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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Evocações



Refeição Cultural

Ontem, reli o capítulo 38 de meu livro de memórias sindicais, "Evocações". No texto está a essência de minha história e formação política. 

Aquelas lembranças foram inspiradas nas memórias de Aleida March, companheira de Ernesto Che Guevara. O livro dela me escolheu numa rua de Havana.

Nosso grupo de brasileiros estava andando por Havana Velha com o senhor Luis Caballero quando olhei o livro numa portinha de livros usados. Aquela foto de Aleida e Che me encantou.

No capítulo 38 de "Memórias de um trabalhador politizado pelos bancários da CUT" vou buscando as lembranças assim como fez Aleida depois de décadas de silêncio. O passado sendo tratado com ternura.

A vida humana é definida diariamente, independentemente dos planejamentos que as pessoas fazem em seus sonhos e utopias. Olho para trás e vejo isso claramente. E tudo bem!

As veredas, as veredas da vida. Veredas que definem caminhos, caminhos que determinam a vida vivida. E tudo bem se não rolou o que você queria. Se a vida foi vivida com uma ética humanista, valeu a pena.

As veredas são oportunidades incríveis... quando vi era dirigente sindical. Quando percebi estava mudando o mundo junto com meus companheiros e companheiras, o meu e o nosso mundo do trabalho à época. 

Quando vi, Aleida e Che me encantaram numa rua de Cuba. Do nada, me senta no assento ao lado no ano seguinte, num voo de volta a Cuba, a queridíssima Conceição Evaristo, e passamos horas conversando até Havana.

Falei a ela de Aleida March, disse que lhe daria o livro de presente. Achei agora a versão em português e quero entregar à nossa querida escritora das escrevivências as lembranças de Aleida March. E, modestamente, lhe presentear também com as memórias do bancário.

O capítulo 38 traz lembranças de um fazer sindical com uma ética toda aprendida com lideranças sindicais de grande valor, que me inspiraram e me fizeram ser a pessoa que fui, e que sou.

Espero entregar a Conceição Evaristo as evocações de Aleida March. Espero que minhas evocações testemunhem o efeito revolucionário da formação política e sindical, lições de vida que me trouxeram até aqui.

William 

25/11/25

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Blog Refeitório Cultural - Retrospectiva 2024



(TEXTO EM CONFECÇÃO: ATUALIZADO EM 11/2/25, ÀS 23h)


O ANO DE 2024

Janeiro

Ao reler as quinze postagens do mês de janeiro, percebi o quanto meu texto se tornou mais denso e maduro após os anos iniciais do blog. Só nesse período de um mês, a revisão e diagramação em word para o formato de caderno deu 70 páginas.

Fiz textos comentando os dois livros que li: um sobre o presidente Lula - "LulaLivre * LulaLivro" (ler aqui)- e o outro a respeito de um clássico da literatura - "As aventuras de Tom Sawyer", do norte-americano Mark Twain (ler aqui). Fiz um texto sobre filmes; dois capítulos da série "Natais"; e até um poema "Oração do ateu".

Desenvolvi temas complexos nos artigos do mês sobre política e as big techs. Alguns temas abordados por mim no mês: documentário com Noam Chomsky a respeito do fim do sonho americano (ler aqui); gestão de saúde e a Cassi; e comentei reportagens das revistas atuais e antigas (2005) de CartaCapital.

Amizades novas: conhecemos uma família de professores muito legais.

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Fevereiro

O mês foi marcado por minha segunda visita a Cuba. Abracei a oportunidade de retornar ao país socialista para ampliar minha experiência e conhecimento adquiridos em 2023, quando participei do 1º de Maio dos cubanos. Desta vez, participei da 32ª Feira Internacional do Livro em Havana.

A viagem foi extraordinária, deu tudo certo novamente. Conciliei os dias do pacote da Feira do Livro, hospedado em hotel, com alguns dias hospedado na Casa de Isabel. Tive oportunidade de conhecer Frei Betto, Conceição Evaristo, Ailton Krenak e Emicida. 

E conheci a companheira Telma Araújo, uma militante da solidariedade a Cuba, que organiza brigadas e viagens ao país. Tive contato também com Lina Noronha, de Santos, responsável pelo programa "Cubanias", e até participei de um programa dela.

As palestras do dominicano me marcaram profundamente. Agora sou leitor de Frei Betto. Viajei horas ao lado de Conceição Evaristo, outro momento marcante de minha viagem. Conversamos a viagem toda.

Um fato importante nas questões pessoais foi a entrega de um imóvel que alugamos por muito tempo por causa da minha transição de trabalho entre Brasília e Osasco. Fiz até um texto da série "Lembranças", o Capítulo 14, com reflexões profundas sobre o tema e também refletindo a vida (ler aqui).

Em relação aos livros, finalizei a leitura de "Pedagogia da autonomia", de Paulo Freire. Foi o terceiro livro que li do educador brasileiro. A postagem a respeito da leitura ficou para depois, li no kindle e não consegui escrever a respeito (fiz texto depois: ler aqui).

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Março

Como disse acima, meus textos de março são densos, com história e política na essência deles. Ao finalizar a revisão do mês, o caderno em word já soma mais de duzentas páginas.

Nos destaques do mês, tivemos os 60 anos do Golpe de 1964, as eleições da Cassi e minha participação como palestrante no planejamento da Unafisco Saúde, em Brasília (DF). 

Os textos sobre Cuba estão muito bons, modéstia à parte. No de número IV (ler aqui) faço uma analogia na forma como Brasil e Cuba tratam suas histórias. Enquanto nosso governo decidiu não falar dos 60 anos do Golpe de 1964, o cubano fala de história todos os dias, e foi assim que o país socialista comemorou os 65 anos da vitória revolucionária em 1959.

Reforcei em artigo (ler aqui) minha tese de que as autoridades brasileiras querem que Bolsonaro fuja para não terem que prendê-lo. Ainda penso o mesmo. Completamos dois anos de impunidade desse sujeito lesa-pátria e genocida. Ele e seus "parças" passaram o ano perambulando por aí, destruindo provas e só no fim do ano um general de merda foi preso com todo o luxo que um general está acostumado.

Não poderia deixar de destacar o artigo que fiz em março sobre a "Cultura do cancelamento" (ler aqui). Tema segue atualíssimo!

Ao reler os textos de março, tive a impressão que estava bastante inspirado naquele mês, os textos têm informações relevantes. 

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Abril

Comecei o mês fazendo um texto avaliativo sobre minha vida ao completar 55 anos. Concluí que minha existência foi de acaso em acaso até chegar onde cheguei. Mas fui esforçado e tentei levar uma vida correta, isso tenho claro. (ler aqui)

Se em março fiz vários artigos complexos, em abril foram os textos da série "Diário" que tiveram profundidade filosófica e política. Um exemplo de reflexão pode ser lida aqui em um texto no qual cito uma conclusão de Nelson Mandela sobre as formas de se enfrentar os inimigos, minha opinião sobre os fascistas atuais.

O mês foi de desafios no quesito saúde, a família em Uberlândia enfrentou doenças. Felizmente superamos e todos estão bem. 

Ajudei meu pai a renovar sua carta de motorista em São Paulo. Contamos com o apoio da família do tio Delcídio. Sou grato por isso.

Li e ou finalizei a leitura de 4 livros: A Faca da Catacumba - Arnaldo Onça (ler aqui), Mulheres são tudo isso e muito mais - Org. Cleusa Slaviero (ler aqui), Canção para ninar menino grande - Conceição Evaristo (ler aqui), O marxismo ainda é útil? - Frei Betto (ler aqui).

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Maio

O mês começou com as consequências trágicas das inundações do Rio Grande do Sul, ocorridas a partir do final de abril. A culpa é dos humanos, não é da natureza.

Fiz uma postagem com frases conceituais tiradas do livro de Paulo Freire Pedagogia da Autonomia - ler aqui. São lições profundas cada uma das frases. Vale a pena reler sempre aquelas ideias-chave.

Eu estava lidando com a questão pessoal da dúvida se deveria editar em forma de livro as minhas memórias sindicais, que escrevi em 39 capítulos no blog A Categoria Bancária. A decisão foi seguir adiante, pois já havia investido recursos na produção do material. Falta a revisão final e a impressão para o ano de 2025.

Comecei no dia 26 uma série de postagens reflexivas a serem feitas diariamente nos cem dias seguintes, pensando um pouco sobre o que fazer de minha vida. Nesta aqui faço uma declaração contundente a respeito da falta de democracia no Brasil. 

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Junho

Na releitura dos textos diários "Cem dias" fiquei impressionado com alguns deles, têm reflexões interessantes. Por mais que sejam pessoais, são avaliações da vida coletiva, principalmente do ponto de vista de alguém que foi dirigente nacional dos bancários por duas décadas.



(texto em produção, não finalizado)


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 20 de novembro de 2024.


Dia da Consciência Negra

*Conceição Evaristo

Pela manhã, li um conto de nossa querida escritora Conceição Evaristo. Li "Aramides Florença", do livro Insubmissas lágrimas de mulheres.

Aos poucos, vou entendendo melhor o conceito de escrevivência. Já li alguns livros de Evaristo e seus textos são muito potentes, são delicados e duros ao mesmo tempo. 


Insubmissas lágrimas de mulheres.

A escritora aborda temas da vida cotidiana do povo preto e pobre, sobretudo de mulheres pretas e pobres, mas ela tem um jeito único de narrar as histórias duras de personagens que podem ser reais ou fictícias e que representam todas as situações reais da vida das pretas e pretos e pobres do Brasil.

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*"Eu, capitão"

Vi nesta semana o filme "Io Capitano" (2023) em cartaz no 19º Festival de Cinema Italiano. O filme do diretor Matteo Garrone narra a saga de dois primos de Dakar, Senegal, para realizar o sonho de irem trabalhar na Europa, para terem mais oportunidades na vida. 

Seydou e Moussa enfrentam os perigos do deserto do Saara, os horrores dos centros de detenção na Líbia e os perigos da travessia do Mediterrâneo. Eles são menores de idade e os espectadores vão mergulhar na realidade cotidiana dos imigrantes que saem de seus locais de origem rumo a países mais desenvolvidos do Norte global na luta pela sobrevivência. 


Cena da travessia do deserto do Saara.

Eu sofro muito durante a sessão de filmes com essa temática da realidade da miséria humana provocada, muitas vezes, pela maldade e crueldade de alguns animais humanos. No meu caso, filmes assim não são entretenimento. Mas são filmes muito necessários. 

O diretor Matteo Garrone consegue dar uma leveza na história quando foca Seydou com sua família, na relação de amor entre as pessoas e nas pequenas vitórias da vida cotidiana.

A arte traz sempre a esperança de transformar as pessoas pela catarse, pelo impacto que causa em quem tem contato com ela. A história de Seydou e Moussa foi perfeita para pensar a questão da consciência negra sendo eu um branco num dos países que mais assassinam e exploram pessoas afrodescendentes há séculos.

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*Ato da consciência negra

Hoje foi dia de atos e reflexões pelo Brasil para marcar o Dia da Consciência Negra. Em São Paulo, os movimentos se reuniram na Avenida Paulista para depois sair em marcha. Ouvimos boa música, manifestações de lideranças e pude trocar ideia com amigos.

Como tinha um compromisso no final da tarde, fui no horário marcado pela organização, 13 horas, para poder participar por algumas horas do ato.


Ato na Avenida Paulista.

Encontrei companheiros e conhecidos por lá durante as três horas em que estive na Paulista. Tive a impressão que a participação não foi muito grande. Avalio que os sindicatos e partidos poderiam ter jogado peso na convocação e lotado o ato. Vi poucos sindicalistas e quase ninguém com mandato parlamentar. 

Fiquei pensando no tema atual do identitarismo e da luta de classes sob a ótica dos debates no campo da esquerda. 

Penso que o sindicalismo e os partidos de esquerda não jogarem peso em um evento que tem uma temática identitária não agrega esses movimentos à causa central, a luta de classes. 

Vi o desenvolvimento dessa questão nos últimos trinta anos. Questões de raça, gênero, orientação etc não deveriam ser questões somente dos interessados diretos. Vira uma coisa meio de reciprocidade, um grupo só se envolve com seu tema de interesse e mais nada. É minha leitura.

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É isso.

Mais um dia de vida.

William Mendes


sábado, 9 de novembro de 2024

Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes (Prólogo)



Refeição Cultural

Toda vez que pego um clássico da literatura mundial e o leio fico pensando na produção daquela criação humana, a condição em que ela foi feita, na pessoa que produziu aquela coisa, na época em que aquilo veio a público - ou não, só muito mais tarde -, tento imaginar o lugar do mundo onde aquilo foi produzido. Acreditem: um texto antigo tem muita história consigo, Alberto Manguel conta um pouco sobre essa história no livro "Uma história da leitura".

Quando li a história de Dom Quixote tinha pouco mais de trinta anos de idade. Havia acabado de entrar em uma faculdade de Letras e me atrevi a ler a obra em espanhol. Foi uma aventura marcante em minha vida de leitor. Eu ria, e chorava, e ficava puto, e depois inconformado, e ficava impressionado, surpreso com os ditados e sabedorias que lia, ria de novo, chorava, achava sacanagem alguns acontecimentos, outros achava inacreditáveis. Era como se não estivesse lendo uma obra ficcional. Foi uma aventura marcante a leitura do clássico de Miguel de Cervantes.

PRÓLOGO 

O prólogo da obra já é um acontecimento. A gente tenta imaginar as pessoas que sabiam ler e que tiveram acesso à leitura quatro séculos atrás lendo aquele prólogo "desocupado leitor...". 

O autor anuncia o que os leitores desocupados vão ler:

"y, pues, esta vuestra escritura no mira a más que a deshacer la autoridad y cabida que en el mundo y en el vulgo tienen los libros de caballerías..."

Cervantes faz o contrato com os leitores e avisa que a história é "una invectiva contra los libros de caballerías" e mesmo avisados de que a obra é feita para tirar um sarro daquelas histórias mirabolantes de cavaleiros da época, nós não conseguimos ver de forma fria o personagem Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. 

São apaixonantes demais essas duas figuras! Nos envolvemos com elas, não tem jeito. Nos apaixonamos por aquele senhor e seu servidor e amigo, mesmo sendo eles criações para se tirar sarro dos cavaleiros ficcionais da época.

"Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólico se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla."

Olha eu aí na descrição de Cervantes. Ou facetas de mim, num momento ou outro da vida. Como falei no início, quando li a obra posso ter sido o melancólico que riu ou o prudente que a louvou, pois era visto pelos conhecidos como pessoa sisuda e que quase não ria.

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CONCEIÇÃO EVARISTO ME DEIXOU PENSATIVO

Enfim, fiquei pensando nas obras literárias e autores e autoras ao ver ontem uma entrevista da querida Conceição Evaristo. 

Imaginem vocês que momento ímpar eu vivi na minha vida ao passar três horas conversando com ela num voo entre o Panamá e Cuba... Foi um acontecimento na minha vida de fã e leitor.

William Mendes

09/11/24


Post Scriptum: a leitura com comentários segue aqui.


domingo, 28 de abril de 2024

Livro: Canção para ninar menino grande - Conceição Evaristo



Refeição Cultural

Osasco, 28 de abril de 2024. Domingo.


Um livro que fala de amor. Das vivências e dos amores. Escrevivências... como nos explica Conceição Evaristo ao nos presentear com textos de vivência e criação, vivência e escrita. Vivências pessoais que de certa forma representam a coletividade.

Tem dias que escrevo com dificuldades, dias ou momentos nos quais a vontade era calar, silenciar, não registrar nada. Mas neste momento do viver, minha missão autoimposta é exercer um pouco da escrevivência que a intelectual nos ensina a fazer. Às vezes, o pessoal pode ser da dimensão universal.

A leitura desta obra de Evaristo se deu em contextos difíceis. A primeira metade do livro li na estrada, em um ônibus. Estava levando meu pai de Uberlândia a São Paulo para atender a um desejo dele. Tive uns dias complexos... Meu foco de atenção era ele, a leitura era a distração, a tentativa de abstração do contexto. Não foi uma leitura ideal. Até porque a temática era o amor de outra categoria, não o filial.

A segunda metade da leitura se deu num momento um pouco melhor do que o primeiro tempo de contato com a viagem nos amores de Fio Jasmim e das mulheres que amaram Fio Jasmim. Revi as 75 páginas lidas no início do mês e terminei o romance três semanas depois. 

A história de cada personagem feminina me fazia sentir-me em casa ao me colocar no mundo de cada uma delas, um mundo ao mesmo tempo ficcional e verdadeiro, cenário da realidade concreta de cada cidadezinha desse nosso Brasil de misérias e miseráveis. Vi no personagem Fio Jasmim até o comportamento de pessoa conhecida. Escrevivências.

Um livro de brasileiras e brasileiros, de uma brasileiríssima escritora, com histórias e vivências ao mesmo tempo únicas e coletivas, reais e ficcionais,  universais. 

Livro para ler e ler e reler, assim como todos os livros de Conceição Evaristo.

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MULHERES QUE AMAM

Tina (Juventina), Aurora, Antonieta, Dolores, Dalva, Neide, Pérola Maria, Angelina, Eleonora...

Pérola Maria, de Chegada Feliz...

Neide Paranhos, do Vale dos Laranjais... o príncipe negro e sua princesa.

Aurora Correa Liberto, de Vila Azul... tomava banho sem roupa nas águas do Rio Naipã. Tinha a moleira aberta e por isso era sem juízo.

Antonieta Véritas da Silva, de Remanso Velho... a do corpo maravilha.

Dolores dos Santos, de Ardência Antiga... (que história de família!). Felizmente, as mulheres da família tinham a avó dona Hermengarda...

Dalva Amorato, de Águas Infindas... com dois filhos, Dalva Ruiva deixou marido ausente e ex-patroa tia dele e foi atrás de seus sonhos.

Juventina Maria Perpétua, de 17 anos, foi pra Chegada Feliz... foi ser a "Virgem de Ébano".

E temos ainda Eleonora Distinta de Sá... ela e Fio Jasmim, que serão cúmplices na amizade, nos lamentos e na solidão.

Que vivências! 

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Momentos marcantes...

GENTE SEM JUÍZO

"(...) Aurora pensou que podia ter sido um engano tátil, de uma sensibilidade excessiva das mãos. Sorrindo, então, ela pegou a mão do moço bonito e lhe pediu que ele tocasse o alto da cabeça dela. Ele assim o fez. E, ao sentir o quase imperceptível e macio afundamento da cabeça dela, Jasmim riu e riu. Ela também! Descobriram-se. Tinham a moleira aberta, eram ambos sem juízo." (p. 47)

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SOLIDÃO

"Com a morte da mãe, Dolores experimentou não só a certeza de estar só no mundo, pois não tinha mais nenhum parente sanguíneo, como teve certeza de sua solidão. Com quem repartir a amargura que estava sentindo naquele momento? Com quem falar? A quem chamar para dividir a dor? Seria a dor algo que se pode dividir, assim como se reparte a alegria? Dolores se lembrou das alegrias vividas às escondidas entre ela, a mãe e a avó, sem que o velho Belizário soubesse. Recordou-se das lágrimas vertidas juntas, a mãe e ela, quando a avó Hermengarda se foi. E também do desejo vivido das duas, brigando com a morte, pois ela deveria ter levado o avô e não a avó. E agora com quem dividir essa dor? Por entre lágrimas viu a pessoa de Sô Damião, empregado antigo da casa, soluçando feito criança, ao perceber que sua patroa, mulher tão sofrida pelo desprezo do pai, tinha ido. Dolores teve desejo de abraçar sua dor à dor de Sô Damião, mas se conteve. E viveu a sua angústia, sozinha." (p. 63)

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A VINGANÇA QUE VIROU PRUDÊNCIA (CONSCIÊNCIA E SOLIDARIEDADE NO UNIVERSO FEMININO)

"E de repente seu ódio contra Fio Jasmim se transformou em prudência, em juízo, em consciência. Buscou no fundo de sua bolsa de viagem a foto e pela primeira vez viu os detalhes. Pérola Maria, cercada das crianças, tinha uma expressão serena. Contemplou profundamente a foto e, no lugar de Pérola, outras mulheres apareciam: vó Hermengarda; mãe Maria da Cruz; a velha Clementina, tia do Sô Damião; Santina, a mulher que morava lá na entrada de Nova Ardência; Cleide do Vicente, uma antiga colega de escola; Joana, a mãe que cuidava das quatro meninas sozinha; Laurinda, a que noivara aos dezoito anos de Ovídio, o noivo que nunca marcava a data do casamento; e outras e outras. Cada uma aparecia ora com um rosto pleno de alegria, ora não só com o rosto, mas com o corpo debulhado em lágrimas. Ora independentes de seus homens, ora puxadas pela mão por eles, ora brutalmente empurradas. Ora deitadas, ora em pé. Ora alisando as crias, ora as enforcando. Uma gama de mulheres, um universo feminino em ebulição, mesmo quando aparentemente estático." (p. 75)

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PERSPECTIVAS: NA LUTA PELOS SONHOS, CADA UM TRABALHA VENDENDO O PREDICADO QUE TEM

"Novamente organizou uma planilha de gasto: aluguel da casa, pagamento de escola e de acompanhante para as crianças, despesas alimentares, etc. E ainda, ou principalmente, custear seus estudos, os preliminares e depois o curso de Farmácia. A solução veio rápida, sem dúvida, sem constrangimento algum. Ia trabalhar vendendo o seu corpo. Sexo. Se fosse cantora, venderia a voz; se fosse bailarina, venderia o corpo no movimento da arte de dançar; se fosse professora, venderia a sua capacidade, a sua didática, o conteúdo aprendido, para ensinar; se fosse médica, a sua capacidade de cuidar, de curar, de orientar na procura e na conservação da saúde; se fosse cozinheira, o seu dom de cozinhar. Não tinha nenhum desses predicados e talvez esses tomassem mais tempo para aprender. E para Dalva Ruiva se tratava de correr contra o tempo, ou melhor, agarrar um tempo que ficou vazio, sem movimento algum para a realização de seus sonhos. E sem qualquer acanhamento ou dúvida, Dalva Ruiva tomou informações de como agir..." (p. 84)

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PERSPECTIVAS E ACULTURAMENTOS: APRENDEU QUE SER HOMEM ERA TER VÁRIAS MULHERES

"(...) fora concebido em uma menina de quinze anos, quando o homem já beirava os seus quase sessenta. Fio cresceu ouvindo as proezas do pai. Aprendera com ele que ser homem era ter várias mulheres..." (p. 93)

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"O pai de Jasmim, homem já maduro, cuja flor já não gozava de haste tão rija, sorria feliz ouvindo as histórias do filho. Na escuta dos jactados encontros de Jasmim com as mulheres, o pai, saudoso das façanhas do passado, se reconhecia na virilidade do filho. Ficava imaginando mulheres oferecidas diante dele a brincar desejantes e carinhosas com seu ereto lírio negro. Bem se vê que a lição que Fio Jasmim tivera em casa estava sendo muito bem aproveitada." (p. 94)

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MULHERES FILHAS DE MULHERES, SÓ

"(...) Com a mãe dela havia sido assim. O pai de sua irmã mais velha agira dessa forma. Ela, a segunda filha, sabia somente que um outro homem, seu pai, também não ficara, tinha partido antes mesmo de ela nascer. Do pai, Tina mal sabia o apelido. As suas duas outras irmãs, as mais novas, os pais eram homens também desconhecidos para elas. A mãe de Tina, Alda Jovelina, parecia querer devolver com a mesma intensidade o desprezo a ela e às suas filhas. O nome do pai nunca era dito. Só o da mãe. Pai era uma imagem vazia. Durante muito tempo, época ainda da infância de Tina, só a mãe e as tias lhe bastavam para a sua vida-menina..." (p. 100)

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HOMENS NÃO CHORAM?

"(...) E, como proprietário de uma extensa gleba, o homem ali tinha o dever de dominar as mulheres, de alguma forma. E mais, tinha ainda de desafiar e causar inveja a outros machos. Não sendo de bom tom o derramamento das dores do macho - assim pensava Fio Jasmim -, por isso ele calou qualquer sintoma de mortificação em sua vida. Pouco importava a dolorida lembrança de ter sido preterido pelo coleguinha branco para representar um príncipe. Era preciso esquecer essa lembrança, negá-la sempre. Só as fêmeas podem dar vazão às suas agonias, às suas aflições, das menores às maiores. E, por isso, sempre os olhos secos de Fio Jasmim diante da morte e da vida..." (p. 129)

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CONVITE À LEITURA

E o final das histórias, eu deixo a descoberta para vocês leitoras e leitores...

Obrigado por compartilhar conosco essa maravilha, querida Conceição Evaristo!

Até hoje me recordo de nossas horas conversando no voo entre Panamá e Havana, Cuba, em 15 de fevereiro deste ano. Foi muito legal conhecê-la, e um orgulho porque sou seu admirador e fã.

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. 2. ed. - Rio de Janeiro: Pallas, 2022.


Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de abril de 2024. Domingo.


O registro será confessional, texto que aborda sentimentos e acontecimentos pessoais, coisas que deveriam sempre ser guardadas para si, mas que as pessoas acabam publicizando por sermos o que somos, humanos, animais vaidosos (mas que clamam também), que contam coisas, que não aguentam segredos.

Noites mal dormidas as últimas. Acordei quebrado, com dores nas costas. Dores. Coisa que nas idades anteriores nem sabia o que era. Coisas, não coisa. As dores são no plural. Se prestar atenção, tem dor em vários pontos do corpo. E eu nem tenho a idade de meus pais, esses sim devem sentir dores. Meu pai fala das dele há mais de uma década. Vai saber o quanto delas transformou ele no que é hoje.

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CONCEITO DE CANSAÇO

Ao acordar, tive que ligar o chuveiro e ficar embaixo da água morna para reviver e então viver o dia de domingo. Se tentar interpretar o sonho que vivenciava ao acordar, talvez compreenda um pouco do cansaço que senti ontem à noite. Senti um treco horrível ao perceber ser responsável pela mágoa de alguém.

Antes de ter sido diretor eleito em uma autogestão em saúde, o conceito de cansaço que trazia em meu corpo e em minha imaginação conceitual era o cansaço de Louis Creed após voltar da floresta onde enterrou o gato Church, no livro O Cemitério, de Stephen King. A cena dele chegando todo enlameado e exausto e caindo na cama marcou aquele leitor adolescente e nunca mais tive uma referência melhor do que era um cansaço extremo.

Isso mudou por volta dos quarenta e cinco anos de idade. Após décadas de conceito de cansaço referenciado a partir de uma cena literária de um livro de suspense, meu corpo e minha mente fixaram um novo conceito de cansaço. Desde os primeiros meses na gestão da operadora na qual atuava como representante de centenas de milhares de participantes, com a responsabilidade de defender os direitos em saúde deles, já experimentava na minha solidão do acordar um cansaço que só conseguia superar ficando um tempo embaixo do chuveiro do apartamento onde morava em Brasília.

Tem dias que sinto por algum tempo (que deve ser superado logo) um cansaço tão profundo como aquele que descrevi acima. Ele quase te paralisa, te impede de viver. É preciso acionar suas energias internas guardadas na razão consciente do que você é e chacoalhar aquela coisa mortal e seguir adiante. Afinal de contas, viver é uma oportunidade diária.

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AS DORES DOS AMORES

Ontem, estava escrevendo um comentário sobre a leitura do livro de Conceição Evaristo sobre os amores sem juízo, interpreto assim a temática central do livro Canção para ninar menino grande. O personagem Fio Jasmim tem a moleira aberta e por isso é um homem sem juízo. O livro é sobre amor. Amores. Histórias reais e ficcionais sobre vivências de amores sem nenhuma racionalidade ou cálculo ou consequência. Escrevivências como a autora nos conta de sua técnica narrativa.

Numa troca de palavras, ouço de minha companheira que eu ando isso e aquilo, cotidianidades dos lares, e me toco que a magoei bastante por não ter escrito nada a ela na data de seu aniversário. Não tive o que dizer. Foda isso. Ando isso e aquilo mesmo. Desculpas como as duas semanas que passei cuidando das questões de saúde de meus pais não servem para nada. Nada. É horrível ser responsável por dissabores de alguém, ainda mais de pessoas queridas e próximas a nós. Certas coisas não têm conserto. Feitas estão.

Fiquei tão mal pela percepção do feito que minha energia se dissipou. A bateria arriou. Deixei de lado o texto sobre os amores e os dissabores dos amores e fiquei procurando cantos até que acordei quebrado no dia de hoje.

O mês de abril vai terminando. Iniciei o mês nas tretas com meu pai, ele insistindo em renovar a carta de motorista vencida há tempos do jeito que ele achava que tinha que ser. O cara não escuta ninguém pra nada. Todas as sugestões racionais são nada. Nonada. Ajudei ele a fazer as coisas do jeito dele. Foi foda. Só uns poucos pra saber o que foram esses dias. Foram uma merda! Nesse intervalo de tempo, minha irmã pegou dengue, minha sobrinha pequena pneumonia, depois minha mãe pneumonia, a crise que meu pai teve precisa ser investigada para saber se ele tem algo mais sério, alguma senilidade dos oitenta adiante. Eu andei uns dias meio foda também. 

Enfim, o mês dos amores e das dores vai terminando.

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TÁ FODA, MAS A LUTA CONTINUA

Um músico negro chama a polícia após ser ameaçado com uma faca, dois policiais desgraçados do governo fascista de São Paulo chegam para atender a ocorrência, apertam o pescoço do músico - a vítima -, imobilizam ele e jogam gás de pimenta nos olhos dele a troco de nada... (racionalmente, afirmo para mim mesmo que se isso acontecesse comigo eu reagiria e morreria, pois a polícia do governo paulista é assassina e o governador carioca disse que se dane isso).

Um outro rapaz negro é filmado sendo abordado em São Paulo por dois policiais do governo fascista e o rapaz já vai levantando a mão. Sem trocar palavras e sem reação alguma do abordado, os policiais começam a bater nele com cassetetes e o rapaz instintivamente se defende e reage. Os policiais o agridem com violência, um deles saca a arma e o executa a queima roupa e a sangue frio. Como disse acima, eu morreria também.

Quer dizer, nos dois casos citados, talvez eu não morreria porque minha pele é branca e as cenas reais não se dariam. A chance de fazerem isso comigo seria menor porque é crime ser preto no Brasil, e é pena de morte ser preto e pobre, periférico. Sou privilegiado por causa da cor da minha pele. O Brasil é o país dos privilegiados e dos condenados sem crimes.

Vivo no país dos desgraçados. Temos os desgraçados que não alcançam graça porque são periféricos, pobres, pretos, gente subgente. Gente que pertence às bases da pirâmide social. Gente que vai ser presa e morta e descartada por todo tipo de bandido, os bandidos bandidos e os bandidos fardados. Sem defesa, sem julgamento. E as receitas de desgraças só aumentam. Agora prender periféricos vai dar lucro em cadeias privadas, os periféricos que serão presos por um baseado de maconha. Por uma barra de chocolate. Por "desacato".

E temos os desgraçados desgraçados mesmo, gente má, gente escrota. Os desgraçados que podem matar por andarem em Porsche a 156 Km/h, os desgraçados que podem estuprar e pagar montanhas de dinheiro para as autoridades para voltarem para as suas casas-palácios, os desgraçados que podem cometer qualquer ilegalidade que lhe derem na cabeça porque são inimputáveis como o genocida e ladrão de joias ex-presidente que pode tudo e contra ele não pega nada, porque as autoridades e políticos brasileiros têm MEDO de prender o bandido.

A luta continua, claro! Mesmo com tudo que acontece o tempo todo, mesmo com toda a injustiça, tem muita gente boa lutando por um mundo melhor. Gente que ontem mesmo estava reunida organizando as lutas para combater e reverter todas essas desgraças que enfeiam o nosso mundo.

Viver vale a pena. E as desgraças se combatem com pessoas que enchem as nossas esperanças de graças, gente que acorda em meio às suas cotidianidades complexas e acha tempo para se doar para as ações coletivas e as boas ações para melhorar o seu entorno, o mundo de todos nós. 

Gente assim vi reunida ontem na assembleia que fui pela manhã e na reunião do PT que partipei de tarde. Gente que faz valer a pena seguir lutando, do jeito que cada um puder contribuir.

A essa gente dou graças! Graças a vocês que lutam por um mundo melhor para todes.

Somos seres de contradição, mas somos seres históricos. Fazemos história todos os dias.

Não existe um futuro determinado. Fazemos o futuro hoje. Não esmoreçam.

William


terça-feira, 5 de março de 2024

Cuba (II)




Refeição Cultural

Osasco, 5 de março de 2024. Terça-feira.


A viagem deste ano a Cuba teve como motivo principal a 32ª Feira Internacional do Livro de Havana, ocorrida entre os dias 15 e 25 de fevereiro, na Fortaleza San Carlos de la Cabaña e em outros pontos da cidade de Havana. Vejam a beleza da fortaleza em algumas fotos que fiz em 2023: aqui.

Fortaleza San Carlos de la Cabaña.

Fui a Havana através de um grupo de brasileiras e brasileiros organizado por Telma Araújo, uma militante do Movimento de Solidariedade a Cuba, e uma organizadora das brigadas brasileiras a Cuba com décadas de experiência. Durante oito dias ficamos no Hotel Copacabana em Havana e viajamos até a cidade de Trinidad, passando um dos dias na cidade de Cienfuegos.

Nosso grupo solidário a Cuba.

Nosso grupo organizado por Telma Araújo esteve em Cuba com o suporte de um pacote organizado pelo Icap - Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos -, e a Amistur é a agência de viagem que nos auxilia durante a estadia no país. Cada um comprou suas passagens de ida e volta, e providenciou a documentação e o restante ficou por conta do pacote. Foi tudo excelente!

Sede do Icap em Havana.

Para vocês terem uma ideia do quanto é recomendável viajar a Cuba por uma alternativa como esta - pacotes organizados pelo Icap/Amistur - no valor que se paga (cerca de mil dólares) estão incluídas todas as refeições - café, almoço e janta -, hospedagens em hotéis, e também os traslados para todos os eventos e lugares, a busca e o retorno ao aeroporto. Neste pacote, tivemos crachás para entrada livre na Feira do livro e em todos os eventos ligados a ela.

Sede da Amistur em Havana.

Amistur - Misión: Captar y emitir hacia Cuba visitantes, grupos de turismo sociopolíticos y brigadas de solidariedad procedentes de todo el mundo, a través del Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos, Asociaciones de Amistad y la red de turoperadores de la Agencia, para mostrar directamente la realidad cubana, brindándoles un servicio receptivo de excelencia y una asistencia personalizada, que garanticen su más alta satisfacción, con el máximo de eficiencia, alcanzando un crecimiento sostenido de la operación del destino Cuba.

Hotel Copacabana: área das piscinas.

Quero registrar a vocês que a experiência deste ano se soma à experiência do ano passado, e ambas foram muito satisfatórias e não tivemos nenhum contratempo durante as duas semanas em Cuba. Em 2023, o passeio foi bastante diferente. Ficamos em casas de famílias cubanas - nossa base para tudo foi a Casa de Isabel - e com as informações e suporte da professora Maria Leite, grande intelectual e estudiosa sobre a pedagogia e a história de Cuba.

Casa de Isabel, ao lado do Capitólio.

Ou seja, posso dar o testemunho a vocês, amigas e amigos do blog, que são várias as maneiras de realizar o sonho de conhecer Cuba e o povo cubano, um povo alegre, inteligente e criativo, que ousou enfrentar os imperialismos desde o período colonial e ainda hoje luta com dignidade e criatividade para solucionarem os problemas da Ilha, que sofre há mais de seis décadas um embargo econômico criminoso e assassino por parte dos Estados Unidos da América.

Com Isabel, Luis e Telma.

Após o período do pacote do Icap/Amistur com todas as facilidades para passarmos 8 dias em Cuba com foco na 32ª Feira Internacional do Livro de Havana, fiquei mais alguns dias na Casa de Isabel, onde sempre os brasileiros e brasileiras são acolhidos com carinho e têm à disposição o apoio logístico de Isabel e Luis para fazer passeios e viagens por toda a Ilha.

Palestra de Maria Leite sobre
o livro Cuba Insurgente.

O pacote que fizemos era até o dia 22 de fevereiro e como a Feira do Livro iria até o dia 25, pude aproveitar até o último dia as atrações diversas que faziam parte do evento cultural. Foi assim que pude ver apresentações musicais em teatros ao longo do período em Havana.

Frei Betto e Ailton Krenak.

Nas próximas postagens, vou contando um pouco a vocês as experiências extraordinárias de estar ao lado e acompanhar eventos com intelectuais brasileiras e brasileiros como Conceição Evaristo, Frei Betto, Ailton Krenak, Emicida e a professora Maria Leite, cujo livro Cuba Insurgente: identidade e educação (2023) foi um dos materiais que mais me ensinaram sobre Cuba até o momento.

Conceição Evaristo e Emicida.

Abraços e não percam tempo, se desejam conhecer Cuba, organizem suas viagens para lá. As experiências que trazemos de lá são diferentes das que estamos acostumados ao visitar outros países capitalistas como o nosso.

William Mendes


Post Scriptum: o primeiro texto desta nova série sobre Cuba pode ser lido aqui.


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Diário e reflexões - Fevereiro



Refeição Cultural

Osasco, 29 de fevereiro de 2024. Quinta-feira. Noite quente de um dia trágico (o mundo assiste ao genocídio do povo palestino e nada pára o extermínio).


"Patria es Humanidad" (José Martí)


Depois de duas semanas quase sem ler e escrever, volto ao blog para registrar alguns sentimentos e fatos de nosso mundo mundo vasto mundo, como fazia o nosso cronista e poeta Carlos Drummond de Andrade. Não ouso pensar que tenha nos meus registros a qualidade do mestre, mas ao menos registro com honestidade o que sinto e vejo.

As semanas deste mês de fevereiro foram intensas e incomuns em relação ao meu cotidiano. Este fevereiro foi diferente do cotidiano dos fevereiros comuns, pois este só ocorre a cada quatro anos. 

Quatro anos atrás, o fevereiro nos trouxe a maior pandemia do último século. Oito anos atrás, uma quadrilha de homens brancos canalhas finalizava a trama para roubar o governo que o povo elegeu e semanas depois a presidenta honesta Dilma Rousseff sofreu um golpe de Estado.

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GENOCÍDIO DO POVO PALESTINO 

Neste fevereiro de 29 dias, o que tenho para registrar sobre esse dia extra é o assassinato de mais de uma centena de inocentes palestinos famintos numa fila em busca de algo para comer. Foram metralhados pelo exército do Estado de Israel. 

E pensar que José Martí nos ensina que pátria não é o solo onde pisamos, pátria é a humanidade e cada ser humano morto ou injustiçado deveria doer fundo em cada um de nós. Imaginem a dor que nós que temos uma ética humanista estamos sentindo ao vermos todos os dias dezenas de crianças, mulheres e civis sendo exterminados pelo governo sionista e racista de Israel...

Difícil! Não dá nem para se colocar no lugar do outro, de um palestino ou palestina na Faixa de Gaza, por exemplo. Estou no conforto de meu lar em Osasco, no Brasil do governo Lula, um governo tentando reconstruir um país arrasado por uma horda de genocidas e bandidos, como esta que governa atualmente o Estado de Israel.

Registro minha solidariedade ao povo palestino e aos demais seres humanos que sofrem neste momento em qualquer parte do mundo. Minha pátria é a humanidade.

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UM PROBLEMA DOMÉSTICO RESOLVIDO

Neste mês de fevereiro me desfiz de um problema doméstico que já durava dois quadriênios. A solução da questão era protelada mês após mês, ano após ano, por diversos motivos. E assim o incômodo seguia. Acabou neste mês de fevereiro incomum.

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CUBA, TE QUERO, TE ADMIRO E TE RESPEITO!

Este mês de fevereiro foi marcante em minha vida pessoal, pois tive uma segunda oportunidade de viajar para a República Socialista de Cuba. Acabei de voltar da Ilha.

Ano passado fui com um grupo de brasileir@s para passar o 1º de maio e conhecer algumas cidades e um pouco da cultura e história do povo cubano.

Neste ano voltei com outro grupo de brasileir@s e novamente pude conhecer um pouco mais sobre essa comunidade humana que busca resolver seus problemas e seguir a vida com outra forma de organização social, a construção de uma sociedade solidária, humanista e sem a exploração de humanos por outros humanos.

Vamos ver se escrevo um pouco sobre essa segunda experiência. As sensações foram diferentes, complementares. As veredas da vida nos trazem experiências novas, mesmo quando os caminhos são conhecidos. Basta lembrarmos que mudamos todos os dias, o tempo segue avançando, e todos os dias somos outra pessoa. Tudo muda, pois tudo é natureza.

Imaginem vocês que as veredas me colocaram ao lado da escritora Conceição Evaristo para voarmos juntos por horas. Depois tive a oportunidade de passar dias em contato com o querido Frei Betto. Vi Emicida palestrar com uma sapiência que emociona. Conversei com Ailton Krenak e fiquei admirado com sua simplicidade. 

Fui 3 vezes em apresentações em teatro: ouvi música clássica, música brasileira, música cubana. Conversei com lideranças de um Comitê de Defesa da Revolução. Conheci uma pessoa que organiza há décadas brigadas de brasileiras e brasileiros para irem prestar solidariedade a Cuba, conheci um frei brasileiro que é uma grande liderança nas Minas Gerais, entendem como foram os dias? Emoções... Estou repleto de sensações que ainda estou digerindo.

Ao mesmo tempo que temo pelo regime socialista e pelo querido povo cubano, porque acho que existe uma certa inocência por parte deles ao acreditarem que vão conseguir vencer a manipulação das big techs, que chegaram à Ilha, torço para que eles sejam tão criativos e únicos como foram ao longo de sua história, ao derrotarem os dois impérios que os subjugaram em séculos e se reinventam todos os dias, enfrentando com altivez um bloqueio assassino que humilha e sacrifica um povo que só quer ser feliz.

O povo cubano tem a minha solidariedade, o meu respeito e a minha admiração! "Hasta la victoria, siempre!", como disse Ernesto Che Guevara em sua carta de despedida ao seguir seu destino de lutar pela liberdade dos povos explorados pelos impérios capitalistas, lutando ao lado dos oprimidos pela revolução mundial.

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OLHOS D'ÁGUA...

(enquanto escrevo, meus olhos d'água me ofuscam o escrever - lembrei-me dos "Olhos d'água de Evaristo" -, pois meu coração está amargurado com o que sinto, o genocídio do povo palestino, a situação de miséria imposta ao povo cubano pelo bloqueio assassino dos EUA, essas coisas apertam o coração de qualquer pessoa que ainda seja humana e tenha uma ética humana)

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EQUILIBRAR HUMILDADE, ALTIVEZ E AMOR-PRÓPRIO

Fechado o mês incomum de fevereiro. 

Li quase nada, não foi possível. No entanto, li uma imensidão, li o mundo, se considerar que li Paulo Freire, Frei Betto e José Martí... Nestes homens superiores, colhi sabedorias que ainda estou digerindo.

Frei Betto abriu sua palestra para os estudantes da diplomacia cubana dizendo que aprendeu com um mestre que uma pessoa jamais poderia deixar de andar com um livro na mão, a gente pode até não conseguir ler, mas acaba que a gente lê um pouco.

Foi assim comigo. Obrigado pela lição Frei Betto. Nunca estar só, sempre estar com um livro à mão.

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A ÉTICA DO DESPRENDIMENTO

Outro ensinamento que está martelando na minha cabeça desde que ouvi de Frei Betto em outra palestra foi a ética do desprendimento como lição de vida.

Frei Betto citou Ernesto Che Guevara e Francisco de Assis... é muito emocionante a lição dada.

Francisco de Assis, ao compreender o efeito da riqueza e do sucesso de seu pai em prejuízo dos artesãos da comunidade, ele tirou as vestes de sua família e fez a opção pelos pobres.

Che Guevara poderia ter uma vida com todas as venturas que a sociedade humana dispõe, mas fez a opção por lutar pela liberdade do povo oprimido e explorado pelos poderosos. E ainda assim, mesmo depois de triunfar, pediu licença a Fidel e ao povo cubano, deixou mulher e filhos, e partiu para lutar pela revolução mundial, sonhando libertar mais povos no mundo.

Esses homens e esses atos de desprendimento de si mesmos são exemplos para nós de ética.

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EQUILIBRAR HUMILDADE, ALTIVEZ E AMOR-PRÓPRIO (MAS CUIDADO COM A VAIDADE)

Como tenho dito em minhas reflexões, eu não tenho domínio do passado, e pensando o que diz Krenak, nem sequer tenho o amanhã, seria muita audácia achar que o amanhã me pertence. 

Preciso encontrar um equilíbrio em meus sentimentos. Ao ter a consciência de que não temos controle das coisas, precisamos encarar os dias de forma mais racional, e mais leve. Um pouco de amor-próprio pode ser bom para a saúde.

Exercitar a humildade também pode ser uma receita de saúde. Se possível, contribuir de alguma forma para a sociedade humana.

Fechamos o mês e a vida segue. Temos que salvar a humanidade de si mesma. E com isso, tentar salvar o nosso planeta e as formas de vida.


William Mendes

(mais um na multidão)


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Leitura: Insubmissas Lágrimas de Mulheres - Conceição Evaristo



Refeição Cultural

Osasco, 19 de dezembro de 2022. Segunda-feira nublada e chuvosa.


"Dizem que algumas pessoas escrevem para não morrer, outras pintam, algumas representam, e há também as que cantam, as que tocam instrumentos, as que bordam... Eu danço." (Rose Dusreis)


Li relativamente rápido as 13 histórias contidas na obra Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2016), livro de Conceição Evaristo. Li as narrativas em três dias. 

As histórias das personagens são duras, são a realidade, sejam elas inspiradas em casos de pessoas reais, sejam elas inventadas, ficções que retratam o mais duro cotidiano de mulheres brasileiras, sobretudo mulheres negras, pardas, trans, sem recursos financeiros e sem acesso aos direitos básicos da cidadania e da plenitude humana.

A oportunidade de ler mais um livro de nossa grande escritora Conceição Evaristo se deu pelo fato de o livro em questão ser uma das obras escolhidas para fazermos uma leitura coletiva no curso "13 livros para compreender o Brasil", ministrado por Lindener Pareto e Suze Piza no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). O livro de Evaristo é o 10º que estamos trabalhando, alguns eu já li, outros serão lidos ainda por mim.

Meu estado de espírito durante a leitura das Insubmissas Lágrimas de Mulheres foi de certa forma propício a cada história trágica que lia. Minha tristeza pessoal destes dias me colocou numa condição de imensa solidariedade com cada personagem das histórias que li: violência, injustiça, impotência diante dos fatos, resignação, uma noção de que se deve seguir mesmo sem achar satisfatório o viver.

A solidariedade e a identificação com cada personagem ocorreram naturalmente, mesmo sendo eu um leitor homem branco cinquentenário, porque as injustiças e violências descritas no livro estão nas reminiscências do meu passado, nas ambiências nas quais cresci e vivi. 

As "escrevivências" de Evaristo me fazem voltar nos ambientes do meu viver, no mundo machista e violento no qual fui aculturado nas primeiras décadas de minha vida. Brasil.

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INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES

Mulheres e crianças violentadas, espancadas, vítimas dos piores abusos de homens e do sistema machista no qual vivemos há centenas de anos. A injustiça cotidiana de nosso mundo.

Mulheres com uma resiliência incrível e uma insistência inspiradora em viver e seguir e lutar por um lugar ao sol e pelo direito à vida em toda a sua plenitude.

Cada personagem de Evaristo que conhecia e sua respectiva história de vida me fazia ver uma espécie de flash back do passado. Nas veredas de meu viver, a violência era a regra e não a exceção. Toda forma de violência, desde a verbal até a física, da violência da hierarquia social à violência da discriminação. Fomos criados para sermos cínicos e hipócritas. Brasil.

O curso que estamos fazendo sobre as leituras de livros e autores que nos fazem compreender o Brasil e o que somos tem um olhar interessante sobre a questão da "permanência": o que permanece desde sempre nesse país, em nós, nas relações sociais? A violência em todas as suas formas causa injustiça e isso é uma permanência insuportável em nossas vidas ontem e hoje.

Se olharmos ao nosso redor, em nosso contexto de vida, veremos tudo o que acontece com cada uma das 13 personagens de Insubmissas Lágrimas de Mulheres. É foda! É permanência demais toda a violência e injustiça que se pratica nesta terra há cinco séculos de invasão e apropriação ao modo ocidental capitalista de estabelecer o mundo.

É isso! Eu já estava triste quando comecei a ler o livro, fatos familiares que me impedem de aproveitar os instantes de felicidades pontuais através das notícias sobre a chegada do novo governo que ajudamos a eleger, bloqueando a continuidade do Mal representado pelos desgraçados que estavam no poder.

Vale a pena ler este livro e todos os livros de Conceição Evaristo. Já li dela Ponciá Vicêncio (ler a respeito aqui), Becos da Memória (comentários aqui) e Olhos D'água (comentei aqui). E quero ler as obras que não li ainda de Evaristo. As obras da autora me fazem pensar demais no ontem e no hoje de nossa sociedade brasileira.

SOLIDÃO

Termino a postagem com uma passagem que me fez pensar muito na solidão que sentia no momento no qual li a narrativa "Mary Benedita", umas quatro e tanto da manhã, um sentimento muito pessoal e que dói fundo no ser. Na voz da personagem Mary Benedita ficou bonita a imagem da soledad.

"Nesses concertos íntimos, um dia, depois que eu estava morando definitivamente com ela, assisti a uma das cenas mais comoventes de minha vida. Tia Aurora tocava o violino, eu de olhos fechados, tal era o enlevo que a música me causava, quando, de repente percebi um som diferente. Abri os olhos, a musicista chorava, soluçava... Ela e o violino. Um dia, hei de retomar essa imagem em uma pintura... Mas como pintar a concretude da solidão de uma mulher? Como pintar a concretude da soledad humana?" (Mary Benedita)

Talvez eu escreva alguns rabiscos desde a mais tenra juventude "para não morrer" como nos conta a personagem Dusreis, que citei na abertura do texto.

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Insubmissas Lágrimas de Mulheres. 3ª ed. Rio de Janeiro: Malê, 2020.


domingo, 21 de março de 2021

210321 - Diário e reflexões



Refeição Cultural - Banzo

No livro Becos da Memória, Conceição Evaristo nos fala de uma dor no peito, uma dor de tristeza, uma certa forma de depressão e melancolia, algo difícil de descrever. Li esse livro dias atrás. Banzo... peço licença ao povo preto para nominar minhas dores e tristezas de banzo também.

Ao ver o quanto as pessoas estão sofrendo é impossível não sofrer, não sentir essa dor indescritível no peito, uma dor dentro da gente. Esse banzo. Mas morrer e desistir da vida não resolve nada, pois a vida é uma ordem, a vida apenas, sem mistificação, já dizia meu poeta referência, Drummond.

A sensação de impotência é uma das piores sensações que o animal humano pode ter. Eu tenho comigo que foi dessa sensação que surgiram todas as formas de crenças e religiões que buscam explicar a vida através do algo para além da morte, essa fase tão real e sabida de todo ser humano. Fico até feliz quando vejo as pessoas aceitando perdas pela morte com essas conformações religiosas. Sei que isso ajuda elas na superação do luto.

Dá muita tristeza ver as pessoas queridas bebendo e usando as diversas drogas legais e ilegais para esquecer e suportar o banzo que todos estamos sentindo; é duro ver as pessoas destruindo a si mesmas. Dá uma dor impotente na gente saber que pessoas queridas estão com Covid-19 e com risco de morte por essa pandemia descontrolada por causa do regime genocida. E os genocidas seguem no poder.

Para suportar os dias e os fatos uso toda a experiência que a vida me proporcionou, sou só mais um animal humano tentando sobreviver a tudo isso. Até o momento, estou vencendo o banzo. Espero seguir sem Covid-19, sem morrer pelas outras mortes severinas tão brasileiras; eu não me importo com a minha morte, mas me importo com a consequência da minha morte na vida de pessoas queridas.

Também quero viver para ver nos tribunais o clã de bandidos que destroem nosso mundo e nossas vidas. Desgraçados do mal! Morrendo não vejo (e não sofro) com as merdas criminosas deles, mas vivo tenho a chance de ver o fim deles. Muitos sobreviveram e comemoraram o fim de lixos humanos como Hitler, Mussolini, Mengele. Vou comemorar o fim desses desgraçados no poder no Brasil destruído pelo golpe.

Tento ler literatura até como escape, mas a leitura está tão difícil! A cada parágrafo, caio da estória ficcional para a história do presente. E tenho que ficar indo e voltando, não é fácil. Mas insisto em tentar ler. É importante. Tento estudar e aprender algo novo, é importante também. O mundo vai precisar de humanos para reconstruir a sociedade, para reconstruir os humanos que sobrarem e que vierem.

Por que escrevo em blog para todos verem? Sabia a resposta quando era alguém com lugar de fala na representação política de grupos de pessoas. Escrevia para prestar contas por ser figura pública, escrevia para influenciar, escrevia para compartilhar saber. Agora não sei bem. Talvez todos nós tenhamos que registrar a história acontecendo, mesmo que seja sob a ótica da vida privada, do ser atomizado. Compartilhar para os poucos que leem nosso ponto de vista.

Tudo que sobra para o amanhã, dos seres humanos e das sociedades, são fragmentos de coisas públicas e privadas, de vencedores e de perdedores. Assim são os fragmentos que as gerações seguintes encontram e tentam reconstruir através de versões e imaginações. Fragmentos.

Banzo... fragmentos...

Como diz Drummond num outro poema seu "o essencial é viver!" (Passagem da Noite).

William

segunda-feira, 15 de março de 2021

Livro: Becos da Memória - Conceição Evaristo



Refeição Cultural

INTRODUÇÃO

Estamos no mês de março. Estamos no Brasil de regime neofascista e genocida em consequência de um golpe de Estado ocorrido em 2016 - desta vez colocaram no poder os maiores corruptos e lesas-pátrias jamais colocados no poder somando todos os golpes brasileiros. O Brasil é o epicentro da pandemia mundial de Covid-19 e o regime no poder é o maior parceiro do vírus Sars-Cov-2. Brasil e brasileiros, párias do mundo!

Estamos em um dos países mais racistas do mundo, país onde a escravidão humana permanece até hoje, de forma disfarçada desde 13 de maio de 1888, quando deram uma canetada jogando na miséria milhões de pessoas de pele preta para que morressem de fome sem pão, sem terra, sem trabalho. País com 5 séculos de escravidão. País que mais mata negros no mundo, de morte matada e de morte morrida (matada também, sem direitos de cidadania).

Neste domingo, 14 de março de 2021, completaram-se 3 anos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, metralhados por milicianos do Rio de Janeiro, a mando de alguém ainda não revelado pelas autoridades. O Brasil não é para amadores. As forças políticas que organizaram o golpe e a destruição do país estão no poder, infiltradas em todas as instituições da sociedade através de seus representantes, serventes, lacaios e capitães do mato modernos. 

(Sabem quem foi solto neste 14 de março, dia do assassinato de Marielle Franco? O deputado troglodita e fascista que se elegeu às custas de quebrar uma placa em homenagem à Marielle... ele estava preso por ameaçar autoridades e neste domingo foi para prisão domiciliar... esse é o Brasil: solto no dia da morte de Marielle!)

BECOS DA MEMÓRIA

"Escrevo como uma homenagem póstuma à Vó Rita, que dormia embolada com ela, a ela que nunca consegui ver plenamente, aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos de minha memória. Homenagem póstuma às lavadeiras que madrugavam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negras, aloiradas de poeira do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela..." (p. 17)

A "introdução" no início da postagem é a descrição do contexto em que peguei para ler neste domingo pela manhã o livro Becos da Memória, da escritora Conceição Evaristo, livro escrito por ela nos anos oitenta e publicado em 2006 e depois republicado em outras edições - a minha é de 2017 pela Pallas Editora. É o 3º livro que tenho o privilégio de ler desta intelectual mineira, mulher negra e com uma escrita que nos toca profundamente e nos põe a pensar a vida e o mundo após cada leitura sua. (ler aqui sobre Ponciá Vicêncio e aqui sobre Olhos D'Água)

Amig@s, passei o dia de domingo na companhia das personagens do livro Becos da Memória. Foi inevitável passar o dia revirando os becos de minha memória. Lia Evaristo e via o bairro Marta Helena, onde cresci em Uberlândia, Minas Gerais. Lia Evaristo e visitava as diversas casinhas onde moramos, onde morei (em MG e em SP). Lia Evaristo e via a condição da gente pobre, favelada, da gente preta, da gente miscigenada de peles multicores, mas com cabelo "ruim", como ensinam os brancos que cultuam os preconceitos.

Li Evaristo e passei o dia visitando os becos de minha memória... eu tenho pele branca, tenho irmã preta, tenho família de pele multicor. Família de cabelo "ruim". Todos viemos da pobreza descrita na obra de Evaristo, que aborda o mundo miserável e as condições injustas e absurdas da gente de pele preta escravizada e depois "libertada" na condição de morte sem pão, sem terra, sem trabalho, como os ascendentes da personagem Maria-Nova.

Evaristo nos conta, na edição que tenho, um pouco da história e da gênese do romance. É bem interessante.

"Foi o meu primeiro experimento em construir um texto ficcional con(fundindo) escrita e vida, ou, melhor dizendo, escrita e vivência. Talvez na escrita de Becos, mesmo que de modo quase que inconsciente, eu já buscasse construir uma forma de escrevivência."

GÊNESE: "Em poucos meses, minha memória ficcionalizou lembranças e esquecimentos de experiências que minha família e eu tínhamos vivido, um dia. Tenho dito que Becos da memória é uma criação que pode ser lida como ficções da memória. E, como a memória esquece, surge a necessidade de invenção."

NADA É VERDADE, NADA É MENTIRA: "Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção. Nesse sentido venho afirmando: nada que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira. Ali busquei escrever a ficção como se estivesse escrevendo a realidade vivida, a verdade."

BANZO: "Na roça, às vezes, meu pai contava histórias e dizia sempre de uma dor estranha, que nos dias de muito sol, apertava o peito dele. Uma dor que era eterna como Deus e como o sofrimento.

     "Totó entendia, era menino, mas, de vez em quando, sentia aquela punhalada no peito. Uma dor aguda, fria, que sem querer fazia com que ele soltasse fundos suspiros. O pai de Totó chamava aquela dor de banzo." (p. 19/20)

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BANZO... uma dor no peito que podemos muito bem nominar a dor que sentimos desde o golpe de Estado no Brasil, desde aquela sessão do congresso em que o lixo fascista falou de Ustra... aquela dor que passamos a sentir no peito ao ver as ofensas a Dilma, ao ver a prisão injusta de Lula, ao ver as 270 mil mortes por Covid-19 por culpa do regime fascista, a dor no peito a cada absurdo, a cada perda, a cada humilhação que sofremos como brasileiros por sermos do país dos bolsonaros. Banzo...

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Amig@s leitores, leitura profunda! Passei o domingo visitando os becos da memória...

- Marielle vive porque seus ideais são os nossos ideais!

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. 1. ed. - Rio de Janeiro: Pallas, 2017.