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domingo, 23 de agosto de 2026

Lendo as memórias do Zé Dirceu (10)



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA 


Enquanto leio o capítulo 21 das memórias do Zé Dirceu, reflito sobre a atualidade complexa do calendário eleitoral brasileiro em 2026.

O líder petista está nos contando os bastidores do partido nos anos noventa e quem viveu aquele período como cidadão politizado - letrado politicamente - vai relembrando o quão miserável é esse país da casa-grande e da elite canalha, mancomunada com a imprensa golpista e com um judiciário subserviente aos donos do poder e do dinheiro. 

Isso não muda! Não mudou! Não sei se mudará um dia, pois fazendo as coisas do mesmo jeito, os resultados não serão diferentes. 

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21. LULA TOMA AS RÉDEAS DO PT

A decisão de enfrentar FHC e os escândalos dos tucanos, colocados debaixo do tapete, com a ajuda da mídia 

Zé Dirceu nos conta como se deu o 10° Encontro do partido. Nos revela que Lula chamou ele para se colocar à disposição de ser presidente do PT. 

"Mas qual não foi minha surpresa ao encontrar um Lula decidido a tomar as rédeas da direção do PT. No primeiro momento, ele começou a se explicar ou mesmo a se 'desculpar' sobre a questão Covas e a falta total de apoio à minha campanha, diariamente 'sabotada' pelo entourage lulista (...) Susto maior tomei ao ouvir de Lula a proposta de me apoiar em uma candidatura à presidência do partido..." (p. 273)

Depois, lemos que a direção do PT, após o 10° Congresso, definiu claramente a orientação e os objetivos do partido: "transformar e consolidar o PT como instituição. Afirmar a vocação do partido para o poder, abri-lo para as alianças e para poder governar, assumir nossos governos e conquistar, ao governar, a adesão da maioria do eleitorado e da sociedade..." (p. 276)

Comentário: fica claro para as amigas e amigos leitores, sejam simpatizantes ou não ao PT, que desde essa época, 1995, o partido não é movimento nem frente, não existe só pra marcar posição, como muitos partidos de esquerda. O PT quer governar e entregar direitos à sociedade com a realidade que temos nas bases sociais, o PT compõe e faz alianças, se não fizer isso, não governa.

O capítulo é longo, são vinte páginas de história. Me lembrei de muitas passagens que Zé Dirceu conta no livro. Exemplos: compra de votos para a reeleição de FHC, as privatizações criminosas, o Caso da "Pasta cor-de-rosa", o Caso Sivam etc.

"Era a velha tática tucana - amplamente benéfica aos rentistas e ao capital externo - de juros altos, câmbio valorizado, inflação baixa, déficit público. Privatizações, importações, abertura comercial e financeira. Crescimento medíocre e aumento do desemprego." (p. 289)

Comentário: e antes que os leitores falem do compromisso do 3° governo Lula com a questão fiscal e teto de gastos, insinuando que o Lula seria a mesma coisa que liberais tipo FHC, basta lembrar que os tucanos tinham maiorias no Congresso, assim como os golpistas Temer e Bolsonaro. O PT nunca teve essa condição no parlamento.

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COMENTÁRIO FINAL 

Enfim, já estamos sofrendo interferência violenta nas eleições brasileiras de 2026. 

Além da mídia comercial canalha, temos uma justiça eleitoral parcial, é minha leitura e de boa parte da mídia progressista, e temos interferência pesada das big techs e do governo fascista de Trump.

Está claro que há uma operação Lava Jato 2 em andamento, protegendo o candidato do clã Bolsonaro e uma utilização da justiça para prejudicar Lula, através de uma perseguição escandalosa a seu filho Fábio Luís, apelidado pela mídia golpista "Lulinha".

Enquanto enfrentamos esses desafios de manipulação da opinião pública e eleitores, ainda tem o fogo amigo dos "esquerdistas", como nos ensinou Vladímir Ilitch Lênin, em seu clássico texto de 1920: "Esquerdismo, doença infantil do comunismo" (comentário aqui).

Seguimos nas lutas, não há outra alternativa. 

ELEIÇÕES 

Em SP, voto e peço votos a Luna Zarattini 1302, Marcolino 13310, Marina 180, Tebet 400, Haddad 13 e Lula 13.

William 

23/08/26

sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Livros com as vozes das mulheres


Lendo e aprendendo com as mulheres 

Ao fazer minha contagem dos cem clássicos da literatura universal, percebi que foram poucas as autoras que li na vida, bem poucas. Senti a necessidade de mudar essa característica de meu percurso de leituras até aqui. Quero ler mais livros de autoras, tanto romances quanto livros de outras áreas do conhecimento humano.

Além de olhar para a frente e escolher mais autoras para ler, vou fazer uma retrospectiva do passado e recordar o que já li de livros de mulheres. Porém, também lerei mais livros sobre as mulheres, mesmo que não sejam escritos por elas.

As vozes femininas são essenciais para nós todos, independente da área onde atuamos, da visão de mundo que tenhamos, ler e ouvir o ponto de vista das mulheres é fundamental para construirmos uma sociedade humana que supere a violência ancestral dos homens em relação às mulheres.

Criando este espaço no blog com as leituras que já fiz de autoras de livros dos mais diversos gêneros discursivos e áreas de conhecimento, vou sistematizando minhas experiências com as autoras, e também vou revendo e aprendendo com as vozes femininas.

A página estará em constante modificação, pois estará em construção permanente.

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Obras lidas e comentadas no blog em ordem cronológica:


2024

1. Canção para ninar menino grande (2018) - Conceição Evaristo (link)

2.


2025

1. Bagagem (1976) - Adélia Prado (link)

2. Cachorro velho (2005) - Teresa Cárdenas (link)

3. Pequena coreografia do adeus (2021) - Aline Bei (link)


2026

1. Casa à venda: turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana (2024) - Aline Marcondes Miglioli (link)

2. Clandestina (2024) - Ana Corbisier (link)

3. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei (link)

4. Persépolis (HQ 2000/2003. No Brasil, 2007) - Marjane Satrapi (link)

5. Poemas e maravilhas de Marili Santos - Ano 2013 (link)

6. Yargo (1979) - Jacqueline Susann (link)

7.


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Livros que me impactaram muito:

1. O diário de Anne Frank (1947) - Org. Otto Frank e Mirjam Pressler

2. Felicidade fechada (2017) - Miruna Genoino

3. Banzeiro Òkótó (2021) - Eliane Brum

4. Uma delicada coleção de ausências (2025) - Aline Bei

5. Evocación (2008) - Aleida March

6. Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída (1978) - Kai Hermann e Horst Rieck

7. Lula, filho do Brasil (1996/2003) - Denise Paraná 

8.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Leitura: O alienista - Machado de Assis



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


A obra do escritor Machado de Assis (1839-1908) é uma das mais fascinantes da literatura brasileira. O Bruxo do Cosme Velho é basicamente um autor do século XIX, publicou durante décadas, mas também escreveu textos marcantes nos primeiros anos do século XX, incluindo romances, contos e outros gêneros. Sua obra é de domínio público.

A primeira publicação deste blog de cultura Refeitório Cultural, em dezembro de 2007, foi "O alienista" (1882), do mestre criador da Academia Brasileira de Letras. Ler o conto aqui.

O texto de Machado era classificado por boa parte da crítica como conto, porém vem sendo considerado atualmente como uma novela. O autor o denomina conto e, se tivermos dúvidas, podemos acatar o escritor e criador da narrativa e seguir considerando a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte como um conto. 

Reproduzo abaixo o texto de "Advertência" que Machado de Assis colocou no livro que reuniu contos que ele já havia publicado em folhetins. O livro Papéis Avulsos (1882) traz como primeiro conto "O alienista", que havia saído em "A Estação" entre outubro de 1881 e março de 1882.

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ADVERTÊNCIA

     Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.

     Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

     Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição. 

                                        Machado de Assis

Outubro de 1882.

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COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA

A advertência do escritor Machado de Assis ao reunir os contos que compõem Papéis Avulsos me lembrou uma passagem do próprio conto "O alienista", quando o Padre Lopes aponta uma qualidade do Dr. Simão Bacamarte:

"A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

- Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: - a modéstia."

A modéstia...

Na advertência ao Papéis Avulsos, Machado diz aos leitores algo digno da observação e análise do Dr. Simão Bacamarte...

"O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): 'E aqui há sentido, que tem sabedoria'. Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra."

O nosso escritor é modesto, cita o evangelista e diz haver sentido em seus textos reunidos, menos a sabedoria... 

Machado com certeza seria recolhido à Casa Verde naquele segundo momento no qual o Dr. Bacamarte libertou 4/5 da cidade e região recolhidos por terem algum desequilíbrio das faculdades mentais e só aqueles com perfeito equilíbrio mental estavam recolhidos ao manicômio.

Não nos esqueçamos que nosso mestre, além de modesto, era um gênio da ironia.

Pelas minhas anotações, li "O alienista" pela oitenta vez desde que conheci a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte. É leitura de prazer! De esperança na humanidade ao saber que nossa espécie pode escrever assim. 

A cada leitura, mais admiração tenho por Machado de Assis, por sua genialidade, por sua universalidade.

Todas as vezes que li este conto fiz o exercício de olhar ao meu redor e refletir sobre todas as questões colocadas sob análise na história do Dr. Simão Bacamarte, personagem que estudou a loucura sob o escrutínio da ciência. 

Estou assim, modestamente (rsrs) olhando a loucura e os mentecaptos ao meu redor. Talvez sejam todos normais e eu seja a pessoa com um (d)esequilíbrio das faculdades mentais...

William 

11/08/26

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Livro: Yargo - Jacqueline Susann



Refeição Cultural

LITERATURA

"Ah, Deus, implorei. Se for alguma coisa de Marte, não deixe que seja rastejante. Não me importo que tenha três olhos ou duas cabeças, só peço que não seja viscoso ou rasteje. Apoiei-me contra a parede e esperei."


Jacqueline Susann (1918-1974) escreveu em meados dos anos cinquenta do século passado um romance de ficção científica - Yargo (não publicado à época). 

A atriz e escritora norte-americana foi uma mulher que se destacou por sua capacidade de criação literária e por se impor como pessoa pública com opiniões próprias mesmo em sociedades tipicamente machistas e patriarcais. 

Li que ela tinha um altíssimo Quociente de Inteligência (QI), medidor muito comum naquele tempo. Como toda mulher, ela teve que ser muito firme em seus propósitos para ter uma carreira exitosa naquilo que escolheu fazer: escrever e interpretar.

Seu primeiro romance de sucesso foi O vale das bonecas (1966). Os dois romances seguintes - A máquina do amor (1969) e Uma vez só é pouco (1973) - tiveram boa acolhida dos leitores também: ela foi campeã de vendas. No Brasil, seus livros foram publicados pelo Círculo do Livro. A escritora faleceu precocemente, aos 56 anos, vítima de um câncer. Dois livros dela foram publicados após sua morte: Dolores (1976) e Yargo (1979).

Eu nasci em 1969 e passei a ler livros nos anos oitenta. Morava em Uberlândia (MG) e nossa família era muito humilde, éramos brasileiros típicos que lutavam diariamente para sobreviver num país violento contra os pobres e despossuídos e de impunidade aos ricos e donos do poder político. Meu primo Jorge Luiz assinava o Círculo do Livro e emprestar livros dele para ler foi uma oportunidade definidora de meus gostos naquele momento e como adulto.

Eu também dava meus jeitos de ler livros de interesse à época, ou comprando ou pegando na biblioteca da escola. Ficção científica, suspense e terror, ciências e coisas misteriosas eram alguns temas de meu interesse. Discos voadores, monstros, deuses e demônios, Triângulo das Bermudas, Atlântida, misticismo, histórias antigas de povos e civilizações etc, eu acreditava em tudo isso e lia muitos autores que abordavam esses temas.

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"Mais um líder se pôs de pé, com uma magnífica sugestão. Segundo a tradução de Sanau, a proposta dele era me fazerem uma lavagem cerebral e me mandarem de volta à Terra..."

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Foi esse rapaz que leu Yargo (1979), de Jacqueline Susann, ainda morando em Uberlândia. Aos 17 anos eu iria voltar para São Paulo, deixando meus pais em Minas Gerais. Devo ter lido dezenas de livros durante minha adolescência mineira, e alguns deles me impactaram e sem dúvida compuseram a pessoa na qual fui me transformando com o passar dos anos. Este romance de Susann foi um dos livros que nunca me esqueci, a história de Janet Cooper compôs minha memória de longo prazo. Óbvio que na memória o que ficou foi a lembrança da moça que foi abduzida na praia, sem detalhe algum.

Faz uns quinze anos, meu primo Jorge me perguntou se queria pegar alguns dos livros antigos dele, pois estava se desfazendo de tudo que era mídia de cultura em meio físico para só ter coisas digitais e virtuais. Eu escolhi livros como esse de Jacqueline Susann e, às vezes, sinto o desejo de reler um dos livros que li décadas atrás, no início de minha vida adulta, para tentar me encontrar com aquele rapaz que fui, naquele contexto, e tentar compreender como aqueles livros me caíram nos pensamentos e ideias que tinha à época. A experiência é bem interessante!

Ao decidir recentemente ler mais livros de mulheres e sobre mulheres, escritoras, poetas e políticas, pensei em alguns livros que tenho em casa, lidos ou aguardando a leitura. E o romance sobre aquela moça que foi abduzida na praia, e que ficou em minha lembrança como um livro marcante, de Jacqueline Susann, foi o escolhido dessas últimas semanas. Gostei do romance!

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"- Talvez eu possa esclarecer este desejo com um exemplo pessoal. Quando você era criança, Janet, provavelmente pensava que nunca iria para a cama, se permitissem. Quando chegava a hora, você relutava, como todas as criança, utilizando os mais diversos recursos. Contudo, agora que está mais velha e pode ficar acordada até a hora que quiser, há vezes em que recebe de bom grado o sono, e se entrega a ele voluntariamente. Assim é a morte para um yargoniano maduro."

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O livro é muito bem escrito. A autora teceu uma história que permite aos leitores, tanto da época quanto de hoje, perceberem as bases da sociedade norte-americana de meados do século vinte, os costumes e contradições, os temas em evidência naquele cenário de início de Guerra Fria e de efervescência consumista do estado de bem-estar social pós 2ª Guerra Mundial. É nítido o papel esperado das mulheres ao lado de seus maridos provedores do lar, a corrida armamentista e espacial entre EUA e URSS, o mundo religioso dos capitalistas em contraposição ao mundo dos ateus comunistas etc.

Aquelas décadas da segunda metade do século vinte alimentaram a imaginação de boa parte da população ocidental com a possibilidade de haver vidas inteligentes em outros planetas, discos voadores, viagens no tempo e espaço, formas de se dominar a mente das pessoas, poderes paranormais e super-homens e mulheres. O jovem que fui acreditou em absolutamente tudo isso. Eu li Charles Berlitz, J. J. Benítez, Erich Von Däniken, li vários livros de terror, demônios, fantasmas...

Enfim, valeu a leitura! Hoje sou outra pessoa, outro leitor. E tenho muitos livros a ler e reler, os clássicos que não li, os novos que estão sendo lançados e os livros que merecem a releitura. Inclusive fiquei interessado nos outros romances de Jacqueline Susann.

William

05/08/26


Bibliografia:

SUSANN, Jacqueline. Yargo. Tradução: Isabel Paquet de Araripe. Círculo do Livro. São Paulo, 1979.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Instantes (16h20)



Refeição Cultural

LEITURAS


Enquanto tentava ler no vagão do trem, um sujeito falava ao celular com uma garota. Tinha menos de trinta anos. Contou algumas vantagens sobre si a ela, a convidou pra jantar e dormir na casa dele, e para quebrar a resistência dela em aceitar, disse, então, que só jantassem. Disse que da outra vez a culpa foi dela, por ter trocado de roupa na casa dele. O tipo era desses que começou dizendo que foi orar pela manhã. Ao sair do trem, escolheu um senhor idoso perto dele, que também ouviu sua conversa, e lhe disse rindo que "a garota deu porque quis, né?".

Já em casa, concluí que foi inútil levar meu livro na mão, pensando em ler um pouco no transporte público. Li poucas páginas e ainda se estraga um pouco a capa com o suor da mão. Minha edição do romance Yargo, de Jacqueline Susann, é do Círculo do Livro, do início dos anos oitenta: bem velhinha pra um livro. Ganhei a edição de meu primo Jorge Luiz, de Uberlândia. Li o livro antes dos 17 anos. Enfim, multipliquem esse caso do sujeito que estava xavecando uma garota pelo celular por inúmeras conversas do tipo ao mesmo tempo em um vagão e concluam se é possível ler um livro no trem. Já era!

Quando fechei o livro, fiquei observando as pessoas no trem, depois nas ruas da Barra Funda, por onde andei. Depois no trem novamente. Estar entre o povo, observar a realidade ao nosso redor, é uma oportunidade de reflexão e tentativa de compreensão sobre nós mesmos, nossa espécie, nosso ambiente cultural, e também uma forma de pensar sobre o passado, presente e futuro. Somos isso que está aí... todos nós, vocês e eu.

No romance, na parte em que estou, os yargonianos não querem mandar Janet Cooper de volta à Terra por considerarem ela uma pessoa comum de nossa espécie, mediana, medíocre, sem capacidade de transmitir a questão complexa envolvida na trama e por ela não ter representatividade junto às comunidades humanas. A ideia era ter levado a Yargo o Einstein ou outro cientista de renome nos anos cinquenta. O começo do romance, guardadas as devidas diferenças, não deixa de ser um pouco como a cena de costume que vi no trem. Janet estava em seus dias de preparo para o casamento, um dos papéis atribuídos às mulheres naquela sociedade norte-americana àquela época, meados do século passado.

Pensando o povo no trem, nas ruas, nos dias de hoje, a Janet Cooper do romance, eu nos dias de hoje, o leitor e sujeito que fui nos anos oitenta, senti uma espécie de pessimismo (não fatalismo), mas uma consciência clara da dificuldade que temos para superar o projeto das elites econômicas de idiotizar a espécie humana, tornar nossa gente ignorante e, pior ainda, orgulhosa de não saber de quase nada que todos já deveríamos saber no atual estágio de desenvolvimento. 

Os acasos e veredas que me fizeram ter um pouco de consciência política hoje, eventos que moldaram meu caráter e definiram minha vida, em caminho diverso em relação aos meus pares no ambiente de onde vim, estão mais raros hoje. Se eu estivesse começando minha jornada, vindo de onde vim, dificilmente seria essa pessoa que sou: um homem com valores da esquerda. 

William 

03/08/26

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Livro: O pão e a pedra - Sérgio de Carvalho



Refeição Cultural

"Porque a representação é a procura do outro. É a alegria de viver o que não somos. Representar não é forjar estados, mas construir mudança." (p. 44)


Ganhei de presente, dias atrás, de Sérgio de Carvalho e Marili Santos um box com três peças teatrais da Companhia do Latão. Uma edição lindíssima!

O box contém as peças O pão e a pedra, Os que ficam, e Lugar nenhum.

Como leitor, tenho pouca experiência com peças teatrais. Li alguns clássicos de William Shakespeare e mais algumas peças, pouca coisa. Tenho muito que aprender ainda.

A peça O pão e a pedra (2016) traz em seu enredo a greve dos metalúrgicos do ABC em 1979, momento de surgimento do Novo Sindicalismo, com Lula sendo uma das principais lideranças sindicais no enfrentamento à carestia e ao autoritarismo da ditadura mancomunada com as elites patronais.

Gostei muito da peça! Me lembrei um pouco de Eles não usam black-tie, de Gianfranchesco Guarniere (minha referência é o filme de Leon Hirszman). Ver a Companhia do Latão interpretando O pão e a pedra deve ser muito emocionante!

Sérgio de Carvalho faz uma apresentação no início do livro muito esclarecedora. 

Me sensibilizei na hora com as informações e o contexto no qual a pré-estreia se deu, no dia 12 de maio de 2016, dia do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Senado brasileiro. Um ato infame como foi toda a ditadura que enfrentamos por duas décadas. 

O parágrafo a seguir exemplifica a pesquisa desenvolvida pelo autor dramaturgo sobre as relações entre os movimentos da época: igreja, sindicatos, estudantes etc.

"A procura de compreensão daquele momento histórico pouco conhecido, em que os religiosos realizaram uma resistência ativa à ditadura civil-militar, me aproximou, entretanto, de outras questões. A mais importante foi a da relação entre esse clero progressista e o chamado 'novo sindicalismo', que se desenvolveu e ganhou projeção nacional com as grandes greves do ABC nos anos de 1978, 1979 e 1980. Essa junção entre a igreja e o movimento de trabalhadores, tensionada pela pressão de setores intelectualizados e o movimento estudantil de esquerda, se tornaria emblemática na luta pela democratização e mudaria as coordenadas da política de esquerda no país." (p. 10)

Depois Sérgio de Carvalho nos explica os motivos da escolha da greve de 1979: 

"(...) Para todos nós, fortalecia-se uma perspectiva da história: a das dificuldades do aprendizado político daqueles trabalhadores que enfrentaram a ditadura e o aparato midiático patronal, num processo que durou sessenta dias. Foram quinze dias de máquinas paradas e 45 dias de 'trégua' com mobilização dentro e fora das fábricas. Ao final das contas, esta seria uma peça sobre aprendizado, o deles e o nosso..." (p. 11)

Momento mágico (e histórico)

A cena de Lula discursando sem sistema de som na assembleia do dia 13 de março de 1979, no Estádio da Vila Euclides, com sessenta mil trabalhadores, é um momento mágico na história da classe trabalhadora brasileira. Ela se dá no Primeiro ato, Cena 8, "Corais da Vila Euclides". 

Destaco, porém, que não há representação do personagem Lula. Há uma ausência consciente do líder, de maneira que vivenciamos no drama as pessoas comuns tomando as decisões e fazendo o que pessoas comuns fazem.

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Comentário final 

A leitura da peça e dos textos excelentes que acompanham a edição - de Mario Sergio Conti e Maria Lívia Goes - dão aos leitores uma experiência enriquecedora sobre a temática desenvolvida pela Companhia do Latão. 

Realmente, a leitura é um momento cultural de muita reflexão e aprendizagem.

Recomendo a experiência às amigas e amigos leitores.

William 

29/07/26


Bibliografia:

CARVALHO, Sérgio de. O pão e a pedra. São Paulo: Editora Temporal, 2019.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Livro: caprichos & relaxos - paulo leminski



Refeição Cultural


"luxo saber


além destas telhas 

um céu de estrelas" (ideolágrimas)


Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas. 

Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade. 

Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).

É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985. 

Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.

Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé. 

Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro. 

Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!

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Golpes certeiros de Leminski:


caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)


"(...)

quem está por fora

não segura

um olhar que demora" (p. 17)

*

"a árvore é um poema 

não está ali

para que valha a pena 


está lá 

ao vento porque trema

ao sol porque crema

à lua porque diadema


está apenas" (p. 27)

*

---

polonaises


"aqui


nesta pedra


alguém sentou

olhando o mar


o mar

não parou

pra ser olhado 


foi mar

pra tudo quanto é lado" (p. 50)

*

---

não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase 


"poema na página 

mordida de criança 

na fruta madura" (p. 67)

*

"en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas" (p. 77)

*

---


ideolágrimas


"   hoje à noite 

até as estrelas 

     cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)

*

"verde a árvore caída 

vira amarelo

a última vez na vida" (p. 102)

*

---

sol-te


"eu te fiz

agora 


sou teu deus

poema


ajoelha

e

me

adora" 

(p. 136)


*


*

Comentário final 

Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.

Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. 

Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.

Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.

William 

28/07/26

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de julho de 2026. Terça-feira. 


07h46

Perdi o sono antes das 5h30. Dormi pouco. Era de se esperar que depois de uma semana dormindo em cama estranha, na Colônia dos Professores na Praia Grande, o corpo aproveitasse o colchão de costume para descansar. Não rolou. 

A cabeça está fervilhando com a tal biblioteca e espaço cultural que quero fazer, uma espécie de centro de documentação, um canto de cultura,  história e memória. Preciso pensar uma forma de fazer isso. Sinto que não tenho tempo sobrando para esperar. Cada dia é um dia a menos. 

Vou comer alguma coisa, fazer exercícios para a minha memória com a língua japonesa, e ler livros iniciados. Na ordem, vou terminar Leminski, depois Sérgio de Carvalho, depois Jacqueline Susann. Esses três. Depois vejo a sequência. 

Fiquei a semana toda com uma gripe fortíssima, ainda estou todo verde por dentro e com tosse. Imagino que se não tivesse tomado a vacina da gripe deste ano, estaria mais ferrado ainda. 

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15h29

"o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz 

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique "


A gripe faz a gente ficar meio merda. Assoar o nariz o tempo todo, aquele nojo, argh. A tosse deixa a gente sem paciência. 

Fui ao mercado numa leseira só. Estou lendo o Leminski. Seus poemas são seus golpes de caratê mesmo, perfeitos. 

De manhã, exercitei meu cérebro, o verdadeiro criador de tudo, criando associações para memorizar desenhos de ideogramas, sons das palavras e significados.

Faz dois meses que tive descolamento do humor vítreo do olho esquerdo... o embaçamento das primeiras semanas passou, já posso dirigir. Agora convivo com as "moscas volantes". E consigo ler.

Como diz o poeta:


"não discuto

com o destino 


o que pintar 

eu assino"


É por aí, Leminski...

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23h42

A gripe segue me impedindo de praticar atividades físicas. A tosse seca deixa a gente bastante estressado e irritadiço. Mas vou melhorar.

Terminei o livro caprichos & relaxos (1983), de Leminski. Fiz postagem no blog. 

Vi o pôr do sol. Ouvi os passarinhos.

Trabalhei um pouco na sistematização de meus textos nos blogs. Tenho que ter disciplina para organizar os cadernos dos blogs e dedicar algum tempo diariamente para essa tarefa.

Vamos dormir para contribuir com a recuperação do corpo.

William

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal) - Leo Ricino



Refeição Cultural

LITERATURA E HISTÓRIA 


"(...) e só agora, aos quarenta e sete, estou a conseguir, por um motivo muito forte, me expor e falar espontaneamente de mim, inclusivamente desse meu problema pessoal, essa gaguez que sempre me acompanhou e da qual tive vergonha durante minha vida toda. Não poucas vezes acabei sendo mais cruel, como resultado da minha não aceitação dela e pela pequenez como ser humano que projetava em minha mente perturbada. Talvez." 


Li nesta semana um livro bem interessante. Aprendi muito sobre a história portuguesa, mesmo sendo um texto de ficção: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal), edição de 2019.

O autor - Leo Ricino - nos passa de forma leve e descontraída uma versão ficcional de como teria sido a vida e os instantes finais do 8° monarca português, D. Pedro I, que governou o Reino entre 1357 e 1367. Leo utiliza sua erudição em benefício dos leitores. 

No romance, o monarca D. Pedro I, o Justiceiro, já em seu leito de morte, ganha voz e escreve de punho uma autobiografia não formal, diferente daquela que constará nos anais da história. 

Leo nos esclarece que D. Pedro I de Portugal, em sua autobiografia, quer ficar conhecido em sua totalidade, em sua essência humana, e não somente com as formalidades oficiais do cargo, quer ir além da alcunha de "Justiceiro".

E aí, se preparem, leitor e leitora, pois vocês vão descobrir as maldades e vilanias do monarca português, ditas por ele mesmo, num momento no qual ele não tem nada a perder.

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"A raiva, a ira, a revolta e a sede de vingança ofuscam a clareza do pensamento e do agir, pois as decisões tomadas nos momentos de exacerbação da força sanguínea por todo o corpo carecem de claridade. E muito agi sob esses efeitos."

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Vamos viajar no tempo e nos costumes da Corte, veremos uma versão sobre Inês de Castro, famosa e conhecida por todos que já leram Camões ou que estudaram para vestibulares. 

Durante a leitura ficcional, os leitores sentem uma curiosidade incrível de ir aos manuais de história portuguesa para compilar história e ficção. Muito estimulante o método. 

Conhecemos o professor Leo e a professora Isabel, casal de amizade cativante, na Colônia dos Professores localizada na Praia Grande (SP). 

É isso, amig@s leitores. O livro está disponível no formato digital. Vale a pena ler essa ficção com pitadas de história. 

William 

24/07/26

terça-feira, 21 de julho de 2026

Leitura: Poemas e maravilhas de Marili Santos (ano 2013)



Refeição Cultural

POESIAS E MARAVILHAS LITERÁRIAS


"TRINDADE

O que faz a vida deixar de parecer feliz
e sê-la de fato, é tão ridiculamente
simples, que às vezes deixamos de olhar e sentir o óbvio."


Após mergulhar na produção cultural da professora, poeta e escritora Marili Santos, lendo suas publicações dos anos de 2011 e 2012, embarquei na viagem através de seus textos publicados em 2013. São 133 obras de artes no referido ano e mais de 500 nos três primeiros anos do blog. 

As variações nas formas poéticas e nas temáticas das composições são muito interessantes. Poemas, haicais, elegias, contos, crônicas, brocardos (que eu nem sabia o que significavam) e textos diversos compõem um verdadeiro refeitório cultural para todos os tipos de gostos e sabores. Um verdadeiro acalanto. E por falar em acalanto:

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ACALANTO

Era bem cedo quando a velha senhora separava as gemas das claras, uma a uma, jogando na vasilha de ágata as preciosas, amarelos-ouro. Ao todo eram doze somente gemas. Arrastava as chinelas para cá e para lá, em movimentos deslizantes do chão recém-encerado. Pegou o vidro e mediu no prato fundo de sempre, do açúcar mais grosso, quase cristal, ajeitando as bordas com o dorso da colher de pau. Começou a bater as gemas com o açúcar primeiro lentamente, enquanto assoviava baixinho qualquer canção, depois o fremir era intenso; a melodia acompanhava agora os movimentos rápidos que nem a velhice havia ainda levado. Com a mão desocupada apanhava bocados de farinha de trigo que eram salpicados à mistura e assim, a massa ganhava o corpo que a boa e solitária mulher queria. O ponto era o mesmo de quarenta anos, nem um grama a mais nem um a menos de trigo. Chegou. A tábua longa disposta sobre a mesa esperava a mistura pronta para ser esticada, na espessura ideal e em seguida, ser cortada pela carretilha. Untou com manteiga bem gorda. Os sequilhos agora prontos descansariam o tempo certo de ela limpar o pouco que sujou. As pernas doíam demais e a saudade também. Sentada. Vigiava. Há que se vigiar, pois assam muito rápido. O cheiro era doce e terno. Colocou a segunda fornada.

Ouviu o chamado lá de longe, eram os netos, eram os netos.

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Uma coisa que aprendi nas aulas do curso de Letras, em uma disciplina de leitura de poesias, é a importância de conhecer os significados das palavras; procurar em dicionários os sentidos e possibilidades de sentidos das palavras da língua utilizada na confecção dos textos literários e poéticos.

Para ler os textos da escritora Marili Santos achei necessário deixar de lado a preguiça comum dos leitores e ir atrás do sentido das palavras para navegar melhor por seu mar de poesias, crônicas, haicais e outras maravilhas.

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PARALAXE

Eu você

Aqui e lá

Nós sem fim

Vento sim

Mudam-se

Olho e vejo

Você não vê

Que se há de fazer?

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Imaginem se, de supetão, os leitores sabem de brocardos, senescência, criptograma, malsinar, sobre o "Olho de Hórus", paralaxe, arquilexemas e arquifonemas e palavras várias de nossa língua pátria!

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Senescência

Broto vivo
em mim
nada é velho
vivo sem fim
seiva corre
em si
essência da vida
enfim.

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Por outro lado, para variar e alternar com os poemas mais exigentes, outros são pérolas com a linguagem mais prosaica e cotidiana possível.

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QUADRINHA SOLITÁRIA

Na calada da madrugada
A mulher escuta seu amigo
O gotejo da pia principia
Já pode dormir em paz!

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Enquanto degusto cada maravilha cultural da poeta Marili Santos, aprendo e reaprendo os sentidos da linguagem humana.

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CONEXOS

dita
dita-me
ditame
dito
dito-cujo
ditador

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Uma realidade comum na existência das pessoas que dedicam parte de suas vidas para nos presentear com seus textos são os momentos de pouca inspiração e de bloqueios criativos. Eu já enfrentei instantes assim diversas vezes quando precisava escrever sobre algum tema.

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SEM INSPIRAÇÃO OU... que saco!

Fico pensando
que faz o poeta
o escritor, amante
namorado, professor
cozinheiro, escultor, ator, criador
qualquer ser que depende da inspiração... precisei de sete dias para escrever essa porcaria... Deus também precisou.

Que saco!

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A simplicidade prosaica de alguns poemas, elegias, haicais e crônicas, conjugada com a perfeição do uso das palavras para dizer algo que muitas vezes nós queríamos dizer e não sabíamos como dizer, é algo que só se encontra nas tecituras dos poetas.

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APOTEOSE

Adoro ver gente
que passa pelo
abismo, dor e
provação e tudo
tudo de mais
agressivo e
mesmo assim
sabe o que é viver!

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Não é!? O eu-lírico de "APOTEOSE" disse tudo! É preciso saber viver, já dizia o poeta na música dos Titãs.

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COMENTÁRIO FINAL

Como disse no início, degustar os textos de Marili Santos em seu blog Valsa Literária é um verdadeiro banquete naquele refeitório cultural.

Aos poucos, vou conhecendo a produção poética e literária da professora e escritora. 

O que nos faz humanos é o que nos diferencia dos demais animais e seres vivos na natureza. Produzir cultura é uma das características dessa espécie única que somos.

Se vocês apreciam poesia e outras formas de manifestações culturais, visitem o blog Valsa Literária, vocês vão gostar muito.

William

O blog: https://valsaliteraria.blogspot.com

sábado, 11 de julho de 2026

Lendo e aprendendo com as mulheres



Refeição Cultural

Ao fazer minha contagem dos cem clássicos da literatura universal, percebi que foram poucas as autoras que li na vida, bem poucas. Senti a necessidade de mudar essa característica de meu percurso de leituras até aqui. Quero ler mais livros de autoras, tanto romances quanto livros de outras áreas do conhecimento humano.

Na minha lista dos clássicos apareceram Jane Austen (Razão e sensibilidade), Cecília Meireles (Viagem), Adélia Prado (Bagagem), Shirley Maclaine (Minhas vidas), Margo Glantz (Las genealogías), Clarice Lispector (A hora da estrela), Conceição Evaristo (Becos da memória), Agatha Christie (O caso dos dez negrinhos), Anne Frank (O diário de Anne Frank) e só. Muito pouco! De 100 clássicos, somente 9 escritoras.

Além de olhar para a frente e escolher mais autoras para ler, vou fazer uma retrospectiva do passado e recordar o que já li de livros de mulheres. As vozes femininas são essenciais para nós todos, independente da área onde atuamos, da visão de mundo que tenhamos, ler e ouvir o ponto de vista das mulheres é fundamental para construirmos uma sociedade humana que supere a violência ancestral dos homens em relação às mulheres.

Vou criar mais uma página no blog com as leituras que já fiz de autoras de livros dos mais diversos gêneros discursivos e áreas de conhecimento. Enquanto vou sistematizando minhas leituras, vou revendo e aprendendo com as vozes femininas.

William

11/07/26

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Livro: Uma delicada coleção de ausências - Aline Bei



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA 


Sei que devo cumprir meus objetivos de ler os clássicos, sei. Entretanto, o novo sempre vem, clama por nós, leitores e amantes da leitura. 

Sem prever, li o primeiro livro de Aline Bei - O peso do pássaro morto - no ano de 2020 (comentário aqui). Gostei. 

Depois, li seu segundo romance-poesia - Pequena coreografia do adeus -, no final do ano passado (ler aqui). Gostei também. Uma nova poética, e em tempos duros para a cultura!

E então, antes de algum clássico para este momento, de alguma coisa antiga, mergulhei na terceira novidade de Aline: Uma delicada coleção de ausências

Na hora que peguei o livro na mão, já elenquei minha delicada coleção de ausências... Uma forma de memorizar o nome do livro. Foi só me lembrar de algumas ausências delicadas...

Destaco abaixo algumas reflexões poéticas que sintetizam a vida e os seres que aqui habitam. Ideias-força da poeta filósofa mulher Aline Bei.

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Nostalgia 

"Irá sentir um poema ao tempo vivido que é a nostalgia. mas é preciso que aconteça daqui a muitos anos. é preciso primeiro Esquecer, para então verdadeiramente lembrar." (p. 32)

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Nu

"ela procura na bolsa a chave do portão. quando olha para Camilo é por engano, não sabe de onde vem isto, mas nunca se deve olhar um rosto depois que a conversa acaba, senão é provável que o veja nu." (p. 81)

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Sangue "maldito"

"pois que o bom Deus a perdoasse, que lhe desse ao menos um pouco de juízo e que perdoasse também a menina, que carrega no sangue toda essa maldição." (p. 108)

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Aos filhos e netos

"aos filhos e netos, é preciso contar da própria vida conforme a deles desabrocha. é preciso esperar que o passo se alinhe, para que saibam ouvir melhor." (p. 134)

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Os segredos 

"pois há coisas que ao serem ditas perdem ainda mais volume do que quando existiam apenas no silêncio. há coisas que só não morrem (ou matam) quando mantidas longe das palavras, no escuro." (p. 156)

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Envelhecer

"talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto já ter sido visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrer por antecipação." (p. 159/160)

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Sorte sua se tocar o coração de duas ou três pessoas 

"Margarida ainda disse que tocar o coração de todos não é possível, nunca será o mundo quem sentirá a nossa falta. tocar duas ou três pessoas - isso é a vida dos que têm sorte." (p. 204)

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Alegria 

"é preciso cuidar da alegria também." (p. 271)

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Uma delicada coleção de ausências 

O desfecho do romance deixa a leitora e o leitor paralisados, passados... eu fiquei bolado na hora, já nas últimas páginas do enredo. Minha esposa ficou vários dias se sentindo muito incomodada com o romance. A catarse se impõe... não é esse o efeito modificador dos dramas, tragédias e comédias desde a antiguidade?

As histórias de neta, avó, e bisavó, e também a história da mãe e filha ausente se completam, se explicam, tudo se explica no desfecho que é uma metáfora da mais pura realidade em milhares de famílias desse mundão duro e perverso do universo dos homens do mundo.

Laura, Margarida, Filipa e Glória representam em suas singularidades o que enfrentam as mulheres no dia a dia do mundo, ontem, hoje, e infelizmente num longo amanhã, apesar das lutas incessantes pela ocupação de todos os espaços nos quais as mulheres desejem estar no mundo.

Por fim, a poética de Aline Bei, a ocupação de espaços nas páginas de seus livros e a particularidade de sua escrita a fazem poeta, cronista, romancista, dançarina, e de sobra, seus leitores experimentam o novo ao lerem seus livros.

O peso do pássaro morto...

Pequena coreografia do adeus...

Uma delicada coleção de ausências...

Seus três romances são obras de arte, literatura da melhor qualidade. E com a catarse para nos deixar bolados, passados, incomodados... e quiçá modificados ao final da experiência de leitura.

Que venham as próximas histórias, as substâncias narrativas com as preposições que relacionam as causas, consequências, origens e posses das coisas, como a própria vida é.

William

10/07/26


Bibliografia:

BEI, Aline. Uma delicada coleção de ausências. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Livro: Esquerdismo, doença infantil do comunismo - Vladímir Ilitch Lênin



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA


INTRODUÇÃO 

As reflexões e ensinamentos do grande líder revolucionário russo Vladímir Ilitch Lênin, que além de ser um homem da práxis era um intelectual orgânico do movimento de esquerda internacional, sempre foram referências para nós da esquerda brasileira. 

A minha formação política não foi revolucionária, devo registrar essa questão logo de cara em meus comentários sobre a leitura do livro Esquerdismo, doença infantil do comunismo, texto escrito por Lênin em 1920. Fui politizado pelo movimento sindical bancário, na corrente política Articulação Sindical da CUT, corrente surgida em meados dos anos oitenta. 

Quando virei dirigente sindical da CUT, no início dos anos dois mil, já tinha mais de trinta anos de idade e uns doze anos de categoria bancária. Mesmo assim, foram necessários alguns anos de sindicalismo cutista para compreender o que eu era e representava, nossas concepções e práticas sindicais. 

O Novo Sindicalismo surgido nos anos setenta e oitenta, liderado por figuras como Lula dos metalúrgicos, Gushiken e Augusto Campos dos bancários, e outras lideranças da classe trabalhadora brasileira, tinha na sua práxis muito do que li nesta clássica obra de Lênin, mesmo não sendo um movimento revolucionário. 

A CUT nasceu com outra concepção sindical, principalmente sua corrente hegemônica, a Articulação Sindical. Os sindicatos tinham como prioridade conquistar direitos e melhores condições de trabalho e não o foco na revolução socialista, como um braço do partido revolucionário. 

Enfim, essa obra de Lênin sobre o esquerdismo infantil sempre balizou o nosso sindicalismo, principalmente no que diz respeito as estratégias e táticas para se alcançar os objetivos, tanto imediatos quanto históricos da classe trabalhadora. O que li não foi diferente do que ouvi, aprendi e pratiquei enquanto dirigente sindical cutista. 

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POR QUE LI AGORA O TEXTO DE LÊNIN?

Recentemente, em um evento internacional, o presidente Lula afirmou para lideranças políticas de grandes países, que nunca foi "esquerdista". Isso gerou diversas reações aos mais diversos espectros políticos que existem. 

Pela vivência e experiência ao ser militante cutista por décadas, entendi perfeitamente o que Lula disse, e é exatamente isso: Lula nunca foi um "esquerdista", num sentido muito parecido ao que Lênin desenvolve em seu texto: não fazer frentes com grupos diferentes mais à direita e ao centro; não disputar parlamentos e eleições burguesas; não fazer composições com pelegos para fazer parte de sindicatos etc.

A CUT e o PT também nunca foram "esquerdistas" no sentido leninista de táticas e estratégias. É a minha opinião. São de esquerda, mas construíram suas histórias de lutas e conquistas fazendo mobilizações com frentes amplas, compondo com forças políticas diferentes, participando de parlamentos e direções sindicais conservadores e "pelegos" em composições de chapas, organizando movimentos e negociando avanços para seus representados - a classe trabalhadora -, sempre construindo reivindicações que congregam questões imediatas e históricas e de interesse das classes populares. 

Comecei a ler o livro através de uma edição digital, no Kindle, e acabei comprando uma edição impressa, na qual finalizei a leitura. 

Aliás, edição espetacular a da série "Armas da crítica", Arsenal Lênin, da Boitempo, 2025. Recomendo!

Foi muito bom ler Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de Vladímir Ilitch Lênin. 

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Apresentação 

O texto inicial de Atilio Borón na edição que adquiri da Boitempo foi muito esclarecedor sobre as ideias marxistas-leninistas.

Li a apresentação após o fim de minha leitura do livro e ensaio de Lênin no Kindle. São 30 páginas que agregam muita informação. 

Estava terminando a leitura na edição virtual quando decidi ter o livro "de verdade" rsrs, em edição impressa. 

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Apêndice - Sobre a doença infantil do "Esquerdismo" e o espírito pequeno-burguês

Texto de maio de 1918. Excelente e muito atual para pensarmos a China que chegou até aqui, na minha opinião.

Lênin aborda bastante o Capitalismo de Estado, etapa necessária para se chegar ao Socialismo de Estado. Algo assim, nas minhas palavras. 

Alguns excertos:

Correlação de forças 

"(...) Quando éramos representantes de uma classe oprimida, não adotávamos uma atitude leviana perante a defesa da pátria na guerra imperialista, negávamos por princípio essa defesa. Quando nos tornamos representantes da classe dominante que começou a organizar o socialismo, exigimos que todos tivessem uma atitude séria perante a defesa do país. E ter uma atitude séria perante a defesa do país significa preparar-se a fundo e ter rigorosamente em conta a correlação de forças. (...) Mas entre os 'comunistas de esquerda' não existe o menor indício de que compreendam a importância da questão da correlação de forças." (p. 162)

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Capitalismo ou Socialismo de Estado

"O socialismo é inconcebível sem a grande técnica capitalista baseada nas últimas descobertas da ciência moderna, sem uma organização estatal planificada que submeta dezenas de milhões de pessoas à mais rigorosa observância de uma norma única na produção e na distribuição dos produtos. Nós, marxistas, sempre falamos sobre isso, e não vale a pena perder nem sequer dois segundos conversando com gente que não compreende nem sequer isso (os anarquistas e uma boa parte dos socialistas-revolucionários de esquerda)." (p. 169)

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"(...) Pois o socialismo não é outra coisa senão o passo em frente seguinte a partir do monopólio capitalista de Estado. [...] O capitalismo monopolista de Estado é a mais completa preparação material do socialismo, é a sua antecâmara, é o degrau da escada da história sem nenhum degrau intermediário entre si e o degrau chamado socialismo.*" (p. 171/172)

*A catástrofe que nos ameaça e como combatê-la (1917), de Vladímir Ilitch Lênin 

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"De qualquer ponto que se aborde a questão, a conclusão é uma e só uma: o raciocínio dos 'comunistas de esquerda' sobre o 'capitalismo de Estado' ser uma ameaça é um completo erro econômico e uma prova clara de que eles são prisioneiros absolutos da ideologia pequeno-burguesa." (p. 172)

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Marx e a grande produção 

"(...) Marx tinha a mais profunda razão quando ensinava aos operários a importância de preservar a organização da grande produção para facilitar a transição ao socialismo..." (p. 174)

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"(...) Os operários não são pequenos burgueses. Não temem o grande 'capitalismo de Estado', apreciam-no como um instrumento seu, proletário, que o seu poder soviético utilizará contra a desagregação e desorganização dos pequenos proprietários." (p. 179)

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"(...) o socialismo é impossível sem aproveitar as conquistas da técnica e da cultura pelo grande capitalismo..." (p. 180)

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Lênin termina o texto explicando que os revolucionários russos precisaram naquele momento da história (1918 a 1920) dos conhecimentos dos capitalistas para aprenderem a técnica, coisa que os chineses fizeram por umas três décadas no final do século, até dominarem a economia mundial como vemos no século XXI.

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Comentário final 

Enfim, feita a leitura deste grande clássico da literatura política. Fiz mais três postagens no blog durante a leitura.

A obra de Lênin trouxe muitas explicações para o mundo que eu conheço na atualidade. Incrível!

Sigamos lendo e tentando conhecer a história e compreender o mundo. 

William 

06/07/26


Bibliografia:

LÊNIN, Vladímir Ilitch (1870-1934). Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Tradução: Edições Avante!. 1. ed. - São Paulo: Boitempo, 2025.