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sábado, 18 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (48) - A inspiração em Caeiro, de Wmofox



A INSPIRAÇÃO EM CAEIRO - Wmofox


A necessidade de escrever continua.
É importante buscar a felicidade 
ou mais prazer no existir.
Caeiramente, 
existe o Sol 
e o luar 
e os montes 
e as flores 
e as árvores.

Preciso achar o meu Sol 

e a minha Lua 
e as minhas árvores 
e os meus montes 
e as minhas flores.

Sei que os dele são concretos,

mas os meus podem ser metafóricos.

Meu Sol, que a tudo dá vida,

pode ser as Letras, os livros.
Quem sabe minha Lua 
não seja a música?

Minha família consubstancia

as árvores e suas raízes.
Os montes projetam 
o meu prazer pelo esporte
e pelo silêncio e frescor 
dos cimos altos 
que me apaixonam.

As flores... 

bem, as flores são as flores, 
pois que isso me convém.


Wmofox

08/04/06

---

COMENTÁRIO:

Hoje vou postar outro poema meu.

Durante o dia, trabalhei um pouco a revisão de meus textos no blog. Terminei a coletânea de poemas que publiquei ao longo de quase duas décadas no Refeitório Cultural.

Vou encadernar minha produção poética. São 39 poemas e alguns eu gostei bastante ao relê-los, seguem de meu agrado. 

Sobre o poema "A inspiração em Caeiro", digo que Alberto Caeiro é o heterônimo que mais gosto do poeta Fernando Pessoa. 

Não conheço muito a obra do poeta, mas adoro "O guardador de rebanho", de Caeiro.

É isso! Tenho intenção de seguir lendo poesia.

William


Post Scriptum: soube que faleceu neste sábado o grande jornalista Marco Weissheimer, de câncer. Leio seus textos desde a criação do Portal da Carta Maior no início dos anos dois mil. Aprendi muito com ele. Nossos sentimentos à família e aos amig@s.


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Diário e reflexões (24/01/23)


Já estava com saudades do
céu da minha janela.

Refeição Cultural

Osasco, 24 de janeiro de 2023. Terça-feira, fim de noite.


"Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

(Tabacaria, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)


Por uma semana eu não liguei o notebook para escrever. Até entrei por pouco tempo em páginas de veículos de informação na internet. Também vi um pouco das exposições das pessoas através de suas redes sociais. Enfim, não escrevi nem comentei nada sobre as coisas, mas vi de forma não aprofundada as tragédias sociais de nosso tempo. Que desacorçoo em relação ao ser humano!

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O Brasil

GENOCÍDIO INDÍGENA - Veio a público o genocídio dos povos indígenas no Brasil. Muita gente da sociedade está fazendo cara de espanto e de surpresa... quanta hipocrisia em nossa espécie animal! Era sabido que havia um genocídio dos povos indígenas desde que o genocida e seus financiadores, apoiadores e cúmplices assumiram o poder em 2019. O inominável e seus ministros são responsáveis pelo genocídio do povo yanomami e pela invasão e destruição de dezenas de reservas indígenas de diversas etnias. 

Nos tempos de Hitler e o 3º Reich, a Europa inteira fazia de conta que não sabia do genocídio de judeus, ciganos, pessoas com deficiência, gays, adversários do nazismo e qualquer pessoa que discordasse dos "patriotas" da Alemanha, os poderosos alemães bem armados e com maior capacidade de eliminação de inimigos entre todos os povos da primeira metade do século XX. O ser humano é um animal hipócrita!

CARTÃO CORPORATIVO - E o cartão corporativo da presidência da república na mão do miliciano e sua família e seus financiadores, apoiadores e cúmplices, então? Esse fato, essa verdade, pelo menos o povo não sabia dos detalhes porque estava sob sigilo de 100 (cem) anos. 

Enquanto as crianças e idosos e adultos yanomamis morriam de fome e sede e de contaminação provocada pela mineração dos "parças" do inominável, milhares e milhões de reais do erário público eram gastos em motociatas, picanhas, vibradores, lanches, comidas, regalias diversas do clã, gastos num mesmo endereço e com notas fiscais bem estranhas... E tem gente que não acha nada demais a famiglia comprar dezenas de imóveis em dinheiro vivo... O ser humano é um animal hipócrita!

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Piscina da Colônia do Sinpro SP, no litoral.
O que mudou na paisagem foram esses prédios
que a especulação imobiliária traz a Praia grande.

VIAGEM COM A FAMÍLIA

Nesta semana que passou, estivemos na Colônia do Sinpro SP na Praia Grande (SP). Adoramos aquele lugar simples e tranquilo. Durante a estadia por lá, li o livro Torto arado (2019), de Itamar Vieira Junior. Que romance duro! Que texto bem escrito! Também li um pouco dos textos do cubano José Martí. A leitura do romance de Itamar Vieira era para a aula presencial de hoje do curso "13 livros para compreender o Brasil" no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), mas não deu certo comparecer à aula porque chegamos um pouco além do horário que havíamos programado. Paciência!

É isso! Obrigado presidente Lula por tanta mudança em pouco mais de três semanas de mandato! Sua disposição para ajudar as pessoas e reconstruir o país e as relações com o mundo lá fora é notável! Você nos representa presidente.

NÃO SOU NADA...

Ah, ia me esquecendo...

A citação que abre o diário é porque fiquei pensando algo que já me traz certa inquietação há tempos.

Hoje é Dia do Aposentado. Recebi email de felicitações por parte de nossa Caixa de Previdência, a Previ. Sou beneficiário da nossa Caixa. Mas não sou ainda aposentado pela previdência pública. Gozo o benefício antecipado por ter cumprido as regras conquistadas por nós na luta ao longo da história do funcionalismo do BB. 

Pago contribuição mensalmente à previdência pública para poder gozar do direito à aposentadoria. Já são 33 anos de contribuição. Porém, as reformas que fizeram para que nós da classe trabalhadora nunca mais nos aposentássemos foram bem-sucedidas. Nos fodemos. A gente morre antes, mas não aposenta nunca.

Como diz a música da banda The Verve: "I'm a lucky man". Sou um afortunado, um homem de sorte por ter sido funcionário de um banco público. Todo cidadão brasileiro deveria ter direito a uma previdência. Como poucos têm esse direito, o benefício acaba sendo um privilégio de poucos.

Eu convivo com um incômodo antigo. Não sou professor. Não sou contador. Me formei em Letras e Contábeis, mas nunca atuei nas áreas nas quais estudei. Fui bancário, que é uma ocupação. Minha esposa foi professora a vida toda. Hoje é aposentada. É professora aposentada. Fez por merecer ser reconhecida como uma profissional da educação e ela educou crianças por décadas.

Antes eu era funcionário de um banco público. Não sou mais. Virei beneficiário de previdência privada, mas não sou aposentado... que foda!

Não sou professor, não sou contador, não sou funcionário do BB, não sou aposentado... acho que não sou nada. 

Não sou nada... E mesmo assim, "tenho em mim todos os sonhos do mundo", como diz o poeta.

Parei por hoje.

William


terça-feira, 9 de julho de 2019

090719 - Diário e reflexões - Desassossegado




Refeição Cultural

"Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal." (Livro do desassossego, Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa)


Feriado no Estado de São Paulo. Dia frio e com sol. Na hora do almoço, vou ao Shopping União e fico observando as pessoas passando pra lá e pra cá, enquanto aguardo a chamada da senha da comida. É um povão simples esse de Osasco. Gosto disso! Por esse motivo escolhi Osasco pra viver.

Desde a noite anterior fiquei pensando no presidente Lula. Vi a entrevista dele na TVT. A gente vê esse povão simples no shopping center... a gente sabe que o presidente Lula é apaixonado por esse povo ingrato. (aproveitei para me tornar um parceiro da TVT, esse importante projeto de comunicação popular: seja você também, clique aqui)

Lula reafirmou pela enésima vez que o que o mantém vivo naquela masmorra, preso por um conluio de juízes e procuradores canalhas, e que faz canalha e vigarista todo antipetista e odiador de Lula que apoia e endossa a canalhice, mesmo sabendo que ele é um preso inocente (afinal de contas, ele seria só um "petista" mesmo!). Enfim, apesar disso, Lula vive porque tem o desejo de ajudar esse povo miserável brasileiro.

A gente vê esse povo mestiço, desempregado ou subempregado, e procura encontrar no coração da gente a grandeza do presidente Lula. Não é fácil! Poucas figuras são injustiçadas, maltratadas, incompreendidas e seguem adiante em seus objetivos de melhorar a vida das pessoas pobres e ingratas. Lula e Mandela, pra citar dois presos políticos da história. Marielle Franco e Chico Mendes, pra citar dois líderes populares que não seguiram lutando pelos miseráveis porque foram assassinados pelos donos do poder que eles incomodavam.

Eu fico procurando encontrar um sentido nas coisas. É mais fácil quando você está envolvido em um processo de luta social como ocorre no movimento sindical ou estudantil como estive; este, movimento mais episódico para o estudante, por nos vermos nele enquanto estamos estudando; aquele, movimento mais perene por lidar com o mundo do trabalho ao longo de nossa vida laboral. Ainda temos (teríamos) que lutar para assegurar direitos após a vida laboral, para termos aposentadoria (mas a maior parte dos cidadãos de faixas etárias maiores está fora das atividades de lutas por direitos, infelizmente - sem contar que parte deles ainda apoia os ataques aos direitos, por falta de consciência política).

Amig@s, neste momento, final de noite e início de madrugada de 9 para 10 de julho, um grupo de seres humanos (animais humanos) está reunido no Congresso Nacional para acabar com a previdência pública e com a aposentadoria de dezenas de milhões de brasileiros e é público que foram gastos bilhões de reais para comprar os votos desses desgraçados. A destruição da previdência e das aposentadorias vai assassinar milhões de miseráveis brasileiros. Fará milhões de miseráveis que não seriam miseráveis. 

O povo não reage! As pessoas estão passeando nos shopping centers amortecidas pelas ferramentas de manipulação de massas (gente) e controle de consciências (de gente). Ficamos sem saber o que fazer para alterar a realidade (dessa gente). Tento encontrar a solução em alguma leitura, em alguma fonte de inspiração. Mas parece que não conseguimos organizar a resistência a toda essa destruição. As vítimas estão ao lado dos algozes. As que não estão, estão por aí, estão nem aí.

A gente deveria ler e estudar diariamente, cotidianamente. Deveríamos ler livros e autores que nos libertassem do jugo da manipulação. Pelo menos as pessoas que se colocam nas posições de vanguarda dos movimentos sociais deveriam ler os autores que dedicaram suas vidas para libertar o povo da exploração de meia dúzia de donos de tudo. Mas isso não ocorre no volume necessário - essa é minha impressão.

A gente pega mil coisas pra ler, acaba não seguindo em nenhuma delas. É desespero. A gente escreve, mas só alguns poucos leem. Os inimigos falam para milhões. Milhões! Milhões! A gente fala pra dezenas.

Eu peguei pra ler a entrevista de Marilena Chauí, de 2006 - "A ética Da política" e "Democratização e transparência: a tarefa do PT contra a despolitização e pela construção de uma ética pública", e fiquei tão encantado com cada página de aula dela sobre política, democracia, direitos sociais, papel do Estado, participação social, a prática como critério da verdade na ética da política, foram mais de 60 páginas apaixonantes, para se ler várias vezes e gritar pro mundo. 

Mas que adianta a leitura encantada dos ensinamentos de Chauí? Procurei fazer o que ela ensina em meus mandatos eletivos por quase duas décadas. Foi importante em meu percurso de representação. Passou. Hoje, se eu fizer uma postagem sobre o que li dos ensinamentos dela, serão poucos a lerem a postagem, talvez ninguém vá para a leitura direta do texto de Marilena Chauí. Nossa militância está lutando desorganizada contra os donos do poder. De novo, é a minha impressão.

Ao sair do Shopping União, vejo nessas bancas no meio do caminho, livros por baciada, todos a dez reais. Dez reais! E lá, vejo o livro de Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, de seu heterônimo Bernardo Soares. Dez reais! 10 reais. O preço de uma garrafa de cerveja por aí. 

Se formos pensar no preço das mercadorias, seriam necessários uns 15 livros de Pessoa para trocar por uma camisa amarela da CBF que custa mais ou menos 150 reais. Que equivalência, heim? Estudiosos de semiótica avaliam que a amarelinha virou símbolo do movimento de direita e do fascismo no Brasil pós golpe de 2016...

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"O coração, se pudesse pensar, pararia" (Bernardo Soares, Fragmento I, Livro do Desassossego)
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Apesar de tudo isso, a gente vai continuar procurando formas de contribuir para mudar esse estado de coisas injustas, bárbaras, corruptas, anti-humanas. Não tem outra coisa a fazer enquanto respiramos, enquanto estamos. Como dizia o poeta Antonio Machado, temos que caminhar, mesmo não tendo caminho. 

Eu talvez possa contribuir com algum conhecimento em alguma área que tenha acumulado experiência como, por exemplo, a do movimento organizado dos trabalhadores brasileiros reunidos na comunidade bancária e do banco público Banco do Brasil. Sei lá, quem sabe!

William

domingo, 10 de janeiro de 2016

Poema - A inspiração em Caeiro


A necessidade de escrever continua.
É importante buscar a felicidade
ou mais prazer no existir.
Caeiramente,
existe o Sol
e o luar
e os montes
e as flores
e as árvores.

Preciso achar o meu Sol
e a minha Lua
e as minhas árvores
e os meus montes
e as minhas flores.

Sei que os dele são concretos,
mas os meus podem ser metafóricos.

Meu Sol, que a tudo dá vida,
pode ser as Letras, os livros.
Quem sabe minha Lua
não seja a música?

Minha família consubstancia
as árvores e suas raízes.
Os montes projetam
o meu prazer pelo esporte
e pelo silêncio e frescor
dos cimos altos
que me apaixonam.

As flores...
bem, as flores são as flores,
pois que isso me convém.


Wmofox
08/04/06

domingo, 16 de junho de 2013

Artigo: Cismando sobre os desejos


Refeição Cultural


Fernando Pessoa.
Desejos de leitura

Não tenho escrito muito nestes dias. Sequer tenho conseguido ler como gostaria.

Apesar disso, reli no fim de semana passado o livro Uma abelha na chuva (1953), do português Carlos de Oliveira. Neste fim de semana, também fiquei às voltas com a Literatura Portuguesa. Hoje reli o livro de poemas Mensagem (1934) de Fernando Pessoa.

Ambos pertencem ao programa de uma das últimas matérias que fiz na USP em 2010. Acabei procurando e achando em casa o pacote de fotocópias da matéria e o desejo que me deu foi de pegar todos os textos teóricos e lê-los juntamente com as 5 obras analisadas naquele semestre.

Mas aí quando dou por mim e começo a tomar gosto pela leitura, o fim de semana já se foi e eu não tenho vida civil (vida própria) durante a semana. Só tenho agenda do dirigente sindical.

Minha vida está indo e eu não consigo ler mais nada. E pensar que, se eu morrer a qualquer instante, terei deixado a existência como um grande frustrado porque sei ler, não sou cego, tenho os livros e o acesso a eles e não consigo ler absolutamente nada que desejo e anseio.


Desejos alheios de consumo

Eu fico observando as pessoas ao meu redor e fico chocado e deprimido com o que vejo.

Fico me perguntando do que está valendo a luta que faço diariamente para contrabalançar o sistema capitalista, criador de fetiches da matéria, que está destruindo o único planeta que temos, pelo esgotamento e criação de bugigangas para substituir outras a cada instante.

Filme Wall-E
Como pode um proletário com salário de mil reais, ou menos, comprar um tênis de 650 reais por ser “de marca”? Como pode este mesmo proletário gastar dois mil reais para comprar um aparelho de telefone móvel? A marca de tênis, aliás, é líder mundial em exploração de mão de obra escrava e subcontratação pelo mundo afora. E mais: NÃO adianta eu falar isso para esses proletários! Não adianta!

Vale dizer que existem bons tênis de cem reais. Também existem aparelhos de telefone móvel por cento e poucos reais. Esses proletários trocam de aparelhos eletrônicos enquanto os que tinham ainda funcionariam por muito tempo. Pouco importa o planeta Terra se transformar num planeta lixo inviável à vida - lembram do filme Wall-E (2008)?

Eu não pagaria 650 reais em um tênis mesmo se eu ganhasse 10 mil por mês, simplesmente porque o tênis não vale esse dinheiro.

O que vale a minha ideologia, se o meu exemplo de não consumir coisas “de marca” como a prioridade na compra não funciona sequer com a minha família?

Os jovens viraram baterias para a alienante rede mundial de computadores. Não é só o crack e outras drogas que estão matando o cérebro dos seres humanos. A quantidade de informação inútil também está. E pensar que praticamente já digitalizaram todo o conhecimento humano na rede mundial! Mas os donos do poder sabem que ninguém usa isso.


Desejo de comunicação e a incomunicabilidade contemporânea

Durante milênios, os seres humanos sonharam em poder usufruir da plena liberdade de expressão. No entanto, durante esses mesmos milênios, o direito de comunicação ficou restrito aos donos do poder, porque eles detinham o direito de escolher o que poderia ser comunicado ou não a qualquer receptor que fosse.

Na idade média, o alemão Gutenberg inventou a máquina de impressão. A partir dali, começaria uma revolução na multiplicação dos materiais escritos de comunicação. Mas o direito de imprimir continuou nas mãos dos Estados e dos donos do poder.

Até o século passado (XX), seguia mais ou menos na mesma a questão de quem conseguia acesso a impressão e distribuição dos textos. Aos pobres mortais, só se fosse apadrinhado por alguém dono do poder ou pelo Estado.

Veio então o advento da rede mundial de computadores: a internet.

Hoje, qualquer um teria “em tese” direito a acessar e a distribuir suas produções textuais e seus pensamentos.

Cena do filme Fahrenheit 451
Se antes, livros de ficção como Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, pensavam sociedades distópicas, nas quais era proibido ter livros e ler o que bem se entendesse das produções humanas, hoje não é preciso mais tal tipo de preocupação por parte dos donos do mundo. 

Tudo está disponível e a atenção de praticamente toda a humanidade é pasteurizada em querer as mesmas coisas – a exceção é para aquele bilhão de gente que só tem a preocupação em o que vai comer naquele dia para não morrer de fome.

Hoje, qualquer um tem mais direito de se comunicar. No entanto, não há quase ninguém disposto a ouvir, a prestar atenção em - algo como a diferença entre os verbos ingleses to hear e to listen to. O mundo é burburinho e tuc tuc tuc nos ipods, iphones, tablets, jogos virtuais, facebooks etc... as pessoas, as pessoas são baterias como aquelas do filme Matrix (1999).


Poster de Mad Max (1979).
Desejo finalizar

Finalizo esta refeição cultural indigesta, pensando em mais ficções famosas – filmes e livros –, que parecem, a cada dia, mais próximos de se realizarem.

O mundo está estabelecendo o padrão chinês de mão de obra precarizada: terceirização total sem direito algum. Aqueles que não forem os 5% detentores de todo o poder econômico e político (os Alfas e Betas), serão os subumanos gamas e ipsilones do Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley.

O mundo caminha para vivermos aquele mundo da série de filmes Mad Max (1979 a 1985). E para ficar em um bem atual: O livro de Eli (2010). Lembram da cena em que o
Poster do filme.
personagem reflete sobre o tempo em que as pessoas tinham tudo e não davam valor a nada – tudo era descartável e tinha em abundância. No mundo após a última guerra, se mata por um copinho de plástico descartável...


Chega!

William Mendes

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Crônica: Férias na Praia Grande (SP)


Leitura, cervejinha, ócio...
Colônia Sinpro SP.


REFEIÇÃO CULTURAL - FÉRIAS NA PRAIA GRANDE SP

Passamos seis dias na colônia de férias do Sinpro São Paulo (Sindicato dos Professores) na cidade de Praia Grande - SP.

Sempre que possível, dou um jeito de irmos lá. É um dos poucos lugares em que eu realmente consigo descansar quando viajo e quando não estou no trabalho e militância.

O lugar é simples, bem simples, e isso é o que me agrada. A comidinha é com sabor caseiro, são poucas vagas – no máximo 20 famílias – e a própria região da praia também é organizada.

Já fui a várias praias dessas bem-conceituadas do Nordeste. Famosas e isso e aquilo. Certa vez, escrevi que não havia diferença alguma em estar em uma praia do Nordeste ou do Sul e estar nas praias da região de Praia Grande - SP. Eu reafirmo o que sempre digo.

Foram dias de leitura, corridinhas e caminhadas na praia, cervejinha na piscina, dormir depois do almoço, passeio na feirinha de artesanato, ócio e não fazer nada com hora marcada, jogar conversa fora...

Para descansar, eu não troco passar uns dias na Colônia por nenhum pacote de viagem desses pomposos de trocentos mil reais.

Fui feliz! Pena que acabou!

William

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Em homenagem à Praia Grande dos paulistas, segue o poema de Alberto Caeiro.


"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."

Alberto Caeiro

domingo, 20 de novembro de 2011

A Náusea – Perceber-se a existir (ou só Existir)


Jean-Paul Sartre

A NÁUSEA – PERCEBER-SE A EXISTIR (OU SÓ EXISTIR)

Diálogos entre ideias de Sartre e Fernando Pessoa.
Com a palavra: Antoine Roquentin e Alberto Caeiro

Para tentar entender a obra de Sartre e sua filosofia existencialista, fico buscando relações pertinentes na literatura e nos autores que já conheço para possíveis intertextualidades.
A partir da ideia de Existencialismo e do Existir lembrei-me de Alberto Caeiro e do “Guardador de Rebanhos”.
Creio ser interessante, neste momento, simplesmente deixar os dois falarem entre si e ficar observando o debate de ideias e, vez por outra, expressar algum comentário.

ANTOINE ROQUENTIN (os sublinhados são meus)

“Esse momento foi extraordinário. Estava ali, imóvel e gelado, mergulhado num êxtase horrível. Mas, no próprio âmago desse êxtase, algo de novo acabava de surgir; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não me formulava minhas descobertas. Mas creio que agora me seria fácil colocá-las em palavras. O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreendem isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: este jardim, esta cidade e eu mesmo. Quando ocorre que nos apercebamos disso, sentimos o estômago embrulhado, e tudo se põe a flutuar como outra noite no Rendez-vous des Cheminots: é isso a Náusea (...)”

Fernando Pessoa

ALBERTO CAEIRO (GUARDADOR DE REBANHOS 1911-1912)
V
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados

      [das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.


E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

COMENTÁRIO:
Eu já sou fã de Caeiro há um bom tempo. A maravilha do estudo e da leitura é poder usar da intertextualidade e buscar fazer relações de ideias e concepções de grandes pensadores.
É interessante também a ideia do poeta fingidor. As palavras aqui citadas de Caeiro e de Roquentin não são expressões de sujeitos de carne e osso.
Mas AS PALAVRAS SÃO REAIS, EXISTEM, E COOPTAM PESSOAS QUE SE IDENTIFICAM COM ELAS. Então existem! Além dos volumes literários de Sartre e Pessoa.
Existem em mim, em meu texto que incorpora as palavras e ideias deles – homens e personagens. Estão em mim.

Bibliografia:
PESSOA, Fernando. Poemas Escolhidos. Da série “Ler é aprender” de O Estado de S. Paulo, Editora Klick, 1997.
SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. Círculo do Livro, 1988-89.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Poema VII - Da minha aldeia (Caeiro)



O guardador de rebanhos - Alberto Caeiro 

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para
           [longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos
           [olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


COMENTÁRIO:


Li este poema para os participantes de um de nossos cursos de formação sindical da Contraf-CUT em parceria com o Dieese. Ali me referia a atitude que um militante e dirigente sindical deve ter no olhar do mundo.


Também me referi a outras partes deste poema de Caeiro na casa de meus pais certo fim de semana. Várias coisas pensei estando ali, em relação ao que Caeiro fala sobre a Natureza, sobre Deus, sobre o lugar de onde somos, dentre outras coisas.


Leiam o poema inteiro quem não o conhece ainda. 


É MARAVILHOSO!



Post Scriptum (21/4/16):

Escrevi no perfil facebook em 5/11/11 (dois dias antes desta postagem): 

Momento raro!
Estou em MG curtindo meu paizinho, mãezinha e vovózinha, e minha família distante. Quase não pude vê-los neste semestre de lutas contra os putos dos banqueiros e capitalistas.
Carpe Diem. O momento é agora, depois sabe-se lá...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FLC0383 Literatura Portuguesa IV Bloco I

(aula do professor Helder - uma colega de classe me emprestou as anotações)

MENSAGEM - FERNANDO PESSOA

O livro "Mensagem" de Fernando Pessoa trata de um IDEAL DE NAÇÃO.

Qual seria o diálogo do livro com o projeto colonial português?

A passagem do século XIX para o XX é complicada para Portugal e muitos processos alí ocorridos nos permitem embasar a leitura de Mensagem.

EUROPA: a partir do meio do século XIX começam a surgir movimentos político-sociais. Utopias e ideais revolucionários tomam conta do imaginário popular.

Também é neste século que ocorre a perda da colônia brasileira, prejudicando a indústria portuguesa. A situação econômica do país se agrava sobremaneira.

Em 1880 há comemorações sobre a morte de Camões, na tentativa de revitalizar o espaço cultural português, além de estimular o imaginário do povo.

Este exercício de melhorar a imagem de Portugal perante os portugueses falhou quando a Inglaterra deu o Ultimato Britânico de 1890.

O evento foi uma humilhação para os portugueses.

Em 1908 morre o rei e dois anos depois proclamam a república (uma nação que desde o século XII era uma monarquia). Isso gerou forte impacto no país.

A dúvida interna no momento era de como seria a estrutura dessa república. O período seguinte foi de grande tensão e em 20 anos o país teve 10 presidentes. A economia também ficou prejudicada durante todo esse período.

Na década de 30 começa a ditadura de António de Oliveira Salazar. O modela da ditadura era "republicano" porém só ele ganhava a eleição. A ditadura durou até a Revolução dos Cravos em 1974.

Este é o contexto no qual o livro Mensagem é escrito por Fernando Pessoa.

O Movimento da Renascença criado em Portugal queria salvar a cultura portuguesa. Teixeira de Pascoaes cria o movimento chamado Saudosismo, que é uma filosofia estética. Também é neste contexto que Pessoa escreve seu livro.

O Saudosismo é o traço identitário do percurso da nação portuguesa. Há um vínculo estreito com o passado, de como os portugueses lidam com a própria história.

O período dos descobrimentos é o grande período português e a coletividade via no século XVI a grandeza da nação portuguesa.

O Saudosismo usa esse mecanismo, de olhar para o passado, para recuperar a glória no presente. É uma forma de compensar a realidade caótica vivida pelo país no presente vivido.

CONTEXTO POLÍTICO E ECONÔMICO CAÓTICO + SAUDOSISMO = MENSAGEM

O Saudosismo traz à tona o Mito Sebastianista, que é de certa forma elitista porque apenas D. Sebastião seria capaz de salvar o país, a população receberia a "salvação" e não participaria do processo de salvação.

FERNANDO PESSOA (1888-1935)

- o livro Mensagem é de 1935 (o único livro publicado em vida)
- em 1915 cria a Revista Orpheu
- cria também a Portugal Futurista
- participa da Revista Presença (mais ligada à questão estética)

Sua poesia está muito calcada no simbolismo, tenta criar alguns "ismos", onde predominam o obscuro, o opaco, o não delineado.

Ao deixar no subjetivo os sentidos, você os delimita melhor, pois cada pessoa sente de uma forma particular.

Mito fundador de Lisboa: poema Ulisses, da primeira parte do Mensagem.

Ulisses


O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

O poema se constrói de uma charada, não é muito claro. O poema polissemiza as possibilidades. O poema sugere muitas coisas e não delimita nada.

MENSAGEM
1a parte:
Brasão
-Os campos
-Os castelos
-As quinas
-A coroa
-O timbre

2a parte:
O mar português
(com 12 poemas)

3a parte:
O Encoberto
-Os símbolos
-Os avisos
-Os tempos

A primeira parte, que é sobre o Brasão, conta a história de Portugal até o descobrimento (o que também faz Camões). É algo bem didático. Narra a história até 1510 (viagem até Goa). Os portugueses tomam Goa dos árabes em 1510.

A segunda parte é de Portugal já império marítimo. Traz a ideia da ambiguidade do mar nessa conquista e das dores sofridas e das alegrias trazidas.

A terceira parte é o mito do Encoberto e o futuro de Portugal e o sebastianismo. É a figura que vem, é o caminho para o Quinto Império.

Sebastianismo - Estudos de Literatura Portuguesa


(atualizado em 8/11/15)


Bandeira Portuguesa

FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - Bloco I do programa


- Mensagem - de Fernando Pessoa

- Do sebastianismo ao socialismo - de Joel Serrão

- A nau de Ícaro - de Eduardo Lourenço


JOEL SERRÃO

O sebastianismo - origem e metamorfoses do mito

"É fácil de persuadir ao coração a aquelas coisas que deseja" (D. Francisco Manuel de Melo, Alterações de Évora, 1637)


1. O sebastianismo como objecto de reflexão histórica

Joel Serrão começa o texto enaltecendo alguns autores que muito refletiram acerca do sebastianismo ou messianismo, tão arraigados à ideia de patriotismo português. Cita Oliveira Martins com sua "História de Portugal" de 1879, Sampaio Bruno em "O Encoberto" de 1904 e outros autores do início do século XX.

Certo autor, Antonio Sérgio, afirma que esse fenômeno do sebastianismo teria relação com uma sociologia cultural e que seria fruto de dadas condições bem concretas na história: a iminência da perda da independência nacional e a morte de D. Sebastião (1578).

Diz Antonio Sérgio: “o messianismo terá vida (ou poderá tê-la) enquanto se impuser a este povo, a contrapor à sua fictícia e tão efêmera grandeza, o espetáculo persistente da sua lúgubre decadência”.

Quando chega a virada do século XIX e pelas primeiras décadas do XX, os poetas portugueses remoçam a ideia do sebastianismo. Fernando Pessoa prega confessadamente o “nacionalismo místico, sebastianismo racional”.

Conclusão interessante podemos ver na fala do historiador João Lúcio de Azevedo sobre o sebastianismo: “nascido da dor, nutrindo-se da esperança, é na história o que é na poesia a saudade, uma feição inseparável da alma portuguesa”.

O desfecho de Joel Serrão a esta introdução ao sebastianismo e messianismo nos mostra a importância que ele dá ao tema para a análise da história de Portugal:

Cremos, na verdade, que de poucos problemas como este dependerá, na esfera das motivações ideológicas, a compreensão do nosso presente, assim como a legitimidade ou a inanidade das esperanças postas no porvir de todos nós”.


Viu só a afirmação?!


2. Sobre as origens e as metamorfoses do mito

As origens desses mitos são antigas. Temos como exemplos Nostradamus (1503-66), temos Sto. Isidoro de Sevilha (século VII) e temos o sapateiro de Trancoso, ou seja, Bandarra e suas Trovas (1530-40).

Causas que poderiam ajudar na fixação desses mitos, aqui no caso português: “Simplesmente, as circunstâncias nacionais, a partir dos meados do século – a viragem da estrutura (1545-52), a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir (1578) e a anexação de Portugal por Filipe II (1580) -, soprariam cinzas, não de todo apagadas, em que jazia a esperança mística da revelação do Encoberto. É que o Encoberto seria, afinal, o jovem rei, pretensamente sumido nas plagas marroquinas! Mais ou menos popularizadas, as Trovas, com a sua linguagem de teor anfibológico, adaptavam-se à maravilha aos anseios de todos quantos desejavam travar acontecimentos que, de outra forma, se diriam, logicamente, inelutáveis”.

Depois, as trovas de Bandarra foram dando vazão a outras interpretações. Em 1640, os portugueses associaram a restauração do reino com D. João IV às Trovas de Bandarra.

Para ajudar, o jesuíta P. Antônio Vieira seguiu pregando a ideia messiânica do Quinto Império, que não veio com D. João IV, que morreu antes.

Mas, “E, falecido o rei (1656) sem que o sonho imperial principiasse a tomar corpo, a intermerata dialéctica do jesuíta não se sentiu peada nos seus voos: é que D. João IV ressuscitaria!”.

O profetismo e o messianismo lusitanos de Antônio Vieira assinalam o momento mais alto da metamorfose da crença sebástica que em torno da Restauração se articulou e se desenrolou”.

O Sebastianismo poderia ser uma estratégia que envolveria o populacho na tese da Restauração, de natureza evidentemente aristocrática.

Lá pelo século XVIII, essas teses messiânicas não tiveram muita vez não, pois o poderoso Marquês de Pombal, como esclarecido, não permitia isso.

O que poderia ser o fim do sebastianismo, com a internação em manicômios no século XIX dos sebastianistas remanescentes, acaba não sendo, pois os literatos acabariam por ressuscitar o fenômeno.

Vários autores poetas viriam a modular tons diversos do tema: “Que El-Rei Menino não tarda a surgir”.

Tivemos entre 1912/16 a Renascença Portuguesa, que “buscou, mediante o saudosismo, uma fundamentação poético-religioso-filosofante da lusitanidade republicana”.


Fernando Pessoa seria a própria encarnação de El-Rei regressado à Pátria quando escreve em primeira pessoa do singular quando a D. Sebastião se refere:


Terceira Parte:

O Encoberto

PAX IN EXCELSIS


I. Os Símbolos

D. Sebastião


’Sperai! Caí no areal e na hora adversa

Que Deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa

Em sonhos que são Deus.


Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É O que eu me sonhei que eterno dura,

É Esse que regressarei.



(aulas seguintes...)


3. O sebastianismo, fenômeno sociocultural

4. Em jeito de conclusão provisória

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - "Mensagem" de Fernando Pessoa

Achei muito interessante a informação gratuita disponível no wikipédia sobre o livro Mensagem.

Criação

O título original do livro era Portugal. Influenciado por um amigo, Pessoa considera "Mensagem" um título mais apropriado, pelo nome "Portugal" se encontrar "prostituído" no mais comum dos produtos. Pessoa constrói a palavra "mensagem" a partir da expressão latina: Mens agitat molem, isto é, "A mente move a matéria", frase da história de Eneida, de Virgílio, dita pela personagem Anquises quando explica a Enéias o sistema do Universo. Pessoa não utiliza o sentido original da frase, que denotava a existência de um princípio universal de onde emanavam todos os seres.


Segundo uma carta datada de 13 de Janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Mensagem foi o primeiro livro que o poeta conseguiu completar. Pessoa mesmo explica que esse fato demonstra o porquê de não ter publicado outro livro como a prosa de um de seus heterônimos ou a poesia em seu próprio nome.


Numa carta de 1932 de Pessoa a João Gaspar Simões, seu primeiro biógrafo, vemos que a intenção do poeta era publicar primeiramente a Mensagem para somente mais tarde divulgar outras obras como o Livro do Desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares, e a poesia dos heterônimos.


Foi publicado primeiramente em Dezembro de 1934, com edição da Parceria António Maria Pereira, em Lisboa. A segunda edição, de 1941, possui correções feitas por Pessoa à primeira edição e foi editada pela Agência Geral das Colônias.


Um mês após a sua primeira publicação, ganhou o prêmio na segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) que o premiou com o mesmo valor em dinheiro da primeira categoria.


MENSAGEM

Primeira Parte:
Brasão


BELLUM SINE BELLO

I. Os Campos

O dos Castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.


O das Quinas

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.

II. Os Castelos

Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.


Viriato

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.


O Conde D. Henrique

Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
“Que farei eu com esta espada?”

Ergueste-a, e fez-se.


D. Tareja

As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!

Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!

Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.

Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!


D. Afonso Henriques

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!


D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.


D. João, o Primeiro

O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.

Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.


D. Filipa de Lencastre

Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!


III. As Quinas

D. Duarte, Rei de Portugal

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.

D. Fernando, Infante de Portugal

Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.


D. Pedro, Regente de Portugal

Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —

Não me podia a Sorte dar guarida
Por eu não ser dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo mais é com Deus!


D. João, Infante de Portugal

Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.


D. Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


IV. A Coroa

Nun’Álvares Pereira

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

’Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!


V. O Timbre

A cabeça do grifo:
O infante D. Henrique

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

Uma asa do grifo:
D. João, O Segundo

Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.

Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.


A outra asa do grifo:
Afonso de Albuquerque

De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.


(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/

FLC0383 - Literatura Portuguesa IV - "Mensagem" de Fernando Pessoa

Esta explicação gratuita da Wikipédia é muito boa. Sou admirador da ideia What I Know Is... (é o que tento fazer neste blog de refeições culturais)


Estrutura


Trata-se de um livro que revisita e, em boa parte, cria, uma mitologia do passado heróico de Portugal, repleta de símbolos, sebastianista, e que foi depois em grande parte incorporada na ideologia oficial da ditadura Salazarista.


Está dividido em três partes, com uma nota preliminar antecedendo-as. Todas elas, incluindo a nota preliminar, possuem epígrafes em latim.

A primeira, Brasão, utiliza os diversos componentes das armas de Portugal para revisitar algumas personagens da história do país.

A segunda, Mar Português, debruça-se sobre a época das grandes navegações, batendo à porta de figuras como o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, mas não se limitando a elas.

A terceira, O Encoberto, é a parte mais marcadamente simbólica e sebastianista, voltando, ainda a falar de outras figuras da história de Portugal. O termo "O Encoberto" é uma designação ao antigo rei de Portugal D. Sebastião I, o que demonstra sebastianismo. Sendo também uma desintegração, mas também toda ela é cheia de avisos, fortes pressentimentos, de forças latentes prestes a virem à luz: depois da noite e tormenta, vem a calma e a ante-manhã (estes são os tempos).


Estes 44 poemas agrupados em 3 partes, representam as três etapas do Império Português: nascimento, realização e morte, seguida de um renascimento.

Brasão - informações sobre a formação da nacionalidade, heróis lendários e históricos.

Mar Português - descobertas, aventura marítima, conquista do império, (Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce: Tudo vale a pena quando a alma não é pequena) ânsia do desconhecido e esforço heróico da luta com o mar.

O Encoberto - morte das energias de Portugal simbolizada pelo nevoeiro. Afirmação do Sebastianismo. País na estagnação à espera do ressurgir, do aparecer da Nova Luz (Quinto Império).


MENSAGEM

Segunda Parte:

Mar Português

POSSESSIO MARIS

I. O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,


E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!


II. Horizonte

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
’Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.


III. Padrão

O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.


IV. O mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”


V. Epitáfio de Bartolomeu Dias

Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.


VI. Os Colombos

Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.


VII. Ocidente

Com duas mãos — o Acto e o Destino —
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.


VIII. Fernão de Magalhães

No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.


IX. Ascensão de Vasco da Gama

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.


X. Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


XI. A Última Nau

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.

Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ’spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.

Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.


XII. Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!


(O texto está muito bem apresentado no endereço abaixo)
Fonte: http://www.pessoa-mensagem.blogspot.com/