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quinta-feira, 12 de março de 2026

Diário e reflexões - Sou natureza e a vida é uma ordem



Refeição Cultural

Osasco, 12 de março de 2026. Quinta-feira.


SOU NATUREZA E A VIDA É UMA ORDEM

Nas últimas duas semanas, vivi dias que me fizeram recordar o que fui um dia. Em Brasília, passei dias nos locais de trabalho do Banco do Brasil conversando com os trabalhadores a respeito das eleições sindicais locais. Na grande São Paulo, revivi meus tempos de diálogo com a categoria bancária que representei por bastante tempo. Dessa vez, a eleição em pauta é a da nossa autogestão em saúde, na qual fui diretor eleito um dia.

Eu dediquei o melhor momento de minha vida adulta à representação da classe trabalhadora. Isso me deu um sentido na vida que eu não havia encontrado até então. A mudança daquele papel social para o seguinte foi difícil, pelo contexto no qual o desligamento se deu. Busquei outros sentidos do viver, assim como fiz da adolescência até aquela novidade de me pegar dirigente sindical de uma hora para outra. A vida é dar sentido ao viver, é o que penso.

Farei uma viagem nos próximos dias. A viagem também será uma oportunidade de dar sentidos ao viver: estarei num lugar especial - Cuba -, com pessoas solidárias e com ideias de mundo melhores que algumas que erram pela Terra. Quando voltar, estarei de novo buscando sentidos para os dias, meses, alvoradas e crepúsculos de um mundo em desfazimento total.

A vida em sociedade estará cada dia mais incerta, e com isso a nossa vida estará cada vez mais incerta também. A morte e a mudança de perspectiva social serão constantes ameaças em um mundo dominado por extremistas fascistas com poder de destruição e morte e com povos com pouca capacidade de reação.

O amanhã não será melhor... isso é desalentador. Mas devemos seguir lutando pela vida, pelas maiorias miseráveis e alienadas, não podemos desistir do mundo e das vidas. 

Ter adquirido o conhecimento que adquiri nas veredas que percorri na vida me torna responsável pelo mundo que está aí. Edward Said nos ensinou o papel ético daqueles que têm conhecimento. É a ética dos intelectuais.

O pessimismo da razão invade minha consciência... mas minha formação humana e de esquerda, fruto da minha trajetória sindicalista, me coloca firme na caminhada da vida e da luta pela mudança. O sol nascerá daqui algumas horas e a vida e a luta seguem.

William

domingo, 12 de novembro de 2017

Para onde caminha a humanidade?



(texto atualizado às 9h de 13/11/17)


Alvorecer de mais um dia. Não necessariamente novo...

Refeição Cultural

Às vezes perco até o ânimo para registrar minhas reflexões e opiniões a respeito da sociedade humana.

Me lembro então de pessoas como Edward Said (ler AQUI), Victor Klemperer (ver AQUI), Gramsci (ler AQUI) e tantas outras que em seus tempos de vida tinham a clara consciência de que era necessário escrever, questionar, denunciar e se posicionar em relação ao que ocorria no mundo.

Para onde estamos caminhando? Talvez para a catástrofe final da existência humana.

Ao longo dos últimos milhares de anos, produzimos guerras avassaladoras de humanos contra humanos. Guerras de humanos contra outras formas de vida que coabitavam o mesmo espaço a ser conquistado pelo grupo humano que chegava. A diferença ao longo dos séculos foi a capacidade tecnológica cada vez maior para a matança e extermínio do outro.

Chegamos nesta quadra da história a uma condição humana que me desespera: eu não vejo neste momento muita perspectiva de resgatar o humano das máquinas que passaram a dominar esse mesmo ser humano. A mente humana, a psique humana, a consciência humana, os valores humanos, desenvolvidos em milhares de anos, estão sendo subutilizados a um limite perigoso.

Quantas pessoas no mundo passam boa parte de seus dias em função de zilhões de produções de imagens e vídeos em retransmissões em suas bolhas - as redes sociais em que estão - observando cenas de animais domésticos, fotos e textos com assuntos irrelevantes perto dos grandes problemas do mundo humano?

Quantas pessoas estão dedicando parte de seus dias em função da busca de soluções para os grandes problemas coletivos da sociedade humana? Um número ínfimo de pessoas.

Não sei se a sociedade humana já esteve mais ameaçada do que nesses tempos que vivemos. Mesmo comparando os riscos de extermínio humano como vimos nas matanças das grandes guerras mundiais, levadas adiante por questões econômicas e políticas de uns poucos homens de poder e suas corporações ao conseguirem levar multidões ao ódio e extermínio do outro.

Vivemos no Brasil e em outros países do mundo o clima construído por líderes políticos e elites poderosas que levaram e estão levando seus povos à guerra, à morte e às destruições sociais.

Os golpistas e seus veículos de comunicação sabem do amortecimento no qual colocaram as massas humanas brasileiras, entretidas em seus aparelhos celulares dentro de suas bolhas vendo os milhões de vídeos compartilhados de gatinhos cachorros tombos gozações xingos bundas e peitos e cantos e mensagens e correntes e fotos e violências que levam ao medo etc.

Neste momento e no amanhã todos os milhões de seres humanos estarão fazendo o mesmo diuturnamente e cotidianamente.

Enquanto isso, a reação das massas vitimas de todas as reformas e sacanagens feitas pelos golpistas segue pífia. Reação esforçada, mas sem capacidade de reversão do quadro avassalador. 


Que tempos são esses? A moda é a injustiça, a iniquidade, a intolerância, a ignorância. O não é comigo

Não choca nem causa espanto, não coloca milhões de pessoas nas ruas, o fim dos direitos do trabalho, a imprensa golpista pedir a morte do maior líder popular que o país já teve (revista Istoé, nesta semana, e revista Veja, em 2016, em relação ao Presidente Lula). 

A imparcialidade da justiça não incomoda e até gera juízes popstar. Nada leva milhões à rua. A não ser que um grande manipulador de massas como a golpista Rede Globo, dos Marinho, esteja nas convocações.

Mas lembrem-se que o que os donos do poder estão fazendo no Brasil e com o Brasil e os brasileiros estão fazendo com todos nós e com o futuro de nossos filhos. Após doação da Floresta Amazônica, do petróleo brasileiro, do solo brasileiro, o Brasil não voltará a ser o mesmo.

Amanhã é mais um dia... quantos estaremos resistindo à destruição de nosso mundo? Eu só vejo sentido na minha existência social se ela não for pensada só para mim. 

Vou acordar e seguir fazendo a luta por um mundo melhor e contra esse mundo que me impuseram. Desistir não é uma opção.

William


Post Scriptum:

Acordei às 6h da manhã neste domingo e saí para uns instantes não-virtuais. Fui participar de uma corrida na AABB SP e tive a oportunidade de ver e conversar com amigos e conhecidos a respeito de várias coisas. Foi bom.
11º Circuito de Corrida e Caminhada da AABB SP.
Mais uma vez, a entidade está de parabéns pelo evento.
A corrida de 7,5k e a caminhada de 5k foram prazerosas.
A equipe da Central Cassi esteve presente no evento da AABB SP.
Foi muito legal! Agradeço o convite para saborear o excelente
churrasco feito pelo pessoal ao final da corrida.
 

Post Scriptum 2:

Recebi posteriormente a foto com o pessoal da AABB SP. A gestão da entidade tem feito muitos progressos na associação em prol da comunidade que utiliza as dependências do clube.

Pessoal da AABB SP.

domingo, 25 de setembro de 2016

Diário - 250916



De pouquinho, vou me apropriando da fantástica
obra de José J. Veiga. Estou lendo o livro que ganhei
de nossa equipe de trabalho da Cassi em Rondônia.

Refeição Cultural

Domingo.

Das sensações humanas inevitáveis, alternei momentos de tristeza ao ser lembrado constantemente pelos fatos reais em se viver num mundo em Estado de exceção, com momentos de reflexão mais amenos devido à minha dedicação à leitura de José J. Veiga e em assistir a um magnífico programa documentário sobre as Ilhas Galápagos e a questão da Evolução das Espécies, a partir dos estudos de Charles Darwin.

Tentei que tentei focar minha cabeça em ler ao menos uma das três novelas do livro de Veiga - De jogos e festas (1980), mas não consegui acabar a estória que comecei, pois ela tem quase cem páginas.

Acabei alternando a leitura com a confecção de mais um texto de reflexão e opinião política. Fiz um texto no sábado (ler AQUI) e outro hoje durante o dia (ler AQUI).

Não pratiquei esporte ontem e hoje. Voltei a correr nesta semana e ainda estou com a musculatura da perna sensível. Corri 3,5 k na quarta e na sexta à noite, mas preciso recuperar o condicionamento físico aos poucos e ouvindo meu corpo cansado pelo desgaste físico e emocional do ano.

Me inscrevi na corrida de São Silvestre, que ocorre no último dia do ano em São Paulo. Tenho um longo caminho para estar bem e preparado para correr os 15 k da prova lá no meio do verão paulista.

Eu tenho o desejo de ler tanto, e tanta coisa, que quando olho a pilha de livros do José J. Veiga, que adquiri nestes meses, e vejo que ao menos estou progredindo na leitura e conhecimento da obra com a qual me identifiquei tanto, penso que não posso reclamar.


Eu recorro à Edward Said quando preciso reforçar minhas
posições contra-hegemônicas, que sei que vão me trazer
chateações por não ir na onda e nas facilidades
em estar com as maiorias.

Eu quis também terminar um livro que é uma referência em minha vida nos momentos de grandes tribulações políticas e ideológicas, o livro que tenho de Edward Said, que reúne conferências dadas por ele abordando o papel dos intelectuais. Peguei pra reler na semana passada e só falta um capítulo, mas priorizei Veiga para não deixar de iniciar a leitura do 7º livro dele.

No momento de debates sobre a Cassi ano passado, já havia pego o livro para reler uma das conferências que abordava a necessidade do intelectual dizer a sua opinião aos representantes do poder. Logo após o BB fazer a proposta para a Cassi em maio de 2015 reli o capítulo "Falar a verdade ao poder".

Como estou preparando minha opinião e contribuições sobre a nova proposta feita pelo patrocinador BB para a nossa entidade de saúde (feita em 5/9/16), senti uma necessidade de reler o livro inteiro. É sempre bom revisitar suas referências éticas, seus princípios e valores, ainda mais em tempos de degeneração dos valores em nossa sociedade.

É isso, queria mais um tempinho de descanso e só pra mim, mas não tenho.

William

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Diário - 150916 (Cansaço)





Acordei nesta quinta-feira com grande dificuldade de levantar da cama. Fiquei mais de uma hora acordando e cochilando mais alguns minutos. Bateu um cansaço danado em mim. Será que eu era Gregor Samsa...

Acabei levantando para retomar as lutas diárias que nossa função social exige. Como diz meu poeta favorito, Drummond:

"Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
"


Cheguei ontem do Rio de Janeiro quase à meia noite. Fui cumprir uma agenda de trabalho. Participei de encontro com aposentados do Banco do Brasil. Depois fiz um esforço extra na agenda e saí de Xerén, em Duque de Caxias, para ir à Unidade Cassi do outro lado do Rio de Janeiro e voltar pra embarcar no Galeão, no final da noite.

Fui conversar com os trabalhadores da nossa entidade de saúde. O esforço valeu a pena. Esse pessoal que dedica sua vida à Cassi deve ser muito respeitado por nós gestores, pelo Banco do Brasil e pelos associados de nossa operadora de autogestão em saúde.

Não sei o porquê desse cansaço grande que me segurou na cama até mais tarde... 

Na verdade eu sei sim. Saber do espetáculo dantesco que a máquina do estado de exceção em que vivemos fez com o presidente Lula me deprimiu profundamente. Uns fulanos da máquina estatal denunciaram Lula por um monte de crimes inventados. Faz parte do Golpe prender nosso líder e talvez até soltá-lo depois, mas sem poder participar da vida pública. Me disseram que a montagem foi ao vivo através das teletelas do Grande Irmão Globo.

A gente às vezes quase morre de desgosto. A caça ilegal a este homem de bem, maior liderança do povo brasileiro em toda a sua história, nos faz perder a fé e a esperança em lutar com as ferramentas legais contra as injustiças e contra o status quo, contra o sistema hegemônico e explorador do capitalismo, que sempre foi e sempre será cego em relação ao povo que a gente representa e faz parte, a classe trabalhadora e gente humilde.

Neste momento, ainda em casa, estou com muita raiva e desprezo de qualquer ser humano que foi favorável a todo esse processo de quebra da democracia e golpe nazifascista contra Dilma, Lula e o Partido dos Trabalhadores. Sinto um desprezo gigantesco pelos hipócritas e tenho dó dos manipulados que participaram disso. Mas sou um cidadão civilizado para lidar com a alteridade.

O que estão fazendo com o Lula nos avisa que não há mais normalidade alguma na vida civil. Se alguém desse Estado dantesco e golpista olhar pra mim ou pra você, cismar comigo ou com você, souber que eu existo e que não pactuo com essas aberrações do sistema totalitário em que entramos, podem expedir uma ordem de me vaporizar da normalidade civil. Qualquer um de nós que nos opusermos ao que se instalou no aparelho do estado de exceção golpista pode ser a próxima vítima a qualquer instante. Que adianta termos toda uma vida honesta e de bons princípios e ética e correção? Basta incomodarmos os deuses do estado de exceção e acabou.

A quem recorrer dentro da legalidade? A "legalidade", a lei e as instituições que deveriam proteger a legalidade e os cidadãos foram tomadas pelo estado de exceção. Fizeram parte do golpe que ceifou a democracia em nosso país.

Não há mais solução na legalidade para retomar a democracia e a liberdade verdadeira, a liberdade não autorizada pelo Grande Irmão P.I.G. e pelos novos donos do aparelho estatal.

Fico vendo lideranças do campo da esquerda discutindo nuanças se o povo que ainda luta nas ruas deve reivindicar "Diretas já" ou a volta da presidenta ilegitimamente deposta com apoio de todas as estruturas legais do Estado. Ou até se deve prevalecer o lema "Fora Temer". Os mais doidinhos de sempre, das correntes pseudo-revolucionárias pedem "Fora todos". Eu fico vendo isso e fico melancólico. Até vou pra rua quando minha agenda de trabalho permite. Mas os esperançosos na legalidade civil são quase como crianças, na minha opinião.

Não há volta da democracia dentro da legalidade civil. Este golpe foi organizado com todos os poderes do aparelho do Estado, com os envolvidos comprados a soldo de milhões. Com o apoio do país que organiza golpes no mundo há um século. E os aparelhos de manipulação estão azeitados para fazer continuar adormecida a massa humana pescada nas teletelas com bundas, futebol, novelas, aparelhos de celular e rede social, estão causando com selfs cada vez mais legais...

Podem dizer que não gostam mais do Grande Irmão Globo, mas no fundo todos querem mais é ter seu segundo de fama nas redes sociais... é tudo "mãe, tô na grobo" do mesmo jeito.

Não há solução na legalidade civil para salvar Lula, para salvar o movimento popular que está nas ruas contra o golpe e pedindo novas eleições. Esse povo vai começar a morrer, vítima dos aparelhos repressores do Estado golpista. Não dá pra enfrentar armas com o corpo nu. 

Qual órgão do Estado iria conduzir um processo de novas eleições?

O Congresso Nacional dos golpistas? O STF do salário aumentado no processo de destituição da presidenta sem crime? A OAB que sumiu, desapareceu, escafedeu-se...? Ou seria os órgãos deuses PF MPF MP que agora podem entrar em nossas casas, inventar ilações contra cidadãos ou empresas, nos prender sem Habeas Corpus e sem direito a um telefonema...? (e se for interessante, combinado com o Grande Irmão Globo)

Já sei! Vamos denunciar aos órgãos de imprensa...

Fiquei cansado e com dificuldades para levantar, mas já levantei. Vamos desempenar o corpo e sair pra luta. 

E com um problema desse que tomou conta de nossa vida civil brasileira, que espaço eu teria pra chorar o que enfrento no dia a dia dentro da entidade de saúde que administro como eleito pelos associados? Mandato em que não deixei de ser eu mesmo e passei a questionar e enfrentar coisas erradas na burocracia e nesses dois anos já sofri represálias que são difíceis de dizer aos amigos e pessoas que representamos? As perseguições e más vontades que enfrentamos nos quebram um pouco. Mas o processo é pra isso mesmo. As coisas estão mais difíceis ainda com a nova composição na gestão... mas aviso que não vou me desviar de meus princípios e conduta.

Estou terminando de reler Edward Said nesta semana porque preciso renovar minhas convicções na ética, no papel que temos que desempenhar como pessoas que têm conhecimento e que não devem se dobrar aos encantos e facilidades do poder instituído. Eu tenho que achar muita energia para manter minha linha de representação da classe a qual pertenço e dizer o que penso e o que tem que ser dito a qualquer um que seja. Mesmo com todas as consequências que sofremos com isso.

Todo a minha solidariedade ao presidente Lula. Ninguém está seguro mais neste estado de exceção, onde um bando de fascistas controlam a máquina estatal dos três poderes e são liderados pelo quarto poder (P.I.G.), contra todos que levantem a voz contra eles.

Nossa obrigação como cidadãos conscientes e conhecedores da história é registrar os fatos para deixar vestígios no amanhã contra a máquina totalitária de registro dos vencedores.

Estou com o corpo e a alma cansados, mas vamos fazer nosso papel social.

William
Cidadão de um Estado sem lei

domingo, 11 de setembro de 2016

Fim de semana em família





Refeição Cultural


Acabando o fim de semana.

Dei um tempo em computador e não entrei em internet os dois dias.

Curtimos o fim de semana com o filhão em casa e com meus dois sobrinhos. Foi bom.

Assistimos filmes, eu li um pouco, fiz caminhadas, ouvimos música, conversamos olhos nos olhos. 

Já que me contundi no mês de agosto, ainda não estou arriscando correr. Já estou fazendo umas caminhadas e em breve retomo as corridas.




Ao rever pela quarta ou quinta vez o filme do sueco Peter Cohen, Arquitetura da Destruição (1989), ficamos sempre pensativos a respeito do mundo, da sociedade e do quanto faz falta as pessoas não conhecerem história.




Também revi pela terceira ou quarta vez A Onda (2008), filme alemão que aborda a mesma temática do totalitarismo, nazismo, autocracia, fascismo. Mundos distópicos. O que aconteceu no Brasil, hoje sob Golpe de Estado, foi uma onda que vi nascer, descrevi e previ que poderia acontecer e aconteceu. Agora é o caos.

Estamos vivendo momentos importantes e decisivos na entidade de saúde de autogestão em que sou gestor eleito pelos associados. Reler Edward Said (1935-2003) e refletir sobre suas Conferências Reith (em 1993), reproduzidas no livro Representações do Intelectual, é necessário porque tenho o compromisso intelectual de dizer o que penso e alertar sobre as perspectivas de futuro para a Cassi nas decisões que serão tomadas pelos trabalhadores que represento nas próximas semanas.

Queria ler algo mais ameno, para relaxar, mas os dias não estão nem para peixe, nem para José J. Veiga...

É isso. Foi bom ter o filho em casa e os sobrinhos. E alguns instantes sem contato com o mundo em caos, em golpe, sem valores e sem noções.

Enquanto eu dei um tempo no mundo, para ficar com meu filho, esposa e sobrinhos, a polícia de repressão da Tucanolândia, em SP, realizou mais um show de barbárie agredindo nas ruas a população lutando pela volta da democracia. 

Já estamos em estado de exceção, como disse a vocês. Não há mais lei. Não há mais democracia. O Estado agora é agressor e, daqui a pouco, será um Estado criminoso, vão acabar morrendo pessoas por exercerem suas liberdades de expressão...

William

sábado, 25 de junho de 2016

Diário - 250616



Uma flor no meio do caminho.
A forma como olhamos para a frente.


Refeição Cultural - Estudar, refletir e se posicionar

Sábado em Brasília, cidade onde resido provisoriamente porque exerço um mandato eletivo em uma entidade de saúde dos trabalhadores. É a vida do ser social que se molda às necessidades e compromissos dos papéis sociais que assumimos na existência.

Estamos esperando o nosso filho nos visitar por dois dias para matar saudades, porque hoje ele vive a centenas de quilômetros de distância para estudar. Eu não o vejo há um mês.

Depois de percorrer dez Estados brasileiros nesses primeiros meses do ano, a trabalho, pois determinei a mim mesmo fazer um mandato muito próximo às bases sociais que representamos, vou ficar algumas semanas mais focado em estudos e trabalhos internos de gestão para me preparar tanto para os graves debates que teremos sobre sustentabilidade da entidade que administramos, como também para retomar uma agenda gigante de visitas a mais dezessete Estados no segundo semestre.


Enquanto vivo, observo
o que há ao redor. Temos
a natureza humana e a
natureza do entorno.
Confesso a vocês que a forma como eu mesmo me impus de exercer o mandato na Cassi, de mesclar a teoria e a prática, os estudos da intelectualidade com a permanência nas bases que represento, é uma forma de representação que extenua o ser, mas é a única forma que sei fazer política.

Decidi estudar duas décadas da Cassi para dar a minha opinião franca no momento que formos debater e propor soluções para a questão do déficit antigo e recorrente do plano de saúde dos funcionários do banco. Me lembro muito do livro que li do intelectual Edward Said - Representações do Intelectual -, obra na qual o autor abordava o papel central do intelectual em se posicionar exatamente com a sua opinião sobre o tema tratado, sem se calar por motivos de alianças políticas ou envolvimentos outros que não sejam o que ele entenda ser o melhor para aquilo que opina.

Ao final dos estudos que estou fazendo a respeito da Caixa de Assistência que administro junto com outros atores, tanto indicados pelo patrocinador-patrão, o Banco do Brasil, quanto outros eleitos pelos associados, vou expressar o que entendo ser melhor para os associados e para a Cassi, coloquei associados na frente porque a Cassi existe em função deles e deve seguir existindo porque é melhor para eles, os associados.

Imaginem vocês que estou relendo autores e textos meus mesmo, de vários anos passados, porque a leitura de bons autores como Machado de Assis e outros dos quais sou admirador nos faz refletir e relembrar o que somos e melhorar nossos conceitos de mundo e de existência.

Os contos que reli nesta semana, O Alienista e Na Arca, de Machado, têm relação profunda com as questões de loucuras e vaidades de meu mundo de gestor de entidade de saúde da comunidade Banco do Brasil e de ex-dirigente sindical num mundo cindido com ódios e rancores nos movimentos sociais e ainda mais num país que sofreu um Golpe de Estado e que tem, no momento, a pior condição política, econômica e social possível para conquistar direitos para trabalhadores ou mantê-los.

Que merda essas crises, heim!

Enfim, vou estudar muito nessas semanas, já estou fazendo isso. Até ao deitar, o cérebro fica trabalhando e buscando soluções para a entidade de saúde que administro e que aprendi a amar e respeitar pelo que ela, a Cassi, representa para mais de setecentos mil vidas da comunidade Banco do Brasil.

Seguimos adiante buscando fazer o melhor possível como cidadão e como ser humano.

William
Cidadão do mundo

sábado, 12 de dezembro de 2015

"Nosso tempo" é tempo de decisões




Refeição Cultural


"Nosso Tempo

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir...
"


(A rosa do povo, 1945, Carlos Drummond de Andrade)


Considerações

Como diz o poeta, tenho percorrido volumes, viajado e visitado fatos. Tenho palavras em mim buscando canal...

Sou dirigente eleito em uma entidade de saúde dos trabalhadores. Como diz o mestre Antonio Candido "o que somos é feito do que fomos". 

Trago em minha forma de ser e atuar como representante de trabalhadores toda a experiência que acumulei em mais de uma década atuando como dirigente sindical de formação cutista, que sempre levou a sério os princípios, concepções e práticas do bom sindicalismo.

Aprendi logo cedo na direção do movimento sindical a sempre ir para a base conversar com os trabalhadores cada vez que nos pegávamos em dilemas, disputas internas sem fim, chateações, puxação de tapete, dúvidas sobre o que fazer ou que rumo tomar, enfim, cada vez que nossas energias estavam sendo gastas na burocracia interna e concentradas mais para dentro do sindicato do que para os trabalhadores, eu saía e passava horas na base, nos locais de trabalho.

Após conversar com os trabalhadores, voltava curado de qualquer desânimo, tinha muito claro as decisões a tomar e qual era meu papel e meus compromissos para defender aqueles que representava e buscar soluções para suas demandas e necessidades.

Nesta semana que passou, além de ter estado em Brasília para nossas longas e duras reuniões de Diretoria Executiva, cada vez mais tensas em face das crises atuais e divergências internas, estive em quatro estados brasileiros a trabalho - PB, MG, MA, PI. Falei com dezenas de trabalhadores da Cassi, lideranças locais das entidades representativas do funcionalismo do Banco do Brasil e associados da ativa e aposentados que representamos na gestão da entidade. Dormi e comi pouco, mas falamos olho no olho com pessoas, fortalecemos nossos compromissos com a Cassi e os associados. Sei o que represento e a expectativa que gero nas pessoas.

Essa semana de conversas com as bases sociais da Cassi é reflexo do que fiz neste ano e meio de mandato. Para mim, só tem sentido representar se for assim, indo até onde as pessoas estão, mesmo que isso esteja sendo pesado para mim, em termos de agenda dobrada com reflexos até na saúde.

Nos próximos dias e semanas, decisões importantes serão tomadas ou posições serão estabelecidas sobre a nossa entidade de saúde dos trabalhadores. As negociações iniciadas no primeiro semestre deste ano ainda não encontraram soluções consensuais entre o Banco do Brasil e as representações do funcionalismo.

Eu sempre tenho em mente as lições de Edward Said com suas conferências reunidas no livro "Representações do intelectual". Temos que ser claros e honestos na tomada de posição sobre o que entendemos ser o melhor para a situação dada, mesmo que isso não agrade às maiorias ou àqueles grupos políticos ao qual estamos vinculados ou interagindo. Eu atuo assim desde que virei representante eleito pelos trabalhadores.


"Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto..."


Muitas conversas estão acontecendo nos bastidores. Muitas ao meu redor, sem passar por mim, que sou um dos gestores principais. Eu conheço profundamente como funcionam as coisas no movimento. Mas a vantagem é que agora, aliás, também conheço muito mais a entidade que administro.

Nosso tempo será de decisões. As coisas são muito marcadas por contextos, conjunturas e momentos. Nem sempre, os grupos sociais tomam decisões com olhar apenas no objeto sob análise, mas sim no conjunto de interesses desses mesmos grupos.

Muito aprendi e sei o que defendo, principalmente após os milhares de quilômetros que percorri neste ano, ouvindo e falando com milhares de pessoas da base social da nossa Caixa de Assistência, e, sobretudo, percorri o país levando a mensagem do modelo de saúde que defendemos e que queremos estender para todos os participantes - queremos cuidar da saúde deles.

Eu serei muito firme, franco e direto nas posições que tomarei nos próximos dias nos espaços de debate e construção sobre a sustentabilidade e custeio de nosso Plano de Associados. Se for minoria nesses espaços, tenho a certeza e a consciência de que estou defendendo o que acho que é melhor para a Cassi e para os associados que represento.

William Mendes

sábado, 31 de outubro de 2009

Literatura Espanhola: A literatura do exílio


Reflexões sobre o exílio - Edward W. Said (leitura de texto e fragmentos interessantes)

Said nos fala da "dor mutiladora da separação". Nos diz que o exilado tem uma fratura incurável.

Exílio: uma fratura incurável

"O exílio é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar".

Cultura ocidental: uma obra de exilados

Em seguida, Said afirma que a moderna cultura ocidental é obra de exilados, emigrantes e refugiados do fascismo, comunismo e demais regimes que não toleram os dissidentes.

Said alerta que o exílio não pode ser posto a serviço do humanismo e que "pensar que o exílio é benéfico para essa literatura é banalizar suas mutilações, as perdas que inflige aos que sofrem".

O exílio é "tal como a morte, mas sem sua última misericórdia, arrancou milhões de pessoas do sistema de tradição, da família e da geografia".

Said nos dá alguns exemplos de poetas exilados - palestinos, paquistaneses etc - para tratar o exílio como uma punição política contemporânea.

Paris: capital dos exilados cosmopolitas... e dos desconhecidos

"Paris pode ser a capital famosa dos exilados cosmopolitas, mas é também uma cidade em que homens e mulheres desconhecidos passaram anos de solidão miserável: vietnamitas, argelinos, cambojanos, libaneses, senegaleses, peruanos".

Nacionalismo e exílio

"Chegamos ao nacionalismo e a sua associação essencial ao exílio. O nacionalismo é uma declaração de pertencer a um lugar, a um povo, a uma herança cultural. Ele afirma uma pátria criada por uma comunidade de língua, cultura e costumes e, ao fazê-lo, rechaça o exílio, luta para evitar seus estragos (...) todos os nacionalismos têm seus pais fundadores, seus textos básicos, quase religiosos, uma retórica do pertencer, marcos históricos e geográficos, inimigos e heróis oficiais."

O hábito e a habitação

O sociólogo francês Pierre Bourdieu denomina esse ethos do amálgama de práticas coletivas como habitus, práticas que ligam o hábito à habitação.

Exílio: privação de estar na habitação comunal

"Os nacionalismos dizem respeito a grupos, mas, num sentido muito agudo, o exílio é uma solidão vivida fora do grupo: a privação sentida por não estar com os outros na habitação comunal."

"O exílio, ao contrário do nacionalismo, é fundamentalmente um estado de ser descontínuo. Os exilados estão separados das raízes, da terra natal, do passado."

"O pathos do exílio está na perda de contato com a solidez e a satisfação da terra: voltar para o lar está fora de questão."

Said nos explica que os exilados preferem ver a si mesmos como parte de uma ideologia triunfante ou de um povo restaurado.

O exílio é uma condição ciumenta

"Nada é seguro. O exílio é uma condição ciumenta. O que você consegue é exatamente o que você não tem vontade de compartilhar (...) um sentimento exagerado de solidariedade de grupo e uma hostilidade exaltada em relação aos de fora do grupo, mesmo aqueles que podem, na verdade, estar na mesma situação que você."

Uma questão muito clara quando pensamos em judeus e palestinos.

Exilado é diferente de refugiado, expatriado e emigrado

Apesar de usarmos em geral os termos citados, muitas vezes não compreendemos a diferença entre eles.

"O exílio tem origem na velha prática do banimento. Uma vez banido, o exilado leva uma vida anômala e infeliz, com o estigma de ser um forasteiro. Por outro lado, os refugiados são uma criação do Estado do século XX. A palavra 'refugiado' tornou-se política: ela sugere grandes rebanhos de gente inocente e desnorteada que precisa de ajuda internacional urgente, ao passo que o termo 'exilado', creio eu, traz consigo um toque de solidão e espiritualidade."

"Os expatriados moram voluntariamente em outro país, geralmente por motivos pessoais ou sociais (...) eles podem sentir a mesma solidão e alienação do exilado, mas não sofrem com suas rígidas interdições. Os emigrados gozam de uma situação ambígua. Do ponto de vista técnico, trata-se de alguém que emigra para um outro país."

Criar um novo mundo para governar

"Grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar.

Lukacs fala da criação da vida ficcional de maneira semelhante.

"Georg Lukács, na Teoria do romance, sustentou de modo convincente que o romance, forma literária criada a partir da irrealidade da ambição e da fantasia, é a forma da 'ausência de uma pátria transcendental'. De acordo com o teórico húngaro, as epopeias clássicas emanam de culturas estabelecidas em que os valores são claros, as identidades estáveis, a vida imutável."

Cultura clássica e cultura ocidental: opostas do ponto de vista do exilado

"O romance europeu baseia-se exatamente na experiência oposta, a de uma sociedade em mudança na qual um herói de classe média, itinerante e deserdado, busca construir um mundo novo que de alguma forma se pareça com o antigo, deixado para trás para sempre."

Simone Weil

"Ter raízes é talvez a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana."

"É mais comum a pressão sobre o exilado para entrar - em partidos, movimentos nacionais ou no Estado. O exilado recebe a oferta de um novo conjunto de afiliações e estabelece novas lealdades. Mas há também uma perda - de perspectiva crítica, de reserva intelectual, de coragem moral."

O exílio pode ser uma oportunidade de resgate histórico

Said não enaltece o exílio, mas explica, entretanto, que estar na condição de povo exilado pode ser uma oportunidade de não ficar sentado à margem das coisas e ir em busca de seu passado, criar instituições e estudos de sua história, língua, tradições etc.

Theodor Adorno

O pensamento de Adorno é radical no que diz respeito à subjetividade de um povo exilado. Said nos diz isso comentando a obra-prima de Adorno - Minima Moralia, reflexões de uma vida mutilada.

"Adorno era um opositor implacável do que chamou de mundo 'administrado'; para ele, a vida era comprimida em formas prontas, 'lares' pré-fabricados. Sustentava que tudo o que dizemos ou pensamos, assim como todos os objetos que possuímos, são, em última análise, uma mera mercadoria. A linguagem é jargão, os objetos são para venda. Recusar esse estado de coisas é a missão intelectual do exilado."

"As reflexões de Adorno são animadas pela crença de que o único lar realmente disponível agora, embora frágil e vulnerável, está na escrita. Fora isso

a casa é passado. O bombardeio das cidades europeias, bem como os campos de trabalho e de concentração, é apenar antecedente do que o desenvolvimento imanente da tecnologia decidiu há muito tempo que seria o destino das casas. Elas agora servem apenas para serem jogadas fora, como latas velhas.

Adorno diz, com grave ironia, que 'faz parte da moralidade não se sentir em casa na própria casa' ".

Hugo de Saint Victor: para o homem forte o lar são todos os lugares

"Portanto, é fonte de grande virtude para a mente exercitada aprender, pouco a pouco, primeiro a mudar em relação às coisas invisíveis e transitórias, de tal modo que depois ela possa deixá-las para trás completamente. O homem que acha doce seu torrão natal ainda é um iniciante fraco; aquele para quem todo solo é sua terra natal já é forte; mas perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é uma terra estrangeira. A alma frágil fixou seu amor em um ponto do mundo; o homem forte estendeu seu amor para todos os lugares; o homem perfeito extinguiu isso"

(Que pensamento instigante, heim?!)

No entanto, a observação de Said também é muito perspicaz. Observe:

"Mas observe-se que Hugo deixa claro que o homem 'forte' ou 'perfeito' alcança independência e desapego trabalhando mediante apegos, não com a rejeição deles. O exílio baseia-se na existência do amor pela terra natal e nos laços que nos ligam a ela - o que é verdade para todo exílio não é a perda da pátria e do amor à pátria, mas que a perda é inerente à própria existência de ambos."

O exílio: pelo menos duas visões de mundo

Diferente de quem vive em seu mundo, o exilado tem a visão privilegiada de quem conhece ao menos dois mundos, dois cenários, duas culturas e "essa pluralidade de visão dá origem a uma consciência de dimensões simultâneas, uma consciência que é contrapontística."


COMENTÁRIO: o texto de Said é muito profundo e esclarecedor. Conceitual e que nos faz refletir muito, como seus demais textos.


Bibliografia:

SAID, Edward W. Representações do intelectual - As Conferências Reith de 1993. Tradução de Milton Hatoum. Editora Companhia das Letras, 2005.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Representações do intelectual: tradicionais x orgânicos




Edward Said discorre sobre dois tipos de representação de intelectuais, uma de concepção na linha de Gramsci e outra na linha de Julien Benda.

GRAMSCI vê dois tipos de intelectuais: os tradicionais como professores, clérigos e administradores e outra como intelectuais orgânicos.

Intelectuais orgânicos "que Gramsci considerava diretamente ligados a classes ou empresas que os usavam para organizar interesses, conquistar mais poder, obter mais controle".

"Nos dias de hoje, o especialista em publicidade ou relações públicas, que inventa técnicas para obter uma maior fatia de mercado para um detergente ou uma companhia de aviação, seria considerado, segundo Gramsci, um intelectual orgânico..."

INTELECTUAIS ORGÂNICOS = HOMENS DE NEGÓCIO

"Ao contrário dos professores e dos clérigos, que parecem permanecer mais ou menos no mesmo lugar, realizando o mesmo tipo de trabalho ano após ano, os intelectuais orgânicos estão sempre em movimento, tentando fazer negócios".

JULIEN BENDA vê um grupo minúsculo de reis-filósofos: que constituem a consciência da humanidade. Cita como exemplos Sócrates, Jesus e, mais recentes, Espinosa, Voltaire e Ernest Renan.

VEÍCULOS DE MASSA USADOS PARA DISSIMULAR A VERDADE

"De acordo com Benda, o problema dos intelectuais de hoje é que eles concederam sua autoridade moral àquilo que, numa frase premonitória, ele chama 'a organização de paixões coletivas', tais como o sectarismo, o sentimento das massas, o nacionalismo beligerante, os interesses de classe".

Benda escreveu isso em 1927, antes da época dos meios de comunicação de massa, que depois passariam a ser importantes para governos, políticas e propagandas oficiais com o apoio de intelectuais, na construção de eufemismos e dissimulações da verdade.

O INTELECTUAL DEVE CORRER RISCOS

"De acordo com a definição de Benda, os verdadeiros intelectuais devem correr o risco de ser queimados na fogueira, crucificados ou condenados ao ostracismo (...) Têm de ser indivíduos completos, dotados de personalidade poderosa e, sobretudo, têm de estar num estado de quase permanente oposição ao status quo"

Aqui lembro o exemplo de Miguel Ángel Asturias em 1963, expulso da Argentina por denunciá-la de apoiar a ditadura na Guatemala.

EXCERTO de Claude Couffon no livro sobre Asturias:

"Estábamos en 1963. Asturias se encontraba en París con su esposa argentina, Blanca, en un nuevo exilio. Algunos meses antes, Guatemala había conocido una recrudescencia de la violencia, mientras la guerrilla se implantaba en las montañas, y la voz de Asturias se había vuelto más polémica para denunciar los apoyos exteriores - entre ellos los de Argentina - a un régimen fatal para su patria. Tal condenación había irritado al gobierno del país que lo acogía y la orden de expulsión fue pronunciada"

CASO DREYFUS, OUTRO EXEMPLO DE BENDA

"Benda foi espiritualmente moldado pelo caso Dreyfus e pela Primeira Guerra Mundial, ambos provas rigorosas para os intelectuais, que podiam optar por levantar a voz corajosamente contra um ato de injustiça militar anti-semita e de fervor nacionalista, ou ir timidamente atrás do rebanho, recusando-se a defender o oficial judeu Alfred Dreyfus, injustamente condenado..."

SAID PREFERE A LINHA DE GRAMSCI

"A análise social que Gramsci faz do intelectual como uma pessoa que preenche um conjunto particular de funções na sociedade está muito mais próxima da realidade do que tudo o que Benda escreveu..."

INTELECTUAL NO SÉCULO XXI

E mais abaixo fala das profissões intelectuais contemporâneas: "Hoje, todos os que trabalham em qualquer área relacionada com a produção ou divulgação de conhecimento são intelectuais no sentido gramsciano".

LÍNGUAS FRANCAS EXCLUSIVAS POR ÁREA

"Todos os intelectuais, o editor de um livro e o autor, o estrategista militar e o advogado internacional, falam e lidam com uma linguagem que se tornou especializada e utilizável por outros membros da mesma área: especialistas que se dirigem a outros experts numa língua franca em grande parte incompreensível por pessoas não especializadas".

OS INTELECTUAIS E AS REVOLUÇÕES E CONTRA-REVOLUÇÕES

"Não houve nenhuma grande revolução na história moderna sem intelectuais; de modo inverso, não houve nenhum grande movimento contra-revolucionário sem intelectuais. Os intelectuais têm sido os pais e mães dos movimentos e, é claro, filhos e filhas e até sobrinhos e sobrinhas".

A QUESTÃO CENTRAL PARA SAID

"A questão central para mim, penso, é o fato de o intelectual ser um indivíduo dotado de uma vocação para representar, dar corpo e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, filosofia ou opinião para (e também por) um público. E esse papel encerra uma certa agudeza, pois não pode ser desempenhado sem a consciência de se ser alguém cuja função é levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar ortodoxias e dogmas (mais do que produzi-los)...

Assim, o intelectual age com base em princípios universais: que todos os seres humanos têm direito de contar com padrões de comportamento decentes quanto à liberdade e à justiça da parte dos poderes ou nações do mundo, e que as violações deliberadas ou inadvertidas desses padrões têm de ser corajosamente denunciadas e combatidas"

É isso. ASSINO EMBAIXO!!


BIBLIOGRAFIA

ASTURIAS, Miguel Ángel. Miguel Ángel Asturias: París 1924-1933 - Periodismo y creación literaria. Edición Crítica. ALLCA XX, Fondo de Cultura Económica. Segunda Edición Amos Segala, 1996.

SAID, Edward W. Representações do intelectual - As Conferências Reith de 1993. Tradução de Milton Hatoum. Editora Companhia das Letras, 2005.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Representações do intelectual - Edward W. Said, 1994



Livros e autores como Edward Said e Alfredo Bosi
nos colocam a pensar.

Li este livro em 2008 e relendo trechos dele novamente para aprofundar o conhecimento, vejo o quanto as ideias de Said são sensatas, verdadeiras e pouco ouvidas e seguidas na contemporaneidade mundial.


INTELECTUAL

Seu papel público deve ser o de um outsider, um "amador" e um perturbador do status quo.


O PREÇO A PAGAR

"Mas não há como evitar a realidade inescapável de que tais representações por intelectuais não vão trazer-lhes amigos em altos cargos nem lhes conceder honras oficiais. É uma condição solitária, sim, mas é sempre melhor do que uma tolerância gregária para com o estado das coisas"


PAPÉIS DO INTELECTUAL

Uma das tarefas do intelectual reside no esforço em derrubar os estereótipos e as categorias redutoras que tanto limitam o pensamento humano e a comunicação.


NEM ESQUERDA, NEM DIREITA

"Aquelas figuras cujo desempenho público não pode ser previsto nem forçado a enquadrar-se num slogan, numa linha partidária ortodoxa ou num dogma rígido"


PADRÕES DE VERDADE

"O que tentei sugerir é que os padrões de verdade sobre a miséria humana e a opressão deveriam ser mantidos, apesar da filiação partidária do intelectual enquanto indivíduo, das origens e de lealdades ancestrais. Nada distorce mais o desempenho público do intelectual do que os floreios retóricos, o silêncio cauteloso, a jactância patriótica e a apostasia retrospectiva e autodramática"


AUTONOMIA x INTERESSES PARTICULARES

"Pessoas bem relacionadas promovem interesses particulares, mas são os intelectuais que deveriam questionar o nacionalismo patriótico, o pensamento corporativo e um sentido de privilégio de classe, raça ou sexo"


INTELECTUAIS MODERNOS = IDEÓLOGOS

"O mundo está mais abarrotado do que nunca de profissionais, especialistas, consultores; numa palavra, povoado de intelectuais cujo papel principal é conferir autoridade com seu trabalho enquanto recebem grandes lucros"


FALAR AO PODER COM INDEPENDÊNCIA

Como os intelectuais têm nacionalidade, língua, tradição, crença e normalmente patrão, Said nos diz:

"Por isso, a meu ver, o principal dever do intelectual é a busca de uma relativa independência em face de tais pressões. Daí minhas caracterizações do intelectual como um exilado e marginal, como amador e autor de uma linguagem que tenta falar a verdade ao poder"


IMPOTÊNCIA PARA MUDAR REALIDADES

"Ao sublinhar o papel do intelectual como um outsider, tenho tido em mente o quão impotentes nos sentimos tantas vezes diante de uma rede esmagadoramente poderosa de autoridades sociais - os meios de comunicação, os governos, as corporações etc - que afastam as possibilidades de realizar qualquer mudança"


(COMENTÁRIO: Lembro-me da crise política brasileira em 2005 - o tal mensalão nunca comprovado - e a tentativa de golpe contra o governo do presidente Lula da Silva, golpe organizado pela elite de direita e os seus veículos midiáticos. Eles massacraram os intelectuais vinculados ao Partido dos Trabalhadores ou simpatizantes como a filósofa Marilena Chauí, o professor Antonio Candido, a economista Maria da Conceição Tavares, o sociólogo Emir Sader dentre outros)


Edward Said cita James Baldwin e Malcolm X como figuras que melhor o definem e inspiram: "definem o tipo de trabalho que mais influenciou minhas representações da consciência do intelectual".


Achei o livro fantástico e ainda o releio para apreender os sentidos e refletir bastante sobre o papel que tenho que representar todos os dias. Sei que não sou intelectual, mas estudo diariamente para tentar ser menos ignorante e para contribuir com o movimento social do qual participo.



Bibliografia:

SAID, Edward W. Representações do intelectual - As Conferências Reith de 1993. Tradução de Milton Hatoum. Editora Companhia das Letras, 2005.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A leitura como ato de reflexão e mudança


Refeição Cultural

O que podemos e devemos fazer com a informação e o conhecimento advindo de uma boa leitura?

Ao lermos o mestre Paulo Freire e captarmos seus ensinamentos sobre a educação, educação para a mudança e não para o adestramento, é necessário acordar e pôr em prática a mudança que buscamos.

Cada um de nós faz a diferença. É nesse sentido que precisamos informar e comunicar melhor. Envolver os agentes da mudança social.

A leitura de revistas como a Revista Fórum nº 66 de setembro de 2008 é uma das diversas formas de aumentar o nosso desejo de lutar por mudanças. Lutar como agentes sociais que somos.

Desejo de lutar por mudanças ao vermos que existem pessoas como o professor Ladislau Dowbor, da PUC SP, um intelectual legítimo, dentro do conceito de intelectual defendido por Edward Said. Ao lê-lo, aguçamos a vontade de compartilhar conhecimento de forma gratuita, como direito humano e não como produto.

Desejo de lutar por mudanças ao lermos na revista sobre o que vem ocorrendo com nossos irmãos latino-americanos da Bolívia, onde uma pequena elite fascista busca derrubar um governo com 67% de aprovação popular, que nada mais quer que cumprir o programa de mudanças sociais que o elegeu.

Desejo de lutar por mudanças lendo matérias como a que fala sobre o destino trágico das crianças da Guatemala, e que lembrou-me o livro de contos Week-end na Guatemala de Miguel Angel Astúrias, Prêmio Nobel de Literatura em 1967, guatemalteco que denunciou as condições de seu país e do golpe de Estado em 1954, realizado por um exército de mercenários recrutados pela empresa American Fruit Company (La Frutera) e financiado pelo governo norte-americano.

Para seguir falando de outra matéria muito próxima a nós, leiam com atenção a matéria sobre a Europa e sua xenofobia atual contra os imigrantes, principalmente os de origem africana. E, por fim, gerou-me expectativa o projeto de Danny Glover de filmar a vida do revolucionário Toussaint L'Ouverture, líder da Revolução Haitiana.

Não pensem que não são problemas “nossos” os temas relatados na revista. Vivemos numa aldeia global. Sempre que se atenta contra a democracia, a liberdade e os direitos humanos, atinge-se a todos. 

No último período de ditaduras latino-americanas do século XX, financiadas quase sempre pelo regime capitalista liderado pelo império americano, derrubou-se um governo popular aqui, outro ali, e como as comunidades latinas não agiram em conjunto, quando vimos, toda a América Central e do Sul estava assolada pela tragédia dos regimes ditatoriais que levaram décadas de miséria, cerceamento da liberdade, morte e concentração de renda.

Acreditemos que outro mundo é possível, através da coletividade e cooperativismo. É possível mudar qualquer situação, sobretudo a partir de nós mesmos.

William