quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Artigo de Izaías Almada: A síndrome Safatle/Dutra (I)


Apresentação do blog

Segue artigo muito bom do escritor Izaías Almada, publicado no site Carta Maior.

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Imoral não é a posse do deputado José Genoino, como querem alguns, inclusive em nichos de esquerda. Imoral é atacar a democracia pelas costas, desrespeitar a Constituição e vender o Brasil por trinta dinheiros, tentando se criar um clima de violência e insegurança.

Por Izaías Almada, em Carta Maior


O Deputado José Genoino ao declarar em Brasília na última semana, um dia antes da sua posse legal e garantida pela Constituição, que o atual jornalismo brasileiro se transformou em nova forma de tortura dos cidadãos, escancarou para o País a sua divergência com o governo quanto à necessidade de uma reforma da Lei de Meios no Brasil. Não que o tenha feito com essa intenção, o que posso garantir por conhecer o deputado, mas foi o desabafo de um brasileiro que se sente perseguido e injustiçado pela forma com a qual a imprensa e o judiciário trataram a questão do “mensalão” (que ainda não se provou, é bom que se diga) e que mostra claramente a diferença entre os que lutam toda a vida, como dizia Bertolt Brecht, e os que lutam por pouco tempo, em particular aqueles que se deixam levar pelo canto da sereia do poder.

O episódio é emblemático para a agenda política de 2013, ano em que o xadrez eleitoral mexerá suas peças com muito cuidado por parte do governo e – para não fugir ao figurino – incivilizadamente por parte da oposição. A atitude da presidente Dilma, adiando a discussão sobre a Lei de Meios, poderá sair cara ao governo, pois evidencia uma estratégia, se é que se pode chamar assim, no mínimo incoerente para um governo que fala e age democraticamente, promove distribuição de riqueza, é verdade, mas que a distribui desproporcionalmente, considerando-se o número de contemplados, quando despeja milhões e milhões de reais a mais para o maior inimigo da democracia brasileira no momento, a imprensa venal e o oligopólio de seis famílias em que se sustenta.

A tese do “controle remoto”, tão ao gosto da presidente Dilma Rousseff, é uma falácia que depõe contra a sua sensibilidade e inteligência. Uma metáfora recorrente e de gosto e constatação duvidosas, que se contrapõe a realidade, pois poderemos mudar de canal, emissora de rádio ou jornal e a má qualidade do que se vê e lê, bem como a manipulação da informação, será sempre a mesma. E nessa manipulação no terreno da política, nos últimos dez anos, a vítima tem sido invariavelmente o governo, em particular o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores.

Para não voltar muito no tempo, basta que olhemos as recentes e indefectíveis retrospectivas das revistas semanais, dos jornalões e dos canais de televisão do ano que findou e lá estará estampada entre outras e sem o menor pudor esta pérola: o ano em que se começou a combater a corrupção no Brasil. Dá para levar a sério? A quem querem enganar? Quem começou combater a corrupção, o STF? De qual corrupção está se falando? A do Banestado… lembram-se? A da lista de Furnas, onde até o assassinato de uma modelo tenta-se encobrir? Da Privataria tucana? Da CPMI Veja/Cachoeira, que não ouviu a bandidagem? E as concorrências para obras do metrô na cidade de São Paulo, a Alston e a corrupção investigadas na Europa? O Rouboanel e inúmeros outros casos de corrupção comprovada contra o patrimônio público em vários estados da federação que sequer são lembrados pela mídia, envolvendo o DEM, o PSDB, o PPS etc?… A propósito, aguardo com ansiedade o novo livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Chega a ser indecente, para dizer-se o menos, essa tentativa de parte da oposição brasileira em querer tapar o sol com a peneira, esquecendo-se da corrupção em que está atolada até o pescoço e que já ultrapassou há tempos qualquer limite de irresponsabilidade, e querer imputá-la aos seus principais adversários. Tudo sob o exercício do jornalismo irresponsável e de mão única, selvagem e mentiroso, esse que a presidente procura defender sob argumentos pouco sólidos.

E assim entramos em 2013. Dúvidas, esperanças, temores. Cada ano novo se inicia da mesma maneira para qualquer um de nós. Aos mais velhos resta a amargura de ver que pouca coisa muda no terreno das esperanças, que aumentam as dúvidas e – dependendo do otimismo ou do pessimismo de cada um – revigoram-se os temores.

O mundo continua a digerir a crise econômica iniciada em 2008, com o governo de muitos dos principais países ricos ainda às escuras e às apalpadelas, buscando apagar o incêndio, mas sem saber se não sobram brasas adormecidas que o possam reacender sob pequenos ventos a surgir não se sabe bem de onde. A propósito, recomendo a leitura de artigo do economista Paul Krugman e se encontra traduzido no portal Carta Maior.

O estrago causado pelo neoliberalismo econômico com as suas teses de estado mínimo e mercado máximo, os prejuízos causados a milhões de trabalhadores na Europa, nos EUA, parte da Ásia e África, o salve-se quem puder geral, mesmo com o surpreendente desempenho da América Latina nesse novo cenário nos últimos anos, configuram o traçado de uma nova geopolítica de atenção, com viés de sinal amarelo, deixando a humanidade em suspense e ansiosa para o que poderá acontecer nesse 2013 que se inicia.

O estado de saúde de dois grandes líderes, Nelson Mandela e Hugo Chávez, não trazem bons augúrios, bem como a possibilidade de nova intifada na Palestina. Por aqui, teremos que aguentar a direita relinchar pelas páginas dos jornais, câmeras de televisão e microfones de rádios, destilando o seu veneno de falsa democracia e exercendo (ou impondo) o seu direito de crítica sem resposta, num dignificante exemplo de como entende e pratica a democracia.

Imoral não é a posse do deputado José Genoino, como querem alguns, inclusive em nichos de esquerda. Imoral é atacar a democracia pelas costas, desrespeitar a Constituição e vender o Brasil por trinta dinheiros, tentando se criar um clima de violência e insegurança. Exigir a autocrítica e a renúncia de homens como Genoino e Dirceu pode, a princípio, parecer um ato de sabedoria política, mas no fundo implica em aceitar a condenação imposta por um julgamento de exceção, por um tribunal de atitudes parafascistas. E com o fascismo, todo cuidado é pouco! Venha ele de onde vier…


Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Entrevista: Ideologia e Contraideologia - Alfredo Bosi


Apresentação do texto:

Eu criei este blog com o intuito de ele ser um espaço de reflexão sobre literatura e história e, sobretudo, estudos universitários na área das Letras. Depois sua utilidade foi sendo ampliada, abrangendo comentários sobre filmes, política e demais questões da sociabilidade humana.

Gosto de arquivar aqui textos que li e gostei, sempre citando a fonte. Também publico excertos de livros que venho lendo nos últimos tempos. 

O blog já ajudou várias pessoas ao longo desses anos, pois algumas delas já me agradeceram por isso. As pessoas foram buscar informações na Rede Mundial de Computadores (internet) e caíram aqui.

Dentro deste espírito de divulgação e arquivo de bons textos e boas informações, segue abaixo a entrevista do professor Alfredo Bosi, concedida à revista CartaCapital na edição 598, de 2 de junho de 2010.

É uma bela aula de saber que fala sobre Ideologia, Contraideologia, o PT dos primeiros anos, o Partido Comunista Italiano, Machado de Assis, Celso Furtado e demais autores que sempre contestaram o status quo. Também tem outras curiosidades contadas por Bosi e que estão em seu livro.

Os sublinhados no texto foram destacados pelo blog.

Boa leitura, William Mendes


Alfredo Borges.
Foto: Rede Brasil Atual.

Entrevista - Alfredo Bosi

Revista CartaCapital - 02/06/2010


PRECES DE RESISTÊNCIA

O pensador lança livro em que traça uma história dos interesses particulares apresentados como gerais e diz que o populismo foi mal necessário no Brasil 

A ampla casa de Cotia onde mora o professor emérito da Universidade de São Paulo Alfredo Bosi assistiu a momentos cruciais da história brasileira. No final dos anos 70, por exemplo, o terraço da casa abrigou reuniões fraternas com padres de esquerda, sindicalistas e intelectuais que resultariam na criação do Partido dos Trabalhadores. Desde algum tempo, portanto, o autor de Ideologia e Contraideologia (Companhia das Letras, 448 págs., R$ 58) dedica-se, como o partido em seu início, a contestar o status quo.

A nova obra de Alfredo Bosi surge como um dos mais importantes estudos sobre o combate à dominância ideológica. Para realizá-lo, o historiador descreve seis séculos de história do pensamento. Analisa, entre outras, as obras de Francis Bacon, Montesquieu, Condorcet, Hegel, Simone Weil, Antonio Gramsci, Celso Furtado, Joaquim Nabuco e Machado de Assis. Bosi os vê como opositores às ideias que construíram a escravidão, a pobreza, a incultura, o stalinismo, a estupidez. Com elegância e síntese, o professor demonstra nas entrelinhas do livro os mecanismos de sua própria resistência intelectual.

É paciente e metódica a fala desse paulistano de 73 anos que, durante entrevista de duas horas a CartaCapital, por vezes fecha os olhos na direção do interlocutor, como se meditasse ou orasse junto a ele, à procura dos termos exatos que definiriam um pensamento. Quando a frase certa lhe surge entre os retratos familiares distribuídos pela sala, especialmente os de sua mulher, a renomada pesquisadora Eclea, seus olhos se abrem e ele eventualmente sorri.


CartaCapital: Que estudos motivaram este livro? Como ele lhe surgiu?

Alfredo Bosi: O tema da ideologia e da contraideologia já aparece de outras maneiras na minha História Concisa da Literatura Brasileira, de 1970. Durante a ditadura, eu estava motivado pela ideia de que a nossa tinha sido uma cultura oprimida desde a colonização. Ao longo de 400 anos de história, eu encontraria exemplos de narrativas resistentes ao lado daquelas conformistas. Não foi difícil achar, às vezes em um mesmo texto, ambas as posições. Ao estudar os anos 30, época de ouro do romance brasileiro, verifiquei graus de tensão diferentes entre o autor e seu universo. Nos momentos de acomodação, detectei algo que denominei tensão mínima. No outro extremo, havia narrativas conflituosas, de tensão máxima, como as de Graciliano Ramos. Percebi, concomitantemente, momentos de conformismo, de reprodução da ideologia dominante, e de resposta negativa, de interrogação. A monumental História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux me ensinou a ver assim. Por sua formação dialética na Alemanha pré-nazista, Carpeaux tinha sensibilidade para as diferenças internas dos períodos. Um segundo momento de gênese da minha pesquisa foi aquele em que escrevi O Ser e o Tempo da Poesia, em meados dos anos 70. Ainda havia ditadura. Consagro o capítulo Poesia e Resistência às formas de resistência que a poesia, sobretudo a lírica, desenvolveu. Quando os ensaios marxistas voltaram à baila, a partir dos anos 80, favoreceram a eclosão dos trabalhos sobre ideologia, contraideologia e utopia na literatura. Meu livro se situa nessa trajetória e tem motivações na realidade nacional.


CC: Que distinção o senhor faz entre ideologia e contraideologia?

AB: Ambas se articulam como um conjunto de ideias e valores. A diferença é que a ideologia generaliza interesses particulares e os dá como se fossem universais. Por exemplo, a ideologia da competitividade corresponde à luta econômica que a burguesia trava nos meios do poder financeiro e industrial. Mas os ideólogos do capitalista procuram demonstrar que a competição é uma necessidade universal, até fundada na biologia, em Darwin. Para convencer os seus destinatários retoricamente, já que se trata de uma arte de persuadir, os ideólogos criam um discurso justificador universal para esconder seus interesses. Os editoriais dos grandes jornais e das revistas de grandíssimas tiragens são peças ideológicas perfeitas. No caso da contraideologia, a intenção é o bem comum. O escritor contraideológico, que combate a ideologia da competitividade, por exemplo, procura demonstrar que ao lado do que seria o instinto competitivo existe uma tendência solidária. O discurso contraídeológico visa ao bem-comum, não particulariza interesses.


CC: O título de seu livro exclui a designação utopia. Esta é uma palavra condenada?

AB: A origem do termo, significando o não lugar, remete a um ideal extremo, que seria o oposto do lugar onde estamos. É uma forma extremada de contraideologia. Mas a contraideologia, tal como a concebo, pode ter aspectos reformistas. O economista Celso Furtado, por exemplo, tinha propostas reformistas sólidas. Defendia a reforma agrária, a intervenção do Estado na economia. Ele estudava as coisas da maneira como estavam e procurava remover as causas a médio prazo. Falava em repartição de rendas, em imposto progressivo, algo que se realizou nos países escandinavos. O pensamento reformista é também o do historiador e político Joaquim Nabuco, que mesmo dentro do liberalismo percebia a insuficiência daquele modelo e lutava contra a escravidão. Seu liberalismo já propunha leis de reforma agrária no século XIX. Nabuco pensava ser possível a união pelas leis sociais. Essas leis vieram ao Brasil somente depois da Revolução de 30, com Lindolfo Collor, um grande homem sem qualquer relação com seu desastrado neto. Como ministro do Trabalho, percebeu ser preciso outorgar leis trabalhistas como as europeias. Essas leis foram contrastadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, que não queria a implantação do salário mínimo em 1934. A contraideologia crítica, que muitas vezes nos parece pouca coisa, requer luta.


CC: Onde estariam as mentes contraideológicas reformistas na atualidade brasileira?

AB: Aqui seria preciso fazer uma análise minuciosa das iniciativas do governo nos últimos oito anos, até antes, para verificar se esta cunha contraideológica está não apenas na universidade, se ela penetrou na mentalidade de alas políticas. Conhecemos as interessantes iniciativas do governo Lula como o Bolsa Família. Agora, o Estado contempla o doador do trabalho, aquece a economia pela via do consumidor popular. Esta é uma ideia reformista, crítica da posição contrária, que contempla o empresário, o banqueiro. Não sou economista, mas vejo como as coisas estão acontecendo. E espero que continuem acontecendo.


CC: O senhor vê uma ação contraideológica do pensador Antonio Gramsci em relação ao partido que ele ajudou a fundar, o Partido Comunista Italiano?

AB: Gramsci entra em meu livro na sua aproximação com a socialista francesa Simone Weil. Ela defendia que o operário tivesse cultura para reivindicar não só melhor salário, mas outro estilo de vida e participação política. Ela era informada sobre o comunismo russo de 1933, por isso acreditava que o país não faria uma revolução do operariado, mas à custa dele. Gramsci não a conheceu, embora já dissesse que todo homem era um intelectual. Mostro, no livro, as semelhanças de seu projeto com o de Weil. Ela seria mais radical, quase utópica, ao passo que ele tinha os pés no chão. Fez a universidade popular de Turim e dava aulas para operários.


CC: Gramsci era um herético marxista?

AB: Ele ia além do marxismo. Achava que a militância, o proselitismo político, não deveria se dissociar da formação cultural operária. Outra ideia dele era que a educação não fosse muito especializada em seu início. Receava que, atuando como especialista na fábrica muito cedo, o jovem não tivesse a chance de dialogar com outras pessoas em termos de cultura. A ideia de uma formação anterior à especialização técnica é uma conquista de Gramsci. Ele contrariava a ideia capitalista de que a divisão do trabalho deveria ser feita de forma absoluta.


CC: O senhor vê o Partido Comunista Italiano e o Partido dos Trabalhadores heréticos no seu início?

AB: No caso do PCI, havia a crença de que a Revolução Russa, de 1917, seria o modelo da revolução operária. Os primeiros anos do partido, fundado em 1921, foram ortodoxos. Somente quando o stalinismo se intensificou, nos anos 30, percebeu-se que o caminho escolhido na Rússia tinha sido o da ditadura do partido. A formação do PT, que eu segui de perto, foi muito estimulante no final dos anos 70. Eu estava ligado à Pastoral Operária, próxima da esquerda católica. Trabalhei em Osasco inspirado no padre francês Domingos Barbé, que morava em uma pequena comunidade proletária na qual eu dava aulas de História. No terraço de minha casa, em 1979 e 1980, vinham aqui o padre e uma série de operários para discutir o que seria um partido de trabalhadores. De um lado havia a pastoral, de outro, os sindicatos do ABC paulista. E uma terceira força era a de intelectuais, muitos da USP. A esquerda católica, os sindicatos e os intelectuais criaram o partido. Nos anos 80, apareceu a Central Única dos Trabalhadores, um racha nos sindicatos contra o peleguismo. Essa divisão me desagradou. Sempre gostei do Leonel Brizola, o populismo foi um mal necessário para o Brasil. O PT nasceu, então, de pessoas simples que trabalhavam em creches e paróquias, que faziam "mosquitinhos", tiras de papel espalhadas pelas fábricas. Até hoje, aquelas senhoras que distribuíam os panfletos me dizem: "Nós fundamos o partido, professor! Nós jogamos os mosquitinhos!" E, agora, o partido está longe delas.


CC: Por que esse distanciamento ocorreu?

AB: O PT foi fundado como um partido democrático de esquerda, sem estrutura partidária clássica. Quando chegou ao poder, não pôde mais adotar o esquema dos pequenos grupos, já que concorria com outros partidos. Não quero dar uma mensagem pessimista neste momento eleitoral, mas o partido perdeu as características de aglutinação de forças sociais de esquerda. Ele se transformou num partido que eu diria ser de centro-esquerda, afastado da constelação que o criou. Hoje, o que importa é que aquelas mesmas forças que o constituíram estejam vivas e participantes. Estamos numa democracia representativa, não participativa. A força que fazem esses movimentos para bater à porta dos partidos mostra que eles, os movimentos, não são um partido.


CC: O senhor pode nos dar um exemplo de posições ideológicas e contraideológicas que tenha observado recentemente?

AB: Posso citar aquelas em torno da luta ambiental. Quando a expansão capitalista se tornou ameaçadora para a natureza, surgiu a contraideologia que propunha limites à expansão industrial. Celso Furtado, nos anos 70, hesitou em aderir ao ambientalismo. Como economista do desenvolvimento, teve dúvidas quanto à ideia de um crescimento com limites. Convenceu-se ao ver a violência contra a natureza aumentar. O ambientalismo, que era uma contraideologia extremada para ele, passou a ser visto como uma contraideologia racional. E ele aderiu à ideia do desenvolvimento sustentável. Hoje, fico preocupado ao ver, por parte da oposição ao atual governo e dentro dele, esses defensores do desenvolvimento econômico puro e duro colocarem em descrédito a luta ambientalista.


CC: O senhor dedica o último capítulo de seu livro a Machado de Assis. O ceticismo do escritor é um pensamento contraideológico moderno?

AB: Machado apresentou críticas agudas à rotina existencial escravista do século XIX. Mas de 1880 até 1908, ano em que morreu, a análise dos seus textos me dá a ver que detectou um limite para seu liberalismo democrático. Viu os homens como egoístas fundamentais atrás de sua conservação, de seu interesse, de suas paixões. Na maturidade, ele trabalhou de maneira jocosa, irônica, essa crítica à sociedade. O moderno em Machado pode ser observado em ambos os fios. Ele é moderno ao exercer o liberalismo democrático. E é moderno também em verificar os limites da ciência, das filosofias progressistas.


CC: Por que usamos indistintamente os termos moderno e contemporâneo para designar certas tendências do pensamento?

AB: "Contemporâneo" tem uma denotação cronológica, não diz nada do ponto de vista teórico, ao passo que o termo "moderno" se enriqueceu, sobretudo, depois da Revolução Francesa, com conteúdos ligados à emancipação das ideias feudais e dogmáticas. O moderno tem pelo menos duas conotações, de crítica ao passado e de libertação. Nós continuamos usando as duas palavras, porque suas conotações nos interessam de perto.


CC: Como o senhor vê a literatura moderna ou contemporânea?

AB: Gosto de Ferreira Gullar. Reconheço em seus poemas uma força crítica em relação aos males do presente e uma análise profunda do sentimento do homem comum. Ele verbaliza sua angústia. Mas, veja, estou falando do poeta, não do cronista, nem de suas ideias políticas.


CC: E há alguma ficção internacional contemporânea que lhe interesse?

AB: A de Julio Cortázar. Ele tem uma força dramática que não há em Jorge Luis Borges, um contemplador irônico do mundo, um homem de grande erudição. Mas o drama, que me interessa de perto, o conflito entre os personagens, Cortázar mostra de maneira experimental, como um grande escritor contemporâneo, eu diria.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Artigo: Grande Sertão: Veredas - Amor simplesmente...


Cena da minissérie Grande Sertão: Veredas.
Globo quebrou encanto da obra.


Refeição Cultural

INTRODUÇÃO

Estou relendo o clássico de Guimarães Rosas.

Alguns livros e alguns autores são exatamente o que um Leitor ou uma pessoa qualquer precisam quando querem pitadas de sabedorias e frases profundas para parar e entrar em reflexão sobre o viver, sobre o mundo, sobre as coisas.

Sem dúvida nenhuma Guimarães Rosa, José Saramago e Machado de Assis se enquadram neste tipo de autor sábio e mágico que estou dizendo. 

O livro primeiro, pela antiguidade, sobre essas pitadas de sabedoria que afirmo, não poderia ser outro que Don Quijote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra.

Voltemos ao Grande Sertão: Veredas...

(ATENÇÃO: se você não tiver lido o livro, aviso que o texto contém spoiler sobre o final)

Cito abaixo, após minha argumentação, um trecho do monólogo reflexivo e angustiado de toda uma vida do jagunço aposentado Riobaldo Tatarana ao visitante ilustre, "doutor", que, de passagem por sua casa, teve que ficar três dias ouvindo o narrar de uma vida jagunça.

Eu queria ter lido hoje umas cinquenta páginas, mas é impossível não parar para refletir e anotar um pouco do maravilhoso que é o falar de Riobaldo, a riqueza do respeito ao contar e às técnicas narrativas da boa literatura.

MINISSÉRIE DA GLOBO QUEBROU TODO O ENCANTO DA OBRA

Observem que todo o respeito que o jagunço teve em contar ao ''doutor" sua história foi quebrado de cara pela Rede Globo ao fazer nos anos oitenta a minissérie sobre o livro. Todo o segredo mantido e preservado até o fim por Riobaldo ao visitante e a cada leitor que ocupa o lugar do visitante ao abrir a estória, foi arrebentado pelas Organizações Globo e pela família Marinho ao colocar a bela e conhecida atriz Bruna Lombardi no seriado.

Toda a construção do livro se baseia nas confissões de um amor por um amigo, em um amor de um homem por um homem. Riobaldo reflete se aquele amor naquele tempo e naquela situação real do viver não era coisa do "Dêmo", se ele era ou não era "sem-vergonha".

Tudo isso é preservado pelo jagunço aposentado ao narrar ao visitante e aos leitores. 

Então me aparece a Rede Globo, que não tem o mínimo respeito por nada e por ninguém, e quebra o encanto da obra ao fazê-la contando a todos aquilo que nem Guimarães Rosa nem o personagem narrador Riobaldo fizeram.

A TÉCNICA NARRATIVA DE RIOBALDO

"O senhor entenderá, agora ainda não me entende. E o mais, que eu estava criticando, era me a mim contando logro - jigajogas."

Essa é a técnica que o jagunço Riobaldo escolhe para narrar sua história ao visitante. Ele, Riobaldo aposentado, desde o início de sua narração, assume uma posição de contar com o ponto de vista do próprio personagem Riobaldo no passado. Ele quer que o "doutor" vivencie o mesmo tormento que ele viveu ao descrever aquele sentimento estranho pelo amigo Reinaldo.

"Ao que, em tanto, no ouvir falar de Joca Ramiro, o Reinaldo se aproximou. Parecia que ele não gostava de me ver em comprida conversa amiga com os outros, ficava quasezinho amuado. Com o tempo dos dias, fui conhecendo também que ele não era sempre tranquilo igual, feito antes eu tinha pensado. Ah, ele gostava de mandar, primeiro mandava suave, depois, visto que não fosse obedecido, com a sete-pedras. Aquela força de opinião dele mais me prazia? Aposto que não. Mas eu concordava, quem sabe por essa moleza, que às vezes a gente tem, sem tal nem razão, moleza no diário, coisa que até me parece ser parente da preguiça. E ele, o Reinaldo, era tão galhardo garboso, tão governador, assim no sistema pelintra, que preenchia em mim uma vaidade, de ter me escolhido para seu amigo todo leal. Talvez também seja. Anta entra n'água, se rupêia. Mas, não. Era não. Era, era que eu gostava dele. Gostava dele quando eu fechava os olhos. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e do sonho de minhas noites. O senhor entenderá, agora ainda não me entende. E o mais, que eu estava criticando, era me a mim contando logro - jigajogas."

Em todas as passagens da narração, o jagunço pede calma ao ouvinte, dizendo que no final da história se entenderá, ou não. Mas o segredo é mantido.

O que faz a Rede Globo na minissérie, diz aos telespectadores: olha, fiquem tranquilos e podem assistir ao seriado porque não estamos colocando nenhuma "senvergonhice" no ar. No final (desde o início), vocês verão que o Diadorim é a bela Bruna Lombardi e, então, não tem problema de o Riobaldo sentir aquelas coisas por ele (ela) não...

Francamente!

William

Artigo: Ainda não encontrei o que procuro




Refeição Cultural - 6/01/13

Estou em férias neste mês de janeiro. Havia prometido a mim mesmo que seria um mês para refletir sobre minha vida, meu trabalho, minha insatisfação constante e incompletude por não encontrar algo que sempre busquei.

I Still Haven't Found What I'm Looking For... (U2)

Tive um ano de trabalho bastante extenuante. Pouco tempo sobrou para o ócio criativo; para ler literatura; para filosofar e exercitar a curiosidade sobre uma provável razão para a vida ou sobre os rumos dela.

Desde muito tempo, alimento uma esperança de que a busca pelo conhecimento poderia em algum momento aliviar e tranquilizar meu ser, minha existência, minha falta de algo.

Estava lendo uma entrevista da intelectual e filósofa Marilena Chaui (veja o trecho abaixo) dias atrás e fiquei encantado com a descrição dela sobre a emoção que foi o dia que ela descobriu em Espinosa a resposta para o que ela procurava em suas indagações filosóficas do viver. A entrevista é de 1999 e a forma como ela descreve a emoção de achar sua resposta me realimentou a ideia de que se eu tivesse como me dedicar à leitura e aos estudos eu poderia encontrar minhas respostas.

É deprimente acumular pilhas de papéis, revistas, centenas de livros, coisas que me chamam a atenção e que poderiam me dar respostas e não poder dedicar horas de minha jornada de vida para a leitura. É muito frustrante.

Onde está a liberdade? Onde está a minha liberdade de poder fazer o que quero já em idade madura nesta minha existência? Eu imaginava lá na adolescência que a dureza de tentar sobreviver neste mundo miserável para quem não nasceu em berço com propriedades durasse um certo tempo e não a vida toda.

Hoje, todos nós da classe trabalhadora explorada, temos claro que precisamos trabalhar e vender nossa força de trabalho até morrer. Eu não acumulei nada para mudar de classe ao longo das quatro décadas de minha vida. Nem planejei, nem quis isso. Não é de minha natureza querer acumular riqueza e propriedades neste mundo do Capital.

E aí vem a dureza da realidade de meu viver. Não adianta fazer balanço e reflexão sobre minha vida de ontem e de amanhã. Sou proletário. Tenho que vender minha força de trabalho.

O que faço com as pilhas de papéis e materiais que acumulo em casa, no trabalho, em qualquer canto que posso entulhar alguma coisa? Jogo fora? Doo? Chego no final do mês e sigo mais um ano sendo um homem da ação e da formulação sindical que dedica todas, todas as horas de seu dia mês ano às suas funções de militante dirigente?

Qual seria a alternativa em abrir mão disso? Eu não mudaria o meu perfil de brigar e lutar contra o que acho errado como um simples civil cidadão pelas ruas e por aí. Fiz uma leitura de meu passado e lá está o que sempre fui: representante de sala de aula desde a quinta série primária; membro de diretórios acadêmicos e/ou envolvido nas greves das faculdades FITO/Osasco (1992) e FFLCH/USP (2002); síndico de condomínio (1998/99)... (em 1997 ainda causei na faculdade do Náutico por causa dos portões fechados)

É só olhar meu pai e ver que sempre fiz o que ele sempre fez: brigou contra as coisas erradas e as injustiças comuns contra os cidadãos e consumidores explorados. Ele acabou com a sua saúde física e mental fazendo isso por mais de cinco décadas.

Que dureza! Só tenho esta existência, já foi mais da metade dela e eu sigo incompleto, sem achar respostas e sem tempo para procurá-las nos livros, no ócio reflexivo, em intervalos das guerras diárias (quase não tive intervalos).

Me parece que eu sempre busquei uma espécie de paz e nunca encontrei. Não desejo isso a ninguém. Vai saber se não é melhor ser o que essa massa humana é hoje, adormecida nos aparelhos eletrônicos e mantidas a doses de comprimidos de Soma (Admirável Mundo Novo - Huxley)...

Nada de novo no front...

William

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MARILENA CHAUI DESCOBRE ESPINOSA

" - Bom, aí o professor Lívio deu o curso sobre a 'Ética' de Espinosa e, quando chegou na última aula eu estava completamente fascinada, tomada, e nesse clima do senhor/senhora e você não fala nada, do fundo da classe eu disse: 'Professor, isso é o que eu procurei a vida inteira. (risos) Não tem pecado, não tem culpa, não tem livre-arbítrio, não tem Deus juiz, não tem uma onisciência que me governa de fora. Só tem felicidade e alegria, foi isso o que eu procurei'. Assim que acabei de falar, pensei: 'Ih, que horror, dancei, não se fala uma coisa dessas numa classe'. E de lá ele disse para mim: 'Dona Marilena, é a primeira vez que eu vejo amor intelectual em estado puro'. (risos) Aí eu falei: 'Bom, é com esse que eu vou'. E por isso fui estudar Espinosa."

sábado, 5 de janeiro de 2013

Artigo: Papillon (1973) e o desejo de Liberdade




Refeição Cultural

Um filme que nos leva a uma reflexão profunda sobre a luta pela liberdade e pela vida!!!


Finalmente, assisti ao filme Papillon (1973) com Steve McQueen e Dustin Hoffman, dirigido por Franklin J. Schaffner. O filme retrata a história real de Henri Charrière. Ela se passa nos anos 1930 e mostra a luta pela liberdade de um homem condenado injustamente à prisão perpétua como um degredado francês para a Guiana Francesa.

Eu me lembro de uma imagem do filme desde quando eu era criança: Papillon está pendurado nas grades de uma cela e diz em forma de sussurro "- ainda estou vivo, desgraçados!".

Assistindo ao filme, é possível entender o quanto esse homem foi apaixonado pela vida e pela liberdade.

Já me peguei várias vezes ao longo de minha existência refletindo sobre a vida e o valor dela. Eu nunca me imaginei dando valor a minha própria vida como Papillon fazia.

Ele passou meses comendo insetos para sobreviver naquela solitária.

Outro filme belíssimo, que fala sobre o mesmo tema de busca pela liberdade, é Um sonho de liberdade (1995). Também nos faz refletir muito.

O ser humano é capaz de coisas incríveis!

Estou com sono nesta madrugada para escrever tudo que pensei ao longo do filme. Mas o recomendo!

William

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Artigo: Correndo e exercitando a tolerância




Refeição Cultural

Saí para correr hoje à noite. Fui correr no Parque Continental. Foi minha primeira corrida após a São Silvestre. Meu corpo ainda não está totalmente recuperado, mas tenho que forçar para entrar em forma e ter mais energia e vitalidade para enfrentar meus desafios políticos de 2013.

Corri cerca de 6 Km em 43 minutos. Eu precisei exercitar muito minha paciência e tolerância lá onde estava correndo para ficar calado e não procurar uma briga com dois homens acompanhados de uma criança na pista onde corria.

Os imbecis comentavam sobre algo de política e afirmavam que achavam impressionante o quanto só tinha bandido no PT. Foi bem na hora que passei por eles.

Neste mês de férias quero ler com tranquilidade, ver filmes e coisas que me ajudem a refletir sobre a vida e os sentidos para o existir.

Sou um homem da política, sou sindicalista. Represento a classe trabalhadora na luta de classes e não sou isento nem imparcial. Eu tenho lado. Todos têm.

Nestes dez anos que virei dirigente e militante de esquerda mudei radicalmente como pessoa.

Eu precisei aprender a acreditar na luta coletiva, na política e no efeito dela. Me esforcei muito para ser mais tolerante.

O que estamos vivendo no Brasil após a vitória de Lula e do Partido dos Trabalhadores desde 2002 é uma mudança histórica para o bem e para o mal. 

Para o bem: é que o Brasil está melhorando para milhões de pessoas que viviam na miséria e agora têm mais renda e oportunidades na vida. Virou um dos principais países do planeta. O mundo está quebrado e o Brasil administrado pelo PT está indo muito bem, obrigado.

Para o mal: mudou porque a direita e a elite estão alimentando um ódio que vai acabar em guerra civil. Enquanto eu fiquei aprendendo a acreditar na política ao invés da porrada, agora as famílias que controlam a dívida pública, os meios de comunicação privados e as propriedades no país estão alimentando e programando a tomada do poder por algum tipo de golpe civil, jurídico ou militar.

O que eu fiquei pensando hoje foi até quando eu e os militantes de esquerda e progressistas que defendem o projeto que o Brasil está implantando, liderado pelo PT, vamos aguentar essa merda de dizer que petista e sindicalista é bandido.

Minha vontade é responder a essa pequena burguesia ignorante e retardada e não aceitar mais calado esse tipo de alimento fascista e de ódio pregado 24 horas por dia contra o Lula, contra o PT, contra os movimentos sociais, contra nordestinos, negros, homossexuais e demais grupos que não se enquadram na política fascista do PSDB, GLOBO, FOLHA, ESTADÃO, EDITORA ABRIL.

Até quando nós vamos aceitar a transformação do Brasil em um país do ódio e da intolerância pela direita fascista?

Eu estarei preparado para enfrentar esses nojentos da direita. Vou continuar defendendo a política, mas os militantes de esquerda devem se preparar para o que pode vir no Brasil e na América Latina no próximo período.

Os verdadeiros bandidos estão no PSDB, DEM etc e nas famílias da elite branca que não produzem nada e vivem de renda de apropriação indevida e secular dos latifúndios vindos dos séculos passados.

William

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Artigo: Home - Um alerta sobre a vida na Terra




Refeição Cultural

Eu não havia assistido ao documentário Home quando ele foi lançado em 5 de junho de 2009. Acabei vendo hoje em casa e em férias.

Em primeiro lugar, as imagens do nosso planeta são fascinantes. Em segundo lugar, fiquei muito incomodado ao longo das duas horas de filmagem pelas verdades expostas ali sobre o que estamos fazendo com o nosso mundo.

Tenho 43 anos de idade. Esse tempo de existência é um instante se comparado à vida no planeta e ao tempo gasto para a percepção de mudanças climáticas.

No entanto, não é brincadeira a mudança climática que eu percebi entre a infância e os dias de hoje. Na minha infância nos anos setenta havia padrão de tempo nas estações do ano. Havia sim. E hoje?

Se os dados que o filme e as pesquisas estão mostrando se confirmarem sobre o aquecimento global, ainda veremos nos próximos quarenta anos mudanças nunca imaginadas no clima para um período tão curto de tempo. Do tempo do planeta, quero dizer.

Alguém consegue vislumbrar nas próximas décadas uma mudança substancial na causa principal da destruição do planeta? A mudança do sistema capitalista e a criação de necessidades fúteis de consumo de quinquilharias em eterna substituição por um modelo acima a cada pequeno período de tempo?

Eu tenho o mesmo celular para trabalhar há uns 5 anos. Minha TV em casa ainda é de tubo. Minha geladeira tem mais de dez anos de uso. A máquina de lavar tem mais de 15 anos. Todos os produtos que falei funcionam normalmente para aquilo que foram feitos.

Nosso carro mil é de 2005 e ele nunca deu problema e serve perfeitamente para o que foi feito: levar e trazer as pessoas para os locais.

Eu praticamente uso minhas roupas até elas estragarem e isso demora muito.

Para não confundir as coisas, deixo claro que eu defendo que a classe trabalhadora tenha acesso a todas as maravilhas inventadas e construídas pelos humanos e pela própria classe trabalhadora. 

Mas isso não quer dizer que a cada mês seja preciso comprar o modelo posterior feito para desbaratar o anterior de qualquer coisa como computador, celular, carro etc.

Agora, vai falar isso para as pessoas de hoje e para os jovens e crianças de amanhã!

É assustador pensar o que será de nosso mundo. Só consigo ver o mundo e as pessoas como aquele cenário do filme Wall-E.


William

Artigo: Literatura como experiência: O cemitério - Stephen King


Church - bichano voltou em
Pet Sematary.

Refeição Cultural

A sensação do cansaço de Louis Creed em "O Cemitério" de Stephen King

Acordei novamente com o corpo todo talhado. Fiz um esforço absurdo para completar os quinze quilômetros da Corrida de São Silvestre.

Sempre que estou assim, após um tremendo esforço físico feito anteriormente, associo o estado físico à sensação de cansaço descrita pelo escritor Stephen King para o personagem Louis Creed no livro O Cemitério (Pet Sematary - 1983).

A literatura tem essa característica fantástica. Quando lemos um romance, mesmo que seja na tenra idade, estamos alimentando nosso ser com novas experiências. Elas ficarão marcadas em nossas memórias, de maneira que, sempre que precisarmos, teremos de onde puxar na memória acontecimentos que vão nos servir de experiência ou de comparação.

Eu era adolescente quando li O Cemitério. No entanto, nunca me esqueci da parte do livro que descreve a tremenda dificuldade que o pai teve para atravessar a montanha de gravetos com o corpo de seu filho Gage para enterrá-lo no antigo cemitério indígena.

Antes, o pai havia feito o caminho com o gatinho morto, Church, nas mãos, para encontrar o cemitério de animais e enterrá-lo lá, na esperança de que o gatinho voltasse vivo para casa, de maneira a atenuar o sofrimento de sua filha Ellie, a dona do gato.

O autor Stephen King conseguiu me passar o estado de cansaço de Louis Creed durante toda a aventura. Ele saiu de casa à noite, atravessou a floresta, cavou e enterrou o pequeno Gage e fez todo o caminho de volta. Me lembro que ele chegou e caiu prostrado na cama ainda todo sujo de terra.

Literatura é isso. Toda vez que estou com o corpo arrebentado após algum esforço físico no extremo, me sinto como Louis Creed após visitar o Pet Sematary.

William

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Refeição Cultural - Completei a São Silvestre 2012

Mesmo com o pé ruim, completei minha 5ª São Silvestre. YESSSS!


EU CONSEGUI ALCANÇAR O OBJETIVO DE CORRER A SÃO SILVESTRE E COMPLETÁ-LA.


Eu sou um bicho danado. Sou obstinado. Só eu mesmo pra saber o quanto foi emocionante pra mim completar os 15 km da 88ª corrida de São Silvestre.

Por que minha emoção na façanha aparentemente comum de correr mais uma São Silvestre? Explico.

Não corri a prova em 2011 em protesto por retirarem a chegada da prova da Avenida Paulista naquele ano. Achei uma falta de respeito com cerca de trinta mil corredores, pois mandaram a chegada para o Parque do Ibirapuera e lá não tem facilidade de transporte para as pessoas voltarem pra casa após a longa corrida.

Após ver que voltaram atrás e retornaram a chegada da prova para a Avenida Paulista, resolvi correr pela 5ª vez a prova. Só tinha um agravante na minha decisão: trabalhei muito neste ano, em alguns períodos foram umas 70 horas por semana, e praticamente não fiz esporte com regularidade. Minha condição física estava bem abaixo da minha média.

Iniciei alguns treinos desde 1º de dezembro. Foram poucos e ainda trabalhei intensamente neste mês.

Tudo ia bem até o Natal. Lá em Uberlândia resolvi correr um longão no domingo 23 e fiz 10 km. Fiquei muito feliz no dia porque meu corpo aguentou. 

Porém, aquele treinamento de resistência me empolgou demais e acabei não descansando nos dias seguintes. Logo na segunda 24 caminhei mais 5 km e na terça 25 acabei correndo mais 4 km. Resultado: peguei algum tipo de inflação nos tendões da planta do pé e quase não consegui pisar com o pé esquerdo do dia 26 até ontem 30.

Eu estava muito chateado e pensando o que fazer a respeito da prova de hoje. Eu não queria desistir de jeito nenhum. Acabei fazendo algo que não recomendo pra ninguém. Acordei cedo, coloquei um tênis bem novo (com amortecedor de pisada em ordem) e fui pra Paulista disposto ao menos a caminhar os 15 km da prova.

Lá chegando acabei entrando no clima da prova (só quem vai lá pode entender que coisa gostosa) e após passar o tapete do cronômetro de largada, sai no meu trote lento e fui indo, indo, indo e do meu jeito acabei completando a prova.

Meu corpo resistiu bem. Concentrei muito o pensamento em mim e no meu objetivo e fiz a prova correndo (andei muito pouco nos 15 km).

Fiz o percurso em 115 minutos.

É isso. Fiz minha romaria de 85 km em agosto e corri a minha 5ª São Silvestre.

Em tese, entro o ano de 2013 com muita energia para enfrentar as dificuldades, os adversários e os inimigos da classe trabalhadora.


SOMOS FORTES, SOMOS CUT!
SOU UMA PESSOA DETERMINADA!

domingo, 30 de dezembro de 2012

Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa






GRANDE SERTÃO: VEREDAS - JOÃO GUIMARÃES ROSA

CLÁSSICO BRASILEIRO DE 1956


COMENTÁRIO:

Este é um dos livros de maior relevância da literatura brasileira. Eu digo que a nossa literatura tem Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa como momentos decisivos de nossa cultura literária em relação aos romances.

Eu o li no início dos anos dois mil, depois que entrei na USP.

Apesar de ser um marco tão importante, acredito que pouca gente entenda o seu significado real.

Após uma longa construção histórica de nossa literatura tupiniquim, um autor colocou um homem de nossa terra, comum, do povo, que não estava no circuito do poder – não era homem branco, católico, capitalista, proprietário – para falar em primeira pessoa.

O jagunço aposentado com azia e reumatismo, Riobaldo Tatarana, conta sua história a um visitante ilustre (em um certo mês de junho) e já avisa que visita na casa dele são três dias, e a partir daí fala por seiscentas páginas sobre sua vida, suas andanças, seus receios e angústias sobre Deus e o Diabo, sobre o sentimento que nutria por um jagunço companheiro - Diadorim.

É um monólogo, é um desabafo, é um apelo e um pedido de compreensão de si mesmo e da vida dura e rude do povo brasileiro.

Eu afirmo que é uma das experiências literárias mais prazerosas que um leitor possa ter. É leitura para ser feita de forma lenta e sem pressa. De preferência em voz alta. Respeitando todas as pontuações que a tornam lenta e refletida.

Cito abaixo trechos que eu considero de uso para a vida toda.


AS SABEDORIAS DO HOMEM SIMPLES DO SERTÃO

“O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.”


APOSENTADORIA – ESTAR DE RANGE REDE
“Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular ideia. O diabo existe e não existe? (...) Viver é negócio muito perigoso...”

O DIABO NAS COISAS
“Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: ‘menino – trem do diabo’? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes. ...O diabo na rua, no meio do redemunho...”

“Arre, ele está misturado em tudo.” (o diabo)

TODO MUNDO É BOM (PRA ALGUÉM)
“O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens.”

“O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão.”

“Ave, vi de tudo, neste mundo! Já vi até cavalo com soluço... – o que é a coisa mais custosa que há.”

SABEDORIA
“O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

FIXAR EM LEI QUE O DIABO NÃO EXISTE
“Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembleias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!”

PODIA SER PADRE, FUI SER JAGUNÇO
“Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido. Mas minha velhice já principiou, errei de toda conta. E o reumatismo... Lá como quem diz: nas escorvas. Ahã.”

QUERER O BEM DEMAIS JÁ PODE SER QUERER O MAL
“Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.”

DEUS É PACIÊNCIA
“o ruim com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar – Deus espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja.”

NO SERTÃO MANDA QUEM É FORTE
“Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...”

PRIMEIRA CITAÇÃO DE DIADORIM
“(contando sobre uma fuga durante batalha) se aquele bicho irara tinha jazido lá, então ali não tinha cobra. Tomei o lugar dele. Existia cobra nenhuma. Eu podia me largar. Eu era só mole, moleza, mas que não amortecia os trancos, dentro, do coração. Arfei. Concebi que vinham, me matavam. Nem fazia mal, me importei não. Assim, uns momentos, ao menos eu guardava a licença de prazo para me descansar. Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele. Um João-congo cantou. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim, mano-oh-mão, que estava na Serra do Pau-d’Arco, quase na divisa baiana, com nossa outra metade dos sô-candelários... Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu ia-voava reto para ele... Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas...”

A MALDADE JÁ FOI PIOR
“Vi tanta cruez! Pena não paga contar; se vou, não esbarro. E me desgosta, três é bom de coração. Isto é, bom no trivial. Malícias maluqueiras, e perversidades, sempre tem alguma, mas escasseadas. Geração minha, verdadeira, ainda não eram assim. Ah, vai vir um tempo, em que não se usa mais matar gente... Eu, já estou velho.”

AS PESSOAS NÃO ESTÃO TERMINADAS
“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.”

AMOR VEM DE AMOR (DIADORIM É MINHA NEBLINA)
“Queremos é trabalhar, propor sossego. De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina...”

VENDER SUA PRÓPRIA ALMA...
“Pois. Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível. O senhor não acha? Me declare, franco, pelo. Ah, lhe agradeço. Se vê que o senhor sabe muito, em ideia firme, além de ter carta de doutor. Lhe agradeço, por tanto. Sua companhia me dá altos prazeres.”

SERTÃO É...
 “Em termos, gostava que morasse aqui, ou perto, era uma ajuda. Aqui não se tem convívio que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...

O LONGO MONÓLOGO DO EX-JAGUNÇO (3 DIAS)
“Eh, que se vai? Jàjá? É que não. Hoje, não. Amanhã, não. Não consinto. O senhor me desculpe, mas em empenho de minha amizade aceite: o senhor fica. Depois, quinta de-manhã-cedo, o senhor querendo ir, então vai, mesmo me deixa sentindo sua falta. Mas, hoje ou amanhã, não. Visita, aqui em casa, comigo, é por três dias!”

SAÚDE DO JAGUNÇO APOSENTADO NÃO PERMITE ACOMPANHAR A VISITA PELA REGIÃO
“Mas, então, para uma safra razoável de bizarrices, reconselho de o senhor entestar viagem mais dilatada. Não fosse meu despoder, por azías e reumatismo, aí eu ia. Eu guiava o senhor até tudo.”

SAUDADES
“O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração... Ah.”

DOIS JAGUNÇOS DE AMIZADE DIFERENCIADA
“Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam.”

“Por mim, só, de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria boca; mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida.”

O ÓDIO DE DIADORIM
“E ele suspirava de ódio, como se fosse por amor; mas, no mais, não se alterava. De tão grande, o dele não podia mais ter aumento: parava sendo um ódio sossegado. Ódio com paciência; o senhor sabe?”

O GOSTAR... DIFÍCIL CONFISSÃO DE UM JAGUNÇO
“Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um acêso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, e também, recesso dum modo, a raiva incerta, por ponto de não ser possível dele gostar como queria, no honrado e no final. Ouvido meu retorcia a voz dele. Que mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.”

PORQUE DO RELATO DO JAGUNÇO AO FORASTEIRO
“O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?”

OS APELIDOS DO DEMO
“E as ideias instruídas do senhor me fornecem paz. Principalmente a confirmação, que me deu, de que o Tal não existe; pois é não? O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Côxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos... Pois, não existe! E, se não existe, como é que se pode se contratar pacto com ele?”

SAUDADE = VELHICE
“Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.”

ÓRFÃOS – TÃO COMUM
“Não me envergonho, por ser de escuro nascimento. Órfão de conhecença e de papeis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões.”

NOMES DOS LUGARES – DEVIA SER PROIBIDO MUDAR
“Todos os nomes eles vão alterando. É em senhas. São Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e o Bagre não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que podem remover uns nomes assim? O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado. Lá como quem diz: então alguém havia de renegar o nome de Belém – de Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no presépio, com Nossa Senhora e São José?! Precisava de se ter mais travação.”

MEDEIRO VAZ – O QUIXOTE DO SERTÃO
“Mas vieram as guerras e os desmandos de jagunços – tudo era morte e roubo, e desrespeito carnal de mulheres e donzelas, foi impossível qualquer sossego, desde em quando aquele imundo de loucura subiu as serras e se espraiou nos gerais. Então Medeiro Vaz, ao fim de forte pensar, reconheceu o dever dele: largou tudo, se desfez do que abarcava, em terras e gados, se livrou leve como que quisesse voltar a seu só nascimento. Não tinha bocas de pessoa, não sustinha herdeiros forçados. No derradeiro, fez o fez – por suas mãos pôs fogo na distinta casa-de-fazenda, fazendão sido de pai, avô, bisavô – espiou até o voejo das cinzas; lá hoje é arvoredos. Ao que, aí foi aonde a mãe estava enterrada – um cemiteriozinho em beira do cerrado – então desmanchou cerca, espalhou as pedras: pronto, de alívios agora se testava, ninguém podia descobrir, para remexer com desonra, o lugar onde se conseguiam os ossos dos parentes. Daí, relimpo de tudo, escorrido dono de si, ele montou em ginete, com cachos d’armas, reuniu chusma de gente corajada, rapaziagem dos campos, e saiu por esse rumo em roda, para impor a justiça.”

CORAJOSO? COMO SER VALENTÃO?
“Eu estava meio dúbito. Talvez, quem tivesse mais receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. Confesso. Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era variável. Ah, naqueles tempos eu não sabia, hoje é que sei: que, para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade!”

AS RUINDADES DOS CANGACEIROS – A ETERNA VIOLÊNCIA
“as ruindades de regra que executavam em tantos pobrezinhos arraiais: baleando, esfaqueando, estripando, furando os olhos, cortando línguas e orelhas, não economizando as crianças pequenas, atirando na inocência do gado, queimando pessoas ainda meio vivas, na beira de estrago de sangues... Esses não vieram do inferno? Saudações. Se vê que subiram de lá antes dos prazos, figuro que por empreitada de punir os outros, exemplação de nunca se esquecer do que está reinando por debaixo. Em tanto, que muitos retombam para lá, constante que morrem... Viver é muito perigoso.”

OS GOSTARES
“Antes palavras que picaram em mim uma gastura cansada; mas a voz dele era o tanto-tanto para o embabo de meu corpo. Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele – os gostares...”


Bibliografia:
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira. 19ª edição.