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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Leitura: Cacau (1933) - Jorge Amado




Refeição Cultural

"Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia.
     Será um romance proletário?" (Nota no início do romance de J. Amado. Rio, 1933)


A leitura deste romance de Jorge Amado, cuja estória se passa no início dos anos trinta, se deu num contexto de muita identificação da realidade brasileira atual com o enredo retratado no livro. A condição de miséria absoluta dos trabalhadores nas plantações de cacau volta a ser um retrato do país após o golpe de Estado de 2016.

Enormes contingentes de homens e mulheres trabalhando no eito em condições insalubres, recebendo soldos que não são suficientes sequer para pagarem a conta de suas próprias alimentações, adquiridas nas fazendas mesmo, e quanto mais tempo ficam trabalhando para os fazendeiros, mas ficam devendo. 

É um regime de escravidão, ontem e hoje. O que era a prática dos anos trinta volta a se repetir com mais intensidade no século 21, sob novo regime político, posterior ao golpe de Estado; regime que passou a vigorar a favor de banqueiros, empresários e ruralistas e totalmente subserviente aos Estados Unidos; trata-se dos governos de Temer e do clã Bolsonaro.

A realidade dos pobres no Brasil só foi diferente em séculos durante um curto intervalo de tempo: os governos do Partido dos Trabalhadores, em três mandatos presidenciais - com Lula e Dilma -, quando os pobres foram incluídos no orçamento do Estado, com políticas definidas e voltadas para melhorar a vida do povo. Isso acabou quando corruptos de colarinho branco, ocupando cargos nos 3 poderes, cassaram o mandato do PT e então voltamos à barbárie.

PARA POBRES, ANOS 80 ERAM COMO OS ANOS 30: O VIVER DAS GENTES É QUASE NA CONDIÇÃO DE BICHO

"Nove horas da noite o silêncio enchia tudo e a gente se estirava nas tábuas que serviam de cama e dormíamos um sono só, sem sonhos e sem esperança. Sabíamos que no outro dia continuaríamos a colher cacau para ganhar três mil e quinhentos que a despensa nos levaria. Aos sábados íamos a Pirangi por o sexo em dia. Alguns levavam meses sem sair da fazenda e se satisfaziam nas éguas da tropa. Mineira, a madrinha da tropa, era viciada e disputada. Os meninos desde garotos se exercitavam nas cabras e ovelhas." (AMADO, 1981, p. 47)

Eu cresci em Minas Gerais, já nos anos oitenta, e me lembro de toda essa miséria quando convivia com primos e conhecidos no Triângulo Mineiro. Apesar de vivermos em região urbana, tinha familiares que trabalhavam em fazendas e roças. Não era a minha rotina, mas cheguei a ir com eles capinar e fazer serviços por empreitada. Duríssimo o trabalho de sol a sol na roça, no mato, sem protetor solar e coisas do tipo.

Ao vivermos na cidade, os trabalhos disponíveis eram duros, porém acho que eram menos pesados ou insalubres que os das fazendas. Era o trabalho em construções, de servente ou de ajudante geral. Eu fui ajudante de encanador, quebrava concreto e paredes. Era ruim o serviço: me marcou bastante lidar com marreta, ponteiro e talhadeira, bolhas nas mãos e cheiro de merda dos outros.

"Nós ríamos. E não sei por que a riqueza não nos tentava muito. Nós queríamos um pouco mais de conforto para a nossa bem grande miséria. Mais animais do que homens, tínhamos um vocabulário reduzidíssimo onde os palavrões imperavam. Eu, naquele tempo, com os outros trabalhadores, nada sabia das lutas de classes. Mas adivinhávamos qualquer coisa." (AMADO, 1981, p. 48)

VIOLÊNCIA CONTRA OS DESPOSSUÍDOS DE RECURSOS

"Foi numa dessas carreiras que um garoto bateu num cacaueiro e derrubou um fruto verde. O coronel, que olhava da varanda, voou em cima do menino, que ante o tamanho do seu crime parara boquiaberto. Mané Frajelo suspendeu o criminoso pelas orelhas:
     - Você pensa que isso aqui é de seu pai, seu corneta? Comem e só fazem destruir as plantações, gente desgraçada.
     Uma tábua de caixão, abandonada perto, serviu de chicote. O garoto berrava. Depois, dois pontapés.
     Colodino fechava os olhos e cerrava os punhos. Mas ficávamos todos parados, sem um gesto. Era o coronel quem batia e demais o castigado derrubara um coco de cacau. De cacau... Maldito cacau..." (AMADO, 1981, p. 87)

CONSCIÊNCIA DE CLASSE

"- Por que você não matou Colodino? Porque queria bem a ele?
     - Eu gostava de Colodino... Mas eu não queimei o bruto porque ele era alugado como a gente. Matá coroné é bom, mas trabaiadô não mato. Não sou traidô...
     Só muito tempo depois soube que o gesto de Honório não se chamava generosidade. Tinha um nome mais bonito: Consciência de Classe." (AMADO, 1981, p. 121)

ESPERANÇA

O final da estória é um sinal de esperança, da ação de esperançar, haja vista que entre o amor carnal e o amor pelo próximo, pela causa dos companheiros de labuta e de destino, as personagens do eito optam pela luta, pelo amor aos seus pares. Nem tudo está perdido.

Estamos precisando muito desses gestos e desse despertar nos milhões de trabalhadores do novo eito, as pessoas invisíveis dos call center e dos aplicativos que se arriscam por aí em bicicletas, em velhas motos e em seus próprios carros ou alugados servindo como motoristas, os novos escravos sem direito a nada, que seguem gastando pra comer mais do que ganham pra trabalhar.

Cacau é ontem, Cacau é hoje.

William

Bibliografia:

AMADO, Jorge. Cacau. 37ª edição. Editora Record: Rio de Janeiro, 1981.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Leitura: Mar Morto (1936) - Jorge Amado


Jorge Amado. Acervo Fundação Casa de Jorge Amado.

Refeição Cultural

"Do mar vem a música, vem o amor e vem a morte..." (Mar Morto, Jorge Amado)


Dentre as leituras que escolhi para este mês de janeiro - estou em férias -, além das fáusticas, elenquei alguns autores e contextos relacionados ao Nordeste brasileiro. Já li João Cabral de Melo Neto e li nesta segunda-feira (23) dois livros clássicos de Manuel Bandeira: Libertinagem (1930) e Estrela da Manhã (1936). São livros que marcam mudanças na poética de nosso querido poeta pernambucano.

Eu havia lido o romance Mar Morto, de Jorge Amado, quando era adolescente. Foi um dos períodos mais marcantes de minha vida. O contexto miserável de nosso país nos anos oitenta recheia aquela época de minha primeira leitura.

Reli entre os dias 15 e 21 de janeiro esta obra da primeira fase da carreira de Jorge Amado, fase de forte denúncia social, e novamente fiquei muito tocado por ela. Comecei a leitura olhando para o mar de Porto de Galinhas, em Pernambuco, e fui terminar de lê-la em Brasília.

Na leitura de alguns poemas de Manuel Bandeira, vieram-me à mente as histórias e causos dos marítimos, daqueles que vivem do mar. A obra de Bandeira é contemporânea do romance de Jorge Amado. No livro Estrela da Manhã (1936), temos os poemas "Marinheiro Triste" e "D. Janaína".


"D. JANAINA

D. Janaína
Sereia do mar
D. Janaína
De maiô encarnado
D. Janaína
Vai se banhar.

D. Janaína
Princesa do mar
D. Janaína
Tem muitos amores
É o rei do Congo
É o rei de Aloanda
É o sultão-dos-matos
É S. Salavá!

Saravá saravá
D. Janaína
Rainha do mar!

D. Janaína
Princesa do mar
Dai-me licença
Pra eu também brincar
No vosso reinado."

(Estrela da Manhã, 1936, Manuel Bandeira)

Consegui ler a mesma edição
que li décadas atrás.
Meu primo deu ela pra mim.

DESTINOS IGUAIS (E IMUTÁVEIS)

"E, se numa noite, lhe viessem trazer a notícia de que Guma estava no fundo do mar e o Valente vagava sem rumo, sem leme, sem guia? Só então ela sentia toda a dor de Judith, se sentiu totalmente sua irmã, irmã também de Maria Clara, de todas as mulheres do mar, mulheres de destinos iguais: esperar numa noite de tempestade a notícia da morte de um homem."


DESPEDIDAS SÃO LONGOS ADEUSES

"Quando se despedem das mulheres não dão rápidos beijos, como os homens da terra que vão para os seus negócios. Dão adeuses longos, mãos que acenam, como que ainda chamando."


IEMANJÁ DOS CINCO NOMES - Iemanjá, dona das águas, senhora dos oceanos; Janaína, dos canoeiros; Inaê ou Princesa de Aiocá, dos pretos, seus filhos mais diletos; e Dona Maria, como a tratam as mulheres do cais.

"Lívia pensa com raiva em Iemanjá. Ela é a mãe-d'água, é a dona do mar, e por isso, todos os homens que vivem em cima das ondas a temem e a amam. Ela castiga. Ela nunca se mostra aos homens a não ser quando eles morrem no mar (...) a mãe-d'água é loira e tem cabelos compridos e anda nua debaixo das ondas, vestida somente com os cabelos que a gente vê quando a lua passa sobre o mar."


IEMANJÁ MORA NA BAHIA

"O oceano é muito grande, o mar é uma estrada sem fim, as águas são muito mais que metade do mundo, são três quartas partes, e tudo isso é de Iemanjá. No entanto, ela mora é na pedra do Dique do cais da Bahia ou na sua loca em Monte Serrat. Podia morar nas cidades do Mediterrâneo, nos mares da China, na Califórnia, no mar Egeu, no golfo do México. Antigamente ela morava nas costas da África, que dizem que é perto das terras de Aiocá. Mas veio para a Bahia ver as águas do rio Paraguaçu. E ficou morando no cais, perto do Dique, numa pedra que é sagrada. Lá ela penteia os cabelos (vêm mucamas lindas com pentes de praia e marfim), ela ouve as preces das mulheres marítimas, desencadeia as tempestades, escolhe os homens que há de levar para o passeio infindável no fundo do mar. E é ali que se realiza a sua festa, mais bonita que todas as procissões da Bahia, mais bonita que todas as macumbas, que ela é dos orixás mais poderosos, ela é dos primeiros, daqueles de onde os outros vieram..."


COSMOGONIA BAIANA

"Iemanjá é assim terrível porque ela é mãe e esposa. Aquelas águas nasceram-lhe no dia em que seu filho a possuiu. Não são muitos no cais que sabem da história de Iemanjá e de Orungã, seu filho. Mas Anselmo sabe e também o velho Francisco. No entanto, eles não vivem contando essa história, que ela faz desencadear a cólera de Janaína. Foi o caso que Iemanjá teve de Aganju, deus da terra firme, um filho, Orungã, que foi feito deus dos ares, de tudo que fica entre a terra e o céu. Orungã rodou por estas terras, viveu por esses ares, mas o seu pensamento não saía da imagem da mãe, aquela bela rainha das águas. Ela era mais bonita que todas e os desejos dele eram todos para ela. E um dia, não resistiu e a violentou. Iemanjá fugiu e na fuga seus seios romperam, e assim, surgiram as águas, e também essa Bahia de Todos os Santos. E do seu ventre, fecundado pelo filho, nasceram os orixás mais temidos, aqueles que mandam nos raios, nas tempestades e trovões..."


ANOS 30... NA ESPERANÇA DE UM FUTURO MELHOR

" - Você nunca imaginou esse mar cheio de saveiros limpos, com marítimos bem alimentados, ganhando o que merecem, as esposas com o futuro garantido, os filhos na escola não durante seis meses, mas todo o tempo, depois indo aqueles que têm vocação para as faculdades? Já pensou em postos de salvamento nos rios, na boca da barra? Às vezes eu imagino o cais assim..."

COMENTÁRIO: com políticas públicas e vontade política, vimos isso no início do século 21 e sabemos que é possível melhorar a vida do povo mais pobre e humilde, dependente do Estado.


A ETERNA QUESTÃO DA CULTURA DA RAÇA BRANCA

" - É só você pedir a Rufino.
- Aquele? E quero lá filho de negro! Estou precisando de um filho de gente mais branca do que eu para melhorar a família..."


TRAGÉDIAS COTIDIANAS DO DIA A DIA DO MAR

"Alcançavam a boca da barra. Destroços de três saveiros boiavam. O temporal tentava naufragar os que vinham salvar. Pessoas seguravam-se em pedaços de tábua, nos cacos dos saveiros. E gritavam, choravam, menos Paulo que era mestre de um dos saveiros naufragados e segurava uma criança nos braços. Os tubarões já tinham pegado dois e de um terceiro arrancaram a perna. Mestre Manuel começou a recolher gente no seu saveiro. Outros faziam o mesmo, mas nem sempre era fácil, os saveiros iam e vinham, alguns náufragos se soltavam das tábuas onde se seguravam e não tinham tempo de alcançar o saveiro, desapareciam no fundo da água. Paulo entregou a criança a Manuel. Quando entrou para o saveiro disse:

- Era cinco. Só ficou esse..."


Comentário Final

MAR MORTO? NAVEGAMOS NA POLÍTICA DE INCLUSÃO E NAUFRAGAMOS... E AGORA, JOSÉ?

Nesta quadra da história em que estamos, no pós crash do subprime de 2008, no pós golpe de estado no Brasil, com alguns magnatas e suas corporações que detêm a riqueza da metade da população mundial, "pessoas" jurídicas que desconsideram a existência de países, povos e ecossistemas, na era da pós-verdade, determinada pela capacidade dos detentores de maior poder de imposição/influência de seus desejos sobre a maioria, onde pouco importam as verdades factuais, enfim, que posso esperar para o amanhã dos milhões e bilhões de humanos não incluídos no 1% que brinca com o tabuleiro-mundo?

As ferramentas de manipulação de massas estão com os donos do mundo (1%). Eles não só mantêm a massa pacificamente e bovinamente amestrada, criando pautas que encobrem e desviam a atenção, com pão e circo e consumos de porcarias que afagam desejos epicuristas, como também adestram a massa humana para defender a ideologia da classe dominante (o 1%).

E agora, José?


William


Bibliografia:

AMADO, Jorge. Mar Morto. Círculo do Livro. 

domingo, 8 de abril de 2012

Capitães da Areia - O filme (2011)


Poster do filme.

Seguindo o ritual que prefiro de primeiro ler a obra para depois ver o filme, quando se trata de filmes baseados em obras literárias, assisti ao filme Capitães da Areia baseado na obra homônima de Jorge Amado, de 1937 - que li em janeiro deste ano.

Leia AQUI meus comentários sobre o livro.

O filme é de 2011 e foi dirigido por Cecília Amado, neta de Jorge Amado.

Gostei do filme, gostei da meninada que interpreta os personagens da obra e gostei muito da trilha sonora do filme sob a responsabilidade de Carlinhos Brown.

Esta obra é da primeira fase de Jorge Amado, dos anos 30 e 40, onde o forte é a denúncia social de forma direta e sem disfarce.

Para não ficar só no elogio, acho que talvez falte alguma coisa para o telespectador que não conheça o livro, pois a meninada tem uma história que não fica evidenciada na rapidez natural do filme, que concentra alguns episódios do livro como a aventura a cargo de Pedro Bala em recuperar na cadeia o santo do candomblé; a batalha contra a gangue rival; a prisão e fuga de Bala e Dora etc.

Um dos episódios que mais me tocaram no livro foi sobre Sem-Pernas, que tem inclusive destino diferente no filme em relação ao livro.

FOTOGRAFIA

Belíssima cena do Carrossel!

Gostei bastante da parte visual do filme. A cena do carrossel é maravilhosa!

As cenas dos meninos na cidade de Salvador também são inclusivas, nos colocam lá.

É um filme para ver mais vezes, na minha opinião.

William


sábado, 10 de março de 2012

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (1959) – Jorge Amado


Capa de minha edição.

CLÁSSICO BRASILEIRO de 1959


Li nesta semana (entre idas e vindas em transporte urbano) mais uma obra de Jorge Amado, para ver em seguida o filme brasileiro baseado na história, pois sempre que penso em assistir a um filme baseado em livros, gosto de ler o livro antes.

Tem filmes famosos que não vi até hoje porque não li o livro. Querem exemplos? Moby Dick, As vinhas da Ira etc. Outro exemplo recente é o filme também baseado na obra de Jorge Amado Capitães da areia. Agora já li o livro e posso ver o filme também.

Fundação Casa de Jorge Amado, 
Pelourinho, Salvador - BA.
Foto: William Mendes, 2011.

A LEITURA

A leitura é uma delícia. É leve e rápida. Como precisei comprar o livro para meu filho usar na escola, acabei pegando e lendo ele primeiro.


“Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca, representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo)...”


“Não sei se esse mistério da morte (ou das sucessivas mortes) de Quincas Berro Dágua pode ser completamente decifrado. Mas eu o tentarei, como ele próprio aconselhava, pois o importante é tentar, mesmo o impossível.”


Assim começa e termina o primeiro capítulo do livro. Encontramos ali na frase final um EU que se identifica para TENTAR decifrar a ou as mortes de Quincas.

Ladeiras do Pelourinho, Salvador BA. 
Foto: William Mendes, 2011.

AS MORTES DE QUINCAS BERRO DÁGUA

São três as mortes de nosso personagem: “Cometendo uma injustiça (a família), atribuem a esses amigos de Quincas toda a responsabilidade da malfadada existência por ele vivida nos últimos anos, quando se tornara desgosto e vergonha para a família. A ponto de seu nome não ser pronunciado e seus feitos não serem comentados na presença inocente das crianças, para as quais o avô Joaquim, de saudosa memória, morrera há muito, decentemente, cercado da estima e do respeito do todos. O que nos leva a constatar ter havido uma primeira morte, se não física pelo menos moral, datada de anos antes, somando um total de três, fazendo de Quincas um recordista da morte, um campeão do falecimento, dando-nos o direito de pensar terem sido os acontecimentos posteriores – a partir do atestado de óbito até seu mergulho no mar – uma farsa montada por ele com o intuito de mais uma vez atazanar a vida dos parentes, desgostar-lhes a existência, mergulhando-os na vergonha e nas murmurações da rua...”

Igreja de São Francisco, Pelourinho BA. 
Foto: William Mendes, 2011.

A MORTE TRAZ RESPEITO AO MORTO

Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante. Essa a tese da família, aplaudida por vizinhos e amigos. Segundo eles, Quincas Berro Dágua, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da mesa de rendas estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto num botequim, de cachaça caseira e comedida.”


Comentário: Cara!, e não é que ao ler esta máxima sobre a morte me lembrei de um monte de gente falecida que para uma boa parte do mundo era um lixo de gente e que após a morte foi reverenciada como a melhor pessoa do mundo!

Até hoje, ninguém entende o ex-presidente Lula da Silva, sacaneado por trinta anos pelo Roberto Marinho, babando elogios ao morto em seu velório...

Belíssima construção da Faculdade
de Medicina de Salvador BA.
Foto: William Mende, 2011.

OS PARENTES

Os personagens parentes de seu Joaquim Soares da Cunha são a filha Vanda, seu genro Leonardo, seu irmão tio Eduardo e a esposa tia Marocas, e a falecida esposa Dona Otacília.

Para Quincas eram jararacas mãe e esposa, saco de peidos a cunhada, e pobre coitado o genro.


OS AMIGOS

Os amigos inseparáveis do paizinho são Curió, Negro Pastinha, cabo Martim e Pé-de-Vento.

Pé-de-Vento vendia anfíbios para a ciência. Ele vivia com uma jia na mão e no bolso. (“sapo não, jia”)

Quitéria do olho arregalado, que “nos momentos de maior ternura, dizia-lhe ‘Berrito’ por entre os dentes mordedores”.

Mestre Manuel, o dono do saveiro.

Maria Clara, Doralice, gorda Margô...

Outra bela igreja da região do Pelourinho. 
Foto: William Mendes, 2011.

AS ALCUNHAS

Rei dos vagabundos da Bahia, Cachaceiro-mor de Salvador, Filósofo esfarrapado da Rampa do Mercado, Senador das gafieiras, “o vagabundo por excelência” eis como o tratavam os jornais, onde por vezes sua sórdida fotografia era estampada. O Patriarca da zona do baixo meretrício.

Quincas se via como O velho marinheiro (“Velho marinheiro sem barco e sem mar, desmoralizado em terra, mas não por culpa sua”).

Panorâmica vendo a baía e o Elevador Lacerda. 
Foto: William Mendes, 2011.

O NOME QUINCAS BERRO DÁGUA

(...) Nos bares, nos botequins, no balcão das vendas e armazéns, onde quer que se bebesse cachaça, imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irremediável. Quem sabia beber melhor do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume. Há quantos anos não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro Dágua.

Não que seja fato memorável ou excitante história. Mas vale a pena contar o caso pois foi a partir desse distante dia que a alcunha de “Berro Dágua” incorporou-se definitivamente ao nome de Quincas. Entrara ele na venda de Lopez, simpático espanhol, na parte externa do mercado. Freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem auxílio do empregado. Sobre o balcão viu uma garrafa, transbordando de límpida cachaça, transparente, perfeita. Encheu um copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de uma vez. E um berro inumano cortou a placidez da manhã no mercado, abalando o próprio elevador Lacerda em seus profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte de um homem traído e desgraçado:

- Águuuuua!”.

Foto noturna do Elevador Lacerda. Até ele
sacudiu com o berro do Quincas.
Foto de William Mendes, 2011.

E AS DERRADEIRAS PALAVRAS?

Há várias versões. Um dos trovadores do mercado diz assim:


No meio da confusão
Ouviu-se Quincas dizer:
“Me enterro como entender
Na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
Pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender
Em cova rasa no chão.”
E foi impossível saber
O resto de sua oração.

Noturna do Elevador Lacerda, com detalhe de pintura.
Foto: William Mendes, 2011.

COMENTÁRIO FINAL

O defunto que não deixou de rir um momento sequer enquanto durou a sacanagem dele em desfazer a tentativa da família de ressuscitar o venerável e respeitável Joaquim Soares da Cunha é um dos pontos altos da história. Sem essa de manter a reputação social da família!

O humor, a ironia e a sensualidade nas obras de Jorge Amado na sua fase após os anos cinquenta são bem diferentes do estilo de forte denúncia social presente nos primeiros vinte anos de obras como Capitães da areia. Não estou dizendo que não há denúncia social em histórias como a de Quincas, mas na primeira fase, as histórias são bem duras.

Lembro-me de como fiquei tocado com a leitura de Mar morto, leitura de minha adolescência. Preciso reler este livro, mas na minha cabeça ficou uma história de marinheiros e mulheres do porto, que sempre vinculo à música de Chico Buarque “Minha História (Gesubambino)”.


“Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar,
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar,
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente,
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente...”


Capa do filme.
O FILME

O filme estreou em 2010 e tem direção e adaptação de Sérgio Machado.

Eu gostei do filme. A interpretação de Paulo José no corpo defunto de Quincas está muito boa. O filme ficou alegre e divertido. A sonoplastia também ficou boa.

A adaptação do Sérgio Machado também é satisfatória, já que ele não segue a história. Mas eu sei que transformar em arte visual obras literárias não é nada fácil.

As técnicas e os efeitos são completamente diferentes. Na literatura, a participação do leitor é obrigatória. Além de ler, cabe ao leitor ser o diretor de fotografia e sonoplastia. Toda a arte visual é dele – leitor - e é única.

Na sétima arte, ganhamos de mão beijada todo o visual. BUUMM! Lá está, é só sentar e ver, ouvir, sentir...


Gostei do filme. Tá bem levinho. É só sentar e assistir!

William


Post Scriptum (24/jan/17):

Releitura da postagem para escrever sobre a releitura de Mar Morto, de 1936.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Capitães da Areia (1937) – Jorge Amado


Imagem do filme Capitães da Areia.

CAPITÃES DA AREIA – Jorge Amado

CLÁSSICO BRASILEIRO de 1937

“Companheiros, vamos pra luta...”

Antes de iniciar esta obra prima de Jorge Amado, a única experiência com o autor foi a leitura de Mar Morto de 1936. Leitura que fiz na adolescência, quando vivia em Uberlândia. Aliás, recuperei o volume original de minha leitura, pois meu primo mo deu.
Estou chegando à metade da leitura e o livro já me emocionou várias vezes. Já me fez parar a leitura e ficar pensando em minha infância e adolescência lá em Minas Gerais. Também já me fez ficar pensando nos sentimentos que sempre tive.
Hoje, li um capítulo chamado Família e fiquei pensando a respeito. Eu torci para que o desfecho fosse outro. Fiquei confuso pensando em meu papel social e a torcida que tive e que não se realizou. Fui buscar pão para o café da manhã e fiquei me questionando enquanto caminhava.

A DIFÍCIL DECISÃO DE Sem-Pernas

- O ÓDIO QUE NOS MOVE...

“Mas desta vez estava sendo diferente. Desta vez não o deixaram na cozinha com seus molambos, não o puseram a dormir no quintal. Deram-lhe roupa, um quarto, comida na sala de jantar. Era como um hóspede. Era como um hóspede querido. E fumando o seu cigarro escondido (o Sem-Pernas pergunta a si mesmo por que está se escondendo para fumar), o Sem-Pernas pensa sem compreender. Não compreende nada do que se passa. Sua cara está franzida. Lembra os dias na cadeia, a surra que lhe deram, os sonhos que nunca deixaram de persegui-lo. E, de súbito, tem medo de que nesta casa sejam bons para ele. Sim, um grande medo de que sejam bons para ele. Não sabe mesmo por quê, mas tem medo. E levanta-se, sai do seu esconderijo e vai fumar bem por baixo da janela da senhora. Assim verão que ele é um menino perdido, que não merece um quarto, roupa nova, comida na sala de jantar. Assim o mandarão para a cozinha, ele poderá levar para diante sua obra de vingança, conservar o ódio no seu coração. Porque se esse ódio desaparecer, ele morrerá, não terá nenhum motivo para viver. E diante dos seus olhos passa a visão do homem de colete que vê os soldados a espancar o Sem-Pernas e ri numa gargalhada brutal. Isso há de impedir sempre o Sem-Pernas de ver o rosto bondoso de dona Ester, o gesto protetor da mão do padre José Pedro, a solidariedade dos músculos grevistas do estivador João de Adão. Será sozinho e seu ódio alcança a todos, brancos e negros, homens e mulheres, ricos e pobres. Por isso teme que sejam bons para consigo.”
Vi em Sem-Pernas todo o ódio que senti na adolescência e que sempre me moveu...

- O AFETO QUE NOS MOVE...

“- Não precisa, dona Ester, aqui tá muito bom.
Ela se acercou dele e o beijou na face:
- Boa noite, meu filho.
Saiu, cerrando a porta. O Sem-Pernas ficou parado, sem um gesto, sem responder sequer o boa-noite, a mão no rosto, no lugar em que dona Ester o beijara. Não pensava, não via nada. Só a suave carícia do beijo, uma carícia como nunca tivera, uma carícia de mãe. Só a suave carícia no seu rosto. Era como se o mundo houvesse parado naquele momento do beijo e tudo houvesse mudado. Só havia no universo inteiro a sensação suave daquele beijo maternal na face do Sem-Pernas.”

EXCEÇÃO AO ÓDIO: SEUS PARES

“E se para alguém o Sem-Pernas abria exceção no seu ódio, que abrangia o mundo todo, era para as crianças que formavam os Capitães da Areia. Estes eram seus companheiros, eram iguais a ele, eram as vítimas de todos os demais, pensava o Sem-Pernas. E agora sentia que os estava abandonando, que estava passando para o outro lado (...).”

OUTRA EXCEÇÃO AO ÓDIO: DONA ESTER

“Seu ódio para todos não desaparecera, é verdade. Mas abrira uma exceção para a gente daquela casa, porque dona Ester o chamava de filho e o beijava na face. O Sem-Pernas luta consigo mesmo (...).”

QUEDEI CISMANDO

Fiquei incomodado com o desfecho do capítulo. Fiquei pensando no tema Igualdade de Oportunidades e outras questões que levantamos no movimento sindical a respeito de dar oportunidades iguais a todas as crianças e deixar que o restante venha com o tempo.
Me coloquei no lugar do Sem-Pernas e vi que tomaria outra decisão. Acho que por isso fiquei incomodado.
Talvez a minha posição tenha a ver com um de meus desejos mais antigos, desde o tempo em que torcia muito para o dia duro do trabalho braçal acabar para ir dormir e descansar física e mentalmente para um novo dia de labuta na adolescência inteira. Sonhava em encontrar Paz.
Um pouco de paz. A vida diária de grande parte das crianças, jovens e adultos pobres e miseráveis sempre foi uma guerra diária pela sobrevivência, por um lugar ao sol. Acho que no fundo, eu sonho com isso desde que me entendo por gente.
É isso, o livro de Jorge Amado já me levou várias vezes a pensamentos e lembranças profundas sobre a vida e sobre a minha vida.

Capa da edição que li.

A IGREJA E O PODER CONTRA OS “COMUNISTAS”

Neste trecho, vemos o padre amigo dos Capitães da Areia sendo fortemente repreendido por seus chefes da igreja.

“- Que Deus seja suficientemente bom para perdoar seus atos e suas palavras. O senhor tem ofendido a Deus e à igreja. Tem desonrado as vestes sacerdotais que leva. Violou as leis da igreja e do Estado. Tem agido como um comunista. Por isso nos vemos obrigados a não lhe dar tão cedo a paróquia que o senhor pediu. Vá (agora sua voz voltava a ser doce, mas de uma doçura cheia de resolução, uma doçura que não admitia réplicas), penitencie-se dos seus pecados, dedique-se aos fiéis da igreja em que trabalha e esqueça essas ideias comunistas, senão, teremos que tomar medidas mais sérias. O senhor pensa que Deus aprova o que está fazendo? Lembre-se que a sua inteligência é muito pequena, o senhor não pode penetrar nos desígnios de Deus...

COMPANHEIROS

Este capítulo é muito legal.
Cito um trecho abaixo:
“Na madrugada que nasce, as estrelas começam a desaparecer do céu. Mas Pedro Bala parece ver numa estrela que corre a estrela de Dora que o alegra. Companheira... Também ela tinha sido uma companheira boa. A palavra brinca na sua boca, é a palavra mais bonita que ele já viu. Pedirá a Boa-Vida que faça um samba dela, um samba para um negro cantar à noite no mar. Vão como se fossem para uma festa. Armados com as mais diversas armas: navalhas, punhais, pedaços de pau. Vão para uma festa, porque a greve é a festa dos pobres, repete Pedro Bala para si mesmo.
No pé da ladeira da montanha se dividem em três grupos. João Grande chefia um, Barandão vai com outro, o maior vai com Pedro Bala. Vão para uma festa. A primeira festa verdadeira que têm aquelas crianças. Ainda assim é uma festa de homens. Mas é uma festa dos pobres, dos pobres como eles.”

Jorge Amado - Grande escritor brasileiro.

COMENTÁRIO FINAL

O livro me causou um impacto muito grande. Ao longo de sua leitura nesta semana, me peguei várias vezes pensando no passado, na minha infância e adolescência difícil – apesar de sempre ter tido uma família e pais maravilhosos -, nas crianças em situação de rua da atualidade.
A maior mudança das crianças dos Capitães da Areia e das crianças em situação de rua de hoje é a potência das drogas atuais, que destroem os usuários e os transformam em zumbis.
No século XX, as drogas que circulavam nos trapiches da vida eram a cola e a maconha. Outras mais potentes eram muito caras e circulavam nas camadas de maiores recursos.
As crianças e adolescentes em situação de rua que são fisgados pelo crack são destruídos em pouquíssimo tempo.
O livro é maravilhoso e me emocionei várias vezes ao longo da leitura. MUITO BOM. Irei buscar formas de ler mais obras deste imortal brasileiro Jorge Amado.
Fica o convite para a leitura deste clássico da literatura brasileira.

Bibliografia:
AMADO, Jorge. Capitães da Areia. Companhia de Bolso. 12ª reimpressão.


Post Scriptum (24/jan/17):

Ao reler a postagem para depois escrever a respeito de minha releitura do romance Mar Morto, chorei copiosamente. Acredito que foi devido ao contexto atual de meu País, agora sob estado de exceção, após golpe em 2016. A perspectiva de melhora da condição de vida dos "capitães da areia" espalhados Brasil afora, era perspectiva lenta, mas existia sob os governos do PT. Agora, aprofunda-se a volta de um país desgraçado, injusto, desigual para os 99% da população... muito triste tudo isso!