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sábado, 6 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de julho de 2024. Sábado.


GUERRA CIVIL ESPANHOLA - PRELÚDIO DA TRAGÉDIA

Estou me dedicando a conhecer os materiais de conhecimentos gerais que acumulei ao longo da vida e para os quais nunca pude me dedicar integralmente, ou seja, ler as dezenas de livros, ver as coleções de mídias, ler recortes e materiais impressos sobre temas variados que guardei durante os dias de venda de minha força de trabalho.

A Coleção História Viva com doze DVDs é extraordinária! Hoje assisti ao 4º episódio dessa série "Grandes dias do século XX". Esse documentário sobre a Guerra Civil Espanhola eu já havia visto antes. Revendo ele agora fico mais admirado ainda em relação à primeira vez. 

Uma característica da época contribuiu muito para poder ver os eventos que mudaram o mundo como nós o conhecíamos durante séculos: havia uma estética dos movimentos da primeira metade do século XX e muita coisa foi filmada. Os filmes, as imagens e sons, foram amplamente usados como meios de manipulação de massas.

Repito o que disse nas postagens anteriores: as imagens de época, das batalhas e dos combatentes, são impressionantes.

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Sinopse:

Em fevereiro de 1936, a Frente Popular, uma coalização de esquerda, ganha as eleições na Espanha. A oposição conservadora se organiza em torno da Falange, graças ao ímpeto do jovem Primo de Rivera. Em 18 de julho daquele mesmo ano, o general Francisco Franco lidera um levante militar que lança o país em uma sangrenta guerra civil. A Espanha fica dividida por três anos. As democracias ocidentais permanecem passivas, mas os nazistas alemães e os fascistas italianos apoiam Franco incondicionalmente, em um ensaio do que viria a ser a Segunda Guerra Mundial.

O episódio se divide nos seguintes capítulos: "A destruição da Espanha", "No pasarán!", "A nova Espanha" e "Espanha como exemplo".

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BOMBARDEAR CIDADES E MATAR CIVIS, A NOVA FORMA DE GUERRA

Num determinado momento da guerra civil, após os nacionalistas conquistarem praticamente todo o território espanhol, o general Franco decide que vai bombardear a cidade de Madri, e que se danem os civis que morrerão lá. 

Antes, os aviões alemães nazistas haviam bombardeado a cidade de Guernica. A Espanha serviu de experimento para o novo formato de guerra que passaria a vigorar dali adiante: guerras que fariam mais vítimas civis que militares. É assim até hoje. Vejam o que os sionistas do Estado de Israel estão fazendo com os palestinos na Faixa de Gaza.

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AS NARRATIVAS E INVENÇÕES PARA JUSTIFICAR A ELIMINAÇÃO DO OUTRO

Na Espanha dos anos trinta, tínhamos de um lado os nacionalistas, que eram os monarquistas, os carlistas e os falangistas e o apoio da igreja católica e do outro o governo eleito, os republicanos. Do lado dos republicanos, durante o conflito, tínhamos socialistas, comunistas, anarquistas e os republicanos mesmo, e as brigadas internacionais, já durante a guerra.

A narrativa ideológica do lado dos nacionalistas era um discurso que resgatava as cruzadas da idade média, quando os cristãos expulsaram os mouros infiéis do país. Nos anos trinta, igreja, burguesia e militares se juntaram para combater os infiéis comunistas, rebeldes ateus republicanos.

O ÓDIO era o principal combustível para todos os grupos que se digladiavam, ódio e intolerância, o ódio como catalisador das violências extremadas que levaram o povo espanhol a se matar uns aos outros.

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LIÇÕES QUE NÃO APRENDEMOS COM A HISTÓRIA

Sempre que estudo a Guerra Civil Espanhola fico com os neurônios em choque, com cargas elétricas indo e voltando e o cérebro quase pegando fogo. Não aprendemos nada com a história.

O mesmo ódio que foi instrumento daqueles dias que abalaram o mundo é o ódio que serve hoje de ferramenta para unir toda a direita e extrema-direita, conservadores e reacionários, os capitalistas e manipuladores da fé alheia, os donos dos meios de comunicação de massa - essa gente toda - contra nós, os "comunistas", os "infiéis", os lulistas e ou petistas, a esquerda toda dividida (como sempre) e cancelando uns aos outros por divergências de táticas e estratégias e até de objetivos como se digladiaram na Espanha dos anos trinta republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas. No final, venceu o autoritarismo nazifascista, que une o capital, o exército e a igreja. Lá, foram 40 anos de franquismo...

É ou não é foda?

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El Alcázar, foto de William Mendes.

EL ALCÁZAR, EM TOLEDO

Estive na Espanha em 2009, fui a trabalho. Por uma semana, conheci pontos turísticos e históricos em Madri. Um dos locais que visitei e que me impressionaram muito foi a cidade de Toledo. 

A fortaleza El Alcázar foi palco de uma luta violenta entre republicanos e nacionalistas. Quando vi aquela maravilha arquitetônica, eu não tinha ideia que ela havia sido cenário de batalha na guerra. Para ler mais a respeito, clique aqui.

Outro momento ímpar em minha vida, foi estar diante do quadro Guernica, de Pablo Picasso, no Museu Reina Sofia. Foi uma catarse.

Sigamos estudando e compartilhando os conhecimentos.

William


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

071221 - Diário e reflexões


Essa lindeza é nada para o capitalismo...
Enquanto meu lado fala em diálogo,
as árvores vão caindo e queimando.

Refeição Cultural

Osasco, 7 de dezembro do ano 2021.


Último mês do ano. Não é o último mês da crise política que vivemos no Brasil. Pior, não é um mês com sinais claros de mudanças políticas no horizonte. O povo brasileiro vai entrar no "ano novo" de 2022 com o ritmo dos anos medievais que temos vivido desde o golpe de Estado em 2016. Na minha leitura, seguimos em 2016, 2016, 2016... 

A pauta da pós-verdade da mídia hegemônica segue... Lava Jato perdeu fôlego pra Farsa a Jato, mas agora o assunto é 3ª via a Bolsonaro e Lula. E o nojo de ter que ver aquele canalha do Moro desfilando pelo P.I.G. com a invenção do combate à "Corrupção". Corrupto desgraçado, lesa-pátria que vendeu o Brasil por 30 moedas ao imperialismo. Lixo!

Mas e o Lula? Não nos dá esperanças de mudanças? Mas e as vacinas? Não nos dão esperanças de fim da pandemia mundial? Fiquei olhando pela janela uns minutos para pensar em mais algum ponto positivo em relação à sociedade e não me veio nada na cabeça. 

Lula e a vacina contra Covid-19. É muito pouco se pensarmos no viés de fim de mundo que estamos enfrentando. Com todo respeito ao querido companheiro Lula e às vacinas contra Covid-19, aplicadas somente numa parte dos humanos do mundo, os de países ricos e intermediários... essas duas coisas boas da humanidade não resolvem.

O homem é mortal. Lula é um homem. Lula é mortal. A vacina é uma medida de combate ao vírus. A vacina funciona se houver imunidade de rebanho. Imunidade de rebanho ocorre quando a maior parte das pessoas estão vacinadas. A maior parte das pessoas estão nos países pobres sem vacina. E ainda temos o negacionismo da pós-verdade e da ignorância incentivada.

Então... difícil, né...

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A fome é uma realidade de centenas de milhões de pessoas no mundo. Há tecnologia humana para que ninguém tenha fome no mundo. No capitalismo, a produção de alimentos não é para saciar a fome das pessoas, é para gerar lucro para os produtores capitalistas. No capitalismo, alimento é mercadoria, não é alimento.

O capitalismo está numa guerra contra a natureza do planeta, numa guerra contra os seres vivos, numa guerra contra a vida humana. Alguns humanos se beneficiam do capitalismo. Esses poucos humanos estão se cagando para o restante dos seres humanos. Por que que o restante dos seres humanos não se livra dos poucos capitalistas?

Aqui no Brasil o que vejo é 2016 seguindo em 2022, 2023... Nossa ignorância é material, somos medievais desde a idade média. Bolsonaro e Moro e essa gente mestiça que se acha classe média é algo material, é um material dos cinco séculos de escravidão, de exploração, de cada um por si pra sobreviver.

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O que posso fazer no atual contexto em que me encontro para mudar o mundo? Não consigo viver em paz com a consciência que tenho das injustiças do mundo ao meu redor.

Se tivesse me tornado um educador, talvez me sentisse melhor. Me esforcei ao máximo para exercer dignamente e combativamente o meu papel enquanto dirigente da classe trabalhadora. Espero ter sido útil à luta de classes. Entendo que exerci meus mandatos plenamente, plenamente! Acredito que enfrentei esses capitalistas desgraçados, da maneira que me foi possível.

Hoje, não acredito mais na possibilidade de a democracia vigorar neste mundo capitalista. Não haverá democracia enquanto houver burguesia, enquanto houver capitalismo. Capitalismo é força, é destruição e morte. Não se combate o capitalismo e os capitalistas com conversa.

Estou procurando respostas pessoais e coletivas, como fiz quase a vida toda. Não estou desesperado. Tenho consciência a respeito de algumas coisas e isso é bom. Não estaria melhor se fosse alienado. Isso já é um consolo.

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Sei, por exemplo, que somos vulneráveis, somos rastreados, somos nada para os sistemas do capitalismo que nos transformaram em commodities, em mercadoria. Fico estupefato ao observar a crença de meus pares do movimento de esquerda nas instituições burguesas nesta fase do capitalismo em que estamos. Fico chocado. Eles acreditam em soluções através de processos de paz, sem enfrentamento e sem destruição de nada do sistema dominante. Acho que é um misto de inocência com autoengano, a realidade é dura demais para acreditar nela. O 1% dominou o mundo, as tecnologias que a humanidade inventou, todos os meios e os Estados, dominou a força armada dos Estados e o meu lado da classe ainda acredita em mudar a realidade através do diálogo, através dos processos limpinhos da "democracia liberal". É como se não houvesse lawfare, como se eles não nos matassem como se matam árvores e animais indefesos... 

Deu por hoje.

William


sábado, 6 de maio de 2017

Guernica, ontem e hoje...


Tive o privilégio de conhecer "Guernica", de Pablo Picasso,
no Museu Reina Sofia, em 2009. Silêncio, emoção e arrepios,
é o que posso dizer da experiência de conhecer essa obra.

Comentário do Blog

Olá prezad@s leitores amig@s, o texto de Saul Leblon, que compartilho no Blog, é um resgate histórico sobre as consequências do movimento fascista na primeira metade do século XX. Ele também nos faz refletir sobre a volta do movimento fascista em nossos tempos, aqui no Brasil e no mundo.

É uma tristeza o que temos visto em nosso País após a abertura da Caixa de Pandora por parte do grupo golpista que pôs fim à jovem democracia brasileira e interrompeu os avanços históricos que vinham sendo conquistados pelo povo trabalhador e mais necessitado do papel do Estado nacional.

A imprensa comercial brasileira, canalha e vil, toda ela cartelizada e em propriedade cruzada por meia-dúzia de empresários há dezenas de anos, transformou o caráter e a moral do povo brasileiro, covardemente manipulado e feito massa de manobra em um mundo hegemonizado por meios de comunicação e mundos virtuais.

Após ler há poucas semanas a impactante obra de Hemingway "Adeus às armas" (1929), estória que se passa no cenário da 1ª Guerra Mundial, momento histórico que potencializou a ascensão do nazifascismo, senti uma necessidade no momento histórico que vivemos de pegar imediatamente "Por quem os sinos dobram" (1940), outra obra de Hemingway que marcou época e retrata a Guerra Civil Espanhola e a vitória do fascismo na Espanha.

Já consegui ler 80 páginas do grosso volume, e já parei várias vezes para refletir sobre frases do livro de Hemingway. Guerra civil é matança de irmãos contra irmãos. A direita fascista brasileira, que arquitetou o golpe à democracia, que incitou o ódio e incita a violência no povo brasileiro, já faz publicações insinuando que as vítimas que a mídia persegue deveriam ser agredidas verbal ou fisicamente, flertando seriamente com a ideia de linchamento. 

Nesta semana, o jornal Correio Braziliense (PIG) publicou endereço e dados pessoais de um cidadão brasileiro, José Dirceu, que foi covardemente ameaçado por uma massa de gente insana na garagem de sua residência. Se não fosse a polícia intervir, poderia ter ocorrido uma tragédia a ele, esposa e filha de seis anos. Em um dos ataques a Lula por parte da Revista Veja, da Editora Abril dos Civita (que já persegue Lula há muitos anos), foi feita uma capa colocando lado a lado Lula e Muammar Al-Gadaffi, que havia sido linchado em conflito que virou uma guerra civil (qual a mensagem ali?).

Quem vai parar os abusos desses donos de jornais, revistas e meios públicos de comunicação, como TVs e rádios? Vejam o nível dos ataques fascistas que os donos da Globo estão praticando contra o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, de forma absurda, numa tentativa de destruir o líder popular mais respeitado no mundo atual e evitar qualquer saída democrática do golpe perpetrado em nosso País por essa família Marinho, seus pares e asseclas.

Enfim, Guernica foi uma experiência inaugural do que viria depois na Europa com a ascensão do nazifascismo.

William


(texto do site Carta Maior, de 25/4/17)

À greve, para evitar uma 'Guernica' brasileira


Há 80 anos o fascismo destruía Guernica para revogar avanços sociais e O Globo endossava a fúria mentindo, como hoje


por: Saul Leblon


Um registro curto mas claro incluído no especial do Valor Econômico sobre os 80 anos do bombardeio de Guernica, em 26 de abril de 1937, revela que o jornal O Globo manipulou o noticiário da crise espanhola à época, naquela que foi a primeira operação aérea massiva da história contra uma população civil.

A barbárie fascista dissimulada pelo jornalismo da família Marinho – da qual não há registro de pedido de desculpa até hoje—imortalizou-se na arte de Picasso em um monumental grito de horror de sete metros de comprimento por três de altura.

Em óleo sobre tela o pintor deu universalidade a uma das mais torturantes sensações do martírio humano.

Aquela que despenca sobre a existência de homens e mulheres indefesos abalroados pelas grandes massas de forças que dominam a história de uma época.

Expressas em artefatos bélicos ou artefatos econômicos essas colisões implodem as referências do cotidiano num vácuo de destruição, perda, perplexidade, prostração e descrença.

Durante dias sucessivos ao massacre de Guernica o Globo flanou nesse vácuo e o alimentou.

Com a sua especialidade.

As manchetes do jornal sobre a responsabilidade pela tragédia, que passaria à história como um preâmbulo do que ocorreria depois em Auschwitz, primeiro levantariam dúvidas sobre a autoria.

Depois tornar-se-iam categóricas.

Todo o esforço do martelete conservador destinava-se a convencer a opinião pública brasileira de que a responsabilidade pelas 50 toneladas de explosivos despejados contra a comunidade basca pela Legião Condor, da força aérea nazista - aliada do golpismo espanhol -, seria dos ‘vermelhos’.

Sim, os ‘vermelhos’, dizia o Globo em manchete. Os ‘lulopetistas’ da época.

Assim denominados os socialistas, os anarquistas, os comunistas, os trotsquistas, os democratas, os cristãos progressistas...

‘Vermelhos’.

Culpados, segundo o jornal, pelo experimento nazista que testou em Guernica todo o arsenal destrutivo desenvolvido pela máquina de guerra aérea de Hitler, já de olho em alvos mais abrangentes.

‘Os vermelhos’, insistiria a ardilosa máquina de camuflagem de guerra.

Não a sublevação da extrema direita contra a República dos Trabalhadores, que vencera o pleito legislativo de 1936 --a exemplo do que já ocorrera em 1931, mas cuja repto não seria reconhecido pela elite do dinheiro e do poder.

Essa que partiu para o cerco e o golpe contra o mandato das urnas até desembocar no divisor de águas de Guernica.

Lembra algo?

Sim.

E o escárnio jornalístico, ainda que não apenas ele, também.

O conjunto enlaça a fúria da cavalgada fascista do mundo de 1937 às horas decisivas de 2017 vividas no Brasil.

Infelizmente neste caso a seta do tempo não se quebrou.

O martelete da propaganda agigantou-se.

Hoje opera uma máquina de jornalismo de guerra de dimensões inimagináveis há 80 anos.

O alvo agora são 200 milhões de ‘bascos’ submetidos a uma lavagem diuturna para convence-los de que a sede não deve ser saciada com água.

Prescreve-se ao contrário vinte anos de privação.

O austericídio e o politicídio - destinado este a desintegrar o Partido dos Trabalhadores -, são ogivas siamesas do mesmo bombardeio.

Compõem uma fogueira destinada a inocular prostração, desmoralização e descrédito na democracia e na sua capacidade de comandar o desenvolvimento, de modo a reduzir a sociedade a uma ‘guernica’ de joelhos diante do diktat dos mercados.

Sobretudo, porém, trata-se de camuflar a responsabilidade conservadora pela enorme bola de fogo de desmonte e destruição que envolve toda a estrutura produtiva brasileira nesse momento.

O rescaldo de um ano sob o maçarico golpista compõe uma fornalha de recursos e esperança só mitigada por quantidades industriais de cinismo midiático.

O Brasil é hoje um vasto cemitério de obras paradas (R$ 55 bilhões), fábricas fechadas, ferrugem encastoada em projetos estratégicos e um estuário de desemprego fluvial feito de 13 milhões de sobras humanas.

Na versão espanhola, em 1937, foram quatro horas de ataques aéreos sucessivos, com intervalos aleatórios para a troca do repertório que o engenho nazista queria testar contra alvos vivos e adensados.

Os seis mil habitantes da cidadela basca que na versão do Globo teriam se autoimolado.

Guernica estava no meio do caminho da sublevação do general de Exército Francisco Franco.

Devasta-la para atingir Bilbao tornara-se crucial para compensar o fracasso da tentativa anterior de tomar o poder central republicano em Madri.

A operação genocida irmanou duas conveniências.

Ambas impulsionadas pelo ódio à democracia social das frente amplas, vitoriosas em duas das três eleições legislativas realizadas na Espanha depois que a crise obrigou a monarquia a ceder espaço à república e ao voto popular.

O republicanismo progressista espanhol assustava os donos de um mundo dividido entre a depressão de 29 e o desconhecido.

A elite, o alto clero e o Exército espanhol não aceitaram a continuidade da experiência republicana autorizada pelas urnas de 1936 por diferença mínima de votos contra a Falange direitista.

Pronunciamentos golpistas sucederam-se em diferentes pontos do país na forma de um jogral conhecido.

Conflitos irromperiam em seguida em escalada de violência, com anarquistas e socialistas já enfrentando o levante fascista no campo das armas.

Não, não é Caracas. É da experiência republicana espanhola que se fala aqui.

Guernica abrigara ‘vermelhos’ foragidos de um desses embates com tropas sublevadas.

A tocha de fogo na qual se transformou 80% do seu perímetro urbano pavimentaria o caminho da guerra civil que iria sangrar a Espanha durante três anos.

Era um preâmbulo do que viria depois em todo o mundo.

As vísceras do século XX estavam explicitadas ali opondo dois projetos de futuro.

O jornal O Globo se pôs a serviço de um deles, exercitando aquilo que sabe fazer melhor: manipular o discernimento da sociedade diante das escolhas decisivas da história.

A demonização dos ‘vermelhos’ é o esperanto dessa operação.

De jornalismo de guerra.

Em 1937, a mensagem escrita com ferro, fogo e sangue alertava para o embate cruento entre o anseio popular por democracia social e a resposta da interdição emitida pelos detentores da riqueza e da alma de um mundo que não cabia mais nos limites ditados por seus donos.

O primeiro ensaio de um governo progressista espanhol para ampliar esses limites havia durado pouco (1931 a 1933).

Mas o suficiente para assustar as elites pelo que falava ao corpo e ao imaginário das grandes massas populares.

Seu apelo reformista e anticlerical – a igreja espanhola era uma extensão do poder do dinheiro— descortinara possibilidades de uma outra sociedade mesmo sem efetivá-la.

Havia forte demanda por ela no ar.

Os acenos republicanos na Espanha traziam um pedaço da oferta.

Instituiu-se – insista-se, na Espanha em 1931 - o casamento civil, o divórcio e o voto feminino.

Os aluguéis foram congelados. Os salários reajustados.

A educação pública tornou-se o espaço laico destinado a propiciar às crianças um mesmo ponto de partida igual para todos.

Os latifúndios tiveram sua extensão limitada.

As terras da igreja foram circunscritas.

Iniciou-se uma reforma agrária - cuja timidez, porém, desencadearia conflitos internos que enfraqueceriam a frente progressista e contribuiriam para sua derrota nas eleições seguintes, em 1933.

Mas não só.

A lufada de ar fresco atingiu em cheio o nó górdio que rege o poder na sociedade: as relações de trabalho.

Aquilo que Vargas faria no Brasil 12 anos depois, em 1943 – e que o golpe agora se dedica a desmontar em 2017 - a República espanhola anunciaria pioneiramente em 1931.

A República dos Trabalhadores, assim autodenominada, decretou uma espécie de CLT que estendia às famílias assalariadas a jornada de oito horas de trabalho, férias remuneradas, direito à aposentadoria, sindicalização, licença maternidade etc.

A profusão das mudanças congestionadas na sabotagem conservadora, ademais das divergências no governo, desgastaria o poder republicano.

A derrota eleitoral para um diretório de forças conservadoras (CEDA) em 1933 jogaria a população espanhola em um liquidificador de regressão política e social de virulência equivalente à vivida hoje no Brasil.

A restauração agiu commeilfaut.

Como agem os batalhões com prazo de validade para operar o serviço sujo.

A mesma sofreguidão desavergonhada, a mesma sensação de um exército de ocupação a saquear direitos e patrimônio - como as escórias parlamentares em assembleia permanente contra o povo.

O efeito pedagógico do desmonte acendeu o discernimento popular.

Em 1936, o conservadorismo seria derrotado nas urnas por uma frente progressista maior que a de 1931.

Deu-se então a escalada golpista.

O que a elite imaginava ser uma blitzkrieg, dada a supremacia de meios e recursos - do judiciário ao exército, passando pelo dinheiro, a igreja e a imprensa — bateu de frente com a consciência popular agigantada pela curta mas intensa experiência republicana.

Franco não venceria, como venceu em 1939, não fosse o apoio decidido de Hitler e Mussolini ao golpe na forma de aviões, bombas e tropas.

Além do ‘experimento’ em Guernica, Berlim enviou 19 mil soldados para apoiar a sublevação, enquanto governos democratas da Inglaterra e França se abstiveram de uma solidariedade efetiva à legalidade.

A inferioridade republicana só não foi maior graças à mobilização das brigadas internacionais.

Elas trariam dezenas de milhares de voluntários de todo o mundo para a trincheira libertária e socialista, a maioria porém inexperiente a compor uma resistência militarmente dispersa e politicamente fragmentada.

O conflito civil especialmente doloroso abriria os olhos do mundo para a encruzilhada da história em meio à desordem capitalista para a qual os mercados só tinham – como hoje - um remédio a oferecer.

Esse que o golpe despeja agora no Brasil na forma de um bombardeio de artefatos de arrocho, desemprego, desmonte e alienação econômica, que ameaça desintegrar o futuro nacional em uma imensa ‘guernica’ de fogo.

A destruição do povoado basco explicitou o teor explosivo desse acerto de contas entre as possibilidades da democracia social e do planejamento público, de um lado, e o fascismo de outro.

Muitos dos que ainda teimavam em não enxergar a gravidade da escalada viram nas labaredas de Guernica o potencial destrutivo que a desordem simbolizada na quebra de 1929, nos EUA, encerrava.

A incapacidade dos mercados para superar impasses geopolíticos e financeiros que se arrastavam desde a Primeira Guerra tornara-se uma ameaça à humanidade.

A desordem clamava por uma nova ordem.

As demandas por pão, terra, teto, trabalho, dignidade e poder popular ecoavam sua pertinência em um outro projeto de futuro acenado pela arrebatadora vitória socialista na revolução de 1917 na União Soviética.

As escolhas e suas consequências ganhavam transparência nas esquinas do mundo.

O poder de esclarecimento dos fatos se infiltrava no imaginário das nações.

À revelia do dinheiro e dos seus veículos de propaganda jornalística.

A democracia se tornava perigosa para as classes proprietárias.

Foi nesse divisor que a fábrica de manipulação do Globo reagiu à altura no Brasil.

Como Franco fez na Espanha.

Ambos atribuíram o crime à vítima: Guernica fora uma perversidade do sionismo comunista, acusava o generalíssimo.

A resposta definitiva de Picasso não se limitou à pintura.

Indagado por um oficial nazista em Paris se fora o autor de ‘Guernica’, fuzilou: ‘Não, foram vocês’.

A roda-gigante da manipulação, das interdições e sacrifícios atingira um ponto de saturação em que o efeito adicional de cada linha a mais de cinismo é o descrédito.

Estamos falando de 1937 na Espanha...

O que avultava era o mesmo anseio hoje órfão de respostas no Brasil.

Por novos espaços de futuro; pelo direito de escolher e experimentar novas formas de se viver – indissociáveis da renovação em modos sustentáveis de se produzir; por uma repactuação generosa capaz de resgatar a sociedade da areia movediça da polarização imobilizante, da qual não se escapa facilmente depois da imersão...

A guerra civil espanhola durou três anos; o poder franquista estendeu-se por quase quarenta anos.

Pegou carona na escalada nazista e sobreviveu a ela, como um tampão imprescindível à tarefa de asfixiar a respiração libertária que só agora com o Podemos volta a injetar ar fresco ao pulmão político espanhol.

Derrotar uma experiência social não esgotada por meio da repressão, da judicialização, da mentira, da guerra e das bombas não significa vence-la, mas interdita-la.

A diferença ajuda a entender a longeva manutenção da salmoura repressiva na sociedade espanhola, da qual só se libertaria quase quatro décadas depois da guerra civil, a partir da morte de Franco, em 1975.

A estreiteza da opção fascista esclarece boa parte do longo eclipse armado.

Mas não esclarece tudo.

As divisões passionais no campo republicano entre socialistas, democratas, anarquistas, comunistas e trotsquistas – que espelhavam divergências internacionais naquela bifurcação entre duas guerras, uma revolução socialista e uma crise sistêmica do capitalismo - dificultariam sobremaneira a construção das linhas de passagem imprescindíveis entre o presente de uma sociedade cindida e o futuro promissor acenado pelo projeto progressista.

Esse emparedamento do conflito empurrou a solução para o campo das armas, onde a direita tinha maior capacidade de arregimentação bélica, como mostrou a tragédia de Guernica.

Erguer pontes para trazer um pedaço da classe média e do PIB para fora do golpe é o desafio correlato que as forças progressistas enfrentam hoje no Brasil.

Não é um desafio a ser enfrentado no veludo da retórica.

Trata-se de uma capacitação de força e consentimento a ser sedimentada nas ruas.

Mas em torno de uma proposta de repactuação do país e do seu desenvolvimento.

A direita, o ódio elitista, o preconceito belicista contra as demandas populares jamais sentará à mesa de negociação se não for conduzida a isso pela mudança na correlação de forças e no imaginário da sociedade.

Seu projeto é a longa salmoura franquista expressa no Brasil na suspensão da Carta de 1988 por vinte anos.

Colocada diante desse esbulho, segundo o qual os desafios do desenvolvimento se tornam insolúveis na vigência da justiça social, a sociedade se reduz a um objeto inerte, um estorvo do mercado.

O regime autoritário se impõe por dedução.

Para desarmar essa bola de fogo o campo progressista não pode ceder no essencial.

A pedra angular da travessia consiste em saltar o deserto conservador com o impulso da ousadia e da criatividade que fizeram a bandeira republicana espanhola, de fato, ser vista como a porta para um novo futuro.

Um futuro no qual caiba um modo de vida urbano renovado, com arquitetura singular para a solução dos problemas habitacionais e de mobilidade, mas também de integração e segurança.

Um futuro no qual o repto de soberania no Pré-sal configure uma ‘opção norueguesa’ de uso sagrado dos recursos num pacto de futuro sustentável e justo para a infância brasileira de hoje e de amanhã.

Um futuro no qual salvar os rios urbanos e preservar os demais, por exemplo, seja uma aposta coletiva na regeneração do convívio humano com a natureza, impulsionando os requisitos intrínsecos a essa interação.

Um futuro no qual a educação de qualidade para todos seja a nova catedral da cidadania.

Um futuro no qual a prática da democracia na solução das divergências – inevitáveis — se intensifique em sintonia com as oportunidades de comunicação e escuta forte inscritas na tecnologia digital.

Um futuro no qual o eixo principal de consenso seja fazer do Brasil uma referência mundial de inovação em políticas públicas, na cooperação para o desenvolvimento convergente de todos os povos.

É essa ocupação desassombrada da rua pela ousadia, e do imaginário pela possibilidade de um outro futuro, que poderá abortar a longa noite conservadora determinada a encapsular a nação em uma guernica de recessão e desencanto - com o país, com a política e com a vida.

Há uma pedra no meio do caminho.

A repactuação de um futuro amplo entre visões distintas do presente requer a largueza generosa de princípios e horizontes.

Esse sempre foi um apanágio dos libertários, dos socialistas, dos comunistas, dos cristãos progressistas, dos democratas e liberais sinceros.

Da república de todos, enfim.

Acolhedora e desassombrada, assim deve ser a ocupação das ruas e da pauta política para, de fato, alcançar também os corações e mentes fatigados de toda a gente brasileira.

Parar hoje em greve geral é o repto da guernica brasileira para mover a engrenagem virtuosa de uma verdadeira república de iguais.

Arriba.


Fonte: Carta Maior