domingo, 31 de março de 2013

Filme: O Palhaço (reflexões...)


Filme de uma reflexão profunda.

Refeição Cultural - A busca é pra sabermos o que somos

Iniciei o feriado de Páscoa sentindo um forte cansaço e quase em estado catatônico. Minha vida sindical, meu trabalho, tem sido marcada por um alto nível de estresse.

Pensei em ler um livro, mas concluí que não iria dar conta. Pensei em assistir a alguns filmes que comprei, filmes políticos, e também concluí que não ia rolar.

Aí peguei para ler um livro de contos de um autor que nunca havia lido. Peguei o José J. Veiga - Os cavalinhos de Platiplanto, lançado em 1959. O autor é um dos principais representantes brasileiros do Realismo Mágico. Já li alguns contos.

Em termos de filmes, assisti na sexta-feira Cavalo de Guerra, de 2011, dirigido por Spielberg. O filme me deu muita agonia pelo sofrimento do cavalo. Passei raiva.

Bem, finalmente, cheguei ao filme de Selton Mello.


"NÃO TÔ DANDO CONTA!" (BENJAMIM)

(este trecho revela partes do filme)

O filme é sobre um grupo circense que percorre o país nos anos setenta. Benjamim (Selton Mello) é o palhaço Pangaré e seu pai (Paulo José) é o Palhaço Puro Sangue. O circo é o Esperança.

Benjamin vive muito infeliz, apesar de ser muito eficiente em sua profissão - palhaço - e fazer a alegria dos outros.

Lendo a história do roteiro do filme feito pelo próprio Selton Mello, descobri que ele criou o roteiro num momento de depressão e busca existencial em sua vida.

A mensagem do filme, passada pelos palhaços, é de que a gente é o que é. Um rato come queijo, um gato bebe leite e eles são palhaços.


E EU, SOU O QUÊ?

Benjamim foi em busca de descobrir o que ele era para encontrar a felicidade. Benjamin descobriu que ele era realmente o palhaço Pangaré. E ficou feliz por isso.

O que eu sou? No Brasil, sindicalista não é profissão. Diz-se que é uma representação passageira. "Estou" sindicalista.

De certa forma, isso é um problema. Troquei um década de estudos filosóficos e busca existencial para ser o melhor representante que pudesse ser. 

Perceberam que sou um bom sindicalista assim que terminou meu primeiro mandato entre 2002/05. Fui disponibilizando meu nome para as chapas e para as tarefas e missões que o movimento cutista me designou.

"O rato come queijo, o gato toma leite, eu sou palhaço" (Benjamim - palhaço Pangaré)

Por tudo que estudei e compreendi nesta década a respeito do movimento sindical e por toda experiência que vivi e construí para a categoria bancária, temos a realidade de que "sindicalista" não é profissão. E aí?


Eu me formei em Contábeis e não atuei porque havia virado funcionário do Banco do Brasil.

Eu cursei e não terminei meu curso de Educação Física de maneira que não sou profissional da área.

Eu entrei na USP para fazer Letras, mas como virei sindicalista em seguida, fiz o bacharelado da maneira que deu e a prioridade foi a representação sindical e não posso dizer hoje que sou profissional da área.

Eu sempre achei que bancário não é profissão, apesar de milhares de pessoas passarem a vida laboral trabalhando para os banqueiros.

E aí, sou o quê?

Essa é a pergunta de minha vida neste ponto que cheguei...

Não sou professor de educação física, não sou contador, não sou professor de português, espanhol, literatura.

Meu roteiro não está escrito para poder rodar meu filme... Não sou palhaço. Estou bancário. Espero ter a sorte de Benjamim e encontrar a felicidade.


William Mendes

domingo, 24 de março de 2013

Artigo: Lutar com dedicação e fazer o que se deve ser feito


Refeição Cultural


Era sábado. Dormi um cochilo no sofá e acordei com o pensamento nos problemas que tenho enfrentado como dirigente nacional do funcionalismo do Banco do Brasil. Isso vem ocorrendo há semanas. Eu sou focado e obcecado por aquilo que me proponho a fazer. Quanto mais os desgraçados do banco prejudicam o funcionalismo, mais eu foco o pensamento em como reverter as merdas feitas por essa gestão do banco do brasil. Eu sempre soube que isso iria acontecer assim que eu aceitasse coordenar nacionalmente o movimento sindical no bb. Evitei isso até o ano passado.

Desde que terminei meu primeiro mandato na executiva do meu sindicato, me destacaram para atuar na confederação para que eu assumisse nacionalmente as questões do bb. Eu havia me destacado nos primeiros anos como dirigente sindical em minha base, principalmente com o meu trabalho de base no bb.

Felizmente, pude me envolver com outras questões além do bb entre 2006 e 2012, pois nos dois mandatos que fiz na confederação até assumir a coordenação nacional do funcionalismo ano passado, fui secretário de imprensa e depois secretário de formação sindical. Ambas tarefas me fizeram estudar muito e crescer como pessoa e como militante de esquerda. 

Aliás, meu mandato atual seguiu na formação e apesar de já termos feito dois cursos básicos de capacitação para dirigentes bancários (PCDA) de 3 módulos cada e dois cursos de especialização em saúde, estou insatisfeito com minha atuação neste mandato (2012-15) porque quero aplicar 3 cursos de especialização neste ano e mais um PCDA e não consigo encaminhar meus projetos formativos por absoluta falta de tempo.

Sempre acreditei que qualquer pessoa pode se destacar em qualquer coisa a que se dedicar

Estou num ritmo de trabalho alucinante e com tanto foco que sei que vou me quebrar, mas não tem outro jeito. O combate às merdas do bb tem que ser feito e vou coordená-lo enquanto for minha tarefa e missão fazê-lo. Sempre foi assim comigo.

Focar assim na luta contra o bb está me emburrecendo como ser humano porque não existe mais lacunas de tempo para meus estudos filológicos e para o ócio criativo. Mas para as grandes batalhas na vida é preciso foco e especialização.

Quando eu olho para trás e vejo minha caminhada, só faço acreditar mais e mais que qualquer pessoa pode realizar qualquer tarefa, mesmo se ela não for dotada de certa genialidade que destaca pessoas em cada área da vida humana por dons.

Fui uma criança franzina e endureci quando tive que endurecer conforme mudaram os ambientes nos quais cresci e vivi.

Fui capinar, quebrar concreto, descarregar toneladas de caixas de caminhões quando foi preciso. Mesmo com minhas mãos pequenas para tal.

Saí do trabalho braçal e acreditei que ler e estudar com foco e perseverança, mesmo que só nas horas em que não estamos na labuta, faz a diferença. Naquelas horas em que muitos foram relaxar nas festas e na farra merecida da adolescência, eu fui estudar e ler. Como as greves nas escolas públicas duravam meses, aprendi matemática básica quase que sozinho em casa à noite.

Quando se tem força de vontade, tudo é possível. A mente humana é uma máquina de aprender que só precisa de estímulos. Na minha opinião, é uma grande bobagem dizer frases limitadoras a si próprio do tipo "não adianta que não consigo aprender matemática... português... física quântica... não tenho jeito para tal coisa...".

Até quando precisei ser bom em jogos como bilhar e sinuca, ganhei grana com isso para meus gastos juvenis.

Quando a vida me abriu a oportunidade de estudar ciências contábeis, eu fiz o curso com os pés nas costas. Eu me lembro de fazer equações de derivadas e outras que não me lembro o nome que se resolviam em várias páginas de caderno. Eu só tirava nota alta nas matérias, sem dificuldade.

Depois, já sendo bancário do bb e desiludido com aqueles anos noventa, fui estudar Educação Física no Náutico, em Mogi das Cruzes, curso com várias matérias médicas e peguei com afinco e só tirava nota alta em Anatomia, Biologia e Nutrição, Fisiologia, Cinesiologia e coisas do gênero. Não acabei por falta de dinheiro, mas fui bem na mudança da área de cálculos para áreas biológica e médica.

Acabei ainda me aventurando em uma faculdade de Letras na USP e eu tenho certeza que poderia ter sido um bom aluno e profissional da área.

Poderia. Não fosse a coincidência de ter aceitado virar sindicalista na mesma época em que entrei no curso da USP. Meu senso de responsabilidade e compromisso com o movimento e com os trabalhadores não me deixou nenhuma dúvida de qual deveria ser a prioridade de minha dedicação e destaque.

No ano seguinte em que entrei na Faculdade de Letras, entrei também no Sindicato e eu não era militante orgânico de movimento algum. Participei e liderei também movimento estudantil, mas o nível orgânico lá não chega nem aos pés do sindical.

Passei os primeiros anos de dirigente "comendo" história do movimento para saber quem eu era ali e o que eu representava. Isso foi fundamental para eu poder fazer uma boa atuação junto aos bancários e dentro da estrutura interna do movimento.

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Hoje, tenho que conhecer a cada dia mais e mais sobre o banco que coordeno as negociações. E a quantidade de conhecimento que souber, sempre estará aquém do necessário. Além dos males causados pelo banco aos trabalhadores, é inerente ao movimento sindical ter que enfrentar uma parte do próprio movimento, que tem pessoas e grupos com foco em combater e derrubar uns aos outros.

Cansei de refletir por hoje. São três da manhã de domingo. Espero não lembrar do banco durante o sono.

Posso não ser feliz nem andar rindo por aí, mas tenho convicção absoluta do meu papel e da minha importância para os trabalhadores bancários e para o movimento sindical cutista e para a Articulação Sindical. 


SOMOS FORTES, SOMOS CUT!

terça-feira, 19 de março de 2013

Artigo: O desejo de calar é incongruente com o que sou


Refeição Cultural

José Bonifácio, Mano Brown, Mario Vargas Llosa...


Estou numa fase desejosa de silêncio. Necessidade de calar...

Mas tal atitude é meio-que incoerente com o que sou, com o papel que represento nesta aldeia global.

Ando estressado, trabalhando muito mesmo. Sequer estou dormindo sonos reconfortantes. Os desgraçados da direção do banco do brasil conseguem inventar uma merda por semana que tem reflexos negativos aos trabalhadores e às condições de trabalho. O movimento sindical tem que ficar o tempo inteiro reagindo às porcarias da gestão do bb.

Mas se estou aqui, vamos refletir sobre contatos recentes com textos e outras formas de cultura.

JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA


Neste fim de semana li a respeito deste personagem da história brasileira. Já passei diversas vezes pela Praça do Patriarca, ao lado do meu trabalho, e observo ali a estátua do "patriarca da independência". Ela está lá como banheiro de pombos.

O cara nasceu em Santos em 1763, filho da segunda família mais rica daquela província na época, foi para a Europa aos 20 anos e voltou para o Brasil durante o período da Corte Portuguesa de D. João VI e Dom Pedro I. Depois ainda foi tutor de Dom Pedro II.

Li o projeto de lei dele propondo ao legislativo brasileiro o fim da escravidão dos africanos antes de 1820. E olha que Franklin nos EUA foi personagem do fim da escravidão lá na América do Norte uns 40 anos depois. O projeto tem como pano de fundo uma estratégia de dizer que a escravidão é ruim para os brancos proprietários.

José Bonifácio tinha um projeto completo para a construção de uma nação ao modo europeu. Ele tinha todos os problemas que conhecemos da época como, por exemplo, achar que a solução para o Brasil era homogeneizar o povo, mesclando os negros e índios com os brancos europeus. Enfim, a leitura dos apontamentos dele sobre várias coisas é bem curiosa.

MANO BROWN

Li uma entrevista muito boa do Mano Brown na Revista Fórum deste mês. O cara fala muita coisa verdadeira sobre a sociedade e sobre racismo e violência contra os negros na sociedade paulista e na periferia.

Segundo ele, as chacinas têm forte participação da polícia.

MARIO VARGAS LLOSA

Li uma entrevista deste escritor peruano neoliberal no Estadão. O que me chamou a atenção para ler a entrevista inteira foi o intelectual apontar um dos problemas da contemporaneidade: as imagens estarem substituindo as ideias. Eu também acho isso.

Em relação à sua obra literária, não tenho opinião porque nunca li nenhum livro seu.

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Bom, com o ritmo de trabalho atual tem sido raro poder ler alguma coisa que me traga algum conhecimento cultural, reflexão filosófica e que me torne menos ignorante culturalmente. Meu papel atual no movimento sindical está acabando com a minha saúde e creio que está me emburrecendo um pouco, pois não tenho tempo pra mais nada.

Fim.

William Mendes

domingo, 17 de março de 2013

Pica-pau de cabeça amarela: alumbramento urbano


Curti hoje pela manhã um pica-pau
como este da foto acima.


Refeição Cultural

Hoje, pela manhã, saí sob uma leve garoa para buscar pães.

A região onde moro é relativamente arborizada e temos muitos pássaros locais como sabiás, bem-te-vis, maritacas e hoje presenciei um belo pica-pau de cabeça amarela. Foi muito legal!

Ao sair da porta de casa, andei uns 10 metros e fiquei parado olhando o passarinho bicando e pulando de galho em galho na maior tranquilidade. Esse pica-pau tem um penacho na cabeça bem levinho. Ele pica e o penacho fica balançando.

Foi um momento de alumbramento neste domingo chuvoso aqui em Osasco.

Vejam abaixo um vídeo que achei na internet cujo autor disse que filmou o pica-pau aqui mesmo na região paulistana. Agradecemos a ele pelas imagens. Ver ao vivo o bichinho é muito legal.



sábado, 9 de março de 2013

Estudos de Anatomia e doação de corpos


Refeição Cultural

Apresentação do blog

Lendo a matéria abaixo no sítio da CartaCapital (matéria de 9/3/13), eu me emocionei. Vieram até mim lembranças profundas do curso de Educação Física que fiz entre 1997/98, curso que não pude terminar por questões financeiras, e que me deixou uma frustração dolorosa por isso.

Eu entrei na Faculdade do Náutico, em Mogi das Cruzes, e logo nos primeiros meses de curso havia me tornado um aluno exemplar nas matérias biológicas. Estudei com afinco e profundidade Anatomia, Nutrição e Bioquímica, Fisiologia, Cinesiologia etc.

Eu ia todo sábado para a faculdade para estudar durante umas 6 horas seguidas os corpos e partes dos corpos que tanto me ensinaram sobre o corpo humano.

Eu tenho a convicção de que me tornei uma pessoa melhor e mais humanista por ter estudado Anatomia e passei a respeitar muito mais os seres humanos. 

À medida que conhecia o funcionamento do corpo humano, mais eu me encantava e sentia admiração pela perfeição daquela máquina, que a natureza reservou ao homem após milhares e milhares de anos de adaptações desse animal aos diversos habitats por onde ele viveu.

Eu pretendo doar meu corpo para estudos. É verdade o que diz a matéria. A primeira aula que tive de Anatomia, antes do professor descobrir o corpo na mesa, foi sobre a ética e o respeito obrigatório naquele espaço de estudo do corpo humano.

A questão da doação será a concordância dos entes próximos que terão o direito de posse sobre o meu corpo quando eu morrer.

William Mendes

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Brasiliana


09.03.2013 10:08



Uma última nobre missão


Por Amanda Lourenço

Em um dos laboratórios do Instituto de Ciências Biológicas da USP, há mais televisores do que corpos para o estudo da anatomia ­humana. É meia dúzia de aparelhos destinados a transmitir, ao vivo, as dissecações que os 180 estudantes de medicina deveriam acompanhar in loco, tarefa impossível sem algum tipo de revezamento ou troca de empurrões. Sobre as 16 bancadas de inox da espaçosa sala azulejada repousam apenas dois cadáveres. Por causa da drástica redução do número de indigentes, mortos não identificados por suas famílias, a instituição sofre um “apagão” de corpos para as aulas práticas.
Desde 2008, apenas quatro cadáveres foram incorporados pela instituição, número insuficiente para a demanda universitária, a incluir cerca de mil estudantes de cursos na área de saúde, como farmácia, enfermagem e educação física, entre outros. “Nos anos 1940 e 1950, recebíamos de 200 a 250 corpos por ano”, afirma Edson Aparecido Liberti, professor-titular do Departamento de Anatomia. “Não há a necessidade de tantos, mas o mínimo necessário é um cadáver por ano para cada grupo de dez alunos de medicina. Por isso estamos implantando um programa de doação voluntária, no qual as pessoas se comprometem em vida a doar o próprio corpo para a universidade após falecer.”
O problema não se restringe à USP. Em virtude da escassez de cadáveres, algumas universidades passaram a substituir corpos reais por bonecos para o estudo de anatomia. As peças artificiais podem imitar muito bem o corpo humano e servem como complemento, mas não são capazes de substituir as naturais. “Existe uma gama de variações anatômicas que os bonecos não conseguem representar. É importante para os alunos lidarem com a realidade”, diz a professora Thelma Parada, responsável pelo Programa de Doação Voluntária de Corpos para Estudo Anatômico do ICB-USP, em fase final de implantação e com 15 doadores já cadastrados. Além dos quatro corpos recebidos nos últimos cinco anos, a instituição conta com outros dez cadáveres mais antigos. “Algumas peças têm mais de 20 anos, só podem ser observadas. Não tem mais o que ser dissecado.”
No dia 25 de fevereiro, Thelma deve apresentar a sua tese de doutorado sobre o tema. Solução adotada por poucas universidades brasileiras, o programa que coordena pretende desmitificar a doação de corpos, informando os interessados sobre a possibilidade, quase desconhecida. “Não é nem uma questão de convencimento, é apenas de esclarecimento”, afirma Thelma. “Nos Estados Unidos, essa é uma prática muito comum. Quase todas as universidades têm programas semelhantes.”
O processo para se tornar doador é simples. Basta preencher alguns documentos de autorização com a assinatura de três testemunhas, de preferência as pessoas mais próximas do doador. Recomenda-se que o interessado avise aos familiares e amigos sobre seu ­desejo ­para que não haja nenhum estranhamento. Também é possível fazer a doação sem os documentos assinados, mas a burocracia aumenta e muitas vezes os familiares acabam desistindo. O contrário também acontece e o processo pode ser desfeito a qualquer momento: “Se na hora H houver qualquer tipo de hesitação, preferimos abrir mão do corpo, mesmo que tenha documentos válidos. Não estamos aqui para brigar”, diz Thelma.
Romeu Chimenti, metroviário aposentado de 66 anos, decidiu doar seu corpo após se informar sobre a crise de cadáveres nas universidades: “Quero ser útil para a sociedade mesmo depois de morto”, justifica. A família recebeu bem a decisão, tanto que sua esposa também aderiu à causa e se inscreveu. “Na nossa família somos adeptos da cremação, então já não haveria túmulo de qualquer forma. Faremos apenas um velório”, explica o aposentado, que é espírita e diz não haver objeção por parte de sua religião. O velório pode ser feito normalmente e após a cerimônia o corpo é levado para a universidade, em vez de ser enterrado ou cremado.
Denise Castor, professora de 44 anos, dispensa até o velório: “Não quero que a última lembrança de mim seja aquela imagem triste”, argumenta. Ela também assinou o documento de doação depois de muito pesquisar sobre o procedimento e até ter certeza de sua decisão. A família também aceitou bem, até mesmo sua mãe, evangélica, que foi motivo de preocupação para Denise. “Minha mãe me surpreendeu. Ela perguntou se isso ajudaria alguém e quando eu confirmei ela disse que queria fazer também”, conta a professora, acrescentando que a mãe preencheu os documentos, mas ainda não teve coragem de entregar. Denise pretende doar também seus órgãos, já que uma ação não impede a outra: “Minha família já está ciente do meu desejo”.
Um dos motivos de insegurança na doação do próprio corpo é a preocupação com os que ficam. Nem todas as famílias aceitam bem a ideia de não ter um lugar específico para prestar homenagem quando a saudade apertar. Saber que o corpo do ente querido vai ser espetado, cortado e manipulado em uma mesa de laboratório, sem a certeza de que o cadáver será devidamente respeitado, também pode ser duro para alguns.
No entanto, Thelma garante que a ética é uma norma dentro da sala de estudos: “Os estudantes respeitam. Certas brincadeiras podem até levar à expulsão. Mas faz tempo que não há nenhuma ocorrência do tipo”, explica a anatomista, acrescentando que de qualquer forma as pessoas dispostas a fazer a doação “aceitam a ideia de que seu corpo será possivelmente cortado errado pelos estudantes ou até, no pior dos casos, motivo de uma brincadeira, porque mesmo assim uma lição será aprendida”, seja de anatomia, seja de ética. “Os cadáveres são os primeiros pacientes dos estudantes”, defende. “Se o médico não treinar com os corpos, durante a faculdade, vai acabar fazendo isso com pacientes vivos, nos centros de emergência do País. O risco é muito maior.”
Thelma não fala apenas da boca para fora: ela dissecou o corpo da própria avó em 2008. Eunice Simão, avó paterna da professora, quis estudar medicina quando jovem, mas na época o pai não permitiu. Impedida de colaborar com a ciência enquanto viva, seu último desejo foi de que seu corpo servisse aos estudos anatômicos. “Foi uma coincidência dos anjos! Ela assinou o documento no ano em que eu nasci e eu escolhi estudar anatomia sem qualquer influência dela, já que não éramos tão próximas”, conta.
Mas quando foi realizar o último desejo da avó, Thelma teve de enfrentar uma montanha administrativa e decidiu abraçar a causa da doação de corpos para ajudar a dinamizar o processo. E então se tornou uma referência no assunto. Ela também pretende doar seu corpo, caso tenha ficado alguma dúvida.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/uma-ultima-nobre-missao/

terça-feira, 5 de março de 2013

Com morte de Chávez, mundo perde grande líder comprometido com o povo




É com lágrimas nos olhos que registro aqui o falecimento do grande líder latino-americano Hugo Chávez. Estou muito triste e deprimido. A luta da esquerda carece de pessoas apaixonadas por mudanças reais contra o capitalismo. Comandante, obrigado pela inspiração!


Com grande pesar, a Central Única dos Trabalhadores lamenta a morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que faleceu nesta terça-feira (5), aos 58 anos, vítima de complicações causadas por um câncer na região pélvica.

Da mesma forma que lutou para ver sua pátria livre de governos saqueadores, que a destinavam a uma realidade de elites enriquecidas pelo petróleo e uma população majoritariamente miserável, o comandante Chávez enfrentou a doença para continuar a liderar seu povo.

Seu legado e o recado de que é possível acreditar num mundo justo e igualitário permanecem. Certamente, a América Latina que queremos, socialista, solidária, integrada, não avançaria como avançou nos últimos anos não fosse a contribuição do homem que sempre teve como referência Simón Bolívar, responsável por expulsar os espanhóis da Venezuela.

Em seu governo, Chávez demonstrou que é possível crescer combatendo a miséria e privilegiando o povo: os venezuelanos abaixo da linha da pobreza eram quase metade da população e passaram para 27,8% durante seu governo. A taxa de mortalidade infantil diminuiu de 27 por mil para 14 por mil. O acesso à água potável subiu de 80% a 92% da população e o consumo de alimentos cresceu 170%.

A taxa de escolaridade cresceu de 40% para 60% e, de acordo com a Unesco, o país também ficou livre do analfabetismo.

Como em qualquer revolução, o comandante bolivariano colecionou desafetos conservadores, especialmente a velha mídia, inclusive brasileira, que sempre o considerava um ditador. Os meios de comunicação não citavam, contudo, que Chávez participou de 14 eleições e referendos, saindo vencedor em todas elas.

A última, em outubro de 2012, com 54,42% dos votos. Mas, dessa vez, o líder bolivariano sequer pode ascender ao cargo que ocupava desde 1999 e assumiria pela terceira vez.

A morte de Hugo Chávez nos deixa mais carentes de líderes que sonham e praticam o que pregam. Acreditamos, porém, que sua jornada inspirará muitos outros sonhadores.

Obrigado, comandante! 

"Por Cristo, o maior socialista da história, por todos os feridos, por todo o amor, por todas as esperanças que serão realizadas por essa maravilhosa Constituição, mesmo que custe minha vida. Pátria, socialismo ou morte!" 


(Chávez, ao iniciar novo mandato presidencial, em 2007)


Direção Executiva da CUT


Fonte: CUT

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Artigo: O sumiço das abelhas - Najar Tubino




Conhecido cientificamente como Desordem do Colapso das Colônias, esse fenômeno já virou um problema nos EUA e na Europa, inclusive para a polinização de culturas comerciais como a soja e o milho. Autoridades sanitárias suspeitam que o problema é gerado pelos inseticidas, apesar da negativa das grandes companhias de agroquímicos. O artigo é de Najar Tubino



O nome científico é Desordem do Colapso das Colônias, traduzido do inglês. Um fenômeno que ganhou relevância nos Estados Unidos, particularmente, na Califórnia em 2006, quando milhões de colmeias desapareceram. O cálculo do sumiço em 27 estados era de 1,4 milhão de colmeias para um total de 2,5 milhões. As abelhas não morrem, elas somem. Não deixam rastro. É como no navio fantasma Maria Celeste, cuja tripulação sumiu em 1872, daí chegaram a apelidar o evento de “Maria Celeste”.

O problema aumentou quando o sumiço atingiu vários países da Europa, incluindo, Alemanha, França, Espanha, Portugal, Suíça, entre outros. Começaram a levantar as causas do problema. Das antenas de celulares, ao estresse de percorrer milhares de quilômetros transportando abelhas dentro de caminhões acompanhando as safras de várias culturas. Das 250 mil espécies de plantas com flores, 90% são polinizadas por animais, na maioria insetos, e na sua maioria abelhas – cálculo de 40 mil espécies no mundo, três mil no Brasil.

A polinização das plantas é obrigatória para a reprodução, enfim, garante a continuidade da espécie, a variedade genética e, principalmente, a produtividade. É o caso da maioria das culturas comerciais, como soja, milho, a maioria das frutas. Enfim, calculando em dinheiro o valor atinge US$200 bilhões no mundo inteiro, US$40 bilhões nos Estados Unidos. Em janeiro desse ano, as autoridades sanitárias da Europa (EFSA), controla a segurança dos alimentos, determinou que fossem submetidos a exames detalhados três inseticidas, da classe dos neonicotinoides (origem da nicotina), fabricados pela Bayer – clotidianidina e imidacloprida – e tiametoxan, da Syngenta.


Inseticidas suspeitos

A EFSA argumenta que os inseticidas por meio de resíduos na terra, no néctar e pólen são alto e grave risco para as abelhas na forma pelo qual são aplicados em cereais, algodão, canola, milho e girassol, entre outras plantas. O órgão regulador determinou a avaliação de risco muito mais abrangente para o caso das abelhas e introduziu um nível mais alto de atenção na interpretação dos estudos de campo, ressaltando que não tem dados para concluir que os inseticidas contribuem para o colapso das colônias. Mesmo assim países como Itália, França, Alemanha e Eslovênia proibiram ou suspenderam o uso dos venenos.

A Syngenta divulgou uma declaração de que “esse relatório não é digno da EFSA e seus cientistas”. Já a Bayer, que fatura 800 milhões de euros com os neonicotinoides, informou que os produtos químicos não causam danos as abelhas se usados da maneira pela qual foram aprovados na Europa. Existem 18 casos relatados na literatura mundial de mortandade de abelhas, segundo os pesquisadores Maria Cecília de Lima e Sá de Alencar Rocha, em um amplo estudo publicado no ano passado pelo IBAMA, chamado “Efeitos dos Agrotóxicos sobre abelhas silvestres no Brasil”.

“O que diferencia essa ocorrência é que as chamadas escoteiras ou exploradoras não estão retornando às colmeias, mas deixando para trás a ninhada (abelhas jovens), a rainha e talvez um pequeno grupo de adultos, provocando o enfraquecimento da colônia. Além disso, não são encontradas abelhas mortas dentro do ninho, nem ao redor das colmeias”, registra o trabalho dos pesquisadores. 

Mais interessante é que as colmeias não são saqueadas por outros insetos, como formigas ou besouros. Também é importante ressaltar que as abelhas, que existem há 60 milhões de anos, formam um sistema mutualista com os vegetais, seguramente, é um dos sistemas mais importantes de suporte da vida no planeta. O físico Albert Einstein deu uma declaração há muitos anos, dizia o seguinte:

“No dia em que as abelhas desaparecerem do globo, o homem não terá mais do que quatro anos de vida”.

Um estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard realizado em Wocester Country, Massachussets, com 20 colmeias, usando aplicação dos inseticidas citados, determinou que a partir da 23ª semana, 15 de 16 colmeias tinham desparecido. Usaram uma dosagem do inseticida menor do que a encontrada no ambiente. O Programa de Meio Ambiente da ONU (PNUMA) apresentou um relatório sobre o caso em 2011, também faz referência ao uso indiscriminado de agrotóxicos no mundo.


Circula com a seiva

Claro, o desmatamento também é outra causa. Nos últimos anos, mais de 100 milhões de hectares de floresta foram perdidos no mundo, se contar outros usos das terras, a agricultura avançou em quase 500 milhões de hectares. Dos 13,066 bilhões de hectares ela ocupa 38,3%. Mas também está mais do que evidente que o consumo de agrotóxicos aumentou muito mais do que a área expandida da agricultura. 

Os neonicotinoides são considerados uma classe de inseticidas que agride menos o meio ambiente, comparado com os organofosforados, piretroides e carbamatos. Mas a função dele é matar insetos. Todos eles. Além disso, tem ação sistêmica, ou seja, ele se espalha pela planta e atinge a seiva e passa a percorrer todo o organismo. Outro ponto: os agricultores fazem tratamento das sementes com os inseticidas. Isso significa que, ao germinar, a planta já traz o veneno na seiva, contaminando o pólen e o néctar, alimento das abelhas e das suas crias.

No Brasil não existe avaliação sobre colapso ou contaminação de colmeias. Existem muitos casos registrados em vários estados, como o Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas e São Paulo. Todos ligados a produção de colmeias localizadas nas cercanias de áreas agrícolas, como soja, cana ou milho. O presidente da Federação Internacional de Apicultura, Gilles Ratia, diz que no Brasil em função do uso indiscriminado de agrotóxicos a perda das colônias atinge 5 a 6%, das cerca de dois milhões de colmeias consideradas, um número em torno de 350 mil apicultores. Esta é uma atividade da agricultura familiar no Brasil, e o grande crescimento ocorre no Nordeste, onde a atividade cresceu 290% nos últimos anos. O Piauí é o segundo produtor nacional de mel, com quase cinco mil toneladas, atrás do RS, que produz quase oito mil toneladas. Os dados são do SEBRAE, de 2009.


Perde o rumo

Entretanto, nos países desenvolvidos a taxa de mortandade por contaminação de agrotóxicos alcança 40%, segundo Gilles Ratia.

A abelha “apis mellifera” é a espécie mais usada na polinização, principalmente das culturas comerciais. É um inseto social, que trabalha coletivamente e de forma organizada. É capaz de voar quase três quilômetros em volta da colônia. Ela avisa suas companheiras sobre o local onde está a fonte de alimentação, através de uma dança circular, e também por contato olfativo. Qualquer interferência nesse processo, ela perde a referência, não informa suas companheiras e, como está acontecendo agora, não memoriza o local da colmeia. Perde o rumo.

É conhecido internacionalmente o poder de fogo dos venenos usados nas plantações comerciais. O objetivo deles é atingir o sistema nervoso dos insetos. Por um motivo simples: eles foram fabricados para matar humanos, e o ponto central, era atingir o sistema nervoso. O sujeito contaminado entra em convulsão e morre rápido. O veneno penetra no espaço entre as células e acelera o processo, devido à transmissão contínua e descontrolada dos impulsos nervosos. O sistema nervoso central entra em colapso. 

O Brasil que é o campeão no uso de agrotóxicos com mais de um milhão de toneladas de consumo, sem contar o que entra contrabandeado. Até a aprovação da lei que regulamenta o uso desses venenos em 1989, as indústrias registravam os produtos com uma facilidade enorme, inclusive muitos já proibidos nos países de origem das mesmas empresas, como Estados Unidos e Alemanha. Aliás, ainda durante a ditadura, quando ocorreu a ocupação do Centro-Oeste e parte da Amazônia existia um Plano Nacional de Defensivos Agrícolas. O agricultor que procurava crédito rural destinava 20% na compra de insumos técnicos, como fertilizantes, venenos e sementes industriais.


Flores em Nova Friburgo

Agora, há quase três anos a ANVISA tenta reavaliar 14 princípios ativos desses agrotóxicos. Conseguiu banir um (tricloform), e outro já proibido em vários países – metamidofós -, está para ser banido. Mas o SINDAG, que representa as maiores indústrias recorreu na justiça, e nove ainda estão impedidos de ser reavaliados. Incluindo o glifosato, que foi aprovado como um agrotóxico classe IV, de baixa toxicidade.

Para completar o caso do sumiço das abelhas, vou citar alguns dados do trabalho de mestrado em saúde pública da pesquisadora da Fiocruz, do Rio de Janeiro, Marina Favrin Gasparini, sobre trabalho rural e riscos socioambientais, na região de Nova Friburgo, onde aconteceu a tragédia conhecida, com o desmoronamento de parte da serra. Ela morou na região e fez a pesquisa, entrevistando muitos produtores, todos pequenos, propriedades em média de 1 a 12 hectares, após o acidente. A região serrana do Rio de Janeiro é o segundo maior polo produtor de flores do país, atrás de Holambra, em São Paulo. Também é um dos maiores na produção de hortigranjeiros, como tomate e couve-flor. 

Tem um dos maiores índices de aplicação de agrotóxicos por área e por trabalhador, é cinco vezes maior que a média do Sudeste e 18 vezes a média do estado- 56,5 Kg por trabalhador rural/ano. Segundo levantamento da empresa de pesquisa agropecuária do Rio – PESAGRO -, dos 32 agrotóxicos mais usados, 17 sofrem restrições em outros países, oito já foram proibidos. “Elevados índices de contaminação ambiental e humana foram encontrados nessa região, como decorrência do uso intensivo destes agentes químicos”, registra a pesquisadora.


Rosa fluminense envenenada

Começando pelo deslizamento, dos 657 pontos vistoriados na região serrana pelo Ministério do Meio Ambiente, 92% já tinham sofrido algum tipo de alteração, somente 8% mantinham mata nativa original. A produção de flores iniciou em Nova Friburgo na década de 1950, por descendentes de suíços e alemães que ocuparam a região desde 1819. Mas ganhou forma depois dos anos 1970, quando a Holanda, maior produtor mundial de flores – 85% da Europa -, começou a implantar polos nos países latinos. Casualmente, logo depois que o livro de Rachel Carson sobre os efeitos dos venenos no ambiente e para a saúde humana foi publicado. A Holanda, se considerarmos o uso de agrotóxicos per capita e por área, é a campeã no uso.

As flores mais produzidas são de clima temperado – rosa, crisântemo e palma. Mas outras 30 variedades são produzidas. Também mudas de rosa. Com toda a beleza, a cultura da rosa é a que mais aplicações recebe. No mínimo, uma por semana, no verão, quando os insetos e fungos atacam mais, de duas a três aplicações por semana. Trata-se de uma produção familiar onde todos os membros da família estão expostos. Os produtores, em função do envolvimento intensivo na produção e comercialização, compram os produtos dos representantes da indústria ou das casas comerciais da cidade. Ganham em troca análise de solo baratinho, ou de graça.

Não reconhecem o risco de usar os agrotóxicos. Vários dos entrevistados sentiram problemas de contaminação, mas não chegam a registrar o caso. Procuram atendimento médico em último caso. É assim em todo lugar. A indústria além de fabricar o veneno, ainda joga no usuário o problema da contaminação. É sempre ele o culpado. Nova Friburgo é cortada por três rios e está integrada em duas zonas de conservação permanente- Macaé de Cima e o Parque Estadual Três Picos.

Pegando esse gancho, vou sugerir aos sambistas da Vila Isabel, que receberam R$3,5 milhões da BASF, para produzir o samba enredo campeão do carnaval carioca de 2013, que se inspirem em outro tema para 2014. Quem sabe: “a rosa fluminense envenenada”. A BASF comemorou como ninguém o campeonato do carnaval. O patrocínio “faz parte de uma estratégia maior da companhia em ações de valorização do produtor rural, conseguimos levar nossa mensagem a uma audiência enorme”, como declarou ao site da empresa, o vice-presidente da Unidade de Proteção de Cultivos, Maurício Russomano, como eles chamam a unidade que vende inseticidas, fungicidas e herbicidas, e faturou em 2011, 4,1 bilhões de euros. Ela é líder mundial na venda de “defensivos agrícolas”, como eles chamam os venenos.


Fonte: Carta Maior

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Artigo: Reflexão - Incomunicabilidade



Refeição Cultural

Estava pensando sobre a validade de escrever ou não na contemporaneidade. Quem lê? Os jovens que decidirão sobre o mundo amanhã estão lendo? Eu sinceramente não sei.

Se estão lendo, estão lendo o que? Mangás, tutoriais para roubar em fases de jogos virtuais, alguns talvez os livros da moda sobre vampiros que dão beijo na boca e se apaixonam...

Qual a validade de escrever aqui neste blog? Fiquei pensando se um dia, ao menos meu filho viesse a ele, sei lá, talvez depois de minha morte, para saber um pouco sobre o que o pai pensava.

Assisti a três filmes de Almodóvar e fiquei pensando muito sobre eles. O diretor é muito bom. Ele consegue trabalhar com todas as temáticas e dramas que envolvem o universo das minorias: preconceito, machismo, drogas, violência, problemas de saúde e misérias. O cara é muito bom. Mas hoje estou perguntando a mim mesmo pra que escrever sobre os filmes.

É isso. Não vou escrever nada não. Em meu diário, escrevi um pouco mais sobre a incomunicabilidade que sinto no mundo atual. Pra onde vai a língua e a linguagem humana?

William

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Artigo: Libertação - Quando terei a minha?


Arquivo X.
Episódios do 7º ano da série.


Refeição Cultural

Por que será que ando em busca de filmes, livros e coisas relacionadas com a liberdade, busca da liberdade ou atos de libertação?

Creio que a ideia de liberdade acompanha todo ser humano. Não sou diferente da grande maioria humana que vive em busca da liberdade.

Por que não sou livre ou não me sinto livre? Talvez esta seja a pergunta apropriada a ser feita e que mereça a reflexão necessária para a resposta.

Eu não estou preso neste momento, no sentido de estar privado de locomoção ou do direito de ir e vir. Então, por que não sou livre?

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ARQUIVO X - LIBERTAÇÃO (episódios 1 e 2)

Assisti novamente a um episódio duplo da antiga série Arquivo X. Os episódios são do 7º ano e se chamam Libertação - parte 1 (Sein und Zeit) e Libertação - parte 2 (Closure).

Os episódios são da mitologia da série, ou seja, episódios que não são casos independentes dos Arquivos X. Pelo contrário, episódios mitológicos têm relação com a vida dos personagens Mulder, Scully, Skinner, Dogget, Mônica Reyes, Canceroso etc.

O nome do episódio 1 faz referência a uma obra do filósofo Heidegger - "Ser e Tempo" - e tem relação com a busca pelo sentido da existência. O episódio 2 tem a palavra Closure que significa "encerramento, fim" em inglês, mas que também pode ter relação com a obra de Heidegger, quando ele se refere a World Disclosure (mundo revelado, manifestação das coisas e das relações delas no mundo).

No episódio duplo, Mulder busca por uma criança desaparecida nas mesmas circunstâncias em que desapareceu sua irmã Samantha quando era criança. Há muita tristeza nos episódios porque abordam o tema de rapto e assassinato de crianças, além de ser o episódio em que morre a mãe de Mulder, a senhora Teena. Mas tanto a garotinha desaparecida quanto a irmã dele não foram encontradas entre as dezenas de corpos de crianças mortas por um serial killer com décadas de crimes.

A teoria que prevaleceu sobre as desaparições sem corpos das crianças vitimadas (incluindo a irmã de Mulder) é que elas foram levadas pelos anjos andarilhos da luz, que salvam crianças momentos antes de mortes marcadas por grande sofrimento. Elas passam a andar nas luzes das estrelas.

Após Mulder ver sua irmã e outras crianças entre as luzes, ele afirma para sua parceira Scully que ele está livre... Sua busca terminou ali. A cena é muito forte e é difícil não se emocionar.

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AINDA NÃO ENCONTREI O QUE PROCURO

Minha existência tem sido uma busca desesperada por algo que ainda não encontrei ou que talvez não saiba nominar. Fui levado pela vida para situações às mais diversas possíveis nestas quatro décadas de existência. E tudo que sei é que falta algo, falta.

Se eu sou livre, por que é que não leio todas as obras literárias que desejo? Por que não me conduzi para viver e me sustentar em função da leitura e do estudo dos grandes autores?

Nos últimos anos, ficava olhando meu pangasius no aquário e refletia o que fazer com ele, porque eu não sabia se a condição dele era favorável ou não. Por um lado, ele tinha comida, água tratada e regularidade. Por outro lado, ele havia crescido, vivido mais de uma década e eu não tinha um habitat maior que aquele aquário de 200 litros para ele.

Eu pensava às vezes se ele não queria se libertar daquele lugar ou daquela existência "regular" e sem liberdade e perspectiva. Quantas vezes eu não fiquei deitado olhando pra ele e pensando que eu me sentia na mesma situação que ele, eu também vivia num aquário! Aí pensava quem se libertaria primeiro...

O pangasius viveu sua vida de peixe de aquário. Eu ainda vivo num aquário. Tenho as mesmas rotinas... não tenho tempo para minhas grandes leituras... não tenho rotina para uma atividade física regular... vivo em tese "livre", porém longe longe do sentimento de liberdade.

Mulder buscou por sua irmã por mais de vinte e cinco anos até que um dia encontrou a verdade. Se libertou.

Eu procuro uma resposta para minha insatisfação e incompletude há mais de trinta anos. Ainda não encontrei minha verdade e aquilo que me pacificará o ser. O pior é que no aquário em que vivo, jamais surgirão as oportunidades de encontrar o que procuro porque minha resposta não está naquele habitat.

Fim.

William 


domingo, 3 de fevereiro de 2013

"O diabo, na rua, no meio do redemunho..." - Grande Sertão: Veredas


Redemoinho. Foto: Wikipedia.
Autor: Jeff T. Alu


Refeição Cultural

"Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo f'losofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe - a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. - "Redemunho!" - o Caçanje falou, esconjurando. - "Vento que enviesa, que vinga da banda do mar..." - Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d'Ele - do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho... Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos." (p. 262)


O PODER DOS MITOS

Essa ideia do "algo" dentro do redemoinho é impressionante. Não sei como está isso nas grandes cidades, mas creio que até hoje no interior essa crença mexe com as pessoas.

Eu cresci cismado de nunca estar na frente de um redemoinho e deixar me envolver por ele.

Quando não é o saci-pererê é o demo...

Aff...

William


Bibliografia:

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira. 19ª edição.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Crônica: Riobaldo e Diadorim - Metáforas de todos nós


Veredas mineiras: um amanhecer.
Foto: William Mendes


Refeição Cultural

Riobaldo e Diadorim – Metáforas de todos nós


GRANDE SERTÃO: VEREDAS


Neste nosso viver, nesse mundo duro e trágico, todo mundo, desde criança, precisa se fazer um pouco Riobaldo para sobreviver em seu meio.

Nesta nossa vida de desejos e sonhos impossíveis, todo mundo tem o seu Diadorim; a sua saudade, seus amores e seus pesares.

“Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de cansado. Mas eu não meditava para trás, não esbarrava. Aquilo era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade... –; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias...” (p. 248)

O entardecer em uma vereda da vida.
Foto: William Mendes


CISMANDO COM AS VEREDAS DO SERTÃO

Eu recheguei a uma conclusão: o Grande Sertão: Veredas não se lê de uma vez não.

Ele é um livro como aquele que usam chamar de "Minutos de Sabedoria".

É um belo livro como a bíblia, que é um antigo volume de histórias, salmos e sabedorias para aqueles que creem em um deus ou no mundo metafísico, pois ali se fala de amor, de solidariedade e também fala de vingança e poder – coisas tão humanas!

Eu posso viver com o Grande Sertão na cabeceira e ir colhendo minutos de profunda reflexão sobre a existência humana.

A beleza pura e agreste das e nas veredas.
Foto:  William Mendes


DIADORIM

Quando comecei a leitura do dia, acabei quedando e viajando nas ideias com as primeiras duas páginas. Pensei o mundo todo. Pensei a vida toda no dizer de Riobaldo citado acima.

Quem não tem na vida o seu Diadorim? Quem não está preso em uma circunstância ou vive com aquele vago desejo impossível ou aquela gastura daquilo que já se foi, passou e ficou queimando dentro de si – “é só o mesmo carvão só”.

Cada um de nós... Penso, por exemplo, meu pai com seu amor pela cidade de São Paulo...

Eu poderia citar uma espécie de Diadorim de cada pessoa próxima que conheço. E olha que o Diadorim de cada um vive lá no fundo no fundo e muitas vezes não é pronunciável...

Um certo luar nas veredas mineiras.
Foto: William Mendes


RIOBALDO

 “Eu estava meio dúbito. Talvez, quem tivesse mais receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. Confesso. Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era variável. Ah, naqueles tempos eu não sabia, hoje é que sei: que, para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade!” (p. 62)


Aí, lembrei-me do Riobaldo de cada um de nós. Eu cresci um menino de bom coração, até meio bobo lá naquela infância até meus dez anos. Aí, mudei pra Minas Gerais e caí num mundo estranho, duro, rude.

Tive que me fazer Riobaldo no bairro Marta Helena em Uberlândia, pra andar no meio das gangues, da Falange. Tive que olhar no espelho e fazer cara de ruindade. Pus muito esforço nisso. Deve ter dado certo. Passei a adolescência assim; carreguei isso comigo pra vida adulta. Hoje, vejo meu filho tentando fazer isso. E sei que o coraçãozinho dele é dos bons...

Sertões...

William


Bibliografia:

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira. 19ª edição.