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sábado, 6 de março de 2021

Por que ler os clássicos?



(redação melhorada algumas vezes até 14h35, de 7/3/21)

Refeição Cultural

Em um momento deste sábado, 6 de março, comentava com minha esposa sobre uma questão trivial e doméstica: uma suposta diminuição de cabelos e uma tendência a ficar careca, coisa estranha no meu caso porque isso não é um fator genético em minha família e sempre tive muito cabelo. Avaliei que o fato talvez se deva à questão do estresse psicológico que tenho vivido desde o golpe de Estado no Brasil e suas trágicas consequências. 

As pessoas conscientes estão sofrendo tanto com a destruição do Brasil que os efeitos poderiam ser semelhantes a traumas de guerra ou situações de extremo desgaste emocional, e os efeitos no corpo podem ser terríveis em situações assim. 

Na hora do comentário, corri à estante, peguei um livro, abri certa página e li para ela, com lágrimas nos olhos:

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"(Sarajevo, 1946.) Aqui, como em Belgrado, vejo nas ruas um considerável número de moças cujos cabelos estão ficando grisalhos, ou já o estão completamente. Têm os rostos atormentados mas ainda jovens, enquanto as formas dos corpos traem ainda mais claramente sua juventude. Parece-me ver como a mão desta última guerra passou pelas cabeças desses seres frágeis [...]

     Tal visão não pode ser preservada para o futuro; estas cabeças logo se tornarão mais grisalhas ainda e desaparecerão. É uma pena. Nada poderia falar tão claramente sobre nossa época às futuras gerações quanto essas jovens cabeças grisalhas, das quais se roubou a despreocupação da juventude.

     Que pelo menos tenham um memorial nesta notinha. 

           Signs by the roadside (Andric, 1992, p. 50)" (in: HOBSBAWM, Era dos extremos, São Paulo: Companhia das Letras, 2006) 

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Se pessoas como eu, com experiência e certo coro grosso - que vivi décadas enfiado nas lutas sindicais e do mundo das guerras entre capital e trabalho - sentem os efeitos psicológicos da destruição total do presente e das perspectivas de futuro, imagino como estão sofrendo e estão perdidos os jovens como nossos filhos e sobrinhos, dos quais "se roubou a despreocupação da juventude", jovens que estavam no meio do caminho em suas graduações universitárias e sentiram na pele toda a destruição causada por esses desgraçados no poder por golpe e por manipulação do comportamento do povo brasileiro através das ferramentas tecnológicas e políticas da atualidade, ferramentas sob o poder da elite porque são necessários recursos financeiros elevados para o efeito desejado em escala.

O ato de ler clássicos como Hobsbawm nos capacita para a argumentação ao obtermos referências sobre a vida como ocorreu comigo no instante em que citei a passagem do livro Era dos extremos. Italo Calvino nos fala sobre isso em seu artigo memorável.


Hoje terminei a leitura de mais um livro clássico da literatura mundial - Madame Bovary, publicado por Flaubert em 1856. Ler os grandes romances, ensaios e textos filosóficos nos faz crescer mentalmente, nos faz ter referências na análise dos diversos contextos da vida e da sociedade humana.

O contexto da pandemia mundial de Covid-19 e a saída da condição de venda de minha força de trabalho para o modo de produção capitalista após quase quarenta anos de trabalho têm permitido que eu tente ler um pouco mais leituras literárias, históricas e filosóficas ao sabor do meu desejo. Não tanto quanto eu imaginei porque minha cabeça política me vincula a todo o sofrimento causado pela destruição do mundo que ajudei a construir nas últimas décadas e isso emperra minha capacidade de leitura.

Italo Calvino enumera um conjunto de conceitos muito interessantes em relação aos motivos para se ler os clássicos. E de fato, se eu pensar rapidamente nos últimos que li, virão em meu auxílio os conceitos que Calvino argumenta em seu artigo. Ganhar experiência e referência é um deles. Veja o que ele diz em relação às leituras na juventude, por exemplo:

"Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude." (CALVINO, Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000)

Em tempos de morte como os tempos que vivemos, com um regime genocida no poder e com a pandemia mundial, livros como A Rosa do Povo, de Drummond, nos fornecem dezenas de versos e pensamentos para dizer, escrever, pensar, gritar, sentir, acolher ao próximo, enfim... nesses dias estou dizendo o tempo todo "o essencial é viver!", verso final do poema "Passagem da Noite".

E assim nos lapidamos, crescemos e ganhamos referências novas com os livros recentemente lidos desde o início até o fim e de uma vez, do ano passado pra cá, ou iniciados há muitos anos e retomados e terminados agora, como foram os casos dos livros do Eduardo Galeano, do Hobsbawm, do Boccaccio (mais apropriado para se ler na pandemia, impossível!), dentre outros. Que dizer, então, da releitura de O processo, de Kafka, para se pensar o Brasil, a Lava Jato, o golpe "com Supremo com tudo"? Quem nunca citou um trecho de poemas de Brecht que atire a primeira pedra (rsrs).

E agora, finalizei a leitura sobre a estória de Ema Rouault (Bovary, após se casar com Carlos). Valeu a pena ler esse clássico? Valeu. Impressiona saber que não mudou muito na atualidade a condição da mulher, a visão da sociedade burguesa em meados do século XIX na França, o racismo, a mercantilização de tudo, o embate entre a ciência e a religião, o patriarcalismo, o machismo, tudo tudo é muito atual se pensarmos que o livro foi escrito num contexto de capitalismo e burguesia de 165 anos atrás.

Enfim, em meio a tanta miséria e tristeza por sermos um povo tão bárbaro e ignorante como o Brasil se mostrou ao mundo após o golpe de 2016, é melhor lermos os clássicos do que não lermos, como diz Calvino ao finalizar seu artigo.

Abraços e se cuidem, se puderem, evitem sair nessas semanas em que estamos num crescendo da contaminação e mortes por Covid-19.

William

Post Scriptum:

Por que a cachaça na foto dos clássicos? Porque só tomando uma dose pra comemorar o meu feito literário! Achei que nunca fosse acabar livros como A era dos extremos, Decamerão e Madame Bovary. Viva! Saúde!


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

220221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

O que registrar nesta segunda-feira, 22 de fevereiro? Temos um cardápio horroroso de opções: o avanço da pandemia de Covid-19 no Brasil e as mortes sem prazo para acabarem (247.143 brasileir@s), a destruição das empresas públicas (Petrobras, BB, Caixa, Banco Central etc), a preparação para o golpe ditatorial (guerra civil com só um lado armado?) que promete se instalar no país com milicianos e bolsonaristas armados até os dentes para calar e exterminar quem pensar diferente do regime neofascista... são muitas coisas horríveis que poderiam ser registradas neste dia comum na vida do povo brasileiro (as tragédias que citei foram normalizadas pelos meios midiáticos formadores de opinião. Tudo está "normal" e segundo eles as instituições "funcionam").

De desgraça, basta o primeiro parágrafo. 

É MELHOR FALAR SOBRE LITERATURA

Vira e mexe estou refletindo a respeito da questão levantada pelo escritor e pensador Italo Calvino que fez um belo artigo com possíveis justificativas em relação à questão colocada por ele: "Por que ler os clássicos".

Dias atrás, acabei a releitura de O processo, do escritor tcheco Franz Kafka, obra do início do século XX. Ao ler a estória ficcional do personagem Joseph K. é possível ver como a ficção pode se confundir com a realidade ao observarmos os acontecimentos no Brasil, país que se encontra sob estado de exceção, destruído por um golpe de Estado e pela tomada do poder por grupos marginais e mafiosos.

Na ficção de Kafka, um bancário acorda numa determinada manhã com homens estranhos em seu quarto informando a ele sobre sua prisão. K. passaria por um processo absurdo e com final inesperado sem que ao menos soubesse do que estava sendo acusado ou o que teria feito de errado.

Vale a pena ler um clássico como esse? Vale. Eu o li pela primeira vez antes de ser um cidadão politizado. E nunca me esqueci do martírio e da sensação de injustiça que senti ao ler o livro. Depois fui encontrar na vida várias situações e processos kafkianos, injustos e totalmente absurdos. O caso do presidente Lula é um exemplo. O meu caso é outro exemplo, que num certo dia me peguei no meio de um processo inventado, cínico, mal e desumano, combinado por agentes do sistema que me julgou em uma instituição onde eu exercia um mandato de representação dos trabalhadores. É um clássico que nos prepara o espírito para as maldades do totalitarismo (hoje, o lawfare é uma das ferramentas desses processos).

Estou lendo Madame Bovary, de Flaubert. O livro é um clássico francês do século XIX, escrito e publicado entre 1856 e 1857. O romance retrata a sociedade burguesa, o racismo, a condição das mulheres, um caso de adultério e o escritor ficou marcado por sua obra. Vale a pena ler esse clássico? Vale. Mesmo a leitura sendo cansativa, pelo estilo descritivo de Flaubert, o enredo nos referencia para a questão da condição das mulheres um século e meio depois. Eu não diria que os avanços são consideráveis nos direitos da mulher. Muitas são as lutas ao longo do tempo pela emancipação e empoderamento das mulheres nas comunidades dos séculos XX e XXI, mas basta falar de uma ou outra questão como o direito ao aborto para vermos que as mulheres ainda são consideradas com menos direitos e autonomia em seus próprios corpos em relação aos homens com orientação heterossexual.

Ao ser informado por meu filho que a trilogia de O poderoso chefão, sendo o 1º filme dirigido por Francis Ford Coppola em 1972 (sequência em 1974 e 1990), iria sair de uma dessas redes de streaming no final deste mês, comentei com ele que eu havia lido o livro de Mario Puzo na adolescência. Mostrei o livro para ele e acabei pegando para reler. Nada nada já li mais de 100 páginas e deu vontade de ler até o fim as quase 500 páginas do livro antes de assistir aos 3 filmes adaptados. Vale a pena ler esse clássico? Vale. É surpreendente vermos a ficção sobre as máfias na primeira metade do século XX ser idêntica à nossa realidade no Brasil pós golpe de Estado em 2016. Políticos sendo assassinados, tráfico de toneladas de drogas com envolvimento de autoridades públicas, a milícia no poder, juízes mais corruptos que os corruptos pés de chinelo que lotam as cadeias. Tudo muito idêntico ao mundo de Don Vito Corleone. (que merda de realidade distópica, heim!)

Enfim, vou seguir lendo enquanto for possível.

William


sábado, 20 de fevereiro de 2021

Livro: Madame Bovary - Gustave Flaubert



Refeição Cultural - Cem clássicos

(postagem durante a leitura da obra. Atenção: contém spoiler)

Madame Bovary é um clássico da literatura francesa e mundial. O livro foi lançado entre 1856 e 1857, primeiro em folhetins (Revue de Paris) e depois em forma de livro. Gustave Flaubert foi um grande escritor do século XIX.

Essa é uma daquelas estórias da literatura clássica que virou referência mundial e mais de um século e meio depois de seu lançamento ela traz um desafio extra ao leitor que se dispuser a lê-la: todos nós conhecemos o enredo e não há segredo quanto ao seu final - um caso de adultério que termina com o suicídio da personagem.

Talvez esse seja o motivo - sabermos o enredo - por eu já levar algumas décadas (rsrs) sem terminar a leitura. Dureza, viu! Eu tenho uma edição dos anos oitenta, daquelas coleções de clássicos da Abril S.A., com tradução de Araújo Nabuco.

Já cheguei a ler até a página cem. Tenho marcações no livro que vão desde 2003 até recentemente, quando li algumas dezenas de páginas em 2020. Em 2009 foi quando cheguei mais longe na leitura. Enfim, neste momento em que organizo a postagem, talvez eu tome vergonha na cara e decida ler a obra até o fim.

Os tempos são de pandemia mundial, de riscos de morte maiores que outras épocas... seria uma merda morrer sem ter lido um clássico como esse!

PRIMEIRA PARTE

Acabei de reler pela enésima vez o 1º capítulo. Ele traz a origem de Carlos Bovary, futuro marido de Ema Rouault (Bovary). A forma como Flaubert descreve espaços e personagens é de primeiríssima qualidade, isso é inegável.

Após a apresentação de Carlos e sua família, o capítulo 2 se desenvolve com sumários que aceleram bastante o tempo. Carlos se forma médico, tem um casamento arranjado com uma viúva - Heloísa, senhora de 45 anos - por questões de independência financeira do rapaz (dote da noiva). Ele conhece o pai de Ema durante um atendimento médico e passa a frequentar a casa dos Rouault. Heloísa morre e deixa Carlos viúvo e pobre, pois a riqueza dela era um engodo. (leitura na sexta, dia 19/2/21)

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Numa revisão rápida, para relembrar a estória, cheguei ao fim da primeira parte, contendo 9 capítulos. No 3º, Carlos acerta o casamento com Ema Houault. No 4º, é a festa do casório, a Sra. Bovary, mãe de Carlos, não recebe a atenção adequada do filho. No 5º, Flaubert nos apresenta uma Ema que compara sua vida a livros de romance. Conhecemos o passado de Ema num convento, no capítulo 6. Ela não se adequou à vida monástica. No 7º, vemos que Ema se enche da modorra da vida conjugal e reclama do marido, que acha um banana. No 8º, quando voltam de um passeio, Ema demite a criada dos Bovary, uma senhora muito antiga na casa. A primeira parte se encerra com o casal mudando de Tostes, por causa dos incômodos de Ema. Carlos estava bem estabelecido no trabalho e vai ter que recomeçar em outro lugar. Ema está grávida. (ainda sexta, 19/2/21)

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SEGUNDA PARTE

A segunda parte contém 15 capítulos. Entre a noite de sexta 19 e sábado 20, li até o capítulo 8. Mas cansei, não deu pra ler o quanto imaginei.

O casal agora vive em Yonville-l'Abbaye, "um burgo a 8 léguas de Ruão, entre a estrada de Abbeville e a de Beauvais, ao fundo de um vale atravessado pelo Rieule, pequeno rio que deságua no Andelle" nos informa o narrador.

Dois personagens se incorporam ao romance, o farmacêutico Homais e o abade Bournisien. Eles vão morar provisoriamente na estalagem da viúva Lefrançois. No capítulo 2, o farmacêutico deixa à disposição de Ema sua biblioteca. Essa informação é importante porque o romance explora essa questão: a influência dos romances na personalidade "vaporosa" de Ema.

A biblioteca tem "Voltaire, Rousseau, Delille, Walter Scott, o Eco dos folhetins, etc.".

O autor constrói uma personagem que tem espírito inquieto, insatisfeito com o que tem. Temos que ler a obra lembrando de quando ela é: meados do século XIX, na França da sociedade burguesa.

Nos capítulos 3 e 4 nasce a filha do casal, Berta. Ema se enamora do jovem Léon, que também reside na estalagem da viúva Lefrançois. O narrador cita várias vezes o quanto Ema tem desprezo por seu marido, Carlos. 

No capítulo 6, Ema visita a igreja local e o abade está ocupado com o catecismo das crianças. Ema estava indecisa sobre o que fazer, mas não encontrou apoio no cura local para evitar uma eventual decisão pelo adultério. Léon, seu amor, vai embora e ela não realiza seu desejo de amor com o jovem.

Vejam o que Ema pensa sobre Berta, sua filha:

"- Que coisa estranha - pensava Ema. - Como é feia esta criança!"

No capítulo 7 aparece um novo conquistador, Rodolfo Boulanger. Ele de cara diz que vai conquistar Ema, só para viver uma aventura no local.

Parei a leitura após o capítulo 8, quando já vemos Ema e Rodolfo enamorados e andando juntos durante o dia de comícios da região. 

ILUSÃO DE SIMULTANEIDADE - O capítulo tem uma técnica narrativa refinada, estudei sobre isso recentemente no livro O tempo na narrativa, de Benedito Nunes. Flaubert desenvolve uma técnica que nos permite ver e acompanhar ao mesmo tempo o casal Ema e Rodolfo conversando e pessoas discursando no comício agrícola de Yonville. Bem legal!

Parei a leitura do romance, li bastante no dia 20/2/21, sábado. Próxima etapa é acabar a segunda parte do livro, são mais 50 páginas e 7 capítulos.

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Leitura do domingo, 21/2/21

O capítulo 9 começa com um sumário que acelera o tempo após a cena anterior, com o dia do comício agrícola de Yonville: "Seis semanas se passaram". 

O marido de Ema, Carlos, praticamente oferece a esposa ao amante, ao sugerir que ela ande de cavalos com Rodolfo Boulanger. Eles passam a ter um caso e Ema faz loucuras bem ousadas para a época.

No capítulo 10 o romance esfria porque Rodolfo está meio sufocado pela amante e Ema reflete com mea culpa que poderia amar seu marido. No 11, Carlos vive uma crise imensa ao fazer uma cirurgia desnecessária num rapaz com deficiência no pé. Por um instante, Ema esteve orgulhosa do marido (achou que ele seria rico e famoso), mas voltou a odiá-lo e voltou ao amante também.

Ema e Rodolfo planejam fugir no capítulo 12. Acontece o previsível desse tipo de romance: o amante foge sozinho no cap. 13 e Ema cai doente. No capítulo seguinte (14), a vida aos poucos retoma a rotina sem o amante. Os Bovary estão endividados. Ema se esforça para se reconciliar com o marido. A segunda parte termina com o casal reencontrando o jovem Léon em um teatro, ele foi o primeiro affair de Ema.

Ufa! Só acabei no final do domingo as 50 páginas. Vamos agora para a terceira e última parte do romance, são mais 75 páginas e 11 capítulos. Acho que lerei em duas vezes.

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TERCEIRA PARTE

(em leitura)

07/3/21, domingo.

Terminei a leitura do livro no sábado 6. Eu parei a leitura para ler outro livro clássico, O chefão, de Mario Puzo. Li um livro de quase 500 páginas para retomar e terminar Madame Bovary

A terceira e última parte do livro foi surpreendente, mesmo sabendo o que aconteceria com a personagem principal, Ema Bovary. Lembro aqui um conceito de Italo Calvino sobre os clássicos, que mesmo quando não lemos os clássicos, sabemos a respeito deles por causa das leituras coletivas ao longo da história.

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"Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura" (Italo Calvino)

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TERCEIRA PARTE

"Ema era a apaixonada de todos os romances, a heroína de todos os dramas, a vaga 'ela' de todos os volumes de versos." (Cap. 5, p. 198)

Ema retoma contato com o jovem Léon no capítulo 1, ele se declara a ela. Assim como ocorreu no affair entre ela e Rodolfo, Ema buscou algum auxílio na igreja antes do novo romance, mas não encontrou respostas ali.

Entre os capítulos 2 e 4 Ema e Léon encontram a plena felicidade conjugal.

O capítulo 5 é memorável. O narrador descreve o cotidiano das gentes, o transporte diário das pessoas da roça até a cidade através de um carro com alguns cavalos: a "Andorinha", conduzida por um cocheiro. Depois descreve a cidade de Ruão com chaminés de fábricas, igrejas e casas, local de 120 mil pessoas.

Este capítulo é muito importante na estória. Ema está se endividando e colocando a segurança financeira da família em ruína. O próprio amante Léon percebe que ela não é satisfeita com nada, tudo é insuficiente.

No capítulo 6, Ema pressiona o amante em quase tudo e Léon se sente sufocado pelo amor dela. As dívidas se avolumam e os Bovary têm bens penhorados. A mãe do jovem Léon o obriga a deixar Ema.

Flaubert denuncia a mentalidade burguesa da época no capítulo 7. O farmacêutico Homais é um típico personagem que representa os ideais e a hipocrisia burguesa.

Ema tenta conseguir empréstimos com alguns burgueses locais e tem uma cena humilhante de um deles ceando enquanto Ema, em pé e frente a ele na sala de jantar, pede ajuda e o cara tenta comprá-la sexualmente.

O romance se encaminha para o fim trágico nos últimos capítulos. Ema reencontra o primeiro amante que lhe nega ajuda financeira. O narrador faz descrições cruéis da personagem "adúltera". Há uma sequência de óbitos na estória, mais do que eu imaginava.

Interessante! Mesmo sabendo sobre Ema Bovary através da história da obra, me surpreendi com os detalhes e com os acontecimentos finais do romance.

O destino da filha dos Bovary é o retrato ainda atual do capitalismo e da burguesia. Esse sistema não nos serve! Não nos serve! É assim que fecho essa postagem sobre o clássico de Flaubert.

William

20/02/21


Bibliografia:

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Araújo Nabuco. São Paulo: Abril Cultural, 1981.


sábado, 11 de julho de 2009

Conto: Uma alma simples, Gustave Flaubert

Em meus estudos prazerosos de literatura neste fim de semana, reli este conto de Flaubert. Eu o li pela primeira vez em 2001 quando comecei a estudar a matéria Introdução à Literatura na Usp.

Ele é usado em aulas de literatura para nos ensinar as diversas técnicas literárias existentes. Neste conto, estudamos Narrativa, uma sequência de ações, fatos e acontecimentos.

Das marcações feitas em minha xerox, várias delas são observações bem interessantes.

O primeiro capítulo do conto, um capítulo bem curto, já nos apresenta uma síntese da história. Nos diz o quê, quando, onde, porque e quem. Observemos:

Capítulo I

Durante meio século, as burguesas de Pont-l'Evêque invejaram à Sra. Aubain a sua criada Felicidade.

Por cem francos ao ano, cozinhava e arrumava a casa, cosia, lavava, engomava; sabia enfrear um cavalo, engordar as criações, bater manteiga, e permaneceu fiel à sua ama - que não era, entretanto, pessoa agradável.

Esta desposara um belo moço pobre, que morrera no começo do ano de 1809, deixando-lhe dois filhos muito novos e uma porção de dívidas. Vendeu, então, os imóveis, exceto a quinta de Toucques e a de Geffosses, cujas rendas iam, quando muito, a 5.000 francos, e deixou sua casa de Saint-Melaine, mudando-se para outra menos dispendiosa, que pertencera a seus avós, situada atrás do mercado.


Quando: a história abrange meio século XIX.
Onde: Pont-l'Evêque, França.
Quem: a burguesia francesa, na figura da ama desagradável e sua família; a serva simplória Felicidade.
O quê e porque: a história de uma serva que faz tudo por quase nada e dá inveja disso aos outros burgueses, uma alma simples.

A descrição do primeiro capítulo é notável. Nos seguintes, Flaubert segue nos dando todas as informações necessárias, em poucos parágrafos.

A patroa: Sra. Aubain, que não era pessoa agradável.
Os filhos da patroa: Paulo e Virgína, um de sete anos, o outro de apenas quatro.
A empregada: Felicidade, de rosto magro e a voz aguda e aos 25 anos, davam-lhe 40.

As marcações temporais serão uma constante na história. A vida da personagem principal é uma modorra só. A economia da obra deixará isso bem claro.

FELICIDADE
Já moça, não deixa um rapaz se aproveitar dela porque "ela não tinha a inocência das mocinhas - os animais haviam-na instruído". No entanto, ela não cedeu sua pureza, mas perdeu o seu amor.

APEGOS, PERDAS, SUBSTITUIÇÕES
Em sua vida simplória, Felicidade foi se agarrando a alguém ou algo e foi perdendo, perdendo, e para seguir, buscava uma substituição para esse apego.

Apegou-se ao namorado, depois a Virgínia e Paulo, depois ao sobrinho Vítor, depois ao papagaio, à patroa etc.

Sequência de substituições:
Namorado
Virgínia e Paulo
Vítor
Morre Virgínia
Morre Vítor
Sra. aubain (cena do quarto = nivelamento)
Soldados
O velho (tio Colmiche)
O papagaio

(Como diz Macunaíma, AI, QUE PREGUIÇA!)

Outra hora continuo...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Lendo Madame Bovary



Refeição Cultural

De ontem pra hoje li 75 páginas. Estou na segunda parte (o livro está dividido em três).

O estilo é bem tradicional em relação ao realismo. Há muita descrição e detalhes. Isto, ao leitor de hoje, é bastante enfadonho e cansativo.

TÉCNICAS NARRATIVAS: SUMÁRIO E CENAS

Os momentos de descrição nos romances são momentos de parada no tempo narrativo, ou seja, pode-se passar páginas e páginas sem que se avance na história em si. Novamente, para o leitor contemporâneo, é muito difícil se ater ao que está lendo. De um parágrafo ao outro, quando vemos, já estamos pensando nas contas a pagar e coisas afins.

É bem verdade que a literatura de romances tem dois esquemas básicos de narração. Em momentos distintos, o escritor trabalha com sumários, ou seja, dá um apanhado geral da cena ou contexto em que o ato acontece - aqui pode-se descrever tanto um instante como um longo período de tempo; e, alternando com esse esquema, trabalha com cenas, onde os fatos narrados estão acontecendo com a participação dos personagens. Normalmente diálogos, ou diálogos intercalados por participação do narrador, que pode ser onisciente ou não.


Algumas observações interessantes:


Na história dos Bovary, o narrador é onisciente. Já sabe de tudo e de todos, do início ao fim; ele é um Demiurgo.

Veja que interessante a descrição do casal Bovary após a primeira noite de núpcias. O narrador já nos dá a dica de quem é quem em relação ao comportamento do par:

"No dia seguinte, em compensação, parecia outro. Ele é que poderia ser tomado pela virgem da véspera, ao passo que a noiva nada deixava a descoberto, por onde se pudesse adivinhar qualquer coisa. Os maliciosos não sabiam o que responder e contemplavam-na com atenção desmesurada quando ela passava junto deles" (cap.3, parte 1)

Ao longo da história, o narrador vai nos mostrando que Ema tem uma natureza arredia para a rotina do "lar doce lar" das famílias tradicionais burguesas do século XIX, onde a mulher é a perfeita governanta da casa e procriadora dos herdeiros.

Interessante observar que o que alimenta a imaginação de Ema são os livros de romances, que a todo momento são citados pelo narrador (livros de Balzac e George Sand) e também aparecem em cenas de diálogos.

Gostei da posição do narrador em relação às críticas que ele faz para a sociedade burguesa da época:

"Tudo o que a rodeava de perto, os campos enfadonhos, os burguesinhos imbecis, a mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um caso particular em que se achava envolvida, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país da felicidade e das paixões" (cap.9, parte 1)

Uma "desculpa" se constrói para o que Ema fará mais adiante. Ela se incomoda com as características que vão dominando seu marido com o passar dos anos de casados:

" - Que pobre diabo! que pobre diabo! - dizia ela em voz baixa, mordendo os lábios.

Sentia-se, de resto, cada vez mais irritada. A idade ia-o tornando pesadão; à sobremesa divertia-se em cortar as rolhas das garrafas vazias, e, depois de comer, passava a língua pelos dentes; ao engolir a sopa fazia um gorgolejo em cada gole e, como começasse a engordar, os olhos, já por si tão pequenos, pareciam ter subido para as fontes, empurrados pelas bochechas"
(cap.9, parte 1)


E aí, que pensar de um(a) companheiro(a) que pensa assim do outro(a) companheiro(a), heim?

O narrador também tece belas críticas à instituição da igreja (e não da fé), através de um dos personagens:

Fala do farmacêutico Homais:

" - Eu tenho uma religião, a minha religião, e mesmo até mais do que todos eles, com as suas momices e charlatanices. Eu creio em Deus! Creio no Ente Supremo, num Criador, qualquer que seja, pouco importa, que nos pôs neste mundo para desempenharmos os nossos deveres de cidadãos e de pais de família; mas o que não preciso é ir a uma igreja beijar salvas de prata, engordar com a minha algibeira uma súcia de farsantes que vivem muito melhor do que nós! Porque o podemos venerar de qualquer maneira, num bosque, num campo, ou mesmo contemplando a abóbada celeste, como os antigos. O meu Deus é o Deus de Sócrates, de Franklin, de Voltaire e de Béranger! Eu sou pela 'profissão de fé do vigário saboiano' e pelos princípios imortais de 1789! Por isso não admito um Deus que passeie no seu jardim de bengala na mão, aloje os amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao fim de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da física; o que nos demonstra, de resto, que os padres têm sempre permanecido numa ignorância torpe, na qual se esforçam por mergulhar as populações" (cap.1, parte 2)

Que fala fantástica desse farmacêutico. Assino embaixo!

Fim

terça-feira, 12 de maio de 2009

Madame Bovary - Gustave Flaubert, de 1857



Refeição Cultural

Cara! De minhas lacunas culturais, uma das que mais me incomodam como aluno de Letras e leitor de alguns livros antológicos em termos de literatura mundial é o clássico de Flaubert.

Eu já li Ulisses, de James Joyce; Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski; Os Lusíadas, de Camões; etc e tal, e nunca li Madame Bovary.

É engraçado, pois a gente já sabe o enredo desde sempre e, mesmo assim, é muito ruim eu nunca ter lido o bendito livro.

Pois é! Peguei o bicho agora pela manhã. Vamos ver se preencho esta lacuna cultural.

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Post Scriptum (7/03/16):

Não preenchi a lacuna cultural. Não li o livro.

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Post Scriptum II (27/12/23):

E então veio a pandemia mundial de Covid-19 e Madame Bovary foi um dos clássicos que li durante o isolamento em casa. Comentário sobre a leitura aqui.