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sexta-feira, 16 de julho de 2021

33. Odisseia - Homero



Refeição Cultural - Cem clássicos

Completei a leitura de mais uma obra da literatura clássica mundial, Odisseia, atribuída ao aedo Homero. Foi uma leitura engajada e eu a realizei de forma bem satisfatória, haja vista que a linguagem não é uma linguagem comum.

Essas postagens dos "cem clássicos" são postagens que estou fazendo aos poucos para avaliar o que já avancei no sonho, porque tenho um sonho antigo, quase da adolescência, em ler uma centena de obras clássicas da produção cultural do mundo. 

Já postei 33 obras, mas não quer dizer que só li essa quantidade. Alguns clássicos lidos ainda serão anotados aqui no blog. Sem contar que os critérios definidos para considerar uma obra "clássica" serão arbitrariamente definidos pelo autor do blog, eu mesmo.

Meu primeiro contato com a Odisseia foi em 2001, ano em que comecei a estudar na Universidade de São Paulo. Vejam como as coisas foram tardias para mim no mundo dos clássicos. Entrei na Faculdade de Letras da USP aos 32 anos. Para acompanhar as aulas de Literatura Grega no ciclo básico era urgente ler o clássico de Homero.

Minha edição em prosa da Odisseia foi da editora Cultrix, na tradução do professor Jaime Bruna, da USP. Eu a adquiri logo que comecei o curso. Tenho até a notinha dentro do livro. Paguei 19 reais no dia 18/4/01. Anotei no livro que terminei a leitura em julho daquele ano. Posso dizer que foi um dos primeiros clássicos que li ao entrar na universidade.

Agora, duas décadas depois, vivi a experiência de reler o clássico, e posso dizer que praticamente senti a sensação de ser a primeira leitura porque eu não me lembrava de quase nada.

Li a Odisseia, na tradução de Manuel Odorico Mendes, numa edição especialíssima da Edusp, a cargo do professor Antonio Medina Rodrigues. Eu tive o privilégio de ser aluno do Medina e nunca - nunca - me esqueci das aulas dele na FFLCH. O cara era demais! Ele interpretava os deuses e suas sacanagens gesticulando em sala de aula. Algumas alunas ficavam vermelhas de vergonha (rsrs). Professor Medina, presente!

A leitura atual foi num contexto completamente diferente em relação à primeira leitura da epopeia homérica. Antes, iniciava um curso de Letras, agora sou um ex-bancário de banco público retirado das lides sindicais, lendo em casa num contexto de pandemia mundial de Covid-19.

O blog tem postagens a respeito da leitura caso alguma pessoa se interesse em ler.

Anoto por fim o projeto mental que acabei projetando a partir da leitura deste clássico grego em versos odoricianos. Vou ler na sequência, nessa trilha clássica, a Ilíada e a Eneida, ambas traduzidas por Odorico Mendes. Já as tenho. Depois vou ler A divina comédia, de Dante e, por fim, vou reler Os Lusíadas, de Camões. Um belo projeto de leitura, né não?

Assim como Medina e Haroldo de Campos, gostei muito da "transcriação" de Odorico Mendes. A edição do Medina traz um texto de Campos - "Odorico Mendes: o patriarca da transcriação" e traz apresentação e prefácio com diversos estudos do professor Medina: é uma obra à parte, diga-se de passagem. Explicações magníficas, inclusive sobre traduções.

Enfim, missão cumprida! Mais um clássico lido e mais projetos de leituras a realizar.

Leiam os clássicos!

William


Odisseia (Homero) - O fim (XXII a XXIV)



Refeição Cultural

"Na sala, circunspecto, ele examina
Se inda algum respirava, e em pó sangrento
Jaziam todos: qual a praia curva
Arrasta a malha os peixes, que, empilhados
Na areia, mudos cobiçando as vagas,
À luz do Sol em breve o alento exalem,
Tais os procos ali se amontoavam." (LIVRO XXII, v. 281-287, p. 365)


(esta postagem contém spoiler do final da Odisseia, alerta para quem não conhece ainda a história)


Finalizei a leitura dos últimos três livros da Odisseia, de Homero. Foram 75 dias de convivência com as desventuras de Ulisses, de Telêmaco, de Penélope, da deusa Palas (Minerva) e dos diversos personagens que constam nesta epopeia grega.

No livro XXII, conheci a ira de Ulisses (já havíamos ouvido falar da ira de Aquiles). A vingança do herói foi implacável em relação aos pretendentes de Penélope, que consumiam os rebanhos e patrimônio da família. Ele não perdoou sequer as servas que se relacionaram com os invasores. As cenas são dignas de um filme de Tarantino.


No livro XXIII, vemos o reencontro de Ulisses e Penélope. A deusa Palas até adia a chegada do dia, retardando a carroça com os ginetes que trazem o sol pela manhã... A Aurora dedirrósea...

"   Ele com isto em lágrimas rebenta,
Mais ao peito cingindo a casta esposa.
Da praia quando à vista os naufragados,
Por Netuno e por vagas sacudidos,
Poucos no vasto pélago nadando,
Sujos da maresia, à morte escapam,
Não têm maior prazer do que a rainha
Teve ali. Não despega os alvos braços
Do colo do consorte; e a ruiva Aurora
Os encontrara, se não fosse Palas:
A olhicerúlea, prolongando as sombras,
No Oceano a retinha em áureo trono,
Sem que até ao coche alípedes ginetes
Lampo e Faéton, que a luz no mundo espalham.
" (LIVRO XXIII, v. 174-187, p. 377)

Ainda neste livro XXIII temos uma espécie de resumo dos eventos que vimos ao longo da epopeia de Odisseu, nos versos 236 a 262.


No último livro, XXIV, vemos as almas dos pretendentes mortos chegarem ao Hades, e lá encontram outros heróis e guerreiros mortos na Guerra de Tróia. 

Ao ouvir sobre a vingança de Ulisses, narrada pela alma de Anfimédon, Agamêmnon se admira de Penélope, que foi fiel ao esposo enganando os pretendentes por 3 anos, fazendo e desfazendo a mortalha que tecia. Lembrando que Agamêmnon foi morto na traição, por sua esposa Clitemnestra e o amante.

"   Grita Agamêmnon: 'Venturoso Ulisses,
Possuis mulher de uma virtude rara!
Do varão que pudica amou primeiro
Nunca olvidou-se; obtém perene glória,
Que hão de inspirados celebrar cantores.
" (LIVRO XXIV, v. 155-160, p. 388)

Ulisses ainda reencontra seu pai, Laertes, e juntos - avô, pai e filho - enfrentam a fúria dos familiares dos pretendentes mortos por Ulisses. Mas os deuses não permitem que a guerra civil se inicie em Ítaca e atuam para impor a paz.

Termina assim a odisseia de Ulisses, após vinte anos de desventuras para retornar a sua Ítaca, esposa e filho, após os gregos vencerem os troianos.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quinta-feira, 15 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Antes do massacre dos pretendentes e desafio do arco



Refeição Cultural

"Teoclimeno a vozes profetiza:
'Misérrimos, que noite vos rodeia
De alto a baixo! Que lúgubre ululado!
Estou já vendo lagrimosas faces,
Em sangue estas paredes e estes postes,
Cheio o vestíbulo e a brilhante sala
De espectros, que ao profundo Erebo descem!
Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!'" (LIVRO XX, v. 280-287, p. 342)


A leitura dos livros XX e XXI da Odisseia, de Homero, foi muito prazerosa. Não tive dificuldades com os decassílabos de Odorico Mendes. 

As notas do professor Medina auxiliam muito os leitores pouco familiarizados com a linguagem e com as referências históricas.

No início do Livro XX, Medina comentou: "Os antigos chamavam este livro simplesmente de 'Antes do Massacre dos Pretendentes'...". (p. 333)

Já no início do Livro XXI, Medina diz: "Este livro nos põe diante da célebre prova do arco, que antecipa o massacre dos pretendentes e que para Austin é o centro de todo aquele processo de autoconhecimento representado na Odisseia..." (p. 345)


O DESAFIO DE PENÉLOPE

"Vós que, pretexto de esposar-me, ausente
Meu marido, estragais toda esta casa,
Ouvi-me. O arco eis aqui do nobre Ulisses,
E eu proponho um certame: quem mais fácil
O atese e freche atravessando os olhos
Das machadinhas doze, hei de segui-lo
Da conjugal estância, farta e bela,
Da qual me lembrarei té nos meus sonhos'.
" (LIVRO XXI, v. 51-58, p. 347)


Faço só mais uma citação deste Canto, a da humilhação de um dos pretendentes, Eurímaco:

"   O arco Eurímaco ao lume aquenta e vira,
Mas nem sequer o verga; no orgulhoso
Peito suspira, e suspirando fala:
'Ai de mim e dos mais! Bem que as deseje,
Não choro as núpcias, que Ítaca e outras ilhas
Têm muitas belas; choro a clara prova
De superar-nos tanto o grande Ulisses:
Oh! Futuro desdouro!'...
" (CANTO XXI, v. 179-186, p. 350)


É isso! Os últimos três livros trarão o desfecho dessa epopeia homérica. Quem tiver interesse em ler a postagem anterior, é só clicar aqui. Quem tiver interesse em ver um vídeo onde comento essa leitura dos livros XX e XXI é só clicar aqui.

Abraços! Leiam e salvem seus cérebros e a essência do homo sapiens.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses reconhecido pela ama



Refeição Cultural

"   Palpando, a cicatriz conhece a velha,
Nem pode o pé suster; cai dentro a perna,
E a bacia retine e se derrama,
Dor a assalta e prazer; nos olhos água,
Presa às faces a voz, lhe afaga o mento,
E balbucia enfim: 'Tu és, meu filho,
És Ulisses; depois que te hei palpado,
Ora por meu senhor te reconheço'.
" (LIVRO XIX, v.354-361, p.328)


Leitura dos livros XVIII e XIX da epopeia, vimos cenas clássicas como a do encontro de Ulisses com sua ama, que o reconheceu ao tocar a cicatriz da ferida no joelho, feita por um javali quando ele ainda era uma criança.

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Também vemos o encontro de Ulisses com Penélope, vinte anos depois. Ela não o reconhece porque a deusa Minerva o disfarçou num velho forasteiro para que ele consiga realizar sua vingança, matando os inimigos em sua casa e retomando suas posses.

"   À pressa o escano de tosões coberto,
Lhe trouxe a velha; ao divo herói sentado
Penélope interroga: 'Hóspede, vamos,
Quem és? De que família? De que pátria?'
" (LIVRO XVIII, v.76-79, p. 320)

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Outra cena antológica é a que se conta o estratagema de Penélope que tece e desfaz o manto para enrolar os pretendentes que querem desposá-la. A estratégia dela dura três anos, mas depois ela tem que terminar a confecção da mortalha. Ela conta isso ao velho hóspede, que na verdade é Ulisses.

"Saudosa a prantear consumo a vida!
Urgem-me os procos, e eu maquino enganos.
Um gênio me inspirou tramar imensa
Larga teia delgada, e assim lhes disse:
'- Amantes meus, depois de morto Ulisses,
Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
Sem que do herói Laertes a mortalha
Toda seja tecida, para quando
No sono longo o sopitar o fado:
Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
Manto rico não ter quem teve tanto.' -
A diurna obra desfazia à noite,
E os entretive ilusos por três anos;
Mas, gastas luas e horas, veio o quarto,
E então, por traça de impudentes servas
Apanhando-me, encheram-me de afrontas,
E a concluir a teia me forçaram.
" (LIVRO XVIII, v. 103-119, p. 321)

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Nestes versos abaixo, vemos a origem do nome do herói Ulisses, dado a ele por seu avô materno Autólico.

"   Veio Autólico a Ítaca ubertosa
De seu neto ao nascer; e, mal cearam,
Põe-lhe o infante aos joelhos Euricléia:
'Tu o almejavas tanto, agora inventa
Um nome ao filho da querida filha'.
    Disse o avô: "Genro meu, minha Anticléia,
Eu ressentido contra muitos venho
De um e outro sexo na selvosa terra;
Um nome lhe imporei, chama-se Ulisses,
Crescido, a casa a visitar materna,
Vindo ao Parnaso, onde as riquezas tenho,
Hei de brindá-lo e despedir contente'.
" (LIVRO XIX, v. 306-317, p. 327)

Sobre o significado do nome, o tradutor Odorico Mendes fez nota explicando ao leitor:

"O nome Ulisses ou Odisseus vem do verbo odýssö, 'irar-se'. Querem muitos que a história da ferida, a qual vai seguindo, seja uma interpolação. Pode ser que haja acrescentamentos; porém, Homero, em ambos os seus poemas, não perde ocasião de contar-nos sucessos ainda mais longos, e estes, interessantes como pertencentes ao seu herói, é provável que os não quisesse omitir." (Nota 309-312, p. 327)


Enfim, foram dois livros ou cantos com episódios bem clássicos da Odisseia.

Estamos chegando ao fim de mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


segunda-feira, 5 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - De volta a Ítaca (XV a XVII)



Refeição Cultural

"   Aqui, deitado um cão, de orelhas tesas
A cabeça levanta, Argos tem nome:
Hoje langue, e o nutria o próprio Ulisses,
Antes que se embarcasse. Costumava
Lebre caçar e corças e veados;
Ora de bois e mus no esterco o deixam,
Que às portas se amontoa, enquanto os servos
Para estrume da lavra o não carregam.
Jazia ali de carrapatos cheio,
E meigo, assim que a seu senhor fareja,
As orelhas bulindo, agita o rabo;
Mas não pôde acercar-se. O bom Laércio
Uma lágrima enxuga às escondidas,
E questiona o pastor: 'Um cão tão belo
Pasmo que esteja, Eumeu, nesse monturo;
Talvez, com tanto garbo, ágil não fosse,
E à mesa por formoso é que o tratavam'.
(...)
    Argos nesse momento, após vinte anos
Seu dono a contemplar, morreu de gosto." (LIVRO XVII, v.213-229 e 241-242, p. 295-296)


A cena do encontro do cão Argos com seu dono, Ulisses, é de chorar. Na hora nos lembramos do cão da raça akita, Hachiko, da história de amizade entre o cachorro e seu dono. A Odisseia, de Homero, é tudo isso, é a referência clássica para diversas cenas reais e das narrativas ficcionais nos últimos 2800 anos.

No Livro XV, voltamos a ver o jovem Telêmaco, que abriu a epopeia nos primeiros quatro livros - a "Telemaquia". Vendo sua casa e patrimônio serem dilapidados pelos varões de Ítaca, que queriam desposar sua mãe, Penélope, o filho de Ulisses saiu em busca de informações sobre o pai nos primeiros cantos da epopeia.

Neste momento em que estou da leitura da Odisseia, Ulisses finalmente chegou a sua amada Ítaca, 20 anos depois de terminada a Guerra de Troia. Apoiado pela deusa Minerva, ele está disfarçado de velho e chega a sua casa para avaliar os intrusos e as condições para derrotá-los e retomar seu reino.

Cito abaixo, uma nota explicativa do professor Medina, a nota 1 do Canto XVII, que explica esta parte da epopeia.

"Este livro XVII é propriamente a narrativa da Volta de Ulisses a seu palácio. Embora a cena inicial seja recapitulativa e acessória, o desenvolvimento deste livro tem as mesmas grandes qualidades dos livros XIII e XIV. Ulisses e Eumeu vão para a cidade, encontram a fonte onde está o altar das ninfas, topam com o insolente servidor Melântio; depois, a chegada ao palácio, com o admirável episódio do cão Argos, que reconhece o dono, depois a cena em que Ulisses passa a mendigar de mesa em mesa, e amaldiçoa Antino. A resposta que Ulisses manda dizer a Penélope, através de Eumeu, faz com que haja íntima união entre este livro e o décimo nono, onde a conversa dos cônjuges realmente se realizará." (MEDINA, Nota 1 ao LIVRO XVII)

Caminhamos para os momentos finais dessa epopeia homérica.

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TRILHA CLÁSSICA

Meu planejamento de leitura nesta linha de clássicos antigos já está definida em minha mente. Terminando a Odisseia, vou ler a Ilíada, também na tradução em versos de Odorico Mendes. Um livro conta a Guerra de Troia e a "Ira de Aquiles" e o outro a volta atribulada de um dos heróis gregos - Odisseu, rei de Ítaca.

Depois da Ilíada, vou ler a Eneida, de Virgílio. Consegui adquirir a tradução de Odorico Mendes. Após a Guerra e a destruição de Troia, após acompanhar as desventuras de Odisseu (Ulisses na forma latina), vou ler a epopeia de Eneias, troiano sobrevivente que iria fundar uma nova civilização, Roma e o Império Romano.

Por fim, lida essa sequência clássica, vou fechar a trilha com a leitura de A divina comédia, de Dante Alighieri. Nela, o próprio autor da Eneida, o poeta Virgílio, guia Dante pelos mundos do além-túmulo. Até hoje, só li o "Inferno". Não segui na leitura do livro.

É isso, espero que os deuses e a Fortuna me permitam viver os próximos meses para empreender essa trilha literária clássica. Parte da cultura ocidental dos últimos 3 mil anos provém dessas obras e desses autores.

Alguém topa fazer esse roteiro de leitura?

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Na outra trilha clássica, estou na releitura de Ulysses, de James Joyce. Após Joyce, vou ler As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Dessa trilha, li recentemente Moby Dick, de Herman Melville. 

Lembrando o final do clássico texto de Italo Calvino sobre "Por que ler os clássicos", ele nos ensina que "é melhor ler do que não ler os clássicos".

Seguimos lendo...

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sexta-feira, 2 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses acolhido pelo servo Eumeu (XIV)



Refeição Cultural

"E o Satúrnio o proteja. Ora me explanes
Quem és, de que família, de que terra,
Os infortúnios teus; que exímios nautas
E em que navio aqui te conduziram?
A Ítaca não creio a pé viesses.'
    Começa Ulisses: 'Narrarei sincero.
Se de espaço a lograr teu vinho e pasto,
Incumbido o serviço a outros sendo,
Fôssemos nesta choça, inda que um giro
Decorresse anual, não me era fácil
Expor as penas que infligiu-me a sorte.
" (LIVRO XIV, v. 145-155, p. 251)


Retomando a leitura da clássica epopeia de Homero, Odisseia, vemos agora o herói Ulisses de volta a sua amada Ítaca. Estamos na segunda parte da epopeia.

Ulisses foi trazido a Ítaca pelos Feácios. A deusa Minerva (Palas Atena) modificou a aparência do herói para que ele se pareça com um velho. Assim ele pode executar sua missão de chegar até a casa de sua amada Penélope, matar os inimigos e retomar suas posses.

O velho foi acolhido por Eumeu, servo de Ulisses que cuida de seus porcos. Após a tradição ser cumprida - o hóspede ser alimentado, agasalhado e bem recebido - o servo ouve a história da origem e andanças do estranho.

Agora vamos para o Livro ou Canto XV, e nele voltaremos a encontrar o jovem Telêmaco, que vimos lá nos quatro primeiros cantos, na "Telemaquia".

Para a leitura da postagem anterior, clicar aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


domingo, 6 de junho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses chega a Ítaca (XIII)



Refeição Cultural

"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
À sombra da oliveira os dons colocam,
À larga obtidos por mercê de Palas,
Fora da estrada, a fim que não lhos toque,
Antes que ele desperte um viandante,
Isto acabando, para a Esquéria voltam.
" (LIVRO XIII, v. 86-92, p. 239)


Finalmente, Ulisses chega a Ítaca, trazido pelos Feácios. As notas da edição que tenho são muito legais. O professor Medina nos explica que este Livro XIII da epopeia equivale ao início da segunda parte da Odisseia

"Calam-se todos: refere-se ao final da narração de Ulisses, contida nos livros IX-XII, feita para Alcino, e que conta os fatos que lhe haviam ocorrido desde a saída de Tróia até sua chegada à ilha de Calipso. O que lhe vai ocorrer depois, ou seja, o período que vai desde esta chegada até sua boa acolhida entre os Feácios é algo que já foi narrado por Ulisses a Alcino e Areta no fim do livro VII. O livro XIII se distingue totalmente dos anteriores e dá de fato início à segunda parte da Odisseia, onde a ação se desenvolverá de maneira bem mais lenta. Ulisses, uma vez acabado seu 'romance de aventuras', é novamente focalizado na corte de Alcino, e o rei dos Feácios vai preparar agora a viagem de volta do herói a Ítaca. Ora, tanto a viagem como o sonho de Ulisses lembram novamente uma profunda experiência dos limites do homem, arrematada simbolicamente com a transformação do navio dos Feácios num rochedo (daí por diante Atena se faz mais presente); Alcino pode ser, pois, entendido como o rei barqueiro que conduz as almas à ilha dos Bem-Aventurados, sendo, pois, todo episódio dos Feácios considerado como um poema escatológico." (Nota 1, LIVRO XIII, p. 235, Antonio Medina)

Outras duas partes deste livro (ou canto) merecem destaque: a polêmica acerca da possibilidade de se desembarcar dormindo o nosso herói ou não e a deusa Pala mudando a aparência de Ulisses para que ele consiga alcançar sua casa e realizar a sua vingança contra os homens que lá estão há 3 anos dilapidando seu patrimônio e querendo sua esposa.

Os Feácios desembarcam Ulisses dormindo. O tradutor Odorico Mendes faz uma nota muito interessante, discutindo a posição de Aristóteles, que afirma na Poética que há inverossimilhança nesta questão. É fantástico! 

Leio dois séculos depois da tradução da Odisseia para o português um debate entre o maranhense Odorico Mendes (XIX) e Aristóteles (século V a.C.) sobre uma obra de alguns séculos antes da vida do filósofo, a Odisseia é do século VIII a.C.

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"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
" (v. 86-87)

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NOTA DE ODORICO MENDES

"Na opinião de Aristóteles, seria esta inverossimilhança intolerável, se as belezas do estilo não fizessem esquecer a pequenez da invenção. Sem embargo da sentença do oráculo da Antiguidade, faria algumas observações a favor do poeta. A inverossimilhança consiste em desembarcarem a Ulisses dormindo sem que ele despertasse. Advirta-se, porém, que depois de quebrar-se o navio onde longamente padeceu, depois de nadar quase três dias com o auxílio da cintura de Leucotéia, depois de escalavrar as mãos nos rochedos, ainda não tinha assaz reparado as forças perdidas: o sono mais salutar foi o que dormiu no bosque antes de lhe aparecer Nausica; porquanto na cidade, onde esteve dois dias, pouco descansou, levando quase todo o tempo a narrar suas aventuras, o que por certo não lhe diminuía o cansaço. Necessariamente, ao chegar ao navio dos Feácios, devera cair em profunda modorra. Tenho visto mudarem-se muitos adormecidos, principalmente meninos, sem darem por si; e o que a idade faz nos meninos, podia fazer em Ulisses a extraordinária fadiga. Se Aristóteles tivesse passado por iguais trabalhos, talvez não teria despertado nem cochilado." (Nota 86-87, LIVRO XIII, p. 239, Odorico Mendes)

No fim deste canto fantástico da Odisseia, a deusa Pala, que agora irá acompanhar o herói até o fim de suas aventuras em Ítaca, decide disfarçá-lo na forma de um velho malvestido para que ele consiga chegar de surpresa e enfrentar aqueles que dilapidam sua casa e seu patrimônio, interessados em desposar Penélope.

"Vou, para ignoto seres, enrugar-te
A lisa pele dos flexíveis membros,
Sumir-te a loura coma, em despiciendos
Andrajos envolver-te, e aos vivos olhos
O brilho embaciar, para que a todos,
Mesmo a filho e mulher, pareças torpe.
" (LIVRO XIII, v. 304-309, p. 245)


Foram bons meus entendimentos de hoje sobre a Odisseia. A leitura dos clássicos da literatura mundial nos permite refletir sobre muitas questões culturais. Intertextualidades entre autores e críticos é uma delas.

Para ler a postagem anterior desta epopeia clássica, clique aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


Odisseia (Homero) - Cila e Caríbdis (XII)



Refeição Cultural

"Cila é que me arrebata uns seis guerreiros
De esforço e brio; olhando para os bancos,
Pernas lhes vejo e braços pelos ares;
Na agonia final por mim bramavam.
" (LIVRO XII, v. 181-184, p. 227)


Neste domingo, retomei a leitura da Odisseia, de Homero. Minha edição é a da tradução do maranhense Odorico Mendes, edição a cargo do professor Medina, da FFLCH.

Neste Canto XII, Ulisses saiu do inferno (Hades) e agora enfrenta as predições que os deuses lhe anteciparam. Terá que enfrentar a tentação do canto das sereias, seus marinheiros com cera nos ouvidos e ele amarrado à viga de sua nau.

Superando esse obstáculo, terá pela frente os desafios tenebrosos de Cila e Caríbdis. Pela cena que ilustrei acima, vê-se que a predição se realizou. O mostro de várias pernas e cabeças Cila devora seis tripulantes da nau de Ulisses.

Mas suas desgraças não param por aí. Foi dito a ele que não permitisse que seus homens comessem os rebanhos que estavam pastando na Ilha dos rebanhos, porque os rebanhos eram do deus Sol. É óbvio que os caras mataram e comeram bois e ovelhas! São humanos, demasiadamente humanos...

O Canto ou Livro XII termina com a vingança dos deuses, que destroçam a nau de Ulisses. Ele se salva sozinho e vai parar na ilha de Calipso, onde passou muito tempo e já conhecemos essa parte da história, narrada nos livros anteriores da epopeia.

Ler aqui a postagem anterior, sobre a leitura do Livro XI.

Abraços a vocês, leitor@s que resistem ao mundo irracional do negacionismo e da destruição massiva do planeta pelo capitalismo.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quinta-feira, 27 de maio de 2021

30. Prometeu Acorrentado - Ésquilo



Refeição Cultural - Cem clássicos

Agora conheço um pouco melhor o mito de Prometeu. A cada leitura de um desses clássicos da antiguidade, mais vontade tenho de ler outros. 

Na edição que li de Prometeu Acorrentado, da "Coleção a obra-prima de cada autor", da editora Martin Claret, na tradução de J. B. Mello e Souza, consta que o autor é o dramaturgo Ésquilo, o mais antigo dos 3 autores trágicos da Grécia antiga (Sófocles e Eurípides são os outros dois).

Ao ler e pesquisar sobre Ésquilo e, principalmente, sobre esta narrativa, vi que mais recentemente existem dúvidas sobre a autoria do Prometeu Acorrentado ser mesmo de Ésquilo. Mas vamos ficar com as referências constantes no livro que li.

PROMETEU ACORRENTADO

A tragédia se passa nas montanhas do Cáucaso ou nas Estepes, pelo que pude aferir em relação à antiga região da Cítia.

"Nos rochedos da Cítia: O poder, a Violência, Vulcano e Prometeu

Eis-nos chegados aos confins da terra, à longínqua região da Cítia, solitária e inacessível! Cumpre-te agora, ó Vulcano, pensar nas ordens que recebeste de teu pai, e acorrentar este malfeitor, com indestrutíveis cadeias de aço, a estas rochas escarpadas. Ele roubou o fogo, - teu atributo, precioso fator das criações do gênio, para transmiti-lo aos mortais! Terá, pois, que expiar este crime perante os deuses, para que aprenda a respeitar a potestade de Júpiter, e a renunciar a seu amor pela Humanidade." (p. 25)

Assim começa a narrativa sobre as desgraças de Prometeu por ajudar aos humanos. Nas guerras de poder dos céus, Júpiter assumiu o trono e pensava até em se desfazer da humanidade para criar outra raça no lugar. Prometeu acabou interferindo e dando uma mãozinha aos humanos.

Daí em diante a tragédia se desenvolve.

O mito de Prometeu me lembrou a descrição do neurocientista Miguel Nicolelis sobre a evolução do cérebro do homo sapiens, o professor chama nosso cérebro de O Verdadeiro Criador de Tudo. Prometeu diz que tornou os homens "inventivos e engenhosos".

"(...) Não falemos mais nisso; seria repetir o que já sabeis. Ouvi, somente, quais eram os males humanos, e como, de estúpidos que eram, eu os tornei inventivos e engenhosos. Eu vo-lo direi, não para me queixar deles, mas para vos expor todos os meus benefícios. Antes de mim, eles viam, mas viam mal; e ouviam, mas não compreendiam. Tais como os fantasmas que vemos em sonhos, viviam eles, séculos a fio, confundido tudo. Não sabendo utilizar tijolos, nem madeira, habitavam como as próvidas formigas, cavernas escuras cavadas na terra. Não distinguiam a estação invernosa da época das flores, das frutas, e da ceifa. Sem raciocinar, agiam ao acaso, até o momento, em que eu lhes chamei a atenção para o nascimento e acaso dos astros. Inventei para eles a mais bela ciência, a dos números, formei o sistema do alfabeto, e fixei a memória, a mãe das ciências, a alma da vida. Fui eu o primeiro que prendi os animais sob o jugo, a fim de que, submissos à vontade dos homens, lhes servissem nos trabalhos pesados. Por mim foram os cavalos habituados ao freio, e moveram os carros para as pompas do luxo opulento. Ninguém mais, senão eu, inventou esses navios que singram os mares, veículos alados dos marinheiros. Pobre de mim! Depois de tantas invenções, em benefício dos mortais, não posso descobrir um só meio para pôr fim aos males que me torturam." (p. 37/38)

PARA OS GREGOS, NEM OS DEUSES FUGIAM DE SEU DESTINO

Uma das características das mitologias gregas é a força do Destino. Nesta narrativa de Prometeu, nem Zeus (Júpiter) foge ao seu destino.

"O CORO

Depois de haver prestado tamanhos benefícios aos mortais, não te abandones à desgraça. Estamos persuadidas de que poderias, liberto dessas cadeias, ser tão poderoso quanto Júpiter...

PROMETEU

Não!... Não foi assim que dispôs o destino inexorável. Só depois de haver sofrido penas e torturas infinitas é que sairei desta férrea prisão. A inteligência nada pode contra a fatalidade.

O CORO

E a fatalidade, quem a dirige?

PROMETEU

As três Parcas, e as Fúrias, que nada perdoam.

O CORO

Será Júpiter, acaso, menos poderoso que essas divindades?

PROMETEU

Sim... ele próprio não poderá eximir-se a seu destino..." (p. 39)

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"A inteligência nada pode contra a fatalidade"

Que mensagem essa! Profunda!

A fatalidade...

É essa que nos coloca na condição da incerteza de estarmos aqui amanhã... ainda mais com o vírus da morte à caça de cada um de nós em países como o Brasil, onde os desgraçados no poder querem nossa morte sem nos prover do apoio do Estado através de vacina, de medidas protetivas e de recursos de saúde pública.

Estamos sós e por conta própria. 

Que foda.

William


Bibliografia:

ÉSQUILO. Prometeu Acorrentado. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2005.


terça-feira, 25 de maio de 2021

29. Antígona - Sófocles



Refeição Cultural

"Antígona - O povo fala. Por mais que os tiranos sejam afeitos a um povo mudo, o povo sempre fala. Fala sussurrando, amedrontado, à meia luz, mas fala..." (SÓFOCLES, 2007, p. 98)


Mais um clássico lido! Agora conheço a história de Antígona, filha de Édipo e Jocasta, na versão de Sófocles. Que dramática é a narrativa do início ao fim! (li que na versão de Eurípides, Antígona tem um final diferente. Dele, eu conheço a tragédia Medeia)

Lendo as tragédias gregas fica mais fácil compreender os mitos da antiguidade clássica e as referências das tragédias de Shakespeare.

Antígona é uma das filhas de Édipo e Jocasta. Édipo é aquele que matou o pai, Laio, e ficou com sua mãe. É bom lembrar que ele não sabia disso. Tudo foi tramado pelos deuses do Olimpo, e os argumentos das tragédias de Sófocles lembram ao povo grego que ninguém foge de seu destino.

A tragédia se passa em Tebas, o rei que ocupa o trono é Creonte, irmão da falecida Jocasta e tio de Antígona e seus três irmãos - Ismênia e os irmãos Etéocles e Polinice. Os irmãos morrem em batalha um contra o outro, um defendendo o tio e Tebas e o outro tentando tirar do poder Creonte, estando ao lado de seu sogro, rei de Argos. 

Antígona quer realizar os ritos fúnebres para Polinice, mas Creonte quer que ele apodreça insepulto e comido pelos cães, enquanto ao outro irmão que defendeu Tebas, Etéocles, faz os ritos corretos. Antígona não aceita isso e está armado o barraco para a tragédia que fará cumprir-se o destino trágico a toda a descendência de Édipo.

Creonte é orgulhoso e inflexível e não atende ao clamor de seu filho Hêmon, noivo de Antígona, e sequer ouve os conselhos do sábio cego Tirésias. O tirano quer sangue! Quando volta atrás já é tarde e uma série de merdas acontecem na família.

Enfim, mais uma lacuna cultural preenchida. Esses clássicos e mitos da antiguidade me fazem lembrar dos textos críticos que li sobre a história ser linear ou cíclica, o tempo nas narrativas religiosas e mitológicas, mitos do eterno retorno etc.

Seguimos lendo, estudando, tentando dar sentido às coisas, mesmo sabendo que as coisas não têm sentido algum.

William



Bibliografia:

SÓFOCLES. Édipo Rei & Antígona. Tradução: Jean Melville. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2007.

domingo, 23 de maio de 2021

28. Édipo Rei - Sófocles



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Por isso, não tenhamos por feliz homem algum, até que tenha alcançado, sem conhecer doloroso destino, o último de seus dias." (SÓFOCLES, 2007, p.77)


Estou nuns dias sem pique para ler os três livros que estou lendo - Ulysses, Odisseia e O Verdadeiro Criador de Tudo. Estou deprê, talvez pela certeza da desilusão com a sociedade humana, com os animais homo sapiens. Não me iludo mais com essa espécie animal.

Para perseverar na leitura de alguma coisa (estou vivo), peguei alguns livros na estante pra ver se rolava a leitura de algum deles, livros pequenos se comparados aos bichões que citei acima. 

Aí, no sábado, li o livro do Jack Kerouac, um livro com três narrativas e um poema. Nunca tinha lido esse autor norte-americano. As estórias dele me deixaram pensativo. Ele falou sobre Nova York, sobre solidão e sobre o "vagabundo americano" nas palavras dele mesmo.

Depois de umas infelicidades domésticas, além das infelicidades brasileiras e mundiais, escolhi outro dos livros que peguei, uma tragédia grega, nada mais propício ao momento. Peguei Édipo Rei, de Sófocles. Li nesta manhã de domingo. Chocante!

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ÉDIPO REI

O mito de Édipo é antiquíssimo, tem milhares de anos. Já é citado na Odisseia de Homero (928-898 a.C.), que é uns séculos mais antigo que o dramaturgo Sófocles (496-406 a.C.). Então, nem há que se falar em eventual spoiler na síntese da tragédia.

Édipo é filho de Laio e Jocasta, mas nunca soube disso. Laio era rei de Tebas e quando soube do oráculo de Apolo, em Delfos, que teria um filho que o mataria e se casaria com sua esposa, manda matar o menino assim que ele nasce. O rei Laio contou com a fidelidade de outra pessoa para o assassinato do filho, que não ocorreu.

O menino acaba sendo criado como filho de outro rei, em Corinto. Já sendo jovem, num dia de bebedeiras, escuta que não é filho legítimo do rei. Lá vai ele, o jovem Édipo, ao mesmo oráculo em Delfos e ouve a mesma história. Ele vai matar o pai e casar-se com sua mãe. Decide ir embora para sempre de Corinto e vai parar em Tebas.

No caminho, ele mata uns sujeitos, vence um monstro mitológico - a Esfinge - que apavorava o povo em Tebas e vira rei, casa com a rainha e tem filhos.

A tragédia segue e o final é terrível. Prevaleceram as profecias dos deuses, que já eram questionados se suas previsões aconteciam mesmo ou se eram fake news, divulgadas nas redes sociais gregas só para manipular reis, rainhas e súditos.

Vemos na tragédia de Sófocles a figura do sábio idoso e cego Tirésias, que Ulisses (Odisseu) vai ao Hades (Inferno) consultar sobre sua volta para Ítaca, a esposa Penélope e o filho Telêmaco. Li sobre Tirésias dias atrás, na Odisseia de Homero (Livros X e XI). Ver postagem aqui.

É isso. Mais um clássico lido e conhecido. Vou ler o outro de Sófocles, Antígona, a filha de Édipo.

William


Bibliografia:

SÓFOCLES. Édipo Rei & Antígona. Tradução: Jean Melville. Coleção a obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2007.


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Encontros no inferno (XI)



Refeição Cultural

"   Três vezes ao materno simulacro
Fui me abraçar, três vezes dissipou-se
Igual ao vento leve ou sono alado.
Mágoa pungiu-me acerba: 'A meus desejos
Te esquivas, minha mãe? Ao colo os braços,
Ambos nos deleitássemos de pranto
Pela casa Plutônica! És vácuo espectro,
Pela augusta Prosérpina enviado
Para agravar meus ais? - 'Não', contestou-me,
'Filho amado, oh!, misérrimo dos homens,
Não te engana a de Júpiter progênie;
É nossa condição depois da morte:
Os nervos carnes e ossos não mais ligam,
A fogueira os consome irresistível;
Tanto que a vida os órgãos desampara,
A alma como visão remonta e voa.
Quanto antes volve à luz, e tudo aprendas
Para à casta Penélope o narrares.'
" (LIVRO XI, v. 151-169, p. 210/211)


Hoje, li o Canto ou Livro XI da Odisseia, de Homero, na tradução de Odorico Mendes, em bela edição a cargo do Antonio Medina (Edusp), com ilustrações de Enio Squeff.

Nesta parte da epopeia de Odisseu (Odisseia), ele narra aos Feácios sua passagem pelo Hades (Inferno). Acho que ir ao inferno atrás de informações ou resolver alguma coisa deve ser complicado porque eu custei a ler o canto, foram quase duas horas. Até pesar o olho pesou. Deve ser coisas do inferno.

Odisseu (Ulisses em latim) vai em busca do adivinho tebano Tirésias para saber sobre sua volta para Ítaca. Lá encontra diversos heróis gregos como Aquiles, Agamêmnon e Ajax. Encontra também sua mãe. A cena que citei acima é muito bonita e triste.

Estava pensando enquanto lia a Odisseia, que vou ler as outras epopeias clássicas. Vou ler a Ilíada em seguida, também na tradução de Odorico Mendes. E depois da Ilíada, vou ler a Eneida, de Virgílio, na tradução de nosso maranhense também: consegui encontrar o livro e o comprei. 

Depois dessa trilogia Ilíada, Odisseia, Eneida, vou ler A divina comédia, de Dante Alighiere. Até hoje só li "O Inferno" e não li as outras duas partes da obra.

Aliás, a passagem de Ulisses pelo Hades nos lembra muito "O Inferno" de Dante.

Repito o que tenho refletido a respeito da vida e dos seres humanos que habitam o planeta Terra: essa vida sob pandemia mundial de coronavírus, sob a desgraça do bolsonarismo no Brasil e caminhando para o fim da vida na Terra sob a hegemonia do capitalismo não tem sido uma vida feliz e plena. A leitura é uma forma de achar razões para seguir, assim como as pessoas que amamos nos dão razões para viver.

Sigamos lendo, tentando não morrer de Covid-19 ou outras mortes severinas e amando as pessoas que amamos. A postagem anterior sobre a Odisseia está no link aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses no Hades (X)



Refeição Cultural

"A augustíssima ninfa respondeu-me:
'Divo astuto Laércio, constranger-vos
Não quero; mas convém baixeis primeiro
De Prosérpina e Dite à feia estância
O vate a consultar cego Tirésias,
Único morto a quem a infernal Juno
O saber e o pensar tem conservado,
Não sendo os outros mais que aéreas sombras'." (LIVRO X, v. 363-370, p. 202/203)


ULISSES VAI AO INFERNO

O herói grego Odisseu (Ulisses em latim) está contando aos Feácios suas atribulações e desventuras após o fim da Guerra de Troia e de como não conseguiu retornar a sua bela Ítaca. Estou no Canto X da Odisseia, de Homero, na magnífica tradução do maranhense Odorico Mendes.

Circe sugere que Ulisses vá para o Inferno... Explico: a augusta ninfa Circe diz a Ulisses que desça ao Hades para consultar o sábio adivinho tebano Tirésias, para que o herói seja bem sucedido em sua jornada de volta para casa, Ítaca, onde o esperam a esposa Penélope e o filho Telêmaco.

O professor Medina, responsável pela edição que tenho da Odisseia, publicada pela Edusp, colocou uma nota tão importante nesta parte do canto que vou reproduzi-la abaixo. Ela ensina e esclarece muita coisa. Inclusive sobre o Ulysses, de Joyce, que estou relendo ao mesmo tempo em que leio a epopeia homérica.

É a quarta vez que me sentei para ler o clássico e postar algum comentário sobre ele. A postagem anterior pode ser lida aqui.

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TIRÉSIAS (nota do professor Antonio Medina para a Odisseia, na tradução de Odorico Mendes)

"Tirésias: adivinho tebano, que em jovem fora cegado por Atena, de quem havia revelado um segredo. Outra variante testemunha que a cegueira de Tirésias se deveu a uma vingança de Hera, que o punira porque, convidado a mediar uma discussão entre Zeus e sua esposa, Tirésias teria respondido que a mulher sente mais prazer no sexo do que o homem (Tirésias falava com saber de causa, porque sua natureza andrógina implicava o conhecimento dos dois sexos e portanto dos dois prazeres). Por favor de Prosérpina, conservou seus dons de vidente mesmo no Inferno. É uma das figuras mais vigorosas da história da literatura. Aparece também em Édipo-Rei e Antígona, de Sófocles, em As Fenícias e As Bacantes, de Eurípides, no livro III das Metamorfoses de Ovídio, em Mamelles de Tirésias, de Apollinaire, em Édipo, de André Gide, em The Waste Land de Eliot, e em muitos outros; e a Odisseia, no seu conjunto, conheceu sua mais célebre alegoria no romance Ulisses (1922) de James Joyce, onde se conta não apenas a história de Stephen, de Bloom e da cidade de Dublin em um dia. Bloom é Ulisses, Stephen é Telêmaco, Molly é Penélope (sem as virtudes desta), o Ciclope é um fanático irlandês encontrado numa taberna, Nausica é uma bela moça entrevista fugazmente na praia; algumas sugestões ultraparódicas da Odisseia, realizadas num contexto antiépico e 'irônico' estão em Os Ratos, de Dionélio Machado." (Nota 367 in: Odisseia, Edusp, p. 203)


Amig@s leitores, só lendo muito para suportar a tristeza que sinto perante a realidade brasileira. Eu não tenho como perdoar meus conterrâneos após o advento do bolsonarismo. Não tenho. Sei que sou um ser social, animal homo sapiens etc, mas quase que poderia afirmar que não quero mais saber dos seres humanos. Poucos valem a pena.

Ler é fundamental, ler é uma forma de resistência, é uma forma de sobreviver. Tenho tantas obras pra ler que gostaria de seguir vivendo.

William


Post Scriptum: até esta postagem eu não conhecia os clássicos dramáticos de Sófocles. Agora já conheço alguns. Li Édipo Rei e Antígona. Mais duas lacunas culturais preenchidas.


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 15 de maio de 2021

Ulysses - Calipso (A Casa)



(*atualizado às 13h, 17/5/21)

Refeição Cultural

"   Abriu num chute a porta torta da casinha. Melhor cuidar pra não sujar essa calça pro enterro. Ele entrou, curvando a cabeça sob o lintel baixo. Deixando a porta entreaberta, em meio ao fedor da barrela mofada e a teias murchas ele soltou os suspensórios. Antes de sentar espiou por uma frincha as janelas do vizinho. O rei estava em sua tesouraria. Ninguém.
     Acocorado no tamborete ele desdobrou seu jornal virando as páginas em cima dos joelhos nus. Alguma coisa nova e fácil. Sem grandes pressas. Segurar um pouquinho (...)
     Tranquilamente leu, contendo-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio caminho, cedendo suas últimas resistências, ele deixou o intestino se aliviar tranquilamente enquanto lia, lendo ainda paciente, bem curada aquela constipaçãozinha de ontem. Espero que não seja grande demais fazer voltar as hemorroidas...
" (JOYCE, 2012, p. 181/182)


Um simples ato de um mortal humano, uma etapa básica de um dos sistemas constitutivos do organismo do homo sapiens: ingerir, triturar, digerir, defecar. Todo ser humano passa por essas etapas das funções do sistema digestório. Engraçado, a burguesia adora falar filmar divulgar a etapa do comer (o que chega a ser uma afronta em meio a tanta fome no mundo)... e essa mesma burguesia acha coisa de outro mundo a etapa seguinte, quando termina o processo da digestão. Culturas. Abstrações humanas.

Joyce fez seus personagens de ficção mais humanos que os humanos, os mortais humanos. Quase ninguém atenta para seus próprios pensamentos, seus fluxos de consciência. Que dirá contar eles para os outros... a gente pensa tanta merda durante nossas horas de vida. Joyce mostrou para seus leitores os pensamentos de seus personagens. As coisas mais comezinhas do pensar de seus personagens ao longo do dia. Essa é a aventura em Ulysses. É uma leitura diferente, exigente, mas seus personagens são nossa imagem e semelhança. São universais.

Estou relendo o clássico de Joyce após duas décadas da primeira aventura. Está vez, bem interessante e diferente, porque somos outros, eu, o tempo, a tradução, o contexto, tudo. 

Para fazer a aventura mais interessante ainda estou aproveitando para ler em poesia a Odisseia de Homero, na tradução fantástica do maranhense Odorico Mendes, eu só havia lido em prosa, e estou mexendo também com os outros joyces que tenho, relendo os Dublinenses, que já li diversas vezes, e quem sabe eu vá ler também o Retrato do artista quando jovem, que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, o Telêmaco do Odisseu irlandês de Joyce.

Na sequência dos capítulos, já passei por "Telêmaco", "Nestor", "Proteu", "Calipso" e "Lotófagos". São as relações que Joyce faz com a Odisseia grega.

Se eu não estivesse lendo a Odisseia nem saberia por que Joyce nomeou o capítulo segundo de "Nestor". Na epopeia homérica, Nestor é um velho sábio, guerreiro aqueu que lutou ao lado de Ulisses (Odisseu) em Troia e conseguiu voltar são e salvo para sua terra, Pilos. Na Odisseia, Telêmaco sai em busca de seu pai e o primeiro lugar no qual para em busca de informações é em Pilos, terra de Nestor. Como Nestor não tinha informações sobre Ulisses, Telêmaco segue até a terra dos feácios.

Stephen Dedalus já passou pela escola onde leciona, teve aquele diálogo com o reitor que lhe falou o que pensa sobre os judeus; depois Dedalus caminhou pela praia e lidamos com o difícil monólogo interior do personagem. Depois fomos para a casa dos Bloom.

Enfim, seguimos na leitura, seguimos na epopeia da vida, enquanto viajo por Dublin, pela Grécia antiga, viajo pela nossa existência ameaçada pelas diversas formas de mortes severinas, até por um reles vírus ao qual estamos expostos sem vacina, que já existe, mas que não tomamos porque estamos sob um regime político genocida, de homens maus, de bandidos, governantes que optaram por não comprar vacina para o povo, que deve se virar sozinho, sem auxílio de deuses nem de reis (porque nossos conhecidos colocaram eles lá no poder, os canalhas).

William


*Post Scriptum

Achei melhor mudar o título, coloquei "Calipso" no lugar de "Nestor" porque é mais adequado. A sequência da leitura após essa postagem está aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ciclope Polifemo (IX)



Refeição Cultural

"    Renovo a taça ardente, que três vezes
Néscio esgotou. Sentindo-o já toldado,
Brando ajunto: 'Ciclope, não me faltes
À promessa. Meu nome tu perguntas?
Eu me chamo Ninguém, Ninguém me chamam
Vizinhos e parentes'. O ímpio e fero
Balbuciou: 'Ninguém, depois dos outros
Último hei de comer-te; eis meu presente'.
" (LIVRO IX, v.276-283, p. 183)


Manhã de segunda-feira, 10 de maio. Antes de lidar com as coisas do cotidiano de uma vida obreiro-retirada brasileira, daqui de minha Osasco-Ítaca, leio o Canto IX da Odisseia, de Homero.

Nos primeiros quatro cantos da epopeia homérica, a "Telemaquia", tomamos conhecimento do que se passa em Ítaca, terra de Odisseu (Ulisses em latim), guerreiro grego que enfrentou os troianos e muitos anos após a vitória ainda não havia retornado para sua esposa Penélope, seu filho Telêmaco e seu reino. Telêmaco sai em busca de notícias de seu pai. Ver postagem sobre essa leitura aqui.

Nos cantos seguintes, de V a VIII, soubemos de Ulisses, cativo da ninfa Calipso. Em uma assembleia dos deuses do Olimpo, decide-se que a ninfa deve deixar o grego partir. Em uma jangada ele parte, Netuno (Poseidon) fica puto com tudo isso e dificulta as coisas para o herói. Mas ele é salvo de novo pela deusa Palas Atena (Minerva). O herói vai parar na ilha dos Feácios, donde está agora nos cantos que começo, do IX adiante. Fiz uma postagem sobre essa leitura: ver aqui.

O canto IX é uma das passagens mais empolgantes da Odisseia porque os gregos irão enfrentar o gigante ciclope Polifemo. A coisa é violenta e sanguinária. As cenas nada ficam a dever em relação ao anime Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyojin). Esse ainda não assisti, mas está na fila dos animes a ver.

As cenas são fortes... (tirem as crianças da frente da postagem).

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"Ei-lo, sevo e em silêncio, a dois agarra,
No chão como uns cãezinhos os machuca,
E o cérebro no chão corre espargido;
Os membros rasga, e lhes devora tudo,
Fibra, entranha, osso mole ou meduloso,
Qual faminto leão...
" (LIVRO IX, v.218-223, p. 181)

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É forte a cena, heim! (No vídeo, no final, eu confundi e falei "Canto V", mas na verdade é Canto IX, sorry!)

Depois, quando Ulisses usa de suas artimanhas para enfrentar o gigante, vamos ver outra cena forte. O ciclope ficou bêbado após Ulisses lhe oferecer vinho e ao dormir assim chapadão soluça e vomita pedaços dos guerreiros comidos. Amig@s, isso foi escrito há milhares de anos!

Enfim, estou lendo a Odisseia em versos, na tradução fantástica do maranhense Odorico Mendes, em edição belíssima a cargo do professor Medina, da FFLCH, mestre já falecido, mas que tive o privilégio de ser aluno nas aulas de literatura grega.

Leiam, amigas e amigos leitores, porque leitura é uma forma de alimento d'alma, de nosso ser, já que nossa essência está na absorção das experiências que acumulamos ao longo da vida. Minha leitura da Odisseia é motivada pela minha releitura de Ulysses, de James Joyce, já que o clássico da Literatura Irlandesa tem como referência o clássico grego.

William



Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).

sábado, 8 de maio de 2021

Ulysses - Telêmaco (A Torre)



Refeição Cultural

"- Quanto, senhor? perguntou a velha.
- Um quartilho, Stephen disse.
Ele a observou que vertia na medida e dali para a jarra gordo leite branco, não seu. Peitos velhos mirrados. Verteu de novo uma medida e uma quebra. Secreta e velha, entrara vinda de um mundo matinal, quem sabe uma mensageira. Louvava a virtude do leite, vertendo. Agachada ao lado de uma vaca paciente na aurora do campo opulento, uma bruxa em seu cogumelo, velozes os dedos enrugados nas tetas que espirravam. Mugiam em volta dela, sua conhecida, gado sedosorvalhado. Seda da grei e pobre velhinha, nomes que ganhara nos tempos antigos. Uma velhusca errante, forma rebaixada de um imortal servindo seu conquistador e seu alegre traidor, ambos adúlteros seus, ela, núncio da manhã secreta. Servir ou vergastar, ele não sabia dizer qual: mas desdenhava implorar seu favor.
" (p. 111)


Neste sábado, iniciei minha epopeia joyceana e embarquei no clássico Ulysses (1922). Começamos a vivenciar o dia 16 de junho de 1904 em Dublin, Irlanda, às 8 horas da manhã, junto a Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom.

A cena inicial é na torre, vendo a baía de Dublin lá embaixo. Aparecem os personagens Buck Mulligan, Stephen Dedalus e Haines. O último deles, um inglês, curioso com os seus colonizados. Mulligan cita a famosa cena da mãe de Dedalus, que morreu sem ter seu pedido atendido pelo filho, de ajoelhar e rezar junto ao seu leito de morte. Após o café da manhã, sorvido com o bom leite gordo da cena que citei acima, Dedalus vai para seu trabalho, para a escola onde leciona.

Na escola, uma cena chama a atenção dos leitores: a questão judaica, o preconceito e a raiva evidente que se têm dos judeus, vistas durante o diálogo entre Dedalus e o diretor Deasy. (basta lembrarmos que Joyce escreveu Ulysses na década de 1910. A Europa viveu no período o morticínio da 1ª Guerra e a questão antissemita era um forte traço da época e do mundo ocidental)

Que dizer então do preconceito contra as mulheres? A fala de Deasy sobre as mulheres é pavorosa! Todos os males da humanidade seriam por culpa delas.

"O senhor Deasy baixou a cabeça e segurou por um momento as narinas beliscadas entre os dedos. Erguendo novamente os olhos ele as libertou.
- Eu sou mais feliz do que o senhor, ele disse. Nós cometemos muitos erros e muitos pecados. Uma mulher trouxe o pecado ao mundo. Por uma mulher que não valia um merréis de mel coado, Helena, a esposa fujona de Menelau, por dez anos os gregos guerrearam contra Troia. Uma mulher infiel trouxe os primeiros estrangeiros aqui às nossas praias, a esposa de MacMurrough e seu amásio O'Rourke, príncipe de Breffni. Uma mulher também derrubou Parnell. Muitos erros, muitos fracassos mas não o único pecado. Eu sou um lutador já no fim dos meus dias. Mas vou lutar pelo que é certo até o fim.
" (p. 138)

Parei a leitura da manhã para descansar um pouco e tomar um café. Vou terminar ainda neste sábado à tarde o capítulo 3 - "Proteu" - com o monólogo de Stephen na praia. Já li o capítulo 2 - "Nestor" - que se passa na escola.

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Terminei a leitura do Capítulo 3 por volta das 16 horas. O monólogo interior de Stephen Dedalus foi a parte mais difícil da leitura. 

"Será que eu estou caminhando para a eternidade pela praia de Sandymount? Esmaga, esmigalha, estraga, estrala..." (p. 141)

De fato, ao sair para dar uma corrida, fiquei tentando perceber tudo o que pensamos e é uma loucura, desde o momento em que começamos a prestar atenção até o momento em que não conseguimos acompanhar mais o próprio fluxo de pensamento. Nós somos uns bichos muito esquisitos.

"Que saco essa máscara e esses óculos embaçados. Mas elevador é um dos locais com maior risco de se contrair o vírus maldito... Está friozinho... Não acho que vai chover. Vamos pro lado do Parque... Puta trânsito! Meu, e pensar que já estava correndo 15K e agora voltei a custar correr 5K, que merda isso..."

Dedalus anda pela praia, observa o que acontece ao redor, pensa em eventos do trabalho (a carta do diretor), da família (indo à casa da tia Sara), pensa em si próprio. 

Fiquei pensando também na questão do tempo na literatura. O primeiro capítulo se passa a partir das 8 horas da manhã. Stephen toma café, sai para a escola, dá aula, conversa com o diretor e recebe seu pagamento, e anda pela praia. Iria à casa da tia, mas quando dá por si, já tinha passado do ponto andando pela praia, divagando em seus pensamentos.

Em literatura temos técnicas que aceleram e que retardam o tempo nas narrativas, temos cenas e sumários, temos reminiscências etc. E temos autores que inovam em técnicas narrativas. O monólogo interior ou fluxo de pensamento é uma técnica bastante sofisticada.

"Depositou a meleca seca retirada da narina em uma ponta de pedra, cuidadosamente. De resto olhe quem quiser." (p. 159)

Enfim, o capítulo termina com Stephen tirando meleca do nariz. E disse que não ligava se alguém visse, mas olha imediatamente pra trás preocupado com alguém ver o que acabara de fazer.

Odisseia em andamento (a minha), já que as duas odisseias estão em andamento, a do Odisseu grego (Ulisses) e a do Odisseu irlandês.

William


Post Scriptum: a sequência da leitura está na postagem aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses e os Feácios (V a VIII)



Refeição Cultural

"   'Despede-o já', replica-lhe Mercúrio;
'Nunca irrites a Júpiter, nem queiras
Irado experimentá-lo.' Disse, e foi-se.
     Dócil, a ninfa se dirige à praia
Onde Ulisses longânimo gastava
A doce vida, os olhos nunca enxutos,
Saudoso e enfastiado, pois com ela
Por comprazer dormia constrangido.
E gemebundo, o ponto contemplando,
Passava o dia em litoral penedo.
Rosto a rosto lhe fala a deusa augusta:
'Cesse o pranto, infeliz, não te consuma
Parte, consinto. Abate a bronze troncos
De alto soalho ajeita ampla jangada,
Em que o sombrio páramo atravesses:
De pão te hei de prover e de água e vinho,
De agasalhada roupa; auras favônias
Te levarão seguro à terra cara,
Se esta for dos Supremos a vontade,
Que em saber e juízo me superam'.
" (LIVRO V, v.108-127, p. 128/129)


Nesta quarta-feira, dediquei minhas horas de leitura ao clássico de Homero, a Odisseia. Depois dos primeiros 4 cantos (ler comentário aqui), a "Telemaquia", desta vez li os cantos de V a VIII, que tratam do contato e recepção dos Feácios a Ulisses, após este partir da ilha de Calipso, onde estava retido.

Ao ler a passagem acima, me lembrei da "Introdução" ao Ulysses, de James Joyce, um texto magnífico do intelectual Declan Kiberd, texto que abre a edição que ganhei de meu amigo Sérgio Gouveia. Vamos começar a leitura nos próximos dias. 

O Ulisses grego é o dócil herói que Joyce decidiu ter por modelo para o seu Bloom, um "homem feminil" como diz Kiberd. Nestes cantos que li hoje o Ulisses é um "chorão", alguém emotivo e saudoso de sua bela Penélope, seu filho Telêmaco e sua Ítaca.

À medida que vou lendo o clássico homérico vou me lembrando das aulas que tive na universidade. O papel das narrativas épicas na cultura do povo grego é muito interessante: a forma como os gregos lidavam com os mitos, os deuses gregos com suas características humanas (antropomorfismo), as tradições e costumes, enfim, tudo volta à memória com a leitura da epopeia.

A leitura do clássico grego ao tempo em que vou ler o Ulysses de Joyce é uma estratégia que tende a enriquecer ambas as leituras e torná-las muito mais agradáveis e cheias de sentido.

É isso. Viajar nos clássicos enquanto não podemos viajar na vida real é uma forma de resistência ao momento em que vivemos: um mundo sob pandemia mundial de Covid-19 e o Brasil sob uma pandemia trágica de bolsonarismo, a banalidade do mal.

Se tiverem que preencher seus tempos ociosos, leiam os clássicos, dividam seus tempos dedicados a outras formas de cultura deixando um bocadinho para a leitura de obras que impactaram e influenciaram a história da cultura humana.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 1 de maio de 2021

Ulysses - Introdução de Declan Kiberd



Refeição Cultural

Sábado, 1º de maio. No mundo do trabalho é um dia de lutas e reflexões da classe trabalhadora. Este é um dos piores 1º de Maio do povo brasileiro em sua história. Tragédia total sob o regime fascista e genocida de milicianos alçados ao poder pelos grupos que executaram um golpe de Estado no Brasil em 2016. 

Desemprego, fome do povo, destruição dos direitos sociais e patrimônios públicos, destruição da Amazônia, Pantanal e ecossistemas, aparelhamento do Estado pelo crime organizado, mais de 400 mil mortos por Covid-19. Este é o cenário no qual nos encontramos. Estou em casa, numa condição privilegiada em relação aos meus pares da classe trabalhadora. Sigo focado em ler, obter conhecimento, me tornar uma pessoa melhor, dar significado às coisas.

Vou iniciar a releitura de um grande clássico da literatura mundial, um dos romances mais impactantes do século XX: Ulysses, do escritor irlandês James Joyce, publicado em 1922. Li esta obra aos trinta anos. Agora vou me aventurar nela novamente. Eu sou outro, o mundo é outro, é provável que a obra seja outra, ao menos para mim. 

A leitura será bem interessante. Ganhei de presente a edição que vou ler, traduzida por Caetano W. Galindo e com uma introdução do irlandês Declan Kiberd. O presente foi de meu amigo Sérgio Gouveia, estudamos juntos na USP e hoje ele é professor e mora no interior de São Paulo. Vamos ler juntos o livro nas próximas semanas. Fizemos isso semanas atrás com o Moby Dick, do norte-americano Herman Melville.

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"Em considerações como essas é possível encontrar a resposta para questão tantas vezes feita pelos leitores do Ulysses: se Joyce queria embasar sua narrativa numa lenda antiga, por que se voltou para os mitos gregos, e não para os gaélicos? Cúchulainn já tinha sido apropriado pelos nacionalistas militantes de Dublin, cuja política era incompatível com o pacifista e internacionalista Joyce. Desde sua juventude, ele se sentiu mais atraído pela humanidade calorosa de Ulisses. O herói épico não queria ir à Troia, recordava Joyce, porque considerava que a guerra não passava de um pretexto empregado pelos mercadores em sua busca por novos mercados. A analogia com a Europa contemporânea mergulhada na carnificina para garantir lucro aos barões da indústria do aço não se perderia naquele que se autointitulava um 'artista socialista'." (p. 19)

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A introdução de Kiberd é uma senhora introdução! São quase 90 páginas. Comecei a leitura do livro por ela porque já conheço a obra e não vou me decepcionar com eventual spoiler (e há). As informações e as reflexões do autor a respeito de Joyce, do Ulysses e do contexto da época são simplesmente fantásticas!

Lembra do cenário que descrevi sobre nós, brasileiros: destruição do país, fome e desemprego, 400 mil mortos etc? Joyce escreveu Ulysses entre 1914 e 1921, ou seja, durante a 1ª Guerra Mundial. Ele teve que se deslocar durante a guerra e seguiu escrevendo assim mesmo, em meio ao morticínio que o mundo viveu.

Li umas 30 páginas hoje e as reflexões a partir da leitura foram profundas. Novos conhecimentos após ler Kiberd: a relação entre Ulysses e a Odisseia de Homero; a questão do pacifismo em Joyce, em Leopold Bloom e no Odisseu grego (Ulisses na forma latina). Quanta informação obtive hoje, informação que vai fazer a releitura do clássico ser muito mais proveitosa que a primeira vez!

É isso. Estamos começando essa viagem. Também estou lendo a Odisseia de Homero, só que agora em versos, na "transcriação" do intelectual maranhense Odorico Mendes. São viagens, viagens. É uma das coisas que podemos fazer neste momento de nossas vidas, recolhidas no isolamento social para evitar o contágio e morte pelo novo coronavírus: viajar através da literatura.

Abraços aos leitores e leitoras que por acaso passarem por aqui.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.