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segunda-feira, 12 de junho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (2)



Refeição Cultural

Osasco, 12 de junho de 2023. Segunda-feira. "Dia dos namorados" (para o comércio).


"Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem." (Victor Hugo, Os miseráveis, p. 41)


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO I: UM JUSTO

I. O senhor Myriel

O romance começa nos apresentando o senhor Charles Myriel, um padre que se torna bispo de Digne por ter caído nas graças do imperador Napoleão por um simples elogio de passagem num encontro fortuito. Myriel foi tratado como um "simplório" e disse que o imperador era "um grande homem".

O senhor Myriel é bispo há 9 anos em Digne, o ano é 1815. Ele é viúvo e tem 75 anos de idade. Quase nada se sabe a respeito da vida anterior dele. Myriel vive com a irmã mais nova Baptistine e com a criada Magloire, ambas com 65 anos.

É interessante como as descrições físicas e subjetivas das personagens por parte do narrador e ou autor são marcantes em romances bem construídos. É interessante notar que algum tipo de marca social fica em qualquer produto feito pela mão humana, aqui, no caso, um texto de romance do século XIX.

Vejamos a descrição das três personagens apresentadas no início do romance: o senhor Myriel, a irmã Baptistine e depois a criada Magloire. Primeiro a irmã do bispo:

"Alta, magra, pálida, delicada e afável, a senhorita Baptistine era a mais completa expressão da palavra 'respeitável', posto que, para ser considerada venerável, parece necessário que uma mulher seja mãe. Nunca foi bonita; toda a sua vida, uma ininterrupta série de boas obras, acabou por inundá-la de uma espécie de alvura luminosa que lhe dava, ao envelhecer, aquilo que poderíamos chamar de beleza da bondade. O que na juventude fora magreza tornou-se na maturidade, uma transparência diáfana, que deixava entrever um anjo. Era mais uma alma que uma virgem. Sua pessoa parecia ser feita de sombra; corpo apenas suficiente para distinção do sexo; um pouco de matéria contendo uma chama; olhos grandes sempre baixos; um pretexto para que uma alma permaneça sobre a terra." (p. 43)

Interessante a descrição, não? E complexa na avaliação. Percebem as marcas da sociedade da época? Como são vistas as mulheres? E a classe social delas?

Vejamos a descrição da criada Magloire:

"A senhorita Magloire era uma velhinha clara, baixa e muito gorda, sempre atarefada, sempre arquejante, não só por causa de sua natural atividade, como também por causa de sua asma." (p. 43)

Ponto. É o que foi dito da senhora Magloire. As descrições feitas de irmã e criada do senhor bispo de Digne, o senhor Myriel, trazem marcas do tempo, mesmo sendo o escritor um Victor Hugo.

A caracterização do personagem central, o senhor Myriel, foi feita na descrição de sua vida pregressa, em duas páginas, ele foi filho de parlamentar antes da Revolução e fisicamente era:

"Apesar de casado, Charles Myriel, dizia-se, dera bastante o que falar. De muito boa aparência, embora de baixa estatura, era elegante, gracioso, espirituoso; toda a primeira parte de sua vida fora dedicada à sociedade e aos galanteios." (p. 41)

Nada mais se sabe dele, a não ser que quando voltou do exílio na Itália, onde ficou durante o período da Revolução, voltou como padre.

Literatura é uma delícia! Ler é algo central em nossa vida como sujeitos alfabetizados e em busca de novos saberes. Seguiremos lentamente na leitura dessa obra gigante e clássica da literatura mundial.

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COMENTÁRIO

"Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem." (Victor Hugo, Os miseráveis, p. 41)


Ao ler essa reflexão em Os miseráveis, acabei pensando a respeito da atualidade dela nos dias que correm, a era das redes sociais que expandiram de forma inimaginável o diz que diz a respeito das pessoas e das coisas na sociedade humana. 

Antes da tecnologia das redes sociais, gastava-se um tempo no boca a boca para se divulgar uma mentira ou uma ilação sobre alguém. Vemos isso em clássicos como as peças dramáticas de Shakespeare ou nos textos claustrofóbicos de Kafka. Quem não conhece a famosa abertura de O processo

"Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã foi preso..." (Franz Kafka, O processo, p. 5)

Hoje, em segundos, pode-se assassinar uma reputação sem que a vítima sequer saiba o que se diz sobre ela. Antes, as ferramentas tecnológicas de comunicação ao menos eram de conhecimento geral, públicas, como rádios, televisões, jornais e revistas. Agora não, as mentiras são espalhadas em milhões de disparos em redes pessoais. Só a pessoa vê.

Na campanha presidencial em 2018, o que se disse, por exemplo, sobre o Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência, foi algo inimaginável. Até de estuprador e pedófilo ele era acusado nas redes de mentiras do submundo bolsonarista.

Enfim, a frase de Victor Hugo me deixou por alguns instantes pensando a respeito de eventual consequência sobre o que possa ter sido dito sobre alguém, algo que talvez suplante o que esse alguém fez na prática, na vida real. Se se disse algo de alguém, o alguém talvez nunca saiba...

Hoje, tem uma reunião no mundo sindical bancário sobre causas e efeitos do fechamento de unidades de atendimento à saúde - CliniCassi - da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil na região Norte do país.

Eu fui diretor eleito justamente da área responsável pelas unidades CliniCassi da autogestão em questão. Nosso mandato ficou marcado na história da Cassi como um mandato muito próximo às bases sociais, não tem como apagar ou negar isso.

Estudei profundamente a estrutura e o modelo de saúde da Cassi, as CliniCassi, a Estratégia de Saúde da Família, o modelo de custeio etc. Esclareci para a representação dos trabalhadores os motivos pelos quais as CliniCassi deveriam ser próprias, fortalecidas e ampliadas em todas as regiões do país.

Até o início de dezembro de 2021, eu era uma das pessoas mais consultadas em nossa comunidade dos bancários, principalmente do banco público BB, sobre as questões relativas à Cassi. De repente, do nada, fui cancelado. Talvez pelos motivos que Hugo ou Kafka abordam em seus universos ficcionais. Vai saber.

A Fetec-CUT CN, organizadora da reunião de hoje sobre fechamento de unidades CliniCassi no Norte, abrange bases sindicais dos Estados e capitais da região Norte e Centro-Oeste do país. Durante o nosso mandato, fiz agendas presenciais de gestão 42 vezes nesses Estados, fortalecendo a Cassi e o modelo assistencial nas bases. 

Tenho certeza de que jamais outro dirigente fará o mandato presencial nas bases como fiz. Aliás, quando passei a ser atacado pelo lado patronal, me boicotando internamente na autogestão, passei a pagar do bolso minhas idas às bases sociais para esclarecer e organizar os associados e seus representantes sobre questões técnicas de gestão de saúde e defender os direitos da comunidade.

Até hoje eu não sei se algo circulou a meu respeito ou se fiz algo que fizesse com que eu fosse cancelado por algumas representações do movimento sindical que ajudei a construir e fortalecer por um quarto de século. Sei que mantive a prática política como aprendi a fazê-la, expondo opiniões francas e honestas e construindo no debate as soluções.

Desejo boa reunião sobre a Cassi e os direitos em saúde dos bancários do BB para as entidades de representação dos trabalhadores. Fechar e terceirizar as unidades de atendimento próprio da Cassi em qualquer Estado, principalmente em Estados como os do Norte e Estados de pouca população assistida, é muito ruim para os participantes e para a autogestão em si. 

Às vezes, vemos na literatura cenas que nos fazem refletir sobre a vida real. Essa é uma das maravilhas da literatura e da leitura.

Vida que segue, como diz o jornalista e escritor Ricardo Kotscho.

Seguimos lendo Os miseráveis... esse clássico vai nos fazer lembrar de nossas misérias materiais e imateriais provavelmente todos os dias... a gente vive numa miséria danada neste mundo mundo vasto mundo.

William


Post Scriptum: a primeira postagem sobre Os miseráveis pode ser lida aqui. A postagem seguinte com comentários sobre a leitura em andamento, pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

KAFKA, Franz. O processo. Tradução: Manoel Paulo Ferreira. Edição do Círculo do Livro.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

220221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

O que registrar nesta segunda-feira, 22 de fevereiro? Temos um cardápio horroroso de opções: o avanço da pandemia de Covid-19 no Brasil e as mortes sem prazo para acabarem (247.143 brasileir@s), a destruição das empresas públicas (Petrobras, BB, Caixa, Banco Central etc), a preparação para o golpe ditatorial (guerra civil com só um lado armado?) que promete se instalar no país com milicianos e bolsonaristas armados até os dentes para calar e exterminar quem pensar diferente do regime neofascista... são muitas coisas horríveis que poderiam ser registradas neste dia comum na vida do povo brasileiro (as tragédias que citei foram normalizadas pelos meios midiáticos formadores de opinião. Tudo está "normal" e segundo eles as instituições "funcionam").

De desgraça, basta o primeiro parágrafo. 

É MELHOR FALAR SOBRE LITERATURA

Vira e mexe estou refletindo a respeito da questão levantada pelo escritor e pensador Italo Calvino que fez um belo artigo com possíveis justificativas em relação à questão colocada por ele: "Por que ler os clássicos".

Dias atrás, acabei a releitura de O processo, do escritor tcheco Franz Kafka, obra do início do século XX. Ao ler a estória ficcional do personagem Joseph K. é possível ver como a ficção pode se confundir com a realidade ao observarmos os acontecimentos no Brasil, país que se encontra sob estado de exceção, destruído por um golpe de Estado e pela tomada do poder por grupos marginais e mafiosos.

Na ficção de Kafka, um bancário acorda numa determinada manhã com homens estranhos em seu quarto informando a ele sobre sua prisão. K. passaria por um processo absurdo e com final inesperado sem que ao menos soubesse do que estava sendo acusado ou o que teria feito de errado.

Vale a pena ler um clássico como esse? Vale. Eu o li pela primeira vez antes de ser um cidadão politizado. E nunca me esqueci do martírio e da sensação de injustiça que senti ao ler o livro. Depois fui encontrar na vida várias situações e processos kafkianos, injustos e totalmente absurdos. O caso do presidente Lula é um exemplo. O meu caso é outro exemplo, que num certo dia me peguei no meio de um processo inventado, cínico, mal e desumano, combinado por agentes do sistema que me julgou em uma instituição onde eu exercia um mandato de representação dos trabalhadores. É um clássico que nos prepara o espírito para as maldades do totalitarismo (hoje, o lawfare é uma das ferramentas desses processos).

Estou lendo Madame Bovary, de Flaubert. O livro é um clássico francês do século XIX, escrito e publicado entre 1856 e 1857. O romance retrata a sociedade burguesa, o racismo, a condição das mulheres, um caso de adultério e o escritor ficou marcado por sua obra. Vale a pena ler esse clássico? Vale. Mesmo a leitura sendo cansativa, pelo estilo descritivo de Flaubert, o enredo nos referencia para a questão da condição das mulheres um século e meio depois. Eu não diria que os avanços são consideráveis nos direitos da mulher. Muitas são as lutas ao longo do tempo pela emancipação e empoderamento das mulheres nas comunidades dos séculos XX e XXI, mas basta falar de uma ou outra questão como o direito ao aborto para vermos que as mulheres ainda são consideradas com menos direitos e autonomia em seus próprios corpos em relação aos homens com orientação heterossexual.

Ao ser informado por meu filho que a trilogia de O poderoso chefão, sendo o 1º filme dirigido por Francis Ford Coppola em 1972 (sequência em 1974 e 1990), iria sair de uma dessas redes de streaming no final deste mês, comentei com ele que eu havia lido o livro de Mario Puzo na adolescência. Mostrei o livro para ele e acabei pegando para reler. Nada nada já li mais de 100 páginas e deu vontade de ler até o fim as quase 500 páginas do livro antes de assistir aos 3 filmes adaptados. Vale a pena ler esse clássico? Vale. É surpreendente vermos a ficção sobre as máfias na primeira metade do século XX ser idêntica à nossa realidade no Brasil pós golpe de Estado em 2016. Políticos sendo assassinados, tráfico de toneladas de drogas com envolvimento de autoridades públicas, a milícia no poder, juízes mais corruptos que os corruptos pés de chinelo que lotam as cadeias. Tudo muito idêntico ao mundo de Don Vito Corleone. (que merda de realidade distópica, heim!)

Enfim, vou seguir lendo enquanto for possível.

William


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Livro: O processo - Franz Kafka



Refeição Cultural - Cem clássicos

Dias atrás, assisti ao filme O processo (1962), dirigido por Orson Welles, com Anthony Perkins na interpretação de Joseph K. e o próprio Welles na interpretação do advogado Albert Hastler. O filme é inspirado no clássico homônimo de Kafka. Algumas cenas e cenários criados pelo diretor se encaixaram perfeitamente nas imagens que eu havia criado em minha mente quando li o livro pela primeira vez. Muito legal isso!

O processo, obra fantástica e inacabada do escritor tcheco Franz Kafka, organizada e publicada postumamente por seu amigo Max Brod, é uma estória claustrofóbica, única, que nos traz agonia, mas é uma leitura necessária em algum momento da vida dos leitores engajados em obras clássicas. Felizmente, tive a oportunidade de ler e reler esse livro de Kafka. 

Tenho duas edições. Uma da coleção Clássicos de Bolso, da Ediouro, com prefácio e tradução de Torrieri Guimarães. Nessa edição consta que a li em fevereiro de 2001. A outra edição é do Círculo do Livro, com tradução de Manoel Paulo Ferreira, volume que reli agora. 

Terminei a releitura hoje, leitura iniciada e retomada várias vezes entre 2016 e agora. Peguei pra ler o livro de Kafka durante o golpe de Estado no Brasil, durante o processo de lawfare no qual fui vítima em meu mandato eletivo de gestor de saúde - um verdadeiro processo kafkiano -, e li vários trechos durante o maior dos processos kafkianos da história jurídica mundial, a merda toda montada contra o presidente Lula e a democracia no Brasil.

O clássico processo pelo qual passa o bancário Joseph K. já foi interpretado de várias formas ao longo do século de existência da obra. O que Lula enfrentou seria (ainda é) um fato bem concreto do mundo real para se comparar ao processo no qual Joseph K. foi vítima da burocracia de um Estado totalitário. Assim como K., até o momento o cidadão Lula não encontrou a Justiça e segue condenado sem crime, sem culpa, sem provas e sem acesso à Lei. 

A postagem não tem objetivo de fazer análise crítica da obra, é mais um registro pessoal de minhas leituras clássicas.

Por sinal, o processo kafkiano pelo qual passamos no Brasil desde o golpe de Estado, a tomada das instituições por neofascistas e todo tipo de bandidos e gente da pior espécie, com consequências irreversíveis como a destruição do país não me deixam muito ânimo para escrever a respeito dessa tragédia que vivemos. Processos kafkianos nos levaram à banalidade do mal, para usar uma expressão de Hannah Arendt.

O processo é um clássico atemporal, assim como seu autor Franz Kafka (ou "Kafta" como disse um ministro da "educação" do atual regime neofascista no Brasil). 

A leitura vale muito a pena, ontem, hoje e sempre.

William


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

041119 - Diário e reflexões



Livros, por que não os leio?
Por afazeres não prioritários...

Refeição Cultural

Dias que passam. Coisas que acontecem. Mudanças em andamento (o mundo está sempre mudando). Alguns preveem para onde caminhamos... suposições, pois tendências são viáveis, adivinhações não. O acaso, o imponderável, acontece. Se o impossível fosse impossível, tudo hoje seria como dantes. Enfim... estou aqui, um dos sete bilhões de humanos que respiram nesta terra.

Estou há dias fazendo um trabalho de escola, de conclusão de uma disciplina na graduação da Faculdade de Letras. Não imaginava que o evento "fazer um trabalho de escola" me colocasse a pensar tanto sobre minha vida, sobre o sentido de tudo neste momento de minha vida, quiçá neste momento do país. Que foda! As reflexões mexeram comigo. Não vi sentido no esforço de fazer o trabalho. Piorou minha situação de desencontros com os sentidos. Qual o sentido das coisas? O que fazer com esses minutos horas dias meses anos que talvez tenha pela frente?

Nesse instante um AVC paralisa ou diminui uma vida no planeta. Um infarto. Alguém ao volante olhando pro celular acaba de jogar longe um motociclista parado no semáforo (já era...). Uma bala perdida (ou mirada). Um desarranjo de reprodução celular chamado pela sociedade contemporânea de câncer está em andamento num monte de gente por aí, talvez em mim, em você. Um prédio que desaba (tá ficando tão comum). Uma bomba que cai (talvez atômica). Viver é perigoso! E viver é viver, uns dizem que viver não é preciso (navegar, sim), outros dizem que chegou um tempo em que não adianta morrer, que a vida seria uma ordem. Enfim...

Sobre os sentidos, sobre o sentido de fazer trabalho de escola e provas, no meu caso, não no de outra pessoa. No meu caso. Se eu pensar bem, vou concluir que não tem sentido o tempo que estou focando para me submeter a avaliações, eu não preciso de certificado algum, eu preciso de prazer, não de endosso sobre o que sei ou o que não sei. Assistir às aulas de literatura dá um prazer danado, é muito legal poder abrir os olhos e mente para a percepção de tudo que há nas obras. É aprender a ler melhor. Mas canudo, nesta fase de minha vida? Não tem sentido. Se fosse possível, seria ouvinte de salas de aulas a vida toda, porque as explicações e interpretações dos mestres, as referências e bibliografias e roteiros de leituras possíveis são sugestões fantásticas de pesquisas para engrandecimento pessoal.

Por outro lado, o que estou falando pode incentivar a pregação da ignorância terraplanista dos tempos de ultradireita. É um dilema, porque os tempos são de pregação da ignorância olavista. Um imbecil que desfaz da educação formal, se diz sabedor de tudo e não sabe porra nenhuma e tem uma legião de seguidores; ampliou-se a tendência das bolhas de redes sociais, virtuais ou não, em que as pessoas de todas as classes sociais e grupos de afinidades passam a entender como verdade aquilo que pensam e não as coisas como são. 

E saber que nada sabemos talvez seja a maior proximidade que tenhamos com a verdade, sabermos que somos muito ignorantes, que não temos noções basilares de quase nada do conhecimento humano, que somos muito carentes de educação formal, de professores e mestres que nos abram os olhos, iluminem nossas ideias e nos deem oportunidades de crescimento intelectual.

Voltando a mim, que saco toda essa conclusão a que cheguei! Quando olho para trás, quando vejo minha natureza, percebo que tudo tem ligação, tudo. Eu não gosto de me enquadrar em exigências periféricas que avalio serem menos importantes que os conteúdos. Não querer usar uma vestimenta numa função social não tira a capacidade da pessoa de exercer aquilo que deve exercer; nunca quis usar gravatas no Banco do Brasil e também não achei que usar terno fosse relevante para ser diretor de uma das maiores entidades de saúde do país. 

Meus conhecimentos, minhas ideias e minha prática são mais importantes que a casca. Da mesma forma, o conteúdo de um trabalho de monografia é mais importante do que aquelas mil exigências de margem, tamanho de fonte, forma de citar, ABNT etc. Inclusive, o conteúdo próprio do aluno deveria ser mais importante que a opinião dos autores e críticos famosos (na minha opinião de um dos sete bilhões). Eles já são consagrados e não deveriam inibir as divergências dos alunos. Enfim...

Que fazer, que fazer nesses instantes dias meses quiçá anos que ainda tenho, sem contar com balas perdidas, AVC, cânceres, prédios, bombas, fascistas? Que fazer? 

Há semanas penso num texto do escritor chileno Roberto Bolaño, que faleceu novo, aos 50 anos, onde ele refletia sobre literatura e enfermidade - "Literatura + enfermidad = enfermidad" -, contido no livro El gaucho insufrible, finalizado em 2003. 

Deixo a citação do excerto que tanto me abalou e que me tem feito pensar sobre os sentidos de tudo:

"ENFERMEDAD Y KAFKA

Cuenta Canetti en su libro sobre Kafka que el más grande escritor del siglo XX comprendió que los dados estaban tirados y que ya nada le separaba de la escritura el día en que por primera vez escupió sangre. ¿Qué quiero decir cuando digo que ya nada le separaba de su escritura? Sinceramente, no lo sé muy bien. Supongo que quiero decir que Kafka comprendía que los viajes, el sexo y los libros son caminos que no llevan a ninguna parte, y que sin embargo son caminos por los que hay que internarse y perderse para volverse a encontrar o para encontrar algo, lo que sea, un libro, un gesto, un objeto perdido, para encontrar cualquier cosa, tal vez un método, con suerte; lo nuevo, lo que siempre ha estado allí" (BOLAÑO, p. 129). 

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E PENSAR QUE após essa postagem, vou pegar o trabalho de quase 30 páginas e reler e colocar um pouco das exigências de normas de apresentação de trabalhos (cada não cumprimento tira 1 ponto ou 0,5 ponto na nota). Engraçado, se o meu trabalho estiver com um conteúdo razoável e eu não cumprir umas 5 ou 6 exigências técnicas, ele vai valer de 5 a zero, e não de 10 a zero. Na boa, acho isso uma coisa sem sentido!

Enfim, o que tem sentido nos dias que correm?

E PENSAR AINDA que após uma jornada de dedicação a autogestão em saúde na qual fui diretor eleito, ainda terei que me manifestar (ou não) nos próximos dias sobre uma consulta que haverá e que vai influenciar nos destinos da entidade e dos associados dela e dos trabalhadores do Banco do Brasil...

Bibliografia:

BOLAÑO, Roberto. El gaucho insufrible. Alfaguara. Primera edición: España, 2017.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Releitura: O último leitor (2005) - Ricardo Piglia




Refeição Cultural

"Um território devastado no qual alguém reconstrói o mundo perdido a partir da leitura de um livro. Melhor seria dizer: a crença no que está escrito num livro permite manter e reconstruir o real perdido..." (Piglia, na página 145 de O último leitor)


Li este livro do professor e escritor argentino Ricardo Piglia em 2008. É um livro de reflexões sobre leitores e leituras. Sobre atos de leituras. O autor faleceu no início de 2017 aos 75 anos de idade.

Ao reler dias atrás uma postagem minha sobre um conto de Piglia - "A ilha" -, texto contido em seu livro "Cuentos Morales" (1995), acabei pegando em minha estante "O último leitor" (2005), livro muito reflexivo.

Nesta obra, Piglia nos leva a pensar sobre o mundo dos escritores e, consequentemente, nos leva ao mundo dos leitores, que complementam e dão sentido à produção literária, que nada seria sem o leitor.

Piglia aborda os atos de leitura de nada mais nada menos Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Ernesto Che Guevara, James Joyce, Liev Tolstói, dentre outros. Cada capítulo é uma viagem de conhecimento para nós leitores.

Não vou falar sobre cada um dos capítulos do livro, pois a intenção da postagem é despertar nos leitores do blog o interesse nas reflexões que Piglia registrou naquele que ele afirma ser seu livro mais pessoal, como leitor, inclusive.

Neste leitor que vos fala, a releitura do livro uma década depois da primeira leitura reacendeu algumas preocupações e sentimentos que trago comigo desde o fim da adolescência: meu tempo está passando e sigo sem ter lido grandes clássicos da literatura mundial. É desesperadora a tomada de consciência disso.

Quando Piglia aborda James Joyce, fico leve e transito bem pelo capítulo, afinal li "Ulisses" (1922) e "Dublinenses" (1914). Por outro lado, quando Piglia fala de Borges e de Raymond Chandler, me sinto mal, porque não conheço suas obras. 

Dois livros centrais nos ensaios de Piglia e de quase toda crítica literária que conhecemos, eu nunca acabei de ler, porque sabemos o final e isso dificulta muito a minha leitura de algum clássico: "Madame Bovary" (1857), de Flaubert, e "Anna Kariênina" (1877), de Tolstói. É um absurdo eu não ter terminado a leitura, mas não terminei.

Me lembro da birra que tive para terminar a leitura do clássico de Guimarães Rosa - "Grande Sertão: veredas" (1956) - porque quando adolescente tive acesso ao segredo de Reinaldo (Diadorim), segredo que o autor esconde dos leitores até as últimas páginas do relato do jagunço Riobaldo Tatarana.

Vejam abaixo um exemplo das questões abordadas por Piglia num dos capítulos do livro:

ANNA KARIÊNINA E TOLSTÓI

No capítulo "O lampião de Anna Kariênina", Piglia faz uma bela análise e reflexão sobre a leitura de literatura dentro da própria literatura. Grandes personagens da história literária nos são apresentadas como leitoras nos enredos de romances.

A personagem Anna lê romances ingleses no livro de Tolstói, publicado em 1877. Da mesma forma Emma Bovary é leitora de romances no clássico "Madame Bovary", de Flaubert, publicado em 1857. Piglia não faz referência a autores brasileiros, mas quem nunca leu em Machado de Assis ou José de Alencar personagens femininas que são leitoras incansáveis de romances?

Outra característica deste capítulo é pontuar a importância da luz e da forma de iluminação possível para os leitores de romances nos séculos passados - velas, lampiões, lamparinas, luzes fugazes em geral. Legal a ideia de uma luz que ilumina o romance assim como uma história de ficção que pode iluminar a nossa vida.

Neste sentido de busca existencial, Piglia cita Sartre, que diz: "Por que se leem romances? Falta alguma coisa na vida da pessoa que lê, e é isso que ela procura no livro. O sentido, evidentemente, é o sentido de sua vida, dessa vida que para todo mundo é torta, mal vivida, explorada, alienada, enganada, mistificada, mas acerca da qual, ao mesmo tempo, aquele que a vive sabe muito bem que poderia ser outra coisa.".

Não precisamos generalizar a tese de Sartre, pois muitos leitores leem por distração e simples prazer na leitura, mas que parte dos leitores leem com um sentido muito mais profundo, isso é fato.

Outro ponto muito atual sobre leitoras de romances é a questão que Piglia nos traz sobre como eram vistas as mulheres leitoras durante muito tempo e que reflete sobre o papel e o lugar das mulheres na sociedade machista: 

"De alguma maneira, a feminização do leitor de romances confirma os preconceitos dominantes sobre o papel da mulher e da inteligência feminina. Os romances eram considerados adequados para as mulheres, vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. Os romances, circunscritos ao reino da imaginação, eram o oposto da leitura prática e instrutiva.".

É mole! Que sacanagem a sociedade machista passar séculos tratando as mulheres dessa forma.

POR FIM

O livro "O último leitor" é um livro de leitura para sempre, ou seja, para a vida inteira para aquele ou aquela que o tem na estante.

É inevitável ler um capítulo sobre Kafka e querer ler ou reler tudo que você tem dele e ir atrás do que falta das obras publicadas por ele ou postumamente.

É impossível não ficar martirizado com o peso na consciência de leitor por não ter lido clássicos como "Robinson Crusoé" (1719), de Daniel Defoe, ou "As viagens de Gulliver" (1726), de Jonathan Swift, ou ainda "Moby Dick" (1851), de Herman Melville. Sim, amig@s, eu ainda não li estes três livros!

Percebem como é difícil pegar para ler um livro de economia, história e política, como li recentemente "A desordem mundial" (2016), de Luiz Alberto Moniz Bandeira, um catatau de 600 páginas (ler sobre AQUI), e não ficar com certo remorso caso a maioria dos livros que eu optar por ler não sejam os clássicos que me faltam? Posso morrer sem ter lido grandes feitos literários da humanidade.

Enfim, sigamos adiante com as leituras, com os atos de leitura e como últimos leitores que estão sempre em busca das descobertas e, quem sabe, das respostas para as perguntas que temos ou que não sabemos que temos, apesar de elas estarem em nós.

William


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Leitura: Um artista da fome, seguido de Na colônia penal (1924) - Franz Kafka





Refeição Cultural - Mundo kafkiano

"Esta é a situação. O capitão me procurou há menos de uma hora, tomei o depoimento dele e no instante seguinte lavrei a sentença. Tudo foi muito simples. Se eu o tivesse chamado para um interrogatório, só haveria confusão..." (Na colônia penal, 1919)


Ao ler sobre leitores e leituras, e atos de leitores, e atos de leituras, e consequentemente, atos de escritores leitores, cheguei a este pequeno livro de Franz Kafka, dado de presente a mim por minha esposa já faz alguns anos.

Estava lendo a respeito de leitores no livro do escritor argentino Ricardo Piglia - O último leitor (2005) - livro no qual ele dedica capítulos de reflexão a escritores e livros clássicos. Um dos capítulos é sobre Kafka - "Uma narrativa sobre Kafka" - e ao ler o ensaio de Piglia aprendemos tanto sobre o escritor tcheco que o desejo é sair lendo e relendo tudo o que temos dele ou sobre ele.

Do escritor já li duas obras - "O processo" e "A metamorfose" -, esta publicada em vida e aquela após sua morte precoce por tuberculose em 1924. Fuçando em minha estante, encontrei edições de outras obras de Kafka, ainda por serem lidas: "O castelo", "América" e esta coletânea com 4 contos "Um artista da fome", junto com "Na colônia penal".

Fiz uma postagem sobre minha 3ª leitura do livro "A metamorfose", realizada em março de 2016. Aos interessados é só clicar AQUI. Sobre o livro "O processo", que peguei para reler em 2015, fiz postagens naquele ano, associadas ao que estava acontecendo no Brasil, mas não terminei a releitura ainda.

Amig@s, como é interessante ler a respeito do autor e de seu contexto para complementar a nossa leitura crítica de suas obras!

A leitura dos textos do livro "Um artista da fome, seguido de Na colônia penal & outras histórias" foi de boa compreensão porque já entrei na leitura com algum conhecimento prévio sobre eles e sobre o autor.

As estórias "Primeira dor", "Uma pequena mulher", "Um artista da fome", "Josefine, a cantora ou O povo dos ratos" e "Na colônia penal" são de leitura difícil, na minha opinião. O da ratinha cantora, por exemplo, foi um desafio, pois em determinado momento senti que não estava entendendo nada. Fiz uma pesquisa na rede mundial e encontrei um trabalho acadêmico sobre esse conto e foi muito legal a análise feita pelo autor do trabalho.

PRIMEIRA DOR

"Um trapezista - sabe-se que essa arte praticada nas alturas da cúpula dos grandes teatros de variedades é uma das mais difíceis ao alcance do homem - havia, a princípio apenas como um esforço em busca de aperfeiçoamento, mais tarde também por um costume tirânico, ordenado sua vida de modo que, enquanto trabalhasse em uma única temporada, pudesse passar dia e noite em cima do trapézio..."

A ideia de isolamento, de viver numa caverna, para poder escrever e produzir ininterruptamente, está clara neste personagem de Kafka. Sobre essa questão, foi muito interessante a leitura que já havia feito de Piglia sobre o autor tcheco.

UMA PEQUENA MULHER

"(...) Essa pequena mulher está muito insatisfeita comigo, tem sempre algo a criticar em mim, sempre uma injustiça a me imputar, irrito-a por tudo e por nada; se alguém pudesse separar a vida em suas menores partes e analisar cada uma das partezinhas isoladas, sem dúvida cada partezinha da minha vida seria motivo de irritação para ela. Muitas vezes perguntei-me por que a irrito tanto; pode ser que tudo em mim contrarie seu senso estético, seu sentimento de justiça, seus hábitos, suas tradições, suas esperanças, existem naturezas assim, contrárias, mas por que ela sofre tanto com isso? Não existe relação nenhuma entre nós que pudesse levá-la a sofrer por minha causa. Bastaria ela decidir me encarar como um estranho total, o que afinal sou, e eu sequer me oporia a essa decisão, pelo contrário, recebê-la-ia de braços abertos, bastaria ela decidir esquecer minha existência, que eu jamais impus nem seria capaz de impor a ela - e todo o sofrimento desapareceria..."

Ao ler esse excerto, já é possível avaliar como Kafka aborda temáticas de difícil manuseio como a questão da mulher. Na minha leitura de século 21, por exemplo, não gostei do termo usado por ele no conto (se a tradução estiver fiel) ao se referir à mulher como "mulherzinha". Mas literatura tem dessas coisas.

UM ARTISTA DA FOME

"Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Enquanto antes era um bom negócio organizar grandes apresentações do tipo por conta própria, hoje em dia é totalmente impossível. Os tempos eram outros. Naquela época a cidade inteira se ocupava com o artista da fome; a cada dia de jejum o público aumentava; todos queriam ver o artista da fome pelo menos uma vez por dia; nos últimos dias havia quem passasse o dia inteiro sentado diante da pequena jaula; à noite também havia visitação, à luz de tochas, para aumentar o efeito; nos dias bonitos a jaula era transportada ao ar livre, e então eram principalmente às crianças que exibiam o artista da fome; enquanto para os adultos ele não era mais do que um passatempo, com o qual se entretinham porque era moda, as crianças olhavam-no impressionadas, de boca aberta, com as mãos dadas para vencer o temor, enquanto o homem, pálido, vestindo um abrigo escuro, com costelas muito protuberantes, desprezando até mesmo uma cadeira, ficava sentado na palha, com um aceno polido de cabeça, respondia perguntas com um sorriso forçado e estendia o braço por entre as barras, para que pudessem sentir com as mãos sua magreza, quando então ele se recolhia uma vez mais em si mesmo, não se preocupava com mais ninguém, nem mesmo com as graves badaladas do relógio, que era o único móvel no interior da jaula, mas apenas olhava para o vazio com os olhos semicerrados e de vez em quando bebericava um gole d'água para umedecer os lábios."

Esse é o longo primeiro parágrafo do conto. A cena é bem forte. Chamativa.

"O artista poderia jejuar tão bem quanto quisesse, e era o que fazia, mas nada mais poderia salvá-lo; passavam por ele sem ao menos notá-lo. Tente explicar a alguém a arte da fome! Não há como torná-la compreensível a alguém que não a sente..."

Sentiram a pegada do conto? Muitos críticos apontam esse conto como um dos contos mais autobiográficos de Kafka.

Além disso, é um conto bastante metafórico.

JOSEFINE, A CANTORA OU O POVO DOS RATOS

"Nossa cantora chama-se Josefine. Quem nunca a ouviu não conhece a força do canto. Não existe quem não fique deslumbrado com o canto dela, um fato ainda mais admirável porque, em geral, nossa espécie não aprecia a música. A música que mais apreciamos é a paz silenciosa; nossa vida é dura, por mais que tentemos deixar de lado as preocupações do dia a dia, não conseguimos elevar-nos a coisas tão afastadas do nosso cotidiano como a música..."

Esse é outro conto bastante metafórico e hermético, na minha opinião. Após a leitura, fiquei com dúvidas de entendimento. Ao ler um trabalho de interpretação sobre o conto, fiquei com uma compreensão melhor. Terei que reler o conto mais vezes.

NA COLÔNIA PENAL

"O explorador queria fazer várias perguntas, mas ao ver o homem perguntou apenas: 'Ele conhece a sentença?' 'Não', disse o oficial e tentou dar prosseguimento à explicação, mas o explorador interrompeu-o: 'Ele não conhece a própria sentença?' 'Não', disse mais uma vez o oficial, deteve-se por um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais precisa para a pergunta, e então disse: 'Seria inútil comunicá-la. A sentença é aplicada ao corpo' (...) 'Mas ele sabe ao menos que foi condenado?' 'Também não', disse o oficial e abriu um sorriso ao explorador, como se esperasse dele mais alguns questionamentos estranhos. 'Ora', disse o explorador e passou a mão pela testa, 'então este homem também não sabe como sua defesa foi recebida?' 'Ele não teve nenhuma oportunidade de apresentar uma defesa', disse o oficial e desviou o olhar, como se falasse consigo próprio e não quisesse constranger o explorador com explicações sobre coisas tão evidentes. 'Mas ele precisa de oportunidade para apresentar uma defesa', disse o explorador e levantou-se da cadeira..."


Essa é a condição dos condenados na novela de Kafka. Os condenados não sabem que estão condenados, não sabem a sentença e não têm a menor chance sequer de se defenderem. Já viram algo parecido no mundo real? Algum processo entre o Estado e o cidadão, onde o cidadão não tem a menor chance de se defender do sistema?

O melhor vem agora, o juiz e sua postura e seu poder ilimitado, parecendo um caso recente na república bananeira em que vivemos.

"A coisa funciona do seguinte modo. Fui nomeado juiz aqui na colônia penal. Apesar da minha pouca idade. Porque estive ao lado do antigo comandante em todas as ocorrências criminais e sou quem melhor conhece o aparelho. O princípio que guia as minhas decisões é: a culpa é sempre indubitável. Outras cortes podem não se pautar por esse princípio, porque são compostas por muitos membros e também porque têm cortes mais altas acima de si. Não é o que acontece aqui, ou ao menos não era o que acontecia com o antigo comandante..."

Amig@s leitores, apesar da semelhança com fatos reais, isso não é uma descrição do dia a dia do Brasil com seu novo regime de lawfare, é um texto ficcional publicado em 1919 por Kafka.

A novela é chocante, é o cenário típico e constante nos textos de Franz Kafka. Um mundo angustiante, um mundo distópico, com processos absurdos e totalitários contra os frágeis humanos frente a sistemas opressores e aniquiladores.

Enfim, leitura feita e cinco novas estórias de Kafka na bagagem. Recomendo o livro aos leitores e leitoras.

William

domingo, 13 de março de 2016

A metamorfose (1912) – Franz Kafka




Refeição Cultural - Literatura tcheca

“Gregor Samsa acordou naquela manhã de sonhos agitados e viu-se na sua cama transfigurado num enorme inseto. Estava deitado sobre suas costas, tão duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, pode ver o ventre curvo, castanho, dividido por pregas arqueadas, sobre o qual o cobertor, dificilmente se sustinha e estava a ponto de cair completamente. As inúmeras pernas, deploravelmente finas se comparadas com o resto do corpo, balançavam desamparadas diante dos seus olhos.

- O que me aconteceu?, pensou...”



Assim começa uma das estórias mais fantásticas e mais dramáticas da literatura clássica mundial. Fiz a leitura pela terceira vez nestes meus 46 anos. O momento por que passa meu país, do absurdo golpismo e fascismo que tomou conta do cotidiano do Brasil, nos remete a leituras que versam sobre mundos distópicos, sobre mundos dramáticos e nos remete a obras de cunho melancólico e depressivo.

Ao longo de um século, várias foram as leituras críticas e interpretativas das obras do autor tcheco Franz Kafka. Neste momento em que reli o drama de Gregor Samsa, evidenciou-me metáforas dramáticas sobre o peso de ser proletário num mundo capitalista e ainda ter que cuidar da família.


“Não parecia um sonho. Seu quarto, um verdadeiro quarto humano, apenas bastante simples, continuava tranquilo entre as quatro paredes bem familiares. Por cima da mesa, se espalhava, aberta, uma série de amostras de tecidos – Samsa era caixeiro-viajante – e estava pendurada uma fotografia que ele, recentemente, havia recortado de uma revista ilustrada e mandara colocar numa linda moldura dourada. Exibia uma moça de chapéu e estola de pele, sentada, a estender um enorme regalo também de peles, no qual todo o seu antebraço desaparecia.”


Fica evidente a condição de Gregor Samsa, proletário. Aliás, a primeira demonstração da metáfora para o trabalho que maltrata está na reflexão de Gregor logo na segunda página, quando lamenta o quanto seu trabalho é cansativo.


“ – Ah, meu Deus! Pensou – Que trabalho cansativo escolhi. Viver viajando, dia sim, dia não. A agitação comercial é mais irritante que o próprio trabalho do escritório, além disso há a cansativa necessidade de viajar, sempre preocupado com troca de trens, fazendo refeições a qualquer hora, num convívio humano superficial que nunca se torna íntimo. Aos diabos com tudo isso!”


Aff! Se eu trocar o transporte citado por ele (trem) por avião, posso utilizar essa expressão do cansaço de viver viajando. Aliás, eu poderia ter escolhido o conforto de passar meu mandato sentado no escritório da sede da empresa que administro, mas não é de minha natureza e nem meu perfil ficar sem ir às bases sociais que represento. A consequência é dobrar as jornadas de trabalho para dar conta do dia a dia do escritório, e da agenda de viagem às bases.


Logo em seguida, Gregor imobilizado na cama como um inseto, lembra o quanto gostaria de dormir mais um pouco porque “o ser humano precisa de seu sono”. Lembra que não pode ter regalias como os comerciantes para quem vende os produtos e nem como o seu chefe, que tem que suportar falando sentado do alto de sua mesa para baixo ao lidar com Gregor. Tudo porque ele tem que trabalhar ainda uns cinco anos para pagar uma dívida de seus pais.

Por fim, ali imobilizado, começa o desespero de Gregor por sua condição porque ele vai perder o trem para o trabalho.


“Mas, e agora, o que deveria fazer? O próximo trem sairia às sete horas; para embarcar precisaria correr como louco, o mostruário ainda não estava na mala e ele mesmo não se sentia preparado e ativo. E mesmo que pegasse o trem, seria inevitável uma repreensão do chefe, pois o contínuo da firma teria esperado junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado sua ausência. O contínuo era uma criatura do chefe, invertebrado e sem pensamentos próprios...”


Alguma semelhança com o que os trabalhadores vivem nos seus locais de trabalho cada vez mais degradados por assédio, condições humilhantes, e colegas puxando o tapete uns dos outros?


E a questão da dedicação total ao patrão, não querendo faltar nem quando está doente?


“E, se avisasse que estava doente? Mas isso seria desagradável e suspeito, pois durante os cinco anos de serviço Gregor nunca tinha adoecido. Certamente o chefe o visitaria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais pela preguiça do filho e não aceitaria desculpas, apoiado no médico, para quem não existia doentes, só pessoas inteiramente saudáveis, mas refratárias ao trabalho. E, será que estava tão enganado, dessa vez? Certamente, com exceção de uma sonolência inútil depois de tão longo sono, Gregor sentia-se muito bem e até mesmo com uma fome especialmente forte...”


Já no início do século passado, havia a relação complicada entre alguns médicos e os capitalistas para atestarem que o empregado estava bom para trabalhar e não parar a produção.

(poderia seguir incluindo excertos marcantes, mas vale a pena recomendar que o leitor e a leitora abram o livro e leiam a obra)

.............................



Enfim, a releitura da obra neste momento me fez sentir uma tristeza e uma certa impotência doída.

Neste momento histórico (2016), os empresários capitalistas preparam um Golpe de Estado no Brasil contra um governo e um partido que mudaram objetivamente, após a eleição de um metalúrgico nordestino em 2002, a vida de dezenas de milhões de miseráveis e de proletários, gente à margem da sociedade como, por exemplo, os milhões de brasileiros afrodescendentes em um Brasil que foi o último país a abolir a escravidão dos seres humanos de pele negra.

Os patrões, os capitalistas, parte da estrutura burguesa montada para a manutenção do status quo burguês, que inclui o poder de polícia para ser usado para controle e repressão dos proletários rebeldes e não submissos e, no mundo moderno, os donos dos meios de comunicação, que são os mesmos capitalistas donos dos meios de vida e dos meios de produção, enfim, esses golpistas manipulam a população para se juntarem a eles no golpe e perseguir e aniquilar os movimentos sociais mais importantes do país e protetores dos direitos das minorias – sindicatos, movimento rural, estudantil, partidário de esquerda.

Estamos vivendo um momento kafkiano, mas não ficcional.


William Mendes

sábado, 5 de março de 2016

O processo kafkiano... no Brasil



Uma de minhas edições do livro.

"- Não pode haver dúvidas - prosseguiu K. em voz muito baixa, pois sentia-se feliz com a viva atenção dos ouvintes; naquela quietude os sussurros reprimidos, e apenas audíveis, eram mais estimulantes do que os aplausos mais entusiasmados -, não pode haver dúvidas, senhores, de que por trás das manifestações desta justiça, por trás da minha detenção, consequentemente, para falar de mim, e do interrogatório de hoje, encontra-se uma grande organização em atividade. Uma organização que não apenas emprega guardas corruptos, inspetores e juízes de instrução imbecis, mas também tem ao seu dispor uma hierarquia judiciária de um nível elevado, aliás do mais elevado nível, com o seu indispensável e numeroso séquito de empregados, funcionários, policiais e outros auxiliares, talvez até carrascos - e não estremeço ao pronunciar esta palavra. E qual o sentido dessa grande organização, senhores? Prender inocentes e mover-lhes processos sem razão e, na maioria das vezes, sem resultado, como no meu caso. Como seria possível, no absurdo do conjunto de um sistema como este, que a venalidade* dos funcionários não viesse à luz?" (página 49)

(O Processo, Franz Kafka (1883/1924)


Refeição Cultural

Seria cômico, se não fosse trágico. Juro!

Esta passagem da célebre obra de Franz Kafka descreve o que aconteceu ontem no Brasil, sexta-feira, 4 de março de 2016. Cada frase acima descreve o processo de tomada dos órgãos de justiça brasileiros por parte de alguns agentes públicos, pessoas físicas, que tomaram de assalto os órgãos públicos que deveriam servir de proteção às leis e aos cidadãos brasileiros.

Uma parte dos agentes públicos, partidarizados politicamente, se uniu às forças de oposição ao partido político (PT) que venceu as últimas 4 eleições para a Presidência da República, e esses agentes públicos estão rasgando a Constituição Federal, os direitos individuais dos cidadãos e perderam completamente o limite, executando prisões políticas sem provas, sem acusações e inclusive com a intenção de torturar psicologicamente por meses pessoas presas sem crime até que elas aceitem falar o que os agentes públicos querem.

Essa merda é o que está acontecendo com parte da justiça brasileira.

Nesta sexta 4, um juiz que deixaram até o momento mandar e desmandar, parar o que quiser no país, mandar prender quem bem entender, em qualquer lugar, associando qualquer coisa e qualquer pessoa a um processo ao qual ele está designado, enfim, esse sujeito, mandou levar coercitivamente para depor (preso) o presidente Lula, sem sequer convidá-lo antes, o maior e melhor presidente que o Brasil já teve, reconhecido no mundo todo e aqui, onde saiu após dois mandatos com 80% de aprovação e fez sua sucessora, a primeira presidenta do país. 

O tal juiz armou todo o circo de humilhações ao presidente e seus familiares e amigos, combinado com as emissoras de TV e imprensa golpista, conhecidos no Brasil como PIG (Partido da Imprensa Golpista), como o maior partido de oposição ao PT e aos avanços incontestáveis em direitos sociais para milhões de brasileiros e brasileiras após a posse de Lula e o PT no governo federal em 2002.

Onde vamos parar? Espero que não sigamos o roteiro da obra fantástica de Franz Kafka e nem do personagem Joseph K.

William


*Venalidade:

1. Qualidade de venal, do que pode ser vendido.

2. Fig. Qualidade daquele que se vende, prostitui ou deixa se corromper por dinheiro ou outros valores.


Fonte: Dicionário Aulete

domingo, 17 de janeiro de 2016

Diário - 170116



Domingo de chuva.
Foto: Ione.

O domingo em Brasília amanheceu nublado, com ventos fortes e chuvisco.

Li dois contos de José J. Veiga, do livro Os cavalinhos de Platiplanto (1959). Li "Tia Zi rezando" e "Fronteira".

Fui ao mercado.

Depois do café, era para voltar a ler, mas perdi um tempo na internet.

Fiquei esperando a chuva passar para sair para correr. Queria aproveitar o domingo para correr no Eixão, já que fiquei fora de Brasília por algumas semanas. Como a chuva demorou, demorei a correr.

Fui para a corrida depois das quatro horas da tarde, sem almoçar. Corri 6k num ritmo bom. Não tinha ninguém no Eixão. A pista molhada e com garoa fina era só minha. Foi muito diferente. Depois que cheguei ao local e durante o tempo da corrida, cruzei com meia dúzia de pessoas, de bike ou correndo.

A paisagem do Eixão é sempre diferente conforme a época do ano. É muito interessante. Não é época de flores rosas, roxas e amarelas dos ipês. Nem amarelas, vermelhas e alaranjadas dos flamboyants. Verde, verde e verde. Tudo muito verde por causa da temporada de chuva.

Os pássaros que encantaram o meu caminho desta vez foram os quero-quero na pista, lindos! Na volta, acabei sendo premiado pelo maior bando de curicacas juntas que já vi, do lado de casa, oito bichonas com seus bicos curvos catando bichos na grama molhada. Show! Deslumbramento!


Curicacas em Brasília. Neste dia que bati a foto eram duas.
Hoje, num domingo de chuva, vi oito juntas.

Depois do almoço-janta, assistimos ao Planeta Terra, na TV Cultura, um canal que eu adorava e que agora virou um lixo politizado 24h por dia, pró governo paulista do PSDB e contra o governo federal do PT. Vimos mais um episódio da série da BBC de Londres, Planeta Humano. Neste episódio, abordou-se a vida no Polo Ártico: como nós humanos conseguimos sobreviver naquela terra inóspita. É de nos por a pensar muito sobre o quanto somos seres fantásticos quando se trata de sobrevivência no Planeta.

Agora no final do dia, assisti a um programa com uma entrevista a uma professora da FFLCH-USP abordando o grande escritor tcheco Franz Kafka e sua obra principal O processo, que peguei para reler semanas atrás.

Comecei a ler hoje o conto de Machado de Assis, Teoria do medalhão, e tive que interromper várias vezes. Que saco! Vou terminar a leitura antes de dormir.

Fim do domingo!

domingo, 8 de novembro de 2015

Reflexões sobre a vida e nosso papel social





Refeição Cultural

Domingo. Acabou o final de semana. Entrei no casulo sábado para um respiro, mas já acabou. Vamos iniciar mais uma semana num mundo esquisito, duro, indefinido ao extremo, a considerar que o ser humano se organizou em sociedade para conquistar um pouco de segurança e estabilidade. Hoje, no entanto, o sistema capitalista organizou o mundo e as pessoas que nele habitam para o curto prazo.

Não há mais estabilidade em nada. Assim como a própria existência, frágil e à mercê de um instante final, nossas organizações sociais estão todas por um triz.

Como achar sentido na nossa existência tão curta e fugaz, no instante em que passamos por aqui?

Eu me pergunto isso e vivo buscando sentido para as coisas desde muito jovem. Já vivi algumas parcas décadas neste mundo, onde o tempo é infinitamente grande e longo se comparado ao instante que é uma simples vida humana.

Buscando sentidos e observando o mundo em que vivo, neste fim de semana li um pouco de Franz Kafka, O processo, e li um pouco de Mário de Andrade, Macunaíma. Corri e caminhei, pois sei de minha obrigação em ser resistente, como soldados em campos de batalha. Reli textos meus para rever o que já escrevi e o que pensei a respeito de coisas do mundo.

Eu tenho convicção absoluta sobre a importância da leitura de materiais mais densos como livros clássicos e obras que abordem com maior profundidade o conhecimento humano acumulado em milhares de anos. A leitura de obras densas gera a capacidade nos leitores de criarem referências para as coisas do cotidiano da vida - para as decisões a se tomar, porque você pode buscar no conhecimento adquirido com as obras clássicas uma referência sobre o que fazer e as consequências que sua decisão podem gerar.

Quando vejo do que se alimentam meus pares humanos na atualidade, através das redes sociais e ferramentas comunicacionais, produtos de poucas linhas, com imagem e som, as pautas e materiais disponibilizados, os novos "livros" editados, os vídeos, os temas, enfim as coisas que formam ou organizam o pensamento dos humanos situados no mundo em que estamos, fico pensando no que fazer, no meu papel, em como lidar com as pessoas ao meu redor. 

Fico pensando em como trabalhar e representar as pessoas deste mundo novo das coisas curtas, com valores outros em relação ao que eu defendo e luto por implantar no mundo para uma vida melhor das pessoas e do próprio planeta que habitamos.

Eu sinceramente tenho dúvidas do efeito prático da minha forma de agir. Mas eu acredito que tenho que manter minha postura, minha forma de agir, mesmo sendo infinitamente minoria no que penso e defendo. No fundo, desde muito jovem, sempre senti a necessidade de não ser parte das hegemonias ao meu redor.

Acho que isso tem um pouco a ver com ser um militante de esquerda, militar por justiça social, lutar contra injustiças sociais, não ter os valores de sua vida baseados no ter... mas sim em ser algo que valha a pena.

Vou acordar nesta segunda-feira e trabalhar com firmeza pela tarefa que me designaram ao me elegerem para gerir uma entidade de saúde de trabalhadores, em nome deles. 

Vou manter minha postura de não concordar com injustiças e coisas erradas. E vou manter minha franqueza em dizer o que penso e o que defendo, para as batalhas que eu for escolher para enfrentar, porque aprendi com a vida que não posso enfrentar todas as coisas erradas do mundo, mas que devo escolher as batalhas para as quais vou me dedicar.

William Mendes
Uma simples vida humana
(mas importante como todas as vidas humanas)

sábado, 7 de novembro de 2015

Diário - 071115





Refeição Cultural

Sábado. Acordei. Tomei um copo de água. Abri a janela da sala e fiquei minutos vendo o movimento das folhas nas árvores e o movimento dos pássaros. Peguei O processo e li por uma hora. Li o terceiro capítulo.

Lembremos o começo da obra:

"Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã foi preso..."


Passados alguns dias, o personagem começa a viver o processo. Os locais onde deve ir, a forma como as sessões do processo se dá e as pessoas com quem Joseph K. lida são coisas sem sentido, sem lógica. É algo semelhante ao mundo do faz de conta, da fantasia.

Joseph K está preso, mas está livre para ir e vir durante o processo. Mas está preso, porque o processo está em andamento.


Liberdade

Quem de nós está livre? Eu estou preso ou estou livre?

Posso ir e vir... ou seja, estou livre. Mas sou livre?

As obras de Franz Kafka, principalmente O processo, ganharam interpretações às mais variadas ao longo do século 20. É o efeito posterior de boas obras.

Eu li O processo quando era adolescente. Imagine só como era minha cabeça, meu mundo, o mundo, quando li a obra lá nos anos oitenta do Brasil miserável, de minha família em condição financeira miserável, de um mundo miserável, dividido pela Guerra Fria?

E hoje, falamos de um mundo miserável. Falam ou plantam para os jovens de hoje que o Brasil é miserável... Canalhas miseráveis!

Que merda tudo isso! Que processo kafkiano vivemos!

William

domingo, 1 de novembro de 2015

O Brasil virou o cenário do processo kafkiano



Brasil virou cenário d'O processo...

Refeição Cultural

"Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã foi preso..." (O processo, Franz Kafka)


Assim começa uma das obras mais interessantes da literatura mundial. O processo, do escritor tcheco Franz Kafka (1883/1924), é obra de referência inclusive por ter dado nome a uma expressão popular "processo kafkiano" para algo absurdo que aconteça com um cidadão, algo impossível de acontecer por ir contra o sentido normal de respeito aos direitos de uma pessoa quando lida com o Estado/Sistema e coisas do gênero.

Quando nós escrevemos e falamos nos últimos anos sobre os riscos existentes em se abrir a Caixa de Pandora no Brasil, riscos motivados pela perda de limites em relação ao respeito mútuo entre a classe política e lideranças sociais, tendo como consequência o aumento das agressões recíprocas nas eleições presidenciais de 2010, disputadas entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), estávamos prevendo que, ao se estimular a barbárie na sociedade civil, seria difícil se controlar o que viria depois.

A chamada "oposição" aos governos do Partido dos Trabalhadores, que ascendeu ao poder com Lula em 2002, sendo Lula reeleito em 2006 e elegendo sua candidata Dilma Rousseff em 2010, essa "oposição", liderada pelos tucanos e pelos grupos mais à direita e reacionários do país, mas tendo como um dos pilares de sustentação as famílias donas dos meios de comunicação brasileiros - grupos Globo, Folha, Estadão e Abril -, essa "oposição" é responsável, na minha opinião, pelo avanço da intolerância entre o povo brasileiro e pela destruição do pouco de imparcialidade e igualdade que pudesse existir no Estado brasileiro em relação ao trato com os estratos sociais menos privilegiados - pobres e minorias em geral - por parte dos órgãos oficiais da chamada democracia e sua estrutura burguesa: Judiciário e sua estrutura e legislativo federal, que elegeu a bancada mais retrógrada na concepção, canalha na índole e reacionária na questão de direitos populares das últimas décadas.

Com a 4ª derrota da "oposição" para o PT de Dilma Rousseff em 2014, e já havia sido assim com a derrota da "oposição" na 3ª disputa presidencial com o PT de Lula em 2010, acelerou-se a estratégia de caça às lideranças do PT e da esquerda aliada ao Governo Federal. Após as manifestações de junho de 2013, utilizadas e manipuladas pelas máquinas e veículos de comunicação dessa "oposição" para atacar o Governo Dilma e criminalizar o Partido dos Trabalhadores e suas lideranças, entramos numa nova fase do foco opositor na aniquilação e extinção do partido, das conquistas do povo brasileiro advindas com os governos do PT após 2003 e, neste momento em que escrevo, esta história está sendo escrita e vivida por todos nós.

A ascensão do partido nazista em 1933 e o período de Hitler na Alemanha do 3º Reich usou da mesma estratégia ao disputar a hegemonia dos corações e mentes de um povo, o povo alemão. Aqueles anos 20/30 viviam a novidade dos meios de comunicação de massa com rádio e cinema e os governos e donos do poder se utilizaram rapidamente daquela máquina de manipulação de consciências das populações em seus países.

PREGAR O ÓDIO e CULPAR O PT hoje através da máquina da "oposição" aos governos do PT são os mesmos eixos da estratégia de Hitler em meio a crise econômica da época (pós crash de 1929), exatamente como ocorre no mundo hoje (pós crash de 2008). PREGAR O ÓDIO E CULPAR OS JUDEUS foram os eixos estratégicos nazistas ao alimentar o ódio no povo alemão e escolher como culpado por tudo o povo judeu. O resultado da política nazista deu no que deu: Holocausto. Eu nunca me esqueci da frase do ex-senador por Santa Catarina, Jorge Bornhausen (ARENA>PDS>PFL>DEM), que em 2006, pregou a seguinte frase: "precisamos acabar com essa raça", se referindo aos políticos de esquerda e especificamente ao Partido dos Trabalhadores e simpatizantes. 

Que diriam os incrédulos mais à esquerda e progressistas que a caça ao PT e petistas, menos de uma década depois, seria um processo real? A insanidade tomou conta do cotidiano das pessoas e do país. O massacre midiático, cínico, mentiroso, leviano, tirou a noção e o bom senso dos cidadãos. Agora uma corja de corruptos e corruptores históricos fazem passeatas acusando o Governo Federal e o PT e os meios de comunicação da "oposição" estampam ilações quase no sentido de dizer ao cidadão comum: cace um petista! 

Estamos vivendo praticamente o processo nazista do 3º Reich no Brasil. E eu diria que o processo de acusações e ilações às lideranças petistas é kafkiano. Se é para atacar e destruir o Governo Dilma ou Lula - a maior liderança popular do país -, ou suas lideranças regionais e destruir o PT, vale qualquer coisa! Prender sem provas, escrever qualquer merda, ilação ou suspeição em TODOS os veículos de comunicação (PIG) porque pertencem ao mesmo grupo "oposição" e por aí vai.

E o pior e mais parecido com o clima da Alemanha nazista dos anos trinta e dos processos kafkianos das vítimas contra o totalitarismo desses sistemas é que OS CIDADÃOS COMUNS NÃO FAZEM NADA E TODOS LEVAM SUAS VIDAS NORMALMENTE. 

A iniquidade está virando a regra. A injustiça e o tratamento desigual dos órgãos oficiais do Estado estão virando a regra. E aí estamos caminhando para o fim da democracia.

Estamos vivendo a HISTÓRIA. E é a história de amanhã da ascensão do fascismo no Brasil.

William Mendes

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Post Scriptum:

Escrevi no Facebook ao mudar a foto do perfil para esta da postagem:

Entramos novembro... vamos vivendo num mundo kafkiano. E vamos vivendo e lutando. Depois de descansar uns vinte dias após realizar meu sonho de correr a 1ª meia maratona (21K Floripa), comecei hoje a treinar para correr a São Silvestre (15K). Nada melhor que começar o treino no Parque Continental - Osasco SP, com uma subidona de quase 1K e com chuva... Vamos a luta, vamos com leveza, resistência e muita energia interior nos focos que temos!