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(texto atualizado em 18/3/12)
Tradução de Manuel Odorico Mendes (1799-1864)
LIVRO I
Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta; (5)
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.
Este é o começo da Odisséia em verso, na tradução de Manuel Odorico Mendes, na bela edição da Edusp.
A leitura em verso não é nada fácil. Na edição que tenho, ajuda muito o índice que acompanha cada página explicando o que são aquelas palavras de pouco uso ou em forma de neologismos e adaptações poéticas muito criativas por Odorico Mendes.
Da guerra e do mar sevo recolhidos (10)
Os que eram salvos, um por seu consorte
Calipso, ninfa augusta, apetecendo,
Separava-o da esposa em cava gruta.
O Céu porém traçou, volvendo-se anos,
De Ítaca reduzi-lo ao seio amigo, (15)
Onde novos trabalhos o aguardavam.
De Ulisses condoíam-se as deidades;
Mas, sempre infenso, obstava-lhe Netuno.
Este era entre os Etíopes longínquos,
Do oriente e ocidente últimos homens, (20)
Num de touros e ovelhas sacrifício,
A deleitar-se; e estavam já no alcáçar
Do Olimpo os habitantes, em concílio,
O soberano, a recordar Egisto,
Do Agamemnônio Orestes imolado, (25)
Principia: "Os mortais, ah!, nos imputam
Os males seus, que ao fado e à própria incúria
Devem somente. Contra o fado mesmo,
Do porvir não cuidadoso, há pouco Egisto,
Em seu regresso o Atrida assassinando, (30)
Esposou-lhe a mulher, bem que enviado
O Argicida sutil o dissuadisse:
'De o matar foge, e poluir seu leito;
Senão, tem de vingá-lo, adolescente,
Sendo investido no seu reino, Orestes'. (35)
Mercúrio o amoestou, mas surdo Egisto
Os delitos por junto expia agora".
COMENTÁRIO:
Orestes, filho de Agamêmnon, matou em vingança Egisto, que lhe havia matado o pai e tomado a mãe em adultério. De nada valeu a Egisto o aviso dos deuses, enviado pelo mensageiro Mercúrio (Hermes) dizendo que o jovem filho de Agamêmnon acabaria por vingar o pai.
Agamêmnon é um dos grandes guerreiros gregos que comandaram a luta contra Tróia.
A quem Minerva: "Sumo pai Satúrnio,
Jaz com razão punido esse perverso;
Todo que o imitar, como ele acabe! (40)
Mas a aflição de Ulisses me compunge,
Que, há tanto longe dos amenos lares,
Em ilha está circúnflua e nemorosa,
Lá no embigo do mar, onde é retido
Pela filha de Atlante onisciente, (45)
Que o salso abismo sonda, o peso atura
Das colunas que a terra e o céu demarcam.
A deusa com brandícias o acarinha;
De Ítaca ele saudoso, o pátrio fumo
Ver deseja e morrer. Não te comoves? (50)
Irritou-se faltando, em sua morada
E em Tróia, com ofertas e holocaustos?"
Na edição especial que tenho, há uma introdução de Haroldo de Campos e uma apresentação do professor de literatura grega da Universidade de São Paulo - Antonio Medina Rodrigues -, responsável também pela edição. Se um dia eu tiver mais tempo, disponibilizo o texto do Haroldo de Campos em nome da cultura (clique aqui).
PROFESSOR MEDINA
Digo a vocês que tive o privilégio de ter aulas com o professor Medina no primeiro ano de faculdade (2001). Foram aulas maravilhosas. O cara era doido. Quando ele se empolgava descrevendo as sacanagens entre os deuses, ele começava a gritar e gesticular na sala de maneira que até as meninas menos tímidas ficavam vermelhas.
"E o Junta-nuvens: 'Que proferes, filha,
Do encerro dessa boca? Eu deslembrar-me
Do mortal mais sisudo, o mais devoto, (55)
Aos celícolas pio e dadivoso!
Da terra o abarcador é quem o avexa,
Por ter do olho privado a Polifemo,
O mor Ciclope, que, num antro unida
A Netuno, pariu Toosa, estirpe (60)
De Forcis, deus do pego insemeável.
O Enosigeu de então lhe poupa a vida,
Mas de Ítaca o arreda. Provejamos
Na vinda sua; aplaque-se Netuno:
Só Contra todos contender não pode'. (65)
A olhicerúlea: 'Ó padre, ó rei supremo,
Se vos praz que à família torne Ulisses,
Da ínsula ogígia à ninfa emadeixada
Mercúrio o intime, o herói prudente parta.
A Ítaca baixo a confortar o filho: (70)
Os comantes Argeus convoque ousado;
Suste aos vorazes procos a carnagem
De flexípedes bois e ovelhas píngües.
Dali, na Esparta e na arenosa Pilos,
Do amado genitor se informe e indague, (75)
E entre humanos obtenha ilustre fama'.
(...)"
Bom, para a leitura em prosa desta parte que aqui está em versos Homérico-odoricianos é só ver a postagem em prosa que está no blog.
"Já liga alparcas de ouro incorruptíveis,
que a propelem como aura pelas ondas
Ou pelo amplo terreno; a lança empunha
De érea afiada ponta e desmedida, (80)
Com que turmas de heróis desfaz metuenda,
Progênie de tal pai. Do Olimpo frecha;
Em Ítaca, ao vestíbulo de Ulisses
Tem-se, e de hasta na destra, parecia
O hóspede Mentes, campeão dos Táfios. (85)
Ao pórtico acha intrusos pretendentes,
Sobre couros de bois que morto haviam,
Os dados a jogar. Servos e arautos
Misturam nas crateras água e vinho,
Ou com povosa esponja as mesas pulem, (90)
E partem nelas abundantes carnes.
Distante a vê Telêmaco deiforme:
No meio, taciturno e consternado,
No genitor pensava, que expulsá-los
E reger venha o leme do governo. (95)
Entrementes a avista, e não sofrendo
Por mais tempo de fora um peregrino,
Corre, aperta-lhe a mão, sua arma toma:
'Hóspede amigo, salve; o que precisas,
Depois do teu repasto o saberemos'. (100)
(...)
COMENTÁRIOS:
Na Grécia Antiga, a recepção de um visitante era toda marcada por um ritual. Jamais se iniciavam as tratativas e assuntos diversos antes de se alimentar bem as visitas. Só após a refeição é que se começavam as discussões e conversas.
"Ei-lo encaminha a déia, e já na sala
Ante celsa coluna encosta a lança
À nítida hastaria, onde em fileira
As de Ulisses valente em pé dormiam.
Num trono a põe dedáleo de alcatifa (105)
E de escabelo aos pés, senta-se perto
Em variegada sela; à parte ficam,
Para que, à bulha e ao trato com soberbos,
O hóspede o apetite não perdesse,
E do pai ele a folgo o interrogasse. (110)
De gomil de ouro às mãos verte uma serva
Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
Que enche a modesta afável despenseira
De pães e das presentes iguarias;
Escudelas de várias novas carnes (115)
O trinchante apresenta e copos de ouro,
Que arrasa de almo vinho arauto assíduo.
Suspenso o jogo, os feros pretendentes
Ocupam já cadeiras e camilhas;
Dão água às mãos arautos, pão cumulam (120)
Servas em canistréis; atiram-se eles
Aos regalados pratos, e as crateras
Lhes coroam mancebos. Farta a sede,
Farta a fome, em prazer os embriagam
Música, dança, adornos de banquetes: (125)
Cítara ebúrnea entrega um dos arautos
A Fêmio, que forçado ali tangia
E o cântico ajustava as som das cordas.
Inclinou-se Telêmaco a Minerva,
Dizendo à puridade: 'Hóspede caro, (130)
Vou talvez enfadar-te? Eles só curam
De cantigas e danças, porque impunes
Comem do alheio, os bens do herói consomem,
Cuja ossada ou jaz podre em longes terras,
Ou rola entre maretas; ah!, se o vissem (135)
Cá reaparecer, mais que ouro e galas,
Planta leve amariam. Fado acerbo
Urge-o, porém, e embora algum terrestre
A volta sua afirme, as esperanças
Murchas estão, nem luzirá tal dia. (140)
Ora, quem és? de que família e pátria?
Com que gente vieste e em que navio?
Vindo a pé não te creio. Uses franqueza,
Hóspede me és recente ou já paterno?
A muitos nosso teto agasalhava, (145)
E meu pai atraía os forasteiros'.
(...)
Quando li "Os Lusíadas" precisei recomeçar várias vezes as primeiras páginas até pegar o ritmo e sonoridade do texto. Leituras como essa da "Odisséia" precisam de concentração e paciência. Mas depois que pegamos o jeito, passa a ser interessante. Faz tempo que não leio ritmos assim... desde que minha dedicação concentrou-se somente na representação sindical, só raramente mergulho em textos mais complexos.
Bibliografia:
HOMERO. Odisséia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. Edusp.





