segunda-feira, 8 de julho de 2013

Poesia: Repenteando o curso - Jefão Meira




A necessidade aflora
pra formação urgente.
O banqueiro ignora?
O bancário é exigente!
“Quem sabe faz a hora”...
Temos um curso agora
que forma o dirigente.

Vimos no módulo segundo
todo o sistema financeiro.
A mola mestra do mundo
é a política e o dinheiro.
A origem dos sindicalistas,
Vargas e as leis trabalhistas,
vimos no módulo primeiro.

O curso traz a diversidade
de pessoas e opiniões.
Vem à tona a realidade
de quase todas as regiões.
O conteúdo é programado.
O debate está liberado.
São ricas as discussões.

Recebemos convidados.
Fizemos questionamentos.
Alguns, mais exaltados.
Outros, menos atentos.
Gustavo, a grata surpresa.
Vivian mostrou a riqueza
de termos conhecimentos.

Falou Carlos Cordeiro
da culpa terceirizada:
“Tem dirigente brasileiro
que cobra mas não faz nada”!
A luta é a nossa trilha
mas pra plantar Flores na Ilha
temos que fazer a estrada.

William nos comentários!
Bárbara na explanação!
Dieese aponta cenários!
Walter e Karin na organização!
CONTRAF abre o espaço!
Regina dá régua e compasso
completando a formação.

Foi lema na antiga Grécia:
“corpo sadio, mente sã”!
Aprendemos sem inércia.
Regina, fiquei seu fã!
O local é maravilhoso
mas tudo seria tedioso
se não fosse o BATACLÃ.


- Quando: Curso de Formação Sindicato, Sociedade e Sistema Financeiro (PCDA), organizado pela Contraf-CUT em parceira com o Dieese. O curso foi realizado entre outubro e dezembro de 2012.

- BATACLÃ foi... como explicar... foi o local definido nos três módulos de encontro da turma para os momentos culturais após dias intensos de debates e formação em sala de aula.

- A referência em Flores na Ilha tem relação com a produção Ilha das Flores, documentário assistido pelo grupo e debatido em sala.


Jefão Meira
Sec. Comunicação e Divulgação/SEEB-DF

(Antes do fim do mundo/2012)

domingo, 7 de julho de 2013

A construção do ódio no Brasil


Estige, o rio do ódio. Desenho de Gustave Doré, 1861.

Refeição Cultural

O Brasil e o povo brasileiro sempre foram conhecidos por sua hospitalidade e cordialidade em relação aos demais povos e culturas do mundo. Sempre fomos reconhecidos como um povo pacífico. Até nossa Constituição Federal fala da "solução pacífica das controvérsias".

Não vou fazer floreios com os vários períodos de nossa história onde a violência foi a regra entre Casa Grande e Senzala, entre colonizadores e colonizados, senhores e escravos, burguesia branca (com ou sem o apoio dos milicos) versos classe trabalhadora. Essa violência sempre existiu por aqui e continua.

Mas o brasileiro era um povo mais solidário, bom de coração, humilde e menos arrogante. O povo em geral sempre me pareceu tolerante para com os outros.

O ovo da serpente

Fico observando as pessoas ao meu redor e vejo o quanto isso mudou. Eu penso que dois fatores aceleraram essa mudança. Um deles foi o estímulo ao preconceito e ódio ao diferente, catalisado na última campanha presidencial em 2010 por parte de José Serra, principal candidatura opositora à Dilma Rousseff. O outro fator é consequência do advento e rápida expansão da rede mundial e das redes sociais como o facebook.

Após a campanha presidencial de 2010, onde o principal partido de oposição ao Partido dos Trabalhadores abriu a Caixa de Pandora catalisando preconceitos de origem (nordestinos, imigrantes), grupo social (sindicalistas, partidários do PT), orientação sexual (LGBT), direitos sobre o próprio corpo (aborto), preconceitos contra a crença alheia (ateus, evangélicos x umbanda) e criminalização dos movimentos sociais, o Brasil começou a mudar.

O impacto desse estímulo ao fascismo e o ataque aberto ao diferente, essa intolerância e construção de ódio, teve um crescimento exponencial após 2010 e sua expansão foi catapultada pelas facilidades da rede mundial, com sua característica de ser instantânea e "anonymous", pois qualquer pessoa cria um fake e sai dizendo o que pensa e acredita, sem freio algum, o que raramente ocorria nos seios das famílias e nos espaços sociais. 

Pior que isso, nossos conhecidos - parentes, amigos, colegas de trabalho - postam, curtem e compartilham o ódio estimulado ao outro. Eu fico horrorizado de ver parentes meus, muitos vieram da miséria, outros têm mais de 60 anos, escrevendo e replicando cada coisa nojenta contra o ex-presidente Lula, um dos maiores estadistas da história mundial, ou coisas chulas contra a presidenta do Brasil. No nível em que estão alimentando o ódio é provável que estas pessoas de aparência muitas vezes meiga se peguem qualquer hora ajudando a linchar um petista em praça pública, um gay, um garoto de rua que virou vítima do crack... Estamos criando monstros e eles estão ao nosso lado...

Sabemos aonde o ódio fascista leva as nações

Hitler conseguiu atingir com eficiência plena sua estratégia de levar a nação alemã a ter ódio mortal aos judeus, pessoas "feias", com algum tipo de deficiência, com gostos "errados" (não nazistas), origens não aceitas pelo Nazismo etc.

Os EUA conseguiram através dos meios de comunicação de massa, em curto espaço de tempo, fazer uma nação que não tinha a menor intenção de voltar ao palco da guerra na Europa (após baixas da 1ª GM) a lutar contra o Nazismo e Fascismo que iam vencendo tudo e todos até meados de 1942.

Nas décadas seguintes, o mesmo EUA conseguiram estabelecer uma cultura em seu povo de ódio aos vermelhos, aos comunistas, através do Macarthismo e da Guerra Fria. Convenceram seu povo a fazer guerra e invadir o mundo todo para lutar pela "liberdade" dos mercados, mãe do capitalismo liberal.

Será que a oposição ao PT achou o caminho?

Talvez a direita brasileira (pequena elite detentora do capital que vive às custas do aparelho do Estado) tenha encontrado o caminho para voltar ao passado iníquo em que o povo viveu por séculos.

Aparentemente, a oposição aos governos Lula da Silva do PT (2003-10) e Dilma Rousseff do PT (2010-2013) encontraram o caminho para interromper os avanços desta década no Brasil em relação a melhorar o país em TODOS os quesitos possíveis. 

O Brasil deu um salto de qualidade para o povo brasileiro com mais distribuição de renda, ascensão social, geração de emprego, ressurgimento do aparelho público destruído durante os anos noventa, multiplicação histórica e exponencial do volume de oportunidades de educação pública em todos os níveis com a participação das classes menos favorecidas (pelo regime de cotas, Enem e Prouni) e virou liderança e referência internacional num período de grave crise capitalista mundial.

O que está em andamento no Brasil em 2013 (na verdade começou desde a eleição de Lula e após a chamada crise do "mensalão"), é um Macarthismo e criminalização violenta contra o Partido dos Trabalhadores, contra o movimento sindical e os direitos do trabalho regular, contra os programas sociais que foram fundamentais para o crescimento do emprego e da distribuição da renda, pois o Bolsa Família diminuiu em 30 milhões o exército de reserva de miseráveis tão importante ao capitalismo, fazendo crescer o salário mínimo e os salários das categorias profissionais.

Não sei como essa construção do ódio de classe, ódio ao outro (la otredad), ao diferente vai acabar. Eu tenho pensado que nada será como antes.

Se for possível, vamos fazer política com "P" maiúsculo. Vamos conversar com as pessoas e pedir que façam o debate e respeitem o outro ou ao menos tolerem sem agressão e desejo de morte e extermínio ao outro. Hitler foi parado a tempo, mas quase conseguiu alcançar êxito.


William Mendes

Um cidadão que defende a paz

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Política e Democracia - bom artigo de Luiz Carlos Bresser-Pereira


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Eles não têm medo da democracia
O grave risco por que passa o Brasil não é a desordem, mas a desmoralização da política e dos políticos

As grandes manifestações que estão ocorrendo no Brasil são um momento de retomada do espírito cívico e democrático de jovens que pareciam imersos no cinismo consumista, mas tiveram como alvo principal os políticos, que são uma condição para a existência da democracia.

A melhor metáfora foi a de Gabriel Cohn, em entrevista ao "Valor": "Se não estancarmos esse sangramento democrático, que é a ideia de que o político não presta, teremos problemas. Se você não tem partidos organizados, com militantes saindo às ruas, não estanca o sangramento. Isso promove uma seleção perversa".

Em lugar de militantes políticos devotados, a política foi sendo tomada por oportunistas. Ninguém decente deseja dedicar sua vida a ela. O grave risco por que passa o Brasil não é, portanto, a desordem, mas a desmoralização da política.

As impressionantes manifestações de junho alcançaram seu objetivo específico, a revogação dos reajustes dos ônibus, mas, ao contrário das Diretas Já ou da Primavera Árabe no Egito e na Tunísia, que tinham uma meta clara, a democracia, os manifestantes querem a melhoria da qualidade da democracia, algo que não se alcança em um dia.

O risco é o de aprofundar uma desmoralização dos políticos que, nos últimos dez anos, se agravou no Brasil, e, assim, afastar ainda mais da política os jovens mais talentosos. Ora, não há democracia sem política e sem representação.

A democracia participativa é um objetivo, mas longínquo: enquanto isso, não há construção social da nação e do Estado sem a intermediação dos políticos.

A desmoralização dos políticos é uma estratégia liberal clássica; é uma forma pela qual as elites, que temem a democracia, buscam neutralizar aqueles que em princípio representam esse povo. É verdade que os políticos facilitam essa tarefa quando se deixam corromper: não representam seus eleitores, mas seus próprios interesses e os daqueles que os financiam.

Mas no Brasil, na última década, a campanha de desmoralização cresceu de forma brutal. Foi se formando um "consenso" perverso: os políticos seriam corruptos, não obstante os serviços que já prestaram ao Brasil, e não serem eles, hoje, piores do que eram no passado.

Um fato novo agravou o tradicional medo da democracia das elites. Há dez anos, pela primeira vez na história, o Brasil é governado por uma coalizão de esquerda.

É verdade que por uma centro-esquerda social-democrata, que vem atraindo empresários a uma política desenvolvimentista, mas, de qualquer forma, um governo que não se deixou cooptar pelas elites liberais. Isto é inaceitável para elas, e as leva a aumentar a violência da crítica. Esse fato novo talvez explique a grande perda de confiança no Congresso e nos políticos nos últimos dez anos. E ajuda a explicar a dimensão das manifestações.

Creio que elas, afinal, ajudarão a melhorar a qualidade da democracia brasileira, mas desde que representem uma cobrança aos políticos, e não a desmoralização das instituições democráticas e dos próprios políticos, algo que não interessa aos jovens manifestantes, porque eles não têm medo da democracia.

Fonte: Folha e UOL, 1/07/13

domingo, 30 de junho de 2013

Chateações juninas ficarão marcadas




Refeição Cultural

O mês de junho acaba hoje. Ele ficará marcado na história recente do Brasil. 

Na minha opinião, não ficará marcado de forma positiva.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o torneiro mecânico que virou presidente do Brasil, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), gastou quase uma década para mudar a imagem do Brasil lá fora no mundo e internamente, fazendo o povo brasileiro voltar a ter amor próprio e menos complexo de vira-latas, complexo construído a partir da elite tacanha, sem amor à pátria e sem vergonha na cara.

Movimento de massas não tem dono. O que começou como mais uma manifestação legítima do Movimento Passe-Livre (MPL) virou algo maior, virou um movimento gigantesco, com aproveitamento da oposição e dos veículos de comunicação da direita - que no Brasil fazem a vez de partido de oposição (P.I.G.) devido à fragilidade e burrice da oposição partidária - e virou um movimento de esculhambação do Partido dos Trabalhadores, do movimento social organizado (os de esquerda) e virou uma destruição iconoclasta de tudo que mudou e avançou para melhor no país.

Em pouco mais de vinte dias, a imagem do Brasil voltou ao que era antes, na verdade, piorou.

Outra coisa que mudou desde a campanha de José Serra (PSDB) nas eleições de 2010, e dificilmente terá volta, foi a instigação ao povo de preconceitos os mais absurdos. A partir da campanha deste sujeito representante da direita brasileira à presidência da república contra Dilma Rousseff (PT) explicitou-se e despertou-se todo tipo de preconceito, discriminação e intolerância no Brasil.

Agora temos um país onde as pessoas estão deixando de ser receptivas e respeitosas com os estrangeiros e com os seus compatriotas com diferenças de si próprios - raça, origem, religião, posição política etc.

Eu achei de uma tristeza absurda o desrespeito dos torcedores contra os espanhóis no jogo da semifinal contra a Itália. Eles foram comemorar a classificação e foram vaiados e esculhambados pela torcida brasileira.

Há um trabalho organizado para que se construa um ódio mortal por parte das pessoas comuns ao PT e aos movimentos sociais, principalmente a CUT e o MST. Hitler fez um excelente trabalho nesta linha em relação aos judeus, pessoas com deficiências, pessoas com orientação sexual fora do padrão heterossexual, pobres e estrangeiros de países pouco desenvolvidos.

Não sei aonde vamos parar, mas na minha leitura, o povo brasileiro não será mais o mesmo, para o bem e para o mal!

Espero que as pessoas respeitem tanto os jogadores espanhóis quanto os brasileiros após o resultado final da tal Copa das Confederações.

Espero que o Brasil não vire nos próximos anos um país de um povo intolerante, arrogante e conservador, como é a elite branca brasileira.

Aliás, falando em Copa das Confederações, eu quase não consegui ver pessoas negras ou morenas nas arquibancadas. É um absurdo o que fizeram com o povão que tanto gosta, curte e vive do e pro futebol. Fizeram uma "seleção natural" para as arquibancadas - o preço dos ingressos - ou alguém ainda não viu as tabelas de distribuição de renda por raça e etnia no Brasil...

William Mendes

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sobre o novo "imortal" FHC e aquilo que chamam ABL


Imortal FHC - foto: J. Freitas
Wikipedia
Olha, vou usar uma frase de Luis Fernando Verissimo comentando sobre gramática para dizer o que eu penso da ABL, aquela antiga academia de letras, cujo primeiro presidente foi o escritor Machado de Assis, respeitada naquelas primeiras décadas do século XX.

"A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva."

Não preciso dizer mais nada, né!

Francamente, o que os amantes da leitura, das línguas e do mundo da literatura podem esperar de uma Academia que tem como ilustres imortais membros do porte de um José Sarney, um Merval Pereira e agora um sociólogo do naipe de um Fernando Henrique Cardoso?...


O poeta Cazuza (não imortal para a ABL) já dizia:

"A tua piscina tá cheia de ratos,
Tuas ideias não correspondem aos fatos,
O tempo não para..."

Quem diria que um dia eu iria publicar uma foto do FHC em meu blog!

Bom, vamos falar de coisa boa. Leiam a crônica do Verissimo sobre o Gigolô das palavras, é muito legal.

sábado, 22 de junho de 2013

PC Siqueira alerta sobre manifestações e protestos... e a Globo


Olha, ninguém melhor do que o PC Siqueira para explicar o papel da Globo e da direita nas manifestações legítimas e pacíficas que começaram por melhoria nos transportes públicos e redução das tarifas.

Trabalhadores e jovens de boa fé e que constroem esse país e lutam por um mundo melhor, UNI-VOS e vejam o vídeo genial destes jovens:

Post Scriptum:

O vídeo não existe mais.

domingo, 16 de junho de 2013

Artigo: Cismando sobre os desejos


Refeição Cultural


Fernando Pessoa.
Desejos de leitura

Não tenho escrito muito nestes dias. Sequer tenho conseguido ler como gostaria.

Apesar disso, reli no fim de semana passado o livro Uma abelha na chuva (1953), do português Carlos de Oliveira. Neste fim de semana, também fiquei às voltas com a Literatura Portuguesa. Hoje reli o livro de poemas Mensagem (1934) de Fernando Pessoa.

Ambos pertencem ao programa de uma das últimas matérias que fiz na USP em 2010. Acabei procurando e achando em casa o pacote de fotocópias da matéria e o desejo que me deu foi de pegar todos os textos teóricos e lê-los juntamente com as 5 obras analisadas naquele semestre.

Mas aí quando dou por mim e começo a tomar gosto pela leitura, o fim de semana já se foi e eu não tenho vida civil (vida própria) durante a semana. Só tenho agenda do dirigente sindical.

Minha vida está indo e eu não consigo ler mais nada. E pensar que, se eu morrer a qualquer instante, terei deixado a existência como um grande frustrado porque sei ler, não sou cego, tenho os livros e o acesso a eles e não consigo ler absolutamente nada que desejo e anseio.


Desejos alheios de consumo

Eu fico observando as pessoas ao meu redor e fico chocado e deprimido com o que vejo.

Fico me perguntando do que está valendo a luta que faço diariamente para contrabalançar o sistema capitalista, criador de fetiches da matéria, que está destruindo o único planeta que temos, pelo esgotamento e criação de bugigangas para substituir outras a cada instante.

Filme Wall-E
Como pode um proletário com salário de mil reais, ou menos, comprar um tênis de 650 reais por ser “de marca”? Como pode este mesmo proletário gastar dois mil reais para comprar um aparelho de telefone móvel? A marca de tênis, aliás, é líder mundial em exploração de mão de obra escrava e subcontratação pelo mundo afora. E mais: NÃO adianta eu falar isso para esses proletários! Não adianta!

Vale dizer que existem bons tênis de cem reais. Também existem aparelhos de telefone móvel por cento e poucos reais. Esses proletários trocam de aparelhos eletrônicos enquanto os que tinham ainda funcionariam por muito tempo. Pouco importa o planeta Terra se transformar num planeta lixo inviável à vida - lembram do filme Wall-E (2008)?

Eu não pagaria 650 reais em um tênis mesmo se eu ganhasse 10 mil por mês, simplesmente porque o tênis não vale esse dinheiro.

O que vale a minha ideologia, se o meu exemplo de não consumir coisas “de marca” como a prioridade na compra não funciona sequer com a minha família?

Os jovens viraram baterias para a alienante rede mundial de computadores. Não é só o crack e outras drogas que estão matando o cérebro dos seres humanos. A quantidade de informação inútil também está. E pensar que praticamente já digitalizaram todo o conhecimento humano na rede mundial! Mas os donos do poder sabem que ninguém usa isso.


Desejo de comunicação e a incomunicabilidade contemporânea

Durante milênios, os seres humanos sonharam em poder usufruir da plena liberdade de expressão. No entanto, durante esses mesmos milênios, o direito de comunicação ficou restrito aos donos do poder, porque eles detinham o direito de escolher o que poderia ser comunicado ou não a qualquer receptor que fosse.

Na idade média, o alemão Gutenberg inventou a máquina de impressão. A partir dali, começaria uma revolução na multiplicação dos materiais escritos de comunicação. Mas o direito de imprimir continuou nas mãos dos Estados e dos donos do poder.

Até o século passado (XX), seguia mais ou menos na mesma a questão de quem conseguia acesso a impressão e distribuição dos textos. Aos pobres mortais, só se fosse apadrinhado por alguém dono do poder ou pelo Estado.

Veio então o advento da rede mundial de computadores: a internet.

Hoje, qualquer um teria “em tese” direito a acessar e a distribuir suas produções textuais e seus pensamentos.

Cena do filme Fahrenheit 451
Se antes, livros de ficção como Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, pensavam sociedades distópicas, nas quais era proibido ter livros e ler o que bem se entendesse das produções humanas, hoje não é preciso mais tal tipo de preocupação por parte dos donos do mundo. 

Tudo está disponível e a atenção de praticamente toda a humanidade é pasteurizada em querer as mesmas coisas – a exceção é para aquele bilhão de gente que só tem a preocupação em o que vai comer naquele dia para não morrer de fome.

Hoje, qualquer um tem mais direito de se comunicar. No entanto, não há quase ninguém disposto a ouvir, a prestar atenção em - algo como a diferença entre os verbos ingleses to hear e to listen to. O mundo é burburinho e tuc tuc tuc nos ipods, iphones, tablets, jogos virtuais, facebooks etc... as pessoas, as pessoas são baterias como aquelas do filme Matrix (1999).


Poster de Mad Max (1979).
Desejo finalizar

Finalizo esta refeição cultural indigesta, pensando em mais ficções famosas – filmes e livros –, que parecem, a cada dia, mais próximos de se realizarem.

O mundo está estabelecendo o padrão chinês de mão de obra precarizada: terceirização total sem direito algum. Aqueles que não forem os 5% detentores de todo o poder econômico e político (os Alfas e Betas), serão os subumanos gamas e ipsilones do Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley.

O mundo caminha para vivermos aquele mundo da série de filmes Mad Max (1979 a 1985). E para ficar em um bem atual: O livro de Eli (2010). Lembram da cena em que o
Poster do filme.
personagem reflete sobre o tempo em que as pessoas tinham tudo e não davam valor a nada – tudo era descartável e tinha em abundância. No mundo após a última guerra, se mata por um copinho de plástico descartável...


Chega!

William Mendes

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Artigo: As neves do Kilimanjaro (2011) – Direção de Robert Guédiguian


Poster do filme

Refeição Cultural

Este filme francês aborda uma temática extremamente importante para a reflexão social em tempos de nova crise do capitalismo e dos valores da esquerda: a solidariedade, o amor e o perdão em contraposição à coisificação humana no atual sistema capitalista global.

Guédiguian conseguiu dar uma hábil leveza a temas de difícil trato como o desemprego, a violência urbana, a traição, o conflito geracional e as contradições internas na prática da esquerda.

Os atores e atrizes interpretaram de forma esplêndida as personagens. Nota dez.

O filme é baseado no poema de Victor Hugo (1802-1885) "Les pauvres gens" (Os pobres).

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Atenção: o texto abaixo revela partes do filme

CENAS QUE ME LEVARAM À REFLEXÃO

Alguns filmes me tocam profundamente. Em geral, são aqueles nos quais me pego refletindo a partir da cena, do diálogo, do olhar das personagens, da fotografia, enfim, instantes que me põem a cismar sobre algo que traga lembranças, dores, instigações, semelhanças ou prevenções ou previsões...


A ATENÇÃO DO OLHAR FILIAL NA DECLARAÇÃO DE AMOR 

- O olhar de Flo (Anaïs Demoustier), a filha do casal, ao ouvir na festa de aniversário de casamento dos pais, a declaração de amor de Michel à Marie-Claire. É de uma profundidade ímpar o olhar e a declaração que nos deixa sem palavras...


A RAIVA SOBRE O PERDÃO À VIOLÊNCIA E TRAIÇÃO 

- A discussão de Michel (Jean-Pierre Darroussin) com seu cunhado Raoul (Gérard Meylan), quando Raoul descobre que Michel e sua esposa perdoaram o jovem assaltante Christophe (Grégoire Leprince-Ringuet) e se sensibilizaram com a situação dele como irmão mais velho desempregado que cria dois irmãos pequenos, me fez lembrar meu sentimento após a última vez em que fui assaltado. Tive muito ódio e vontade de trucidar aqueles assaltantes de pobres e trabalhadores na passarela de trem da CPTM aqui perto de casa. Como pode gente miserável assaltar seus pares, a classe trabalhadora?


A REAÇÃO DO SINDICALISTA HONESTO AO INSULTO VULGAR 

- O diálogo entre Michel e Christophe: a insinuação do jovem assaltante preso de que o sindicalista receberia propina da empresa portuária, motivo pelo qual ele aceitaria acordos rebaixados. Quantas vezes eu já não ouvi isso de pessoas que represento e até de algumas pessoas do círculo de conhecidos?


A REFLEXÃO DE ABURGUESAMENTO DO SINDICALISTA

- O questionamento de Michel a si mesmo e à sua mulher sobre a contradição de viverem nas mesmas condições sociais da burguesia ou dos pequeno-burgueses que tanto combateram ideologicamente. Eu olho ao meu redor e vejo tantas situações anacrônicas em relação ao movimento sindical que me incomodam tremendamente desde que fui eleito sindicalista...


COMENTÁRIOS FINAIS

O filme é muito humano. Vale a pena assistir.

A trilha sonora com a música de Joe Cocker “Many rivers to cross” é perfeita para o filme.

William Mendes

domingo, 2 de junho de 2013

Dom Quixote de La Mancha - Documentário interessante


Este vídeo é um documentário muito interessante. Eu o encontrei na rede mundial. Parece pertencer a uma série sobre grandes livros.




Assistam, se divirtam e peguem o livro agora e iniciem a leitura ou releitura...

sábado, 1 de junho de 2013

Artigo: Faroeste Caboclo - O Filme... Emocionante!


Cartaz de divulgação do filme

É emocionante superar as expectativas quando vamos ao cinema ver um filme de uma estória famosa, que fez parte de nossa adolescência e, de certa forma, de nosso mundo real.

Ainda mais quando essa estória é uma das dezenas de estórias completas cantadas por Renato Russo e a Legião Urbana, tão nossa desde os anos oitenta até hoje, porque meu filho e todos os filhos dos anos noventa e do século XXI seguem ouvindo tudo da Legião.

Fui à estreia do filme neste feriado de Corpus Christi e gostei demais da adaptação! Fiquei com a garganta apertada algumas vezes durante o filme.

Aquelas bandas dos anos oitenta...
Aquela miséria em que vivi (que vivemos) nos anos oitenta...
Aquela falta de limite dos milicos nos anos oitenta...

Cara, o ódio que a gente sente dessa violência gratuita contra pobres e trabalhadores e minorias é muito bem trabalhado no filme.

Aquela playboyzada que nos tratava como subgente... é outra coisa que me lembrou muito a infância e adolescência lá nas terras onde cresci.

Engraçado, que não liguei a mínima para lacunas ou diferenças de interpretação em relação à letra da música. Filme é filme. É uma versão. São escolhas de roteiro e direção. E ficou muito bom!


SOLUÇÕES DO ROTEIRO

"Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu"


Muito boa a passagem da infância fragmentada em memória do personagem João de Santo Cristo já na Capital Federal. A interposição do presente da estória com o passado na infância ficou bem legal.


"Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez"



Maria Lúcia e Jeremias: Achei muito bem bolada a questão do porquê de Maria Lúcia ter ficado com o bad boy Jeremias.


"E Santo Cristo com a Winchester 22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor"



O final é inesperado: surpreende, mesmo sendo conhecido! 

Por mais que o filme não seja a música 'ipsis litteris' (pois é uma adaptação), o final surpreende e emociona.


- Vou assistir novamente porque vale a pena. Recomendo!

Nota 10 para o diretor René Sampaio, para o roteiro e fotografia. E, claro, pra Isis Valverde (Maria Lúcia), pro Fabrício Boliveira (João de Santo Cristo), pro Felipe Abib (Jeremias).

terça-feira, 28 de maio de 2013

Jamais voltamos ao mesmo livro e à mesma página porque nós mudamos... (Alberto Manguel)


Francesco Petrarca
(Altichiero da Zefio, Wikipedia)
"No Secretum meum, Petrarca (com seu prenome cristão, Francesco) e Agostinho sentam-se e conversam em um jardim, observados pelo olhar firme da Senhora Verdade. Francesco confessa que está cansado da vã azáfama da cidade; Agostinho responde que a vida de Francesco é um livro como aqueles da biblioteca do poeta, mas um livro que ele ainda não sabe como ler, e relembra-lhe vários textos sobre o tema das multidões enlouquecidas - inclusive do próprio Agostinho. 'Eles não te ajudam?' - pergunta ele. Sim, responde Francesco, durante a leitura são muito úteis, mas 'assim que o livro deixa minhas mãos, todos os meus sentimentos por ele desaparecem'.

Agostinho: Essa maneira de ler é agora bastante comum; há uma tal multidão de homens letrados... Mas se tivesse rabiscado algumas notas no lugar adequado, poderias facilmente deleitar-te com o fruto de tua leitura.

Francesco: A que tipo de notas fazes referência?

Agostinho: Sempre que leres um livro e encontrares frases maravilhosas que te instiguem ou deleitem teu coração, não confies apenas no poder de tua inteligência, mas força-te a aprendê-las de cor e torná-las familiares meditando sobre elas, de tal forma que ao surgir um caso urgente de aflição terás sempre o remédio pronto, como se estivesse escrito em tua mente. Quando encontrares quaisquer trechos que te pareçam úteis, faz uma marca forte neles, que poderá servir de visto em tua memória, pois de outra forma eles poderão voar para longe.

O que Agostinho (na imaginação de Petrarca) sugere é uma nova maneira de ler: nem usando o livro como um apoio para o pensamento, nem confiando nele como se confiaria na autoridade de um sábio, mas tomando dele uma ideia, uma frase, uma imagem, ligando-a a outra selecionada de um texto distante preservado na memória, amarrando o conjunto com reflexões próprias - produzindo, na verdade, um texto novo de autoria do leitor. Na introdução de De viris illustribus, Petrarca observou que esse livro deveria servir ao leitor como 'uma espécie de memória artificial' de textos 'dispersos' e 'raros' que ele não apenas coletara, mas, o que é mais importante, nos quais dera uma ordem e um método. Para seus leitores do século XIV, a reivindicação de Petrarca era espantosa, pois a autoridade de um texto era auto-estabelecida, enquanto a tarefa do leitor era a de um observador de fora. Um par de séculos depois, a forma de ler de Petrarca, pessoal, recriadora, interpretadora, cotejadora, iria se tornar o método à luz do que chama de 'verdade divina': um sentido que o leitor deve possuir, com o qual deve ser abençoado, para escolher e interpretar seu caminho através das tentações da página. Mesmo as intenções do autor, quando presumidas, não têm nenhum valor no julgamento de um texto. Este, sugere Petrarca, deve ser feito mediante as lembranças que se tenha de outras leituras, para as quais dar e receber, de separar e juntar, o leitor não deve exceder as fronteiras éticas da verdade - quaisquer que sejam elas, ditadas pela consciência do leitor (pelo senso comum, diríamos). Em uma de suas muitas cartas, Petrarca escreveu: 'A leitura raramente evita o perigo, exceto se a luz da verdade divina iluminar o leitor, ensinando o que procurar e o que evitar'. Essa luz (para usar a imagem de Petrarca) ilumina de modo diferente a todos nós, e também varia nos diversos estágios de nossa vida. Jamais voltamos ao mesmo livro e nem à mesma página, porque na luz vária nós mudamos e o livro muda, e nossas lembranças ficam claras e vagas e de novo claras, e jamais sabemos exatamente o que aprendemos e esquecemos, e o que lembramos. O que é certo é que o ato de ler, que resgata tantas vozes do passado, preserva-as às vezes muito adiante no futuro, onde talvez possamos usá-las de forma corajosa e inesperada." (pág. 81-83, do capítulo O livro da memória)


COMENTÁRIO

"mas tomando dele uma ideia, uma frase, uma imagem, ligando-a a outra selecionada de um texto distante preservado na memória, amarrando o conjunto com reflexões próprias - produzindo, na verdade, um texto novo de autoria do leitor"

Este blog, desde sua criação, faz já alguns anos, tem um pouco disto que Agostinho sugeriria à Petrarca: eu vou lendo, lendo, vendo filmes, observando a vida, e vou anotando trechos ou situações e fazendo novos textos e reflexões a partir deles.

Conversando com meu sobrinho em Uberlândia neste fim de semana, fiquei encantado com o jeito que ele próprio está encantado com as aulas de filosofia e com as possibilidades que ele viu na biblioteca da UFU. Ali tem o mundo e ele me lembrou a sensação que eu sentia quando entrava na biblioteca da FFLCH na USP. Se eu pudesse, viveria ali, lendo, refletindo e escrevendo.

Graças aos governos Lula e Dilma, jovens pobres e de origem afrodescendente como meus sobrinhos estão nas universidades públicas do Brasil tendo oportunidades de estudar e acessar todo o conhecimento disponível no mundo.


Bibliografia:

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. Companhia Das Letras. Edição 1999, 4a reimpressão.

domingo, 26 de maio de 2013

Crônica: Amor, uma fortaleza!


Tia Lúcia, minha mãezinha Dirce e meu paizinho Gercir.

Refeição Cultural - Amor

Rápida passagem por Minas Gerais para estar algumas horas com minha família. A vida está difícil. Nossa vida está difícil.

O amor incondicional como o que sinto por meus pais me dá fôlego para as batalhas diárias da vida na luta que empreendo contra o capitalismo, contra as traições, contra a falta de ética e de valores que encontramos diariamente pelo caminho.

Sou um privilegiado de ter pais como estes.

Amor, uma Fortaleza!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Scripta manent, verba volant" - O inverso do que se pensa


Capa do livro.
"As palavras escritas, desde os tempos das primeiras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, uma vez que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som particular. 

A frase clássica scripta manent, verba volant - que veio a significar, em nossa época, "a escrita fica, as palavras voam" - costumava expressar exatamente o contrário: foi cunhada como elogio à palavra em voz alta, que tem asas e pode voar, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta

Diante de um texto escrito, o leitor tem o dever de emprestar voz às letras silenciosas, a scripta, e permitir que elas se tornem, na delicada distinção bíblica, verba, palavras faladas - espírito. As línguas primordiais da Bíblia - aramaico e hebreu - não fazem diferença entre o ato de ler e o ato de falar; dão a ambos o mesmo nome" (pág. 62, do capítulo "Os leitores silenciosos")


COMENTÁRIO

Sigo pensando que este livro do Alberto Manguel é uma "bíblia" do leitor, um livro de cabeceira dos amantes da leitura. Nele, vemos um diário de cada pessoa que algum dia leu neste nosso pálido ponto azul no Universo - o planeta Terra.


Bibliografia:

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. Companhia Das Letras. Edição 1999, 4a reimpressão.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Artigo: A Vida no pálido ponto azul do Universo



Refeição Cultural

Dias atrás, em meio ao meu estresse das cerca de quinze horas de trabalho diárias (há várias semanas) para preparar o 24º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, me veio por acaso, em um instante, este vídeo de Carl Sagan sobre o nosso Mundo, nosso único e solitário ponto de vida no vasto Universo.

Quedei-me perplexo naquele instante, emocionado com um vídeo de Astronomia que tanto me falou.

Acabei decidindo passá-lo na abertura do Congresso para pedir tratamento respeitoso e gentil àquelas pessoas especiais que ali estariam para debater formas de combater as mazelas de um banco aos seus funcionários e, por que não dizer, debater as formas de mudar o rumo suicida que nossa civilização capitalista está levando adiante.

Fiquei pensando em tanta coisa. Fizemos o Congresso. Avalio que foi positivo e, em geral, as pessoas foram tolerantes e bastante solidárias nos debates.

***

Sigo pensando sobre a Vida e o sentido de tudo que estamos fazendo, em tudo que estou fazendo.

Faz tempo que escrevo que não estou cansado de lutar, porque nasci na classe trabalhadora, pertenço a ela e vou lutar até morrer. Aliás, não tenho nenhum desejo de mudar de lado e pertencer à classe dominante do sistema capitalista. Quero derrubar o sistema capitalista. Não quero mudar de lado e virar algoz e explorador.

Mas me preocupa muito o rumo que nós humanos estamos dando ao nosso único e pálido ponto azul no Universo, da maneira como estamos lidando com ele nesses duzentos e poucos anos de exploração capitalista.

O ser humano, como o conhecemos, tem vivido há algumas dezenas de milhares de anos sobre as partes sólidas do planeta Terra. As populações originárias viveram modificando o planeta com suas tecnologias de adaptação e melhorias para a vida humana.

Mas não fizemos com o planeta em dezenas de milhares de anos o que fizemos nestes últimos duzentos anos. O sistema capitalista baseado na criação do desejo no fetiche da matéria e no modelo seguinte de qualquer bugiganga faz com que se comece a temer pela vida nas próximas décadas. Estamos exterminando com velocidade exponencial o mundo vegetal e animal que se constituiu em milhões de anos.

***

Eu sempre quis um tempo pra ler, escrever e refletir sobre a Vida em si, sobre a razão da existência das coisas e sempre busquei sentido e um pouco de paz neste curto espaço de tempo que é uma vida humana neste pálido ponto azul no Universo.

Nos últimos anos, não tenho tido um átimo de tempo sequer para esta minha busca. Já perdi minha vovó Cornélia, minha tia Alice. Pessoas que me davam um sentido em lutar por um mundo melhor pelo quanto elas eram inocentes e puras em suas simplicidades. Minha mãezinha Dirce e meu paizinho Gercir são ainda dois fortes vínculos de amor puro e simples neste meu instante de existência neste pálido ponto azul em que respiramos. São idosos e estão cheios de problemas de saúde e nas filas intermináveis de espera do SUS. E eu mal tenho visto meus paizinhos lá em Minas Gerais. Quando eles não estiverem mais comigo, não vai adiantar me lamentar sobre o tempo perdido.

***

Não liguei o celular pela manhã. Não consegui levantar-me cedo porque ainda estou mal de saúde. Mesmo assim, saí para correr um pouco pra ver se acho a Vida em mim. Vou pro trabalho agora. Sou bancário dirigente sindical. Meu salário é de seis horas de trabalho como escriturário, mas ainda vou trabalhar umas dez horas hoje. Sei disso.

William Mendes

domingo, 12 de maio de 2013

Artigo: Nova York sitiada – 1998 (The Siege)


Poster do filme de 1998.

Refeição Cultural – Uma questão de valores

Filme com Denzel Washington, Annette Bening e Bruce Willis. 
Dirigido por Edward Zwick.

Sinopse do filme (ao final do texto há revelações do enredo)

A estória do filme começa com o sequestro de um líder religioso iraquiano pela CIA após um ataque terrorista a bases americanas na região do Oriente.

Começa então em Nova Iorque uma série de ataques terroristas que vão se ampliando em relação ao poder de estrago e número de vítimas.

O herói bonzinho do filme é o agente do FBI Anthony “Hub” Hubbard (Denzel Washington). O americano que faz o lado ambíguo do Tio San é o general William Devereaux (Bruce Willis). A agente dupla da CIA que atuou por longo tempo no Oriente e que tem participação importante no que está ocorrendo em Nova Iorque é Elise Kraft / Sharon Bridger (Annette Bening).

A tragédia do terrorismo

Uma das questões que nos leva a muitas reflexões é sobre a eterna tragédia do terrorismo e da violência contra as pessoas e o assassinato de cidadãos de qualquer parte do mundo.

O filme antecipou em ficção o que viria a ocorrer em Nova Iorque após o ataque terrorista contra as Torres Gêmeas em 2001 com a morte de mais de 3 mil pessoas. Antecipou também o que viria a ser a linha adotada pelo governo norte-americano na “guerra contra o terrorismo” com sua política de violações aos direitos humanos e contra toda e qualquer razoabilidade no que diz respeito às violações das liberdades civis nos Estados Unidos e também no mundo com as invasões americanas em diversos países após o 11 de setembro.

Se já ficamos enojados no filme com o que os agentes da CIA fizeram com aquelas 1.500 pessoas de origem árabe do bairro do Brooklin durante a perseguição e busca de alguns terroristas árabes, o que dirá do absurdo que é até hoje a existência e manutenção da Base de Guantánamo violando todos os direitos humanos e civis e todas as leis internacionais!

A importância da preservação dos valores éticos e morais

O filme me fez refletir sobre a questão dos valores que nos movem, que nos definem e que nos dão alguma razão em fazer o que fazemos.

Na estória de Nova York sitiada, o que aparentemente é uma “simples” questão de guerra entre mundos (Ocidente x Oriente; árabes x americanos), se trata mais especificamente de vingança por traições, se trata de pactos não cumpridos, de quebra de limites e valores éticos e morais com reflexos para todos os lados.

A agente Sharon/Elise da CIA criou uma célula terrorista no Iraque com apoio de um líder religioso local para derrubar Saddan Hussein. Depois os EUA mudaram de ideia e deixaram sua célula local iraquiana ser destroçada. O líder religioso e seu grupo dão o troco nos americanos com um sanguinolento ataque suicida em uma base americana no Oriente. Os EUA replicam de novo e sequestram o líder religioso.

A agente Sharon da CIA acabou levando alguns dos sobreviventes de seu grupo terrorista contra Saddan Hussein para Nova Iorque. Imaginem quem eram os terroristas que estavam sitiando a cidade para que seu líder religioso fosse libertado pela CIA?

Durante os momentos decisivos da trama, o agente "Hub" do FBI viu os agentes da CIA violando de todas as formas os direitos civis e humanos, além das normas internacionais.

Reflexões sobre os valores éticos e morais de meu mundo

Passei a última década lapidando meu ser, aprendendo a ser um militante orgânico de movimento político e sindical.

Avalio que desde moleque já tinha bons valores morais e éticos passados a mim por meus pais e alguns de meus parentes em suas simplicidades benfazejas. É lógico que fiz um monte de coisa errada como todo mundo faz.

No movimento sindical, aprendi com os meus companheiros do Sindicato, principalmente lideranças do funcionalismo do Banco do Brasil, o que é ser um militante de corrente política e sindical, o que é respeitar os fóruns e fazer o debate político democraticamente e depois encaminhar o que ficou deliberado por maioria ou por consenso progressivo.

Os valores que aprendi e pratiquei foram permeados de solidariedade e de espírito de coletividade, antagônicos do personalismo e do cupulismo (de cúpula), contrários às traições. Os projetos sempre foram políticos e não pessoais. Foi desta forma que acabei indo de função em função, após definições nos fóruns políticos de projetos a se realizar.

Tenho visto e sentido instabilidade e quebras nos valores éticos e morais do movimento de esquerda e humanista nos últimos tempos. É claro que lutamos todos os dias para manter o bom caminho e o norte a perseguir. Mas em alguns dias enfrentamos várias “crocodilagens” ao mesmo tempo... É foda!

Que sobrevivam os valores humanistas da esquerda

Ao final do filme, vence o agente "Hub" do FBI, o mocinho dos valores éticos e morais. Aqueles que traíram os valores, que violaram todos os princípios, foram presos ou morreram. Só tem uma coisa: filme é ficção!

A vida real no mundo em crise capitalista, no mundo da chamada esquerda, no mundo do movimento sindical e social, enfim, a coisa está feia na vida do mundo real.

Espero que consigamos resgatar um pouco dos valores éticos e morais da esquerda e do humanismo: a liberdade, a solidariedade, o valor da vida e a democracia valorizando mais a coletividade que a predominância do querer individual de alguns poucos.

William Mendes