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terça-feira, 31 de agosto de 2021

Ulysses - Circe (O Bordel)



Refeição Cultural

Terminei o capítulo 15 de Ulysses arrepiado. Foi esquisito porque estava esgotado pela leitura de 200 páginas feita em dois dias; bunda quadrada por ficar horas sentado envolvido com as alucinações joyceanas. 

A técnica do capítulo foi a "Alucinação", segundo Joyce. E realmente foi foda transitar pelas alucinações do capítulo, que se passa em um prostíbulo, já na madrugada de 17 de junho, pós meia-noite na Dublin de 1904.

A cena que me arrepiei foi a cena da alucinação de Bloom, que viu seu filho morto (morreu aos 11 dias de vida) e que estaria com 11 anos de idade naquele dia. Bloom está na rua, ao lado de Stephen Dedalus, bêbado, meio desacordado no chão após levar um murro na cara por discutir com um policial que também estava se divertindo no prostíbulo.

"BLOOM

(Comunga com a noite) O rosto me lembra o da coitada da mãe...

(silente, pensativo, alerta monta guarda, dedos nos lábios na atitude do mestre secreto. Contra a parede escura uma figura surge lenta, um menino encantado de onze anos, um bebê trocado, raptado, vestindo um terno de Eton com sapatos de cristal e um pequeno elmo de bronze, segurando um livro. Ele lê da direta para a esquerda, inaudivelmente, sorrindo, beijando a página)

BLOOM 

(maravilhado, chama inaudivelmente) Rudy!" (p. 863)

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O CAPÍTULO 15 - ALGUNS MOMENTOS

O capítulo mescla uma miscelânea incrível de coisas. Apesar de ler pela segunda vez, e ter um aproveitamento muito melhor desta vez, diria que é impossível ler as duas centenas de páginas sem se pegar... como diria... da mesma forma que os personagens, alucinado, perdido, sem saber o que está acontecendo... sei lá o que mais eles consumiram além de Absinto, mas tudo é doido, dos personagens no prostíbulo se vai para personagens imaginários e deles para as falas e cenas dessas coisas imaginárias, coisas falam, intervêm nas cenas. A gente vai junto... mesmo sem saber o que é e o que não é... creio que alucinação deve ser assim mesmo.

Vejam alguns exemplos de momentos do capítulo. A parte com letras maiúsculas é a personagem que fala ou pensa, na escrita sem itálico. A parte em itálico é a descrição da cena ou da situação. Como são grandes alguns textos, coloco (...) pra dizer que só citei um pedaço do texto e deixei pra trás um trecho. Só reticências no fim é sinal que o texto continua.

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"SENHORA BREEN

(Ansiosamente) Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim.

(Ela some ao lado dele. Seguido pelo cão choramingas ele caminha na direção das portas do inferno. Em uma arcada uma mulher de pé, dobrada para a frente, pés separados, mija vacalmente..." (p. 688)

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Bloom resolve seguir Stephen noite afora, pois aparenta alguma preocupação com ele. Eles já saíram da taverna meio bêbados.

"BLOOM

(...) O segundo drinque é que deixa assim. Um já basta. Pra que é que eu estou seguindo ele? Ainda assim ele é o melhor daquela turma..." (p. 690)

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Como eu disse, até as coisas e os animais se manifestam no capítulo.

"BLOOM

(Gagueja) Eu estou fazendo o bem pros outros.

(Uma revoada de gaivotas, trintarréis, eleva-se faminta do lodo do Liffey com bolos nos bicos.)

AS GAIVOTAS

Qá qé qais qolo." (p. 692)

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Agora o defunto enterrado pela manhã se manifesta:

"PADDY DIGNAM

(Com franqueza) Outrora estive empregado junto ao senhor J. H. Menton, advogado, comissionado para juramentos e declarações juramentadas, de 27 Bachelor's Walk. Agora estou defunto, hipertrofiada a parede do coração. Maus bocados. A coitada da patroa sofreu horrores. Como é que ela está aguentando? Não deixem ela ficar muito amiga daquela garrafa de xerez..." (p. 715)

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Joyce não economizou na linguagem chula. Imaginem na época da publicação!

"BLOOM

(Pondo a mão direita nos testículos, jura) Que consoantemente trate-me o criador. Tudo isso prometo fazer." (p. 714)

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Neste capítulo, vemos a expressão "homem feminil" que Kiberd atribui ao herói grego Odisseu (Ulisses), no ensaio introdutório da edição que estou lendo.

"DOUTOR DIXON

(Lê um atestado de saúde) O professor Bloom é um exemplo acabado do novo homem feminil. Sua natureza moral é simples e cativante. Muitos descobriram ser um homem querido, uma pessoa querida. Trata-se de um camarada bem esquisito no todo, retraído ainda que não fraco mentalmente no sentido médico..." (p. 737)

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Circe é o nome do capítulo. Stephen cita Circe num texto complexo e quase incompreensível (para mim). Na Odisseia de Homero, Ulisses e sua tripulação desembarcam na ilha onde vive Circe. Ela é uma feiticeira e transforma a tripulação em porcos. Após Ulisses derrotá-la com suas artimanhas, ela devolve a tripulação do herói e lhe dá instruções para eles atravessarem a ilha das sereias.

"STEPHEN

(...) Ela aceita nodos e modos tão divergentes quanto sacerdotes circundando o altar de Davi ou seja Circe ou onde é que eu estou com a cabeça altar de Ceres e a dica preciosa de Davi para seu fagotista principal sobre sua todopoderosidade..." (p. 748)

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Joyce parafraseando o personagem Hamlet, de Shakespeare, que na tragédia diz "Fragilidade, teu nome é mulher" ao observar sua mãe e seu tio. (Citei de lembrança)

"BLOOM

(...) Deveras, que sempre assim foi. Fragilidade, teu nome é casamento." (p. 796)

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E pra fechar, mais umas obscenidades do capítulo:

"O REVERENDO SENHOR HAINES LOVE

(Ergue bem alto por trás a anágua do celebrante, revelando suas nádegas peludas grisalhas e nuas entre as quais está enfiada uma cenoura) Meu corpo." (p. 853)

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COMENTÁRIO FINAL

Terminei a parte II do livro. Faltam agora 3 capítulos para terminar a epopeia de um dia comum na vida do cidadão comum Leopold Bloom pela Dublin de 1904.

Esse capítulo foi bem difícil. Mas consegui superá-lo. De certa forma, os últimos capítulos foram mais complexos que os anteriores. Faz parte. A postagem da leitura do capítulo 14 pode ser lida clicando aqui.

É isso. Seguimos lendo, exercitando o cérebro e buscando novos conhecimentos e novas culturas.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Ulysses - Introdução de Declan Kiberd (III)



Refeição Cultural

"Daí a severa ironia de Joyce sobre todos os modelos de heroísmo antigo, seja gaélico ou grego. Para aqueles que diziam 'Infeliz da pátria que não tem heróis', ele responderia com o Galileu de Brecht: 'Não! Infeliz da pátria que precisa de um herói!' - uma pátria sonhando eternamente com modelos passados de grandeza e aparentemente incapaz de conceber a si mesma." (p. 79)


Ufa! Vencidas as primeiras cem páginas de minha edição de Ulysses, de James Joyce (presente do amigo Sérgio Gouveia). As informações que obtive com Declan Kiberd vão influenciar a minha releitura do clássico de Joyce, sem dúvida alguma. 

Alguns conceitos explorados pelo professor e intelectual irlandês Kiberd foram de muita relevância para mim e me fizeram olhar para trás e relembrar a leitura de Ulysses duas décadas antes. Li Joyce na tradução do professor Houaiss, na bela edição que tenho até hoje.

Com a "Introdução" de Kiberd foi possível até compreender melhor os contos de Dublinenses, de 1914, que já li e reli algumas vezes. Evidente que agora preciso ler O retrato do artista quando jovem (1916), que também tenho na estante e que me espera há um tempão. Só não sei se ainda terei a oportunidade de encarar o Finnegans Wake. Acho que aí já seria audácia demais de minha parte, com tanta coisa a ler antes de deixar de existir.

Cito algumas questões apresentadas pelo professor Declan Kiberd que me fizeram pensar muito a respeito de Leopold Bloom, James Joyce, a Irlanda e os irlandeses, Molly Bloom e Stephen Dedalus:

- As questões relativas à história colonial do país, seu passado e presente com a Inglaterra, Reino Unido e ou Grã-Bretanha;

- A questão dos nacionalistas irlandeses atrelados a um passado de heróis e ou heroísmo;

- A eterna tensão em relação à linguagem entre colônia e colonizados;

- A questão do homem feminino na figura de Leopold Bloom. 

Olha, o texto foi muito bom para mim enquanto leitor que vai embarcar agora na viagem da releitura de Ulysses em um contexto completamente diferente daquele no qual li a obra na primeira vez.

É isso! Leiam clássicos, amigos e amigas de leituras e estudos. É melhor ler do que não ler os clássicos, como já dizia Italo Calvino.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


domingo, 2 de maio de 2021

Ulysses - Introdução de Declan Kiberd (II)



Refeição Cultural

Domingo, 2º dia de contato com a minha edição do livro Ulysses, de James Joyce, na tradução de Caetano W. Galindo (presente do amigo Sérgio). 

Estou lendo a "Introdução" a cargo de Declan Kiberd. O texto é outro livro, um texto profundo, mas muito interessante. Já aprendi muita coisa e já refleti a respeito de várias informações obtidas nele.

A introdução traz as seguintes subdivisões: "O livro", "A estrutura", "A linguagem", "Os personagens", "Ulisses e a escrita irlandesa", "Breve histórico do texto". Faltam as duas últimas partes para ler.

Uma das coisas recorrentes quando leio textos de metalinguagem e de crítica literária é sentir aquele sentimento meio humilhante de não ter lido diversos autores e obras citadas pelo crítico. Isso é foda! Me lembro dessa sensação coletiva em sala de aula quando assistia às aulas da USP. Um sentimento meu e dos demais estudantes (eu mais velho que a média).

Anoto aqui algumas citações do texto de Kiberd que me recordaram a sensação terrível das lacunas culturais (aos 52 anos!): nunca li Yeats, Gide, D. H. Lawrence, Virginia Woolf, Jane Austen, Dickens e T. S. Eliot. Quer mais? Não, deixa quieto...

Ao ler sobre Leopold Bloom na parte "O livro" fiquei com a impressão de que o personagem seria algo como o nosso Riobaldo Tatarana, de Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa. Não só pela citação abaixo, mas por várias questões apresentadas no texto:

"Em retrospecto, claro está que Leopold Bloom - concebido por seu criador para falar como um homem comum ultrajado pela injustiça do mundo - tinha ultrajado o mundo justamente por ser comum." (p. 22)

Não vou me alongar na postagem. Hoje, ao ler a parte "A linguagem" fiquei pensando a respeito. A questão das línguas e das linguagens e da incapacidade de comunicação humana, mesmo havendo a linguagem, é algo que me instiga há bastante tempo. 

Fui dirigente sindical por 16 anos e vi durante esse período de representação uma mudança significativa no mundo em decorrência dos acontecimentos das últimas duas décadas deste novo século e milênio. As redes sociais, as fake news em escala global, os algoritmos e outras coisas alteraram o comportamento humano.

É isso. Fim do domingo. Seguimos lendo para tentar compreender alguma coisa.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sábado, 1 de maio de 2021

Ulysses - Introdução de Declan Kiberd



Refeição Cultural

Sábado, 1º de maio. No mundo do trabalho é um dia de lutas e reflexões da classe trabalhadora. Este é um dos piores 1º de Maio do povo brasileiro em sua história. Tragédia total sob o regime fascista e genocida de milicianos alçados ao poder pelos grupos que executaram um golpe de Estado no Brasil em 2016. 

Desemprego, fome do povo, destruição dos direitos sociais e patrimônios públicos, destruição da Amazônia, Pantanal e ecossistemas, aparelhamento do Estado pelo crime organizado, mais de 400 mil mortos por Covid-19. Este é o cenário no qual nos encontramos. Estou em casa, numa condição privilegiada em relação aos meus pares da classe trabalhadora. Sigo focado em ler, obter conhecimento, me tornar uma pessoa melhor, dar significado às coisas.

Vou iniciar a releitura de um grande clássico da literatura mundial, um dos romances mais impactantes do século XX: Ulysses, do escritor irlandês James Joyce, publicado em 1922. Li esta obra aos trinta anos. Agora vou me aventurar nela novamente. Eu sou outro, o mundo é outro, é provável que a obra seja outra, ao menos para mim. 

A leitura será bem interessante. Ganhei de presente a edição que vou ler, traduzida por Caetano W. Galindo e com uma introdução do irlandês Declan Kiberd. O presente foi de meu amigo Sérgio Gouveia, estudamos juntos na USP e hoje ele é professor e mora no interior de São Paulo. Vamos ler juntos o livro nas próximas semanas. Fizemos isso semanas atrás com o Moby Dick, do norte-americano Herman Melville.

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"Em considerações como essas é possível encontrar a resposta para questão tantas vezes feita pelos leitores do Ulysses: se Joyce queria embasar sua narrativa numa lenda antiga, por que se voltou para os mitos gregos, e não para os gaélicos? Cúchulainn já tinha sido apropriado pelos nacionalistas militantes de Dublin, cuja política era incompatível com o pacifista e internacionalista Joyce. Desde sua juventude, ele se sentiu mais atraído pela humanidade calorosa de Ulisses. O herói épico não queria ir à Troia, recordava Joyce, porque considerava que a guerra não passava de um pretexto empregado pelos mercadores em sua busca por novos mercados. A analogia com a Europa contemporânea mergulhada na carnificina para garantir lucro aos barões da indústria do aço não se perderia naquele que se autointitulava um 'artista socialista'." (p. 19)

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A introdução de Kiberd é uma senhora introdução! São quase 90 páginas. Comecei a leitura do livro por ela porque já conheço a obra e não vou me decepcionar com eventual spoiler (e há). As informações e as reflexões do autor a respeito de Joyce, do Ulysses e do contexto da época são simplesmente fantásticas!

Lembra do cenário que descrevi sobre nós, brasileiros: destruição do país, fome e desemprego, 400 mil mortos etc? Joyce escreveu Ulysses entre 1914 e 1921, ou seja, durante a 1ª Guerra Mundial. Ele teve que se deslocar durante a guerra e seguiu escrevendo assim mesmo, em meio ao morticínio que o mundo viveu.

Li umas 30 páginas hoje e as reflexões a partir da leitura foram profundas. Novos conhecimentos após ler Kiberd: a relação entre Ulysses e a Odisseia de Homero; a questão do pacifismo em Joyce, em Leopold Bloom e no Odisseu grego (Ulisses na forma latina). Quanta informação obtive hoje, informação que vai fazer a releitura do clássico ser muito mais proveitosa que a primeira vez!

É isso. Estamos começando essa viagem. Também estou lendo a Odisseia de Homero, só que agora em versos, na "transcriação" do intelectual maranhense Odorico Mendes. São viagens, viagens. É uma das coisas que podemos fazer neste momento de nossas vidas, recolhidas no isolamento social para evitar o contágio e morte pelo novo coronavírus: viajar através da literatura.

Abraços aos leitores e leitoras que por acaso passarem por aqui.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.