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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Livro: Uma delicada coleção de ausências - Aline Bei



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA 


Sei que devo cumprir meus objetivos de ler os clássicos, sei. Entretanto, o novo sempre vem, clama por nós, leitores e amantes da leitura. 

Sem prever, li o primeiro livro de Aline Bei - O peso do pássaro morto - no ano de 2020 (comentário aqui). Gostei. 

Depois, li seu segundo romance-poesia - Pequena coreografia do adeus -, no final do ano passado (ler aqui). Gostei também. Uma nova poética, e em tempos duros para a cultura!

E então, antes de algum clássico para este momento, de alguma coisa antiga, mergulhei na terceira novidade de Aline: Uma delicada coleção de ausências

Na hora que peguei o livro na mão, já elenquei minha delicada coleção de ausências... Uma forma de memorizar o nome do livro. Foi só me lembrar de algumas ausências delicadas...

Destaco abaixo algumas reflexões poéticas que sintetizam a vida e os seres que aqui habitam. Ideias-força da poeta filósofa mulher Aline Bei.

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Nostalgia 

"Irá sentir um poema ao tempo vivido que é a nostalgia. mas é preciso que aconteça daqui a muitos anos. é preciso primeiro Esquecer, para então verdadeiramente lembrar." (p. 32)

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Nu

"ela procura na bolsa a chave do portão. quando olha para Camilo é por engano, não sabe de onde vem isto, mas nunca se deve olhar um rosto depois que a conversa acaba, senão é provável que o veja nu." (p. 81)

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Sangue "maldito"

"pois que o bom Deus a perdoasse, que lhe desse ao menos um pouco de juízo e que perdoasse também a menina, que carrega no sangue toda essa maldição." (p. 108)

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Aos filhos e netos

"aos filhos e netos, é preciso contar da própria vida conforme a deles desabrocha. é preciso esperar que o passo se alinhe, para que saibam ouvir melhor." (p. 134)

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Os segredos 

"pois há coisas que ao serem ditas perdem ainda mais volume do que quando existiam apenas no silêncio. há coisas que só não morrem (ou matam) quando mantidas longe das palavras, no escuro." (p. 156)

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Envelhecer

"talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto já ter sido visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrer por antecipação." (p. 159/160)

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Sorte sua se tocar o coração de duas ou três pessoas 

"Margarida ainda disse que tocar o coração de todos não é possível, nunca será o mundo quem sentirá a nossa falta. tocar duas ou três pessoas - isso é a vida dos que têm sorte." (p. 204)

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Alegria 

"é preciso cuidar da alegria também." (p. 271)

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Uma delicada coleção de ausências 

O desfecho do romance deixa a leitora e o leitor paralisados, passados... eu fiquei bolado na hora, já nas últimas páginas do enredo. Minha esposa ficou vários dias se sentindo muito incomodada com o romance. A catarse se impõe... não é esse o efeito modificador dos dramas, tragédias e comédias desde a antiguidade?

As histórias de neta, avó, e bisavó, e também a história da mãe e filha ausente se completam, se explicam, tudo se explica no desfecho que é uma metáfora da mais pura realidade em milhares de famílias desse mundão duro e perverso do universo dos homens do mundo.

Laura, Margarida, Filipa e Glória representam em suas singularidades o que enfrentam as mulheres no dia a dia do mundo, ontem, hoje, e infelizmente num longo amanhã, apesar das lutas incessantes pela ocupação de todos os espaços nos quais as mulheres desejem estar no mundo.

Por fim, a poética de Aline Bei, a ocupação de espaços nas páginas de seus livros e a particularidade de sua escrita a fazem poeta, cronista, romancista, dançarina, e de sobra, seus leitores experimentam o novo ao lerem seus livros.

O peso do pássaro morto...

Pequena coreografia do adeus...

Uma delicada coleção de ausências...

Seus três romances são obras de arte, literatura da melhor qualidade. E com a catarse para nos deixar bolados, passados, incomodados... e quiçá modificados ao final da experiência de leitura.

Que venham as próximas histórias, as substâncias narrativas com as preposições que relacionam as causas, consequências, origens e posses das coisas, como a própria vida é.

William

10/07/26


Bibliografia:

BEI, Aline. Uma delicada coleção de ausências. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Livro: Uma abelha na chuva - Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira
(10/08/21-01/07/81)


Refeição Cultural

LITERATURA PORTUGUESA 


Relendo um artigo meu dias atrás, vi nele uma citação a um livro de literatura portuguesa de meados do século passado, de Carlos de Oliveira, livro do qual não me lembrava do enredo. As obras literárias são assim, umas nos deixam marcas e lembranças, outras não. Não há um livro de Samarago, por exemplo, do qual tenha me esquecido do enredo. Talvez pelo estilo ou tema tratado pelo autor, vai saber.

Só por curiosidade, procurei e encontrei Uma abelha na chuva, de 1953, em meus guardados da faculdade de Letras e comecei a ler a história de Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres, casal principal de protagonistas do enredo do romance de Carlos de Oliveira. 

Li rapidamente a metade do romance numa só sentada e posso afirmar que ele é bem escrito, a história tem questões sociais interessantes apresentadas aos leitores da época, e de hoje também, se considerar o pano de fundo da trama: a vida num vilarejo de Portugal, país dominado pela igreja católica, por uma nobreza falida e pelo ditador António Salazar, país ainda em luta por manter colônias africanas, e em franca decadência econômica. Esse era o cenário no qual foi publicado o livro.

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RELIGIÃO E PODER 

Uma das questões que me levaram a reflexões ao reler este romance é a forma como a religião e seus doutrinadores interferem e definem a vida coletiva numa comunidade humana qualquer. 

Apesar do tema central do romance ser a decadência de Portugal, a religião está ali impregnada em tudo que é decadente, as relações, as instituições, as pessoas... em tudo. E isso é de uma atualidade incrível! 

A religião neste momento da história humana, terceira década do século XXI, é uma das principais ferramentas de manipulação de massas pela extrema-direita e pelos homens do poder mundial, que contam com exércitos e máquinas que definem o comportamento de milhões de vítimas dos algoritmos das big techs, tecnologias inexistentes no passado.

Quando lemos literatura e história e acessamos cotidianos existentes em diferentes lugares e épocas podemos perceber o poder imenso de sentimentos como ódio, medo e fé, principalmente quando são utilizados por canalhas manipuladores em posição de poder.

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UMA ABELHA NA CHUVA 

O casal Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres vive numa região rural. O casamento deles é um arranjo entre um filho de comerciante bem-sucedido com uma filha da fidalguia falida. Silvestre é um banana e D. Maria uma frustrada com o marido que seu pai lhe arranjou. 

Outros personagens completam o enredo que demonstra a decadência de uma sociedade. O padre, Abel, é um agregado da casa do casal: vê pecados o dia todo e não diz nada. As más línguas dizem que "sua irmã", D. Violante, seria uma amante. Silvestre, "um homem gordo, baixo, de passo molengão", tem um irmão na África, um aventureiro mulherengo. A propriedade rural tem um cocheiro, Jacinto, o "ruivo", e outros empregados, como o mestre António, que perdeu a visão, e sua filha Clara.

Terminada a releitura, considero o romance muito bom. A história tem humor, tem momentos de tensão e final imprevisível. O autor português utiliza as técnicas modernas do romance, alterna momentos em primeira e terceira pessoa, utiliza fluxo de pensamento, acelera e desacelera o tempo da narrativa com sumários etc.

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DITOS POPULARES E ADÁGIOS 

Gostei dos ditos populares e dos adágios de D. Violante. Minha avó Deolinda era especialista em frases prontas para qualquer tema conversado.

Vejam esses ditos e adágios constantes do capítulo VIII:

"- Quando Deus queria do norte chovia"

"- (...) se as orações dos cães chegassem ao céu choviam ossos"

"- (...) Noiva serôdia, nem miolo nem côdea"

"- (...) boda e mortalha no céu se talha"

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COMENTÁRIO FINAL 

"- Nem rei nem papa à morte escapa" (ainda D. Violante)


A cultura nos leva ao conhecimento, ao autoconhecimento e à transformação. Leitura é uma das formas de acesso à cultura. A leitura de livros é fundamental para o desenvolvimento do cérebro, pois ler textos longos nos exercita a concentração e a reflexão. 

Enquanto li A abelha na chuva, refleti sobre várias coisas do mundo atual, mesmo tendo o livro sido publicado há mais de setenta anos. Os temas abordados no enredo estão aí, ao nosso redor, pautando nossa agenda de vida. Religião, política, relações humanas, propriedade e bens materiais, condição das mulheres, das classes exploradas etc.

É sempre bom ler um livro, amigas e amigos leitores do blog. 

Sigamos lendo. Se nem rei, nem papa, à morte escapa, quem dirá eu, um simples ex-bancário que deu a sorte de chegar até aqui sobrevivendo à juventude, ao ódio e às situações que a vida nos apresenta cotidianamente. Ainda estou por aqui, então sigamos lendo.

William 

16/06/26

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Instantes (23h57) - A vida num livro de bolso


Flores na USP


Refeição Cultural

Neste instante estava revendo instantes do passado.

A viagem a Cuba. As explicações do senhor Luis nos contando sobre a resistência criativa do povo cubano para enfrentar as dificuldades causadas ao país por causa do bloqueio criminoso imposto pelos EUA há mais de seis décadas. 

A retomada dos estudos universitários na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas quando voltei de Brasília. Os instantes são repletos de imagens da natureza. 

A gente acumula tanta coisa... neste instante estava revendo imagens e vídeos da vida. Muita coisa!

E se eu parasse de registrar imagens, palavras, emoções, situações, ideias? E se eu não tivesse mais suporte algum à memória de minhas células?

Neste instante estou aqui, sei quem sou, sei o que sou. Sei meu valor. Mesmo que não tivesse registro algum de minha existência ou de algo que fiz.

No entanto, não sou só esse corpo pelado e desnudo, como poetei certa vez, não sou só eu, sou também minhas relações sociais, sou parte de alguma relação humana. 

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"UMA FRASE QUALQUER 

Nossa vida deveria caber dentro de um livro, de bolso." (Marili Santos)

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Como diz o poema da professora poeta Marili, talvez fosse o caso de sintetizar nossa existência em um livro de bolso.

Que palavras usaria para preencher meu pequeno livro de bolso da vida? Que imagem poderia ilustrar meu livro?

Não sei. Não sei. 

Ainda procuro alguma coisa, algum sentido.

William 

19/01/26

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Os miseráveis (20)



Refeição Cultural

Osasco, 5 de janeiro de 2026.


"Javert, sem suspeitar, em meio a sua formidável felicidade, era lamentável, como todo ignorante que triunfa..."


O escritor Victor Hugo tem uma capacidade incrível de descrever situações ou sujeitos e conceituar coisas. 

Essa descrição do sujeito ignorante que triunfa, uma coisa lamentável, pode ser usada facilmente nos tempos sombrios nos quais vivemos.

Os grandes poetas e escritores têm essa capacidade de denominar, descrever, criar através da linguagem, algo que gostaríamos de dizer e nos faltam as palavras. 

Finalizei a primeira parte do livro, Fantine. Vamos embarcar na viagem da segunda parte, Cosette.

Os miseráveis é mais atual que tudo!

William

sábado, 1 de março de 2025

O nome da rosa: arquitetura



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador


"Pois a arquitetura é dentre todas as artes a que mais ousadamente busca reproduzir em seu ritmo a ordem do universo, que os antigos chamavam de kosmos, isto é, ornado, enquanto parece um grande animal sobre o qual refulge a perfeição e a proporção de todos os seus membros. E seja louvado o Nosso Criador que, como diz Agostinho, estabeleceu as coisas em número, peso e medida." (p. 34)


O noviço beneditino Adso de Melk estava impressionado com o conjunto arquitetônico que via na abadia que acabara de adentrar em companhia de seu mestre, o sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville, mais ou menos entre 1324 e 1327 quando pensou a ideia acima.

Ao pegar o clássico de Umberto Eco para ler semanas atrás, parei quando estava chegando à metade do livro. Percebi que não estava lendo com a devida atenção. 

Paulo Freire nos ensina lição importante sobre leitura: devemos prestar atenção e compreender cada palavra e sentença do texto que estamos lendo. Ler é compreender o texto lido, é refletir sobre a leitura e seu significado. Não importa a quantidade de leitura, mas a qualidade da leitura. 

Para se ter uma ideia do quanto minha leitura anterior estava inadequada, ao ler a descrição sobre a impressão que os personagens tiveram ao se depararem com a abadia, eu não havia criado em minha mente a imagem da descrição que Adso fez da entrada pelo único portal da muralha, não tinha imaginado a alameda até a igreja, o horto à esquerda e outras descrições do cenário. Eu havia lido sem ler.

Adso diz ser a abadia em questão a mais bela que viu na vida, citando outras famosas para comparar. 

Enfim... se for para ler, devemos ler corretamente. 

William 


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O nome da rosa: frases e ideias



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador


Ao longo da leitura do magistral livro O nome da rosa (1980) vamos nos deparando com frases e conceitos incríveis, ideias que são atemporais.

Eis algumas delas:

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"Porque, como diz Boecio, nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono." (p. 22)

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"Os homens de outrora eram grandes e belos (agora são crianças e anões), mas esse fato é apenas um dos muitos que testemunham a desventura de um mundo que vai envelhecendo. A juventude não quer aprender mais nada, a ciência está em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros cegos e os fazem precipitar-se nos abismos..." (p. 22)

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"A beleza do cosmos é dada não só pela unidade na variedade, mas pela variedade na unidade." (p. 24)

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"As máquinas, afirmava, são efeito da arte, que é macaco da natureza, e dela, reproduzem não as formas mas a própria operação. Assim me explicou ele as maravilhas do relógio, do astrolábio e do ímã. Mas no início pensei tratar-se de bruxaria..." (p. 24)

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Reflexão

A primeira frase me convém, meu corpo perdeu o viço, meu quadril se decompõe, e estou como as flores do campo no outono...

William


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Leitura - O Nome da Rosa - Umberto Eco (1)



Refeição Cultural 

Quinta-feira, 23 de janeiro de 2025.


"Porque esta é uma história de livros, não de misérias quotidianas, e a sua leitura pode nos inclinar a recitar, com o grande imitador de Kempis: 'In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro' - 5 de janeiro de 1980*." (p. 16)

*Procurei descanso em tudo e não encontrei em lugar nenhum senão num canto com um livro (tradutor do Google)


São tantos os clássicos que não conheço ainda que fico meio perdido quando penso na escolha de um livro para me sentar num canto do mundo e descansar. 

Descansar do ódio da política dos homens. Descansar da falta de consideração. Descansar das mentiras como armas fascistas na guerra de dominação. 

Um livro para descansar a alma, para alimentar a alma e dar algum sentido na aventura humana. 

Das várias lacunas culturais, escolhi desta vez o clássico de Umberto Eco: O Nome da Rosa, de 1980.

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RESENHA DURANTE A LEITURA 

Divisões do tempo: cada dia na abadia ou mosteiro onde se passa a história é dividido em períodos determinados do dia: Matinas (de 2h30 a 3h), Laudes (entre 5 e 6h), Primeira (em torno de 7h30), Terceira (por volta de 9h), Sexta (meio-dia), Nona (14 a 15h), Véspera (16h30 ou perto do pôr do sol) e Completas (em torno das 18h, até umas 19h).

O livro começa com os seguintes textos: "Um manuscrito, naturalmente", "Nota" e o "Prólogo".

Pelos textos iniciais, o leitor fica sabendo que vai ler os relatos de Dom Adson (ou Adso) de Melk, do século XIV, sobre a missão do frade franciscano inglês Guilherme de Baskerville em uma abadia italiana. Adso era seu ajudante.

"(...) Quanto à época em que se desenvolvem os eventos descritos, estamos em fins de novembro de 1327; quando porém tenha escrito o autor é incerto. Calculando que se diz noviço em 1327 e já próximo da morte quando escreve suas memórias, podemos conjecturar que o manuscrito tenha sido elaborado nos últimos dez ou vinte anos do século XIV" (p. 14)

O livro é dividido em partes representadas pelos dias: primeiro dia, segundo dia etc.

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PRIMEIRO DIA

O frei Guilherme de Baskerville e seu ajudante Adso de Melk vão a uma abadia para tratativas políticas, mas acabam por investigar a estranha morte de um monge, Adelmo de Otranto.

Depois, o leitor fica sabendo que frei Guilherme está incumbido de organizar na abadia um encontro "diplomático" entre representações do imperador e do papa. (A partir da p. 172)

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CENA DE LEITURA: Li o começo da obra sob o silêncio da madrugada, na Colônia do Sinpro da Praia Grande, a descrição feita por Adso de Melk sobre a primeira visita dele e do frei Guilherme de Baskerville à igreja da abadia. 

Enquanto Adso descrevia uma cena demoníaca em pinturas e esculturas, eu ouvia vez por outra os medonhos sons da noite... 

O livro me apresentava os personagens Salvatore e o monge Ubertino de Casale. (p. 66)

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Na cena de leitura acima, faltou dizer que, de vez em quando, uma coruja começava a piar sem parar... São os sons da noite.

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Diálogo entre frei Guilherme e Ubertino

Inquisição - Foi um debate interessante. Sobre influências do demônio e inquisições. Guilherme era inquisidor e desistiu da função. Ubertino era a favor de queimar na fogueira algumas pessoas inocentadas por Guilherme. 

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Frei Guilherme e Adso conhecem o bibliotecário Malaquias de Hildeshein e seu ajudante, Berengário de Arundel, no scriptorium. Antes, conversaram com o padre herborista Severino de Sant'Emmerano (p. 85 adiante).

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Já no fim do primeiro dia (Vésperas), frei Guilherme faz uma discussão com o vidreiro Nicola de Morimondo muito interessante sobre a ciência na mão de pessoas não sábias. (A partir da p. 106)

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SEGUNDO DIA

O segundo dia na abadia começou com a descoberta de mais um corpo - o monge Venâncio de Salvamec -, encontrado de cabeça para baixo numa pocilga de sangue de porcos.

Há um bom resumo da conversa do dia anterior, que contou com a participação do falecido monge Venâncio, na p. 136 da minha edição. É citada, nos debates, a obra "Poética", de Aristóteles.

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O RISO - Debate entre frei Guilherme de Baskerville e o ancião cego Jorge de Burgos sobre o gênero comédia e o riso (p. 158):

Jorge: "(...) O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco."

Guilherme: "Os macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua racionalidade."

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GUERRA É GUERRA: Na p. 182, o abade diz não se importar com o assassinato de toda uma comunidade por suspeita de heresia.

"(...) E, quanto aos hereges, também tenho uma regra, e se resume na resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava o que fazer dos cidadãos de Béziers, cidade suspeita de heresia: matai-os todos, Deus reconhecerá os seus."

Frei Guilherme relembrou, constrangido, que foram mortos quase vinte mil pessoas a fio de navalha incluindo mulheres e crianças... depois a cidade foi saqueada. 

(COMENTÁRIO: Alguma semelhança com um certo massacre atual numa terra chamada Faixa de Gaza, Palestina?)

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NOS LABIRINTOS DA BIBLIOTECA 

"(...) Este lugar de sabedoria proibida é protegido por muitos e sapientíssimos achados. A ciência usada para ocultar, ao invés de iluminar. Não me agrada. Uma mente perversa preside à santa defesa da biblioteca..." (p. 206)


O segundo dia chegou ao fim. Frei Guilherme e Adso visitaram a biblioteca da abadia no meio da noite. 

Quase ficaram perdidos por lá em seus labirintos. 

Ao voltarem do primeiro escrutínio à biblioteca, às escondidas, encontram o abade naquela madrugada (matinas). O abade diz que Berengário, o ajudante do bibliotecário, está desaparecido.

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Frases para reflexão 

A EFEMERIDADE DAS COISAS E DA VIDA

"(...) Nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono." (p. 25)

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O DIABO PODE TENTAR A TODOS 

"'Mesmo um inquisidor pode ser impelido pelo diabo', disse Guilherme." (p. 44)

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A BIBLIOTECA DA ABADIA 

"Sei que tem mais livros que qualquer outra biblioteca cristã. Sei que diante de vossas estantes as de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de um menino que mal se inicia no ábaco. Sei que os seis mil códices de que se vangloriava Novalesa há mais de cem anos são poucos diante dos vossos, e talvez muitos deles agora estejam aqui. Sei que a vossa abadia é a única luz que a cristandade pode opor às trinta e seis bibliotecas de Bagdá, aos dez mil códices do vizir Ibn al-Alkami, que o número de vossas bíblias iguala-se aos dois mil e quatrocentos corões de que dispõe o Cairo, e que a realeza de vossas estantes é luminosa evidência contra a soberba lenda dos infiéis que há anos queriam (íntimos que são do príncipe da mentira) a biblioteca de Trípoli rica em seis milhões de volumes e habitada por oitenta mil comentadores e duzentos escribas." (p. 51)

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AINDA A BIBLIOTECA DA ABADIA 

O abade não quer permitir o acesso de frei Guilherme de Baskerville. A biblioteca é tão protegida que só o bibliotecário a conhece.

"(...) Somente o bibliotecário, além de saber, tem o direito de mover-se no labirinto dos livros, somente ele sabe onde encontrá-los e onde guardá-los, somente ele é responsável pela sua conservação (...) Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa, e os monges, por fim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler alguns e não outros volumes, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que porventura os colha, quer por fraqueza da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica." (p. 54)

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MAGIAS DE DEUS E DO DIABO

"(...) Porém existem duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é lícito falar. Mas há uma magia que é obra divina, lá onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, e um de cujos fins é prolongar a vida humana..." (p. 109, sobre os óculos)

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A CIÊNCIA E A QUESTÃO DA ÉTICA: DEVE HAVER LIMITE NA CIÊNCIA?

"Porque a ciência não consiste só em saber aquilo que se deve ou se pode fazer, mas também em saber aquilo que se poderia fazer e que talvez não se deva fazer. Eis por que hoje eu dizia ao mestre vidreiro que o sábio deve guardar de todos os modos os segredos que descobre, para que outros não façam mau uso deles, mas é preciso descobri-los, e esta biblioteca me parece mais um lugar onde os segredos permanecem encobertos." (p. 120)

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O POVO É MASSA DE MANOBRA NAS RELIGIÕES

"Estou dizendo que muitas dessas heresias, independentemente das doutrinas que sustentam, encontram sucesso junto aos simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. (...) Os simples são carne de matadouro, de se usar para colocar em crise o poder adverso, e para sacrificar quando não prestam mais." (p. 180/181)

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COMENTÁRIO FINAL

Sigamos na leitura e releitura dessa obra monumental de Umberto Eco. Finalizei os dois primeiros dias da história.

Antes de seguir adiante, acho que vou reler alguns diálogos que ocorreram nas primeiras duzentas páginas.

É isso. O mundo anda o caos com a ascensão do nazifascismo no século XXI. Vamos procurar algum descanso pegando um bom livro e achando um canto para desfrutar dessa maravilhosa invenção do ser humano: os livros.

William


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya. Rio de Janeiro: 1986.


segunda-feira, 24 de junho de 2024

Leitura: Otimismo em gotas, de R. O. Dantas



Refeição Cultural 

Osasco, 24 de junho de 2024.


"Um livro aberto é um cérebro que fala;

fechado, um amigo que espera;

esquecido, uma alma que perdoa;

destruído, um coração que chora. 

              Emerson"


Um dia, ao fazer uma cópia de chave em uma banquinha no Vale do Anhangabaú, descendo a Avenida São João, vindo do Edifício Martinelli, ganhei este pequeno livro do chaveiro, que autografou o presente. Ele assinou a dedicatória como Dinamor, um dos pseudônimos que assinam várias sabedorias no livro.

Fuçando em minhas mídias de cultura, sentei-me para ler as gotas de otimismo reunidas em livro por R. O. Dantas ou Dinamor ou os eu-líricos diversos da obra, afinal de contas:

"Não procures saber quem disse,

Mas, sim, o que foi dito...

Busque-se antes a utilidade da mensagem,

Que a sutileza da linguagem. 

              Anônimo"

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"A pessoa que não lê, 

mal fala, mal ouve, mal vê. 

              Malba Tahan"

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Uma das características que se vai observando ao longo da leitura das sabedorias registradas no livro tem muita relação com o objetivo deste blog desde sua criação: compartilhar de forma gratuita o que se sabe.

"Se me oferecessem a Sabedoria com a condição de a guardar só para mim, sem comunicar a alguém, não a quereria.

              Sêneca"

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"A adversidade é o microscópio que nos ensina 

a olhar a vida com mais profundidade. 

             Dinamor"

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"Prepara-te para o que quiseres ser.

             Provérbio alemão"

Caramba! Fiquei pensando nesse provérbio...

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"F ale menos

E scute mais

L eia bons livros

I mite as boas ações 

C ultive o otimismo 

I lumine a escuridão 

D eseje o bem a todos

A legre-se com o êxito dos outros

D ê o melhor de si

E vite os excessos.

              Dinamor"

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Pensamentos interessantes do livro não citados na postagem: 

Helena P. Blavatsky (p. 20); Alba (p. 35);

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Comentário: uma coisa que pensei ao ler as sabedorias reunidas no livro foi a possibilidade de ver com minha mãe se ela quer e se permite que eu divulgue algumas das sabedorias que sei que ela escreve faz tempo.

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(Texto em andamento)

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Bibliografia:

DANTAS, R. O. Otimismo em gotas. 100a ed. Porto Alegre: Katy, 2005. 176 p. 10,5 x 14 cm.


sábado, 4 de maio de 2024

Livro: Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire



Refeição Cultural

Osasco, 4 de maio de 2024. Sábado.


"(...) quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


"Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém. É por isso que, do ponto de vista gramatical, o verbo ensinar é um verbo transitivo relativo. Verbo que pede um objeto direto — alguma coisa — e um objeto indireto — a alguém." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


CONHECENDO PAULO FREIRE

Ao longo de muitos anos de vida sindical, ouvi falar do "método de ensino Paulo Freire", da luta contra a "educação bancária" e dos livros clássicos do mestre cujos nomes começavam com a palavra "Pedagogia".

Sendo eu um típico exemplar humano do que Paulo Freire nos explica sobre sermos seres incompletos, minhas lacunas culturais sempre me constrangeram como se eu tivesse culpa de ter passado a vida vendendo a minha força de trabalho e estudando como fosse possível na fase de adulto jovem. Li o que pude, mas li pouco na vida.

Agora, retirado do dia a dia do mundo do trabalho e do movimento sindical que integrei por bastante tempo, tenho conseguido ler um pouco mais que antes. 

Acumulei por décadas uma quantidade grande de mídias para ler e estudar. Muitas temáticas perderam um pouco do sentido para mim, pois a leitura era para ser o melhor possível no que fazia. Agora que não tenho mais "utilidade" para o movimento sindical, vou inventando roteiros de leitura para mim mesmo.

Eu sonhei em ser professor, função social que entendo como a mais importante da sociedade humana. Por duas vezes, entrei em cursos acadêmicos pensando em atuar na área da educação: quando iniciei uma graduação em Educação Física (não pude terminá-la) e quando fiz uma graduação em Letras. 

As veredas que se abriram em meu caminho me levaram para outras paragens. Quando entrei na USP para cursar Letras, virei sindicalista e o curso perdeu a prioridade. Fiz o possível para ser um bom representante dos trabalhadores. A graduação não foi feita como eu gostaria.

Nos últimos anos, me esforcei para estabelecer um hábito de leitura regular e acabei conseguindo ler dezenas de livros das mais diversas áreas do conhecimento humano. No blog, compartilho o que aprendi. E assim vou vivendo: aprendendo e tentando diminuir a minha incompletude. 

Com a leitura de Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa (1996), completo o 3º livro do mestre Paulo Freire. Para este leitor que vos fala, só é possível ler suas obras de forma lenta, pausada, reflexiva. A gente lê uma página e volta duas, lê mais duas e volta três (risos). Eu não tenho pressa, não para esse tipo de aproveitamento do meu tempo.

Não me sinto com capacidade para ficar escrevendo de forma crítica os textos de Paulo Freire. Ainda não. Quem sabe um dia. No entanto, não me custa citar alguns excertos do livro para ilustrar a sabedoria que esse ser humano extraordinário nos legou em vida e para a posteridade.

Feitas essas reflexões iniciais, eis abaixo alguns pensamentos que destaquei da leitura de Paulo Freire.

William Mendes

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ÉTICA UNIVERSAL DO SER HUMANO

"O meu ponto de vista é o dos “condenados da Terra”, o dos excluídos. Não aceito, porém, em nome de nada, ações terroristas, pois que delas resultam a morte de inocentes e a insegurança de seres humanos. O terrorismo nega o que venho chamando de ética universal do ser humano. Estou com os árabes na luta por seus direitos, mas não pude aceitar a malvadez do ato terrorista nas Olimpíadas de Munique." 

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SOMOS SERES CONDICIONADOS, MAS NÃO DETERMINADOS

"Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo, e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável." 

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ENSINAR NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTO

"É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção." 

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ENSINAR INEXISTE SEM APRENDER E VICE-VERSA

"Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa, e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar" 

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A LEITURA VERDADEIRA

"A leitura verdadeira me compromete de imediato com o texto que a mim se dá e a que me dou e de cuja compreensão fundamental me vou tornando também sujeito." 

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PENSAR CERTO...

"Só, na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo. E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas." 

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O PROFESSOR QUE PENSA CERTO

"O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo. Mas, histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã." 

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"DODISCÊNCIA"

"A “dodiscência” — docência-discência — e a pesquisa, indicotomizáveis, são assim práticas requeridas por esses momentos do ciclo gnosiológico." 

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TODO(A) PROFESSOR(A) DEVE SER UM PESQUISADOR(A)

"Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses quefazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade."

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COMPROMISSO COM A CONSCIÊNCIA CRÍTICA DO EDUCANDO

"Pensar certo, do ponto de vista do professor, tanto implica o respeito ao senso comum no processo de sua necessária superação quanto o respeito e o estímulo à capacidade criadora do educando. Implica o compromisso da educadora com a consciência crítica do educando, cuja “promoção” da ingenuidade não se faz automaticamente."

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SER HUMANO = ÉTICA

"Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe ou, pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão."

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A PRÁTICA COMO CRITÉRIO DA VERDADE

"Quem pensa certo está cansado de saber que as palavras a que falta a corporeidade do exemplo pouco ou quase nada valem. Pensar certo é fazer certo."

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PRÁTICA DOCENTE = ENSAIO ESTÉTICO E ÉTICO

"Não é possível também formação docente indiferente à boniteza e à decência que estar no mundo, com o mundo e com os outros substantivamente exige de nós. Não há prática docente verdadeira que não seja ela mesma um ensaio estético e ético, permita-se-me a repetição."

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TECNOLOGIA: NEM BOA, NEM RUIM

"Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado."

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ASSIM COMO O DIREITO, A ÉTICA É UM ATRIBUTO HUMANO

"Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética. Não se sabe de leões que covardemente tenham assassinado leões do mesmo ou de outro grupo familiar e depois tenham visitado os “familiares” para levar-lhes sua solidariedade. Não se sabe de tigres africanos que tenham jogado bombas altamente destruidoras em “cidades” de tigres asiáticos."

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O FUTURO NÃO ESTÁ DETERMINADO PARA OS HUMANOS

"Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu 'destino' não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade."

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O HUMANO ESTÁ NO MUNDO PARA SER SUJEITO DA HISTÓRIA E NÃO OBJETO

"Afinal, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história."

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SOMOS NATUREZA, SOMOS SERES INCONCLUSOS

"Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão substantiva não está por isso no puro inacabamento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito, faz parte da natureza do fenômeno vital. Inconclusos somos nós, mulheres e homens, mas inconclusos são também as jabuticabeiras que enchem, na safra, o meu quintal de pássaros cantadores; inconclusos são estes pássaros como inconcluso é Eico, meu pastor alemão, que me 'saúda' contente no começo das manhãs."

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NÃO SE FINALIZAM AS LEITURAS E ESTUDOS SOBRE PAULO FREIRE

Enfim, é hora de finalizar a postagem sobre a leitura dessa obra seminal do educador Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia é um clássico da produção textual e intelectual do povo brasileiro.

Não citei nem a metade do livro nesta postagem. No entanto, só pelas citações que destaquei aqui é possível perceber a profundidade das mensagens que Paulo Freire nos deixa. 

Somos seres inacabados, passíveis de sermos educados. Como diz o educador "só se educa gente". Como não acreditar na formação política, na educação libertadora? Em novos homens e mulheres, como pensava o médico revolucionário Ernesto Che Guevara?

Ao estudar Paulo Freire fica impossível a mim e ao estudioso(a) de suas ideias acharmos que o mundo não tem mais jeito, que os seres humanos não têm mais jeito, que está tudo acabado... impossível! Somos seres históricos, que transformam a realidade do mundo a partir da inteligência e da vontade.

Com educação libertadora, com vontade e amor pela vida, pelos seres e pelo mundo podemos mudar a realidade que está ruim (eu diria que está uma merda!), podemos mudar! É só querermos e fazermos o certo para mudar a realidade. Seres humanos podem fazer isso!

A emergência climática pode ser revertida! Ela foi consequência de nosso mau uso da natureza do planeta, mau uso que nós humanos causamos ao vivermos no planeta Terra permitindo que uma abstração inventada por humanos - o capitalismo - destrua a vida, o mundo, a solidariedade entre as pessoas. MUDEMOS O MUNDO, LUTEMOS PELO FIM DO CAPITALISMO!

Não adianta só nos sensibilizarmos com as vítimas de catástrofes naturais a cada momento no qual elas aconteçam e não atuarmos para mudar a realidade do mundo causada pela mão dos seres humanos. Entendem? Ao mesmo tempo que temos que acudir nossos irmãos nas catástrofes, temos que refletir as causas e as mudanças necessárias para que catástrofes não ocorram.

Temos que estudar porque somos gente, e só se educa gente! Educados, podemos mudar a realidade a qualquer tempo, em qualquer situação. Somos seres que fazem história!

William Mendes

Bibliografia:


FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à prática educativa. Edição especial 1.000.000 de exemplares. Editora Paz e Terra. Coleção Leitura. São Paulo, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 2011. Formato ePub. Versão para kindle.


domingo, 28 de abril de 2024

Livro: Canção para ninar menino grande - Conceição Evaristo



Refeição Cultural

Osasco, 28 de abril de 2024. Domingo.


Um livro que fala de amor. Das vivências e dos amores. Escrevivências... como nos explica Conceição Evaristo ao nos presentear com textos de vivência e criação, vivência e escrita. Vivências pessoais que de certa forma representam a coletividade.

Tem dias que escrevo com dificuldades, dias ou momentos nos quais a vontade era calar, silenciar, não registrar nada. Mas neste momento do viver, minha missão autoimposta é exercer um pouco da escrevivência que a intelectual nos ensina a fazer. Às vezes, o pessoal pode ser da dimensão universal.

A leitura desta obra de Evaristo se deu em contextos difíceis. A primeira metade do livro li na estrada, em um ônibus. Estava levando meu pai de Uberlândia a São Paulo para atender a um desejo dele. Tive uns dias complexos... Meu foco de atenção era ele, a leitura era a distração, a tentativa de abstração do contexto. Não foi uma leitura ideal. Até porque a temática era o amor de outra categoria, não o filial.

A segunda metade da leitura se deu num momento um pouco melhor do que o primeiro tempo de contato com a viagem nos amores de Fio Jasmim e das mulheres que amaram Fio Jasmim. Revi as 75 páginas lidas no início do mês e terminei o romance três semanas depois. 

A história de cada personagem feminina me fazia sentir-me em casa ao me colocar no mundo de cada uma delas, um mundo ao mesmo tempo ficcional e verdadeiro, cenário da realidade concreta de cada cidadezinha desse nosso Brasil de misérias e miseráveis. Vi no personagem Fio Jasmim até o comportamento de pessoa conhecida. Escrevivências.

Um livro de brasileiras e brasileiros, de uma brasileiríssima escritora, com histórias e vivências ao mesmo tempo únicas e coletivas, reais e ficcionais,  universais. 

Livro para ler e ler e reler, assim como todos os livros de Conceição Evaristo.

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MULHERES QUE AMAM

Tina (Juventina), Aurora, Antonieta, Dolores, Dalva, Neide, Pérola Maria, Angelina, Eleonora...

Pérola Maria, de Chegada Feliz...

Neide Paranhos, do Vale dos Laranjais... o príncipe negro e sua princesa.

Aurora Correa Liberto, de Vila Azul... tomava banho sem roupa nas águas do Rio Naipã. Tinha a moleira aberta e por isso era sem juízo.

Antonieta Véritas da Silva, de Remanso Velho... a do corpo maravilha.

Dolores dos Santos, de Ardência Antiga... (que história de família!). Felizmente, as mulheres da família tinham a avó dona Hermengarda...

Dalva Amorato, de Águas Infindas... com dois filhos, Dalva Ruiva deixou marido ausente e ex-patroa tia dele e foi atrás de seus sonhos.

Juventina Maria Perpétua, de 17 anos, foi pra Chegada Feliz... foi ser a "Virgem de Ébano".

E temos ainda Eleonora Distinta de Sá... ela e Fio Jasmim, que serão cúmplices na amizade, nos lamentos e na solidão.

Que vivências! 

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Momentos marcantes...

GENTE SEM JUÍZO

"(...) Aurora pensou que podia ter sido um engano tátil, de uma sensibilidade excessiva das mãos. Sorrindo, então, ela pegou a mão do moço bonito e lhe pediu que ele tocasse o alto da cabeça dela. Ele assim o fez. E, ao sentir o quase imperceptível e macio afundamento da cabeça dela, Jasmim riu e riu. Ela também! Descobriram-se. Tinham a moleira aberta, eram ambos sem juízo." (p. 47)

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SOLIDÃO

"Com a morte da mãe, Dolores experimentou não só a certeza de estar só no mundo, pois não tinha mais nenhum parente sanguíneo, como teve certeza de sua solidão. Com quem repartir a amargura que estava sentindo naquele momento? Com quem falar? A quem chamar para dividir a dor? Seria a dor algo que se pode dividir, assim como se reparte a alegria? Dolores se lembrou das alegrias vividas às escondidas entre ela, a mãe e a avó, sem que o velho Belizário soubesse. Recordou-se das lágrimas vertidas juntas, a mãe e ela, quando a avó Hermengarda se foi. E também do desejo vivido das duas, brigando com a morte, pois ela deveria ter levado o avô e não a avó. E agora com quem dividir essa dor? Por entre lágrimas viu a pessoa de Sô Damião, empregado antigo da casa, soluçando feito criança, ao perceber que sua patroa, mulher tão sofrida pelo desprezo do pai, tinha ido. Dolores teve desejo de abraçar sua dor à dor de Sô Damião, mas se conteve. E viveu a sua angústia, sozinha." (p. 63)

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A VINGANÇA QUE VIROU PRUDÊNCIA (CONSCIÊNCIA E SOLIDARIEDADE NO UNIVERSO FEMININO)

"E de repente seu ódio contra Fio Jasmim se transformou em prudência, em juízo, em consciência. Buscou no fundo de sua bolsa de viagem a foto e pela primeira vez viu os detalhes. Pérola Maria, cercada das crianças, tinha uma expressão serena. Contemplou profundamente a foto e, no lugar de Pérola, outras mulheres apareciam: vó Hermengarda; mãe Maria da Cruz; a velha Clementina, tia do Sô Damião; Santina, a mulher que morava lá na entrada de Nova Ardência; Cleide do Vicente, uma antiga colega de escola; Joana, a mãe que cuidava das quatro meninas sozinha; Laurinda, a que noivara aos dezoito anos de Ovídio, o noivo que nunca marcava a data do casamento; e outras e outras. Cada uma aparecia ora com um rosto pleno de alegria, ora não só com o rosto, mas com o corpo debulhado em lágrimas. Ora independentes de seus homens, ora puxadas pela mão por eles, ora brutalmente empurradas. Ora deitadas, ora em pé. Ora alisando as crias, ora as enforcando. Uma gama de mulheres, um universo feminino em ebulição, mesmo quando aparentemente estático." (p. 75)

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PERSPECTIVAS: NA LUTA PELOS SONHOS, CADA UM TRABALHA VENDENDO O PREDICADO QUE TEM

"Novamente organizou uma planilha de gasto: aluguel da casa, pagamento de escola e de acompanhante para as crianças, despesas alimentares, etc. E ainda, ou principalmente, custear seus estudos, os preliminares e depois o curso de Farmácia. A solução veio rápida, sem dúvida, sem constrangimento algum. Ia trabalhar vendendo o seu corpo. Sexo. Se fosse cantora, venderia a voz; se fosse bailarina, venderia o corpo no movimento da arte de dançar; se fosse professora, venderia a sua capacidade, a sua didática, o conteúdo aprendido, para ensinar; se fosse médica, a sua capacidade de cuidar, de curar, de orientar na procura e na conservação da saúde; se fosse cozinheira, o seu dom de cozinhar. Não tinha nenhum desses predicados e talvez esses tomassem mais tempo para aprender. E para Dalva Ruiva se tratava de correr contra o tempo, ou melhor, agarrar um tempo que ficou vazio, sem movimento algum para a realização de seus sonhos. E sem qualquer acanhamento ou dúvida, Dalva Ruiva tomou informações de como agir..." (p. 84)

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PERSPECTIVAS E ACULTURAMENTOS: APRENDEU QUE SER HOMEM ERA TER VÁRIAS MULHERES

"(...) fora concebido em uma menina de quinze anos, quando o homem já beirava os seus quase sessenta. Fio cresceu ouvindo as proezas do pai. Aprendera com ele que ser homem era ter várias mulheres..." (p. 93)

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"O pai de Jasmim, homem já maduro, cuja flor já não gozava de haste tão rija, sorria feliz ouvindo as histórias do filho. Na escuta dos jactados encontros de Jasmim com as mulheres, o pai, saudoso das façanhas do passado, se reconhecia na virilidade do filho. Ficava imaginando mulheres oferecidas diante dele a brincar desejantes e carinhosas com seu ereto lírio negro. Bem se vê que a lição que Fio Jasmim tivera em casa estava sendo muito bem aproveitada." (p. 94)

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MULHERES FILHAS DE MULHERES, SÓ

"(...) Com a mãe dela havia sido assim. O pai de sua irmã mais velha agira dessa forma. Ela, a segunda filha, sabia somente que um outro homem, seu pai, também não ficara, tinha partido antes mesmo de ela nascer. Do pai, Tina mal sabia o apelido. As suas duas outras irmãs, as mais novas, os pais eram homens também desconhecidos para elas. A mãe de Tina, Alda Jovelina, parecia querer devolver com a mesma intensidade o desprezo a ela e às suas filhas. O nome do pai nunca era dito. Só o da mãe. Pai era uma imagem vazia. Durante muito tempo, época ainda da infância de Tina, só a mãe e as tias lhe bastavam para a sua vida-menina..." (p. 100)

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HOMENS NÃO CHORAM?

"(...) E, como proprietário de uma extensa gleba, o homem ali tinha o dever de dominar as mulheres, de alguma forma. E mais, tinha ainda de desafiar e causar inveja a outros machos. Não sendo de bom tom o derramamento das dores do macho - assim pensava Fio Jasmim -, por isso ele calou qualquer sintoma de mortificação em sua vida. Pouco importava a dolorida lembrança de ter sido preterido pelo coleguinha branco para representar um príncipe. Era preciso esquecer essa lembrança, negá-la sempre. Só as fêmeas podem dar vazão às suas agonias, às suas aflições, das menores às maiores. E, por isso, sempre os olhos secos de Fio Jasmim diante da morte e da vida..." (p. 129)

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CONVITE À LEITURA

E o final das histórias, eu deixo a descoberta para vocês leitoras e leitores...

Obrigado por compartilhar conosco essa maravilha, querida Conceição Evaristo!

Até hoje me recordo de nossas horas conversando no voo entre Panamá e Havana, Cuba, em 15 de fevereiro deste ano. Foi muito legal conhecê-la, e um orgulho porque sou seu admirador e fã.

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. 2. ed. - Rio de Janeiro: Pallas, 2022.


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba I (03/01/23)



Refeição Cultural - Cuba

Osasco, 3 de janeiro de 2023. Terça-feira.


(atualizado em 06/01/23, às 19h10)

Para o ano que se inicia, defini que vou estudar um pouco sobre a história de Cuba e de seu povo. Conheço pouca coisa sobre Cuba. Diria que tenho noções, mas são noções muito vagas. Revolução cubana, Fidel Castro e Che Guevara, socialismo, embargo econômico há décadas etc. Sei muito pouco. Espero ter noções melhores nos próximos meses.

Iniciei a leitura de um romance que me recomendaram a leitura muitas vezes. Vários companheiros do movimento sindical sempre me perguntaram se eu havia lido o livro O homem que amava os cachorros (2009), do cubano Leonardo Padura. E eu dizia... "ainda não", como a maioria dos livros que me perguntavam. 

Agora vou conhecer essa obra. Já saí do movimento e sigo sem ter lido uma quantidade enorme de livros e autores que me citavam nas rodas de conversa. Sem problema. Calhou que o autor é cubano e que agora vou me envolver um pouco com a história de Cuba e dos cubanos e assim a vida segue, sigo lendo e estudando.

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O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

Quatro cachorros em três capítulos...

Até agora, já conheci Tato e Truco, dois cachorros do casal cubano Ana e Iván. Tato foi salvo por Iván no início de sua relação com Ana e depois da morte de Tato - aos 16 anos - eles pegaram um cachorrinho sarnento na rua e cuidaram dele, Truco, que viu Ana falecer.

Depois conheci Maya, a cadela de Liev Davidovitch, um cachorro galgo russo, vivendo em meio ao gelo do Quirguistão, nos anos vinte do século passado. Liev Davidovitch é conhecido pelo nome de Trótski.

Por fim, conheci o cachorro Churro, um cãozinho peludo que acompanhava Ramón ao ir se encontrar com a camarada Caridad, na região da Catalunha. Caridad é mãe de Ramón e ela não é nada "caridosa" com os animais, que o diga o cãozinho peludo Churro.

Em todos os cenários onde estão personagens humanos e cachorros - Cuba, Quirguistão e Espanha -, muita escassez de recursos e fome.

Não quis ler nada sobre o romance para não me atrapalhar a leitura, não li sequer as notas nas orelhas do livro, nem o prefácio de Gilberto Maringoni. A narrativa aborda a figura lendária de Trótski. Mas não quero ser antecipado em nada na leitura.

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FRASES E IDEIAS VIBRANTES

"fileiras de campas e jazigos, carcomidos pelo sol, pela intempérie e pelo esquecimento, tão mortos como seus inquilinos..." (p. 32)

Jazigos carcomidos pelo esquecimento...

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"a dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores." (p. 33)

Ou seja, se possível, guarde pra si sua dor e sua miséria...

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"Mas, enquanto não acontecia o que desejavam, seus adversários tinham decidido aproveitar o tempo e dedicaram-se a liquidá-lo da história e da memória, que também tinham se tornado propriedade do Partido." (p. 41)

Caralho... já vi isso! A história e a memória como propriedade do partido, do sindicato etc.

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"foi obrigado a responder a si próprio que o ódio é uma doença incontrolável." (p. 51)

Sabemos disso... nós, brasileiros, sabemos disso.

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BRASIL, RECOMEÇO COM LULA

O presidente Lula teve uma agenda intensa nos dois primeiros dias de mandato. Já desfez algumas merdas do regime anterior (fascista) como, por exemplo, cancelar as portarias que permitiam armamento pesado na mão de civis. Também expediu ordens em favor do meio ambiente e dos povos indígenas. E já está recolocando o Brasil no mapa do mundo diplomático.

É isso. Será um desafio diário reconstruir o Brasil e a cidadania do povo. A imagem do governo Lula para mim é sem dúvida a imagem da subida dele na rampa com o povo brasileiro representado por aquelas pessoas lindas que entregaram a faixa presidencial ao Lula. 

Chorei ao ver o líder indígena Raoni entre as representações. Uma catadora de materiais recicláveis entregar a faixa a Lula é algo muito simbólico do fim do regime daquele ser repugnante e do Mal que ocupou a cadeira da presidência de nosso país durante a longa noite de terror que vivemos até 31 de dezembro.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.