quarta-feira, 7 de março de 2012

ODISSÉIA - HOMERO (em versos)

Homero - fonte: Wikipedia

(texto atualizado em 18/3/12)

Tradução de Manuel Odorico Mendes (1799-1864)

LIVRO I


Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta; (5)
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.


Este é o começo da Odisséia em verso, na tradução de Manuel Odorico Mendes, na bela edição da Edusp.


A leitura em verso não é nada fácil. Na edição que tenho, ajuda muito o índice que acompanha cada página explicando o que são aquelas palavras de pouco uso ou em forma de neologismos e adaptações poéticas muito criativas por Odorico Mendes.


Da guerra e do mar sevo recolhidos (10)
Os que eram salvos, um por seu consorte
Calipso, ninfa augusta, apetecendo,
Separava-o da esposa em cava gruta.
O Céu porém traçou, volvendo-se anos,
De Ítaca reduzi-lo ao seio amigo, (15)
Onde novos trabalhos o aguardavam.
De Ulisses condoíam-se as deidades;
Mas, sempre infenso, obstava-lhe Netuno.
Este era entre os Etíopes longínquos,
Do oriente e ocidente últimos homens, (20)
Num de touros e ovelhas sacrifício,
A deleitar-se; e estavam já no alcáçar
Do Olimpo os habitantes, em concílio,
O soberano, a recordar Egisto,
Do Agamemnônio Orestes imolado, (25)
Principia: "Os mortais, ah!, nos imputam
Os males seus, que ao fado e à própria incúria
Devem somente. Contra o fado mesmo,
Do porvir não cuidadoso, há pouco Egisto,
Em seu regresso o Atrida assassinando, (30)
Esposou-lhe a mulher, bem que enviado
O Argicida sutil o dissuadisse:
'De o matar foge, e poluir seu leito;
Senão, tem de vingá-lo, adolescente,
Sendo investido no seu reino, Orestes'. (35)
Mercúrio o amoestou, mas surdo Egisto
Os delitos por junto expia agora".


COMENTÁRIO:


Orestes, filho de Agamêmnon, matou em vingança Egisto, que lhe havia matado o pai e tomado a mãe em adultério. De nada valeu a Egisto o aviso dos deuses, enviado pelo mensageiro Mercúrio (Hermes) dizendo que o jovem filho de Agamêmnon acabaria por vingar o pai.


Agamêmnon é um dos grandes guerreiros gregos que comandaram a luta contra Tróia.


A quem Minerva: "Sumo pai Satúrnio,
Jaz com razão punido esse perverso;
Todo que o imitar, como ele acabe! (40)
Mas a aflição de Ulisses me compunge,
Que, há tanto longe dos amenos lares,
Em ilha está circúnflua e nemorosa,
Lá no embigo do mar, onde é retido
Pela filha de Atlante onisciente, (45)
Que o salso abismo sonda, o peso atura
Das colunas que a terra e o céu demarcam.
A deusa com brandícias o acarinha;
De Ítaca ele saudoso, o pátrio fumo
Ver deseja e morrer. Não te comoves? (50)
Irritou-se faltando, em sua morada
E em Tróia, com ofertas e holocaustos?"


Na edição especial que tenho, há uma introdução de Haroldo de Campos e uma apresentação do professor de literatura grega da Universidade de São Paulo - Antonio Medina Rodrigues -, responsável também pela edição. Se um dia eu tiver mais tempo, disponibilizo o texto do Haroldo de Campos em nome da cultura (clique aqui).


PROFESSOR MEDINA
Digo a vocês que tive o privilégio de ter aulas com o professor Medina no primeiro ano de faculdade (2001). Foram aulas maravilhosas. O cara era doido. Quando ele se empolgava descrevendo as sacanagens entre os deuses, ele começava a gritar e gesticular na sala de maneira que até as meninas menos tímidas ficavam vermelhas.




"E o Junta-nuvens: 'Que proferes, filha,
Do encerro dessa boca? Eu deslembrar-me
Do mortal mais sisudo, o mais devoto, (55)
Aos celícolas pio e dadivoso!
Da terra o abarcador é quem o avexa,
Por ter do olho privado a Polifemo,
O mor Ciclope, que, num antro unida
A Netuno, pariu Toosa, estirpe (60)
De Forcis, deus do pego insemeável.
O Enosigeu de então lhe poupa a vida,
Mas de Ítaca o arreda. Provejamos
Na vinda sua; aplaque-se Netuno:
Só Contra todos contender não pode'. (65)


A olhicerúlea: 'Ó padre, ó rei supremo,
Se vos praz que à família torne Ulisses,
Da ínsula ogígia à ninfa emadeixada
Mercúrio o intime, o herói prudente parta.
A Ítaca baixo a confortar o filho: (70)
Os comantes Argeus convoque ousado;
Suste aos vorazes procos a carnagem
De flexípedes bois e ovelhas píngües.
Dali, na Esparta e na arenosa Pilos,
Do amado genitor se informe e indague, (75)
E entre humanos obtenha ilustre fama'.


(...)"


Bom, para a leitura em prosa desta parte que aqui está em versos Homérico-odoricianos é só ver a postagem em prosa que está no blog.



"Já liga alparcas de ouro incorruptíveis,
que a propelem como aura pelas ondas
Ou pelo amplo terreno; a lança empunha
De érea afiada ponta e desmedida, (80)
Com que turmas de heróis desfaz metuenda,
Progênie de tal pai. Do Olimpo frecha;
Em Ítaca, ao vestíbulo de Ulisses
Tem-se, e de hasta na destra, parecia
O hóspede Mentes, campeão dos Táfios. (85)
Ao pórtico acha intrusos pretendentes,
Sobre couros de bois que morto haviam,
Os dados a jogar. Servos e arautos
Misturam nas crateras água e vinho,
Ou com povosa esponja as mesas pulem, (90)
E partem nelas abundantes carnes.
Distante a vê Telêmaco deiforme:
No meio, taciturno e consternado,
No genitor pensava, que expulsá-los
E reger venha o leme do governo. (95)
Entrementes a avista, e não sofrendo
Por mais tempo de fora um peregrino,
Corre, aperta-lhe a mão, sua arma toma:
'Hóspede amigo, salve; o que precisas,
Depois do teu repasto o saberemos'. (100)


(...)


COMENTÁRIOS:
Na Grécia Antiga, a recepção de um visitante era toda marcada por um ritual. Jamais se iniciavam as tratativas e assuntos diversos antes de se alimentar bem as visitas. Só após a refeição é que se começavam as discussões e conversas.



"Ei-lo encaminha a déia, e já na sala
Ante celsa coluna encosta a lança
À nítida hastaria, onde em fileira
As de Ulisses valente em pé dormiam.
Num trono a põe dedáleo de alcatifa (105)
E de escabelo aos pés, senta-se perto
Em variegada sela; à parte ficam,
Para que, à bulha e ao trato com soberbos,
O hóspede o apetite não perdesse,
E do pai ele a folgo o interrogasse. (110)
De gomil de ouro às mãos verte uma serva
Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
Que enche a modesta afável despenseira
De pães e das presentes iguarias;
Escudelas de várias novas carnes (115)
O trinchante apresenta e copos de ouro,
Que arrasa de almo vinho arauto assíduo.


Suspenso o jogo, os feros pretendentes
Ocupam já cadeiras e camilhas;
Dão água às mãos arautos, pão cumulam (120)
Servas em canistréis; atiram-se eles
Aos regalados pratos, e as crateras
Lhes coroam mancebos. Farta a sede,
Farta a fome, em prazer os embriagam
Música, dança, adornos de banquetes: (125)
Cítara ebúrnea entrega um dos arautos
A Fêmio, que forçado ali tangia
E o cântico ajustava as som das cordas.


Inclinou-se Telêmaco a Minerva,
Dizendo à puridade: 'Hóspede caro, (130)
Vou talvez enfadar-te? Eles só curam
De cantigas e danças, porque impunes
Comem do alheio, os bens do herói consomem,
Cuja ossada ou jaz podre em longes terras,
Ou rola entre maretas; ah!, se o vissem (135)
Cá reaparecer, mais que ouro e galas,
Planta leve amariam. Fado acerbo
Urge-o, porém, e embora algum terrestre
A volta sua afirme, as esperanças
Murchas estão, nem luzirá tal dia. (140)
Ora, quem és? de que família e pátria?
Com que gente vieste e em que navio?
Vindo a pé não te creio. Uses franqueza,
Hóspede me és recente ou já paterno?
A muitos nosso teto agasalhava, (145)
E meu pai atraía os forasteiros'.


(...)


Quando li "Os Lusíadas" precisei recomeçar várias vezes as primeiras páginas até pegar o ritmo e sonoridade do texto. Leituras como essa da "Odisséia" precisam de concentração e paciência. Mas depois que pegamos o jeito, passa a ser interessante. Faz tempo que não leio ritmos assim... desde que minha dedicação concentrou-se somente na representação sindical, só raramente mergulho em textos mais complexos.


Bibliografia:
HOMERO. Odisséia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. Edusp.

terça-feira, 6 de março de 2012

Poema - The end... (this is the end...)


Ouvindo agora a música do The Doors, lembrei-me do poema que fiz certa noite ao som da banda em meu PC. Fica agora aquele momento entregue ao mundo.


The end… (this is the end…)



Segunda-feira... at home.
São onze e trinta e oito...
Som que toca em meu PC...
Som do The Doors.
Skol… shhhiiiiiiii!!!!!

Sombras no quarto...
Sombras…
Somente a luz do PC.

Silêncio... shhhiiiiiiii!!!!
São decisões para se tomar...
Sempre... toda hora!

Sintaxe que nada entendo...
Sintaxe que mais parece física quântica!
Sinto vontade de largar... de novo!

Som que toca em meu PC...
Sempre... The Doors...
São onze e cinquenta…

Soluções para as Letras...
Sem solução... também tenho minhas limitações.
Ser humano... é só o que sou.

Ser um bom sindicalista.
Ser um bom aluno... subsidiariamente!
Sim... assim o defini.

Som... Light my fire...
Sei que o tempo passa…
São onze e cinquenta e nove...

Skol... essa já era!
São zero horas e dez...
Som que toca... L.A. woman...

Sem essa de livre arbítrio.
Sem essa que o ser é livre.
Sem essa... amanhã tenho reunião.
Skol vazia... não vou abrir outra...

Só para terminar...
Sempre cismo com o tempo.
Sempre... são dezoito minutos agora.

Shhhiiiiii!!!!
Som... Pink Floyd...
Só para terminar...

Time... take it away...


Wmofox, 27.4.04
Já às 00:30 h

domingo, 4 de março de 2012

Por que será que o conhecimento humano acumulado não melhora o mundo?



Run... sigo correndo
 e procurando...

Refeição Cultural

Estou lendo uma obra clássica escrita no século XVII - O Leviatã, de Thomas Hobbes. O autor é um inglês que dedicou sua vida para pensar o mundo e a existência humana. Antes que leigos no autor comecem a falar que o cara é contra a democracia etc e tal - leigos como eu mesmo sou até agora -, é bom saberem que sua obra principal - O LEVIATÃ - tem uma apresentação extremamente metódica sobre o que ele entende por natureza humana. Suas opiniões também são baseadas nos conhecimentos e suposições biológicas e fisiológicas dos anos 1600.

Na introdução do livro, Hobbes nos apresenta a ideia principal que discorrerá metodicamente ao longo de umas quinhentas páginas. O Leviatã seria o Estado ou Cidade (em latim Civitas) como uma reprodução artificial do próprio homem, com todas as suas partes e funções orgânicas com um bom ou mau funcionamento.

Eu tenho esse nome na minha cabeça há muito tempo "O Leviatã..." assim como várias obras clássicas que pensaram o mundo, o homem, a sociedade como, por exemplo, Utopia de Thomas More, A República de Platão, Admirável mundo novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury dentre outras.

Ao se ler o pensamento dos outros sobre as coisas é necessário que se tenha tolerância e paciência para avaliar as argumentações e depois fazer sua digestão cultural e ver se há concordância ou não com a tese apresentada. Lembro aqui um alerta importante de Eric Hobsbawm na introdução de seu Era dos Extremos, quando diz que ler para compreender não quer dizer concordar. Ele está se referindo naquela passagem ao Nazismo.

Cada vez que pego para ler um livro com séculos de existência, fico pensando por que será que o mundo não absorveu aquele conhecimento e melhorou de forma abrangente.

A sensação é sempre de frustração por ver tanta ignorância e tanta miséria e exploração humana não resolvida com tanto saber já produzido pela humanidade.

E digo isso para o conhecimento em vários gêneros e tecituras literárias. Ao ler Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes, fiquei primeiro tentando percorrer em minha cabeça como foi possível para aquele autor, com a vida de agruras que ele teve, como foi possível escrever aquela obra espetacular?! Seus personagens simbolizam os tipos humanos daquele mundo de forma tão fantástica e, mesmo assim, tendo-se o cuidado de abstrair quatro séculos de costumes distintos, ainda são atuais todos os dramas vividos ali.

Por incrível que pareça (para mim) estou conseguindo avançar na leitura de Hobbes. Está valendo a pena ser um pouco menos ignorante nesse tema.


E A PERGUNTA?

Por que será que o conhecimento humano acumulado não melhora o mundo?

Quem sou eu para responder à pergunta do título desta reflexão? Ela deve atormentar milhares de humanistas por milhares de lugares diferentes no mundo há bastante tempo.

Só sei que sinto uma necessidade absurda em ver algum resultado prático na nossa luta por melhorar um pouco o mundo, no sentido dele se tornar menos hostil para os seres humanos que aqui vivem. Estou sempre pensando em outro texto que fiz dizendo que após milhares de anos de acúmulo da vivência humana o mundo segue hostil.

I still haven't found what i'm looking for...

sexta-feira, 2 de março de 2012

O leviatã, capítulo XI – Thomas Hobbes


LEITURAS CLÁSSICAS - EXCERTOS INTERESSANTES

CAPÍTULO XI

"Das diferenças de costumes

Não entendo aqui por costumes a decência da conduta, por exemplo, a maneira como um homem deve saudar a outro, ou como deve lavar a boca, ou limpar os dentes diante dos outros, e outros aspectos da pequena moral. Entendo aquelas qualidades humanas que dizem respeito a uma vida em comum pacífica e harmoniosa. Para este fim, devemos ter em mente que a felicidade desta vida não consiste no repouso de um espírito satisfeito. Pois não existe o finis ultimus (fim último) nem o summum bonum (bem supremo) de que se fala nos livros dos antigos filósofos morais. E ao homem é impossível viver quando seus desejos chegam ao fim, tal como quando seus sentidos e imaginação ficam paralisados. A felicidade é um contínuo progresso do desejo, de um objeto para outro, não sendo a obtenção do primeiro outra coisa senão o caminho para conseguir o segundo. Sendo a causa disto que o objeto do desejo do homem não é gozar apenas uma vez, e só por um momento, mas garantir para sempre os caminhos de seu desejo futuro. Portanto as ações voluntárias e as inclinações dos homens não tendem apenas para conseguir, mas também para garantir uma vida satisfeita, e diferem apenas quanto ao modo como surgem, em parte da diversidade das paixões em pessoas diversas, e em parte das diferenças no conhecimento e opinião que cada um tem das causas que produzem os efeitos desejados."


COMENTÁRIO DO BLOG: (vimos acima o conceito que tem Hobbes sobre FELICIDADE)


"Assinalo assim, em primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte. E a causa disto nem sempre é que se espere um prazer mais intenso do que aquele que já se alcançou, ou que cada um não possa contentar-se com um poder moderado, mas o fato de não se poder garantir o poder e os meios para viver bem que atualmente se possuem sem adquirir mais ainda. E daqui se segue que os reis, cujo poder é maior, se esforçam por garanti-lo no interior através de leis, e no exterior através de guerras. E depois disto feito surge um novo desejo, em alguns, de fama por uma nova conquista, em outros, de conforto e prazeres sensuais, e em outros de admiração, de serem elogiados pela excelência em alguma arte, ou outra qualidade do espírito.


A competição pela riqueza, a honra, o mando e outros poderes leva à luta, à inimizade e à guerra, porque o caminho seguido pelo competidor para realizar seu desejo consiste em matar, subjugar, suplantar ou repelir o outro. Particularmente, a competição pelo elogio leva a reverenciar a antiguidade. Porque os homens competem com os vivos, não com os mortos, e atribuem a estes mais do que o devido a fim de poderem empanar a glória dos outros.

O desejo de conforto e deleite sensual predispõe os homens para a obediência ao poder comum, pois com tais desejos se abandona a proteção que poderia esperar-se do esforço e trabalho próprios. O medo da morte e dos ferimentos produz a mesma tendência, e pela mesma razão. Pelo contrário, os homens necessitados e esforçados, que não estão contentes com sua presente condição, assim como todos os homens que ambicionam a autoridade militar, têm tendência para provocar situações belicosas e para causar perturbações e revoltas, pois só na guerra há honra militar, e a única esperança de remediar um mau jogo é dar as cartas uma vez mais.

O desejo de conhecimento e das artes da paz inclina os homens para a obediência ao poder comum, pois tal desejo encerra um desejo de ócio, consequentemente de proteção derivada de um poder diferente de seu próprio.



O desejo de louvores predispõe para ações louváveis, capazes de agradar aqueles cujo apreço se respeita, pois desprezamos também os louvores das pessoas que desprezamos. O desejo de fama depois da morte tem o mesmo efeito. E embora depois da morte seja impossível sentir os louvores que nos são feitos na Terra, pois são alegrias que ou são eclipsadas pelas indizíveis alegrias do Céu ou são extintas pelos extremos tormentos do Inferno, apesar disso essa fama não é vã, porque os homens encontram um deleite presente em sua previsão, assim como no beneficio que daí pode resultar para sua posteridade. Embora agora não o vejam, mesmo  assim imaginam-no, e tudo o que constitui prazer para os sentidos constitui também prazer para a imaginação."


COMENTÁRIO DO BLOG: (Viu só? As pessoas têm prazer no momento por imaginar que serão lembradas e honradas após a morte!)


"Ter recebido de alguém a quem consideramos nosso igual maiores benefícios do que esperávamos faz tender para o amor fingido, e na realidade para o ódio secreto, pois nos coloca na situação de devedor desesperado que, ao recusar-se a ver seu credor, tacitamente deseja que ele se encontre onde jamais possa voltar a vê-lo. Porque os benefícios obrigam, e a obrigação é servidão; a obrigação que não se pode compensar é servidão perpétua; e perante um igual é odiosa. Mas ter recebido benefícios de alguém a quem se considera superior faz tender para o amor, porque a obrigação não é uma nova degradação, e alegre aceitação (a que se dá o nome de gratidão) constitui uma honra tal para o benfeitor que geralmente é tomada como retribuição. Também receber benefícios, mesmo de um igual ou inferior, desde que haja esperança de retribuição faz tender para o amor, porque na intenção do beneficiado a obrigação é de ajuda e serviço mútuo. Daí deriva uma emulação para ver quem superará o outro em benefícios, que é a mais nobre e proveitosa competição que é possível, na qual o vencedor fica satisfeito com sua vitória, e o outro se vinga admitindo a derrota.

Ter feito a alguém um mal maior do que se pode ou se está disposto a sofrer faz tender para odiar quem sofreu o mal, pois só se pode esperar vingança, ou perdão; e ambos são odiosos.

O medo da opressão predispõe os homens para antecipar-se, procurando ajuda na associação, pois não há outra maneira de assegurar a vida e a liberdade.


Os homens que desconfiam de sua própria sutileza se encontram, nos tumultos e sedições, mais predispostos para a vitória do que os que se consideram sábios ou sagazes, pois estes últimos gostam de se informar primeiro, e os outros (com medo de serem ultrapassados) gostam de atacar primeiro. E nas sedições, como os homens estão sempre dispostos para a luta, defender-se uns aos outros e usar todas as vantagens da força é um estratagema superior a todos os que possam ser produzidos pela mais sutil inteligência.

Os homens vaidosos, que sem terem consciência de grande capacidade se deliciam em julgarem-se valentes, tendem apenas para a ostentação, não para os atos, pois quando surgem perigos ou dificuldades só os aflige ver descoberta sua incapacidade.

Os homens vaidosos, que avaliam sua capacidade pelas lisonjas de outros homens, ou pelo sucesso de alguma ação anterior, sem terem sólidas razões de esperança baseadas num autêntico conhecimento de si mesmos, têm tendência para empreendimentos irrefletidos, e à primeira visão de perigos ou dificuldades, a retirar-se assim que podem. Porque, não vendo o caminho da salvação, preferem arriscar sua honra, que pode ser salva com uma desculpa, em vez de sua vida, para a qual nenhuma salvação é suficiente.

Os homens que têm em alta conta sua sabedoria em questões de governo têm tendência para a ambição. Porque na falta de um emprego público como conselheiros ou magistrados estão perdendo a honra de sua sabedoria. Consequentemente, os oradores eloqüentes têm tendência para a ambição, pois a eloqüência assemelha-se à sabedoria, tanto para eles mesmos como para os outros.

A pusilanimidade predispõe os homens para a indecisão, e consequentemente para deixar perder as ocasiões, e as melhores oportunidades de ação. Porque quando se esteve em deliberação até se aproximar o momento da ação, se nessa altura não for manifesto o que há de melhor a fazer, isso é sinal de que a diferença entre os fatores, quer num sentido quer noutro, não é muito grande. Portanto não tomar uma decisão nesse momento é deixar perder a ocasião por preocupar-se com ninharias, o que é pusilanimidade."


COMENTÁRIO FINAL

Fan-tás-ti-co!



Bibliografia:

HOBBES DE MALMESBURY, THOMAS. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. Coleção Os Pensadores. Nova Cultural, edição 1999.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

"1984" - George Orwell, de 1949


Minha edição é de 1978, comprei em um sebo paulista.


LEITURA DA OBRA

(releitura em andamento...)


“GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA”


A leitura da obra de George Orwell, escrita em 1949, pode ser lida e adaptada para os dias atuais simplesmente substituindo-se a personagem principal do totalitarismo, o Partido SOCialista INGlês na ficção - o INGSOC, pelo Partido da Imprensa Golpista mundial – PIG*, atual ferramenta ideológica do sistema capitalista totalitário que atua com dominação total dos veículos de comunicação de massa apagando o passado, deturpando e inventando o presente e destruindo o futuro da liberdade humana.

Aliás, o PIG mundial – O GRANDE IRMÃO - está destruindo a liberdade humana em nome da “liberdade” humana (de alguns)!


“QUEM CONTROLA O PASSADO,

CONTROLA O FUTURO;

QUEM CONTROLA O PRESENTE,

CONTROLA O PASSADO.”



CAPÍTULO 1

“Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero...”


SEMANA DO ÓDIO (TÃO MODERNO!)

“(...) Fazia parte da campanha de economia, preparatória da Semana do Ódio (...) Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte. O grande irmão zela por ti, dizia a legenda.”


VIGILÂNCIA ININTERRUPTA (NO SÉCULO XXI É CONSENTIDA)

“(...) O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez...


COMENTÁRIO: hoje, as pessoas não desligam a teletela (facebook e telefones móveis) nem estando no vaso sanitário, nem dormindo ou fazendo sexo.


“(...) Ao nível da rua outro cartaz, rasgado num canto, drapejava ao vento, ora cobrindo ora descobrindo a palavra INGSOC (...) Era a Patrulha da Polícia, espiando pelas janelas do povo. Mas as patrulhas não tinham importância. Só importava a Polícia do Pensamento.”


“O Ministério da Verdade – ou Miniver, em Novilíngua – era completamente diferente de qualquer outro objeto visível. Era uma enorme pirâmide de alvíssimo cimento branco, erguendo-se terraço sobre terraço, trezentos metros sobre o solo. De onde estava Winston conseguiu ler, em letras elegantes colocadas na fachada, os três lemas do Partido:”

“GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA”


“Eram quase onze horas e no Departamento de Registro, onde Winston trabalhava, já arrastavam cadeiras dos cubículos e as arrumavam no centro do salão, diante da grande teletela, preparando-se para os Dois Minutos de Ódio...


“(...) Devia ter uns vinte e sete anos, e era de aparência audaciosa, com cabelo negro e espesso, rosto sardento e movimentos rápidos, atléticos. Uma estreita faixa escarlate, emblema da Liga Juvenil Anti-Sexo, dava várias voltas à sua cintura, o suficiente para realçar as curvas das ancas. Winston antipatizara com ela desde o primeiro momento. E sabia porquê. Era por causa da atmosfera de campos de hóquei, chuveiro frio, piqueniques e grande linha moral que conseguia inspirar. Ele antipatizava com todas as mulheres, principalmente com as moças e bonitas. Eram sempre as mulheres, e principalmente as moças, os militantes mais fervorosos do Partido, os devoradores de palavras de ordem, os espiões amadores e os especulas dos desvios...


“Como de hábito, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Aqui e ali houve assovios entre o público. A mulherzinha de cabelo cor de areia emitiu um uivo misto de medo e repugnância. Goldstein era o renegado e traidor que um dia, muitos anos atrás (exatamente quantos ninguém se lembrava), fora uma das figuras de proa do Partido, quase no mesmo plano que o próprio Grande Irmão, tendo depois se dedicado a atividades contra-revolucionárias, sendo por isso condenado à morte, da qual escapara, desaparecendo misteriosamente. O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido...”


NA TELA DA SESSÃO DOS DOIS MINUTOS DE ÓDIO...

“(...) Goldstein lançava o costumeiro ataque peçonhento às doutrinas do Partido – um ataque tão exagerado e perverso que uma criança poderia refutá-lo (...) Insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída...”


“(...) ver ou mesmo pensar em Goldstein produzia automaticamente medo e raiva. Era o objeto de ódio mais constante que a Eurásia ou a Lestásia porquanto, quando a Oceania estava em guerra com uma dessas potências, em geral estava em paz com a outra. O estranho, todavia, é que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os dias, e milhares de vezes por dia, nas tribunas, teletelas, jornais, livros, suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos olhos de todos como lixo à-toa... e apesar de tudo isso, sua influência nunca parecia diminuir (...) Era comandante de um vasto exército de sombras, uma rede subterrânea de conspiradores dedicados à derrocada do Estado. Supunha-se que se chamava a Fraternidade. Murmurava-se também a respeito de um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, escrito por Goldstein...”


IMPOSSÍVEL NÃO SE CONTAMINAR COM O ÓDIO

“(...) O horrível dos Dois Minutos de Ódio era que embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir aos outros. Em trinta segundos deixava de ser preciso fingir. Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um horrível êxtase de medo e vindita, um desejo de matar, de torturar, de amassar rostos com um malho, transformando o indivíduo, contra a sua vontade, num lunático a uivar e fazer caretas...”


CRIMIDÉIA

“(...) A Polícia do Pensamento o apanharia do mesmo modo. Cometera – e teria cometido, nem que não levasse a pena ao papel – o crime essencial, que em si continha todos os outros. Crimidéia, chamava-se. O crimidéia não era coisa que pudesse ocultar...


SER VAPORIZADO


“(...) As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. O nome do cidadão era removido dos registros, suprimida toda menção dele, negada sua existência anterior, e depois esquecido. Era-se abolido, aniquilado, vaporizado era o termo corriqueiro.”




CAPÍTULO 2

“Quando pôs a mão no trinco viu que deixara o diário aberto na mesa. ABAIXO O GRANDE IRMÃO lia-se em toda a página, em letras quase visíveis da porta, de tão grandes. Cometera um erro incrivelmente estúpido. Percebeu, entretanto, que mesmo no seu pânico não quisera sujar o belo papel creme fechando o caderno sobre a tinta fresca”


“Era a sra. Parsons, esposa de um vizinho do mesmo andar. (“Sra. era termo um tanto antipatizado pelo Partido – o correto era chamar todo mundo de ‘camarada’ – mas com certas mulheres era usado instintivamente.) Teria uns trinta anos, mas parecia muito mais velha. Dava a impressão de ter poeira nas rugas.”


IDEOCRIMINOSOS

“- És um traidor! – berrou o menino. – És um ideocriminiso! És um espião eurasiano!. Eu te mato, te vaporizo, te mando para as minas de sal!”


ENFORCAMENTOS ERAM ESPETÁCULOS POPULARES

“Deviam ser enforcados aquela noite, no Parque, uns prisioneiros eurasianos, criminosos de guerra. Isso acontecia uma vez por mês e era um grande espetáculo popular. As crianças sempre exigiam que as levassem.”


HERÓIS INFANTIS QUE DENUNCIAM OS PAIS

“Era quase normal que as pessoas de mais de trinta tivessem medo aos próprios filhos. E com fartos motivos, pois rara era a semana em que o Times não publicasse um tópico contando como um pequeno salafrário – ‘herói infantil’ era a expressão usada – ouvira alguma observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento”


O DIÁRIO SECRETO DE WINSTON

“(...) Ele voltou à mesa, molhou a pena e escreveu:

Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam sós – a uma época em que a verdade existir e o que foi feito não puder ser desfeito:
Cumprimento da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensar!

Ele já estava morto, refletiu. Pareceu-lhe que só agora, depois de começar a formular suas ideias, dera o passo decisivo. As consequências de cada ato são incluídas no próprio ato. Escreveu:
          
          Crimidéia não acarreta a morte: crimidéia É a morte.



CAPÍTULO 3

“Winston sonhava com sua mãe. Devia ter uns dez ou onze anos quando sua mãe desaparecera. Era alta, estatuesca, meio calada, de movimentos vagarosos e magnífico cabelo claro. Do pai lembrava-se mais vagamente. Era moreno e magro, vestia sempre roupas escuras, bem postas (Winston lembrava-se vivamente das solas finas dos sapatos do pai), e usava óculos. Os dois deviam, evidentemente, ter sido tragados num dos grandes expurgos de 1950-60.”


“QUEM CONTROLA O PASSADO,

CONTROLA O FUTURO;

QUEM CONTROLA O PRESENTE,

CONTROLA O PASSADO.”


“O Partido dizia que a Oceania jamais fora aliada da Eurásia, Ele, Winston Smith, sabia que a Oceania fora aliada da Eurásia não havia senão quatro anos. Onde, porém, existia esse conhecimento? Apenas em sua consciência, o que em todo caso devia ser logo aniquilado. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – então a mentira se transformava em história, em verdade. ‘Quem controla o passado’, dizia o lema do Partido, ‘controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado’. E no entanto o passado, conquanto de natureza alterável, nunca fora alterado. O que agora era verdade era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. ‘Controle da realidade’, chamava-se. Ou, em novilíngua, ‘duplipensar’.”


O CONTROLE DA REALIDADE

“Winston deixou cair os braços e lentamente tornou a encher os pulmões de ar. Seu espírito mergulhou no mundo labiríntico do duplipensar. Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras  cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra ‘duplipensar’ era necessário usar o duplipensar.”


CAPÍTULO 4

BURACOS DA MEMÓRIA

Qualquer papel ou documento encontrado pelo chão ou os exemplares utilizados no departamento de registro para refazer o passado escrito em jornais, revistas, livros ou em qualquer outra forma de registro documental deveriam ser incinerados nos buracos da memória.

“Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado (...) Toda a história era um palimpsesto...”

“(...) e daí a mentira selecionada passaria aos anais permanentes, tornando-se verdade”


EXPURGOS HUMANOS

“(...) labutava dia após dia, não fazendo outra coisa senão procurar e suprimir da imprensa os nomes de pessoas vaporizadas, e portanto consideradas inexistentes”

“Os grandes expurgos, envolvendo milhares de pessoas, com julgamentos públicos (...) não ocorriam senão de dois em dois anos. O mais comum era as pessoas caídas na antipatia do Partido sumirem simplesmente, e nunca mais se ouvir falar delas”


COMUNICAÇÃO DE MASSAS PARA ENTORPECER PROLETARIADO

“Neles (departamentos especializados) eram produzidos jornalecos ordinários que continham pouca coisa mais que notícias de esporte, polícia e astrologia, sensacionais noveletas de cinco centavos, filmes transbordando de sexo...”

IMPESSOA – novilíngua para pessoas expurgadas: “já era, não existia, nunca existira”.


CAPÍTULO 5

NOVILÍNGUA

“- É lindo destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados (...) Cada palavra contém em si o contrário. ‘Bom’, por exemplo. Se temos a palavra ‘bom’, para que precisamos de ‘mau’? ‘Imbom’, faz o mesmo efeito...”

“- Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la...”

“(...) A revolução se completará quando a língua for perfeita. Novilíngua é Ingsoc e Ingsoc é Novilíngua...”

“Como será possível dizer ‘liberdade é escravidão’, se for abolido o conceito de liberdade? Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje o entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência.”


ORTODOXIA É IGUAL A INGSOC

 “Fosse o que fosse, podia-se ter a certeza de que cada palavra era pura ortodoxia, puro Ingsoc.”


FACECRIME

“Era terrivelmente perigoso deixar os pensamentos vaguearem num lugar público, ou no campo de visão duma teletela. A menor coisa poderia denunciá-lo. Um tique nervoso, um olhar inconsciente de ansiedade, o hábito de falar sozinho – tudo que sugerisse anormalidade, ou algo de oculto.”


CAPÍTULO 6

O SEXO NO MUNDO DE “1984”

“(...) nenhuma mulher do Partido usava perfume, nem se podia imaginar que fizesse tal coisa. Só os proles usavam perfume. Para ele, aquele cheiro trazia à mente o ato sexual”

“Tacitamente, o Partido se inclinava até a incentivar a prostituição, para dar saída a instintos que não podiam ser totalmente suprimidos...”


INSEMART

“O objetivo do Partido não era simplesmente impedir que homens e mulheres criassem lealdades difíceis de controlar. Seu propósito real, não declarado, era roubar todo o prazer ao ato sexual...”

“Todos os casamentos entre membros do Partido tinham de ser aprovados por um comitê nomeado para esse fim...”

“Todas as crianças deveriam nascer por inseminação artificial (insemart) e educadas em instituições públicas...”


(outras postagens virão sobre a sequência da obra...)

Bibliografia:
ORWELL, George. 1984. Companhia Editora Nacional, tradução de Wilson Velloso, 1978. 11ª edição. 


Post Scriptum:

Em 10/9/13, compartilhei essa postagem no Facebook com o seguinte comentário:

"LITERATURA E POLÍTICA: Olá amig@s, eu gosto muito de ler e resenhar e ou destacar trechos de obras em meu blog de cultura. Dá um trabalhão, mas é minha maneira de contribuir na rede mundial com o conceito WIKI - What I Know Is (o que eu sei é...)
Essa obra de Orwell critica o totalitarismo. O tema é sempre atual e importante. Serve para questionar regimes à direita e à esquerda. Abraços e boa leitura aos que encararem o post."

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Leviatã, introdução - Thomas Hobbes (I)


Capa original de 1651.
Fonte: Wikipedia


Texto publicado em 1651 na Inglaterra


LEITURA

A ideia geral do livro de Hobbes está exposta na introdução. É bem interessante.

Como esse é um clássico que pouca gente leu, pensei em colocar o trecho abaixo para se ter uma ideia do que o autor discorrerá na obra.

Já li alguns capítulos do livro. Provavelmente, como quase tudo que leio, não passarei de algumas páginas. Mas a ideia do Leviatã está exposta abaixo.


INTRODUÇÃO

“Do mesmo modo que tantas outras coisas, a natureza (a arte mediante a qual Deus fez e governa o mundo) é imitada pela arte dos homens também nisto: que lhe é possível fazer um animal artificial. Pois vendo que a vida não é mais do que um movimento dos membros, cujo início ocorre em alguma parte principal interna, por que não poderíamos dizer que todos os autômatos (máquinas que se movem a si mesmas por meio de molas, tal como um relógio) possuem uma vida artificial? Pois o que é o coração, senão uma mola; e os nervos, senão outras tantas cordas; e as juntas, senão outras tantas rodas, imprimindo movimento ao corpo inteiro, tal como foi projetado pelo Artífice? E a arte vai mais longe ainda, imitando aquela criatura racional, a mais excelente obra da natureza, o Homem. Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado, ou Cidade (em latim Civitas), que não é senão um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o homem natural, para cuja proteção e defesa foi projetado. E no qual a soberania é uma alma artificial, pois dá vida e movimento ao corpo inteiro; os magistrados e outros funcionários judiciais ou executivos, juntas artificiais; a recompensa e o castigo (pelos quais, ligados ao trono da soberania, todas as juntas e membros são levados a cumprir seu dever) são os nervos, que fazem o mesmo no corpo natural; a riqueza e prosperidade de todos os membros individuais são a força; Salus Populi (a segurança do povo) é seu objetivo; os conselheiros, através dos quais todas as coisas que necessita saber lhe são sugeridas, são a memória; a justiça e as leis, uma razão e uma vontade artificiais; a concórdia é a saúde; a sedição é a doença; e a guerra civil é a morte. Por último, os pactos e convenções mediante os quais as partes deste Corpo Político foram criadas, reunidas e unificadas assemelham-se àquele Fiat, ao Façamos o homem proferido por Deus na Criação.

Para descrever a natureza deste homem artificial, examinarei:

Primeiro, sua matéria, e seu artífice; ambos os quais são o homem.

Segundo, como, e através de que convenções é feito; quais são os direitos e o justo poder ou autoridade de um soberano; e o que o preserva e o desagrega.

Terceiro, o que é um Estado Cristão.

Quarto, o que é o Reino das Trevas.

(...)”


Bibliografia:

HOBBES DE MALMESBURY, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. Coleção Os Pensadores. Nova Cultural, edição 1999.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Crónica de una muerte anunciada - Gabriel García Márquez


Capa da edição que li.

Crónica de una muerte anunciada – Gabriel García Márquez


CLÁSSICO COLOMBIANO de 1981


Li este livro de García Márquez em 2005. Reli agora.

“El día en que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana para esperar el buque en que llegaba el obispo. Había soñado que atravesaba un bosque de higuerones donde caía una llovizna tierna, y por un instante fue feliz en el sueño, pero al despertar se sintió por completo salpicado de cagada de pájaros. ‘Siempre soñaba con árboles’, me dijo Plácida Linero, su madre, evocando 27 años después los pormenores de aquel lunes ingrato. ‘La semana anterior había soñado que iba solo en un avión de papel de estaño que volaba sin tropezar por entre los almendros’, me dijo. Tenía una reputación muy bien ganada de intérprete certera de los sueños ajenos, siempre que se los contaran en ayunas, pero no había advertido ningún augurio aciago en esos dos sueños de su hijo, ni en los otros sueños con árboles que él le había contado en las mañanas que precedieran a su muerte” (Fortes traços iniciais na obra de G. G. Márquez)


Antes da leitura desta obra curta, porém de forte impacto, havia lido o mais clássico dos clássicos do autor – Cem anos de solidão, de 1967.

Assim como sempre me chamou a atenção o nome de sua maior história, pois me remete a uma solidão imensa, dolorosa e profunda – e que sempre senti -, “Crônica de uma morte anunciada” também tem um nome muito chamativo.

Quantos de nós não vemos situações que, no fundo, já sabemos que o final será a morte ou evento catastrófico?

Por exemplo, quanto tempo fiquei esperando por aquele telefonema que recebi dizendo que meu pai havia sofrido um infarto? Tudo na crônica de sua vida indicava aquilo. Tudo!

Agora mesmo, a crônica da sobrevida de meu pai, e a crônica da vida cotidiana daquela casa onde meus pais vivem é algo anunciado.


Fui estudante de letras e terminei o bacharelado. Apesar disso, a crônica de minha vida torta levou-me a outros destinos que não fossem viver e apreciar o mundo das letras. Os acasos não me levaram a viver e me sustentar em função das letras.

Como leitor amador, partilho com os leitores do blog minha impressão sobre a leitura desta crônica funérea de Santiago Nasar.

O LIVRO É MUITO BOM!

A história

O narrador-personagem volta a sua cidade natal, muitos anos depois do assassinato de Santiago Nasar, para buscar informações e tentar reconstituir o crime que marcou sua infância, pois ele narrador era membro daquela comunidade que presenciou evento tão bárbaro. Mais que isso, havia relação de amizade entre a vítima e as pessoas de seu relacionamento.

Os personagens da comunidade se conhecem. Uns são meio aparentados dos outros. É fácil visualizar isso para aqueles que cresceram ou já viveram em cidades pequenas ou de interior.

Onde cresci, em Uberlândia, nos anos oitenta, vi assassinatos a facadas assim. Esses crimes de armas brancas eram comuns. É horrível a cena deste tipo de crime!

Pelo que pude averiguar, a história se trata de caso verídico ocorrido na comunidade onde viveu Gabriel García Márquez.

A técnica narrativa

O mais fascinante na obra é a forma como García Márquez reconstitui o assassinato, buscando entender e deixando pistas de que as casualidades foram determinantes para que efetivamente Santiago Nasar fosse morto pelos irmãos Vicario.

Para os estudantes de letras, com tempo e foco no estudo literário, sugiro a leitura tranquila e crítica, que permita avaliar a técnica do tempo narrativo e do formato pouco comum de história que começa do fim para o começo.

Não é qualquer escritor que alcança o objetivo de cativar o leitor já dizendo de cara o desfecho da história e, dali, começar a voltar passo a passo até finalizar no evento que já sabemos.

Essa técnica de García Márquez é demais. Alguém se lembra de como começa a saga secular da família Buendía em “Cem anos de solidão”?

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo…”

É isso!

Ler é uma das melhores aptidões do ser humano. É pena que seja a minoria no mundo que tenha o hábito deste prazer.


Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Crónica de una muerte anunciada. DeBolsillo, 7ª edición. Editorial Sudamericana S.A. Buenos Aires, 2005.