sábado, 24 de maio de 2008

A caminhada, a caminhada...


Caminhos... Parque das Aves em Foz do Iguaçu (PR).

Pois é!

Estou caminhando.
E sei que não há caminho.
Sigo caminhando diariamente.

Quando chegarei em Santiago de Compostela, não tenho ideia. Chegarei, espero.

Por enquanto, em meus passos, nos caminhos criados, vejo muita alienação. O que é um total contrassenso, visto que estamos no mundo da informação instantânea. Mas isso emburrece.

Este "wired world" traz como consequência a alienação, o nivelamento de tudo: o belo e o feio, o culto e o popular; dividem uma página de site um poema de Drummond com um assassinato de criança. As grandes maiorias ainda são manipuladas pelo grande show midiático de meia dúzia de milionários donos de toda a mídia global.

Mas há esperanças. Ao menos no que diz respeito ao baixo custo de se criar alternativas de redes de contrainformações às grandes mídias.

Estou caminhando, mas não sei que dia chego em Santiago de Compostela.

Estou caminhando.


Post Scriptum (2/08/15):

Poxa! Relendo anos depois, como a postagem está atual em relação ao cenário mundial. Sigo longe de Santiago de Compostela, mas o mundo segue alienado e próximo a uma crise humana sem precedentes...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Sobre o conceito de História (1940) - Tese VII [excerto] - Walter Benjamin


Walter Benjamin, em 1928. Foto: Wikipedia.


"Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais.

O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Eles devem a sua existência não só aos esforços dos grandes gênios que os produziram, mas também à anônima servidão dos seus contemporâneos.


Não há documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo".


(os sublinhados são destaques meus - William)

(Foram aproveitadas as traduções de Sérgio Paulo Rouanet e de Flávio R. Kothe.)


BENJAMIN, Walter. "Sobre o conceito de história". In: Obras Escolhidas I. Trad. Sérgio P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BENJAMIN, Walter. "Teses sobre a filosofia da história". In: Walter Benjamin: Sociologia. Org. Flávio R. Kothe. São Paulo, 1991.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Poema - Verbo iludir conjugado


Eu me iludo.
Tu te iludes.
Será que eu te iludo?

Muitos não se iludem.
Melhor se se iludissem...
Quem se ilude, sonha.

Mas vós que sonhais,
Não vos iludais...
Praticai...

Pois, normalmente...

Eles sonham,
Não praticam...
E se iludem.


Wmofox, 13.09.2002

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Poema à Língua Portuguesa - Oldney Lopes


Estava procurando sobre a conjugação padrão do verbo repelir na internet, pois escrevi em meu texto a expressão "que a repila" (fiquei em dúvida) e achei um poema que adorei a respeito da nossa Língua Portuguesa.


POEMA À LÍNGUA PORTUGUESA

A língua portuguesa que amo tanto
Que canto enquanto encanto-me ao ouvi-la
Em cada canto é fala, é riso, é pranto
E nada há que a cale e que a repila.

É essa língua tórrida e faceira
Inebriante e meiga e doce e audaz
Que envolve e enleia a gente brasileira
E quem a utiliza é quem a faz.

É a língua dos domingos, no barzinho
A mesma das segundas, no escritório
A que fala o andrajoso, no caminho
E o cientista, no laboratório.

É a mesma língua, embora evoluída,
Que veio de outras terras com Cabral
Escrita por Caminha, foi trazida
Na descoberta do Monte Pascoal

Não há quem fale errado ou fale mal
De norte a sul, é belo o que é falado
Na língua de Brasil e Portugal.
Para julgar quem fala certo ou fala errado

Não há no mundo lei, nem haverá:
Quem faz da fala língua, é quem a fala
Gramática nenhuma a calará
Gramático nenhum irá cegá-la!


Oldney Lopes

Fonte: www.oldney.net

Pois é, prá quê? - MPB4


Pois é, estava hoje mesmo escrevendo sobre isso quando lembrei da música do MPB4 - fantástica!

Me sinto assim.



Pois é, Prá Quê?

MPB4
Composição: Sidney Müller

O automóvel corre
A lembrança morre
O suor escorre
E molha a calçada
A verdade na rua
A verdade no povo
A mulher toda nua
Mas nada de novo
A revolta latente
Que ninguém vê
E nem sabe se sente
Pois é, prá quê?

O imposto, a conta
O bazar barato
O relógio aponta
O momento exato
Da morte incerta
A gravata enforca
O sapato aperta
O país exporta
E na minha porta
Ninguém quer ver
Uma sombra morta
Pois é, prá quê?

Que rapaz é esse?
Que estranho canto
Seu rosto é santo
Seu canto é tudo
Saiu do nada
Da dor fingida
Desceu a estrada
Subiu na vida
A menina aflita
Ele não quer ver
A guitarra excita
Pois é, prá quê?

A fome, a doença
O esporte, a gincana
A praia compensa
O trabalho a semana
O chopp, o cinema
O amor que atenua
Um tiro no peito
O sangue na rua
A fome, a doença
Não sei mais porque
Que noite, que lua
Meu bem, prá quê?

O patrão sustenta
O café, o almoço
O jornal comenta
Um rapaz tão moço
O calor aumenta
A família cresce
O cientista inventa
Uma flor que parece
A razão mais segura
Prá ninguém saber
De outra flor
Que tortura...
Pois é, prá quê?

No fim do mundo
Tem um tesouro
Quem for primeiro
Carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa
Que arranje um carro
Prá andar ligeiro
Sem ter porque
Sem ter prá onde
Pois é, prá quê?
Pois é, prá quê?


Fonte:

O vídeo é disponibilizado pelo YouTube, com os direitos e regras do MPB4 e da empresa que controla esses direitos.

domingo, 27 de abril de 2008

Ainda o "Instinto de nacionalidade" - Machado de Assis





Aula do prof. Hansen em 20.9.07 (USP)


Esse texto machadiano é escrito em 1873.


Machado escreve para os estrangeiros (norte-americanos) e para falar de literatura contemporânea (1836-1873).


Ele nunca escreve de forma vulgar. Ele alude, sugere, mas nunca escreve vulgaridades. (ele até parodia o naturalismo; ele critica muito a vulgaridade de Eça de Queiroz e outros)


Analisemos os termos:


"instinto": termo tirado da biologia. É um termo técnico. A natureza fornece aos animais - no sentido de uma força irracional, incontrolável e natural.


"nacionalidade": não é natural. É política. Os homens estão programados para se agregarem enquanto nação?


De onde viria essa ideia de que uma nação tem um "Ethos", um caráter?


É histórico, muito em voga nos séculos XVIII-XIX, principalmente com os primeiros românticos alemães: o professor citou Friedrich Schlegel "Athenaum". (Explanação da ideia de nacionalidade a seguir):

Poesia: universal progressivo - teoria que ela é progresso. A poesia não admitiria cânone, pois teria que sempre inventar o novo.



Schlegel em 1812-1814 cria uma disciplina chamada "História das literaturas".


Homero - gregos (Ilíada/Odisseia) mitos e regras sociais

Virgílio - romanos - criação de Roma
Dante - língua italiana
Camões - Europa cristã

Descobre os poemas medievais. Descobre a ideia da germanidade - "tradição guerreira do povo alemão". Vai buscar manifestações do Ethos alemão nos momentos em que obras significativas mostraram esse espírito nacional alemão. Esse seria o papel da história da literatura para pregar a ideia do caráter do Estado Nacional.


A literatura alemã seria o item de coesão do povo na guerra, nos costumes, na cultura etc. A literatura é civilização pela própria sistematização da cultura, da língua e da nacionalidade.


(Hansen diz que vários filósofos associam o nazismo, o antissemitismo e seus ideais aos princípios românticos)



É um projeto autoritário. A literatura será um cimento ideológico obrigatório para adultos e crianças. (cita Mme de Staël "De l'Alemagne"). Ela foi lida no Brasil.


Em Paris, "Nicteroy" é publicado em 1836. Magalhães escreve nessa revista: "Discurso sobre a literatura brasileira" - fala em um organismo que tem um Ethos e que está em evolução contínua.




Alegoria de uma montanha: os autores contemporâneos a ele têm uma "missão" e têm que apresentar ao povo a natureza de seu país. A literatura "educa", tem papel de formação. No começo, seria importante a cor local. Representação "Indígena Civilizado".

Quem vai realizar esse projeto é José de Alencar com o idealismo romântico alemão. Fará através da literatura toda uma construção social com o objetivo de formar nossas elites, na nossa cultura local, associada aos ritos da Corte:


XV - Ubirajara, duas tribos...; XVI - Iracema, índio + branco...; XVII - O Guarani, a formação do brasileiro... etc.


Machado diz que esse "Instinto" é que todos querem falar da nação, do Brasil que se constituía.


(O professor diz que ser ingênuo hoje (2007) é ser "cínico". Diz que não dá pra ser romântico idealizador depois de Auschwitz)



No texto de Machado, professor diz que há uma organicidade na nossa literatura. Ideia de progressão evolutiva autêntica brasileira.


"Telos": racionalidade no fim. Após 1822, voltamos ao XVI e professor defende que já éramos brasileiros.


A literatura = projeto canônico. Destaca onde, nos 4 séculos, apareceu o nosso Ethos.

Anchieta/Nobrega > Gregório > Durão > Alencar > Machado > M. Andrade > A. Candido... = A Literatura Brasileira > documentar a realidade brasileira


Antonio Candido segue linha de Mário de Andrade, diz o prof. Hansen, quando fez Formação da Literatura Brasileira.



Atualmente, a globalização acaba com a ideia de nação. Hoje, seria difícil pensar esse projeto romântico de construção nacionalista.



Uma possível conclusão:

LITERATURA = IDEOLOGIA DE CLASSE (sempre foi usada assim).


Só lendo Machado de Assis...




Quando leio os bons jornalistas de nosso país como Renato Rovai, Paulo Henrique Amorim, Mino Carta e mais alguns, fico ao mesmo tempo informado de fato e... como diria... abestalhado e perplexo pela compreensão do lugar em que vivo.

É tanta podridão e nojo por trás do verniz e capa grã-fina das coisas que nos cercam, e para piorar, é tanta subserviência até daqueles que esperávamos mais "culhão" para fazerem o enfrentamento com o status quo, que só lendo nosso mestre maior Machado de Assis para suportar o modo como a nossa sociedade está organizada.

A diferença entre o mestre da literatura e grandes jornalistas está na linguagem literária do Mestre do Cosme Velho e na metalinguagem dos nossos bons jornalistas progressistas. Ambos têm a capacidade de descrever, narrar, criticar ou abrir feridas, mas Machado traz uma sutileza ímpar nas ironias rabugentas. Frases curtas e certeiras. Agudas. Inteligentes.

Bom, sigo em meu objetivo de ler, reler e conhecer toda a obra machadiana. Já li quase todos os seus romances - os da chamada primeira fase, até 1880, e agora estou lendo Esaú e Jacó, o penúltimo antes de Memorial de Aires.

Confesso que quanto mais descubro alguma coisa a respeito da forma de fazer-literário do mestre Machado, mais quero reler o que já conheço para captar tudo o que perdi antes. É, no mínimo, instigante.


SUTILEZAS MACHADIANAS:

"... Eis aí vinha a realidade do sonho de dez anos (Natividade estava grávida dos gêmeos), uma criatura tirada da coxa de Abraão, como diziam aqueles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta generosamente o seu dinheiro às companhias e às nações. Levam juro por ele; mas os hebraísmos são dados de graça..."

In: Esaú e Jacó, capítulo VI, Maternidade

"... Santos falava em fazer um deles (filhos) banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias."

In: Esaú e Jacó, capítulo VIII, Nem casal, nem general


Post Scriptum (5/08/15):

A última citação, sobre os banqueiros, tem sentido dúbio, para quem não conhece o contexto. Tanto pode parecer que o sentido semântico é que o personagem Santos quer que os filhos sejam banqueiros para terem suas horas vadias, quanto que o casal, em sua morada, em horas vadias, pensava o futuro profissional dos filhos que viriam adiante.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Instinto de nacionalidade - Machado de Assis




Leitura de textos

Machado avalia de forma positiva o esforço feito pelos autores nacionais para dar um colorido próprio à literatura nacional.

Elogia precursores como Basílio da Gama e Santa Rita Durão e critica Gonzaga que não soube desligar-se das faixas da arcádia nem dos preceitos do tempo.

Acha injusto, todavia, criticar os poetas coloniais, pois crê não ter sido possível para eles lutarem por independência literária se nem a política tínhamos.

Quando elogia Basílio da Gama e Durão, é por darem uma cor local às obras e não independência.

Assim como pensa que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indígena e que nem dele recebeu influxo algum, também não acha correto excluí-los da poesia contemporânea (da época) como pensava Varnhagen.

Era 1873, e Machado afirma ainda não existir Literatura Brasileira.

Achava um exagero buscar os títulos da nossa personalidade literária entre as tribos vencidas. Ex: “Timbiras”, “Juca-Pirama” e “Tabira” (Gonçalves Dias).

Uma opinião importante de Machado e que marcaria toda a sua obra é de que a literatura para ser nacional não tem, necessariamente, que falar de assunto local, pois isso limita a literatura:

... não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam”.

O autor comenta com pesar que sente muito não ter bons críticos no país.


Romance

O romance e a poesia lírica são as formas mais encontradas, cultivadas e vendidas no Brasil. Diz não termos aqui livros de filosofia, linguística (isso em 1873), de crítica histórica, de alta política etc.

Os costumes do interior são o que melhor dão o colorido da nação. (na capital do país havia grande influência europeia)

O espetáculo da natureza dá páginas animadas e pitorescas, mas pensa que os escritores exageram na descrição e pecam em outras qualidades essenciais.

Também pensa faltar ainda competência aos escritores para tratar de análise de paixões e caracteres.

Com relação às tendências morais do romance brasileiro, acha que são boas. (critica a escola francesa)

Com respeito às tendências políticas e sociais, os escritores brasileiros passam longe do ideal: “... seus principais elementos são, como disse, a pintura dos costumes, luta das paixões, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres; com esses elementos, que são fecundíssimos, possuímos já uma galeria numerosa e a muitos respeitos notável.”.

Nos contos, elogia o Sr. Luís Guimarães Junior – folhetinista elegante e jovial.


A poesia

Elogia Castro Alves, considerando-o eterno e um incentivo às vocações nascentes.

À poesia já não faltavam fogo nem estro. Também não faltava sentimento de harmonia exterior.

Mas pecava na correção e no gosto. Faltava ser intrépida na expressão, pecava pela impropriedade das imagens, na obscuridade do pensamento.

Para construir painéis de cenas majestosas da natureza americana, há de serem expressos com simplicidade.

Cita Bernardo Guimarães, Varela e Álvares de Azevedo:

Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais”. É preciso toques naturais.


O teatro

Não há!


A língua

Machado não gosta do uso dos solecismos da língua comum, mas acha pior a “exageração de princípio” no uso da influência da língua francesa.

Aceita mudanças no tempo a que a língua está sujeita mas acha que “a influência popular tem um limite”.

Cada tempo tem o seu estilo”.

Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum”.


Veja AQUI a sequência do texto na postagem: Ainda o instinto de nacionalidade.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Crônica - Primeiro dia como ajudante de encanador



Introdução

Lendo “Angústia” de Graciliano Ramos (1936)...

Estou no capítulo 33 (ou fragmento, pois a numeração é minha). O personagem, Luís da Silva, está em transe refletindo sobre o passado. De suas reflexões, tiro algumas frases acerca de Julião Tavares - personagem safado que lhe tira a noiva, a vida etc.

...costume que os cangaceiros têm de marcar os inimigos com ferro quente”.

Pensando em matar Julião: “que é que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria pior que a que eu tinha”.

Mais à frente: “lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia... preciso muita água e muito sabão. Viver por detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, é terrível. Mas a vida que levo talvez seja pior”.

um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos”.


TÃO EMBOTADOS VIVEMOS

Tão embotados vivemos” é uma boa frase. Foi escrita por Graciliano Ramos há quase setenta anos. E acho que já vivíamos embotados há muito tempo. Pegávamos homens negros quinhentos anos atrás e tínhamos a eles como animais, macacos. Mas... lendo livros duros, secos, como esses de Graciliano, pego-me lembrando instantes, tempos remotos de minha vida.


Primeiro dia como ajudante de encanador

Naquele dia em que estava quebrando aquele esgoto, com ponteiro, talhadeira e marreta, sentia um milhão de sentimentos. Sentimentos duros, secos. Um dos mais fáceis de definir era o de ódio, raiva. Raiva de tudo, da vida. Era ajudante do seu Joaquim, encanador. Ele até que era um velho simpático, teve paciência comigo. Aquele moleque de uns quinze anos, de mãozinha fina, não tinha cara de quem aguentava cortar concreto. Me lembro do primeiro dia...

Levantei-me cedo, peguei a bicicleta e fui para o trabalho. Era uma casa em construção. Era muito grande. Chegando lá, fiz de conta que era durão. Seu Joaquim me deu as ferramentas e entramos na obra. A peãozada me olhava com olhos que me intimidavam. Acho que viam e achavam que eu não tinha jeito pra aquilo. Seu Joaquim me mostrou o banheiro e me disse que deveria quebrar ali do canto, onde ficaria o vaso, até o outro lado. Dava mais ou menos um metro e meio de corte no concreto. Me olhou meio duvidoso e disse que precisava sair para ir em outra obra. Lá estava eu, só, naquele banheiro em construção, com talhadeira, ponteiro e marreta para trabalhar. Nunca pensei (pensaria) que quebrar concreto fosse tão difícil. O concreto era muito forte, pois era o segundo piso e este tinha que ser reforçado.

Nas primeiras marretadas que dei, tudo que saía do chão era faísca. Após alguns minutos, comecei a sentir um calor percorrer meu corpo. Era o calor da vergonha, da humilhação. Se alguém entrasse e visse aquele chão intacto e aquele pivete suando, eu não teria onde enfiar a cabeça. Comecei a bater com força, com sede de orgulho. Não queria e não podia desistir. Comecei a errar o ponteiro e a marretar minha mão, meus dedos. Aquilo doía pra burro. Comecei a tirar algumas lascas do chão. Até me animei. -Ah! Mas esse nosso corpo adaptado à vida cotidiana! Essas mãos de pele fina que não conhecem o peso de movimento repetitivo! Estavam já a bulir comigo.

Uma hora depois, já havia conseguido fazer um pequeno buraco no concreto. Faltava agora só alargá-lo (para caber um cano de esgoto) e levá-lo um metro e meio adiante. Minha mão esquerda estava muito doída, pois já havia levado muita porrada. Mas a direita... a direita é que era o problema. Eu tinha bolhas grandes. Grandes e cheias de líquido. Era uma na parte interna do dedão; duas no indicador – uma em cada dobra; duas na palma da mão – no início do indicador e do maior de todos. Estava doendo muito pra segurar a marreta. Juro que não me lembro se chorei ali. Até porque algum peão-de-obra poderia me ver ou o velho poderia retornar. Chorar não dava. Só por dentro. Já vinha sendo assim desde que cheguei em Minas Gerais – menino branquelo, raquítico e que era mal-acostumado a só brincar e ir para a escola.

Nós mudamos nossa vida e nos mudamos ao toque daquilo que temos que enfrentar. Nunca deixei de ser aquele garoto, aquele adolescente que viveu momentos de ânsia de força para não dar o braço a torcer. E que cada vez que superava a dor e o choro, voltava diferente para casa, para o mundo, para a vida.

Aquela manhã de meu primeiro dia de ajudante de encanador me ajudou a ser o que sou. É assim nas passagens da vida de todos. Depois daquela experiência, tive tantas outras...

A superação da dor, me parece que ocorre por dois motivos: por amor ou por ódio. Quanto mais doía, mais fui pegando a marreta e mais fui endurecendo. Força e dor. Vergonha e dor. Quase gritava. Consegui bater com muita força e comecei a furar, vencer aquele concreto. Não deixei de acertar a mão esquerda de quando em quando. É que, às vezes, vacilava. Voltava a ser aquele que entrou às oito da manhã para trabalhar.

Hora do almoço. Hora do rango, do bagerê.

Quando cheguei a minha casa, minha mãe (mãe é mãe) começou a chorar. Desabei – chorei também. Acho que doía olhar para minhas mãos. E pareciam enormes. Estavam inchadas. Choramos. Dores. Dor de mãe. Dor de filho... Meu pai chorou. Se sentiu um fracassado. Não era isso que ele queria dar aos filhos. Dores...
Almoçamos.

Minha mãe pediu para que eu não voltasse. Choramos.

Eu tinha uma decisão a tomar. Orgulho. Dor. Precisão. O cara que saiu não era o cara que voltou. Para que teria valido tudo o que já tinha feito se não voltasse? (ora, trabalhei meio período!). Nossa situação estava feia. Precisávamos de dinheiro. Adolescente não consegue emprego fácil. Interior... pior.

Choramos.

Voltei do almoço.

Foi um dos dias mais... doloridos de minha vida.

Voltei no dia seguinte.

Trabalhei a semana toda. Recebi um vale.


Trabalhei muitos meses com seu Joaquim. Às vezes, tinha moleza. Era o dia em que ele me pedia para lavar o seu carro, um corcel.

O esgoto que comecei quebrando neste texto, não foi o da construção. Foi um esgoto com muitos anos de uso. Foram meses de trabalho duro. Muito fedor. Muito. Não posso dizer que estive na merda. Eu mexia, às vezes, com ela. Mas era o meu trabalho.

Trabalhei.

Endureci.

Interessante que hoje, tantos trabalhos desse depois, parece que estou amolecendo. Deve ser a experiência do tempo. É uma sensação tão estranha! Mas a maneira como vejo a vida, a morte, a miséria, é muito particular.

Houve tempos em que me perguntava, assim como Luís da Silva, “que é que me podia acontecer?

Maneiras de viver.

Maneiras de ver o mundo.

Modos de crescer, de sobreviver.

É isso.


Wmofox, 20.11.2002


Post Scriptum: 

Interessante o que diz o crítico espanhol José Bergamin em sua teoria do romance: “o leitor perde-se no romance para esquecer o seu mundo, mas reencontra-se lá, reconhecendo que o seu próprio mundo está chamado a desaparecer: perder-se para encontrar-se, para perder-se”.

domingo, 13 de abril de 2008

Santiago de Compostela


Sem uma concha indicando o caminho,
mas os caminhos têm sua dose de natureza.


Pois é, desde que iniciei meu longo caminho até Santiago de Compostela, já tenho refletido e refletido sobre essa minha existência torta e cheia de encruzilhadas.

Pra começar, dias atrás, tomei consciência que não serei professor de português quando terminar - se terminar - minha faculdade de Letras: é evidente que não levo jeito para a Gramática.

Andei pensando que devo aceitar minha natureza e alguns de meus limites. Não gosto e não tenho interesse em informática - odeio computador e coisas eletrônicas. Assim como sei que Gramática não é minha praia. Fazer o quê? A vida segue.

Resumindo: 

- Nem "gramatiquez", nem "informatiquez" comigo, falou?

POR OUTRO LADO, este negócio de saber e aceitar os limites é relativo: a questão dos limites individuais é uma questão de momento. Um limite é um limite até você estabelecer um novo limite. Certo? (esta ideia é importante para que não se fique sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar... como já dizia Rauzito)

Então, ontem fui a uma palestra sobre o Caminho de Santiago. Recebi muitas informações interessantes e instigantes. Porém, confesso que ainda não sei ao menos se irei em 2008 ou 2009; se irei em agosto ou em abril; se se se...

É mole? É o Caminho e suas bifurcações sem o símbolo da concha para direcionar este caminhante...

William


Post Scriptum (19/4/19):

Interessante a releitura deste registro momentâneo de minha vida onze anos depois.

Não fiz o Caminho de Santiago. Fiz na USP em 2010 as últimas matérias que completariam minha grade de matérias das graduações em Português-Espanhol. Quando fui pedir colação de grau em 2014, descobri que faltou uma matéria (2 créditos) e não poderia colar grau em Português, só em Espanhol. Não aceitei. 

Agora em 2019, após anos morando fora de São Paulo a trabalho (em Brasília DF), voltei para a FFLCH para completar a grade atual de créditos nas duas línguas. Virei estudante de novo aos 50 anos. E os 2 créditos se transformaram em mais de 30 para colar grau nas duas graduações. Tenho dois anos de prazo para cumprir essa nova meta estudantil (prazo definido pela Comissão de Graduação que me aceitou de volta).

Aliás, é tão estranha essa vida, que agora que saí do Banco do Brasil, não posso tirar passagens e ir para o Caminho de Santiago de Compostela porque estou matriculado na USP com nova chance de completar a graduação, e não posso faltar... engraçado, né? Se quiser fazer esta caminhada, provavelmente só daqui a dois anos ou em algum mês de julho, período que é extremamente cheio de gente no caminho.

O caminho para fazer o Caminho tem sido longo para mim, bem longo.

sábado, 12 de abril de 2008

Meu caminho iniciado e sem definição de datas



Luar num certo dia em Osasco.

Neste sábado, vou à palestra mensal sobre o Caminho de Santiago, lá na Associação.

Depois de algumas definições, e indefinições também, sei que não tenho uma data definida para viajar. 


Aliás, depois de umas definições profissionais, não sei se irei para a Espanha em agosto, ou se irei em abril ou maio de 2009.

- No lo sé! La verdad es que no lo sé. 
¿Cuándo me voy a viajar?

sexta-feira, 11 de abril de 2008

La Invención del Quijote - Francisco Ayala


Dom Quixote e Sancho Pança,
ilustração de Gustave Doré.


Li hoje o estudo de Francisco Ayala sobre a invenção do 'Quixote'. É muito esclarecedor e nos situa no contexto histórico.

O texto nos fala um pouco sobre utilizar mitos em produções literárias como, por exemplo, o mito de Dom Juan, Fausto, os heróis de Homero etc e, neste caso de Cervantes, na criação do próprio mito.

Uma das reflexões que mais gostei é sobre a recepção da obra por parte do público em relação ao próprio contexto histórico. Ler Dom Quixote de La Mancha atualmente não é o mesmo que lê-lo quatro séculos atrás. Aliás, é sobre isso que nos alerta Ayala: ocorre na leitura atual o inverso do que ocorria naquela época.

Em 1605, os nossos protagonistas eram o que havia de novo e estranho para os leitores, enquanto os personagens secundários e o pano de fundo eram o cotidiano normal. Hoje, a história apresenta os protagonistas como seres conhecidos e ao menos já identificados, justamente os estranhos personagens Dom Quixote e Sancho Pança. Ao passo que todo o pano de fundo da história nos é totalmente estranho e, muitas vezes, inimaginável.


"Con esto llegó a invertirse la perspectiva del lector: aquello que para el de 1605 era extraño y estrambótico -a saber, don Quijote mismo, con su complemento, Sancho-, le resulta familiar al de hoy; lo que para éste es ya ajeno -el mundo cervantesco-, era para aquél inmediato y cotidiano."


Outra discussão muito interessante é sobre a história de que Cervantes seria um "gênio leigo", alguém que não tivesse consciência da obra que estava fazendo (um dos importantes críticos literários dessa tese é Miguel de Unamuno). Ayala nos diz que isso é outra teoria que não se sustenta.


"...pero es indudable que él tenía plena consciencia del sentido de su obra; consciencia profunda y entrañada, ya que ese sentido, siendo el de la situación cultural de conjunto, el de la conexión histórica, era también el de su propia vida individual."


Finalizando, há uma separação bem clara em relação a receptividade do primeiro volume em 1605 e o segundo em 1615. Aquele traz o espanto e a inovação e cria um mito, já este circula em meio a um público que conhece os personagens e está familiarizado com eles.

Dom Quixote é uma das obras mais conhecidas no mundo e uma das menos lidas. Isso é um pecado.

- Leiam a obra ao invés de ficarem somente ouvindo falar sobre ela.


Fonte bibliográfica do texto de Ayala:

CERVANTES, Miguel de. 
Don Quijote de La Mancha. Edición del IV Centenario, Editora Alfaguara, 2004.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

La Isla - Ricardo Piglia (leituras, reflexões)





(os sublinhados e as observações no texto são do blog)

1

Añoramos* un lenguaje más primitivo que el nuestro. Los antepasados hablan de una época donde las palabras se extendían con la serenidad de la llanura. Era posible seguir el rumbo y vagar durante horas sin perder el sentido porque el lenguaje no se bifurcaba y se expandía y se ramificaba hasta convertirse en este río donde están todos los cauces y donde nadie puede vivir porque nadie tiene patria. El insomnio es la gran enfermedad de la nación. El rumor de las voces es continuo y sus cambios suenan noche y día. Parece una turbina que marcha con el alma de los muertos dice el viejo Berenson. No hay lamentos, sólo mutaciones interminables y significaciones perdidas. Virajes microscópicos en el corazón de las palabras. La memoria está vacía porque uno olvida siempre la lengua en la que ha fijado los recuerdos.

(*Añorar: ter/sentir saudades, sentir falta)

2

Cuando decimos que el lenguaje es inestable no estamos hablando de una conciencia de esa modificación. Es necesario salir de allá para percibir el cambio. Si uno está adentro cree que el lenguaje es siempre el mismo, una especie de organismo vivo que sufre metamorfosis periódicas. La imagen más divulgada es la de un pájaro blanco que en el vuelo va cambiando de color. El aletear profundo del pájaro en la transparencia del aire da una falsa ilusión de unidad en el pasaje de los tonos. El dicho dice que el pájaro vuela interminablemente y en círculos porque le han vaciado el ojo izquierdo y busca ver la otra mitad del mundo. Por eso nunca va a poder aterrizar, dice el viejo Berenson y se ríe con la jarra de cerveza otra vez contra los bigotes, porque no encuentra un pedazo de tierra donde apoyar la pata derecha. Tuerto habría de ser el tero dijo después, para perderse en el aire y venir a parar a esta isla de mierda. No empieces, Shem, le dice Teynneson tratando de hacerse oír en el barullo del bar, entre los acordes del piano y las voces de los que cantan Three quarks for Muster Mark!, todavía tenemos que ir al entierro de Pat Duncan y no quiero tener que llevarte en carretilla. Ese es el sentido del diálogo, que se repite como un chiste privado cada vez que están por irse, pero no siempre usan el mismo lenguaje. Se sostienen del brazo y cruzan muy erguidos el salón para salir. La escena se repite, pero sin saberlo hablan del pájaro tuerto y del entierro de Pat a veces en ruso, a veces en un francés del siglo XVIII. Dicen lo que quieren y lo vuelven a decir pero ni sueñan que a lo largo de los años han usado cerca de siete lenguas para reírse del mismo chiste. Así son las cosas en la isla.
3

“El lenguaje se transforma según ciclos discontinuos que reproducen la mayoría de los idiomas conocidos (registra Turnbull). Los habitantes hablan y comprenden instantáneamente la nueva lengua pero olvidan la anterior. Los idiomas que se han podido identificar son el inglés, el alemán, el danés, el español, el noruego, el italiano, el francés, el griego, el sánscrito, el gaélico, el latín, el sajón, el ruso, el flamenco, el polaco, el esloveno, el húngaro. Dos de las lenguas usadas son desconocidas. Pasan de una a otra pero no las pueden concebir como idiomas distintos sino como etapas sucesivas de una lengua única.” Los ritmos son variables, a veces un idioma permanece semanas, a veces un día. Se recuerda el caso de una lengua que se mantuvo quieta durante dos años. Después se sucedieron quince modificaciones en doce días. Habíamos olvidado las letras de todas las canciones, dijo Berenson, pero no la melodía y no hubo modo de cantar una canción. Se veía a la gente en los pubs silbando a coro como guardias escoceses, todos borrachos y alegres, marcando el ritmo con las jarras de cerveza mientras buscaban en la memoria alguna letra que coincidiera con la música. La melodía persiste y es un aire que cruza la isla desde el principio de los tiempos pero de qué nos sirve la música si no podemos cantar, un sábado a la noche, en el bar de Humphery Chimden Earwicker cuando todos estamos borrachos y ya nos olvidamos de que el lunes hay que volver al trabajo.

4

En la isla se cree que los ancianos se encarnan al morir en los nietos, razón por la que no pueden encontrarse los dos vivos al mismo tiempo. Como ocurre a pesar de todo algunas veces, cuando un anciano se encuentra con su nieto, antes de poder hablar con él, debe darle una moneda. En esa teoría de las reencarnaciones se ha fundado la lingüística histórica. La lengua es como es porque acumula los residuos del pasado en cada generación y renueva el recuerdo de todas las lenguas muertas y de todas las lenguas perdidas y el que recibe esa herencia ya no puede olvidar el sentido que esas palabras tuvieron en los días de los antepasados. La explicación es simple pero no resuelve los problemas que plantea la realidad.

5

El carácter inestable del lenguaje define la vida en la isla. Nunca se sabe con qué palabras serán nombrados en el futuro los estados presentes. A veces llegan cartas escritas con signos que ya no se comprenden. A veces un hombre y una mujer son amantes apasionados en una lengua y en otra son hostiles y casi desconocidos. Grandes poetas dejan de serlo y se convierten en nada y en vida ven surgir otros clásicos (que también son olvidados). Todas las obras maestras duran lo que dura la lengua en la que fueron escritas. Sólo el silencio persiste, claro como el agua, siempre igual a sí mismo.

6

La vida del día empieza al amanecer y si ha habido luna hasta el alba los gritos de los jóvenes en la ladera pueden oírse ya antes de la aurora. Inquietos en la noche poblada de espíritus, se gritan unos a otros tratando de adivinar qué sucederá con el sol alto. La tradición dice que el lenguaje se modifica en las noches de luna llena pero ésa es una creencia desmentida por los hechos. La lingüística científica no acepta ninguna relación entre los fenómenos naturales como las mareas o los vientos y las mutaciones del lenguaje. Los hombres del pueblo siguen sin embargo acatando los viejos rituales y cada noche de luna esperan que llegue por fin la lengua de su madre.

7

En la isla no conocen la imagen de lo que está afuera y la categoría de extranjero no es estable. Piensan a la patria según la lengua. (“La nación es un concepto lingüístico.”) Los individuos pertenecen a la lengua que todos hablaban en el momento de nacer, pero ninguno sabe cuándo volverá a estar ahí. “Así surge en el mundo (le han dicho a Boas) algo que a todos se nos aparece en la infancia y donde todavía no ha estado nadie: la patria.” Definen el espacio en relación con el río Liffey que atraviesa la isla de norte a sur. Pero Liffey es también el nombre que designa al lenguaje y en el río Liffey están todos los ríos del mundo. El concepto de frontera es temporal y sus límites se conjugan como los tiempos de un verbo.

8

Nos encontramos en Edemberry Dubblenn DC, dijo el guía, la capital que combina tres ciudades. En el presente la ciudad cruza de Este a Oeste siguiendo la margen izquierda del Liffey por los barrios y los ghettos japoneses y antillanos, desde el nacimiento del río en Wiclow hasta Island Bridge, un poco más abajo de Chapelizod, donde sigue su curso. La ciudad próxima se va abriendo, como si estuviera construida en potencial, siempre futura, con calles de fierro y lámparas de luz solar y androides desactivados en los galpones de la Scotland Yard. Los edificios surgen de la niebla, sin forma fija, nítidos, cambiantes, casi exclusivamente poblados por mujeres y mutantes.

Del otro lado, hacia el Oeste, subiendo por la zona del puerto, está la ciudad vieja. Al mirar el mapa hay que tener en cuenta que la escala está construida a la velocidad media de un kilómetro y medio por hora de marcha. Un hombre sale de 7 Eccles Street a las ocho de la mañana y sube por Westland Row y a cada lado del empedrado están las acequias que llegan hasta la orilla del río por donde sube el canto de las lavanderas. El que avanza por la calle empinada hacia la taberna de Baerney Kiernam trata de no oír el canto y golpea con el bastón el enrejado de los sótanos. Cada vez que entra en una calle nueva las voces envejecen, las palabras antiguas están como grabadas en las paredes de los edificios en ruinas. La mutación ha ganado las formas exteriores de la realidad. “Lo que todavía no es define la arquitectura del mundo”, piensa el hombre y desciende a la playa que rodea la bahía. “Está ahí, en el borde del lenguaje, como la casa de la infancia en la memoria.

9

La lingüística es la ciencia más desarrollada en la isla. Durante generaciones los investigadores han trabajado en el proyecto de fijar un diccionario que incorpore las variantes futuras de las palabras conocidas. Necesitan fijar un léxico bilingüe que permita comparar una lengua con otra. Imagínense (dice el informe de Boas) a un viajero inglés que llega a un país extranjero y en el hall de la estación de ferrocarril, perdido en medio de una multitud desconocida, se detiene a revisar un pequeño diccionario de bolsillo buscando una expresión correcta. Pero la traducción es imposible porque sólo el uso define el sentido y en la isla conocen siempre una lengua por vez. Los que persisten en la elaboración del diccionario lo consideran ya un manual de adivinación. Un nuevo Libro de las Mutaciones concebido, explicó Boas, como un diccionario etimológico que hace la historia del porvenir del lenguaje.

Hubo un solo caso en la historia de la isla de un hombre que conoció dos idiomas al mismo tiempo. Se llamaba Bob Mulligan y decía que soñaba con palabras incomprensibles que tenían para él un sentido transparente. Hablaba como un místico y escribía frases desconocidas y decía que ésas eran las palabras del porvenir. En los Archivos de la Academia han quedado algunos fragmentos de los textos que escribió e incluso se puede oír la grabación de la voz aguda y lunática de Mulligan que cuenta un relato que empieza así: “Oh New York city, sí, sí, la ciudad de Nueva York, la familia entera se fue para allá. El barco se había llenado de piojos y hubo que quemar las sábanas y bañar a los chicos con agua mezclada con acaroína. Cada bebé tenía que estar separado de los otros porque el olor los hacía llorar si estaban cerca. Las mujeres usaban un pañuelo de seda en la cara igual que damas beduinas, aunque todas tenían el pelo colorado. El abuelo del abuelo fue police-man en Brooklyn y una vez mató de un tiro a un rengo que estaba por degollar a la cajera de un supermarket.” Nadie sabía lo que estaba diciendo y Mulligan escribió ese relato y otros relatos en esa lengua nueva y después un día dijo que la había dejado de oír. Venía al bar y se sentaba en esa punta del mostrador a tomar cerveza, sordo como una tapia, y se emborrachaba despacio, con la cara avergonzada de un hombre arrepentido de haberse hecho notar. Nunca más quiso hablar de lo que había dicho y vivió siempre un poco apartado hasta que murió de cáncer a los cincuenta años. Pobre Bob Mulligan, dijo Berenson, de joven era un tipo expansivo y muy popular y se casó con la Belle Blue Boylan y al año la mujer se murió ahogada en el río y su cuerpo desnudo apareció en la ribera del este del Liffey, en la otra orilla. Mulligan nunca se repuso, ni volvió a casarse y vivió solo toda la vida. Trabajaba de linotipista en la imprenta del Congreso y venía con nosotros al bar y le gustaba apostar a los caballos hasta que una tarde empezó a contar esas historias que nadie entendía. Yo creo, dijo el viejo Berenson, que la Belle Blue Boylan fue la mujer más hermosa de Dublin.

Todos los intentos de construir una lengua artificial se han visto perturbados por una experiencia temporal de la estructura. No han podido construir un lenguaje exterior al lenguaje de la isla porque no pueden imaginar un sistema de signos que persista sin mutaciones. Si a + b es igual a c, esa certidumbre sólo sirve un tiempo porque en un espacio irregular de dos segundos ya a es -a y la ecuación es otra. La evidencia vale lo que tarda una proposición en ser formulada. En la isla ser rápido es una categoría de la verdad. En esas condiciones los lingüistas del Area-Beta del Trinity College alcanzaron lo que parece imposible: casi fijan en un paradigma lógico la forma incierta de la realidad. Definieron un sistema de signos cuya notación se transforma con el tiempo. Hemos logrado establecer un campo unificado, le han dicho a Boas, ahora sólo nos falta que la realidad incorpore al lenguaje alguna de nuestras hipótesis. Hasta el momento saben que han transcurrido diez y siete ciclos, pero suponen que existe una potencialidad casi infinita, calculada en ochocientos tres (porque ochocientas tres son las lenguas conocidas en el mundo). Si en casi cien años, desde que en 1939 empezó el registro de los cambios, se han detectado diez y siete formas distintas, los más optimistas imaginan que el círculo puede completarse en otros cien años. Ningún cálculo es seguro, porque la duración irregular de los ciclos forma parte de la estructura de la lengua. Existen tiempos lentos y tiempos rápidos, como el cauce* del Liffey. Los más afortunados, dice el proverbio, navegan en aguas tranquilas, los mejores viven en tiempos veloces, donde el sentido dura lo que dura la cólera de un gallo. Los jóvenes más radicalizados del grupo Trickster del Area-Beta del Trinity College se ríen de esos proverbios idiotas. Piensan que, mientras el lenguaje no encuentre su borde final, el mundo será sólo un conjunto de ruinas y que la verdad es como los peces que boquean en el barro hasta morir cuando el caudal del Liffey baja con la sequía del verano, hasta transformarse en un riacho de aguas oscuras.

(*el cauce: o leito)

10

He dicho que la tradición dice que los antepasados hablan de un tiempo en el que la lengua era un llano por el que se podía andar sin sorpresa. Las generaciones, afirman los antiguos, heredaban los mismos nombres para las mismas cosas y podían legarse documentos escritos con la certeza de que todo lo que escribían sería legible en los tiempos futuros. Algunos repiten (sin comprenderlo) un fragmento de aquella lengua original que ha sobrevivido a lo largo de los años. Boas dice que los escuchó recitar ese texto como si fuera un chiste de borrachos, de modo que la vocalización era pastosa y las palabras estaban cortadas por risas y expresiones que nadie sabía ya si formaban o no parte del antiguo sentido. El fragmento llamado Sobre la serpiente, dice Boas que era así: “Empezó la época de los grandes vientos. Ella siente que le arrancan el cerebro y dice que su cuerpo está hecho de tubos y conexiones eléctricas. Habla sin parar y a veces canta y dice que me lee el pensamiento y sólo pide que yo esté cerca y que no la abandone en la arena. Dice que es Eva y que la serpiente es Eva y que nadie en los siglos de los siglos se ha atrevido a decir esa verdad tan pura y que sólo María Magdalena se lo dijo al Cristo antes de lavarle los pies. Eva es la serpiente, la mutación interminable, y Adán está solo, siempre ha estado solo. Dice que Dios es la mujer y que Eva es la serpiente. Que el árbol del bien y del mal es el árbol del lenguaje. Recién cuando se comen la manzana empiezan a hablar. Eso dice ella cuando no canta”. Para muchos es un texto religioso, un fragmento del génesis. Para otros se trata sencillamente de un rezo que persistió en la memoria a la permutación de las lenguas y que fue recordado como un juego adivinatorio. (Los historiadores afirman que se trata de un párrafo de la carta que Nolan dejó antes de matarse.)

11

Algunas sectas genealógicas aseguran que los primeros habitantes de la isla son desterrados, que fueron enviados hacia aquí remontando el río. La tradición habla de doscientas familias confinadas en un campo multirracial en los arrabales de Dalkey, al Norte de Dublin, detenidos en una redada en los barrios y los suburbios anarquistas de Trieste, Tokyo, México DF y Petrogrado.

Embarcados en el Rosevean, un tres palos, con hélice Pohl-A, en la bahía del norte, fueron enviados por el río hacia atrás en el tiempo, según Teynneson, bajo las ráfagas heladas del viento de enero.

El experimento de confinar exiliados en la isla ya había sido utilizado otras veces para enfrentar rebeliones políticas, pero siempre se usó con individuos aislados, en especial para reprimir a los líderes. El caso más recordado fue el de Nolan, un militante del grupo de resistencia gaélico-celta que se infiltró en el gabinete de la reina y llegó a ser el hombre de confianza de Möller en el comando de planificación propagandística. Lo descubrieron porque usaba los informes meteorológicos para cifrar mensajes destinados a los pobladores de los ghettos irlandeses de Oslo y de Copenhague. La historia cuenta que Nolan fue descubierto por azar, cuando un investigador del MIT de Boston procesó en una computadora los mensajes emitidos durante un año por la oficina meteorológica, con la intención de estudiar las modificaciones infinitesimales del clima en el Este de Europa. Nolan fue desterrado y llegó a la isla después de navegar cerca de seis días a la deriva y vivió absolutamente solo casi cinco años, hasta que se suicidó. Su odisea es una de las grandes leyendas en la historia de la isla. Sólo un hijo de puta empecinado irlandés pudo sobrevivir todo ese tiempo aislado como una rata en esta inmensidad y cantando contra las olas, Three quarks for Muster mark, a los gritos, en la playa, buscando siempre la huella de una pata humana en la arena, dijo el viejo Berenson. Sólo alguien como Jim pudo fabricarse una mujer con la que hablar en esos años interminables de soledad.

El mito dice que con los restos del naufragio construyó un grabador de doble entrada, con el que era posible improvisar conversaciones usando el sistema de los juegos lingüisticos de Wittgenstein. Sus propias palabras eran almacenadas por las cintas y reelaboradas como respuestas a preguntas puntuales. Lo programó para hablar con una mujer y le habló en todas las lenguas que sabía y al final era posible pensar que la mujer había llegado a amar a Nolan. (Por su parte él la quiso desde el primer día porque pensaba que ella era la mujer de su amigo Italo Svevo, Livia Anna, la más bella de las madonas de Trieste, con ese hermosísimo pelo colorado que hacía pensar en todos los ríos del mundo.)

A los tres años de estar solo en la isla, las conversaciones se repetían cíclicamente y Nolan se aburría y la grabadora empezó a mezclar las palabras (“Heremon, nolens, nolens, brood our pensies, brume in brume”, le decía por ejemplo) y Nolan le preguntaba “¿Cómo?” “¿Qué?” y en esa época empezó a llamarla Anna Livia Plurabelle. Al final del sexto año de exilio, Nolan perdió las esperanzas de ser rescatado y empezó a no dormir y a tener alucinaciones y a soñar que se pasaba la noche en vela escuchando el susurro inalámbrico y la dulce voz de Anna Livia.

Tenía un gato y cuando el gato se metió una tarde en el monte y no volvió más, Nolan escribió una carta de despedida, apoyó el codo derecho en la mesa para que no le temblara el pulso, y se pegó un tiro en la cabeza. Los primeros que desembarcaron del Rosevean se encontraron con la voz de la mujer que seguía hablando en el grabador bifocal. Apenas si mezclaba las lenguas, según Boas, y era posible comprender perfectamente la desesperación que le había producido el suicidio de Nolan. Estaba sobre una piedra, frente a la bahía, hecha de alambres y de cintas rojas y se lamentaba con un suave murmullo metálico.

He tejido y destejido la trama del tiempo, decía, pero él se ha ido y ya no va a volver. Un cuerpo es un cuerpo, sólo las voces sirven para amar. Desde hace años estoy sola aquí, en la ribera de todos los ríos y espero que llegue la noche. Siempre es de día, en esta latitud todo es tan lento, nunca llega la noche, siempre es de día, el atardecer tarda tanto, estoy ciega, al sol, quiero arrancar “la venda de hierro” que me ciñe la frente, quiero traer aquí “la oscuridad concentrada del África”. La vida está siempre amenazada por los cazadores (ha dicho Nolan), instintivamente hay que fabricar, como las abejas sus alvéolos, un sentido. Incapaz de considerar mi propio enigma, digo: no es su propio yo el que cuenta, sino su Musa, su canto universal.

12

Si la leyenda es cierta la isla ha sido un gran asentamiento de exiliados en la época de la represión política que siguió a la contraofensiva del IRA y a la caída del Pulp-KO. Pero ninguno de los historiadores tiene el menor vestigio de ese pasado o del tiempo en que Anna Livia estuvo sola en la ribera o de la época en que llegaron las doscientas familias y no se encuentra ningún rastro que atestigüe los hechos. La única fuente escrita en la isla es el Finnegans Wake al que todos consideran un libro sagrado porque siempre pueden leerlo sea cual sea el estado de la lengua en que se encuentren.

En realidad el único libro que dura en esta lengua es el Finnegans, dijo Boas, porque está escrito en todos los idiomas. Reproduce las permutaciones del lenguaje en escala microscópica. Parece un modelo en miniatura del mundo. A lo largo del tiempo lo han leído como un texto mágico que encierra las claves del universo y también como una historia del origen y la evolución de la vida en la isla.

Nadie sabe quién lo escribió, ni cómo llegó hasta aquí. Nadie recuerda si fue escrito en la isla o si estaba en el equipaje de los primeros exiliados. Boas vio el ejemplar que se conserva en el Museo, encerrado en una caja de vidrio y como suspendido en una luz nuclear. Es una viejísima edición numerada de Faber and Faber, que tiene más de cien años y en la que hay notas manuscritas y un calendario con la lista de los muertos de una familia irlandesa del siglo XX. Ese ejemplar sirvió para hacer todas las copias que circulan en la isla.

Muchos creen que el Finnegans es un libro de ceremonias fúnebres y lo estudian como el texto que funda la religión en la isla. El Finnegans es leído en las iglesias como una Biblia y es usado para predicar en todas las lenguas por los pastores presbiterianos y por los sacerdotes católicos. En el Génesis se habla de una maldición de Dios que provocó la Caída y transformó el lenguaje en el paisaje abrupto que es hoy. Borracho, Tim Finnegan se cayó al sótano por una escalera, que inmediatamente pasó de ladder a latter y de latter salió litter y del desorden la letter, el mensaje divino. La carta es encontrada en un vaciadero de basura por una gallina que picotea. Está firmada con una mancha de té y la prolongada permanencia en el basurero ha dañado el texto. Tiene agujeros y borrones y es tan difícil de interpretar, que los eruditos y los sacerdotes conjeturan en vano sobre el sentido verdadero de la Palabra de Dios. La carta parece escrita en todas las lenguas y cambia continuamente bajo los ojos de los hombres. Ese es el Evangelio y el basurero de donde viene el mundo.

Los comentarios del Finnegans definen la tradición ideológica de la isla. El libro es un mapa y la historia se transforma según el recorrido que se elija. Las interpretaciones se multiplican y el Finnegans cambia como cambia el mundo y nadie imagina que la vida del libro se pueda detener. Sin embargo en el fluir del Liffey hay una recurrencia hacia Jim Nolan y Anna Livia, solos en la isla, antes de la carta final. Ese es el primer núcleo, el mito de origen tal cual lo transmiten los informantes (según Boas).

En otras versiones el libro es la transcripción del mensaje de Anna Livia Plurabelle, que lee los pensamientos de su marido (Nolan) y le habla después que él está muerto (o dormido), única en la isla durante años, abandonada en una piedra, con las cintas rojas y los cables y el armazón metálico al sol, murmurando en la playa vacía hasta que llegan las doscientas familias.

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Todos los mitos terminan ahí y también este informe. Hace dos meses que salí de la isla, dijo Boas, y todavía resuena en mí la música de esa lengua que es como un río. El que oiga el canto de las lavanderas en las orillas del Liffey no se podrá ir, dicen allá, y yo no he podido resistir la dulzura de la voz de Anna Livia. Por eso he de volver a la ciudad de los tres tiempos y a la bahía donde reposa la mujer de Bob Mulligan y al Museo de la Novela donde está el Finnegans, solo en la sala, en una caja negra de cristal. También yo voy a cantar en la taberna de Humphery Earwicker, golpeando el puño contra la madera de la mesa y tomando cerveza, una canción que habla del pájaro tuerto que vuela sin parar sobre la isla.



In: Cuentos Morales - Antología (1961-1990)

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Extractos del muy interesante cuento de Piglia:

1. Añoramos un lenguaje más primitivo que el nuestro... El insomnio es la gran enfermedad de la nación. El rumor de las voces es continuo y sus cambios suenan noche y día... La memoria está vacía, porque uno olvida siempre la lengua en la que ha fijado los recuerdos...

2. Cuando decimos que el lenguaje es inestable, no estamos hablando de una conciencia de esa modificación. Es necesario salir de allá para percibir el cambio. Si uno está adentro, cree que el lenguaje es siempre el mismo...

3. "El lenguaje se transforma según ciclos discontinuos que reproducen la mayoría de los idiomas conocidos (registra Turnbull)...

4. En la isla se cree que los ancianos se encarnan, al morir, en los nietos... en esa teoría de las reencarnaciones se ha fundado la lingüística histórica. La lengua es como es, porque acumula los residuos del pasado en cada generación y renueva el recuerdo de todas las lenguas muertas y de todas las lenguas perdidas...

5. El carácter inestable del lenguaje define la vida en la isla. Nunca se sabe con qué palabras serán nombrados en el futuro los estados presentes... Todas las obras maestras duran lo que dura la lengua en la que fueron escritas. Sólo el silencio persiste, claro como el agua, siempre igual a sí mismo.

6. ... La tradición dice que el lenguaje se modifica en las noches de luna llena, pero ésa es una creencia desmentida por los hechos. La lingüística científica no acepta ninguna relación entre los fenómenos... Los hombres del pueblo siguen sin embargo acatando los viejos rituales...

7. ... Piensan a la patria según la lengua. ("La nación es un concepto lingüístico.")... El concepto de frontera es temporal y sus límites se conjugan como los tiempos de un verbo.

8. ... Cada vez que entra en una calle nueva, las voces envejecen, las palabras antiguas están como grabadas en las paredes de los edificios en ruinas... "Se ve ahí, en el borde del lenguaje, como la casa de la infancia en la memoria."

9. La lingüística es la ciencia más desarrollada en la isla. Durante generaciones los investigadores han trabajado en el proyecto de fijar un diccionario que incorpore las variantes futuras de las palabras conocidas... Pero la traducción es imposible (de un viajero con un diccionario de bolsillo), porque sólo el uso define el sentido y en la isla conocen siempre una lengua por vez...

Todos los intentos de construir una lengua artificial se han visto perturbados por una experiencia temporal de la escritura... La evidencia vale lo que tarda una proposición en ser formulada... inventaron un lenguaje que muestra cómo es el mundo, pero que no permite nombrarlo...

10. He dicho que la tradición dice que los antepasados hablan de un tiempo en el que la lengua era un llano por el que se podía andar sin sorpresa... Algunos repiten (sin comprenderlo) un fragmento de aquella lengua original que ha sobrevivido a lo largo de los años... "(...) Dice que Dios es la mujer y que Eva es la serpiente. Que el árbol del bien y del mal es el árbol del lenguaje..."

11. Algunas sectas genealógicas aseguran que los primeros habitantes de la isla son desterrados, que fueron enviados hacia aquí remontando el río. La tradición habla de doscientas familias confinadas en un campo multirracial en los arrabales de Dalkey, al Norte de Dublín...

12. Si la leyenda es cierta, la isla ha sido un gran asentamiento de exiliados, en la época de la represión política que siguió a la contraofensiva del IRA y a la caída del Pulp-KO... La única fuente escrita en la isla es el FINNEGANS WAKE, al que todos consideran un libro sagrado, porque siempre pueden leerlo, sea cual fuere el estado de la lengua en que se encuentren... porque está escrito en todos los idiomas...

Nadie sabe quién escribió, ni cómo llegó hasta aquí...

En el Génesis se habla de una maldición de Dios que provocó la Caída y transformó el lenguaje en el paisaje abrupto que es hoy. Borracho, Tim Finnegan se cayó al sótano por una escalera, que inmediatamente pasó de ladder a latter y de latter salió litter y del desorden la letter, el mensaje divino... Tiene agujeros y borrones (la carta) y es tan difícil de interpretar, que los eruditos y los sacerdotes conjeturan en vano sobre el sentido verdadero de la Palabra de Dios...

13. Todos los mitos terminan ahí y también este informe...

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Post Scriptum (25/01/19):

O escritor argentino Ricardo Piglia faleceu em 6 de janeiro de 2017, aos 75 anos de idade. Quando fiz esta postagem em abril de 2008, era estudante de Letras na Universidade de São Paulo. 


Ao revisitar a postagem mais de uma década depois, vejo que pouco assimilei de conhecimento a respeito de Piglia. Isso aconteceu de certa forma em relação a parte das literaturas novas apresentadas a mim durante o curso porque ao longo de quase uma década de frequência à USP fui também dirigente sindical dos bancários e na divisão das tarefas e obrigações a prioridade foi a luta sindical, relegando a segundo plano os estudos e objetivos pessoais.


Na mesma época desta postagem, abril de 2008, terminei a leitura do livro "O último leitor", de Piglia, publicado em 2005. É um livro que gostaria de reler, pois o tema é dos mais atrativos para mim: ensaios e reflexões sobre o ato de ler e sobre leitores e leituras. Quem sabe releia ao revisitar esta postagem agora em 2019.

Por fim, tenho também de Piglia um filme lançado em 2000, baseado em seu romance de 1997, "Plata quemada". Vou revê-lo.

Em relação à postagem em si - "La isla" -, não basta somente ler novamente, porque o texto é complexo. É necessário reler, estudar, interpretar, refletir. Exigir de meu cérebro a compreensão do texto. Vou fazer isso.

Afinal de contas, sou um dos últimos leitores ou não?

William

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Post Scriptum (27/01/19):

Nos últimos dois dias busquei ler e ver materiais relativos a Piglia.

Como disse acima, assisti ao filme "Plata quemada", história baseada em fatos reais ocorridos na Argentina e no Uruguai em 1965. Piglia buscou informações adicionais sobre os fatos e narrou a história em romance publicado em 1997. O filme foi lançado em 2000 e é muito ousado para a época, na minha opinião. Se trata de um assalto praticado por um grupo de bandidos, dentre eles os chamados "irmãos gêmeos", jovens apaixonados e violentos. O filme tem muita violência, sangue, cenas de sexo e tensão do início ao fim.

Busquei na estante o livro "O último leitor" (2005) e comecei a lê-lo. Li o prólogo e o primeiro capítulo: "O que é um leitor?". Piglia nos põe a pensar. Lembrei-me do também argentino Alberto Manguel, nos contando "Uma história da leitura" (1996).

Por fim, reli o texto da postagem - "La isla" -, contido no livro de Piglia "Cuentos Morales" (1995). A releitura por duas vezes, uma delas em voz alta para treinar meu castelhano, foi com atenção e com pesquisa. O texto é hermético, na minha opinião. Faz referência à Irlanda, James Joyce e sua obra mais enigmática "Finnegans wake" (1939). Após a primeira releitura do texto, fui buscar informações na rede mundial e assisti a uma entrevista no programa Literatura Fundamental (Univesp/TV Cultura) que me esclareceu bastante coisa. Na segunda releitura de La isla foi mais fácil identificar nomes e referências à obra de Joyce.

Vale citar aqui que tenho o privilégio de ter lido "Dublinenses" (1914) e "Ulisses" (1922) de James Joyce, na tradução de Antônio Houaiss. Foi uma experiência única. Tenho também "Retrato do artista quando jovem" (1916), mas não li ainda.

A revisita à postagem valeu a pena, fiquei mais informado a respeito de Piglia, a respeito do próprio texto e das referências contidas na obra. Acredito que voltarei a esta postagem no blog.

William