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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O sentido da vida (5)



Buscar compreensão a partir de fragmentos das coisas

"II - Os escritos desses primeiros filósofos na íntegra se perderam todos, como a maior parte da riquíssima literatura grega. O que sobrou deles foram pequenos trechos, às vezes o correspondente a uma página, às vezes pedaços de frases, às vezes uma palavra, inseridos em textos que séculos depois (IV séc. a.C. - VI séc. d.C.) se escreveram e que, alguns por acaso, se salvaram. Sobraram também muitas notícias sobre a vida e a doutrina deles. E sobretudo sobrou, podemos dizer assim, uma interpretação que logo se tornou definitiva, oficial, e que fixou a posição desses pensadores na história da filosofia..." (Para ler os fragmentos dos Pré-Socráticos, José Cavalcante de Souza, p. 35)


Buscar compreensão e ou sentidos a partir da observação e de fragmentos de coisas. Essas ações conscientes só podem ser realizadas por uma espécie animal no planeta Terra: os seres humanos. 

Um cachorro não pode fazer isso. Uma galinha não pode fazer isso. Uma águia também não. Uma máquina não pode fazer isso. Máquina alguma, nem essa mentira chamada "IA". Humanos podem fazer isso, se estiverem em condições favoráveis para isso.

O homem refletia sobre sua jornada existencial até ali e percebia claramente que havia encontrado respostas para vários questionamentos feitos em décadas do viver.

Estava num momento meio "E agora, José?", tradução existencial espetacular de certo momento do viver, interpretação feita pelo poeta maior, magistral Drummond de Andrade, o Carlos, que foi ser gauche na vida. E poetou. E filosofou.

Seu momento José vinha ocupando seus pensamentos cotidianos, suas ações, o seu viver.

Querendo ou não, seus registros - fragmentos de uma vida de lutas - estavam sendo revistos, sistematizados, interpretados até. 

O homem estava alinhavando tudo aquilo e o sentido de tudo vinha se mostrando a ele.

Compreendia melhor agora por que as coisas são como são.

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quinta-feira, 24 de julho de 2025

Instantes (11h59)



Refeição Cultural

"O que é, é - e não pode deixar de ser" (Parmênides)

Por saber que sou apenas mais um neste mundo no qual habito, sei que os efeitos da realidade impactam em mim como nas demais pessoas: meu cérebro plástico vem se adaptando ao mundo no qual impera a velocidade de estímulos para não se pensar em mais nada que realmente importe às pessoas de minha classe social. 

O esforço de ler diariamente nem que seja por meia hora vem da consciência de combater o projeto dos donos do poder de emburrecer e idiotizar a massa humana vivente neste instante neste pálido ponto azul no universo, como disse Carl Sagan.

Ao ler na atualidade, os cérebros humanos têm cada vez mais dificuldade de concentração e foco no texto por causa da forma como vêm sendo utilizados por seus donos, os humanos, num mundo de fragmentos de informação e inutilidades rápidas como estímulo no atual mundo da economia da atenção hegemonizado pelas empresas de plataformas digitais. 

Meia hora de leitura de filosofia ou ciência ou literatura é um exercício cerebral desafiador. A cada parágrafo, seu cérebro viciado em bobagens ou desacostumado a reflexões complexas se pega divagando e você precisa voltar ao parágrafo e ler de novo com mais atenção ainda.

Somos o que somos, ou seja, somos seres da atualidade. 

Justamente por isso, temos que nos esforçar mais ainda para salvar nossos cérebros, nossa inteligência e nossa humanidade. 

Leiam bons textos atentamente, amig@s leitores deste blog. É quase um apelo.

William 

24/07/25

sábado, 5 de outubro de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 5 de outubro de 2024. Sábado, fim de um dia apoteótico.


Estou cansado para grandes reflexões. No entanto, é legal registrar a energia popular que vivenciamos hoje em São Paulo. Este dia 5 foi dia do povo se expressar e sonhar, sim, sonhar. 

Neste sábado, acordei cedo e fui para a Avenida Paulista me reunir a dezenas de milhares de pessoas para uma caminhada da esperança, uma caminhada com gente como a gente, de todas as cores, crenças, origens, pensamentos, classe sociais; gente que sonha com uma cidade e um mundo mais humanizados e que acredita que o amor e a fraternidade ainda podem vencer os piores sentimentos humanos, sentimentos ruins que grupos de direita e extrema-direita tentam impor a todos nós. Não passarão!

A Avenida Paulista ficou tomada pelas tonalidades vermelhas mescladas a todas as cores da multiplicidade de ideias e ideais que irradiam os sonhos de um mundo mais justo e solidário e acolhedor para os seres humanos e todos os seres que habitam o nosso planeta Terra. Nossa gente caminhando hoje pela Paulista e Augusta e por todas as vias e logradouros da região é a mais pura expressão do povo paulistano e brasileiro.

O povo e a esperança na Paulista. 
Foto: Ricardo Stuckert
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A maré vermelha que tomou a Avenida Paulista e as ruas paulistanas hoje representa o povo trabalhador, é a representação da vida real e concreta que sonha uma São Paulo que inclua o povo no orçamento, que tenha um prefeito e uma Câmara Municipal que façam uma gestão na prefeitura que atue para melhorar todas as áreas que fazem a nossa vida ser melhor, com mais atenção e soluções para a educação, saúde, moradia, transporte, segurança, oportunidades de trabalho e renda, lazer e meio ambiente.

No final da caminhada do povo, após encontrar tanta gente que sonha uma cidade e um mundo inclusivo e humanizado, cada pessoa finalizou o dia à sua maneira. Eu fiquei algumas horas com pessoas queridas, curtindo a vida.

Foi um dia maravilhoso para a democracia. Fechamos a campanha eleitoral paulistana cheios de energia e esperanças, esperanças conquistadas dia a dia nos últimos meses de diálogo com o povo por uma São Paulo mais humana.

É isso! Vamos descansar algumas horas dessa primeira etapa de nossa luta militante. Amanhã, vamos eleger nossas representações e exercer a democracia. A gente merece um mundo melhor.

William Mendes


quinta-feira, 6 de junho de 2024

12 de 100 dias



12. A cada dia de avanço dos bárbaros e suas formas diversas de violência e autoritarismo, aumenta a responsabilidade da parcela humanista e civilizada de resistir ao mal e defender os direitos criados pelos homo sapiens ao longo de milhares de anos de evolução da espécie. 

Como disse o professor e jurista Pedro Serrano em artigo em uma edição de CartaCapital (comentário aqui), o direito não é algo natural, é uma criação humana, e se não defendermos os direitos da pessoa humana - direitos civis, políticos e sociais - os bárbaros da extrema-direita vão eliminar direitos civilizatórios que conquistamos em séculos e milênios. 

Entenderam o que quero dizer?

O que vem ocorrendo nos parlamentos brasileiros, principalmente na Câmara dos Deputados e no Senado Federal - o fim do diálogo e do decoro parlamentar por parte do bolsonarismo et caterva -, tudo sob os olhares complacentes dos presidentes daquelas casas legislativas, é projeto, tem método. O nazismo e o fascismo fizeram isso para vencerem a civilização daquela época, as primeiras décadas do século vinte.

O experimento ("case") de tomada à força das terras da Palestina, eliminando dois milhões de seres humanos daquele "espaço vital" para os sionistas é projeto, tem método (não é mera coincidência com a questão nazista de "espaço vital" de um século antes).

A normalização da violência extremada (sempre contra grupos marginalizados no capitalismo) e naturalização da barbárie e dos atos e ideias da extrema-direita bolsonarista no Brasil por parte da mesma mídia empresarial dos donos do poder (P.I.G.) que envenenaram o povo brasileiro até tornar-se "normal" carros circularem com a imagem da presidenta do Brasil de pernas abertas em bocais de tanque de gasolina dos veículos é projeto, tem método. 

Estou retirado do movimento sindical ao qual fiz parte por ao menos duas décadas. Não sei o que as lideranças da classe trabalhadora estão debatendo. Não sei. Nunca mais fui convidado a participar de fóruns nos quais contribuí por décadas.

Se estivesse nos debates como dirigente, pautaria debater novas formas e estratégias de enfrentamento aos nossos inimigos. Inimigos! Com o fim da política de diálogo e conciliação e da democracia "liberal" como nós aprendemos nas últimas décadas, é responsabilidade das lideranças da classe trabalhadora propor estratégias de enfrentamento aos inimigos. Sem isso, seremos presas fáceis no presente e futuro próximo. 

Na gravidade da atual conjuntura brasileira e mundial, não se pode seguir fazendo o mesmo que se fazia no passado, pois isso seria alienar a classe trabalhadora representada pelos movimentos sindicais e partidários da esquerda. 

É o que penso sendo cidadão do presente cenário mundial.

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EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO POLÍTICA

No momento, avalio que escrever seja uma forma de compartilhar o que leio, estudo e reflito sobre o nosso mundo e a nossa sociedade humana. 

O que possibilitou a nossa espécie chegar até o ponto extraordinário no qual chegamos em relação às ciências diversas foi a educação, a transmissão dos saberes acumulados. 

Nossos inimigos objetivam destruir a educação porque ela pode mudar as pessoas e as pessoas podem agir e mudar o mundo. Quanto mais ignorância, miséria, medo e raiva, mais fácil a manipulação das massas humanas.

Por enquanto, seguirei estudando, lendo, refletindo e escrevendo para as pessoas que tenham interesse em manter a tecnologia milenar da educação, ferramenta que desenvolvemos para trocar conhecimentos, experiências e ideias para mudar as realidades naturais e não naturais nas quais nos vemos envolvidos: as comunidades humanas.

William Mendes 


segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Diário e reflexões (31/10/22)



Refeição Cultural

Osasco, 31 de outubro de 2022. Segunda-feira.


LULA PRESIDENTE!

Lula é o presidente eleito para presidir o Brasil entre 2023 e 2026. Vencemos uma guerra desproporcional contra uma máquina fascista de mentiras e compra de votos, máquina financiada pelo orçamento público capturado pelo bolsonarismo, máquina financiada pelo crime organizado (gente que se autodenomina "empresários", "gente de bem" e outras palavras da língua usadas de forma inadequada). Vencemos uma máquina incrível. Só Lula para vencer nessas condições, só Lula! Isso é inconteste até pelos inimigos e adversários!

50,9 X 49,1 % DOS VOTOS VÁLIDOS

Na verdade, vencemos uma das muitas batalhas que teremos pela frente para salvar o Brasil e seus biomas e o povo brasileiro. Todo dia será um dia importante, mesmo os dias de armistício na guerra contra o fascismo que voltou a se impor ao mundo como ferramenta dentro dos ciclos do capitalismo mundial. Cada dia será um dia para estudar, para se organizar, para sair do catatonismo no qual nos enfiamos desde o golpe de 2016. Vencemos ontem. Temos que comemorar. Toda vitória contra o fascismo é uma vitória da humanidade.

SILÊNCIO DO PERDEDOR E LOCAUTE DE CAMINHONEIROS

Nesta segunda-feira, enquanto as principais lideranças nacionais e do mundo reconhecem a vitória de Lula e da frente ampla que ele representa, o líder do clã fascista segue em silêncio. E ao longo do dia, grupos de caminhoneiros e seus líderes foram parando as estradas Brasil afora. Pelo que a imprensa apurou até agora, há corpo mole ou até parceria da PRF no locaute ilegal feito no país, prejudicando milhões de pessoas. 

Na minha opinião todo cuidado é pouco: tanto com a vida de todas as pessoas que não compartilham da demência bolsonarista armada e irracional, quanto com o que sobrou da democracia de mentirinha que vivemos desde abril de 2016 (as instituições estão funcionando o cacete!, se estivessem Dilma teria cumprido o mandato, Lula não teria sido preso ilegalmente e excluído das eleições de 2018 e o inominável nunca teria ocupado o poder)

PACIFICAR O PAÍS COM TODOS QUE QUEIRAM PAZ E PROSPERIDADE

Enfim, viva a nossa vitória! Viva a perspectiva de recuperar a democracia! Viva a vitória de cada pessoa que se uniu para combater o fascismo bolsonarista e para mandar de volta ao esgoto o rato que ocupou ilegalmente a cadeira da presidência nesse período nefasto de nossa história.

A frente ampla precisa se manter firme porque teremos uma longa jornada para reconstruir o Brasil e trazer de volta para o centro democrático uma parcela das pessoas que estão envenenadas pelo ódio fascista, mas que podem se afastar dessa guerra ideológica que tanto mal trouxe ao país.

Hoje foi um dia de comemoração! Viva a humanidade!

William


quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Lula ou Bolsonaro? Em jogo a nossa vida



Opinião

Eleger Lula presidente do Brasil dia 30 de outubro é uma tarefa civilizatória de todas as pessoas no país que ainda não abraçaram o mal em todas as suas formas e significações em nosso cotidiano de vida e no lugar geográfico onde vivemos


Nosso país tem mais de 200 milhões de pessoas. São eleitores mais de 156 milhões de pessoas. Em poucos dias, vamos decidir quem vai ser o presidente do Brasil, Lula ou Bolsonaro. Não gosto de ser obrigado a escolher uma de duas opções, o mundo não deveria ser bipolar, isso ou aquilo, porque é verdade que entre o preto e o branco há diversas tonalidades de cores, mas é o que está em questão dia 30 de outubro.

O que vamos decidir dia 30 de outubro é o que vai acontecer com a nossa vida após o resultado no fim do dia. O que está em jogo é o que vai acontecer com o nosso meio ambiente, o lugar onde vivemos, a terra, o chão, tanto o lugar onde moramos como os biomas que permitem a vida nos lugares onde moramos, porque registros de imóveis não separam o ar, a água, o calor ou frio, a ira da natureza.

Minha visão do processo eleitoral em andamento e da realidade histórica do Brasil no qual vivo tem feito com que eu alterne dias de esperança em vencer a barbárie instalada desde o golpe (pra não falar dos 500 anos) com dias de pessimismo da razão, que me fazem avaliar como uma tarefa quase impossível a de superar todas as fraudes sendo executadas para manter o criminoso no poder.

Hoje de manhã li uma postagem do excelente jornalista Luiz Carlos Azenha (no Twitter), que mexeu comigo, serviu pra mim.

"Quem viveu sob a ditadura, como eu, sabe que não cabe medo. Se você está ansioso, é melhor ficar quieto do que compartilhar apreensão e baixar a moral alheia. Deixe que a gente cuida de tentar a vitória por você. Ninguém vai te cobrar nada! Relaxe, deixe com a gente!"

Li também um artigo do historiador Fernando Horta, com o título "Um plano nacional de fraude às eleições" (Brasil247), que de certa forma enumera o que eu tenho refletido a respeito da dificuldade que temos de vencer o gigantismo das fraudes para manter no poder essa máfia que tomou conta do país desde o golpe perpetrado contra a democracia e o povo brasileiro em 2016.

O comentário de Azenha me pegou de jeito, me senti culpado por qualquer desabafo público que tenha feito sobre as dificuldades em vencer essa guerra contra o fascismo que chegou ao poder por golpe em nosso querido Brasil. O filme Tropa de Elite 2 nunca poderia ter sido mais visionário do que foi: a milícia chegou ao poder no Planalto Central.

A repreensão de Azenha também me afetou como uma das ideias de Jordan Peterson:

"Deixe sua casa em perfeita ordem antes de criticar o mundo" (Jordan B. Peterson)

Vi essa ideia-chave em outubro do ano passado. A ideia é o nome de um dos capítulos de um livro de Jordan B. Peterson - 12 regras para a vida - Um antídoto para o caos. Um companheiro e amigo estava lendo este livro e comentou em redes sociais quando fui ler a respeito do livro e autor na internet.

Todas as ideias-chave do livro são para se pensar, mas essa me travou de forma estranha. Provavelmente a ideia bateu fundo em algum problema que carrego há tempo, acho que é isso. Me esforcei no cuidado da representação das lutas coletivas, mas descuidei do cuidado com as questões de minha casa.

Enfim, voltando a Lula ou Bolsonaro, decisão que temos que tomar no dia 30 de outubro, vou seguir contribuindo como eu achar que posso até o instante final dessa guerra entre a civilização e a barbárie, na qual está em jogo a nossa vida e a existência de nosso mundo, o Brasil, onde quer que estejamos vivendo nesse país continente.

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LULA É POSSIBILIDADE DE CONQUISTAS PARA O POVO

MANUTENÇÃO DE BANCOS PÚBLICOS - Eleger Lula é a possibilidade de continuar lutando pela manutenção do Banco do Brasil público e servindo ao país, mesmo sabendo que a frente ampla contra o fascismo é liberal e quer o fim das coisas públicas.

MANUTENÇÃO DE PREVI E CASSI - Eleger Lula é a possibilidade de nossa Previ e Cassi seguirem existindo a médio e longo prazo, com perspectiva de lutas do funcionalismo pela manutenção de direitos. A existência da Cassi e autogestões como a nossa diminui a demanda de vagas no sistema público (SUS) para milhões de pessoas sem planos de saúde, pois quase 5 milhões de trabalhadores são assistidos pelo sistema de autogestões. Previdências complementares como a nossa mantêm a qualidade de vida dos participantes mesmo recebendo benefícios pequenos da previdência pública e também diminuem a carga da previdência pública complementando rendimentos a partir de determinados tetos públicos.

REORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO POPULAR POR DIREITOS - Eleger Lula é a possibilidade de tentar corrigir nossos erros no movimento social e popular de esquerda - sindical, partidário, estudantil, do campo e cidade - para fazer enfrentamento popular e democrático ao movimento social de direita e extrema-direita que agora é uma realidade no Brasil, com pautas conservadoras e reacionárias, movimento organizado e sedento de ódio e sangue contra nossas lutas seculares por direitos dos povos.

LULA É RESPEITO AO DIFERENTE, É DEMOCRACIA - Eleger Lula é a possibilidade de muitas coisas caras a nós que somos apreciadores do amor, da amizade, do contato humano, da cultura em suas diversas formas, da ciência e educação para todos, das liberdades individuais, da diversidade, da natureza em toda a sua amplitude, da conciliação através da solução pacífica das controvérsias como diz a CF 1988. É a possibilidade de acreditar pessoalmente naquilo que quiser, mas respeitando a crença dos outros, fé é algo de âmbito pessoal, religião não pode se misturar com o Estado, isso nunca deu coisa boa.

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LULA E A FRENTE AMPLA SÃO A CIVILIZAÇÃO CONTRA A BARBÁRIE E A MISÉRIA

Eu acompanho os temas de comunicação, linguagem e tecnologia da informação há quase duas décadas. Sei que os seres humanos foram afetados pelas tecnologias criadas nessas áreas. Os algoritmos, os malditos algoritmos, foram utilizados pelo capitalismo para destruir a liberdade e a criatividade humana, nossa essência. Acho que Jaron Lanier tem razão em seu livro Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. Estamos nos perdendo. Mas a gente pensa nisso após salvar a democracia!

Se você não abraçou todo o mal que Bolsonaro significa, vamos juntos eleger Lula e a frente ampla que ele representa e vamos nos reorganizar enquanto sociedade para que Lula não seja impedido e para que seu programa possa ter uma chance de execução, que as pessoas - TODAS - possam ter direito a alimentação, moradia, emprego, educação, saúde, segurança, cultura e perspectivas de amor, amizade e felicidade.

Dia 30 de outubro, votem #LulaPresidente

William Mendes

Caso tenham interesse, vejam o vídeo que fiz sobre esse texto clicando aqui

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Leitura: O amanhã não está à venda - Ailton Krenak



Refeição Cultural

"Há muito tempo não programo atividades para 'depois'. Temos que parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã." (Krenak)


Reli as reflexões de Ailton Krenak compartilhadas conosco no início da pandemia mundial do novo coronavírus, Covid-19. Quanta sabedoria esse homem nos transmite em seu breve texto O amanhã não está à venda (2020).

Com os índios e povos originários aprendemos uma lição importante: não somos proprietários da Terra, somos parte dela, somos só um dos bichos que vive nela. E durante a pandemia o bicho homem poderia ter aprendido muita coisa, mas parece que não aprendeu nada!

KRENAK: "Como posso explicar a uma pessoa que está fechada há um mês num apartamento numa grande metrópole o que é o meu isolamento? Desculpem dizer isso, mas hoje já plantei milho, já plantei uma árvore..."

Por que se passaram mais de três anos com o clã de milicianos no poder em plena liberdade de destruição da natureza, dos direitos sociais do povo e da vida das pessoas? Por que não foram investigados, julgados, condenados e presos pela imensidão de coisas irregulares que o Brasil inteiro sabe que eles estão envolvidos? 

Na minha opinião porque a casa-grande dessa eterna colônia de exploração tem interesses na manutenção dos bolsonaros no poder. Os dados econômicos demonstram que os donos do poder, os bilionários, os capitalistas, ganharam muito com essa milícia no poder... são apenas business, negócios, já que tudo é mercadoria à venda no capitalismo.

KRENAK: "Temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário. Desde pequenos aprendemos que há listas de espécies em extinção. Enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a Covid-19. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos."

Pensando no que Krenak nos expõe sobre o amanhã e a ideia de que para a sociedade humana atual tudo é mercadoria, fica mais fácil entender os efeitos das fortes chuvas em Minas Gerais e na Bahia neste ano. A alienação das pessoas, o não relacionar causas e consequências de atos e decisões humanas na exploração da natureza faz com que as pessoas atribuam às chuvas em excesso e não à destruição da natureza pela mineração todos os danos econômicos e sociais das últimas semanas. A destruição seria coisa de Deus e não coisa dos homens.

Quando Krenak nos fala sobre a pandemia e sobre o vírus vemos um ponto de vista muito mais sistêmico na abordagem do que os pontos de vista de várias pessoas chamadas de "especialistas". Nos acostumamos tanto ao mundo artificial que criamos que nos esquecemos que "tudo é natureza".

KRENAK: "A nossa mãe, a Terra, nos dá de graça o oxigênio, nos põe para dormir, nos desperta de manhã com o sol, deixa os pássaros cantar, as correntezas e as brisas se moverem, cria esse mundo maravilhoso para compartilhar, e o que a gente faz com ele?"

O líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor Ailton Krenak não tem medo de dizer o que pensa em relação à política e à economia. No mundo em que vivemos, as decisões políticas são decisões que definem se as pessoas vão viver ou morrer, não só uma pessoa, talvez milhares, milhões, bilhões de pessoas.

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KRENAK: "Michel Foucault tem uma obra fantástica, Vigiar e punir, na qual afirma que essa sociedade de mercado em que vivemos só considera o ser humano útil quando está produzindo. Com o avanço do capitalismo, foram criados os instrumentos de deixar viver e de fazer morrer: quando o indivíduo para de produzir, passa a ser uma despesa. Ou você produz as condições para se manter vivo ou produz as condições para morrer. O que conhecemos como Previdência, que existe em todos os países com economia de mercado, tem um custo. Os governos estão achando que, se morressem todas as pessoas que representam gastos, seria ótimo. Isso significa dizer: pode deixar morrer os que integram os grupos de risco. Não é ato falho de quem fala; a pessoa não é doida, é lúcida, sabe o que está falando."

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O texto de Krenak termina profundo em reflexões assim como começou. A ideia de querer voltar à "normalidade" anterior à pandemia seria o mesmo que não termos aprendido nada com a experiência da pandemia. O mundo já vinha doente e continua.

"Quem está apenas adiando compromissos, como se tudo fosse voltar ao normal, está vivendo do passado. O futuro é aqui e agora, pode não haver o ano que vem." (Krenak)

Os ensinamentos desse sábio indígena servem para todos nós. Quando vejo as coisas na minha modesta dimensão pessoal, a vida de meus entes queridos, a Cassi, o mundo do trabalho e o sindicalismo, as empresas públicas como o Banco do Brasil onde passei boa parte de minha vida, as questões do mundo das letras etc, vejo muita incerteza em relação ao amanhã. 

CONCLUO - Pelo andar da carruagem na política brasileira para 2022 e adiante, me parece que talvez só queiramos voltar à "normalidade" quando vejo a ligação de Lula com Alckmin, apoiada por boa parte do movimento de "esquerda". Essa insistência numa suposta conciliação de classes (para mim rompida após 2016) demonstra que NÃO queremos mudar nada! Não queremos avançar rumo a outra forma de vida social, não queremos abandonar o capitalismo, que segue inviabilizando a vida na Terra. Só queremos continuar a destruição do mundo pelo capitalismo... Isso é foda!

Obrigado, Ailton Krenak, por compartilhar um pouco de sua sabedoria conosco.

William


Bibliografia:

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. São Paulo. Companhia das Letras, 2020.


quinta-feira, 29 de julho de 2021

Enfermaria nº 6 - Conto de Tchekhov



Refeição Cultural

"E, na ocorrência de uma relação formal, sem alma, para com a personalidade humana, um juiz, para destituir um homem inocente de todos os direitos civis e condená-lo aos trabalhos forçados, só precisa do seguinte: tempo. Apenas tempo para a execução de umas poucas formalidades, pelas quais um juiz recebe um ordenado, e a seguir tudo acaba. E vá alguém procurar depois justiça e uma defesa, nessa cidadezinha suja..." (p. 236)


A Enfermaria nº 6 é a equivalente russa da nossa Casa Verde, em Itaguaí, terra do Dr. Simão Bacamarte (O alienista, de Machado de Assis). Uma casa de loucos. 

Na epígrafe acima, estaria Tchekhov falando de um certo juiz e de um paisinho de merda (uma tal república de curitiba)? Certamente não, mas os grandes autores conseguem descrever situações universais, por isso são autores geniais.

O manicômio de Tchekhov tem 5 moradores (internados). Um deles "É o abobalhado judeu Moissieika", o Moisés. Outro cativo no local é Ivan Dmítritch Gromov - "homem de uns trinta e três anos, de condição nobre, ex-oficial de justiça e ex-amanuense provincial, sofre de mania de perseguição". (p. 232 e 233)

O 2º e 3º capítulos contam a história trágica da família Gromov. Depois de perdas irreparáveis dos familiares, Ivan desenvolve sua doença. Ele era uma pessoa estudiosa e de conhecimentos.

Um dos outros internados é uma pessoa do povo que sequer mereceu nome no conto: "era um mujique quase redondo, afundado em banhas, com um rosto embotado, completamente inexpressivo. Um animal imóvel, guloso e quase asseado, que já perdera, havia muito, a capacidade de pensar e de sentir" (p. 239). Ele é espancado frequentemente por um funcionário do manicômio, Nikita. 

Tchekhov sugere que os leitores imaginem a cena: "Uma vez em dois meses, aparece ali o barbeiro Siemión Láraritch. Não falaremos de como ele corta o cabelo dos dementes, de como Nikita o ajuda nessa operação, nem da perturbação que sempre causa aos doentes o aparecimento do barbeiro bêbado e sorridente." (p. 240)

O médico Dr. Andriéi Iefímitch Ráguin, responsável pela Enfermaria nº 6, queria ser pastor e acabou sendo médico. "De porte elevado e ombros largos, tem pés e mãos enormes; infunde a impressão de que, dando um soco, poria para fora os bofes da vítima." (p. 240)

ENFERMARIA Nº 6 - "(...) Havia queixas de que as baratas, percevejos e camundongos tornavam a vida insuportável. Na seção da cirurgia, não se dava cabo da erisipela (...) Na cidade, sabia-se muito bem dessas irregularidades, que eram até exageradas, mas os habitantes encaravam-nas com tranquilidade; uns justificavam-nas pelo fato de que no hospital eram internados apenas mujiques e pequeno-burgueses, que não podiam ficar descontentes, porque em casa viviam muito pior ainda: não se devia, naturalmente, alimentá-los com carne de perdiz!" (p. 241)

PUSILANIMIDADE PARA CONSERTAR AS COISAS E...

"Está absolutamente acima das suas forças dizer ao vigia que deixe de roubar, enxotá-lo ou suprimir de vez esse cargo inútil, parasitário." (p. 242)

O SOFRIMENTO É BOM PRA MANIPULAR OS MISERÁVEIS E IGNORANTES

"(...) para que aliviá-lo? Em primeiro lugar, dizem que os sofrimentos conduzem o homem à perfeição e, em segundo, se a humanidade aprender realmente a aliviar seus sofrimentos por meio de gotas e pílulas, há de abandonar completamente a religião e a filosofia, nas quais até agora encontrou não só uma defesa contra todas as desgraças, mas até felicidade." (p. 243)

A INVENÇÃO DE DEUS OU DA IMORTALIDADE

"- E a imortalidade?

- Ora, mudemos de assunto!

- O senhor não acredita, bem, mas eu acredito. Numa obra de Dostoiévski ou de Voltare alguém diz que, se Deus não existisse, seria inventado pelos homens. E eu creio profundamente que, se a imortalidade não existe, será inventada cedo ou tarde por uma grande inteligência humana." (p. 253)

SOLIDÃO

"Como é agradável ficar imóvel no divã e ter consciência de estar sozinho no quarto! A verdadeira felicidade é impossível sem a solidão. O anjo caído traiu a Deus provavelmente por ter desejado a solidão, que os anjos desconhecem." (p. 266)

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O médico Dr. Andriéi Iefímitch passa a puxar conversa com o interno Ivan Dmítritch, que no início rejeita qualquer papo, mas acabam debatendo temas filosóficos como, por exemplo, o estoicismo (p. 257 e 258), a imortalidade etc.

A admiração do médico pelo paciente começou a causar problemas para o doutor, pois as pessoas acharam estranho o médico considerar o doente mental uma pessoa muito inteligente.

O enredo passa por algumas reviravoltas. O Dr. Andriéi é forçado a se aposentar, depois viaja com um amigo, e o final da narrativa é surpreendente. De novo, poderia dizer que tem alguma semelhança com o desfecho do conto machadiano O Alienista. O clássico de Machado de Assis é de 1882 e este conto de Tchekhov é de 1892.

COMENTÁRIO FINAL

A leitura desse conto, dessa novela, foi uma leitura difícil. Diferente das outras do livro, nessa gastei quatro dias, simplesmente porque em determinados momentos, eu travava e tinha que parar. Pode ser que eu estivesse travado e não que a leitura fosse difícil.

A leitura de Tchekhov neste momento não foi necessariamente uma escolha das prioridades. Tenho outros cinco ou seis romances na frente pra ler. Mas como tive contato com o autor russo na última matéria que fiz na Letras da FFLCH, acabei decidindo ler o livro todo. Terminei as narrativas denominadas "contos" e agora vou ler de novo o drama As três irmãs, com uma centena de páginas, pois já faz 15 anos que o li.

A fase que vivemos na sociedade humana é uma fase mórbida. Tá certo que a vida é um instante, se morre de qualquer coisa a qualquer momento. Mas com essa pandemia de coronavírus, tá foda. Pode ser a nossa vez de morrer em poucos dias, assim do nada. A gente alterna nosso estado psicológico o tempo todo, ora estamos depressivos, ora com muita raiva e ódio, com sede de justiça e vingança em relação aos desgraçados que estão fodendo o mundo e as formas de vida.

Estive estranho nos últimos dias, muita fraqueza, moleza e dores nas pernas, um pouco de dor de cabeça, e muito sono. Talvez por isso a leitura da narrativa de Tchekhov tenha sido tão truncada. Cheguei a olhar para a estante e pensar que se fosse pra morrer por esses dias, que eu estivesse terminando outros livros que gostaria de ler antes de morrer. Que merda, isso! Nunca fui apegado à minha vida. Nunca! Mais velho e mais experiente hoje, e menos egoísta talvez, temos que lembrar que outras vidas dependem da nossa e, com isso, querer viver.

O texto "Enfermaria nº 6" tem um enredo que nos põe a pensar. Quem é demente e quem é normal? Quem deve ser internado e quem deve ficar solto? Alguém deve ser internado pelas suas ideias? Deve ficar livre alguém que estimula crimes? Se é normal falar e agir como o monstro que colocaram no poder no Brasil, se é normal existir o 1/3 dos animais humanos que apoiam e pensam como o genocida odioso no poder, então está tudo errado e não vejo mais sentido em lutar pela humanidade. Se uma parte da sociedade humana é como Hitler e Bolsonaro, preferiria que os humanos fossem extintos e o mundo seguisse habitado pelas outras espécies.

William


Post Scriptum: só mais uma questão: a solidão. Eu entendo o personagem Dr. Andriéi Iefímitch desejar tanto a solidão no contexto em que ele vive na narrativa. Por muitos anos em minha vida, eu tive que viver com outras pessoas, em barracos, em casas apertadas, num quarto com mais pessoas. Para conseguir paz e silêncio, eu ia para as praças de alimentação nos shoppings para ler. O burburinho da multidão era o meu silêncio. Por outro lado, a solidão é algo muito ruim quando não se quer estar só e não se tem alternativa. A experiência do jovem Chris McCandless no Alasca no início dos anos noventa é um exemplo a se observar. Ele descobriu que "Happiness only real when shared". Quando tive contato com o filme e o livro Na natureza selvagem (2007) fiquei olhando minha vida e na época senti que a mensagem pegou na veia. Acho que os momentos mais felizes de minha vida tinham sido ao lado das pessoas e não sozinho. É isso. 



Bibliografia:

TCHEKHOV, Anton. As três irmãs e contos. Coleção Imortais da Literatura Universal. Nova Cultural, 1995.


quinta-feira, 1 de julho de 2021

O verdadeiro criador de tudo - Miguel Nicolelis



Refeição Cultural

"Educação, oportunidades e justiça ilimitadas, não ganância, deveriam ser o mote que impulsiona o universo humano no futuro." (p. 355)

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"(...) o nosso cérebro permanece maleável ao longo de toda a vida. Isso implica que, por meio da educação crítica, pode-se desmistificar a natureza das abstrações mentais, como o mercado e o sistema financeiro, demonstrando que são apenas criações do ser humano, não produto de intervenção divina." (p. 355)


Terminei a leitura do livro do neurocientista Miguel Nicolelis muito emocionado, às lágrimas. Ganhei o livro O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (2020) no dia de meu aniversário. É um livro de ciência, mas é sobretudo um livro de um intelectual humanista, de um "homem cultivado", como diz Mircea Eliade. 

Desde pequeno tive o espírito curioso ou uma certa curiosidade filosófica em relação à existência e ao mundo. Ao longo das últimas décadas procurei respostas às minhas questões filosóficas nos mais variados espaços de conhecimentos: nas religiões, nos estudos formais, nas leituras literárias e nas leituras de áreas do saber humano. Nas lutas sociais e coletivas tive minha aprendizagem mais aprofundada que nunca.

Tive contato com diversas matrizes religiosas ocidentais, orientais e de origem africana. Estudei áreas variadas na educação formal: fiz Ciências Contábeis, fiz Educação Física e não concluí e fiz Letras. Estudei várias áreas do direito como concurseiro em certa época de minha vida. Nessas quase quatro décadas de adulto, sempre estive procurando respostas e sentidos.

A leitura do livro sobre o cérebro humano neste momento de minha vida e neste momento da sociedade humana foi algo que mexeu bastante comigo. Busquei muitas explicações para os acontecimentos do mundo e os comportamentos humanos nas leituras de História. Toda leitura feita me acrescentou alguma coisa, é verdade, mas avalio que Nicolelis me trouxe respostas sobre várias questões que martelam em nossa cabeça de cidadão curioso e politizado.

Nicolelis escreve muito bem, a considerar que o livro passa a primeira metade falando sobre Biologia, Anatomia, Fisiologia, sistemas do corpo humano e demais áreas médicas e da ciência. Talvez meu conhecimento de Anatomia e estudos do corpo humano adquirido duas décadas atrás tenha contribuído para que minha leitura não fosse superficial na parte mais espinhosa do livro.

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"Do ponto de vista da visão cerebrocêntrica discutida neste livro, a era dos excessos de Hobsbawm (Era dos Extremos) pode ser descrita como o período em que uma abstração mental - o capitalismo - tornou-se poderosa o suficiente para reconfigurar a dinâmica das interações humanas em escala global, cruzando o perigoso patamar que, no limite, pode jogar a humanidade em um buraco negro do qual ela não mais se libertará." (p. 361)

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Na segunda parte do livro, o neurocientista Nicolelis nos faz pensar e pensar e refletir e avaliar a vida e a sociedade e ao final estamos profundamente imersos nos destinos da humanidade. Ou mudamos o rumo das coisas ou não haverá futuro para a espécie humana. Precisamos superar o modo de vida capitalista ou não seguiremos enquanto espécie no planeta Terra.

Tudo que existe na sociedade humana atual é fruto da criação do cérebro humano, todas as abstrações que nos pautam a vida, todas as coisas produzidas, tudo. O cérebro humano deu sentido às coisas que existem, além de criar tudo que há entre nós. 

Algumas abstrações se tornaram maiores que seus criadores como, por exemplo, a Igreja do Mercado e o deus dinheiro. Também a abstração Culto das Máquinas. Neste momento da história humana, ou retomamos a importância humana como centro das coisas ou pereceremos enquanto espécie.

Durante décadas tive receio em relação à Inteligência Artificial. Era uma das pessoas que temia que as máquinas adquiririam vida própria e colocariam sob ameaça as outras espécies animais, sobretudo a humana. Nicolelis me explicou a falácia da "Inteligência Artificial", algo impossível de se realizar. 

A inteligência é animal, uma máquina não pode ser inteligente no sentido da criação humana. Só nós somos inteligentes, por enquanto (pode ser que fiquemos limitados como as máquinas se não mudarmos o rumo das coisas).

Foi um dos livros mais esclarecedores que li na minha vida. Olho o mundo de forma diferente a partir da leitura de Nicolelis. Não fiquei nem mais triste nem mais feliz, mas me tornei uma pessoa mais consciente a respeito da existência das coisas. 

Já não havia espaço para visão mística em minha vida, mas agora as coisas estão mais claras do que nunca. Mas meu humanismo saiu reforçado após essa experiência. Como animal humano, ainda homo sapiens, podemos mudar o rumo da destruição de tudo, e isso é algo valioso, saber que podemos fazer coisas incríveis e aparentemente "impossíveis" como, por exemplo, nos livrarmos do capitalismo.

É isso. Professor Miguel Nicolelis, muito obrigado pela experiência e conhecimento compartilhados. Muito obrigado!

Mais que nunca, é fundamental lutar pela vida, pela educação, pela ciência, pela ética, pelo amor, pela solidariedade, pelo cooperativismo. E para seguirmos a vida é preciso gritar #ForaBolsonaro!

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O Verdadeiro Criador de Tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

Bloomsday, 16 de junho



Refeição Cultural

Hoje é quarta-feira, 16 de junho. Essa data é considerada o Bloomsday para os irlandeses e para o mundo da cultura e da leitura também. A epopeia do personagem Leopold Bloom pela Dublin de 1904 se passa numa quinta-feira, 16 de junho.

Sou um dos leitores do mundo que teve a oportunidade de ler o romance Ulisses, de James Joyce. Na época, li uma edição com tradução de Antônio Houaiss. Li quando tinha pouco mais de trinta anos de idade. A leitura foi difícil, foi exigente, pois a linguagem literária é bastante experimental. Foi um feito em minha modesta vida de leitor.

Agora, após os cinquenta anos de idade, estou relendo Ulysses, desta vez numa tradução diferente, de Caetano W. Galindo. A leitura se dá em um contexto interessante. Meu amigo Sérgio Gouveia decidiu ler a obra e me convidou para lermos juntos. Legal a ideia! 

Como no meio do caminho tinha uma pedra, ainda não conseguimos sintonizar a leitura. Eu acabei lendo muito rápido no começo e agora vou mais devagar. Como leio muitos livros ao mesmo tempo, vamos de boa, curtindo cada momento do dia de Leopold Bloom (Bloomsday).

Eu já estou nos acontecimentos das 14 horas, "Cila e Caríbdis". Li até agora os capítulos "Telêmaco" (8h), "Nestor" (10h), "Proteu" (11h), "Calipso" (8h), "Lotófagos" (10h), "Hades" (11h), "Éolo" (12h), "Lestrigões" (13h). Joyce faz um esquema do Ulysses com diversas características em cada capítulo. Ver aqui a postagem mais recente.

ODISSEIA (HOMERO)

Uma estratégia bem interessante que adotei desta vez ao ler a epopeia de Leopold Bloom pela Dublin de 1904 foi ler ao mesmo tempo a Odisseia, em versos, de Homero. Eu só tinha lido em prosa a epopeia de Odisseu (Ulisses é o nome latinizado de Odisseu). Joyce cria sua epopeia moderna fazendo paralelos com a epopeia clássica de Homero.

Enfim, se não fosse a leitura, a literatura, a cultura, eu não sei como conseguiria lidar com esses dias que estamos enfrentando no Brasil, um país destruído após um golpe de Estado e dominado pela banalidade do mal.

Amigas e amigos leitores, se puderem, leiam diariamente, incluam momentos de leitura em suas vidas. Vocês estarão fazendo um bem para si mesmos e também estarão salvando a humanidade, e a parte da humanidade com cultura pode salvar o planeta Terra e todas as formas de vida.

William

segunda-feira, 7 de junho de 2021

070621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Para nós, tais lutas - por óculos, calças compridas, privilégio para estudo, alimentos iguais - eram corolários para a luta que promovíamos fora da prisão. A campanha para melhorar as condições na prisão era parte da luta contra o apartheid. Era, nesse sentido, tudo igual, lutávamos contra a injustiça onde quer que a encontrássemos, não importando se era grande ou pequena, e lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade" (MANDELA, 2012, p. 498)


Lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade

Quando eu ia dar as boas-vindas aos novos funcionários do Banco do Brasil, no dia da posse deles em seus cargos de escriturários concursados do banco público, eu transmitia a eles uma mensagem muito parecida com o conceito acima descrito por Nelson Mandela. 

Eu era dirigente sindical dos bancários paulistas, representava os trabalhadores e ao sindicalizá-los dizia para nunca aceitarem violência contra eles (física e psicológica), assédio moral, humilhações ou qualquer forma de injustiça. Deixava claro para eles que assédio moral e injustiça nunca poderiam ser considerados coisas normais. Injustiça não é algo "normal", algo "natural".

Hoje, temos que trabalhar esse conceito mais que nunca no mundo do trabalho, no Brasil e no planeta Terra! Lutar contra a injustiça é uma forma de preservar a nossa humanidade.

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Nesta segunda, 7 de junho, tivemos em Osasco, São Paulo, um dia chuvoso e nublado. A natureza agradece. 

Reli e estudei um pouco as postagens que fiz sobre a leitura do clássico Odisseia, de Homero. Já passei da metade da leitura da epopeia em versos de minha edição a cargo do professor Medina e na tradução de Odorico Mendes. Estudar os clássicos da literatura mundial também é uma forma de fortalecer nossa humanidade.

Retomei a leitura da autobiografia de Nelson Mandela. Sinto que a leitura sobre a história de luta do povo negro sul-africano é necessária para mim neste momento de desesperança em relação ao presente e ao futuro por causa da dura realidade em nosso país, neste momento da história dominado pela banalidade do mal e nas mãos de um regime nazifascista, racista e contra o povo e a classe trabalhadora, regime corrupto, violento e genocida. 

A história de Mandela, seus companheiros e companheiras e a derrota do regime racista do apartheid imposto pela minoria branca é um exemplo de que a luta vale a pena e que não podemos normalizar a injustiça, temos que preservar a nossa humanidade. O bolsonarismo e a extrema direita, representantes do capital financeiro mundial, atuam para destruir nossa humanidade. Não podemos permitir isso. Eles usam inclusive o ódio e o medo para isso, idiotizam as pessoas e devemos combater isso porque é nosso dever lutar contra esse mal.

O povo está sofrendo sob a dominação desse regime genocida, cuja pauta do governo é destruir tudo que existia. Temos que resistir. Você que me lê aqui no blog e que pode estar se sentindo só e desanimado também, saiba que você não está sozinho. A vida vale a pena, a igualdade e a justiça, o amor e a solidariedade são abstrações criadas pelo animal humano e essas abstrações nos humanizam. Não desistam de viver e de lutar para sermos felizes.

Estamos juntos, mesmo que de forma singela como aqui neste blog de um militante de um mundo melhor para todos. Leiam bons livros e bons autores, boas histórias de luta e histórias de culturas, leiam e se humanizem. 

Meu coração está apreensivo com a internação do amigo e companheiro Jacy Afonso, um dos militantes das causas do povo para o qual tenho um amor fraterno antigo. Ele está lutando para vencer os efeitos da infecção pelo vírus Covid-19. A cada notícia positiva como ouvi agora há pouco, sentimos alegria e esperança em sua recuperação.

Amigas e amigos leitores, não desistam da vida, não desistam das lutas. Cada momento vivo vale a pena porque o imponderável pode nos surpreender positivamente, assim como sabemos que a vida é um instante para todo ser vivo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

080421 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quinta-feira, 8 de abril. 2º ano de mortes por Covid-19. 3º ano da destruição de tudo pelo regime fascista e genocida no Brasil.

Li nesta manhã mais um capítulo do livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis - O verdadeiro criador de tudo - Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. Foi o 5º capítulo. Foram 3 horas de leitura densa. Meu cérebro agradece o esforço intelectual realizado.

Nicolelis é um cientista revolucionário. Definiu conceitos novos a respeito do funcionamento do cérebro após duzentos anos de "certezas" sobre o órgão. Estou lendo suas teorias sobre o cérebro relativista com um livro de anatomia do lado, assim relembro meus bons tempos de estudos do corpo humano em laboratório. Focado como sou, naquela época eu sabia muito sobre aquilo que estava estudando. Pena que não terminei o curso.

É foda! Me lembro até hoje daquele dia em que entramos no laboratório de anatomia pela primeira vez em 1997. O professor fez uma apresentação e nos falou da importância em tratar com o máximo respeito os corpos nos quais iríamos estudar ao longo do ano. Os corpos eram de pessoas como nós e mereciam o nosso respeito. Por quase dois anos frequentei aquele laboratório e aprendi muito, e mudei como pessoa porque passei a respeitar mais o ser humano.

Agora, vivendo aos 52 anos num país onde existem pessoas que apoiam aquela coisa maléfica na presidência do país, de novo passei a ter um sentimento muito ruim a respeito dos seres humanos. Que merda, isso! Aquele monstro no poder e seu séquito de gente vil e canalha faz piada todos os dias com os milhares de mortos e sequelados por Covid-19 no país governado por ele. É racista, xenófobo, machista, prega a favor da violência, a favor dos ricos, pratica atos apontados como quebra de decoro do cargo que ocupa todos os dias, e tem gente que o apoia. Não uma pessoa, que já seria absurdo. Milhões de seres humanos apoiam esse animal desprezível.

Acho que regredi décadas em pouco tempo. Não sei se sou mais um humanista.

William


quarta-feira, 17 de março de 2021

Moby Dick - Acab vai à caça da baleia branca



Refeição Cultural

"- Saca-rolhas! - gritou Acab. - Sim, Queequeg, os arpões ficam todos retorcidos e cravados nela. Sim, Daggoo, o seu jorro é enorme como um feixe de trigo, branco como uma pilha da nossa lã de Nantucket, depois da grande tosquia anual. É verdade, Tashtego, a sua cauda em forma de leque é como uma vela no meio de um vendaval. Morte e inferno, marinheiros! Vós vistes, Moby Dick! Moby Dick! Moby Dick!" (p. 198)


Estamos à bordo do baleeiro Pequod, saídos de Nantucket, Massachusetts - Nordeste dos Estados Unidos -, sob o comando do capitão Acab e os demais oficiais e marinheiros, os pilotos Starbuck, Stubb, Flask e seus arpoadores Queequeg, Daggoo e Tashtego, e juntos ao marinheiro que nos conta a estória, Ismael.

Este foi o 7º dia de leitura desta clássica e épica aventura proporcionada a nós leitores do mundo por Herman Melville, em 1851.

Na primeira semana de leitura, li entre segunda e sábado e descansei no sétimo dia... Para descansar, li um livro no domingo - Becos da Memória, de Conceição Evaristo - e outro na segunda - O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry. Retomei agora Moby Dick e vamos mais alguns dias na viagem pelos mares do mundo. Já passei da página 200.

Estamos no período mais mortal da pandemia mundial de Covid-19 no Brasil de regime genocida. Lendo quieto em casa, estou atendendo ao apelo de parte das autoridades políticas e de saúde do Brasil e do mundo. 

Temos que ficar em casa. Para quem tem condições é um dever cidadão e humanista evitar ao máximo sair e se aglomerar com outras pessoas para evitar pegar o vírus e disseminar sua contaminação para os nossos semelhantes. 

Estamos chegando a 300 mil mortos no país e o sistema de saúde colapsou, quase não há leitos disponíveis na maior parte dos Estados brasileiros. As pessoas podem morrer em consequência dos efeitos da infecção pelo vírus Sars-Cov-02 e por qualquer outra necessidade hospitalar. Entendem isso?

Lendo em casa, estou fazendo a minha parte como cidadão, como ser humano consciente e educado. Ficando em casa, faço o possível para sobreviver a essa tragédia humanitária que vivemos. Quero viver porque a vida vale a pena, quero viver para amar e estar com as pessoas, quero viver para ler os clássicos da literatura e para contribuir para um mundo melhor de alguma forma. 

Quero viver para ver julgados e condenados os genocidas e criminosos no poder.

Leiam! Não deixem a literatura morrer! Não deixem seus cérebros atrofiarem suas capacidades cognitivas!

Aos interessados na postagem anterior, clique aqui.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Sabe com quem está falando?



Reflexão:

Pela manhã, ao passar pelo hall do condomínio, cumprimento a Do Carmo. Ela trabalha para nós no condomínio e mantém tudo em ordem em nosso bloco. Ela pergunta pela saúde de minha esposa e eu pergunto como vai a saúde dela. Quase todos nós temos nossas dores diárias e cronicidades. Do Carmo é cidadã brasileira.

No quiosque perto de casa, cumprimento a Maria e compro pão francês e pão de queijo, às vezes algum pão doce também. Quando não tem fila na calçada onde o quiosque sobre rodas está, conversamos amenidades. Outro dia soube que ela faz tratamento contra algum tipo de câncer. Maria é cidadã brasileira.

Na outra opção para comprar pães perto de casa, uma pequena padaria, quando vou lá cumprimento todas as funcionárias que já conheço, antigamente não sabia o nome delas, agora sei. Um dia desses, soube que uma delas não estava trabalhando mais lá. As meninas são muito simpáticas. Normalmente sou atendido pela Gleice, pela Naná ou pela Ingrid. Elas são cidadãs brasileiras.

Quase todo dia encontro o Henrique, quando vou comprar pães. Ele é um cidadão em situação de rua, simpático e expansivo, conversa com todo mundo. Ele pede algum tipo de ajuda para nós que moramos ou passamos pela região. E também recolhe latinhas para vender. Nesta quinta à noite, encontrei com ele em frente de casa, e depois lá na Vila Iara, quando passei por lá correndo. Nos cumprimentamos de novo. Henrique é cidadão brasileiro.

Quando voltei da feira noturna, que acontece às quintas-feiras na frente de casa, passei na van de churros e cumprimentei o Durval. Conversamos um pouco enquanto esperava sair uma remessa quentinha. Ao entrar no condomínio, entreguei os pastéis de nossos trabalhadores da portaria, o Zé e o Severino, figuras muito gente boa. O Zé eu conheço desde quando éramos jovens, coisa de vinte anos antes. Durval, Zé e Severino são cidadãos brasileiros.

Por falar em feira, estava sentindo a falta de uma das pessoas da barraca de pastéis, o rapaz que atende a gente toda semana. Perguntei por ele para a Cris, que trabalha junto com ele. Alexandre está internado se tratando de uma leucemia. Expressei minha solidariedade e torcida pela recuperação dele. Cris e Alexandre são cidadãos brasileiros.

Durante a tarde dessa quinta, estive em contato com outros trabalhadores brasileiros. O Francisco, quando tentamos resolver um problema de internet e o Tiago, que veio reinstalar uma rede de proteção, removida pelo Douglas para um reparo nos vidros da sacada. Todos eles muito prestativos e atenciosos. Francisco, Tiago e Douglas são cidadãos brasileiros.

Outro dia, estava preocupado com o senhor João, que às vezes faz entrega de refeições aqui no prédio. Felizmente, soubemos que está tudo bem com ele ao ligarmos no restaurante onde trabalha, foi só a bicicleta dele que quebrou por esses dias. O senhor João é cidadão brasileiro.

Ixi, estive pensando agora que não perguntei o nome do pessoal da barraca de caldo de cana com quem estou toda semana na feira. E também tem uns colegas que entregam refeição para a gente quase todo dia e eu não sei o nome deles, são sempre os mesmos e é importante saber o nome das pessoas.

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É importante sabermos com quem estamos falando, para tratarmos bem as pessoas, principalmente quando as pessoas estão trabalhando ou precisando de ajuda e, de alguma forma, estão nos ajudando porque precisamos uns dos outros para tudo nessa vida. Não somos nada sem a ajuda das outras pessoas. Pensem nisso na hora que acharem que são muito importantes e melhores que as outras pessoas!

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Cada ser humano é único, cada vida é única e todas as pessoas do mundo merecem respeito, atenção, oportunidades, todas as pessoas do mundo deveriam ter acesso aos direitos básicos dos seres humanos, alimento, moradia, educação, atendimento em saúde, trabalho decente e com remuneração adequada, cultura e lazer, segurança etc. Tecnologia e ciência para isso já existem, é só querermos isso coletivamente!

PANDEMIA DE COVID-19 - Nesta quinta-feira, morreram no Brasil 1582 pessoas vítimas do novo coronavírus. Mil quinhentos e oitenta e duas pessoas! Marias, joões, williams, brasileiras e brasileiros. 1582 famílias estão vivendo o luto neste instante, um luto horrível porque a pandemia impede até o velório e as despedidas que nossa cultura desenvolveu há séculos.

Desde moleque, sempre odiei a frase falada "Sabe com quem está falando?", dita na boca de gente metida a besta, gente que se acha melhor que os outros, gente que dá carteirada.

Hoje, para esquecer desse tipo de gente que faz tanto mal ao mundo, à sociedade, essa gente da carteirada, deu vontade de falar de gente comum, gente que está por aí ralando e tentando sobreviver nesse Brasil desgraçado e destroçado por um golpe de Estado, orquestrado e executado por gente da carteirada, que não vale nem uma unha a mais que as pessoas que citei nesta postagem.

Desejo do fundo de meu coração que o Alexandre e a Maria se curem do câncer que estão enfrentando (também conheço outras pessoas que estão em tratamento contra o câncer, todas elas estão em meu pensamento e no meu coração). 

Desejo tudo de bom para as trabalhadoras Do Carmo, Gleice, Naná, Ingrid, Cris, espero que elas todas tenham muita saúde e também o Zé, o Severino, o Francisco da internet e o Francisco daqui do condomínio, mais o Marcelo e o Luís e a Maria José, a Socorro e a Márcia. E também o Tiago e o Douglas da empresa de redes de proteção. E o Durval, do churros.

Torço todos os dias para que nada de mal aconteça ao Henrique, cuja vida é sempre um perigo estando na rua como ele está. E também torço pela vida e pela saúde da Rosângela, que não vejo no farol faz dias, mas da última vez que a vi ela estava bem e me disse que sua filhinha também, a criança estava ficando com familiares dela.

Encerro a postagem. Durante essa pandemia os bilionários, trilionários, essa gente do 1%, essa gente ficou muito mais bi e tri ricos enquanto a massa de trabalhadores ficou na miséria. A riqueza produzida pelos seres humanos não está sendo distribuída, está sendo acumulada na mão de poucos. Isso é uma merda, é um absurdo, e não pode continuar assim. Vamos mudar essa porcaria injusta!

Os banqueiros no Brasil demitiram mais de 10 mil mães e pais de família e jovens com vidas promissoras durante a pandemia, cidadãos que estão com sério risco de irem para as ruas, para a depressão, para a miséria. Isso não pode continuar assim! São marias, joões, seres humanos que ficarão numa condição desnecessária. Temos tecnologia e ciência para que todas as pessoas no planeta exerçam sua cidadania e tenham acesso aos direitos humanos.

Pelo fim do capitalismo! Por uma sociedade socialista!

William

Post Scriptum: ainda pensando em trabalhadores cidadãos brasileiros, eu e Ione temos muita saudade do senhor Adão e do senhor Francisco, gente boníssima! Eles trabalham na portaria do prédio onde moramos por quase quatro anos em Brasília. E hoje fiquei feliz ao ver feliz pelas redes sociais a flamenguista Jesus, comemorando o título de seu time do coração. Conheci a Jesus quando trabalhei na Cassi, ela é uma das trabalhadoras da limpeza. Jesus, Adão e Francisco são cidadãos brasileiros!


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Instantes (2h30)



A lua como uma luz na longa noite.
Foto de Ione.

Madrugada de segunda-feira, 8 de junho de 2020 (d.C.). 

O domingo trouxe ao menos uma momentânea esperança de um porvir diferente do que tem sido a mesmice da existência sob um país destroçado pelo golpe de Estado em 2016, golpe que retirou o PT do governo federal, que alterou a rota que o Brasil seguia com destino a ser uma das potências do século em que estamos. A esperança momentânea foi ver várias capitais do país recebendo atos com brasileiras e brasileiros indignados com o estado das coisas, milhares e milhares de pessoas que foram para as ruas protestarem contra o racismo, contra o fascismo, contra o bolsonarismo, contra os inumanos que tomaram o poder, foram para as ruas defenderem a democracia. Fico feliz pelos atos deste domingo e, neste momento, meus olhos se umedecem de emoção por ver essa pequena luz na longa noite que nos enfiaram ainda antes de 2016, quando os meios de comunicação da casa grande envenenaram o povo brasileiro e transformaram parte dele numa gente odienta, doente, ignorante, bárbara e sem cura.

Não fossem momentos de luz como ver as pessoas nas ruas lutando pelo bem, disputando espaço com os que vêm ocupando as ruas para defender o mal, a gente estaria mais triste do que já estamos. A gente sofre muito ao ver nossos jovens com seus caminhos interrompidos por esse mal em que nos jogaram. Isso dói. E a gente tem que ser forte, inclusive para auxiliar e apoiar aqueles que ainda têm toda uma vida pela frente e precisam acreditar em um amanhã melhor. Se uma década atrás a nossa vida estava melhorando e as perspectivas eram provenientes das decisões políticas da maioria do povo brasileiro, significa que se chegamos naquele momento uma vez, podemos chegar novamente. O ser humano é um animal absolutamente diferente de qualquer outro na natureza. O imponderável é a marca de nossa existência coletiva ao longo de dezenas de milhares de anos de vivência dos animais humanos. O amanhã sempre pode ser diferente, se não para mim, ou para você, porque somos breves, mas pode ser diferente para nós, que somos também legião, além de indivíduos.

Se estiver vivo nesses dias meses anos serei mais um do lado do bem, enfrentando todo esse mal que se abateu sobre nós como um pesadelo sem fim, mas que tem fim. Mesmo que não tenha mais um papel de representação coletiva, cada boa ação que fizer, pode valer alguma coisa, porque o bem pode vencer o mal, numa soma de pequenos atos.

Não aceite o mal como algo normal na sociedade humana! Não aceite o racismo, não aceite o comportamento odiento dos doentes que aderiram ao bolsonarismo, não aceite a destruição de nosso mundo como algo dado. A vida tem que valer a pena, e vale, porque viver já é possibilidade, já é chance para o imponderável.

William

sexta-feira, 3 de abril de 2020

030420 (d.C.) - Diário e reflexões



Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade, em Sentimento do Mundo, 1940)


Acordei cedo nesta sexta-feira 3 para ir buscar os pães que encomendamos ontem; eles foram entregues na portaria do prédio. Estamos em quarentena em tempos de pandemia do Covid-19. Moro na região mais afetada pelo vírus no Estado de São Paulo, a região Oeste que inclui a cidade de Osasco. Já soubemos de dois casos confirmados no condomínio onde moramos. Essa pandemia faz parecer que vivemos um jogo fatal de roleta russa: terei sorte ou azar?

Hoje faz cinquenta e um anos que nasci. Não estou nem feliz nem triste. Só estou aqui, estou vivo. Nunca sabemos o dia de amanhã. Antes da pandemia do novo coronavírus a gente podia morrer de infarto, câncer, AVC, por violência ou por acidente. Essas mortes são muito comuns na nossa sociedade e nas estatísticas da comunidade a qual pertenço, a dos bancários do banco público BB. Também poderia morrer de qualquer outra coisa, é lógico! Até por engasgo ou por uma "gripezinha" com agravamentos.

Ao olhar para trás, ao olhar ao redor, ao olhar para o amanhã, a gente sente tanta coisa esquisita, sentimentos difusos, tristezas, algumas sensações de alívio por ter feito a coisa certa, desilusões, gratidões diversas. O momento não nos ajuda a sentir felicidade alguma, sequer esperanças a gente consegue vislumbrar quando olha o que viraram as pessoas do nosso mundo, do nosso cotidiano; o tiozinho da padaria ou da portaria do condomínio; sua tia ou seu colega de infância.

Ao olhar ao redor, sinto que a vida me deu mais do que eu esperava, tendo ou não merecido. Estou melhor que meus pares da classe trabalhadora. Estar bem é bom porque não fiz nada errado e posso ajudar de alguma maneira pelo menos as pessoas de minha relação pessoal que precisem de apoio, e também posso ajudar os outros; mas isso me dá um aperto estranho no peito, uma vontade de chorar, algo difícil de explicar. Me sinto mal por ver meus pares sofrendo tanto nos locais de trabalho, ou desempregados, ou contaminados pela ignorância doentia do bolsonarismo. Eu fui dirigente sindical e tentei fazer formação política a vida toda. Onde erramos?

Ao olhar para trás, nem posso me demorar, porque senão corro o risco de voltar a sentir coisas ruins que senti por muito tempo na vida. Vivi o ódio intensamente, vivi o sentimento de morte também. Desde a adolescência, eu sentia um ódio mortal pelos ricos, pela burguesia, pelos lacaios puxa-sacos dos patrões, pelos exploradores das pessoas como eu e meus pares, os pobres, os que não nasceram em berço de ouro, os que não tinham ou viviam de heranças. Se eu não tivesse tido a oportunidade na vida de ter conhecido o movimento social, o estudantil primeiro e principalmente o sindical, eu poderia ser um boçal bolsonarista, violento, preconceituoso, uma pessoa má. Poderia achar que o que consegui na vida foi por "meritocracia", só porque estudei pra cacete e passei num concurso público. Sou grato à vida por ter me tornado uma pessoa melhor após o movimento sindical.

O que comemorar ao viver num mundo onde a ética, o humanismo, o amor, a solidariedade e empatia com o próximo não são valorizados, pelo contrário, tudo o que defendemos de nobre virou quase sentença de morte? Somos desprezados por sermos de esquerda, por defendermos direitos trabalhistas, sociais, direitos humanos! O ser abjeto na cadeira da presidência do Brasil não é somente aquele ser em si mesmo, ele representa um movimento, representa parte expressiva das pessoas que estavam entre nós. O bolsonarismo é um movimento anterior ao Bolsonaro. Alguns familiares, vizinhos de anos de convivência, os colegas do banco, essas pessoas estavam oprimidas pelo "politicamente correto" e não podiam expressar seus ódios aos pretos, aos pobres (mesmo sendo pobres), aos gays, a tudo e todos. A nós!

Pensando bem, não é verdade o que disse acima, que não estou nem triste nem feliz. No fundo no fundo, estou triste. Estamos tristes. Mas como diz o poeta Drummond, chegou um tempo em que não adianta morrer e a vida é uma ordem, a vida sem mistificação.

Está sofrendo quem não se contaminou ainda com essa pandemia bolsonarista (pandemia do mal); está sofrendo quem tem em si amor pelo próximo, sofremos ao ver o que está ocorrendo com os outros (o sofrimento coletivo é devido às decisões políticas das pessoas); está sofrendo quem é humanista, quem tem alguma religião (fé) e não é hipócrita (Deus, Cristo, não tem nada a ver com ódio, armas, matar, cada um por si, que se f... o outro etc); sofre quem se importa com os seres vivos, além de si mesmo.

Enfim, estão tristes pessoas como nós, eu e você que às vezes lê o que escrevo (não acredito que alguém do tipo bolsonarista perca seu tempo lendo minhas reflexões e lamentos sabendo quem sou).

Em relação ao sentimento de gratidão, seria difícil enumerar a gratidão que tenho pelas pessoas que de alguma forma consideram a gente, que se lembram de forma carinhosa ou respeitosa da pessoa que somos, que fomos, e que queremos ser, defendendo um outro tipo de mundo, uma sociedade justa, igualitária, tolerante, com liberdade e distribuição das riquezas humanas para todos. Isso não é utopia, isso é possível, basta educar as pessoas para isso, basta colocar o Estado para atingir esse fim. Nada é impossível para os seres humanos.

Se aquelas causas mais frequentes de mortes não me acharem, e nem essa merda de coronavírus, estarei vivo tentando ser uma pessoa boa, útil para a sociedade humana e para as pessoas próximas também.

Boa sexta-feira a tod@s e fiquem em casa aqueles que puderem. E se cuidem aqueles que por diversos motivos são obrigados a estarem se expondo aos riscos tanto do Covid-19 quanto aos demais riscos do viver numa sociedade hoje contaminada pelo bolsonarismo.

William