domingo, 29 de março de 2015

Diário - 290315





Refeição Cultural - Está valendo a pena correr

Fim de domingo, fim do final de semana.

Estou em Brasília, Capital Federal, e estou com a família.

Hoje participei do 9º Circuito de Corrida da AABB SP, 1ª etapa. Foi uma corrida super agradável. Eu fiquei muito feliz comigo mesmo porque estou vendo o resultado de ter voltado a correr desde outubro do ano passado.

Fiz os 5,34 km da prova em 31' e foi um tempo muito bom para mim, considerando que no meu trote normal daria uns quatro ou cinco minutos a mais. Tive energia para fazer um ritmo constante e acelerar na quarta volta. Pelas condições em que tenho treinado com o excesso de trabalho, estou bem.

Deixo aqui um forte abraço ao Ramon e a toda equipe organizadora da prova, que já virou uma tradição na AABB SP.

O SIMPLES PRAZER DE CORRER

A corrida de amadores é o esporte mais democrático que existe. Tirando umas poucas pessoas que participam para ganhar a prova e os prêmios, a corrida é um lugar de você competir consigo mesmo, com suas dores, com suas debilidades e é o momento das superações. Vencido tudo isso, é arrepio de emoção e felicidade simples e gratuita. 




Estou cumprindo minha meta esportiva para 2015. 

Em janeiro, corri a prova da Night Run 10k do Costão do Santinho, em Floripa - SC. Fui bem.

Em fevereiro, fiz uma corrida treino de 10k no Parque do Sabiá, em Uberlândia - MG. Foi muito legal e prometi a mim mesmo naquele dia, voltar lá para fazer um longão de 15k.

Em março, fechei o mês de bons treinos longos com a corrida de hoje da AABB SP. Fiz um tempo bem melhor do que imaginei.

Em abril quero me programar para fazer uma corrida de 15k em Uberlândia. Vamos com jeitinho, que assim o corpo vai obedecendo a meus comandos.

Meu objetivo neste ano é participar pela primeira vez em alguma prova de meia-maratona no segundo semestre. É objetivo também sobreviver ao desgaste de meu trabalho, que é uma loucura pela intensidade de estresse físico e mental.

A corrida tem proporcionado a mim condições para encontrar no fundo d'alma paciência para lidar com o mundo duro que tenho enfrentado. Até os desaforos e as provocações tenho superado. Estou com o coração leve. Isso é bom!

É isso! Temos que fazer a vida valer a pena porque é assim que tem que ser.

William

sábado, 28 de março de 2015

Corpo Fechado... Leitura do conto de Guimarães Rosa




Refeição Cultural

Com a leitura do conto "Corpo fechado", acabei hoje o livro Sagarana, de Guimarães Rosa, cuja primeira edição data de 1946. O meu volume é de 1982, adquirido em sebo. É a 25ª edição a partir de 1967, da Editora José Olympio.

Se eu disser a vocês que comecei a lê-lo em 2002 quando iniciei meu curso de Letras na USP e que só terminei a leitura do último conto em 2015, vai parecer piada. Mas não é!

Lá em 2002, li o conto "O burrinho pedrês", um dos contos mais graciosos que eu conheço. De lá para cá, tentei ler um monte de desejos literários, mas tive que ser sindicalista ao mesmo tempo que estudante de letras, e a faculdade foi ficando em segundo plano. Terminei o curso e nunca terminei (nem terminarei) as leituras sonhadas.

Foi interessante fechar agora Sagarana com o conto "Corpo fechado". A leitura me levou até a Uberlândia dos anos oitenta. Me fez recordar a infância no bairro Marta Helena. Me lembrou o bar Choupana, de meu pai, lá na Avenida Quilombo dos Palmares. O conto me lembrou a Uberlândia das brigas de rua, minha infância e adolescência, onde era comum os desentendimentos terem desfechos na base das facadas.

O universo de Guimarães Rosa é tudo o que a gente viu, ouviu e viveu nas Minas Gerais. As crendices e contos populares. O tal sertão metafórico que é em todo lugar. O linguajar do povo com o qual cresci. Jeito gostoso de falar, de comunicar. Jeito certo de falar.

Aliás, quando olho para trás e vejo a minha caminhada, não tem como eu não pensar na ideia do "corpo fechado". Acho que sobreviver à adolescência é para aquelas e aqueles, principalmente, que têm corpo fechado. Principalmente para os homens por causa da cultura da macheza, do machismo, tão arraigada em nosso mundo há séculos.

O conto narra um causo num interior qualquer de um sujeito que passa um perrengue por causa de uma ameaça de um outro sujeito que é o terror local. Terra sem lei e sem piedade. Infelizmente o causo é atemporal porque é o que acontece exatamente agora, neste instante, aqui nos cantos do Brasil e do mundo que habitamos.

Chororô

Ai ai ai, quem me dera que as veredas do sertão de minha vida tivessem me levado para as possibilidades em lidar com a literatura e dela viver, e poder refletir e transmitir e com isso aprender e melhorar o nosso entorno pela conquista através das palavras encantadas e prenhas de outros mundos possíveis... quem me dera.

Mas minha vereda é a que caminho agora, aliás, no sertão do meu mundo só há o aqui e o agora, ao menos para quem nele se encontra. É caminhar e escolher veredas que nos levem para bons lugares.

William

quarta-feira, 25 de março de 2015

Março de corridas para fortalecer corpo e mente





Pois é meus amig@s,

Fiz agora à noite aqui em Brasília meu treino final de março, antes de correr a 1ª etapa do 9º circuito de corrida da AABB SP no próximo domingo 29.

Imaginem vocês o que é sair de um dia estressante na Cassi, após horas e horas de embates com o Banco do Brasil e seus representantes na governança da Caixa de Assistência, no atual momento de orçamento contingenciado neste início de ano.

Eu já me considero um vencedor, refletindo de mim para comigo mesmo, por ter conseguido superar cansaço e sair para correr ao invés de ficar prostrado no sofá ou cama nas poucas horas vagas que tive em casa. Fiz isso hoje, não prostrei, saí e fui correr 5 km após toda a raiva que passei pelas imposições absurdas do Banco do Brasil na gestão da nossa entidade (amanhã, quinta 26, escreverei sobre isso no blog de trabalho).

Foi uma semana dura e é preciso ter coração e mente fortes para seguir na luta diária. 

Vivenciei nesta semana um dos congressos de trabalhadores mais triste, melancólico e desagregador dos 17 anos em que participo de fóruns dos bancários, me refiro ao 4º Congresso da Contraf-CUT, no qual grupos de dirigentes e militantes, muita gente valorosa de todos os lados, se trataram com ódio, desrespeito e falta de solidariedade. Saí com o coração tão apertado naquele dia...

Enfim, a partir deste congresso eu não tenho mais mandato algum em nome da Central Única dos Trabalhadores. Hoje tenho um mandato e represento os 720 mil associados da Cassi. E é uma grande missão!

Aí vejo durante a semana, adversários da Cassi mal intencionados levando para a imprensa golpista desinformações sobre nossa entidade de saúde, e pergunto, a troco de que? Provavelmente, acham que atacando e expondo a Cassi vão se beneficiar disso em processo eleitoral que só ocorrerá daqui a um ano. Felizmente não são todos que são levianos. Vi pessoas sérias também buscando esclarecer as bobagens e exageros publicados pelo PIG sobre a nossa Caixa de Assistência. (há que se separar o joio do trigo, sempre)

Sigamos firmes e convictos de nossas tarefas e, sempre que houver alguma dúvida, é guinar sempre à esquerda, porque os princípios em que me balizo são os da esquerda como, por exemplo, a solidariedade de classe, o humanismo, a liberdade, o respeito e convivência com o diferente, sem perder suas referências.

Tenho que ter saúde, energia e foco na missão que estou cumprindo: ser gestor de saúde da maior entidade de autogestão do país, uma entidade dos trabalhadores.

Voltando às corridas que salvam, neste mês até que corri uma quilometragem boa para o aperto da agenda. Estou feliz e vamos para a corrida do mês no domingo na AABB SP.

Treinamento em março

1. Domingo 8 em DF.......... 6 km em 38' treino leve

2. Quinta 12 em SP.............6 km treino noturno

3. Domingo 15 em DF.........8 km em 53' c/ muito calor

4. Terça 17 em DF...............5 km em 32' treino noturno c/ chuva

5. Quinta 19 em SP..............8 km em 55' treino noturno Parque Continental

6. Domingo 22 em SP..........8,25 km em 54' treino c/ chuva

7. Quarta 25 em DF.............5 km em 30' treino noturno

8. Domingo 29 em SP..........5,34 km na AABB SP (estarei lá!)

(Post Scriptum: fiz meu melhor tempo em uma década! Corri em 31' e estou muito feliz por isso!)



São 52 km percorridos num mês pra lá de complicado em minha agenda de trabalho e militância. 

Sinceramente, além do apoio fundamental da família (um beijo pra vocês), as corridas têm tido um papel fundamental para eu suportar com um coração leve o que tenho enfrentado na minha missão de gerir a Caixa de Assistência dos Funcionários do BB.

É isso!

William Mendes

quarta-feira, 18 de março de 2015

A era da impaciência - Thomaz Wood Jr.


Comentário do Blog: sou admirador deste articulista. Guardo textos dele porque ele nos coloca a pensar. Tenho falado sobre esses riscos de "redução de sabedoria" das gerações atuais e futuras.

William Mendes


Qual a fonte primária do crescimento econômico?
A paciência. De onde veio a paciência? Dos livros.

Assim como os livros expandiram nossa capacidade cerebral, as tecnologias atuais podem gerar o efeito contrário

Artigo Thomaz Wood Jr. - Carta Capital 15/03/15

A vida no século XXI pode não ser maravilhosa como sugerem as propagandas de telefones celulares, graças aos consideráveis impactos sociais provocados pela onipresença das novas tecnologias de comunicação e informação. Dois filmes recentes tratam do tema: Disconnect (de 2012, dirigido por Henry Alex Rubin) e Men, Women & Children (de 2014, dirigido por Jason Reitman). As duas obras adoçam seu olhar crítico com uma visão humanista. O grande tema é a vida contemporânea, marcada pelo consumo de bens e estilos, e povoada pelas doenças da sociedade moderna: bullying, identidades roubadas, comunicações mediadas e relações fragilizadas. No centro dos dramas estão a internet e as mídias sociais.

Se determinados impactos sociais já são notáveis, alguns efeitos econômicos ainda estão sendo descobertos. No dia 17 de fevereiro de 2015, Andrew G. Haldane, economista-chefe do Banco da Inglaterra, realizou uma palestra para estudantes da University of East Anglia. O tema foi crescimento econômico. O texto, disponibilizado pela universidade, é raro exemplo de elegância e clareza, com doses bem administradas de história, economia, sociologia e psicologia.

Haldane inicia mostrando que o crescimento econômico é uma condição relativamente recente na história da humanidade, começou há menos de 300 anos. Três fases de inovação marcaram essa breve história do crescimento: a Revolução Industrial, no século XVIII, a industrialização em massa, no século XIX, e a revolução da tecnologia da informação, na segunda metade do século XX.

Qual a fonte primária do crescimento econômico? Em uma palavra, paciência. É a paciência que permite poupar, o que por sua vez financia os investimentos que resultam no crescimento. Combinada com a inovação tecnológica, a paciência move montanhas. Existem também, lembra Haldane, fatores endógenos, a exemplo de educação e habilidades, cultura e cooperação, infraestrutura e instituições. Todos se reforçam mutuamente e funcionam de forma cumulativa. Pobres os países que não conseguem desenvolvê-los.

De onde veio a paciência? Da invenção da impressão por tipos móveis, por Gutenberg, no século XV, que resultou na explosão da produção de livros, sugere Haldane. Os livros levaram a um salto no nível de alfabetização e, em termos neurológicos, “reformataram” nossas mentes, viabilizando raciocínios mais profundos, amplos e complexos. Neste caso, a tecnologia ampliou nossa capacidade mental, que, por sua vez, alavancou a tecnologia, criando um ciclo virtuoso.

E os avanços tecnológicos contemporâneos, terão o mesmo efeito? Haldane receia que não. Assim como os livros expandiram nossa capacidade cerebral, as tecnologias atuais podem gerar o efeito contrário. Maior o acesso a informações, menor nossa capacidade de atenção, e menor nossa capacidade de análise. E nossa paciência sofre com o processo.

Não faltam exemplos: alunos lacrimejam e bocejam depois de 20 minutos de aula; leitores parecem querer textos cada vez mais curtos, fúteis e ilustrados; executivos saltam furiosamente sobre diagnósticos e análise e tomam decisões na velocidade do som; projetos são iniciados e rapidamente esquecidos; reuniões iniciam sem pauta e terminam sem rumo. Hipnotizados por tablets e smart phones, vivemos em uma sociedade assolada pelo transtorno do déficit de atenção e pela impaciência crônica.

Os efeitos são preocupantes. A impaciência em crianças prejudica a educação e cerceia o seu potencial. Nos adultos, reduz a criatividade, freia a roda que gera o desenvolvimento do capital intelectual e a inovação e coloca em risco o crescimento econômico futuro.

Haldane conclui que os ingredientes do crescimento ainda são misteriosos, mas que a história aponta para uma combinação complexa de fatores tecnológicos e sociológicos. É prudente observar que o autor não está sugerindo uma relação direta entre o crescimento das mídias sociais e a estagnação econômica que vem ocorrendo em muitos países. Sua análise é temporalmente mais ampla, profunda e especulativa. Entretanto, há uma preocupação clara com os custos cognitivos da “revolução” da informação, que se somam aos custos sociais tratados nos dois filmes que abriram esta coluna. Não é pouco.

Fonte: Carta Capital

segunda-feira, 16 de março de 2015

Diário - 150315 (Envenenamento II)




Refeição Cultural - Envenenamento (II)

O veneno do fascismo se alastra pelas veias do povo brasileiro

HOSTILIZADO POR CORRER DE BONÉ VERMELHO

O final de semana termina de forma melancólica para o Brasil e o povo brasileiro. Hoje foi o dia das manifestações organizadas pela direita brasileira. Está em curso em nosso país a construção de um novo golpe civil-militar exatamente como ocorreu no início dos anos sessenta contra o então presidente João Goulart. O golpe é organizado pelos mesmos grupos sociais de sempre.

Eu cheguei a Brasília no sábado de tarde, vindo de São Paulo, tão cansado de uma semana muito extenuante de trabalho e não consegui ler, escrever, fazer nada. Estava travado.

Neste domingo, apesar do corpo pedir o contrário, saí para correr e manter a minha disposição de luta e recuperar um pouco de minha condição física para os fronts de batalha. Corro nos arredores do bairro onde moro em Brasília.

Só porque estava com um boné vermelho, fui hostilizado algumas vezes por grupos vestidos de verde e amarelo, que retornavam da tal manifestação fascista clamando por golpe militar e impedimento da presidenta Dilma Rousseff, recém-eleita por 54,5 milhões de votos.


Não estava com a estrela amarela de Davi, mas
me senti como um judeu na Alemanha dos anos 30
por ser hostilizado por "patriotas" de verde e amarelo.

Gente medíocre e ignóbil. Eles não me atrapalharam não, porque eu estava muito concentrado. Corri 8 km em 53', dando quatro voltas no percurso que faço. Estou bem melhor que no ano passado, quando treinei para a São Silvestre. Este foi o momento do dia que me trouxe felicidade porque a última volta foi de superar limites e me saí bem.

O restante do dia foi de uma tristeza imensa. Fomos almoçar no shopping e vimos as caras dos tais manifestantes do "fora Dilma" e do "volta ditadura militar". É triste porque quanto mais eu estudo a história mundial, mais vejo que o cenário está montado. Os burgueses vira-latas brasileiros querem doar o Brasil ao império para virarmos lacaios novamente.

E o poder golpista dos meios de comunicação monopolizados segue exatamente igual ao do século vinte, ou pior em tempos de rede mundial.

LEITURAS E ESTUDOS HISTÓRICOS

Eu li um pouco três livros que nos fazem pensar muito no que está ocorrendo.

- 1984, de George Orwell (1949)

Descreve uma sociedade totalitária com um partido único, a metáfora para mim é o P.I.G. Partido da Imprensa Golpista. O PIG é o Big Brother do romance distópico. É impressionante a semelhança.

- Os miseráveis, de Victor Hugo (1862)

Descreve uma sociedade burguesa de exploração humana que se repete há mais de dois séculos no mundo.

- LTI, a Linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer (1946)

Esse livro do filólogo judeu alemão sobrevivente do Nazismo é impressionante. Ele analisa a linguagem do Nazismo desde a ascensão de Hitler e como foi possível conquistar toda a nação a apoiar as atrocidades e monstruosidades nazistas.

A construção por parte da direita brasileira segue o mesmo roteiro que o 3º Reich seguiu contra os judeus. A construção do ódio ao PT é fortemente amparada nos meios de comunicação monopolizados por algumas famílias bilionárias que usurpam o Brasil há décadas. A direita brasileira, sabedora que não tem projetos para derrotar o PT no voto popular, buscou outra forma de apeá-lo do poder legitimamente concedido pelo povo - o golpe e o ódio ao partido e à esquerda.

Ou a população acorda e deixa de ser manipulada, ou vamos nos matar em uma guerra civil e entraremos em um longo período sem paz e sem as liberdades constitucionais que gastamos mais de 20 anos para reconquistar após o último golpe civil-militar de 1964.

PARA PIORAR, A ESQUERDA E O MOVIMENTO SINDICAL ESTÃO DESUNIDOS

Estou muito triste com o que estamos vivendo no movimento sindical de onde sou oriundo. Estamos a uma semana do Congresso da Contraf-CUT. Até o momento não há sinais de unidade com todas as forças e segmentos políticos internos.

Está faltando magnanimidade e grandeza nas lideranças para construirmos a unidade necessária para o maior desafio que a classe trabalhadora enfrenta desde que derrubaram João Goulart em 1964. É loucura e burrice o foco ser a vaidade pessoal ao invés dos projetos coletivos.

Vamos ver se depois deste domingo fascista, todas as partes buscam a unidade e apresentamos uma chapa única no Congresso.

Caso contrário, vai piorar a capacidade de resistência contra o golpe que se organiza para a quebra da institucionalidade no Brasil.

William Mendes
Sigo na luta com firmeza, apesar de um pouco triste.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Correndo para suportar problemas e crises várias





Estou trabalhando em SP nesta quinta e sexta. Estive no RJ na quarta-feira debatendo Cassi com a direção da AAFBB.

Olha, cheguei agora à noite e estava muito estressado. Mais uma vez, busquei determinação, coloquei um tênis e saí para correr. Fui ao Parque Continental.

Foi difícil porque estou cansado e dormi muito pouco nesta semana.

Mas não posso reclamar. Corri 40 minutos. Algo como 6 km. Se fosse nos anos anteriores, teria corrido só a metade. Ou seja, estou mentalizado para enfrentar as dificuldades com espírito guerreiro e sem deixar nada me abater.

Vamos dormir porque a sexta-feira será outro longo dia de debates sobre a nossa Caixa de Assistência com as entidades representativas e lideranças.

Sigo firme!

William

domingo, 8 de março de 2015

"Dia das mulheres" - Não há o que comemorar


Uma mulher com olhar de altivez após ser violentada e torturada...
décadas depois, ela segue enfrentando o machismo,
as mentiras da direita e aqueles que são
golpistas e contra a democracia.

Refeição Cultural

A época não é propícia para abordar de forma laudatória a data escolhida para se homenagear ou parabenizar as mulheres e suas lutas.

Não preciso sequer citar casos trágicos mundo afora sobre as desgraças que as mulheres sofrem ininterruptamente por todos os motivos torpes possíveis: da discriminação e preconceito à violência física e assassinato.

Vou citar pela época inglória em que estamos, apenas aquela que é a mulher, do mundo da política, mais agredida e vilipendiada por uma parte pequena da sociedade brasileira, pequena mas com muito poder político e econômico, a parte derrotada nas urnas em 2014 (e 2010, 2006 e 2002), mas que detém todos os meios monopolizados de comunicação e o poder financeiro e do capital, ou seja, o principal partido da oposição e toda a representação da direita brasileira, reorganizados e representados por famílias da elite que usurparam os direitos sociais e políticos da ampla maioria do povo brasileiro por dezenas de anos. 

A mídia comercial e alguns empresários representados pela oposição e aliados nunca permitiram a distribuição de renda neste país colonizado pelas burguesias europeias e depois americanas. Após a ascensão de Lula ao poder, pelo Partido dos Trabalhadores, e depois de sua sucessora, Dilma Rousseff, essa trupe de empresários e seus partidos decidiram ir para o tudo ou nada, frente às perspectivas que apontavam para novas reeleições do PT no próximo período.

Dilma Rousseff, cidadã, mãe e avó, é a mulher no mais alto poder da nação, uma senhora que foi reeleita presidenta do país por 54,5 milhões de votos, vencendo todo o conluio organizado por algumas famílias donas de todos os veículos de comunicação de massa do país, mídia essa mancomunada com um partido que começou social-democrata e que hoje é um partido de direita, que caminha para a ultra-direita, o PSDB.

Como comemorar ou homenagear as mulheres nos dias que correm dessa época inglória, em que meios de comunicação dessas poucas famílias bilionárias pagam para alguns maus profissionais que ainda usurpam o jornalismo dizendo-se "jornalistas", pagam esses fulanos para publicarem ofensas de forma seletiva contra lideranças do PT, partido mais votado pelo povo brasileiro, pagam esses fulanos para estimularem crianças e jovens a replicarem coisas do tipo: "Dilma, vai tomar no cu" ou escrotices piores.


Capa de 8/03/15

A capa do "veículo de comunicação" acima, deste dia das mulheres, 8/03/15, apresenta um desenho com a mulher Dilma Rousseff perto de ser decapitada por um algoz. Seria um desejo? Uma incitação?

O ódio totalitário da direita contra os avanços para o povo brasileiro nos governos do PT é muito mais asfixiante que o ficcional romance do Grande Irmão de "1984", de George Orwell.

Essa construção do ódio há anos pela direita contra o PT (nos moldes e padrões do Nazismo contra os judeus) faz até com que crianças e adultos que conheço passem o dia em rede social junto com seus pais e avós, antes pessoas de minha relação e consideração, faz com que eles passem o dia pregando o golpe contra essa mulher presidenta, legitimamente eleita pelo povo brasileiro para exercer a Presidência da República. Parece a única pauta de suas vidas (não à toa é a única pauta seletiva da grande mídia...)

Os veículos totalitários de poucas famílias põem no ar bruta montes que confessam que estupraram mulheres no passado; põem no ar programas como o BBB 2015 onde corre sexo à vontade com culpabilização da mulher por provável gravidez, e outras porcarias contra as mulheres 24h por dia.

O GRANDE IRMÃO (BIG BROTHER DE ORWELL) - é de uma inocência boba dizer que é só desligar a TV e usar o poder do controle remoto. São milhões de aparelhos ligados na Rede Globo em cada local público do Brasil continental. Nos halls de hotéis, nos bares onde almoçamos, nos metrôs e transportes públicos replicando o que a Globo "inventa e pauta". Nos provedores de internet que iniciam a execução dos aparelhos eletrônicos. É exatamente aquele cenário do "1984". Não há como fugir.

Não vejo no horizonte o que comemorar em relação aos grandes avanços necessários para que as mulheres tenham todos os direitos e igualdade que precisam e que têm direito. O que vejo ao meu redor neste mundo são os valores capitalistas para as mulheres retomando o lugar de um século atrás.

Demos a volta ao mundo em um século e voltamos ao mesmo lugar. A força totalitária dos meios de comunicação dos capitalistas vem conseguindo manter as mulheres como mercadoria, como prêmio, separando as "boas" das "não apropriadas" para determinados fins.

O mundo vai mal após a vitória momentânea do neoliberalismo nos corações e mentes das novas gerações nascidas e crescidas após os anos oitenta.

O mundo vai mal após a atual crise do capitalismo (2008) porque ela ocorreu num momento em que as esquerdas do mundo globalizado achavam que as redes sociais ajudariam a libertar os povos e o que ocorreu foi o inverso: a dominação dos humanos, geração cara na tela, é total. 

Os cérebros correm o risco de atrofiarem para a reflexão. O humano que pensa e que revolucionou o mundo no último século está virando pilha, bateria de um sistema, onde ele só replica, compartilha e posta imagens auto glorificantes.

Poucas famílias com todos os meios de produção e comunicação estão vencendo e subjugando os novos homens e mulheres como baterias alimentadoras de um sistema, com pouco conteúdo no cérebro (e talvez muito músculo fabricado, corpos tatuados e nenhuma gentileza ou respeito pelo próximo).

Meu texto de reflexão sobre essa data marcada para as mulheres não é laudatório. Me desculpem a franqueza. Acho que as coisas estão muito ruins para as mulheres e as perspectivas são piores ainda.

Quem vai parar a máquina das famílias midiáticas e mais alguns bilionários que querem a volta daquele país sem investigação das corrupções das elites, e com o silêncio complacente delas e com aquele enorme exército de miseráveis famintos a vender a força de trabalho por uns vinténs? (Justamente a geração de meus pais, tios e avós e parte dessa geração está agora a cair na lorota da direita e a incentivar a volta para aquele período de merda do Brasil).

A ideologia dominante é a da classe dominante e na contemporaneidade do mundo financeiro, midiático e da imagem, os meios são deles e em cada esquina existe um soldado desta "Matrix"* feito smiths para nos derrotar. Qualquer pessoa pode ser um agente do sistema contra nós, até nossos amigos, companheiros, representados e familiares...

Vida dura!

William Mendes

*Referência ao filme "Matrix" (1999) dos Irmãos Wachowski.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Corri meus 10k no Parque do Sabiá em Uberlândia



Vai uma água de coco aí? Olha o paizão ao fundo.

Refeição Cultural

Objetivos mantidos. Determinei a mim mesmo que vou correr o ano todo para tentar cuidar de minha saúde e para ter uma resistência guerreira e coração forte para enfrentar tudo o que tenho que enfrentar por causa do meu trabalho e minha missão política e de representação.

Pretendo participar de uma prova de corrida de rua por mês e/ou treinar meu corpo a ter resistência para estrear em uma meia maratona em 2015.



Em janeiro, participei de uma das provas mais emocionantes depois das corridas de São Silvestre. Corri os 10k da prova noturna do Costão do Santinho em Floripa - SC. Correr na areia fofa, entre dunas, foi algo para os fortes...

Hoje, corri 10 km no maravilhoso Parque do Sabiá, em Uberlândia - MG. Sou apaixonado por esse parque. Como gosto de emoções fortes, corri com temperatura a 30º e não foi fácil dar as duas voltas que planejei. Completei em 66 minutos o percurso. O que torna mais gostosa a sensação de realização na chegada. Com direito a tomar uma deliciosa água de coco e tudo.

Enquanto corria, defini que voltarei no final de abril ao Parque do Sabiá para tentar dar 3 voltas e correr 15 km para treinar para uma meia maratona.


Foto aérea do Parque do Sabiá. 
(Fonte: Correio de Uberlândia)

O Sabiá tem uma estrutura fantástica. O praticante corre entre árvores, um grande lago, bebedouros a todo instante disponíveis com água natural e gelada.

Feliz pela meta esportiva realizada neste mês.


Treinamento mantido em fevereiro

Treino 1 - dia 4 quarta................... 4 km em Osasco SP (noturna)

Treino 2 - dia 9 segunda.................4,5 km em Brasília DF 
(depois de um longo dia de debate nacional sobre a Cassi)

Treino 3 - dia 11 quarta..................5 km em Brasília DF (noturna)

Treino 4 - dia 14 sábado.................3 km em Osasco SP 

Treino 5 - dia 16 segunda...............4 km em Osasco SP (noturna)

Treino 6 - dia 19 quinta..................6 km em Brasília DF (noturna em 42')

Treino 7 - dia 22 domingo..............6 km em Brasília DF (Sol forte em 37')

Treino 8 - dia 28 sábado................10 km em Uberlândia MG (30º e em 66')

Corri 42,5 km no mês, mesmo com jornada extensa de trabalho com semanas de até umas 80 horas focadas no meu trabalho de gestão da Cassi.

É isso!

Próxima prova: Circuito de corridas da AABB SP dia 29 de março.

Correr é para os fortes e obstinados!

William Mendes

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Diário - 220215 (Envenenamento do povo)


(atualizado em 24/2/15 às 8:45h)


Refeição Cultural - O indivíduo e o seu entorno social

Reflexões sobre envenenamento...



Domingo chegando ao fim. Vamos para mais uma semana de trabalho.

Fiz uma boa corrida hoje. O dia estava agradável e com uma temperatura de 26º e com Sol. Puxei um pouco o ritmo no meu trote e realizei o mesmo percurso de 6 km de quinta à noite em 37' (naquela noite fiz em 41'30"). Fiquei feliz com o treino.


No momento do treinamento, conseguimos esquecer todos os problemas devido ao foco e concentração necessários.

Depois fui com minha esposa almoçar em um Shopping de Brasília.



O veneno se espalha no sangue do povo brasileiro



"Não, o efeito mais forte não foi provocado por discursos isolados, nem por artigos ou panfletos, cartazes ou bandeiras. O efeito não foi obtido por meio de nada que se tenha sido forçado a registrar com o pensamento ou a percepção conscientes. O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases que foram impostas pela repetição, milhares de vezes, e foram aceitas inconsciente e mecanicamente. [...]"

Victor Klemperer, em LTI - A Linguagem do Terceiro Reich (1946)



Brasil: já se percebe nas ruas e nas pessoas, o efeito do veneno introduzido pela direita brasileira em conluio com a grande mídia monopolizada.

Revi no sábado o documentário "Arquitetura da Destruição" que aborda de uma forma diferente os objetivos de Hitler e do Nazismo. A abordagem é muito forte e muito interessante.


Também reli e li um pouco do livro LTI - A Linguagem do Terceiro Reich, do filólogo Victor Klemperer, judeu-alemão sobrevivente do Holocausto.


Tenho analisado a estratégia do Nazismo entre 1933 e 1945 (3º Reich) em utilizar-se da linguagem alemã para envenenar o povo daquele país contra os judeus e contra os outros povos da Europa. O uso dos meios de comunicação de massa, que era uma novidade com o rádio e o cinema, monopolizados pelo 3º Reich e seus empresários e empresas parceiros, convenceu toda a nação a seguir os ideais doentios e totalitários de Hitler.


No Brasil, desde a chegada à Presidência da República de Luiz Inácio Lula da Silva no início de 2003, a direita brasileira, representada pelas famílias bilionárias tradicionais, juntamente com seus veículos de comunicação de massas - a quase totalidade deles -, monopolizados desde décadas passadas, começaram uma estratégia de destruição e ataque tanto ao líder maior da esquerda brasileira, Lula da Silva, como também ao partido por ele criado e que o levou à presidência - o Partido dos Trabalhadores - PT.


Após uma estratégia de minar a imagem e o significado do PT ao longo da história, através do uso principalmente da linguagem e da construção exponenciada de escândalos na mídia golpista, alguns deles frutos de erros mesmo do Partido e a maioria sendo uma forçação de barra para atacar o PT e tentar evitar que o povo continuasse votando nele por causa dos resultados efetivos das políticas implantadas em plano nacional por Lula e depois por Dilma Rousseff, que fizeram o Brasil mudar radicalmente (para melhor) para o povo mais carente e necessitado dos efeitos das políticas públicas.


A distribuição das riquezas produzidas pelo povo brasileiro e as oportunidades geradas para dezenas de milhões de brasileiros em condições subumanas e miseráveis, fizeram com que o Brasil resistisse melhor, a partir de 2008, aos efeitos mundiais da maior crise do Capitalismo desde a crise de 1929.


Após as eleições presidenciais de 2010 e 2014, estabeleceu-se os efeitos da construção ideológica
 liderada pela mídia familiar monopolizada de que todos os males que existem e que não existem são culpa do PT e de seus líderes.

"Trata tudo de forma simplista... reduza todos a um denominador, junte-os e crie uma afinidade entre eles!" (Estratégia de Hitler contra o judaísmo)

"Judeu: na linguagem nazista, esta palavra ocupa um espaço ainda maior que 'fanático'. Mais frequente do que o substantivo 'judeu' é o adjetivo 'judaico', pois com o adjetivo consegue-se criar um elo que reduz todos os adversários a um único inimigo: a visão do mundo judaico-marxista, a barbárie judaico-bolchevista, o sistema de exploração judaico-capitalista, o interesse dos grupos judaico-ingleses e judaico-americanos na destruição da Alemanha." (p. 275)


Quando se lê e estuda o que o Nazismo fez com os judeus e o termo "judaísmo" é fácil perceber a estratégia adotada.


Hoje no Brasil, após uma década de massacre midiático totalitário, o termo "petismo" é usado da mesma forma que era o termo "judaísmo" no 3º Reich.


As barbaridades que tenho ouvido pessoas comuns falarem contra o PT vão da falta de água em São Paulo a ser culpa do PT as pessoas estarem fazendo mais filhos (?).

Poderia citar "n" comparações do livro de Klemperer para ilustrar, mas foi-se meu tempo de montar no Blog postagens super trabalhosas para disponibilizar ao público. Eu estou com três mil coisas para ler e fazer por meu mandato na Cassi e já não posso me dedicar a textos intelectuais e críticos de literatura.


É isso!


Vamos para mais uma semana de luta em prol da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil onde estou Diretor de Saúde eleito pelo corpo social.



Post Scriptum - Quebras de Unidade no seio dos trabalhadores


Ainda bem que eu tenho uma grande resistência em conviver com a tristeza. Estou vendo o contexto político no movimento social e de esquerda de onde venho e muito me entristece ver a quebra da unidade da classe trabalhadora, principalmente num dos momentos mais difíceis do projeto que o PT e a CUT ajudou o povo brasileiro a construir desde 1980.


Soube que houve mais uma tentativa frustrada de construção de uma chapa unitária em sindicatos de bancários da Contraf-CUT e da Central Única dos Trabalhadores. As pessoas em nosso meio parecem que perderam a capacidade de construir consensos em prol de projetos coletivos e de classe. Perdemos todos nós com isso. Que posso fazer? Me destinaram para outras missões e não tenho como contribuir para buscar unidade entre companheir@s que conheço dos dois lados dos rachas que estão ocorrendo.


Muito triste por tudo isso. Dediquei boa parte da minha vida ao movimento sindical bancário e cutista e contribuí para o que significa a organização nacional dos bancários brasileiros. Que pena ver tantas divisões e dissensos. Sigo minha missão na Cassi.


William Mendes

Escriturário do Banco do Brasil desde 1992, atualmente na função de Diretor de Saúde da Cassi (mandato 2014/18).

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Diário - 190215



Pensa um dia comum de trabalho muito muito cansativo.

O meu, na Caixa de Assistência (Cassi), foi assim neste 19/02. Foram cerca de 14 horas de trabalho.

A reunião da Diretoria Executiva e as tentativas de construção de consensos (e os dissensos) duraram longas horas.

Ao sair da Cassi depois das 21 horas, cheguei tão cansado ao apartamento que decidi colocar um tênis e sair no meio da noite para correr... eu não posso permitir que meu cansaço me vença.

Foram 6 km* em 41 minutos pelas ruas e calçadas irregulares de Brasília, Capital Federal da República Brasileira. 

Eu estou sentindo falta de fazer visitas às bases para conversar com os trabalhadores sobre a questão da sustentabilidade da Cassi e as propostas dos eleitos para manter e aumentar direitos em saúde, mas o momento está exigindo que eu passe todo o meu tempo lendo, estudando e defendendo os direitos dos associados da Caixa de Assistência nos debates internos da gestão compartilhada com o patrocinador Banco do Brasil.

Também estamos buscando apoio das entidades sindicais, associativas, Conselhos de Usuários e dos bancários e bancárias para conseguirmos abrir negociações com a direção do BB e encontrar uma solução para o desequilíbrio financeiro atual (solução de curto prazo) para poder aprofundar o modelo de Atenção Integral à Saúde que defendemos para o conjunto dos associados (médio e longo prazo).

Vamos dormir porque já vai dando uma e meia da manhã de sexta-feira 20.

A corrida me salvou hoje. Vou dormir bem, acredito.

É isso!

*(havia calculado 7k mas creio que foi 6k)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Missa do Galo - Machado de Assis (1893)


Machado de Assis, em 1905.

Comentário do blog: esse é um dos contos famosos de Machado. Após a leitura, tem uma análise do Prof. Alcides Villaça (USP) muito interessante, publicado em caderno especial do Estadão em 2009. É para os amantes da leitura e da literatura.

(Publicado em Páginas Recolhidas, em 1899)



Missa do Galo

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

- Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

- Ainda não foi? Perguntou ela.

- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.

- Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada como o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

- Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.

- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.

- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

- Justamente: é muito bonito.

- Gosta de romances?

- Gosto.

- Já leu a Moreninha?

- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.

E logo alto:

- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...

- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

- Já tenho feito isso.

- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

- Que velha o quê, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas ideias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...

Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

- Mais baixo! Mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

- Eu também sou assim.

- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.

- Foi o que lhe aconteceu hoje.

- Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

- Mais baixo, mais baixo...

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

- São bonitos, disse eu.

- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A ideia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a ideia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"

- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

- Já serão horas? perguntei.

- Naturalmente.

- Missa do galo! repetiram de fora, batendo.

-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.


Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestígio - Ediouro - s/d.


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MISSA DO GALO: UMA ANÁLISE

Desejo errante na sala de visitas

Alcides Villaça - Prof. Literatura Brasileira na USP, especial para o Estadão (20/12/09)


Há situações em que as palavras e os gestos manifestos pouco ou nada revelam, por si mesmos, do sentido de uma experiência. Quando a explicitação dos signos mostra-se insuficiente, é preciso chegar ao mecanismo de disfarce ou ocultação que torna o silêncio entre as palavras e o espaço entre os gestos mais significativos do que a declaração verbal ou a disposição do corpo.

Machado de Assis é um mestre na prospecção desses intervalos entre a gravidade da matéria e o impulso da significação, e não costuma abrir mão de nenhum dos dois. O conto Missa do Galo (Páginas Recolhidas, 1899), compreensivelmente antológico, já de início admite a insuficiência: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal". Dada como incompreendida por quem dela participou e a rememora, sinta-se o leitor provocado a buscar o sentido dessa distante "conversação".

A conversa ocorreu numa noite de Natal, entre o adolescente Nogueira, hospedado na casa do escrivão Meneses, e a esposa deste, Conceição. À espera da "missa do galo na Corte", o jovem provinciano lê, enquanto aguarda um amigo que virá buscá-lo, mas põe de lado o livro enquanto dona Conceição irrompe na sala.

A aparição algo fantasmagórica da mulher num roupão branco, na meia-luz da sala, quebra os hábitos da casa, que são rígidos. "Assobradada", "na Rua do Senado", a casa "tinha três chaves" e, lembra-se o narrador, "às dez e meia a casa dormia". 

Bem qualificada, a casa é um território ativo, marcado a fundo pelos valores de uma família tradicional. Nele, move-se resignadamente dona Conceição, chamada "a santa" por suportar bem os "esquecimentos de um marido", que aliás tem amante frequentada semanalmente. 

Traços essenciais que retratam Conceição: "um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos"; "tudo nela era atenuado e passivo"; o rosto era "mediano, nem bonito nem feio"; "perdoava tudo"; "não sabia odiar", "pode ser até que não soubesse amar". Casou tarde, agregou a mãe na casa e leva a vida protegida e insípida de esposa institucional.

Pois nessa noite de Natal, em que o marido foi à amante, uma inquieta e insone Conceição deixa a alcova e vai encontrar o adolescente na sala. A conversa em si mesma interessa menos que a crescente palpitação de sensualidade que o rapaz, aluno de "preparatórios", vai aprendendo aos poucos, em gradativa absorção de gestos, movimentos e expressões da mulher, que para sempre lhe parecerão intrigantes.

A coreografia dos passos e poses de Conceição traduz aproximações e distanciamentos; ao jovem impressionou sobretudo certo balanço no andar da mulher pela sala, "como quem lhe custa levar o corpo". Está nessa expressão, a meu ver, uma síntese do olhar machadiano sobre a história das incontáveis "resignadas" e "santas", que ao longo dos séculos, e por razões diversas, sentem o próprio corpo como cláusula de contrato, condição de status e peso de compromisso.

Na contramão dessa história, um impulso erótico e libertário ameaça tomar forma e transgredir as regras da casa patriarcal, promovendo um contato entre dois estados de incompletude: o do adolescente ainda "despreparado" e o da esposa já "esquecida". Mas Conceição persiste num vago torpor, a que gostosamente se entrega enquanto olha para o rapaz e o faz falar.

A certa altura diz não entender o interesse de alguém em ficar acordado para ver a missa do galo na Corte, e justifica: "todas as missas se parecem". Indiscriminações como essa são reveladoras de tédio e de falta de expectativa de quem há muito já perdeu o direito à ênfase.

Mas há um momento em que a mediana, atenuada e passiva Conceição, nem bonita nem feia, "ficou linda, ficou lindíssima". Como explicar a passagem da apagada mediania para a ênfase do superlativo? Serão os olhos de um adolescente que está despertando para a paixão? Ou, de fato, a súbita iluminação de uma mulher que emerge da esposa resignada, negando a apatia, ganhando expressão e estremecendo "como se tivesse um arrepio de frio"? "Contradigo-me, atrapalho-me", declara o narrador, impossibilitando assim a garantia do sentido e deixando em aberto o momento mágico que resistiu à passagem dos anos.

Nem bem se revelou "lindíssima" e Conceição se afasta do rapaz, vencendo a perturbação, andando pela sala, rememorando, nostálgica e em tom de solilóquio, seus bailes de mocinha sonhadora na mesma Paquetá da Moreninha, de Macedo. Nesse caminho em anticlímax, a sensualidade cede lugar a observações sobre as paredes, como "estes quadros estão ficando velhos" ou "precisamos mudar o papel da sala".

A interioridade calorosa da mulher, iluminada há pouco pelo superlativo, parece dissolver-se pela superfície da decoração da sala. Reassumida, a casa de família estabiliza-se e a esposa retorna ao seu pálido domínio, despedindo-se do rapaz por meio desta fórmula ambígua: "Adeus, até amanhã". A duplicidade fala de quem jamais retornará e de quem estará, no dia seguinte, em seu posto doméstico.

Não mais que um pano de fundo, mera referência no calendário, essa missa do galo será para sempre associada por Nogueira à magia de uma revelação perturbadora, em que o adolescente e a senhora casada comungaram uma "espécie de sono magnético", uma suspensão de hábitos e valores, no espaço-limite de desejos que ficaram navegando, sem ancorar, na sala de visitas da casa patriarcal. 

O conto vale por esta difícil e dupla realização: Machado não perde a atmosfera das impressões sensuais, a errância dos desejos que não se cumprem, a volatilidade da inclinação erótica; e também não deixa de mostrar a rigidez dos papeis sociais, o confinamento da mulher, a solidez da casa burguesa com seu mobiliário de valores. A "conversação" supõe, de fato, a tensão entre essas duas instâncias.

Não é à toa que na missa do galo o rapaz vê a figura de Conceição interpor-se entre ele e o padre. A interposição continua falando desses dois mundos, que Machado faz dialogar: aquele em que se oficiam os ritos consumados, como os da religião, da família e da vida social, e aquele, mais íntimo, em que pulsam as perguntas sem resposta, os impulsos naturais e os enigmas permanentes.

Fonte: O Estadão