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sábado, 20 de abril de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 20 de abril de 2024. Sábado.


O MUNDO TÁ FODA!

Ao acordar, passei a primeira hora deitado, lendo um pouco de notícias. Fiquei pensando nos acontecimentos de meu cotidiano recente, e naturalmente pensei sobre a política e sobre o nosso país. Mesmo fora do movimento sindical, sou um ser político, não estou alheio aos acontecimentos.

As perspectivas do amanhã, no meu caso particular e no caso de nosso país, são complexas. Digo "complexas" para não dizer que são "ruins". Os otimistas diriam que são "desafiadoras". As maneiras como se dizem as coisas têm objetivos e efeitos específicos nas técnicas de comunicação. No fundo, no fundo, tá foda!

Meus conhecimentos adquiridos durante a jornada da existência me impõem atitudes e comportamentos que não podem ser deixados de lado simplesmente por um desejo imediato de ligar o botão do foda-se. Conheço muita coisa da vida política. Só deixarei de ver o mundo como vejo com uma eventual doença degenerativa do cérebro ou com minha morte.

Enquanto pensava nas coisas recentes, ainda deitado, pensei que tem tanta coisa rolando no meu mundinho e no mundão lá fora, que quase tive vontade de listar coisinhas e coisonas para visualizar melhor as coisas e organizar as ideias.

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LEITURAS

Neste ano, não estou conseguindo escrever sobre minhas leituras. Ruim isso! Quando escrevo aqui no blog sobre um livro ou algo que li, organizo as reflexões advindas com a leitura e acabo memorizando melhor o que a leitura me trouxe de ideias novas. Postando o texto, atinjo meu desejo de compartilhar de forma gratuita cultura e conhecimento humano.

Minha atenção está ruim do ponto de vista dos estudos. Tem muitos fatores externos e psicológicos que estão me impedindo de concentrar-me nos momentos de leitura e estudos. E quando leio, não finalizo o processo de aprendizagem fazendo o texto de comentário e fixação de informações.

Quero terminar algumas leituras iniciadas e escrever algo sobre elas. Li recentemente a tragédia "Ricardo III" de Shakespeare e assim como as duas comédias do autor que li faz poucos meses, acho que a leitura foi sofrível, não li como gostaria. O ideal é sentar-me e ler as três obras de novo. De forma rápida.

As leituras dos livros de Paulo Freire foram melhores, mas não consegui terminar meu texto sobre "Pedagogia da Autonomia". Faltou foco.

Quero terminar o livro do colega aposentado do BB, Onça. Li uma parte dele quando viajei uns dias com a esposa, mas não consegui retomá-lo e finalizar a leitura. É um livro de entretenimento, leve.

Estou lendo uns livros mais complexos e não consegui dar sequência. Um sobre a China, um sobre Marx e um sobre saúde suplementar. As leituras são muito interessantes, não tive dificuldades. É que a cabeça tá com a atenção dividida mesmo.

Após a segunda viagem a Cuba, com a feira do livro de Havana como motivo principal dessa experiência no país socialista, me encantei com Frei Betto, e dos contatos com autores brasileiros que lá estiveram, estou lendo o novo livro da querida Conceição Evaristo e preciso terminar o livrão sobre a biografia do dominicano. Li um livro dele sobre o marxismo e não escrevi a respeito da leitura.

E, lógico, após essas atividades culturais inacabadas, preciso pegar com vigor a leitura de "Os miseráveis", que peguei para ler no semestre passado e parei de novo. Não posso fazer isso. Tenho que ir até o fim do clássico.

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ENVELHECIMENTO DA GENTE

Essa temática é pessoal e coletiva. É a natureza em plena ação. Tudo muda o tempo todo. 

Na família serão tempos de lidar com as mortes das pessoas queridas. Isso acontece de forma mais frequente à medida que vamos envelhecendo e durando mais tempo na Terra.

Como sou uma pessoa de sorte, tive a felicidade de ter meus pais e familiares nucleares presentes até hoje. A boa sorte de tê-los por mais tempo me faz saber que ainda vou ter que lidar com as perdas de pessoas queridas, ou elas terão que lidar com a minha desaparição, ninguém sabe o amanhã. A morte é a certeza que o animal humano já sabe e que os outros animais não, podem até pressentir na hora, mas por instinto. Por isso inventamos a ideia de viver depois de morrer...

O mundo humano que coisificou as pessoas como meras mercadorias e transformou as relações humanas em relações utilitárias, relações que só duram enquanto são úteis de alguma forma para as pessoas (físicas e jurídicas) fez com que a maioria das relações seja de pouca duração e de fácil rompimento. Uma divergência casual de opinião pode encerrar uma relação de toda uma vida. E com isso vamos nos tornando seres solitários, sozinhos mesmo quando acompanhados.

Quando penso em envelhecimento, adoecimento em suas diversas formas, quando penso em necessidade de acolhimento que as pessoas sentirão cada dia mais, e provavelmente estarão por sua conta e risco, penso no conhecimento que adquiri ao ser gestor de uma autogestão em saúde diferente da lógica do mercado da doença (indústria da "saúde"). 

Fico pensando se deveria esquecer o que sei sobre a Cassi ou se deveria escrever com frequência e regularidade tudo que conheci dessa Caixa de Assistência. À época, criei um público leitor que se interessou pelo que escrevia. De certa forma, fiz um papel importante ao dizer aos participantes da Cassi o que o próprio site da autogestão nunca dizia.

Ao refletir sobre a conversa com o médico que atendeu meu pai nesses dias, sobre possíveis doenças que ele tenha, fiquei pensando sobre a questão da sarcopenia que ele vem enfrentando recentemente. Eu conheço sobre o tema desde que estudei Educação Física e sei que também já iniciei meu processo natural de perda de massa e tônus muscular. Sendo consciente sobre o tema, deveria estar mais dedicado a frear seus efeitos e a gente acaba sendo relapso com a própria saúde. Somos animais racionais contraditórios...

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QUEM DEFINE A ARMA DE UM COMBATE É O INIMIGO

Por fim, fecho essas reflexões pensando num acontecimento que me angustia: a ascensão do fascismo e da extrema-direita sem uma capacidade de reação à altura do campo democrático e da esquerda.

De meu mundinho atual, de alguém que já fez parte do mundão da política, sinto uma certa angústia ao ver o nosso lado da classe tão perdido em relação aos objetivos, estratégias e táticas para disputar a hegemonia de nossas ideias na sociedade humana.

Francamente, o mundo e o ser humano mudaram ou foram mudados drasticamente nas duas últimas décadas. Percebem a rapidez da coisa? Duas décadas. Período do boom das tecnologias da informação, internet e redes sociais. Na sociedade humana deste momento histórico, não há mais espaço para conciliar e frear processos com diálogo. Não há diálogo com nazifascistas, trumpistas e bolsonaristas fanáticos. Não há diálogo com armas despejando morte sob nossos corpos.

Esse conceito do subtítulo, sobre quem define a arma do combate ser o inimigo, tirei do ensinamento do grande líder sul-africano Nelson Mandela. Numa derrota fragorosa de seu povo, ele entendeu que não adiantava usar as tradicionais armas pacifistas de combate ao regime do apartheid porque o inimigo estava matando seu povo e não se sensibilizava com nada pacífico.

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É O OPRESSOR QUE DEFINE A NATUREZA DA LUTA

"A lição que aprendi com a campanha (contra a remoção do povo negro de Sophiatown em 1955) foi que no final nós não tínhamos alternativa alguma senão resistência armada e violenta. Repetidamente, havíamos utilizado todas as armas de não violência em nosso arsenal - discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, ficar em casa, prisões voluntárias - tudo em vão, pois tudo o que fazíamos era respondido com mão de ferro. Um guerreiro pela liberdade aprende da maneira mais difícil que é o opressor quem define a natureza da luta, e ao oprimido frequentemente não se deixa recurso algum senão utilizar métodos que espelham aqueles do opressor. Em certo momento, só é possível lutar contra o fogo usando fogo" (pág. 206. Longa Caminhada até a Liberdade, Nelson Mandela)

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Vejam o momento atual na Palestina! Observem o que os sionistas decidiram fazer para desocupar as terras da Faixa de Gaza. Metem bombas, eliminam população civil - mulheres, crianças, idosos -, quem está lá, e dane-se o que o mundo pensa.

Adiantaria ao povo árabe-palestino fazer greves, manifestações pacíficas etc etc? Óbvio que não!

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QUEM DEFINE A PAUTA DEFINE A AGENDA... E OS TEMPOS SÃO DE AUTORITARISMO E VIOLÊNCIA DA EXTREMA-DIREITA, FINANCIADA PELO CAPITAL

O 1% dos homens poderosos do mundo decidiu eliminar quem se oponha ao seu poder. Danem-se países, comunidades, biomas, o planeta Terra. Os tempos são de merda! Tempos de violência! 

Os caras não ligam mais para nós, o povo. Nem para sermos explorados como mão de obra barata. Nunca ligaram, mas antes havia certo pudor, certo disfarce do pessoal que comia com talheres de prata... os tempos são outros.

Alguns pensadores já falam que o 1% quer eliminar mais da metade dos humanos, pois estaríamos incomodando e já não precisam mais de nossa mão de obra fabril. As máquinas dão conta da produção.

Aí eu pergunto: vamos dialogar com os fascistas? Vamos conciliar com os extremistas de direita que têm carta branca e financiamento do 1% para barbarizar conosco? 

Os tempos são outros. Nossos corpinhos humanos serão triturados pelas máquinas de extermínio dos donos do poder. 

Se a esquerda ou o segmento que um dia se disse de esquerda não acordar e mudar a postura e mudar as estratégias para enfrentar esses bárbaros fascistas com as mesmas armas que eles nos humilham, nos machucam e nos eliminam não sobraremos nem para contar a história dos povos derrotados. Até porque hoje tudo é "nuvem", nem manuscrito antigo com nossa versão vai sobrar para contar que um dia nós da esquerda existimos... Nossas memórias em "nuvens" serão desfeitas com uma brisa!

Encerro por hoje. Minha solidariedade ao deputado Glauber Braga (Psol-RJ), que reagiu de forma leve à violência do fascista do MBL que o ameaça faz tempo. Na minha opinião, não dá para contemporizar com a violência dos fascistas. Não se dá flores a quem quer nos eliminar.

William Mendes


Post Scriptum: soube do falecimento precoce de um querido militante do Banco do Brasil, o companheiro Sérgio Villaça. Meus sentimentos à família, aos amig@s e à companheira Tina Villaça.


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Diários com Machado de Assis (II)



Refeição Cultural

"Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, - algumas vezes gemendo, - mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um - 'ai, nhonhô!' - ao que eu retorquia: - 'Cala a boca, besta!'" (p. 48)


Fico pensando no Machado de Assis escrevendo nas décadas de 1860, 1870, 1880 e daí adiante, até que falecesse já no século XX, em 1908, no período político que conhecemos como Primeira República. Machado nasceu em 1839, descendente de avós paternos negros, e no ano seguinte, 1840, começou no Brasil o Segundo Reinado, com D. Pedro II, que governou o país até 1889, com a instalação da Primeira República.

Eu nasci em 1969, ano seguinte ao Ato Institucional nº 5, que recrudesceu a ditadura civil-militar implantada no Brasil com o golpe de 1964 (golpe apoiado pelos EUA e pela elite branca brasileira: a casa-grande). Nessa mesma década de 1960, as pessoas de pele preta ou parda ou as pessoas negras, mestiças e afrodescendentes de várias partes do mundo lutavam por seus direitos humanos, civis, políticos.

Na África do Sul, os negros lutavam contra a lei, contra o apartheid, há décadas. Nelson Mandela e seus companheiros do CNA queriam um país com direitos iguais para todos os cidadãos, independente da cor de suas peles e demais características pessoais. 

Nos EUA, os negros lutavam pelos mesmos direitos pelos quais lutavam os negros sul-africanos. Acreditem, a lei nos Estados Unidos era como a lei do apartheid dos brancos sul-africanos. Havia espaços para brancos e espaços para negros. Só a partir de 1964 que as leis de direitos civis igualaram brancos e negros.

Na década de 1960 meus pais já eram adultos, já estavam casados (casaram-se em agosto de 1965), e o mundo era racista do mesmo jeito que havia sido por séculos. Enquanto se disfarçava o racismo nas mídias dos brancos, nas rádios e TVs e novelas, e nos veículos impressos, no Brasil, nos EUA e na África do Sul negros eram discriminados e não tinham os mesmos direitos que os brancos. 

RACISMO GERA DESIGUALDADE SOCIAL - Preconceito gera discriminação e discriminação gera falta de oportunidades e desigualdade social. O poder e a riqueza do país estavam nas mãos dos brancos nos anos 1960, nas décadas e séculos anteriores e ainda HOJE.

Meus pais adotaram uma menina negra e eu nasci depois dela. O racismo nunca deixou de existir no Brasil dos séculos de colonização e dominação por parte de europeus brancos. Os negros e afrodescendentes são maioria do povo brasileiro e são uma minoria esmagadora na questão dos direitos humanos, civis e políticos. "Minoria" neste caso vem de "menos", ou seja, são maioria da população, mas têm menos direitos em tudo.

Não é fácil olhar para trás e imaginar em flashbacks como deve ter sido uma negra crescendo e vivendo no meio de um monte de brancos pobres, a família pobre brasileira, essa sim toda miscigenada, misturada, fruto dos cinco séculos de colonização do branco macho de fora com as mulheres índias, negras, mestiças que nos pariram. Faz poucos anos que ouvi um familiar dizer que preto tinha que matar pequeno para não virar bandido quando crescesse... (já estávamos no século XXI, juro pra vocês).

No meu caso, sou branco de cabelo "ruim" porque minha mãe é branca de cabelo "ruim". O cabelo "ruim" é como nós ouvimos falar ao longo de nossas vidas nos anos 1960, 1970, 1980, 1990 etc. Em determinado momento de nossas vidas era politicamente incorreto falar as coisas que os brancos da casa-grande e seus meios de comunicação pensavam do povo brasileiro miscigenado. Era. 

Agora voltamos ao passado. Com o golpe e a "ponte para o futuro" voltamos ao passado escravagista. Com as reformas dos golpistas, tucanos, emedebistas e bolsonaristas, voltamos ao passado. Com o novo golpe de Estado, em 2016, com a manipulação do povo através do ódio e do medo, regredimos até os séculos XX e XIX e os outros pra trás. Podem falar as barbaridades que quiserem de novo. Os tempos são de homens Brás Cubas e milhões de prudêncios!

PAI CONTRA MÃE

Um dos últimos textos de Machado de Assis, publicado em 1906 no livro Relíquias de casa velha, foi o conto "Pai contra mãe". O texto é forte! Meus olhos encheram de lágrimas só de pensar nele para escrever neste instante. (ler o conto aqui)

Esse conto, para mim, resume há mais de um século o que nós somos, nós negros, mestiços e brancos pobres, brasileiros, sem posses; nós somos como aqueles personagens do conto, somos como Cândido Neves, Clara, tia Mônica e Arminda.

Esse conto explica nossa gênese, explica meus familiares e conhecidos brancos, negros, mestiços, pobres ou remediados, cheios de ódio contra todos, contra negros, contra os diferentes, contra os outros. Explica por que somos o que somos.

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Isso foi o que refleti nesta manhã de sexta-feira, 27 de agosto de 2021, ao ler alguns capítulos do Memórias, de Machado de Assis, e ao ver um vídeo do site Meteoro Brasil sobre "Por que hospitalidade não é o forte dos EUA", publicado hoje.

William


Bibliografia:


ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. - São Paulo: Panda Books, 2018.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Mandela - Longa caminhada até a liberdade



Refeição Cultural

"A política de apartheid havia criado um ferida profunda e perene no meu país e no meu povo. Todos nós passaremos muitos anos, senão gerações, nos recuperando daquele ferimento profundo. Mas as décadas de opressão e brutalidade tiveram outro efeito, não intencional, que foi a produção dos Oliver Tambos, os Walter Sisulus, os Chefes Luthulis, os Yusuf Dadoos, os Bram Fischers, os Robert Sobukwes dos nossos tempos - homens de coragem, sabedoria e generosidade tão extraordinárias que iguais a eles poderão não existir novamente. Talvez seja necessária tal profundidade de repressão para criar tais estaturas de caráter. Meu país é rico em minerais e pedras preciosas que estão sob o seu solo, mas eu sempre soube que a sua maior riqueza é o seu povo, mais belo e verdadeiro que o mais puro dos diamantes." (p. 760)

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"Aprendi que a coragem não era a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. Eu mesmo senti medo mais vezes do que posso lembrar, mas eu o disfarcei sob uma máscara de ousadia. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista aquele medo." (p. 761)

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"Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da sua pele, ou de sua origem, ou de sua religião. As pessoas têm que aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor ocorre com mais naturalidade no coração humano do que o seu oposto." (p. 761)


Ganhei a autobiografia de Nelson Mandela em agosto de 2014, no dia dos pais. Eu recém começava uma nova jornada de lutas em minha vida de representação eleita da classe trabalhadora. Havia começado um mandato na área da saúde em uma entidade dos trabalhadores do Banco do Brasil. Essa jornada de lutas durou 4 anos, foi até maio de 2018.

Durante o mandato na área da saúde, cheguei a ler a autobiografia de Mandela até a Parte Três (175 páginas), pouca coisa, mas minha vida era quase toda de leituras de trabalho. O grosso volume chegou a viajar comigo para alguns estados brasileiros, eu o lia durante os voos. Ao voltar definitivamente para minha casa em Osasco, o livro ficou quietinho na estante, esperando a leitura e o conhecimento completo desta rica história de lutas de um povo e seus líderes.

A VIDA DO POVO É LUTAR AO LONGO DO TEMPO

O tempo é algo muito presente na vida e na sociedade humana, mas pouco percebido. 

DÉCADAS DE LUTAS PARA AVANÇAR - A luta do povo negro sul-africano pelo fim do regime da minoria branca e as leis raciais do apartheid - luta através do Congresso Nacional Africano (CNA) e de outras instituições populares - durou 82 anos, nos conta Nelson Mandela. Ele assumiu a presidência da África do Sul em 1994, aos 76 anos de idade. Mandela ficou preso pelo regime racial dos africâneres, o apartheid, por 27 anos. A maioria da população, de negros e mestiços, mal conseguia sobreviver em seu próprio país sob aquele regime injusto e opressor.

DÉCADAS DE RETROCESSO APÓS O GOLPE - Estamos em 2021 no Brasil. Há 6 anos o Brasil foi impedido, boicotado, assaltado por uma minoria também (como na África do Sul dos brancos). Um grupo de canalhas da casa-grande organizou um golpe para tirar de forma ilegítima a presidenta do país, golpe para destruir as cadeias produtivas do país, para roubar o pré-sal, para interromper os avanços que o povo conquistava, para dilapidar o patrimônio público e retroceder em todas as áreas da cidadania. Foi um golpe reacionário de uma minoria. 

Em 2018, os golpistas ampliaram o processo de tomada do poder por assalto e corromperam o processo eleitoral. Uma operação chamada Lava Jato - um juiz suspeito e membros de órgãos públicos - interferiu nas eleições colocando o povo contra o maior partido de esquerda do país. Esses funcionários públicos suspeitos prenderam a maior liderança popular - o ex-presidente Lula -, que venceria as eleições e recolocaria o Brasil no caminho dos avanços populares e soberanos. E o pior, os golpistas e suas ferramentas de manipulação do processo eleitoral colocaram o pior tipo de gente que já ocupou o Congresso do país, uma alcateia eleita na onda do lavajatismo, e a consequência mais grave de tudo isso foi abrirem espaço para chegar à presidência um sujeito inominável, um ser desprezível, do mal, e agora acusado de diversas ilegalidades e suspeições de crimes, com mais de uma centena de pedidos de impeachment na gaveta do presidente da Câmara.

6 ANOS, em 6 anos o povo brasileiro vivenciou um retrocesso de décadas de avanços em todas as áreas da sociedade e da cidadania. Com o presidente traidor, o do golpe, e com o inominável alçado ao poder com a prisão do candidato Lula, o Brasil foi desmontado em todos os sentidos. 6 anos de destruição. E uma das consequências foi a morte de meio milhão de pessoas por um vírus para o qual há vacinas há quase um ano e a população segue morrendo porque o sujeito na presidência optou por contaminar a população com o vírus mortal. 6 anos...

Não sei, mas talvez tenhamos um processo longo de reconstrução do Brasil e de libertação do povo - a classe trabalhadora brasileira -, não sei se décadas, acho que sim, mas temos pela frente "uma longa caminhada até a liberdade" parafraseando Mandela.

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A AUTOBIOGRAFIA

Voltando à autobiografia de Nelson Mandela, peguei o livro na estante neste ano de 2021 e comecei a ler de novo. São 765 páginas. A história de Mandela e do CNA se confunde com a história do povo sul-africano. 

O livro é dividido em algumas partes: 1."Uma infância no interior", 2."Johannesburgo", 3."O nascimento de um guerreiro pela liberdade", 4."A luta é a minha vida", 5."Traição", 6."O pimpinela negro", 7."Rivonia", 8."Ilha de Robben: os anos negros", 9."Ilha de Robben: o início da esperança", 10."Conversando com o inimigo" e 11."Liberdade".

Ao ler a história de Mandela, me lembrei um pouco do livro sobre Lula, organizado por Denise Paraná. Não são estratégias de produção textual parecidas, mas ambos os livros abordam a vida dos biografados em épocas e fases da vida. Através da história deles, vemos a história do país e do povo naquele período. As biografias acabam antes do período no qual os protagonistas exerceriam mandatos presidenciais.

Sofri demais na leitura do período dos 27 anos de prisão de Nelson Mandela e de seus companheiros de luta. Esses caras são gigantes!

Fiquei descabriado na fase seguinte à libertação dos líderes do CNA. Mandela mal pisou fora da prisão e as tentativas de negociação para se conseguir o fim do apartheid e do regime racial dos brancos africâneres, e os nacionalistas atuaram para dividir os negros e financiaram um grupo rival do CNA para uma guerra tribal com banhos de sangue, chacinas de centenas de pessoas durante todo o processo de negociação entre 1991 e 1994. Haja persistência de Mandela e seus companheiros para não retornarem à luta armada.

Enfim, conheci muito a respeito do processo de luta pela liberdade do povo negro sul-africano. Em vários momentos daquela história, vi semelhanças com o que já vivemos e podemos ter pela frente no Brasil atual.


FUTURO: SERÁ POSSÍVEL RECONSTRUIR O BRASIL SEM CONCILIAÇÃO?

"Foi durante aqueles longos e solitários anos que a minha fome pela liberdade do meu povo tornou-se uma fome pela liberdade de todos os povos, brancos e negros. Eu sabia tão bem quanto sabia qualquer coisa que o opressor tem que ser libertado tão certamente quanto o oprimido. Um homem que tira a liberdade de outro homem é um prisioneiro do ódio, ele está preso por detrás das grades do preconceito e da pobreza de outra pessoa, tão certamente quanto não estou livre quando a minha liberdade é tirada de mim. O oprimido e o opressor igualmente têm sua humanidade roubada." (p. 763)


Estamos presos ao ódio que envenenou a todos nós. Os organizadores do golpe de 2016 nos ensinaram a odiar.

Me parece que não conseguiremos avançar para um futuro brasileiro sem aprendermos a perdoar e amar.

Se quisermos recomeçar, teremos que superar o bolsonarismo, para além do clã desgraçado que está no poder por causa das fraudes diversas que alteraram o processo eleitoral de 2018.

Além de superar e eleger novos representantes para os executivos e os parlamentos, tanto o federal como os estaduais, teremos que superar o ódio que não nos permite sequer amainar a raiva que sentimos dessa gente que descobrimos serem más, repulsivas, hipócritas e preconceituosas a respeito de tudo. Teremos...

Nessa hora é que veremos o quanto um Mandela, um Lula, são as pessoas mais adequadas para nos ajudar no difícil processo de reconciliação, porque esses caras são diferentes, eles conseguem superar os bloqueios que o ódio nos põe em relação aos que temos raiva, rancor, mágoa etc.

É isso! Mais um livro lido, mais conhecimento adquirido.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


sábado, 26 de junho de 2021

260621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Mas ao conversar com esses jovens inteligentes, fiquei sabendo que eles assistiram a minha liberação na televisão e estavam familiarizados com os eventos na África do Sul. 'Viva o CNA!' falou um deles. Os Inuit são um povo aborígine historicamente maltratado pela população de colonizadores brancos; havia alguns paralelos entre as condições dos negros sul-africanos e do povo Inuit. O que me impressionou fortemente foi o quão pequeno o planeta havia se tornado durante as décadas que passei na prisão; era assombroso para mim que um adolescente Inuit, vivendo no teto do mundo, pudesse assistir à liberação de um prisioneiro político na ponta do sul da África. A televisão havia encolhido o mundo, e nesse processo havia se tornado uma arma poderosa para a erradicação da ignorância e promoção da democracia." (MANDELA, 2012, p. 714)


Sábado, 26 de junho. Osasco.

Vejam só a observação de Nelson Mandela em 1990. Ele havia sido liberado da prisão após 27 anos. Estava visitando alguns países e numa passagem pelo Ártico para abastecer o avião, ele foi até a cerca da pista do aeroporto conversar com um grupo de jovens Inuit, mais conhecidos como esquimós.

Tanto Mandela como quase todo mundo achava que as tecnologias da informação e comunicação iriam melhorar o mundo, dentro daquela lógica de se compartilhar mais informação, conhecimento, contato entre as pessoas e povos do mundo e teríamos uma "erradicação da ignorância e promoção da democracia".

O mundo havia ficado pequeno e diminuía a cada dia. 

Uma década depois, em 2001, vimos ao vivo os aviões se chocando contra as torres gêmeas em Nova Iorque. Vimos ao vivo o Iraque ser bombardeado e destruído e a biblioteca de Bagdá desaparecer junto com toda a riqueza histórica que acumulava. 

Ao mesmo tempo, começavam os Fóruns Sociais Mundiais, com milhares de pessoas de todo o mundo se reunindo para discutir "Um outro mundo possível" na "aldeia global".

Em meados daquela década, nasceriam as redes sociais como o Orkut e depois o Facebook, o Twitter e o YouTube. Os blogs começaram a democratizar o espaço de fala na rede mundial de computadores. Nós nos entusiasmamos e achamos que a democracia na comunicação iria fazer a humanidade dar um salto positivo para o futuro. Qualquer pessoa poderia falar livremente, publicar, opinar e partilhar conhecimento.

Pouco mais de uma década depois, as grandes big techs já haviam mudado tudo. Poucas empresas dominaram todas as formas de comunicação no mundo. As informações de bilhões de pessoas passaram a ser utilizadas para manipular o comportamento humano e interferir em gostos, hábitos e na política dos países.

O povo, inocente até não caber mais, achava que poderia jogar fora suas bibliotecas porque qualquer informação que quisesse era só pesquisar no "Google"... doce ilusão! (Somos feitos de idiotas.). As informações virtuais existem hoje nos links e amanhã não existem mais (ERROR). Cadê a informação que estava aqui? O gato comeu! 

Pesquisar no "Google" significa, muitas vezes, que a palavra ou conceito que você pesquisou vai trazer como resposta a informação da empresa ou fonte que pagou mais para aparecer na primeira página e nas primeiras posições. Pesquisar palavras de determinado campo ideológico significa direcionamento proposital para tais fontes e bloqueio de outras. As esquerdas perderam milhões de acessos na última década por causa de programas de algoritmos.

Em muito pouco tempo, o que era uma ideia de "erradicação da ignorância e promoção da democracia", como pensou Nelson Mandela em 1990, se transformou num sistema mundial de divulgação de mentiras, de manipulação e incentivo à ignorância, negacionismo, ódio e desinformação global. Alguns sujeitos conseguem manipular milhões de humanos. Desacreditam a ciência, a geografia, a filosofia, matemática etc; vacina seria ruim, a Terra seria plana e aberrações do tipo. 

Estudos apontam que os seres humanos estão emburrecendo, que pela primeira vez em séculos as gerações seguintes não estão mais desenvolvidas intelectualmente que as gerações anteriores. Vi uma entrevista do neurocientista Miguel Nicolelis em 2020 (para Luis Nassif) na qual ele citava alguns desses estudos: perda de capacidade de comunicação e linguagem nos jovens norte-americanos, diminuição do quociente de inteligência nas gerações atuais etc.

Enfim, quis registrar isso ao ler a observação de Mandela em 1990.

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Um monstro mentiroso, um corrupto empedernido. Um ser com claros sinais de psicopatia. O inominável... 

O Brasil em uma década saiu de governos democráticos e populares, com distribuição de riquezas, oportunidades para todos, crescimento nos direitos do povo, perspectivas de futuro, para um país destruído, governado por hordas de gente racista, elitista, corrupta, um país cujo regime no poder não tem nenhum projeto para a melhoria de vida do povo brasileiro. Pelo contrário, um regime de morte, de banalidade do mal. Um regime de gente mentirosa, sem-vergonha, canalha. Um regime responsável pela morte de mais de meio milhão de pessoas, assassinadas por falta de medidas contra a pandemia mundial de Covid-19.

Nós já perdemos tantas pessoas conhecidas, queridas, de nosso convívio por toda uma vida, que é difícil falar sobre o tema. Do ano passado para cá, a todo momento vemos morrer nossos companheiros e companheiras de lutas pelo povo trabalhador e por um mundo mais junto e solidário. 

Entre as 1.593 pessoas que perderam a vida hoje para o coronavírus por causa do regime genocida que tem a pandemia como estratégia de governo, estava nosso companheiro de lutas Jeferson Boava, dos bancários de Campinas. Estivemos tanto tempo juntos nas lutas do Banco do Brasil... A minha tristeza pela morte de tantas pessoas é uma tristeza que dá uma gana interna de sobreviver a esse regime nazifascista e ver todos esses desgraçados caírem e nós vamos reconstruir nosso mundo após essa gente ser retirada do poder.

Companheiro Jeferson, presente!

(esses inimigos do povo vão cair, vão ter o que merecem. O povo brasileiro vai voltar a construir um futuro melhor para todos e todas)

William



Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.

sábado, 19 de junho de 2021

190621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Manhã de sábado, dia frio em Osasco, São Paulo.

Não tive ânimo de registrar os sentimentos e acontecimentos pessoais e os fatos da política no Brasil e no mundo nos últimos dois dias. 

A vida humana na atualidade é marcada pela velocidade das informações, sobretudo pautada pelo tsunami de mentiras disseminadas de forma consciente e racional para manipular o comportamento de multidões de seres humanos como se gado fossem, rebanhos manipulados por berrantes tocando a boiada rumo ao matadouro.

O ministro da economia do regime de destruição do Brasil, o Paulo Ipiranga Guedes, disse nesta semana que a elite, que come bem demais, deveria dar seus restos de comida para os pobres comerem... ele diz isso e ninguém faz nada em relação a isso. Esse sujeito desprezível já disse tanta coisa nojenta a respeito do povo e dos pobres... esse legítimo representante da casa-grande brasileira só diz o que sua turma pensa. Ele tem história, aprendeu a ser o que é na ditadura chilena de Pinochet.

O genocida no poder mostra para todos que não vai sair do lugar onde nunca deveria ter estado porque é criminoso e porque foi colocado lá por diversas fraudes já comprovadas. Ele comete ilegalidades, contravenções, quebras de decoro, crimes e demais arbitrariedades previstas em lei e legislação, di-a-ri-a-men-te, e ninguém faz nada em relação a isso. Ele prepara uma guerra civil de consequências imprevisíveis e nada parece apeá-lo do poder. As instituições que poderiam interromper a tirania e guerra civil em andamento não tomam a atitude por serem covardes ou por serem corruptas e coniventes e se locupletarem com a situação trágica.

498.499 brasileiras e brasileiros morreram em decorrência da estratégia do regime genocida de incentivar que o povo brasileiro se infectasse logo com o Sars-Cov-2, o novo coronavírus. A decisão do regime liderado pelo clã miliciano equivale a fazer uma roleta russa com a vida do povo. Se temos mais de 200 milhões de pessoas, a estratégia equivaleria a morrer de 2 a 3 milhões de cidadãos. O genocida no poder diria: "E daí..." e "não sou coveiro". Essas informações não são coisa da minha cabeça, são informações das audiências da CPI sobre a pandemia de Covid-19, abertas ao público na internet. 

Nossos entes queridos falecidos, os 498.499 mortos - oficialmente - em decorrência dos efeitos da infecção por Covid-19, poderiam estar vivos e com saúde, os estudos apontam que de cada 4 mortos 3 poderiam ter se salvado caso as medidas existentes tivessem sido tomadas: vacinação, auxílio emergencial para o povo e para os micro e pequenos empresários e uma campanha nacional de informação massiva sobre isolamento social, uso de máscara e medidas de higienização. O regime no poder matou mais de 300 mil cidadãos, nossos conterrâneos.

A Covid-19 não é uma infecção por vírus semelhante a uma gripe, o que o genocida chamou de "gripezinha". Os estudos em andamento apontam que 20 a 30% das pessoas infectadas pelo vírus, mesmo quando foram pacientes assintomáticos e com sintomas leves, desenvolvem doenças crônicas e sequelas que podem durar para sempre. O professor e neurocientista Miguel Nicolelis, em seu podcast "Diário do front", episódio nº 9, citou um estudo feito nos Estados Unidos com 2 milhões de infectados pelo vírus que aponta que 23% (ou seja, quase meio milhão de pessoas) tiveram sequelas da doença: desenvolveram sintomas crônicos em órgãos os mais diversos possíveis - algo como uma "Covid crônica" (ouvir a partir do minuto 14 do podcast). A Covid-19 NÃO é uma merda de uma gripezinha!

Enfim, são tantas informações verídicas e factuais de ilegalidades e ações do regime no poder, ações que estão levando o povo brasileiro à morte e à miséria, que sofremos de forma insuportável ao vermos que a situação se perpetua a cada dia. Cada dia é um absurdo!

Teremos apagão. O povo ficará sem luz e sem água. O povo do Amapá foi salvo do apagão - após semanas de caos - pela nossa Eletrobras, que vai ser privatizada (dada) pelo regime nazifascista aos abutres que apoiam o projeto em andamento de destruição do Brasil. Não teremos luz, água, internet. Mas teremos um povo revoltado, com raiva, fome e medo. A parte que apoia o regime do mal está armada e é perigosa, é irracional e ignorante. As forças de repressão talvez matem mais ainda o povo, que já morre como nunca por ser povo, de pele parda ou escura, preta, marrom.

Como eu poderia comemorar ter chegado a minha faixa etária da vacina contra a Covid-19 em Osasco nesta semana? Eu e a esposa fomos vacinados. Mesmo esperando a nossa vez, eu me sinto um privilegiado ao lembrar de dezenas de pessoas que conhecia que já faleceram porque não tiveram essa chance básica de serem vacinadas pelo Estado. E as trabalhadoras da padaria aqui do lado? Que pegam ônibus lotado todo dia e ficam o dia inteiro atendendo gente sem estarem vacinadas?

Estou nas últimas partes do livro autobiográfico do líder negro sul-africano Nelson Mandela. São quase 800 páginas. Vi Mandela descrever mais de 75 anos de lutas do povo por sua liberdade e por seus direitos à igualdade. O regime no poder era uma minoria branca - os africânderes -, mas tinha o poder da força armada do Estado. O CNA e os negros lutaram décadas através das diversas formas de protestos e mobilizações não violentas enquanto entenderam que elas tinham algum efeito. Os nacionalistas reagiam com violência armada do Estado (o apartheid era lei). Mandela nos ensina que É O INIMIGO OPRESSOR QUEM DEFINE AS ARMAS. A liberdade do povo negro sul-africano só veio depois de mais de duas décadas de enfrentamento armado, da forma que dava, é claro (atentados contra estruturas do governo e guerrilhas)! Lutar contra as forças letais do Estado não é fácil. A África do Sul é um exemplo a ser estudado pelos povos do mundo que lutam por liberdade, justiça e igualdade.

É isso o que tinha para registro neste modesto blog de um ex-dirigente sindical. Sou um cidadão e tenho meus direitos humanos, direitos civis, políticos, sociais.

Mandela, quando começou o período de diálogo com o inimigo, tinha como uma de suas premissas para a deposição do enfrentamento armado uma sociedade não racial, na qual todos tivessem direitos políticos iguais: um homem, um voto. Até o golpe de Estado em 2016, eu acreditei na democracia mequetrefe que o Brasil tinha. As elites nunca perderam o poder, mesmo quando perdiam algumas eleições. Depois do golpe que interrompeu o melhor momento do povo brasileiro na história, eu não acredito mais na democracia que o Brasil tinha. Não acredito. "Cada pessoa, um voto" não funciona mais aqui, nem em outros lugares do mundo. As formas de manipulação de massas já superaram isso. Não sei mais em que acreditar. Não sei mesmo! O regime criminoso no poder já deixa claro que não vai sair do poder, independente do número apurado de votos em eventual eleição... como vamos resolver isso? A democracia não existe mais.

William


sábado, 12 de junho de 2021

120621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Eu não estava interessado nos Hell's Angels, mas a questão mais ampla que me preocupava era se nós tínhamos, como Strini havia sugerido, nos prendido a uma forma de pensar que já não era mais revolucionária..." (MANDELA, 2012, p. 612)


Temos que pensar de forma revolucionária, temos que ter utopias!

Sábado, 12 de junho. Quando me levantei pouco depois das 6 horas da manhã, o dia estava com uma neblina rara de se ver. Queria terminar mais um capítulo da autobiografia de Nelson Mandela e às 7h já estava no texto.

Ontem, ouvi também um bate papo entre o jurista Pedro Serrano, o historiador Fernando Horta e o linguista Gustavo Conde que me deixou muito pensativo. Ouvir Pedro Serrano não é qualquer coisa para um militante de esquerda e para alguém que luta por justiça social. 

Serrano disse em suas reflexões que o tempo atual é de completa superficialidade nos pensamentos e nos conceitos, nos objetivos e nas questões contemporâneas. A esquerda e a direita são extremamente superficiais. E ele tem razão, na minha opinião. As causas são sempre focadas nas questões emergenciais e não há projetos com engajamentos para médio e longo prazo.

Ao ouvi-lo argumentando sobre a superficialidade das pessoas e dos projetos e objetivos das forças políticas e sociais, concordei com ele que precisamos recuperar os projetos e causas que nos norteiem o futuro coletivo, que nos apontem caminhos para salvar a humanidade e o mundo onde vivemos. Estamos falando em utopias! O que nos move? A que mundo pertencemos? 

Aí pego os exemplos tirados da leitura da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. A libertação do povo negro sul-africano e o fim do regime racial do apartheid só foi possível porque havia um projeto de futuro, coletivo, de todo um povo, que sofria e que queria mudar aquilo, queria a liberdade, a igualdade, queria usufruir tudo o que a terra pode oferecer a um povo e tudo o que a humanidade criou. E a luta em busca desse sonho, desse objetivo, durou décadas.

Repito a preocupação de Mandela, que citei acima: será que nossa forma de pensar já não é mais revolucionária? Nos acostumamos às merdas com as quais estamos lidando? Não sonhamos mais mudar a realidade?

Isso é sério! Temos que pensar a respeito disso, avaliar com franqueza qual tem sido o sentido de nosso viver e tomar decisões sobre o que queremos pessoal e coletivamente, para nós e para o mundo no qual vivemos.

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Tenho pensado a respeito disso, mesmo aos 52 anos de idade, mesmo fora do movimento organizado de lutas sociais ao qual participei por duas décadas. Avalio que estamos pensando de forma superficial, sim. Todos nós da esquerda. E não acho que vamos mudar a nossa história se não tivermos um projeto de mundo, de humanidade, de vivência para as próximas décadas e estratégias e táticas desenvolvidas para chegarmos lá; o "nós" aqui, o plural majestático, é porque estou falando de nós, nós humanos, nós humanidade, nós seres vivos.

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METÁFORA DA HORTA

"Uma horta era uma das poucas coisas na prisão que se podia controlar. Plantar uma semente, observá-la crescer, cuidar dela e então colhê-la, proporcionava uma satisfação simples, porém duradoura. A sensação de ser o zelador de um pequeno pedaço de terra oferecia um pequeno gosto de liberdade.
  De certa forma, eu via a horta como uma metáfora para certos aspectos da minha vida. Um líder também deve cuidar da sua horta; ele também planta sementes, e então observa, cultiva e colhe o resultado. A exemplo do jardineiro, um líder deve se responsabilizar pelo que cultiva; ele deve ocupar-se com seu trabalho, tentar repelir os inimigos, preservar o que pode ser preservado, e eliminar o que não pode prosperar.
" (p. 597/98)


Profunda essa metáfora que Mandela usa. Em certas situações na vida temos pouca ou nenhuma capacidade de controlar os acontecimentos. Mas sempre há coisas que podemos controlar minimamente, como nosso comportamento, por exemplo. Nossas atitudes são provocadas pelo mundo exterior a nós, é verdade, mas desenvolver técnicas e capacidade de controlar nossas atitudes é algo fundamental para um militante de esquerda e um lutador das causas sociais. Soube que isso é possível ao ser dirigente e líder das lutas dos bancários, negociador e gestor de entidades de classe.


O ENSINAMENTO EM "GUERRA E PAZ"

"Um livro que li muitas vezes foi o grande trabalho de Tolstói, Guerra e Paz (apesar de o título conter a palavra guerra, este livro era permitido). Fiquei particularmente fascinado pela descrição do General Kutuzov, a quem todos na corte russa subestimaram. Kutuzov derrotou Napoleão precisamente porque não foi seduzido pelos valores superficiais e efêmeros da corte, e tomou suas decisões com base em uma compreensão visceral de seus homens e seu povo. Isso me lembrou novamente que, para realmente liderar o seu povo, a pessoa deve também verdadeiramente conhecê-lo." (p. 601)


Outro grande momento do livro de Mandela foi essa passagem na qual ele cita uma obra clássica da literatura mundial, seus personagens e a vida real. Aliás, a citação fala da superficialidade da vida na corte, assim como Pedro Serrano dos tempos que correm.

"para realmente liderar o seu povo, a pessoa deve também verdadeiramente conhecê-lo"

Amig@s, essa é uma questão crucial. Por quase duas décadas fui dirigente sindical e por esse mesmo período de militância fiz trabalho de base junto aos trabalhadores que representava. Nunca deixei de estar nos locais de trabalho porque não conseguiria realizar nada das lutas que empreendi se não estivesse em relação aberta e franca com as pessoas que representava e, é claro, se não tivesse objetivos e utopias a perseguir e nortear meu caminho.

É isso.

Temos que ter utopias, temos que deixar de sermos superficiais, temos que desenvolver projetos e estratégias para salvar o planeta Terra e a humanidade. Entendo que essa é uma tarefa da esquerda. É uma tarefa que não vai a lugar algum sem o engajamento dos jovens e a participação das demais gerações que aqui estão.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quarta-feira, 9 de junho de 2021

090621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Temos que desafiar a lei quando ela é injusta

Ao ler a autobiografia de Nelson Mandela, hoje pela manhã, me emocionei. Às vezes, vivemos aquelas coincidências que despertam emoção pelo inusitado do fato. 

Dias atrás, interrompi as leituras dos clássicos que estou lendo, livros de leitura demorada, e li alguns livros menores, tragédias gregas entre eles. Li Édipo Rei e Antígona, de Sófocles, e Prometeu Acorrentado, atribuído a Ésquilo. Preenchi algumas de minhas lacunas culturais.

A leitura de Mandela está numa parte difícil porque estou acompanhando os relatos do período em que ele esteve preso na ilha de Robben, cumprindo pena de prisão perpétua por lutar pela liberdade e igualdade para o povo negro sul-africano, povo humilhado e sobrevivendo na absoluta miséria por causa da minoria branca africâner e o regime racista do apartheid.

De repente, Mandela nos conta que chegou a participar de peças teatrais durante seus estudos universitários.

"Eu apareci em apenas alguns dramas, mas tive um papel memorável: o de Creonte, o rei de Tebas, na Antígona de Sófocles. Eu havia lido algumas das peças clássicas do teatro grego na prisão e as achava enormemente inspiradoras. O que eu tirei delas foi que o caráter era medido através de como as situações difíceis eram encaradas e que um herói era um homem que não cedia nem diante das circunstâncias mais difíceis." (p. 557)

Gente, eu havia acabado de ler e conhecer a história de Antígona! Foi de arrepiar! A literatura tem dessas coisas, as intertextualidades e as referências são a base da literatura mundial. As grandes obras literárias, os grandes autores e pensadores, sempre dialogam entre si ao longo dos milênios de cultura humana.

Seguindo com a descrição feita por Mandela, no parágrafo seguinte, eu comecei a temer que a identificação entre Mandela e o personagem que ele interpretou, o rei Creonte, fosse me decepcionar.

"Quando Antígona foi escolhida para ser encenada, eu ofereci os meus serviços, e me pediram que eu interpretasse Creonte, um rei idoso lutando em uma guerra civil pelo trono de sua querida cidade-estado. No início da peça, Creonte é sincero e patriótico, e há sabedoria nas suas falas iniciais quando ele sugere que a experiência é a base da liderança e que os deveres para com o povo têm prioridade sobre a lealdade a um indivíduo." (p. 557)

Ao ler a tragédia de Sófocles eu fiquei muito puto com o rei Creonte. Minha simpatia havia sido evidentemente pela figura de Antígona. Seguimos com a descrição de Mandela.

"Mas Creonte lida com os seus inimigos impiedosamente. Ele decretou que o corpo de Polinice, irmão de Antígona, que havia se rebelado contra a cidade, não merecia um funeral apropriado. Antígona se rebela com base em que há uma lei acima daquela do estado. Creonte não quer ouvir Antígona, nem ouve a ninguém a não ser os seus demônios interiores. Sua inflexibilidade e cegueira não caem bem em um líder, pois um líder deve temperar a justiça com misericórdia. Antígona era quem simbolizava a nossa luta; ela era, à sua própria maneira, uma guerreira pela liberdade, pois ela desafiava a lei por ela ser injusta." (p. 558)

Cara, meus olhos encheram d'água...

Demais!

É por isso que temos que lutar contra todas as desgraças e crimes lesas-pátrias cometidos pelos golpistas e pelos bolsonaristas após o golpe de Estado em 2016. Temos que ser guerreiros pela liberdade e lutar pelo que é justo, ou seja, lutar contra as reformas e leis que prejudicaram o povo brasileiro e a classe trabalhadora e entregaram o patrimônio público para meia dúzia de burgueses apaniguados do regime nazifascista de plantão.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


terça-feira, 8 de junho de 2021

080621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como guerreiros pela liberdade e prisioneiros políticos, nós tínhamos a obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer, e estudar era uma das poucas oportunidades de fazer isso." (MANDELA, 2012, p. 506)


A obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer

A parte da leitura da autobiografia de Nelson Mandela em que estou é difícil porque a gente sofre junto com ele. Que dureza, quanta injustiça! Não é possível um ser humano com ética, educação, dignidade e um mínimo de humanidade tolerar as injustiças que se cometeram e se cometem contra milhares e milhões de pessoas ontem e hoje. Não é possível não se indignar com a injustiça.

Estou na parte das memórias de Mandela sobre os longos anos que ele e seus companheiros passaram na ilha de Robben, cumprindo uma sentença de prisão perpétua por lutarem pela liberdade de seu povo e por uma sociedade igualitária e de oportunidades para todos, e multirracial.

Nas dezenas de páginas que li hoje, Mandela nos conta as estratégias que eles desenvolveram para se organizarem dentro do presídio e lutarem por melhorias mínimas de tratamento. Como fizeram para se comunicar entre eles e para conseguir alguma informação sobre a vida lá fora. Como lidaram com guardas brancos violentos no presídio e como buscaram se aproximar de alguns brancos mais civilizados lá dentro.

É de apertar o peito quando Mandela nos conta o sentimento de impotência e tristeza mesmo para alguém que se prepara para ser um guerreiro pela liberdade ao lidar com as perdas de pessoas queridas. Nos primeiros 5 anos de prisão na ilha, Mandela soube da morte do chefe Luthuli (do CNA), e morreram sua mãe e seu filho mais velho, Madiba Thembekile. Nos dois casos, Mandela deveria ser o responsável pelos cuidados e rituais funerários e os brancos não permitiram isso.

Além das perdas, o regime dos brancos perseguiu implacavelmente sua esposa, Winnie Mandela. Prisões injustas, banimentos, invasão de sua casa, ela foi colocada na solitária, perdeu o emprego. Tudo muito desumano.

Aí me lembro do que fizeram com o nosso ex-presidente Lula. A mesma forma de guerra desproporcional dos órgãos do Estado contra uma pessoa, uma família, um segmento da sociedade. Uns desgraçados montaram toda uma farsa e destruíram a vida de um líder que passou a vida lutando para melhorar a vida de seu povo. A maldade não tem limites em certos grupos de animais humanos.

Mas Lula resistiu e está aí se colocando à disposição do povo pobre e trabalhador para reconstruirmos a vida da sociedade brasileira, dizimada pela Lava Jato, pelo golpe de Estado e pela ascensão do nazifascismo nas estruturas do país. Vários presos políticos desse período golpista brasileiro estão contribuindo também, escrevendo, contando suas histórias, nos incentivando a lutar e resistir. José Dirceu, José Genoino, Dilma Rousseff e outras lideranças do povo brasileiro.

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Estudar, ler, conhecer a história de nosso povo e as lutas que já foram empreendidas em busca da justiça, da igualdade, da oportunidade de uma vida comunitária mais solidária e cooperativa.

É isso que temos que fazer diariamente, diariamente! Nem que seja por meia hora, uma hora. Só assim, nos humanizamos e nos preparamos para suportar esses momentos duros que estamos vivendo num mundo sob pandemia, sob o domínio de uma minoria sobre a ampla maioria de seres humanos, sob o predomínio do ódio e ignorância usados como ferramentas de manipulação de massas.

Cada um de nós que tem algum tipo de conhecimento e consciência de classe - de classe trabalhadora que é o que somos - tem que resistir, sobreviver, estudar, e pensar formas de enfrentar e derrotar nossos inimigos. Buscar unidade e tentar dialogar com outras pessoas.

Sobreviver. Reorganizar a classe trabalhadora. Derrotar o inimigo que nos destrói e destrói o mundo.

Vamos juntos, prezados leitores e leitoras?

A cada um de acordo com suas necessidades e de acordo com suas possibilidades. Estudando e escrevendo, estou tentando compartilhar com vocês a experiência de uma vivência nas lutas sociais.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


segunda-feira, 7 de junho de 2021

070621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Para nós, tais lutas - por óculos, calças compridas, privilégio para estudo, alimentos iguais - eram corolários para a luta que promovíamos fora da prisão. A campanha para melhorar as condições na prisão era parte da luta contra o apartheid. Era, nesse sentido, tudo igual, lutávamos contra a injustiça onde quer que a encontrássemos, não importando se era grande ou pequena, e lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade" (MANDELA, 2012, p. 498)


Lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade

Quando eu ia dar as boas-vindas aos novos funcionários do Banco do Brasil, no dia da posse deles em seus cargos de escriturários concursados do banco público, eu transmitia a eles uma mensagem muito parecida com o conceito acima descrito por Nelson Mandela. 

Eu era dirigente sindical dos bancários paulistas, representava os trabalhadores e ao sindicalizá-los dizia para nunca aceitarem violência contra eles (física e psicológica), assédio moral, humilhações ou qualquer forma de injustiça. Deixava claro para eles que assédio moral e injustiça nunca poderiam ser considerados coisas normais. Injustiça não é algo "normal", algo "natural".

Hoje, temos que trabalhar esse conceito mais que nunca no mundo do trabalho, no Brasil e no planeta Terra! Lutar contra a injustiça é uma forma de preservar a nossa humanidade.

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Nesta segunda, 7 de junho, tivemos em Osasco, São Paulo, um dia chuvoso e nublado. A natureza agradece. 

Reli e estudei um pouco as postagens que fiz sobre a leitura do clássico Odisseia, de Homero. Já passei da metade da leitura da epopeia em versos de minha edição a cargo do professor Medina e na tradução de Odorico Mendes. Estudar os clássicos da literatura mundial também é uma forma de fortalecer nossa humanidade.

Retomei a leitura da autobiografia de Nelson Mandela. Sinto que a leitura sobre a história de luta do povo negro sul-africano é necessária para mim neste momento de desesperança em relação ao presente e ao futuro por causa da dura realidade em nosso país, neste momento da história dominado pela banalidade do mal e nas mãos de um regime nazifascista, racista e contra o povo e a classe trabalhadora, regime corrupto, violento e genocida. 

A história de Mandela, seus companheiros e companheiras e a derrota do regime racista do apartheid imposto pela minoria branca é um exemplo de que a luta vale a pena e que não podemos normalizar a injustiça, temos que preservar a nossa humanidade. O bolsonarismo e a extrema direita, representantes do capital financeiro mundial, atuam para destruir nossa humanidade. Não podemos permitir isso. Eles usam inclusive o ódio e o medo para isso, idiotizam as pessoas e devemos combater isso porque é nosso dever lutar contra esse mal.

O povo está sofrendo sob a dominação desse regime genocida, cuja pauta do governo é destruir tudo que existia. Temos que resistir. Você que me lê aqui no blog e que pode estar se sentindo só e desanimado também, saiba que você não está sozinho. A vida vale a pena, a igualdade e a justiça, o amor e a solidariedade são abstrações criadas pelo animal humano e essas abstrações nos humanizam. Não desistam de viver e de lutar para sermos felizes.

Estamos juntos, mesmo que de forma singela como aqui neste blog de um militante de um mundo melhor para todos. Leiam bons livros e bons autores, boas histórias de luta e histórias de culturas, leiam e se humanizem. 

Meu coração está apreensivo com a internação do amigo e companheiro Jacy Afonso, um dos militantes das causas do povo para o qual tenho um amor fraterno antigo. Ele está lutando para vencer os efeitos da infecção pelo vírus Covid-19. A cada notícia positiva como ouvi agora há pouco, sentimos alegria e esperança em sua recuperação.

Amigas e amigos leitores, não desistam da vida, não desistam das lutas. Cada momento vivo vale a pena porque o imponderável pode nos surpreender positivamente, assim como sabemos que a vida é um instante para todo ser vivo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


sexta-feira, 4 de junho de 2021

040621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Eu havia escolhido uma roupagem tradicional para enfatizar o simbolismo que eu era um negro africano entrando em um tribunal de homens brancos. Eu estava literalmente carregando em minhas costas a história, cultura e tradição do meu povo." (MANDELA, 2012, p. 397)


Sexta-feira, 4 de junho de 2021. Queria ler hoje um capítulo inteiro da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. Ufa! Só terminei agora, perto da meia-noite. Foram quase 85 páginas de história de lutas de um povo em busca de liberdade e igualdade.

Estou triste, com o coração apertado, apreensivo. E sei que devo resistir a tudo e sobreviver, pelo menos devo fazer a minha parte para sobreviver, e com dignidade. Sei que ainda tenho alguns papéis sociais a desempenhar, por mais que já não seja figura pública. A gente segue sendo pai e membro de uma família que amamos.

Esta tem sido uma semana difícil em relação a perdas e doenças na família e nos círculos de amizade e companheirismo. Minha mãe sofreu com a morte de um primo, vítima de Covid-19. Eu não tinha relações com ele porque a relação mais forte era entre minha mãe e a tia Nenzinha. Meus sentimentos a toda a família.

Meus pais e sobrinhos perderam a querida Josinete, a Jô, uma vizinha e família que se tornaram uma só família com meus pais e sobrinhos. As crianças foram criadas juntas, minha mãe tinha nela uma irmã, amiga, companheira. Que tristeza a morte da Jô, ocorrida ontem. Jô querida, presente! Desejo muita força para os filhos Ygor e Laudiane e o marido Laudeci.

Meu coração está apertado e não vejo a hora de receber a notícia de melhoras de meu amigo, irmão, mestre e companheiro Jacy Afonso, uma das pessoas para as quais tenho um dos sentimentos mais antigos de amor fraterno, uma liderança e referência de toda uma vida de lutas no movimento sindical. Jacy nunca abandonou as ruas nas lutas em defesa da classe trabalhadora, mesmo durante a pandemia de Covid-19. Ele contraiu o vírus e está lutando pela vida neste momento. Por favor, Jacy, teima e volte logo pra nós!

Com tanta tristeza e apreensão, peguei o livro autobiográfico de Nelson Mandela pra prestar atenção naquilo que ele nos conta, na luta pela liberdade, pela igualdade, na luta pela dignidade de todo um povo subjugado por colonizadores. Que história pessoal e coletiva! É uma inspiração para não desistirmos de lutar. Assim como a história de nosso querido Lula. Duas referências de vida, de luta, de caráter e de pessoas imprescindíveis. Assim como nosso querido Jacy, também imprescindível.

Temos que ser fortes e sermos corretos e de luta e dignos por causa de seres humanos como Mandela, Lula e Jacy.

O Brasil sangra, o nosso povo está sofrendo, está exposto à morte por Covid-19 por opção do regime genocida, que apostou em não vacinar nossa gente. O povo está sem trabalho e por conta própria.

O meio milhão de mortos é composto em sua ampla maioria por gente pobre, preta e mestiça, das classes de menor renda, gente que precisa do apoio do Estado. Temos que resistir ao inimigo e nos defendermos, de todas as formas. Há um genocídio em andamento.

Temos que ocupar as ruas e mobilizar a classe trabalhadora para retomar o país das mãos dos bandidos e genocidas que ocuparam os poderes a partir de um golpe de Estado apoiado pela casa-grande, agentes externos e seus lacaios.

William


Post Scriptum: na passagem citada acima, me lembrei de minhas camisas vermelhas da CUT nas negociações com banqueiros de ternos e minhas camisas polo da Cassi entre os engravatados. Eu tinha convicção do que estava fazendo ao usar as minhas roupas do dia a dia de luta naqueles espaços de poder.


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

030621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Em minhas sessões de estudo, o Coronel Tadesse discutia assuntos tais como criar uma força de guerrilha, como comandar um exército e como impor disciplina. Certa noite, durante o jantar, o Coronel Tadesse me falou, 'Agora, Mandela, você está criando um exército de liberação e não um exército capitalista convencional. Um exército de liberação é um exército igualitário. Você tem que tratar seus homens de uma forma inteiramente diferente de como os trataria em um exército capitalista. Quando você estiver de plantão, deverá exercer a sua autoridade com confiança e controle. Isso não difere do comando num exército capitalista. Mas quando você estiver de folga, deverá se comportar em base de perfeita igualdade, mesmo em relação ao soldado mais raso. Você deve comer o que eles comem; você não deve comer no seu gabinete, mas junto com eles, beber com eles, não se isolar'." (MANDELA, 2012, p. 375)


Mais um dia de leitura sobre as lutas dos negros sul-africanos em busca da liberdade e da igualdade. Estou tendo essa oportunidade porque Mandela escreveu uma autobiografia e ela foi organizada e impressa na forma de livro. Caso estivesse em rede virtual, ou só nos computadores das big techs donas dos meios onde estão as informações da tal "internet", os capitalistas já teriam sumido com essa história de lutas.

Vocês sabiam que o Congresso Nacional Africano (CNA) teve que mudar seus métodos após o início dos anos sessenta para enfrentar o regime nacionalista dos brancos e a política de apartheid? O CNA tinha como princípio a não-violência, mas chegou um momento em que essa estratégia não tinha mais sentido porque Mandela em uma passagem de suas memórias diz que quem define as armas é o inimigo. A partir do momento em que o inimigo só usa da violência contra as políticas de não violência, algo precisa mudar.

Poderia fazer uma analogia em relação ao Brasil. Durante esse período de pandemia mundial, os genocidas apoiadores do regime nazifascista estiveram nas ruas, agiram contra as medidas de contenção da pandemia, estiveram nas ruas cobrando radicalização e ditadura. A parte mais consciente e humanista, as esquerdas e grupos democratas, estiveram em casa respeitando as recomendações das autoridades sanitárias e de saúde. NÃO DÁ MAIS. O povo contrário ao regime precisa ocupar as ruas e não sair mais.

O Brasil está nas mãos dos golpistas que destruíram a democracia do país desde o golpe de Estado em 2016. Vários são os setores da sociedade que tiveram participação ativa na construção do golpe e todos os setores envolvidos são responsáveis pela tragédia que vivemos hoje. Praticamente todos eles têm algum grau de relação com a elite econômica que destruiu a democracia e que apoia o regime no poder. Até quando o 1% e seus lacaios vai continuar dando as cartas e destruindo o país e matando o povo?

Neste momento um genocídio está em andamento no Brasil. Meio milhão de brasileiras e brasileiros morreram vítimas de uma pandemia de coronavírus. Alguns milhares de vítimas morreram antes de se descobrir formas de se evitar o contágio e centenas de milhares morreram após existir vacina contra o vírus. O regime no poder poderia ter atuado de maneira a evitar centenas de milhares de mortes caso fosse de interesse essa opção pela vida. Não foi o caso. Neste minuto, nossos entes queridos estão em risco, sem vacina e estão lutando pela vida.

Estudos mostram que a ampla maioria dos mortos e dos sequelados pela pandemia de coronavírus é o povo pobre, periférico, miserável, pretos e pardos. São os trabalhadores brasileiros. É um genocídio o que temos em andamento no Brasil do regime nazifascista no poder. Todo apoiador desse genocídio é um assassino, tem responsabilidade com as mortes de nossos familiares, amigos e conhecidos. Espero que alguns paguem por esses crimes de guerra contra os pobres e contra o povo. Muitos talvez não sejam presos e condenados, mas em algum momento de suas vidas desgraçadas terão a consciência de que fizeram parte desse genocídio e dessa tragédia brasileira.

Tenho raiva, pena e nojo de todos os apoiadores desse regime de morte, miséria e destruição. Tenho desprezo total por qualquer bolsonarista! Desprezo!

Quem dera tivéssemos no Brasil um CNA que compreendesse que é o inimigo que define as armas numa guerra. Não temos um CNA aqui. A luta pela liberdade e pela igualdade está muito longe do êxito. Ainda morrerão muitos só do nosso lado, o lado do povo, o lado da classe trabalhadora.

William


Post Scriptum: não vou cansar de registrar que os sindicatos, associações e entidades de lutas da classe trabalhadora deveriam resgatar, organizar e imprimir em livros a nossa história de lutas e distribui-la para as pessoas. Do jeito que está hoje, toda nossa história será vaporizada na tal internet. Estamos morrendo através das diversas mortes severinas que estão aí para matar a gente da classe trabalhadora e deixar vivos os desgraçados da elite predatória, lesa-pátria e que odeia o Brasil e o povo brasileiro.


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


terça-feira, 1 de junho de 2021

010621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"O chefe testemunhou sua crença na bondade inata do ser humano e como a persuasão moral e a pressão econômica poderiam levar a uma mudança de opinião por parte dos brancos sul-africanos. Ao discutir a política de não violência do CNA, ele enfatizou que havia uma diferença entre não violência e pacifismo. Os pacifistas se recusavam a se defender mesmo quando eram atacados violentamente, mas esse não era necessariamente o caso daqueles que desposavam a não violência. Às vezes homens e nações, mesmo sendo não violentos, tinham que se defender quando eram atacados." (MANDELA, 2012, p. 289)


Hoje li dezenas de páginas da autobiografia do líder negro sul-africano Nelson Mandela. Ganhei o livro de presente de minha esposa em agosto de 2014, no Dia dos Pais. Eu recém começava uma longa jornada de lutas em um mandato representativo e havia ido morar em Brasília e passaria quatro anos viajando o Brasil.

Durante aquele período, cheguei a ler duas centenas de páginas do Mandela. Ao final do mandato, por volta de abril de 2018, eu estava terminando a parte 4 - "A luta é a minha vida". Depois guardei o livro. Para retomar a leitura de Mandela, reli inteiro o que havia lido. E agora começo a avançar nas centenas de páginas de história que o líder sul-africano tem para nos contar.

Das leituras principais que estavam em andamento, decidi dar um tempo com algumas delas, principalmente o Ulysses, de James Joyce, porque estou lendo este clássico com um amigo e ele não está podendo ler nessas semanas. O livro do neurocientista Miguel Nicolelis e a Odisseia, vou seguir até o fim com a leitura.

Lendo o conceito acima, da diferença entre pacifismo e não violência, pensei a respeito, olhei para trás e avalio que me encaixo no conceito explicado pelo Chefe Luthuli (do CNA). Não sou um pacifista. Entendo que temos que nos defender quando atacados.

A história do povo negro sul-africano, a luta pela liberdade e pelo fim do apartheid, a luta pela igualdade e contra o racismo e o preconceito são grandes referências para os mais diversos povos do mundo que passam por situações semelhantes hoje e no futuro. 

O Brasil e o povo brasileiro passam por situação muito semelhante neste momento de sua história, racismo, corrupção do grupo no poder, violência do Estado contra o povo mais pobre e abandonado, destruição dos direitos do povo e do patrimônio do país. Genocídio do povo através de uma pandemia não combatida pelo governo como estratégia do regime no poder.


APARTHEID E RACISMO

"Apesar de sermos mantidos juntos, a nossa dieta era estabelecida de acordo com a raça. Para o café da manhã, os negros, indianos e mestiços recebiam as mesmas quantidades, exceto que os indianos e mestiços recebiam meia colher de chá de açúcar, o que não acontecia conosco. Para o jantar, as dietas eram as mesmas, exceto que os indianos e mestiços recebiam pouco mais de cem gramas de pão, enquanto nós não recebíamos nada. Esta última distinção era baseada na premissa curiosa de que os negros normalmente não gostavam de pão, que era um gosto mais sofisticado, ou 'ocidentalizado'. A dieta para os detentos brancos era muito superior do que aquela para os negros. As autoridades eram tão conscienciosas em relação à cor que até mesmo o açúcar e o pão fornecidos aos brancos e aos não brancos eram diferentes: os prisioneiros brancos recebiam açúcar refinado e pão branco, enquanto os mestiços e os indianos recebiam açúcar mascavo e pão de centeio." (p. 300)


Pois é. O mundo deu voltas e voltas ao redor do sol desde que o povo negro sul-africano conquistou a liberdade e depôs o regime da minoria branca e o apartheid. Seu maior líder, Nelson Mandela, foi respeitado por seu povo e teve seu valor reconhecido.

No entanto, eis que num país sul-americano - o Brasil - a secular minoria da casa-grande deu novo golpe de Estado em 2016, tirou do poder uma governante eleita legitimamente, sem crime algum, tirou um partido que vinha fazendo mudanças históricas para o povo preto, mestiço e pobre, partido que gerou oportunidades e melhores condições de liberdade e igualdade e colocou no lugar um traidor da pátria e, em seguida, um nazifascista e genocida.

Agora, assim como na África do Sul dos nacionalistas brancos e do apartheid, os representantes do governo dizem as merdas que querem e praticam os crimes que quiserem e se sentem inimputáveis. Humilham as classes populares, falam mal de empregadas domésticas, de porteiros, falam que o lugar deles não é na Disney nem nas universidades, pessoas pretas são pesadas em "arrobas" segundo o inominável na presidência do país e preconceitos de todo tipo. Sem contar a psicopatia e prazer com as mortes dos brasileiros vitimados pela pandemia de Covid-19.

É nesta condição que estamos neste momento, vivendo o que os povos negros sul-africanos sofreram em seu próprio país ao longo de séculos de colonialismo e imperialismo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.