Mostrando postagens com marcador Teoria Literária. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teoria Literária. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de junho de 2025

Livro: O Picapau Amarelo (1939) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- E agora, Visconde? Que fazer?

O Visconde coçou as palhinhas do pescoço. Não achou remédio. Os sábios são criaturas indecisas; não resolvem nada." (Monteiro Lobato, O Picapau Amarelo, p. 148)*


O Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens fizeram parte de minha infância de alguma forma, pelo que me lembro. Acho que assistia às aventuras de Pedrinho, Narizinho, a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa através da televisão nos anos oitenta. 

Ao pesquisar a respeito de qual série televisiva tive contato na infância, vi que foi a da adaptação da Rede Globo em parceria com a TVE e MEC, exibida entre os anos de 1977 e 1986, período no qual eu tinha entre 8 e 17 anos.

Os livros, contos ou textos políticos de Monteiro Lobato eu nunca tinha lido. Essa edição que li foi uma dessas que compramos em bancas de livros expostas em corredores de shopping center. Foram 15 reais bem investidos, na minha avaliação. O que se faz hoje com esse valor? Pode-se comprar um livro de Monteiro Lobato!

---

FÁBULAS E FAZ DE CONTA ENTRE CRIANÇAS E ADULTOS

Ao ler os livros de fantasia e mundo do faz de conta das fábulas infantis e infanto-juvenis que fizeram parte da infância de muita gente e avaliar o que virou o mundo humano nas primeiras décadas do século XXI, mundo no qual grupos de pessoas põem celular na cabeça para contatar extraterrestres para salvá-los de uma suposta ditadura esquerdista no Brasil, fico pensativo sobre a condição lastimável da espécie humana neste momento da história. 

A fantasia e faz de conta atualmente dominam a mente de adultos como, por exemplo, aqueles seguidores de uma seita messiânica liderada por um certo clã de políticos de extrema-direita no país. 

Acho que são diferentes as fantasias e abstrações criadas na literatura e outras formas de cultura e as manipulações de massa feitas pelos donos do poder e suas máquinas com objetivos de ganhos pessoais em detrimento de prejudicar as massas manipuladas.

Ou seja, vamos ler mais literatura e acessar mais formas de cultura e ficar menos nas redes sociais cujas donas são as corporações chamadas big techs que hoje atuam para mudarem o comportamento de seus usuários de forma criminosa.

É minha opinião.

---

PRODUÇÕES CULTURAIS RETRATAM OS MUNDOS

Uma questão do mundo atual que se discute em relação à produção de cultura de outras épocas é sobre as qualidades e defeitos dos criadores das produções culturais em suas épocas e contextos. Escritores e outros intelectuais das artes são seres sociais e são sujeitos de suas épocas.

A linguagem e formas de tratamento no livro de Monteiro Lobato, escrito em 1939 no Brasil, podem ser consideradas hoje inadequadas, racistas e preconceituosas. Este leitor que leu o livro agora em 2025 acha isso.

No entanto, as obras literárias e culturais ao longo da história humana retratam o mundo e a visão das pessoas daquele mundo em qualquer tempo e lugar. 

Óbvio que cada pessoa é diferente em uma determinada comunidade humana. O ser humano Monteiro Lobato em 1939 pode ser que tenha sido racista, xenófobo, misógino, elitista ou qualquer outra forma de avaliar comportamentos e ideias das pessoas em 2025.

No entanto, achar que só Monteiro Lobato ou só fulano ou cicrano usava a linguagem que o escritor usa para criar romances ficcionais na primeira metade do século XX no Brasil é tapar o sol com a peneira, ou seja, não considerar aquele mundo no qual vivia o escritor. 

É isso que penso após décadas de vivência e contato com a educação e formação política que tive a oportunidade de acessar como ser humano que já mudou radicalmente de opinião e visão de mundo por causa do contato com outros tipos de pensamentos nas suas mais diversas formas de apresentação aos outros.

Mais complicado para uma criança ou adolescente do que ler um romance de Monteiro Lobato com linguagem da época do Brasil da primeira metade do século XX é uma criança ou adolescente em 2025 conviver no meio de gente que põe celular na cabeça em grupo no meio da rua pedindo intervenção de extraterrestres por qualquer que seja o motivo. O exemplo que essas crianças estão recebendo de seus adultos vai ferrar geral o mundo no qual todos nós vivemos hoje e amanhã.

Vou ler mais Monteiro Lobato.

William


*Post Scriptum: ia me esquecendo. Por que usei a citação acima sobre os sábios que não resolvem nada? No instante que li, me lembrei na hora dos debates que tinha quando sindicalista e acadêmico a respeito das diferenças abissais entre a academia e o mundo sindical na hora de definir reivindicações, estratégias e táticas e soluções para os conflitos entre capital e trabalho. Os sindicalistas, mesmo acadêmicos ou com bagagem intelectual, têm uma diferença enorme em relação aos professores e intelectuais que tanto admiramos: na hora do conflito, da greve por exemplo, os sindicalistas estão com milhares de pessoas na busca de solução para aquele conflito real nas ruas e nos locais de trabalho, o ideal passa longe da solução para aquele conflito. Aprendi isso e respeito muito essa condição do sindicalista, que busca achar solução intermediária que seja decidida pelo conjunto de trabalhadores envolvidos. Via de regra, o acadêmico vai espinafrar a solução encontrada porque ela não leva ao socialismo ou à mudança de condição social etc. Muitas vezes, greves longas sem acordos intermediários acabam por só negociar os dias parados, sem avanço algum para os trabalhadores.


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Picapau Amarelo. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


sábado, 20 de dezembro de 2014

Artigo: Síndrome de Capitu - João P. Cunha


Comentário do Blog: fiquei tão impressionado com o artigo do jornalista João Paulo Cunha, reproduzido na Agência Carta Maior, portal no modelo copyleft (como este Blog), que reproduzo aqui para meus leitores e amigos e para guardá-lo porque a qualidade do texto, tanto do ponto de vista político quanto literário, é fan-tás-ti-ca!

Eu sou um apaixonado pela obra de Machado de Assis. Cursei literatura e pude me aprofundar um pouco em obras machadianas como Dom Casmurro. Vale a pena a leitura e as comparações feitas pelo autor e jornalista.

William Mendes

Carta Maior - 18/12/14

O Brasil já tem presidente para os próximos quatro anos, o que está faltando é oposição responsável. A que existe hoje sofre da mesma síndrome de Bentinho


O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais lamenta a saída de João Paulo Cunha do comando da editoria de Cultura do jornal Estado de Minas, mais uma vítima da censura que impera nos grandes meios de comunicação e grassa em Minas Gerais, e repudia o cerceamento à liberdade de expressão.

Reconhecido como um dos mais brilhantes jornalistas e intelectuais mineiros, dono de uma vasta cultura e de um texto brilhante, João Paulo pediu demissão hoje à tarde. A decisão foi tomada depois da comunicação por parte da direção do jornal de que não poderia mais escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente no caderno Pensar.

Seu último texto foi publicado no dia 6/12. Intitulado “Síndrome de Capitu”, critica a falta de uma oposição responsável no Brasil. “Há grandes projetos que impulsionam uma vida e moldam expectativas de futuro, algo que ganhou o belo nome de utopia”, diz um trecho do texto. E foi em nome dessa utopia que ele não aceitou mais essa imposição. Uma salva ao João.

Abaixo a íntegra de sua última coluna.

João Paulo Cunha - O Estado de Minas


Síndrome de Capitu

Existem duas verdades aparentemente óbvias que, no entanto, não têm ficado suficientemente claras para muita gente: o país mudou e a eleição já acabou. A insistência em dar continuidade ao processo que elegeu Dilma Rousseff poderia ser apenas um luto mal vivido, mas tende a se tornar perversa no campo político. Por outro lado, a recusa em enxergar a nova configuração da sociedade, resultado de seguidas políticas de distribuição de renda e inclusão social, pode gerar um impulso no mínimo grotesco em suas alusões reativas e chamamentos à ditadura.


É preciso ir adiante. A oposição, certamente, saiu fortalecida do resultado eleitoral bastante parelho. Mas corre o risco de jogar fora esse crescimento quantitativo em nome de um comportamento pouco produtivo em termos políticos. Em vez de jogar com seu eleitor fiel, interpreta os votos de acordo com suas conveniências e joga para a plateia pelos meios de comunicação, sem perceber que essa falácia já mostrou ser um paradoxo invencível: tem mais brilho que consistência, mais efeito que substância, mais eco que voz.

A oposição de hoje parece viver, no campo da política, o que Bento Santiago, o Bentinho de Dom Casmurro, de Machado de Assis, viveu em seus tormentos de alma: se perde na fantasia da traição (mesmo que ela tenha sido real). Para lembrar sumariamente o enredo do romance, Bentinho se apaixona por Capitu, desde logo apresentada como portadora de “olhos de ressaca”. São jovens de classes sociais distintas. Um arranjo permite o casamento. Logo Bentinho, já pai e bem posto na vida como advogado, desconfia que está sendo traído pela mulher com o melhor amigo, em quem vê semelhança com o filho. O casal se separa, o filho morre e Bento, sozinho, leva adiante sua sina de ser casmurro e sofrer com a desconfiança até o fim da vida.


Machado de Assis, como sempre, ao falar de seus personagens, está figurando a sociedade de seu tempo. Bentinho não sofre só pela traição, mas porque não entende que o mundo mudou. Não pode aceitar que a sociedade republicana deixou para trás as amarras elitistas do Segundo Reinado e da escravidão. Bento não reconhece a mulher, a sociedade, a história. Não pode aceitar que ela tenha uma vida independente e autônoma. Tudo que ele não compreende o ameaça. Capitu não é apenas a mulher, mas tudo que perdeu em seu mundo de referências que se esvaem. Mais que sexual, a traição é histórica. Homem de outro tempo, só resta a ele tentar convencer ao leitor e a si próprio de seu destino de vítima. E soprar um melancólico saudosismo acerca dos tempos idos, que busca reconstruir em sua casa feita à semelhança do lar da meninice.


O Brasil tem uma recorrente síndrome de Capitu: tudo que a elite não tolera se torna, por meio de um discurso marcado pela força jurídica e da tradição, algo que deve ser rejeitado. Eternos maridos traídos. A tendência de empurrar a política para os tribunais é uma consequência desse descaminho. Assim, tudo que de alguma forma aponta para a mudança e ampliação de direitos é considerado ilegítimo e, em alguns momentos, quase uma afronta que precisa ser questionada e combatida. Foi assim com a visibilidade dada aos novos consumidores populares (que foram criminalizados em rolezinhos ou objeto de ironia em aeroportos), com as cotas raciais para a universidade, com a chegada de médicos estrangeiros para ocupar postos que os brasileiros, psicanaliticamente, denegaram.

O romance de Machado de Assis tem ainda outro personagem curioso para a sociologia e psicologia do brasileiro, o agregado José Dias. Trata-se de um homem que vive às expensas da família de Bento e que, por isso, não cessa de elogiar quem o acolhe. Típico representante de certa classe média, ele é o bastião dos valores da burguesia da época, da qual só participa de esguelha. Mais burguês que os burgueses, em sua subserviência, ele gasta os superlativos e a vida a invejar e defender os “de cima”, com pânico de ser confundido com os “de baixo”. Epígonos de José Dias, hoje, são os que amam Miami, levam os filhos para ver o Pateta e participam de passeatas pedindo a volta dos militares.

Leviandade

Mas o que a síndrome de Capitu tem a ver com a política brasileira de hoje? Em primeiro lugar, ela explica por que, em vez de armar uma oposição de verdade, os partidos derrotados tentam inviabilizar a sequência do processo democrático. Em segundo lugar, pela defesa da dupla moral, que desculpa os erros do passado por causa da dimensão dos desvios de hoje, numa reedição do estilo udenista e despolitizador de analisar a conjuntura. Tudo que pode de alguma forma macular a oposição é considerado “sórdido” e “leviano”, numa substituição da política pela moral de circunstância. A corrupção, com sua espantosa abrangência, precisa ser combatida em toda sua dimensão e arco histórico. Nenhum culpado pode ficar de fora, de empresários a políticos de todos os partidos.


Por fim, a personagem machadiana ajuda a explicar a fixação em torno de determinados temas – no romance, é a traição, na vida política atual, é a inflação –, que são muito mais derivações que propriamente o que de fato interessa. A escolha dos ministros da área econômica mostrou como mesmo um governo popular e eleito democraticamente confirma as intuições de Machado de Assis. A excessiva submissão aos interesses rentistas pode ser um recuo estratégico. Mas é um recuo. Uma capitulação.

Economia não é uma ciência exata e, muito menos, isenta de componente ideológico. Um governo de esquerda precisa de uma política econômica de esquerda. Além do equilíbrio macroeconômico, o mais importante é apontar as estratégias de distribuição de renda e de investimento na área social. O deus Mercado não pode falar mais alto que os filhos de Deus. No complexo tecido que sustenta a governança, a presença das forças populares não pode ser colocada em segundo plano, como vem sendo até agora. A excessiva sujeição ao cálculo do apoio político está na base da grande corrupção que hoje enoja a todos. Por isso a reforma política popular se tornou a agenda prioritária da sociedade.

A oposição, por sua vez – e o senador Aécio Neves, candidato derrotado como seu nome de maior destaque –, tem uma tarefa a cumprir: dar um passo à frente no jogo político, com a grandeza que o momento requer. O que ainda está devendo.

Bentinho perdeu sua vida ao ficar preso a um passado de desconfianças que, de resto, até hoje divide as opiniões. Há grandes projetos que impulsionam uma vida e moldam expectativas de futuro, algo que ganhou o belo nome de utopia. Há, entretanto, obsessões que paralisam pelo rancor e ressentimento. Bentinho, é bom lembrar, nunca mais foi feliz. Foi ele mesmo o criador e a vítima da síndrome que o consumiu.

Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Filosofía de la composición - Edgar Alan Poe


Edgar Alan Poe - imagem da Wikipedia.


En una nota que en estos momentos tengo a la vista, Charles Dickens dice lo siguiente, refiriéndose a un análisis que efectué del mecanismo de Barnaby Rudge: "¿Saben, dicho sea de paso, que Godwin escribió su Caleb Williams al revés? Comenzó enmarañando la materia del segundo libro y luego, para componer el primero, pensó en los medios de justificar todo lo que había hecho".

Se me hace difícil creer que fuera ése precisamente el modo de composición de Godwin; por otra parte, lo que él mismo confiesa no está de acuerdo en manera alguna con la idea de Dickens. Pero el autor de Caleb Williams era un autor demasiado entendido para no percatarse de las ventajas que se pueden lograr con algún procedimiento semejante.

Si algo hay evidente es que un plan cualquiera que sea digno de este nombre ha de haber sido trazado con vistas al desenlace antes que la pluma ataque el papel. Sólo si se tiene continuamente presente la idea del desenlace podemos conferir a un plan su indispensable apariencia de lógica y de causalidad, procurando que todas las incidencias y en especial el tono general tienda a desarrollar la intención establecida.

Creo que existe un radical error en el método que se emplea por lo general para construir un cuento. Algunas veces, la historia nos proporciona una tesis; otras veces, el escritor se inspira en un caso contemporáneo o bien, en el mejor de los casos, se las arregla para combinar los hechos sorprendentes que han de tratar simplemente la base de su narración, proponiéndose introducir las descripciones, el diálogo o bien su comentario personal donde quiera que un resquicio en el tejido de la acción brinde la ocasión de hacerlo.

A mi modo de ver, la primera de todas las consideraciones debe ser la de un efecto que se pretende causar. Teniendo siempre a la vista la originalidad (porque se traiciona a sí mismo quien se atreve a prescindir de un medio de interés tan evidente), yo me digo, ante todo: entre los innumerables efectos o impresiones que es capaz de recibir el corazón, la inteligencia o, hablando en términos más generales, el alma, ¿cuál será el único que yo deba elegir en el caso presente?


Habiendo ya elegido un tema novelesco y, a continuación, un vigoroso efecto que producir, indago si vale más evidenciarlo mediante los incidentes o bien el tono o bien por los incidentes vulgares y un tono particular o bien por una singularidad equivalente de tono y de incidentes; luego, busco a mi alrededor, o acaso mejor en mí mismo, las combinaciones de acontecimientos o de tomos que pueden ser más adecuados para crear el efecto en cuestión.

He pensado a menudo cuán interesante sería un artículo escrito por un autor que quisiera y que pudiera describir, paso a paso, la marcha progresiva seguida en cualquiera de sus obras hasta llegar al término definitivo de su realización.

Me sería imposible explicar por qué no se ha ofrecido nunca al público un trabajo semejante; pero quizá la vanidad de los autores haya sido la causa más poderosa que justifique esa laguna literaria. Muchos escritores, especialmente los poetas, prefieren dejar creer a la gente que escriben gracias a una especie de sutil frenesí o de intuición extática; experimentarían verdaderos escalofríos si tuvieran que permitir al público echar una ojeada tras el telón, para contemplar los trabajosos y vacilantes embriones de pensamientos. La verdadera decisión se adopta en el último momento, ¡a tanta idea entrevista!, a veces sólo como en un relámpago y que durante tanto tiempo se resiste a mostrarse a plena luz, el pensamiento plenamente maduro pero desechado por ser de índole inabordable, la elección prudente y los arrepentimientos, las dolorosas raspaduras y las interpolación. Es, en suma, los rodamientos y las cadenas, los artificios para los cambios de decoración, las escaleras y los escotillones, las plumas de gallo, el colorete, los lunares y todos los aceites que en el noventa y nueve por ciento de los casos son lo peculiar del histrión literario.

Por lo demás, no se me escapa que no es frecuente el caso en que un autor se halle en buena disposición para reemprender el camino por donde llegó a su desenlace.

Generalmente, las ideas surgieron mezcladas; luego fueron seguidas y finalmente olvidadas de la misma manera.

En cuanto a mí, no comparto la repugnancia de que acabo de hablar, ni encuentro la menor dificultad en recordar la marcha progresiva de todas mis composiciones. Puesto que el interés de este análisis o reconstrucción, que se ha considerado como un desiderátum en literatura, es enteramente independiente de cualquier supuesto ideal 
en lo analizado, no se me podrá censurar que salte a las conveniencias si revelo aquí el modus operandi con que logré construir una de mis obras. Escojo para ello El cuervo debido a que es la más conocida de todas. Consiste mi propósito en demostrar que ningún punto de la composición puede atribuirse a la intuición ni al azar; y que aquélla avanzó hacia su terminación, paso a paso, con la misma exactitud y la lógica rigurosa propias de un problema matemático.

Puesto que no responde directamente a la cuestión poética, prescindamos de la circunstancia, si lo prefieren, la necesidad, de que nació la intención de escribir un poema tal que satisficiera al propio tiempo el gusto popular y el gusto crítico.

Mi análisis comienza, por tanto, a partir de esa intención.

La consideración primordial fue ésta: la dimensión. Si una obra literaria es demasiado extensa para ser leída en una sola sesión, debemos resignarnos a quedar privados del efecto, soberanamente decisivo, de la unidad de impresión; porque cuando son necesarias dos sesiones se interponen entre ellas los asuntos del mundo, y todo lo que denominamos el conjunto o la totalidad queda destruido automáticamente. Pero, habida cuenta de que coeteris paribus, ningún poeta puede renunciar a todo lo que contribuye a servir su propósito, queda examinar si acaso hallaremos en la extensión alguna ventaja, cual fuere, que compense la pérdida de unidad aludida. Por el momento, respondo negativamente. Lo que solemos considerar un poema extenso en realidad no es más que una sucesión de poemas cortos, es decir, de efectos poéticos breves. Es inútil sostener que un poema no es tal sino en cuanto eleva el alma y te reporta una excitación intensa: por una necesidad psíquica, todas las excitaciones intensas son de corta duración. Por eso, al menos la mitad del "Paraíso perdido" no es más que pura prosa: hay en él una serie de excitaciones poéticas salpicadas inevitablemente de depresiones. En conjunto, la obra toda, a causa de su extensión excesiva, carece de aquel elemento artístico tan decisivamente importante: totalidad o unidad de efecto.

En lo que se refiere a las dimensiones hay, evidentemente, un límite positivo para todas las obras literarias: el límite de una sola sesión. Ciertamente, en ciertos géneros de prosa, como Robinson Crusoe, no se exige la unidad, por lo que aquel límite puede ser traspasado: sin embargo, nunca será conveniente traspasarlo en un poema. En el mismo límite, la extensión de un poema debe hallarse en relación matemática con el mérito del mismo, esto es, con la elevación o la excitación que comporta; dicho de otro modo, con la cantidad de auténtico efecto poético con que pueda impresionar las almas. Esta regla sólo tiene una condición restrictiva, a saber: que una relativa duración es absolutamente indispensable para causar un efecto, cualquiera que fuere.

Teniendo muy presentes en mí ánimo estas consideraciones, así como aquel grado de excitación que nos situaba por encima del gusto popular y por debajo del gusto crítico, concebí ante todo una idea sobre la extensión idónea para el poema proyectado: unos cien versos aproximadamente. En realidad cuenta exactamente ciento ocho.

Mi pensamiento se fijó seguidamente en la elevación de una impresión o de un efecto que causar. Aquí creo que conviene observar que, a través de este trabajo de construcción, tuve siempre presente la voluntad de lograr una obra universalmente apreciable.

Me alejaría demasiado de mi objeto inmediato presente si me entretuviese en demostrar un punto en que he insistido muchas veces: que lo bello es el único ámbito legítimo de la poesía. Con todo, diré unas palabras para presentar mi verdadero pensamiento, que algunos amigos míos se han apresurado demasiado a disimular. El placer a la vez más intenso, más elevado y más puro no se encuentra -según creo- más que en la contemplación de lo bello. Cuando los hombres hablan de belleza no entienden precisamente una cualidad, como se supone, sino una impresión: en suma, tienen presente la violenta y pura elevación del alma -no del intelecto ni del corazón- que ya he descrito y que resulta de la contemplación de lo bello. Ahora bien, yo considero la belleza como el ámbito de la poesía, porque es una regla evidente del arte que los efectos deben brotar necesariamente de causas directas, que los objetos deben ser alcanzados con los medios más apropiados para ello -ya que ningún hombre ha sido aún bastante necio para negar que la elevación singular de que estoy tratando se halle más fácilmente al alcance de la poesía. En cambio, el objeto verdad, o satisfacción del intelecto, y el objeto pasión, o excitación del corazón, son mucho más fáciles de alcanzar por medio de la prosa aunque, en cierta medida, queden también al alcance de la poesía.

En resumen, la verdad requiere una precisión, y la pasión una familiaridad (los hombres verdaderamente apasionados me comprenderán) radicalmente contrarias a aquella belleza, que no es sino la excitación -debo repetirlo- o el embriagador arrobamiento del alma.


De todo lo dicho hasta el presente no puede en modo alguno deducirse que la pasión ni la verdad no puedan ser introducidas en un poema, incluso con beneficio para éste; ya que pueden servir para aclarar o para potenciar el efecto global, como las disonancias por contraste. Pero el auténtico artista se esforzará siempre en reducirlas a un papel propicio al objeto principal que se pretenda, y además en rodearlas, tanto como pueda, de la nube de belleza que es atmósfera y esencia de la poesía. En consecuencia, considerando lo bello como mi terreno propio, me pregunté entonces: ¿cuál es el tono para su manifestación más alta? Éste había de ser el tema de mi siguiente meditación. Ahora bien, toda la experiencia humana coincide en que ese tono es el de la tristeza. Cualquiera que sea su parentesco, la belleza, en su desarrollo supremo, induce a las lágrimas, inevitablemente, a las almas sensibles. Así, pues, la melancolía es el más idóneo de los tonos poéticos.

Una vez determinados así la dimensión, el terreno y el tono de mi trabajo, me dediqué a la busca de alguna curiosidad artística e incitante, que pudiera actuar como clave en la construcción del poema: de algún eje sobre el que toda la máquina hubiera de girar; empleando para ello el sistema de la introducción ordinaria. Reflexionando detenidamente sobre todos los efectos de arte conocidos o, más propiamente, sobre todo los medios de efecto -entendiendo este término en su sentido escénico-, no podía escapárseme que ninguno había sido empleado con tanta frecuencia como el estribillo. La universalidad de éste bastaba para convencerme acerca de su intrínseco valor, evitándome la necesidad de someterlo a un análisis. En cualquier caso, yo no lo consideraba sino en cuanto susceptible de perfeccionamiento; y pronto advertí que se encontraba aún en un estado primitivo. Tal como habitualmente se emplea, el estribillo no sólo queda limitado a las composiciones líricas, sino que la fuerza de la impresión que debe causar depende del vigor de la monotonía en el sonido y en la idea. Solamente se logra el placer mediante la sensación de identidad o de repetición. Entonces yo resolví variar el efecto, con el fin de acrecentarlo, permaneciendo en general fiel a la monotonía del sonido, pero alterando continuamente el de la idea: es decir, me propuse causar una serie continua de efectos nuevos con una serie de variadas aplicaciones del estribillo, dejando que éste fuese casi siempre parecido.


Habiendo ya fijado estos puntos, me preocupé por la naturaleza de mi estribillo: puesto que su aplicación tenía que ser variada con frecuencia, era evidente que el estribillo en cuestión había de ser breve, pues hubiera sido una dificultad insuperable variar frecuentemente las aplicaciones de una frase un poco extensa. Por supuesto, la facilidad de variación estaría proporcionada a la brevedad de una frase. Ello me condujo seguidamente a adoptar como estribillo ideal una única palabra. Entonces me absorbió la cuestión sobre el carácter de aquella palabra. Habiendo decidido que habría un estribillo, la división del poema en estancias resultaba un corolario necesario, pues el estribillo constituye la conclusión de cada estrofa. No admitía duda para mí que semejante conclusión o término, para poseer fuerza, debía ser necesariamente sonora y susceptible de un énfasis prolongado: aquellas consideraciones me condujeron inevitablemente a la o larga, que es la vocal más sonora, asociada a la r, porque ésta es la consonante más vigorosa.

Ya tenía bien determinado el sonido del estribillo. A continuación era preciso elegir una palabra que lo contuviese y, al propio tiempo, estuviese en el acuerdo más armonioso posible con la melancolía que yo había adoptado como tono general del poema. En una búsqueda semejante, hubiera sido imposible no dar con la palabra nevermore (nunca más). En realidad, fue la primera que se me ocurrió.

El siguiente fue éste: ¿cual será el pretexto útil para emplear continuamente la palabra nevermore? Al advertir la dificultad que se me planteaba para hallar una razón válida de esa repetición continua, no dejé de observar que surgía tan sólo de que dicha palabra, repetida tan cerca y monótonamente, había de ser proferida por un ser humano: en resumen, la dificultad consistía en conciliar la monotonía aludida con el ejercicio de la razón en la criatura llamada a repetir la palabra. Surgió entonces la posibilidad de una criatura no razonable y, sin embargo, dotada de palabra: como lógico, lo primero que pensé fue un loro; sin embargo, éste fue reemplazado al punto por un cuervo, que también está dotado de palabra y además resulta infinitamente más acorde con el tono deseado en el poema.

Así, pues, había llegado por fin a la concepción de un cuervo. ¡El cuervo, ave de mal agüero!, repitiendo obstinadamente la palabra nevermore al final de cada estancia en un poema de tono melancólico y una extensión de unos cien versos aproximadamente. Entonces, sin perder de vista el superlativo o la perfección en todos los puntos, me pregunté: entre todos los temas melancólicos, ¿cuál lo es más, según 
lo entiende universalmente la humanidad? Respuesta inevitable: ¡la muerte! Y, ¿cuándo ese asunto, el más triste de todos, resulta ser también el más poético? Según lo ya explicado con bastante amplitud, la respuesta puede colegirse fácilmente: cuando se alíe íntimamente con la belleza. Luego la muerte de una mujer hermosa es, sin disputa de ninguna clase, el tema más poético del mundo; y queda igualmente fuera de duda que la boca más apta para desarrollar el tema es precisamente la del amante privado de su tesoro.

Tenía que combinar entonces aquellas dos ideas: un amante que llora a su amada perdida. Y un cuervo que repite continuamente la palabra nevermore. No sólo tenía que combinarlas, sino además variar cada vez la aplicación de la palabra que se repetía: pero el único medio posible para semejante combinación consistía en imaginar un cuervo que aplicase la palabra para responder a las preguntas del amante. Entonces me percaté de la facilidad que se me ofrecía para el efecto de que mi poema había de depender: es decir, el efecto que debía producirse mediante la variedad en la aplicación del estribillo.

Comprendí que podía hacer formular la primera pregunta por el amante, a la que respondería el cuervo: nevermore; que de esta primera pregunta podía hacer una especie de lugar común, de la segunda algo menos común, de la tercera algo menos común todavía, y así sucesivamente, hasta que por último el amante, arrancado de su indolencia por la índole melancólica de la palabra, su frecuente repetición y la fama siniestra del pájaro, se encontrase presa de una agitación supersticiosa y lanzase locamente preguntas del todo diversas, pero apasionadamente interesantes para su corazón: unas preguntas donde se diesen a medias la superstición y la singular desesperación que halla un placer en su propia tortura, no sólo por creer el amante en la índole profética o diabólica del ave (que, según le demuestra la razón, no hace más que repetir algo aprendido mecánicamente), sino por experimentar un placer inusitado al formularlas de aquel modo, recibiendo en el nevermore siempre esperado una herida reincidente, tanto más deliciosa por insoportable.

Viendo semejante facilidad que se me ofrecía o, mejor dicho, que se me imponía en el transcurso de mi trabajo, decidí primero la pregunta final, la pregunta definitiva, para la que el nevermore sería la última respuesta, a su vez: la más desesperada, llena de dolor y de horror que concebirse pueda.
Aquí puedo afirmar que mi poema había encontrado su comienzo por el fin, como debieran comenzar todas las obras de arte: entonces, precisamente en este punto de mis meditaciones, tomé por vez primera la pluma, para componer la siguiente estancia:

¡Profeta! Aire, ¡ente de mal agüero! ¡Ave o demonio, pero profeta siempre!


Por ese cielo tendido sobre nuestras cabezas, por ese Dios que ambos adoramos, di a esta alma cargada de dolor si en el Paraíso lejano podrá besar a una joven santa que los ángeles llaman Leonor, besar a una preciosa y radiante joven que los ángeles llaman Leonor".


El cuervo dijo: "¡Nunca más!."

Sólo entonces escribí esta estancia: primero, para fijar el grado supremo y poder de este modo, más fácilmente, variar y graduar, según su gravedad y su importancia, las preguntas anteriores del amante; y en segundo término, para decidir definitivamente el ritmo, el metro, la extensión y la disposición general de la estrofa, así como graduar las que debieran anteceder, de modo que ninguna aventajase a ésta en su efecto rítmico. Si, en el trabajo de composición que debía subseguir, yo hubiera sido tan imprudente como para escribir estancias más vigorosas, me hubiera dedicado a debilitarlas, conscientemente y sin ninguna vacilación, de modo que no contrarrestasen el efecto de crescendo.

Podría decir también aquí algo sobre la versificación. Mi primer objeto era, como siempre, la originalidad. Una de las cosas que me resultan más inexplicables del mundo es cómo ha sido descuidada la originalidad en la versificación. Aun reconociendo que en el ritmo puro exista poca posibilidad de variación, es evidente que las variedades en materia de metro y estancia son infinitas: sin embargo, durante siglos, ningún hombre hizo nunca en versificación nada original, ni siquiera ha parecido desearlo.

Lo cierto es que la originalidad -exceptuando los espíritus de una fuerza insólita- no es en manera alguna, como suponen muchos, cuestión de instinto o de intuición. Por lo general, para encontrarla hay que buscarla trabajosamente; y aunque sea un positivo mérito de la más alta categoría, el espíritu de invención no participa tanto como el de negación para aportarnos los medios idóneos de alcanzarla. 


Ni qué decir tiene que yo no pretendo haber sido original en el ritmo o en el metro de El cuervo. El primero es troqueo; el otro se compone de un verso octómetro acataléctico, alternando con un heptámetro cataléctico que, al repetirse, se convierte en estribillo en el quinto verso, y finaliza con un tetrámetro cataléctico. Para expresarme sin pedantería, los pies empleados, que son troqueos, consisten en una sílaba larga seguida de una breve; el primer verso de la estancia se compone de ocho pies de esa índole; el segundo, de siete y medio; el tercero, de ocho; el cuarto, de siete y medio; el quinto, también de siete y medio; el sexto, de tres y medio. Ahora bien, si se consideran aisladamente cada uno de esos versos habían sido ya empleados, de manera que la originalidad de El cuervo consiste en haberlos combinado en la misma estancia: hasta el presente no se había intentado nada que pudiera parecerse, ni siquiera de lejos, a semejante combinación. El efecto de esa combinación original se potencia mediante algunos otros efectos inusitados y absolutamente nuevos, obtenidos por una aplicación más amplia de la rima y de la aliteración.

El punto siguiente que considerar era el modo de establecer la comunicación entre el amante y el cuervo: el primer grado de la cuestión consistía, naturalmente, en el lugar. Pudiera parecer que debiese brotar espontáneamente la idea de una selva o de una llanura; pero siempre he estimado que para el efecto de un suceso aislado es absolutamente necesario un espacio estrecho: le presta el vigor que un marco añade a la pintura. Además, ofrece la ventaja moral indudable de concentrar la atención en un pequeño ámbito; ni que decir tiene que esta ventaja no debe confundirse con la que se obtenga de la mera unidad de lugar.

En consecuencia, decidí situar al amante en su habitación, en una habitación que había santificado con los recuerdos de la que había vivido allí. La habitación se describiría como ricamente amueblada: con objeto de satisfacer las ideas que ya expuse acerca de la belleza, en cuanto única tesis verdadera de la poesía.

Habiendo determinado así el lugar, era preciso introducir entonces el ave: la idea de que ésta penetrase por la ventana resultaba inevitable. Que al amante supusiera, en el primer momento, que el aleteo del pájaro contra el postigo fuese una llamada a su puerta era una idea brotada de mi deseo de aumentar la curiosidad del lector, obligándole a aguardar; pero también del deseo de colocar el efecto incidental de la puerta abierta de par en par por el amante, que no halla más que 
oscuridad, y que por ello puede adoptar en parte la ilusión de que el espíritu de su amada ha venido a llamar... Hice que la noche fuera tempestuosa, primero para explicar que el cuervo buscase la hospitalidad; también para crear el contraste con la serenidad material reinante en el interior de la habitación.

Así, también, hice posarse el ave sobre el busto de Palas para establecer el contraste entre su plumaje y el mármol. Se comprende que la idea del busto ha sido suscitada únicamente por el ave; que fuese precisamente un busto de Palas se debió en primer lugar a la relación íntima con la erudición del amante y en segundo término a causa de la propia sonoridad del nombre de Palas.
Hacia mediados del poema, exploté igualmente la fuerza del contraste con el objeto de profundizar la que sería la impresión final. Por eso, conferí a la entrada del cuervo un matiz fantástico, casi lindante con lo cómico, al menos hasta donde mi asunto lo permitía. El cuervo penetra con un tumultuoso aleteo.

No hizo ni la menor reverencia, no se detuvo, no vaciló ni un minuto;
pero con el aire de un señor o de una dama, colgóse sobre la puerta de mi habitación.

En las dos estancias siguientes, el propósito se manifiesta aun más:

Entonces aquel pájaro de ébano, que por la gravedad de su postura y la severidad de su fisonomía inducía a mi triste imaginación a sonreír:


"Aunque tu cabeza", le dije, "no lleve ni capote ni cimera, ciertamente no eres un cobarde, lúgubre y antiguo cuervo partido de las riberas de la noche.


¡Dime cuál es tu nombre señorial en las riberas de la noche plutónica".


El cuervo dijo: "¡Nunca más!".


Me maravilló que aquel desgraciado volátil entendiera tan fácilmente la palabra, si bien su respuesta no tuvo mucho sentido y no me sirvió de mucho;
porque hemos de convenir en que nunca más fue dado a un hombre vivo
el ver a un ave encima de la puerta de su habitación, 
a un ave o una bestia sobre un busto esculpido encima de la puerta de su habitación,
llamarse un nombre tal como "¡Nunca más!".

Preparado así el efecto del desenlace, me apresuro a abandonar el tono fingido y adoptar el serio, más profundo: este cambio de tono se inicia en el primer verso de la estancia que sigue a la que acabo de citar:

Mas el cuervo, posado solitariamente en el busto plácido, no profirió..., etc.
 
A partir de este momento, el amante ya no bromea; ya no ve nada ficticio en el comportamiento del ave. Habla de ella en los términos de una triste, desgraciada, siniestra, enjuta y augural ave de los tiempos antiguos y siente los ojos ardientes que le abrasan hasta el fondo del corazón. Esa transición de su pensamiento y esa imaginación del amante tienen como finalidad predisponer al lector a otras análogas, conduciendo el espíritu hacia una posición propicia para el desenlace, que sobrevendrá tan rápida y directamente como sea posible. Con el desenlace propiamente dicho, expresado en el jamás del cuervo en respuesta a la última pregunta del amante -¿encontrará a su amada en el otro mundo?-, puede considerarse concluido el poema en su fase más clara y natural, la de simple narración. Hasta el presente, todo se ha mantenido en los límites de lo explicable y lo real.

Un cuervo ha aprendido mecánicamente la única palabra jamás; habiendo huido de su propietario, la furia de la tempestad le obliga, a medianoche, a pedir refugio en una ventana donde aún brilla una luz: la ventana de un estudiante que, divertido por el incidente, le pregunta en broma su nombre, sin esperar respuesta. Pero el cuervo, al ser interrogado, responde con su palabra habitual, nunca más: palabra que inmediatamente suscita un eco melancólico en el corazón del estudiante; y éste, expresando en voz alta los pensamientos que aquella circunstancia le sugiere, se emociona ante la repetición del jamás. El estudiante se entrega a las suposiciones que el caso le inspira; mas el ardor del corazón humano no tarda en inclinarle a martirizarse, así mismo y también por una especie de superstición a formularle preguntas que la respuesta inevitable, el intolerable "nunca más", le proporcione la más horrible secuela de sufrimiento, en cuanto amante solitario. La narración en lo que he designado como su primera fase o fase natural, halla su conclusión precisamente en esa tendencia del corazón a la tortura, llevada hasta el último extremo: hasta aquí, no se ha mostrado nada que pase los límites de la realidad.


Pero, en los temas manejados de esta manera, por mucha que sea la habilidad del artista y mucho el lujo de incidentes con que se adornen, siempre quedan cierta rudeza y cierta desnudez que dañan la mirada de la persona sensible. Dos elementos se exigen eternamente: por una parte, cierta suma de complejidad, dicho con mayor propiedad, de combinación; por otra cierta cantidad de espíritu sugestivo, algo así como una vena subterránea de pensamiento, invisible e indefinido. Esta última cualidad es la que le confiere a la obra de arte el aire opulento que a menudo cometemos la estupidez de confundir con el ideal. Lo que transmuta en prosa -y prosa de la más baja estofa-, la pretendida poesía de los que se denominan trascendentalistas, es justamente el exceso en la expresión del sentido que sólo debe quedar insinuado, la manía de convertir la corriente subterránea de una obra en la otra corriente, visible en la superficie.

Convencido de ello, añadí las dos estancias que concluyen el poema, porque su calidad sugestiva había de penetrar en toda la narración antecedente. La corriente subterránea del pensamiento se muestra por primera vez en estos versos:

Arranca tu pico de mi corazón y precipita tu espectro lejos de mi puerta.
El cuervo dijo: "Nunca más".

Quiero subrayar que la expresión "de mi corazón" encierra la primera expresión poética. Estas palabras, con la correspondiente respuesta, jamás, disponen el espíritu a buscar un sentido moral en toda la narración que se ha desarrollado anteriormente.

Entonces el lector comienza a considerar el cuervo como un ser emblemático pero sólo en el último verso de la última estancia puede ver con nitidez la intención de hacer del cuervo el símbolo del recuerdo fúnebre y eterno.

Y el cuervo, inmutable, sigue instalado, siempre instalado sobre el busto plácido de Palas, justo encima de la puerta de mi habitación;
y sus ojos parecen los ojos de un demonio que medita;
y la luz de la lámpara, que le chorrea encima, proyecta su sombra en el suelo;
y mi alma, fuera del círculo de aquella sombra que yace flotando en el suelo,
no podrá elevarse ya más, ¡nunca más!



1846

domingo, 2 de janeiro de 2011

Teoria da Narrativa: Posições do Narrador (Prof. Davi Arrigucci Jr)


(as marcações sublinhadas no texto são do blog)


FLT0124 Introdução aos Estudos Literários II

TEORIA DA NARRATIVA: POSIÇÕES DO NARRADOR

Prof. Davi Arrigucci Jr.
Professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP


Conferência de abertura das atividades do Depto. Científico da SBPSP do ano de 1998.

Abertura: Liana Pinto Chaves, Membro Efetivo e Diretora do Depto. Científico da SBSPS.


Liana: O Prof. Davi Arrigucci Jr. vai conversar conosco sobre teoria da narrativa. Eu gostaria de historiar um pouco como foi feito esse convite.

Quando fui conversar com ele, contei-lhe um pouco sobre o que foi no ano passado a nossa prática de apresentação de material clínico e algumas coisas que surgiram em função da diversidade dos materiais apresentados, principalmente, do estilo de cada pessoa, de cada analista, ao fazer a sua narrativa.

Todos que participaram devem lembrar-se de que cada caso era um caso. Além do paciente e além do analista, cada apresentação era uma e isso gerou muita conversa entre nós de que este seria um tema em si mesmo. A tal ponto, que Sandra Schaffa achou que isso daria um bom número para o Jornal de Psicanálise: a questão da narrativa e em que consiste o relato clínico.

Fomos então conversar com Davi e pedimos que ele nos desse algum subsídio pela via da literatura.

Bom, vocês conhecem o Davi. Ele é professor, um dos nossos críticos mais conhecidos e importantes. Eu acho que vai ser um ótimo começo para o nosso ano.


Davi:


Bem, vou tentar dizer alguma coisa no sentido do que me propuseram.


O assunto da narrativa certamente é muito amplo, complexo e inesgotável. Vou escolher alguns aspectos – os mais próximos talvez das questões que me foram expostas – para tentar estimulá-los a me colocarem questões comuns ou afins entre literatura e psicanálise ou que ao menos possam suscitar paralelos entre os problemas da narrativa literária e os relatos de casos.


Em 1940, Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, mulher de Bioy Casares, publicaram uma antologia da literatura fantástica que fez muito sucesso (Antologia de la literatura fantástica, Buenos Aires, Sudamericana, 1940). Naquele tempo, embora já houvesse uma tradição da literatura fantástica na Argentina e no Uruguai, o gênero não alcançara ainda a importância que veio a ter depois. Entre as histórias ali reunidas, aparece uma anedota, uma espécie de chiste, uma historieta breve e engenhosa, de um filósofo chinês de 300 a.C., Chuang-Tzu, autor de um livro recheado de histórias exemplares de ampla repercussão na tradição ocidental. Por isso mesmo, talvez já a conheçam:

“Chuang-Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao despertar, ignorava se era Tzu que havia sonhado que era uma borboleta, ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu”.


Nessa anedota há uma espécie de fantasia metafísica sobre a questão central da identidade, que é um dos problemas recorrentes na obra dos três autores da antologia. Mas é ainda uma questão que se coloca também para a narrativa em geral, porque na historieta há uma espécie de labilidade do sujeito – surge um sujeito escorregadio que dá o que pensar sobre o modo de narrar e suas consequências. Chuang-Tzu ou a borboleta podem ser a perspectiva a partir da qual a narrativa se entretece. Vamos dizer que essa fantasia metafísica sobre a identidade é também sobre a identidade do narrador, propõe uma questão sobre a identidade do narrador. Quando vamos contar qualquer história, uma das questões básicas é esta que a historieta propõe: como narrá-la, de que ângulo narrá-la. Penso que é essa a questão que se aproxima um pouco do interesse de vocês, pois envolve a questão da narrativa literária e de toda narrativa, também a dos historiadores e a dos psicanalistas, de quem quer que conte uma história.


Como narrar? Essa questão do como narrar leva, por sua vez, ao problema da possibilidade da narrativa. Será possível narrar? Essa pergunta atravessou toda a narrativa literária do século XX, desde o final do século passado. A questão de como narrar, que coloca o problema do narrador, atravessa também toda a história da literatura deste século como uma questão em aberto. Será possível narrar? Ou seja, o narrar se torna problemático durante a nossa época. As raízes históricas desse problema geral são vastas e complexas; não cabe tratar delas agora. Mas, antes do narrador problemático da narrativa moderna, quando se conta qualquer história se coloca sempre o problema do narrador, da perspectiva de onde narrá-la. Essa questão constitui, vamos dizer, o problema técnico essencial da narrativa, da narrativa literária, quer dizer, o problema do narrador e dos modos de narração. A posição do narrador é o centro da técnica ficcional: quem é o narrador? De que ângulo ele fala? De que canais se serve para narrar? A que distância coloca o ouvinte ou o leitor da narrativa? Estas perguntas constituem as questões que desafiam qualquer narrador, seja um narrador da tradição oral, da velha arte de contar histórias que se perde na noite dos tempos, seja um romancista de vanguarda. Para este, o simples ato de narrar pode ter se tornado uma questão problemática ou até mesmo impossível em nosso tempo.


O filósofo Theodor W. Adorno tem um ensaio sobre a posição do narrador no romance contemporâneo que começa justamente interrogando como narrar quando é impossível narrar e a forma do romance exige a narração. Podemos, depois, discutir essa questão da impossibilidade de narrar própria de nosso tempo. Mas, supondo-se que narrar seja possível, há uma série de problemas que se colocam para qualquer narrador. Esses problemas constituem a base da técnica ficcional: o problema do tom e o problema do ponto de vista. Esses são os termos técnicos e recobrem feixes de problemas conjugados.


Em geral pensamos em tom como sendo a atitude que o narrador assume diante daquilo que tem para contar. Podemos tratar disso também posteriormente. Todos entendem decerto o que seja o tom. Posso ter duas histórias semelhantes que, contadas com tons diferentes, tomarão sentidos diversos. Basta dar um tom irônico para eu inverter e dar a entender exatamente o oposto do que estou dizendo. Assim, o tom é uma atitude que pode compor a entonação da frase na narrativa oral, ou a ironia dramática, inscrita na história.


De outro lado, há o ponto de vista. As principais questões da técnica ficcional na teoria da narrativa podem ser consideradas como relativas ao ponto de vista ou foco narrativo, que são expressões usadas em geral como sinônimas, embora em certos autores possam implicar matizes diferentes. A expressão “ponto de vista” vem das artes plásticas, e “foco narrativo” vem da física, mas são usadas indiferentemente. Na tradição moderna, esses problemas exigiram o trabalho dos próprios romancistas, quando refletiram sobre a arte de contar histórias. Assim, no livro de Miriam Allot que reúne romancistas falando sobre o romance, vão ver que há um conjunto de autores debruçados sobre as dificuldades de narrar e os problemas envolvidos nos modos de narração, na adoção de uma voz narrativa capaz de comunicar os fatos ao leitor.

(...)


Bibliografia:
Jornal de Psicanálise do Instituto de Psicanálise - SBPSP - Volume 31, 1998, n.57

domingo, 24 de janeiro de 2010

Caminhada e dia de domingo: Jovens devem ler originais ou adaptações?


Minha família querida: pai, sobrinha, 
mãe e sobrinho em nov/09.

Caminhada longa pela manhã. Fez Sol - foi um intervalo em um fim de semana chuvoso. Viajei com o canto das cigarras e pássaros naqueles instantes. Andei uns 8 km.

Voltando para casa, voltei à realidade: palavras e pensamentos em vão!

Leitura da revista Carta Capital n.579 sobre a chiadeira dos conservadores em geral - igreja, militares, elite e grande mídia - sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos do governo federal, o PNDH 3.

Reli um pouco da obra Vidas Secas para analisar o quanto é absurdo a escola de meu filho mandar comprar clássicos "adaptados para jovens" ao invés de mandar os jovens lerem os próprios livros. (Quando comecei a ler este de Graciliano, havíamos pensado que também era para comprar uma adaptação dele. Depois descobrimos que era para comprar uma adaptação da Jane Austen - o que discordo da mesma forma)

A escola mandou comprar uma adaptação de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen (ainda é lacuna cultural para mim, pois não li a obra, apesar de tê-la).


TEORIA LITERÁRIA

Eu não sou favorável a mandar jovens lerem adaptações de livros clássicos. Acho que seria melhor escolher livros com linguagens mais adequadas a cada idade do que ler clássicos reescritos por outros.




Aliás, quando afirmo isto, de ter idade certa para uma leitura qualquer, vou mais na linha do professor Hansen (USP) e contra a opinião do professor Antonio Candido (USP), que acredita que todo tipo de obra de arte, incluindo a literária, deve ser fornecida a qualquer tipo de pessoa, pois cada pessoa, cada jovem, pode estar mais ou menos preparado para várias linguagens literárias.

Essa moda de "adaptar" para facilitar o entendimento de jovens é um dos motivos da (des)educação de hoje estar criando seres automáticos e sem capacidade de pensamento reflexivo.

Como querem criar máquinas e robôs que pensem como gente se estão fazendo gente "pensar" como robôs - burros, vazios de emoção e que só servem para seguir instruções induzidas pelos comandos ("márquetim" e moda, no caso humano)?

Me preocupa ver os jovens que vão mandar no mundo de amanhã... Eu os vejo nas praças de alimentação e, às vezes, sinto repulsa... que nháca!


sexta-feira, 10 de julho de 2009

A poesia em 1930, de Mário de Andrade


Mário de Andrade, pintura de Lasar Segall.

Mário destaca a aparição em 1930 de 4 livros de "poetas feitos", segundo ele, "quatro livros de poetas na força do homem", destacando que já não são moços e sim poetas. Drummond - Alguma poesia. Manuel Bandeira - Libertinagem, Augusto Schmidt - Pássaro Cego e Murilo Mendes - Poemas.

(aqui focarei Manuel Bandeira)



POESIA CONTEMPORÂNEA: O RITMO


"A poesia brasileira muito que tem sofrido destas inconveniências (da aurora), principalmente a contemporânea, em que a licença de não metrificar botou muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso-livre".


Desprovido o poema de metro e rima, fica o... talento. (Mário de Andrade)



Mário faz duras críticas aos que põem em livros poesias juvenis e pueris: "escrevam se quiserem, mas não se envolumem".



FIM DA IMPERSONALIZAÇÃO DAS MÉTRICAS TRADICIONAIS


"Verso livre é justamente aquisição de ritmos pessoais. Está claro que se saímos da impersonalização das métricas tradicionais, não é pra substituir um encanto socializador por um vácuo individual. O verso livre é uma vitória do individualismo... Beneficiemos ao menos dessa vitória".



COMENTÁRIO DO BLOG: Este é um individualismo positivo, pois que trata do subjetivismo do ser humano.



Libertinagem, é um livro de cristalização de Manuel Bandeira, da sua psicologia e não da sua poesia, já madura. Cristaliza seu ideal estético: Mário diz "libertação pessoal".



POÉTICA


"Estou farto de lirismo comedido
Do lirismo bem comportado...
(...)
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação."

A aula de teoria literária de Mário de Andrade é tão complexa que fica difícil escolher trechos para destacar.



BANDEIRA E POESIA: AMANTES BEM CASADOS


"Bandeira lembra esses amantes bem casados que, depois de tanta convivência, acabam se parecendo fisicamente um com o outro. Assim a rítmica dele acabou se parecendo com o físico de Manuel Bandeira. Raro uma doçura franca de movimento. Ritmo todo de ângulos, incisivo, em versos espetados, entradas bruscas, sentimento em lascas, gestos quebrados, nenhuma ondulação. A famosa cadência oratória da frase desapareceu. Nesse sentido, Manuel Bandeira é o poeta mais civilizado do Brasil: não só pelo abandono total do enfeite gostoso, como por ser o mais... tipográfico de quantos, bons, possuímos. Quero dizer: se a gente contar na Poesia a maneira dela se realizar, desde o grito inicial à poesia cantada, à manuscrita que se decora, à recitada com acompanhamento, à declamada, à poesia, enfim concebida exclusivamente pra leitura de olhos mudos: Manuel Bandeira é dentre os poetas vivos nossos o que prescinde mais do som. A poesia dele, na infinita maioria atual, é poesia pra leitura...".


No poema O Cacto, o último verso diz bem o ritmo de então de Manuel Bandeira:


"Era belo, áspero, intratável."



DUALISMO CURIOSO: ESSÊNCIA "INTRATÁVEL" x O LÍRICO


"Aliás se dá mesmo uma luta permanente entre essa essência 'intratável' do indivíduo Manuel Bandeira e o lírico que tem nele. Vem disso o dualismo curioso que a gente percebe nas obras dele, passando de jogos com valor absolutamente pessoal, duma detalhação por vezes pueril (no sentido etimológico da palavra), difícil de compreender ou de sentir com intensidade pra quem não privou com o homem, a concepções profundas, duma beleza extremada e interesse geral. Interesse em que não entra mais o conhecimento pessoal do poeta, ou coincidência psicológica com ele. As melhores obras do poeta, Andorinha, O Anjo da Guarda, A Virgem Maria, Evocação do Recife, Teresa, Noturno da Rua da Lapa, pra citar apenas o Libertinagem, são as poesias em que por mais pessoais que sejam assuntos e detalhes, mais o poeta se despersonaliza, mais é toda a gente e menos é caracteristicamente ritmado. A própria Evocação do Recife que atinge o recesso da família chamada nominalmente (Totônio Rodrigues, dona Aninha Viegas), é bem a maneira por que toda a gente ama o lugarinho natal...".


(SEGUE O ESTUDO...)



Bibliografia:


ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. Livraria Martins Editora S.A., São Paulo, 1974, 5ª. edição.