma forma interior; pero esta última, así como la envoltura, es apreciable para los que ya han adquirido la vida definitiva.

P. —Usted ha dicho a menudo que el estado mesmérico se asemeja estrechamente a la muerte. ¿Cómo es eso?

V. —Cuando digo que se parece a la muerte, aludo a que se asemeja a la vida definitiva, pues cuando estoy en trance los sentidos de mi vida rudimentaria quedan en suspenso y percibo las cosas exteriores directamente, sin órganos, a través de un intermediario que emplearé en la vida definitiva, inorganizada.

P. —¿Inorganizada?

V. —Sí; los órganos son mecanismos mediante los cuales el individuo se pone en relación sensible con clases y formas particulares de materia, con exclusión de otras clases y formas. Los órganos del hombre están adaptados a esta condición rudimentaria y sólo a ésta; siendo inorganizada su condición última, su comprensión es ilimitada en todos los órdenes, salvo en uno: la naturaleza de la voluntad de Dios, es decir, el movimiento de la materia indivisa. Usted tendrá una idea clara del cuerpo definitivo concibiéndolo como si fuera todo cerebro. No es eso; pero una concepción de esta naturaleza lo acercará a la comprensión de su ser. Un cuerpo luminoso imparte vibración al éter. Las vibraciones engendran otras similares dentro de la retina; éstas comunican otras al nervio óptico. El nervio envía otras al cerebro, y el cerebro otras a la materia indivisa que lo penetra. El movimiento de esta última es el pensamiento, cuya primera ondulación es la percepción. De esta manera la mente de la vida rudimentaria se comunica con el mundo exterior, y este mundo exterior está limitado para la vida rudimentaria, por la idiosincrasia de sus órganos. Pero en la vida definitiva, inorganizada, el mundo exterior llega al cuerpo entero (que es de una sustancia afín al cerebro, como he dicho), sin otra intervención que la de un éter infinitamente más sutil que el luminoso; y todo el cuerpo vibra al unísono con este éter, poniendo en movimiento la materia indivisa que lo penetra. A la ausencia de órganos especiales debemos atribuir, además, la casi ilimitada percepción propia de la vida definitiva. En los seres rudimentarios los órganos son las jaulas necesarias para encerrarlos hasta que tengan alas.

P. —Usted habla de «seres» rudimentarios. ¿Hay otros seres pensantes rudimentarios además del hombre?

V. —Las numerosas acumulaciones de materia sutil en nebulosas, planetas, soles y otros cuerpos que no son ni nebulosas, ni soles, ni planetas tienen la única finalidad de dar pábulo a los distintos órganos de infinidad de seres rudimentarios. De no ser por la necesidad de la vida rudimentaria, previa a la definitiva, no hubiera habido cuerpos como éstos. Cada uno de ellos es ocupado por una variedad distinta de criaturas orgánicas, rudimentarias, pensantes. En todas los órganos varían según los caracteres del lugar ocupado. A la muerte o metamorfosis, estas criaturas que gozan de la vida definitiva —la inmortalidad— y conocen todos los secretos, salvo uno, actúan y se mueven en todas partes por simple volición; habitan, no en las estrellas, que nosotros consideramos las únicas cosas palpables para cuya distribución ciegamente juzgamos creado el espacio, sino el espacio mismo, ese infinito cuya inmensidad verdaderamente sustancial se traga las estrellas al igual que sombras, borrándolas como no entidades de la percepción de los ángeles.

P. —Usted dice que, «de no ser por la necesidad de la vida rudimentaria», no hubiera habido estrellas. ¿Pero por qué esta necesidad?

V. —En la vida inorgánica, así como generalmente en la materia inorgánica, no hay nada que impida la acción de una única y simple ley, la Divina Volición. La vida orgánica y la materia (complejas, sustanciales y sometidas a leyes) fueron creadas con el propósito de producir un impedimento.

P. —Pero de nuevo, ¿qué necesidad había de producir ese impedimento?

V. —El resultado de la ley inviolada es perfección, justicia, felicidad negativa. El resultado de la ley violada es imperfección, injusticia, dolor positivo. Por medio de los impedimentos que brindan el número, la complejidad y la sustancialidad de las leyes de la vida orgánica y de la materia, la violación de la ley resulta, hasta cierto punto, practicable. Así el dolor, que es imposible en la vida inorgánica, es posible en la orgánica.

P. —¿Pero cuál es el propósito benéfico que justifica la existencia del dolor?

V. —Todas las cosas son buenas o malas por comparación. Un análisis suficiente mostrará que el placer, en todos los casos, es tan sólo el reverso del dolor. El placer positivo es una simple idea. Para ser felices hasta cierto punto, debemos haber padecido hasta ese mismo punto. No sufrir nunca sería no haber sido nunca dichoso. Pero se ha demostrado que en la vida inorgánica no puede existir dolor; de ahí su necesidad en la orgánica. El dolor de la vida primitiva en la tierra es la única garantía de beatitud para la vida definitiva en el cielo.

P. —Todavía hay una de sus expresiones que me resulta imposible comprender: «la inmensidad verdaderamente sustancial» del infinito.

V. —Ello es quizá porque no tiene usted una noción suficientemente genérica del término «sustancia». No debemos considerarla una cualidad, sino un sentimiento: es la percepción, en los seres pensantes, de la adaptación de la materia a su organización. Hay muchas cosas en la tierra que nada serían para los habitantes de Venus, muchas cosas visibles y tangibles en Venus cuya existencia seríamos incapaces de apreciar. Pero, para los seres inorgánicos, para los ángeles, la totalidad de la materia indivisa es sustancia, es decir, la totalidad de lo que designamos «espacio» es para ellos la sustancialidad más verdadera; al mismo tiempo las estrellas, en lo que consideramos su materialidad, escapan al sentido angélico, de la misma manera que la materia indivisa, en lo que consideramos su inmaterialidad, se evade de lo orgánico.

Mientras el hipnotizado pronunciaba estas últimas palabras con voz débil, observé en su fisonomía una singular expresión que me alarmó un poco y me indujo a despertarlo en seguida. No bien lo hube hecho, con una brillante sonrisa que iluminó todas sus facciones cayó de espaldas sobre la almohada y expiró. Observé que, menos de un minuto después, su cuerpo tenía toda la severa rigidez de la piedra. Su frente estaba fría como el hielo. Parecía haber sufrido una larga presión de la mano de Azrael. El hipnotizado, durante la última parte de su discurso, ¿se había dirigido a mí desde la región de las sombras?

Fim

Fonte onde obtive o conto: Literatura.us (assim como faço aqui no blog, o site diz que não tem fins comerciais e os textos são para uso de estudos literários)

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Comentário:

A leitura deste conto de Poe foi motivada pelo contexto de estudo do escritor chileno Roberto Bolaño, disciplina que estou fazendo na graduação de Letras da Universidade de São Paulo. Além deste conto, li também o "O caso do Sr. Valdemar", também de Poe. Ambos os contos têm a temática do Mesmerismo ou Magnetismo Animal.

O romance de Bolaño "Monsieur Pain" (1999) faz referência a esse tema do Mesmerismo. O conto também tem um momento que nos lembra o conto de Poe "El hombre de la multitud".


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Leitura: A Quinta-Coluna (1938) - Ernest Hemingway


Hemingway escreveu esta peça estando em Madri
sob bombardeio dos fascistas de Franco.

Refeição Cultural

De pouco em pouco, vou conhecendo as obras do grande escritor americano Ernest Hemingway. Acabei a leitura da única peça de teatro feita por ele, em 1938, no auge da Guerra Civil Espanhola. E ele nos diz em que condições a escreveu: se encontrava no cenário da guerra, a cidade de Madri, que estava sob ataque das forças franquistas.

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"Todos os dias éramos bombardeados pelos canhões postados à retaguarda de Leganés, nos contrafortes das colinas de Garabitas, e o hotel Flórida, onde vivíamos e trabalhávamos, foi atingido por mais de trinta e oito projéteis de grande poder explosivo..." (Prefácio)
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Até o ano passado (2016), eu conhecia duas obras de Hemingway, que acabei relendo antes de começar as leituras de novos trabalhos: O velho e o mar (1952) e O sol também se levanta (1926). Neste ano, já li Adeus às armas (1929) e Por quem os sinos dobram (1940).

As postagens no Blog sobre Hemingway podem ser lidas clicando AQUI.

Muitas pessoas não sabem o que quer dizer "quinta-coluna". Eu conheci o significado quando entrei para o movimento sindical.

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"(...) A história conta que quatro colunas das forças golpistas avançaram sobre Madri e a mantiveram sob ataque. Havia, no entanto, uma força agindo dentro da cidade, transmitindo informações - indicando alvos para os bombardeios -, realizando atos de sabotagem e assassinatos. Era a chamada Quinta-Coluna, termo que passou a designar grupos ou indivíduos que atuam subrepticiamente, num país, ou num partido, a serviço de seus inimigos..." (Apresentação)
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Dias atrás, ouvi a expressão em uma declaração do Senador da República, Roberto Requião (PR), quando ele disse o que pensa do sujeito que preside a nossa Petrobras após o Golpe de Estado que o Brasil sofreu em 2016. O sujeito é um lesa-pátria e está destruindo a capacidade operacional e de investimento da empresa e está vendendo a preço vil nossas reservas de petróleo e o nosso patrimônio nacional. Requião diz que ele ou é um idiota ou um Quinta-Coluna, um infiltrado da CIA para entregar a nossa soberania nacional na área.

A edição que tenho, da Bertrand Brasil, traz dois textos de apresentação. Um de Ênio Silveira, o tradutor, e outro de Luiz Antonio Aguiar. O Prefácio do próprio Hemingway fala sobre o contexto em que ele escreveu a obra.

Guerra é guerra. Eu sempre disse minha opinião a respeito de preferir a valorização da Política em relação à guerra, para a solução das grandes questões das organizações sociais. A direita e os grandes donos do capital atuam para que a política seja enfraquecida e para que o povo seja alienado politicamente, de maneira que seja mais fácil a operação de manipulação das massas através dos aparelhos ideológicos de comunicação e cultura.

Hemingway nos lembra, em seu prefácio, da violência existente no contexto de guerra, de não-política.

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"As forças inimigas que avançavam sobre Madri não tinham o hábito de poupar seus prisioneiros. Da mesma forma, os membros da quinta-coluna que fossem apanhados dentro da cidade nas semanas iniciais da Guerra Civil eram também eliminados sumariamente. Com o correr do tempo, passaram a ser submetidos à Justiça e condenados a trabalhos forçados ou à morte, dependendo da gravidade dos crimes que houvessem cometido contra a República. Nos primeiros dias, entretanto, eram sempre fuzilados. Mereciam isso, pelas regras de luta, e por certo o esperavam." (Hemingway)
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Enfim, tenho me identificado muito com as obras deste grande autor do século 20. A leitura é recomendável para os amantes da literatura universal.

Abraços aos amig@s leitores.

William

domingo, 30 de julho de 2017

Diário e reflexões - 300717



Pôr do Sol em Foz do Iguaçu. Foto de William Mendes.

Refeição Cultural

Domingo. Estou me preparando para iniciar mais uma semana de lutas pela entidade de autogestão em saúde dos trabalhadores do Banco do Brasil, onde sou diretor eleito pelos associados. Será uma semana intensa que só terminará no sábado de manhã, quando eu chegar das Conferências de Saúde que faremos na Bahia e em Sergipe.

Hoje fiz uma caminhada de 20k em 3h30' como parte do treinamento que estou tentando fazer para chegar bem à Romaria que farei daqui alguns dias lá em Minas Gerais. Com o passar dos anos, a gente acaba conhecendo melhor o nosso corpo. Ao optar por caminhar ao invés de correr nas últimas semanas, porque tenho que preparar o corpo para andar por horas a fio, minha pressão arterial aumentou (por diversos motivos, na verdade). Por uma questão de saúde, após a Romaria será preciso retomar com vigor as corridas porque só elas abaixam minha pressão.

Não ando com muito ânimo para escrever por causa da tristeza que tenho carregado ao ter consciência de tudo que está se passando com o mundo ao meu redor, com o meu País vilipendiado pelos golpistas, com a ascensão do fascismo e com o predomínio do ódio nos corações das pessoas neste quarto da história. Não tem como não sofrer sendo um ser humano que se importa com os outros, com as pessoas de minha classe social - a classe trabalhadora -, não tem como não sofrer com a destruição da natureza e esgotamento dos recursos naturais por causa da ganância e do consumo do sistema capitalista; sofrem aqueles que em sua ética, no seu caráter, se importam com o bem comum.


Adaptação leve e prazerosa da
obra de Jack London.

Mas eu me esforço em sentar e escrever. Falar para o mundo, por mais que seja para poucas pessoas (se comparado com qualquer dos representantes das ideias que combato no mundo, que têm milhões de seguidores), falar o que pensamos e o que defendemos é preciso. Salvar o mundo, salvar a natureza, salvar as pessoas, só é possível se a gente não desistir de fazer o que fazemos: lutar com as armas que temos e no espaço social em que estamos empreendendo a luta. Minhas armas são minhas palavras e minhas atitudes.

Nesta semana que passou, eu li um livro ilustrado que comprei pela internet a pedido de meu filho e, por desatenção, comprei errado. Era para comprar o romance do escritor americano Jack London, O chamado da floresta (1903), e eu comprei uma edição adaptada por Sonia Robatto, com ilustrações. Leitura agradável e valeu a pena. Fiquei pensando na estória de Buck, um filhote de são-bernardo com collie, roubado na Califórnia e levado para o Alasca. O destino reservou uma vida dura para Buck a partir de então, mas com o tempo, ele passou a ouvir o chamado da floresta, atiçando em si a busca por sua verdadeira natureza.


O totalitarismo que o mundo temia no século 20 virou o
totalitarismo inesperado dos donos da mídia,
manipulando o mundo.

Assisti ao filme 1984, na primeira versão para o cinema, de 1956. A obra é baseada na ficção de George Orwell 1984 (1949). Edmond O'Brien interpreta o personagem principal Winston Smith e a bela Jan Sterling interpreta Julia. Michael Redgrave é o General O'Connor. Gostei mais desta versão em preto e branco do que da outra que saiu em 1984, também inglesa. Ano passado, fiz uma série de postagens enquanto relia o clássico de Orwell e enquanto o Grande Irmão do mundo real (Globo/PIG) aplicava novo golpe de Estado ao Brasil (ler postagens com referência à obra 1984 AQUI). Ao saber o final da estória ficcional e ao ver a história real do mundo dominado pelos donos dos meios comerciais de manipulação global, eu me pergunto se haverá esperanças. Como estão as coisas, não. Só se houver uma reviravolta no controle dos meios midiáticos, inverter-se os donos.

Eu estive com a família em Foz do Iguaçu dias atrás e quis fazer umas postagens de fotos. Não consegui. Aquele mundo das águas é uma das coisas mais fantásticas do planeta Terra. Recomendo que cada pessoa que não conhece as Cataratas do Iguaçu se programe para ir até lá. É uma das maravilhas do mundo.


Maravilha do nosso mundo, as Cataratas do Iguaçu.
Foto de William Mendes.

Por fim, eu comecei a ler neste fim de semana o icônico Casa-grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre. Meu desejo era ter acabado o primeiro capítulo. Li por horas no sábado, mas não consegui. Porque li devagar e com reflexões. Só a Introdução de Freyre já é grande. Comecei a entender qual a tese que o autor desenvolve no ensaio.

Eu refleti que este será o último livro do ano porque preciso aproveitar meus finais de semana para trabalhar em meus dois blogs e já não fiz isso neste fim de semana.

Fim de minhas reflexões. Um abraço aos amig@s que passaram pela postagem e partilharam minhas palavras.

William

sábado, 17 de junho de 2017

Leitura: Por quem os sinos dobram (1940) - Ernest Hemingway


Livros que li de Hemingway e livros
que li do ano passado pra cá.

Refeição Cultural

"Hoje é apenas mais um dia entre todos os que virão. Mas o que vai acontecer em todos os outros dias que ainda virão depende do que você fizer hoje. Foi assim o ano todo. Foi assim tantas vezes. Toda esta guerra é assim..." (Robert Jordan, Por quem os sinos dobram)


"Ele tinha apenas uma coisa a fazer: deveria estar muito consciente de sua tarefa e enfrentar o que quer que acontecesse, sem outras preocupações. Preocupar-se era o mesmo que sentir medo. Simplesmente tornava tudo mais difícil..." (narrador, Por quem os sinos dobram)


Ler Por quem os sinos dobram (1940), de Ernest Hemingway, é um feito pessoal de prazer e autoconhecimento. Tenho um sonho antigo de ler muitas obras clássicas da literatura mundial. O desejo de ler uma lista enorme de livros clássicos é sempre muito maior que a minha capacidade de leitura.

Tenho lido compulsivamente nas poucas horas de folga que tenho de meu trabalho, que é técnico e político e exige muita dedicação e estudos diários. Estar na função eleita de Diretor de Saúde e Rede de Atendimento da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil é um desafio extremamente difícil, principalmente para realizar um mandato da maneira como nos formamos na representação de trabalhadores, de forma intensa e integral.

De Hemingway, passei a vida quase que só conhecendo o seu clássico O velho e o mar (1952), que já li 5 vezes. Foi então que decidi conhecer mais obras dele após reler O sol também se levanta (1926) em janeiro deste ano. Em seguida, acabei lendo Adeus às armas (1929) e agora terminei o grosso volume do romance Por quem os sinos dobram (1940).

Não vou parar por aqui, em relação a Hemingway. Vou atrás de mais algumas obras dele para incluir na lista infindável de livros a ler.

O cenário em que a estória se passa é o da Guerra Civil Espanhola (1936-39). Não foi por acaso que estou enveredando por obras que de alguma forma nos fazem refletir sobre o momento por que passa o nosso querido Brasil após o Golpe de Estado em 2016, aplicado por uma camarilha de ladrões e fascistas com apoio internacional de países imperialistas e de grandes corporações. O mundo passa por um contexto político e econômico muito semelhante ao período que marcou a 1ª Guerra Mundial, o crash de 1929 e a 2ª Guerra Mundial.

Ao ler sobre as atrocidades cometidas na Guerra Civil Espanhola, entre os dois lados, e ver o quanto o fato foi marcado pelo ódio e pela influência das diversas questões pungentes à época - comunismo, socialismo, republicanismo, liberalismo, fascismo, nazismo, catolicismo, totalitarismo e outros ismos - vemos o quanto estamos próximos de guerras semelhantes, tanto internas nos países, quanto entre países ou grupos que extrapolam bandeiras e pátrias.

Desde o ano de 2016 tenho lido muito a respeito de contextos históricos que levaram países à guerras e golpes de Estado. Mesmo trabalhando jornadas diárias em 3 períodos durante meu mandato de gestor de saúde, escrevi 181 postagens neste Blog ano passado e já postei 65 textos neste ano.

Enfim, dedicar horas de nossa vida à leitura e estudo das grandes questões humanas é algo central para não sermos meras marionetes de sistemas de manipulação de massas. Estudar e ler textos complexos é base para a formação intelectual e moral dos seres humanos.

As duas citações que coloquei de epígrafe retratam bastante o que penso de meu trabalho militante pela entidade de saúde que me destacaram como tarefa de representação de trabalhadores.

Apesar da abertura da Caixa de Pandora em nosso País, do envenenamento do povo brasileiro com um ódio plantado pelos golpistas, liderados pelos empresários dos meios de comunicação monopolizados, eu me formei acreditando na Política como solução pacífica das controvérsias, e para evitar as guerras e mortes e extermínios dos outros, do diferente, do diverso de mim.

Recomendo muito a leitura desta obra de Hemingway, a Espanha de ontem tem muita semelhança com o Brasil de hoje.

Abraços,

William
Um leitor

domingo, 14 de maio de 2017

Por quem os sinos dobram (Hemingway) - Frases



Minha edição de "Por quem os sinos dobram".

Refeição Cultural

Estou na leitura desta obra imponente e clássica de Hemingway e da literatura universal. O cenário da estória é a Guerra Civil Espanhola, uma trincheira entre duas visões de mundo que se apresentaram ali: uma sociedade de cunho fascista de um lado e uma sociedade onde a República representava ideais socialistas.

Ao longo de quase trezentas páginas que já li, me peguei refletindo a respeito de várias frases ou pensamentos dos personagens republicanos e partisans. Registro algumas delas aqui.


Lutar para ter um bom lugar para se viver

"Todos os trabalhos que eles, os partisans, executaram, trouxeram perigo adicional e má sorte para as pessoas que os abrigaram e trabalharam com eles. Para quê? Para que, um dia, não houvesse mais perigo e o país se tornasse um bom lugar para se viver. Isto era verdade, não importa o quanto soasse trivial"


A motivação de um partisan

"(...) Lutava nesta guerra porque ela começara num país que ele amava e porque acreditava na República e, se esta fosse destruída, a vida seria insuportável para todas as pessoas que acreditavam nela..."


Hemingway?

"Então, qual era a sua política? 'Não tenho nenhuma, neste momento', disse para si mesmo. 'Mas não conte isso para ninguém', pensou. 'Nunca admita. E o que você fará depois da guerra? Vou ganhar a vida ensinando espanhol como antes, e vou escrever um livro também. Aposto', disse em pensamento. 'Aposto que será fácil.' "


Missão de alto risco exige ausência de vínculos (amor, por exemplo)

"Maria era algo difícil de se combinar ao seu fanatismo. Até o momento ela não tinha afetado sua resolução, mas ele preferiria não morrer. Rejeitaria um final de herói ou de mártir com alegria. Não queria repetir a batalha no desfiladeiro das Termópilas, nem ser um novo Horácio, uma ponte, nem o menino holandês com o dedo no dique. Não. Ele gostaria de passar um tempo com Maria. Era a expressão mais simples da coisa. Queria passar um longo, longo tempo com ela"


Hemingway de novo?

O personagem principal Robert Jordan em pensamento: "O que você vai ser, ou para que servirá quando deixar o serviço da República? Isso é uma enorme dúvida. Mas o meu palpite é que você irá livrar-se de tudo ao escrever sobre isso. Será um bom livro, se conseguir escrevê-lo. Muito melhor do que o outro."


Amor em tempos de guerra (Robert Jordan em pensamentos)

"Quer dizer, eu não sou um romântico adorador da Mulher Espanhola, nem nunca pensei num caso amoroso por aqui como algo mais do que seria em qualquer outro país. Mas quando estou com Maria eu a amo, e me sinto, literalmente, como se fosse morrer e jamais acreditei que isso pudesse acontecer."

"(...) Você ficou desarmado logo que a viu pela primeira vez. E quando ela abriu a boca e falou com você, já havia acontecido, você sabe disso. Agora que já está sentindo isso, mesmo nunca tendo pensado que fosse lhe acontecer, não tem sentido tentar sujar a coisa; você sabe o que é, e reconhece que aconteceu já na primeira vez que olhou para ela trazendo aquela travessa de ferro."

Ele só tem dois dias antes da ação para a qual foi designado: 

"Bem, é isto, é o que tem acontecido, melhor você admitir agora, nunca terá duas noites inteiras com ela. nem uma vida, nem viverão juntos, nem vai ter o que as pessoas normalmente têm, não mesmo. Uma noite que é passado, uma vez numa tarde, uma noite por vir - talvez. Não, senhor."

"Você pede o impossível. O impossível. Se ama essa garota tanto quanto diz, é melhor amá-la seriamente e compensar pela intensidade o que à relação irá faltar em duração e continuidade. Está ouvindo? Nos velhos tempos as pessoas devotavam uma vida inteira a isso. E agora, você encontra, dispõe de duas noites e fica pensando de onde a sorte veio. Duas noites. Duas noites para amar, honrar e respeitar. No melhor e no pior. Na doença e na morte. Não, não era assim. Na doença e na saúde. Até que a morte os separe. Em duas noites. Mais ou menos isso, mais ou menos assim e agora afaste estes pensamentos. Não lhe fazem bem. Não faça nada que não faça bem. Certo, acabou."


Comentário Final


Essas frases são do capítulo treze. A coleção de frases que já me fizeram refletir é grande. Depois registro mais algumas.

E pensar que estamos caminhando para algo imponderável em nosso querido Brasil após o Golpe de Estado. Após o envenenamento do povo brasileiro com ódio e intolerância da pior espécie por parte da pequena elite vira-latas brasileira e por seus meios de comunicação.

As pessoas não têm noção da tragédia que é uma guerra, mais ainda quando é interna e temos o mesmo povo se matando uns aos outros.

É isso!

William

sábado, 15 de abril de 2017

Leitura: Adeus às armas (1929) - Ernest Hemingway



(texto atualizado em 29/4/17)




Refeição Cultural

"Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos - indiferentemente. Se vocês não estão em nenhuma dessas categorias, o mundo vai matar vocês, do mesmo modo. Apenas não terá pressa em fazer isso"

Eu achei esse pensamento do narrador da estória muito forte. Fiquei pensando muito nessa frase durante a leitura do livro de Hemingway e fiquei refletindo sobre o contexto atual do nosso País e do mundo neste quarto da história mundial.

Outro pensamento do personagem narrador, Henry, que antecede o citado acima, é sobre o amor e o sentimento ou não de solidão ao estar com uma pessoa ao seu lado. Também achei muito bonito.

"Naquela noite, no hotel, em nosso quarto, com o comprido corredor do outro lado da porta e nossos sapatos lá fora, um espesso tapete sobre o assoalho, com a chuva caindo e o quarto aconchegante e alegre, as luzes apagadas e a excitante maciez dos lençóis de linho, a cama tão confortável, tínhamos a sensação de estar em nossa casa; não nos sentíamos mais sozinhos, vagando pela noite à procura um do outro, sem sair do lugar. Tudo o mais tornou-se irreal. Dormíamos quando estávamos cansados e, se um acordava, acordava também o outro, e assim nenhum dos dois se sentia sozinho. Com frequência, um homem ou uma mulher tem vontade de ficar sozinho, e, se os dois se amam, um sente ciúmes desses momentos do outro, mas posso dizer com convicção que jamais sentimos isso. Podíamos até nos sentir sozinhos juntos, em relação a todos os demais. Isso só tinha me acontecido uma vez. Eu me senti sozinho acompanhado de muitas garotas - e essa é a solidão mais certa que existe. Mas nunca nos sentimos sozinhos, quando estávamos juntos, e nunca tivemos medo de nada. Sei que à noite o mundo não é o mesmo que de dia. Que as coisas que pertencem à noite não podem ser explicadas durante o dia, porque de dia não existem - a noite se torna ameaçadora para pessoas solitárias, essas que já de começo conhecem a solidão. Mas, junto a Catherine, quase não havia diferença entre noite e dia, exceto que para mim as noites eram melhores"


Declaração de amor muito bonita do jovem tenente.



REFLEXÕES

Eu me sinto bem quando completo a leitura de mais um clássico da literatura mundial. É muito bom preencher lacunas culturais.

É uma pena que no mundo em que vivo não haja espaço para sentar com amantes da literatura e da cultura e ficar horas debatendo e analisando obras clássicas. Eu gostaria muito de vivenciar momentos assim.

Talvez por isso sempre tenha sonhado em ser professor, para poder passar meus dias em locais com pessoas discutindo obras literárias e temas de conhecimento. (Mas fui parar no movimento social fazendo a luta coletiva que já fazia de forma individual desde que me entendo por cidadão do mundo)

A leitura desse livro se deu entre os dias 26 de março e 14 de abril. Confesso que o meu contexto de leitura foi dos mais difíceis. Enquanto no romance, o casal de personagens queria fugir do cenário da 1ª Guerra Mundial e encontrar um canto para viver em paz, na minha vida pessoal também queria eu encontrar um pouco de paz e a cada dia que passava mais distante ficava do alcance deste desejo.

Nesses dias de leitura tive morte na família e outras crises familiares; tive uma rotina de ataques internos na burocracia de meu trabalho; e, a cada dia, vejo o desmantelamento do meu mundo, o Brasil que ajudei a construir nos últimos vinte anos. Estamos vivendo agora sob estado de exceção, dominado por uma cleptocracia que tomou conta de todas as instituições do Estado, no pós-golpe. 

Para aqueles que se importam e que têm consciência de classe, morremos um pouco todo dia ao ver o que estão fazendo com o nosso povo e o nosso País.

Em vários momentos da obra, com o personagem e seus companheiros nos cenários de batalha, eu ficava pensando sobre a alimentação dos soldados no front nos anos da 1ª Guerra Mundial e nas demais guerras de longo prazo. Pensem na dificuldade de se fazer qualquer tipo de refeição nos cenários de guerra.

E pensar que os donos do mundo, o 1% detentor das corporações que dominaram até os países, estão a organizar guerras neste momento, estão jogando bombas por aí, destruindo democracias, pilhando Estados e patrimônios e direitos dos povos, e a perspectiva do amanhã não é de paz, é de guerra sem controle.

Triste. O final do romance também foi muito triste. Mas me lembrou a vida real.

Recomendo a leitura. Ler Hemingway é algo que vale a pena. Minha próxima leitura dele será "Por quem os sinos dobram" (1940), que até já comprei (o livro é bem volumoso). Mas tenho uns livros na frente como os que ganhei no aniversário, do Chico Buarque, e outros que já selecionei para os minutos livres de leitura.

Abraços aos amigos e amigas leitores.

William

domingo, 12 de março de 2017

Leitura: Comunidades Imaginadas (1991) - Benedict Anderson



Lido o 1º dos quatro livros que defini para o próximo período.

Refeição Cultural

Terminei o primeiro dos quatro livros que defini como próximas metas de leitura. Fui muito disciplinado para empreender uma leitura densa e focada entre a sexta-feira à noite e este domingo. Além de minha edição ser em espanhol, a letra é pequena e tem rodapés enormes.

Este livro tem um quê especial em sua leitura porque a ideia de "Comunidades Imaginadas" tem muita relação com o que faço em minha missão atual de gestor eleito de uma entidade de saúde de trabalhador, a "Comunidade Banco do Brasil".

Quando vi este livro lá em 2008, me interessei na hora pelo tema. A minha história de leitura é um verdadeiro dilema entre conciliar minhas tarefas de proletário e representante de trabalhadores, além de estudante, pois na época ainda estava terminando matérias na Faculdade de Letras da USP. Li dois quintos do livro entre 2009 e 2010 e depois nunca mais peguei.

Para retomar a leitura, fiz uma bateria de revisão de várias partes lidas antes de dar sequência até o final. Os conceitos de Benedict Anderson me fizeram refletir muito a respeito de várias coisas de nosso mundo e do cotidiano em que vivo e atuo. Ao buscar informações sobre o autor, vi que ele faleceu em dezembro de 2015. Uma pena!

Para ler postagens onde fiz alguns comentários sobre a obra, clique AQUI. Os textos estão sem a revisão atual que estou fazendo no Blog, mas têm citações e comentários interessantes.




A leitura para combater o
pessimismo da razão.

COMBATER A TRISTEZA COM MUITO TRABALHO E ESTUDOS

Após o Golpe de Estado e a atual destruição de minha querida "Comunidade Imaginada: Brasil" me transformei em uma pessoa com uma tristeza pessoal profunda. Isso não interfere em minhas lutas e nas minhas tarefas de cidadão defensor da vida em sociedade, da democracia, do fortalecimento da política como solução pacífica das controvérsias e do convívio entre todos os viventes de uma determinada "comunidade".

Quando paro para pensar no que está acontecendo com os direitos sociais do povo brasileiro e da falta de perspectivas de presente e futuro, não tem como não sentir uma tristeza profunda. Mas até por isso, estou mergulhado em minhas tarefas revolucionárias e contra-hegemônicas em defender a autogestão Cassi e os direitos em saúde dos associados e participantes. E tento ter resistência física e intelectual para as lutas diárias.

Vejam só, tenho chegado às sextas-feiras tão cansado das batalhas internas e externas pela Cassi e associados que aos sábados me pego prostrado para qualquer atividade física. Neste domingo, ainda acordei cansado e nem pude ir ao Eixão (DF) correr. Só agora de noite senti que poderia correr uns 6k para fazer a minha parte no autocuidado.

É isso. Para não ser longo, vamos terminando a postagem. Eu recomendo a leitura deste livro. Tem tradução em português, lançada em 2008. Vi na internet que é fácil para se adquirir.

Abraços,

William