quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A Cassi (2019)


(esse texto só pode ser reproduzido na sua totalidade)


O fim de uma história

A decisão sobre votar "Sim" ou "Não" na consulta ao corpo social que a Cassi fará a partir da próxima segunda-feira 18/11 tem sido nesses dias a decisão mais difícil a tomar nos últimos anos de minha vida de cidadão da comunidade Banco do Brasil, o lugar social ao qual eu poderia dizer que pertenço ou pertenci a maior parte de minha vida. A possibilidade de conjugação do sentimento no passado é porque pertencimento é algo profundo, você pertence se se sente parte de algo e esse algo tem que existir para você poder pertencer a ele.

Não é fácil situar no tempo o início das histórias, mas eu poderia demarcar a minha história com a Cassi mais ou menos entre os últimos meses do ano de 2013 e o início de 2014. Evidente que estou situando a parte da história relativa à gestão da entidade, à influência na história da própria Caixa de Assistência. Formalmente, somos (éramos?) todos associados da autogestão em saúde desde que entramos no BB (no meu caso, 09/09/1992) e eu ainda fiz parte do primeiro grupo eleito para o Conselho de Usuários da Cassi SP, lá no final do século passado (tô ficando velho... rsrs).

Em 2013 eu era dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e da Contraf-CUT, era secretário de formação na Confederação e coordenador da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB ou COE BB), órgão político da estrutura organizativa da Confederação e que assessora o Comando Nacional dos Bancários nas negociações nacionais entre trabalhadores e bancos. 

Eu já tinha mais de uma década como dirigente nacional dos bancários, tinha uma história de lutas na minha base política, São Paulo, e no movimento nacional da comunidade BB. Ajudei a construir a unidade nacional da categoria na campanha unificada entre bancos públicos e privados. Aprendi política no Sindicato e na Confederação cutistas. Sou muito grato por essa oportunidade que tive na vida, pois ela me transformou num ser humano melhor.

Foi naquele momento (2013) que companheiros de longa data conversaram comigo e perguntaram se eu poderia disponibilizar o meu nome para ser avaliado junto com o de outras lideranças para a construção de uma chapa para concorrer às eleições da Cassi em 2014. Faço questão de ressaltar uma característica que fez parte de minha história de representação da classe trabalhadora: eu nunca pleiteei cargos ou posições políticas no movimento sindical, nunca. 

Ser diretor do Sindicato e fazer trabalho de base junto a meus colegas bancários sempre foi o que mais me deu prazer e realização pessoal. Já era um sindicalizador dos bancários na base desde minha passagem pelo Unibanco, entre 1988 e 1990. Desde 2002, quando fui eleito diretor do Sindicato, as funções que ocupei no movimento foram por decisões coletivas e políticas e os convites vieram para que eu refletisse se aceitava ou não participar daqueles projetos coletivos. Aceitava como missões a cumprir e dava o melhor de mim para elas.

Essa breve retrospectiva anterior ao convite para disponibilizar meu nome para compor uma chapa para as eleições da Cassi em 2014 tem um significado nessa história que rememoro. Eu vivia naquele momento um dos períodos mais produtivos de minha vida sindical. Ser convidado para um projeto como o da Cassi era uma guinada radical nas perspectivas que tinha como liderança sindical no quadro nacional. 

Aceitar o desafio foi muito em consequência da minha formação política no coletivo de diretores do Banco do Brasil no Sindicato: o que somos é feito do que fomos, ensina o professor Antonio Candido, e minha formação sindical é oriunda do Coletivo BB, do dia a dia do trabalho de base do mandato no Sindicato, e da corrente política à qual percebi que pertencia a partir de um certo momento na vida de trabalhador, nessa ordem. Depois ampliaria meu leque de influências formativas: a Contraf e a CUT. Em termos cidadãos e partidários, eu diria o PT, mas minha vida foi sindical, nunca partidária.

Emolduro essa parte da história com o primeiro parágrafo no qual disse da difícil decisão a tomar sobre uma questão fundamental na nossa vida, a nossa vida pessoal e diria também a das nossas entidades da comunidade Banco do Brasil. A decisão agora é tão difícil quanto foi para mim a decisão de seguir em 2014 no movimento dos trabalhadores.

Quando aceitei participar de uma chapa nas eleições para a Cassi eu não pretendia abrir mão de meu mandato no Sindicato, mandato de primeiro grau na estrutura sindical, no qual representamos os trabalhadores e não entidades como ocorre nas demais estruturas de representação sindical: federação, confederação e central (estrutura vertical). Não queria sair do Sindicato até porque participar do processo eleitoral da Cassi em abril daquele ano não significava ser eleito, pois havia 4 chapas concorrentes, inscritas em janeiro. 

Eu sempre deixei isso claro nas discussões políticas, que minha prioridade era ser diretor eleito pelos bancários da minha base, o mandato sindical era a minha força motriz para os debates que fazia no movimento, mesmo quando os temas eram de difícil construção de consensos. Era na base que eu gestava e fortalecia as posições que defendia nas discussões políticas no movimento.

Eu entendo ser correta a discussão de não acumular mandatos de representação, e de preferência que esse princípio seja aplicado para todo mundo e não para algumas pessoas. Naquele momento, se tivesse que optar por uma representação, minha prioridade seria a do Sindicato. É claro que todas as representações nas estruturas são importantes. Estou aqui esclarecendo a minha preferência e não desrespeitando as outras.

A decisão coletiva na formação de chapa do Sindicato em fevereiro de 2014 definiu que eu ficasse fora da chapa. Eu não levei a discussão para a instância maior de decisão por entender que o fórum principal era o do meu coletivo de banco. Essa despedida do Sindicato não foi tranquila para mim. Eu fiquei muito mal. O pior é que eu tinha um desafio pessoal e coletivo para poucos dias ou semanas depois. Entrar na campanha das eleições Cassi, percorrer o país em março e abril, estudar e me preparar para uma eventual vitória e mudança radical de trabalho em nome dos trabalhadores e associados da entidade. 

Eu fiquei tão mal naqueles dias que durante uma semana vivi o meu "luto" pela perda de algo que já fazia parte da minha vida. Só minha companheira sabe o que passei. Pensei seriamente em desistir de concorrer e voltar para o dia a dia no Banco. Foram dias muito difíceis e eu decidi virar a página e estar inteiro para o desafio que me designaram. Muitos amig@s e companheir@s foram importantes no apoio que recebi para superar as tristezas daquele evento e seguir nas lutas. 

Enfim, o episódio serviu como mais uma lição de vida: divergências, derrotas e vitórias fazem parte da política; elas são normais e não são pessoais, diga-se de passagem. Tudo passou e construímos juntos muita coisa boa depois disso, eu e o movimento sindical ao qual pertencia.

Cassi, o fim de uma história

O mandato eletivo de diretor de Saúde e Rede de Atendimento na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, entre junho de 2014 e maio de 2018 foi um dos períodos mais intensos de minha vida. Eu tinha clareza que minha passagem pela Cassi não poderia ser mais do mesmo em relação a outras forças políticas que haviam passado pelas gestões de nossa Associação.

Algumas concepções e práticas sindicais teriam que ser base de nossa conduta na representação dos associados na maior e mais antiga autogestão em saúde do país. E mais: minha experiência na organização coletiva, na formação sindical e na área de comunicação, no contato com os trabalhadores e no enfrentamento entre capital e trabalho através das negociações coletivas também estariam presentes em nossa passagem pela gestão da Cassi. E assim fizemos.

Todos os problemas reais e os inventados que estão em discussão na reforma estatutária da Cassi já estavam presentes em 2014. Todos. As questões colocadas pelo patrão são ideológicas, muitas delas absurdas e de intromissão descabida na gestão da Caixa de Assistência, cujos donos são os trabalhadores e o Banco é o patrocinador. O custeio insuficiente da Caixa tem grande responsabilidade do BB e a Cassi não teria problemas de governança se o patrocinador não gastasse todo o seu tempo na gestão focando em disputa ideológica com os associados por sua natureza de banco e de patrão. 

O patrocinador tem uma natureza autoritária e entende que sua palavra deve ser lei e numa gestão paritária as coisas não podem ser assim. E não me venham com interpretações dúbias. Não é uma questão pessoal o que estou reafirmando. Não é joão ou maria, associado indicado pelo patrocinador, que seria autoritário na gestão; é o Banco que determina o que seus representantes vão votar e propor e quem não obedecer, tchau, pode ser substituído como permite o Estatuto! Não existe aquele papo de "aqui é tudo irmão, tudo associado, e temos o mesmo objetivo na gestão". Por dever formal, os indicados fazem o que manda a direção do Banco, o Governo; se não fizerem, saem. E aí começam os problemas: a entidade de saúde deve estar em função das pessoas assistidas, dos trabalhadores, e não em função do patrão e da empresa.

A Cassi não avançou na expansão da Estratégia Saúde da Família (ESF) em parte por culpa do patrocinador na gestão, que aceitou mas nunca acreditou no modelo assistencial e dificultou ao máximo que a cobertura crescesse como estava definido no Planejamento Estratégico desde o lançamento do programa em 2003: cobrir com a ESF o conjunto dos participantes do Plano de Associados, 400 mil vidas. A expansão só ocorre se houver investimentos destacados para tal no orçamento. Nada anda nas áreas internas da Cassi sem a concordância do Banco, nada! Ou seja, tudo de bom e tudo que não funcionou na gestão da Cassi tem o dedo do patrocinador.

Coube a nós durante os 4 anos de mandato mostrar que a ESF é eficiente, dá resultados, que as despesas assistenciais das pessoas vinculadas ao modelo são de 20% a 40% menores em relação a graus de complexidade idênticos em pessoas não cuidadas pela ESF. A tal empresa contratada após o Memorando de Entendimentos ganhou uma bela oportunidade de conhecer os fatos positivos do modelo assistencial Cassi. Deve ter sido uma das melhores experiências adquiridas por ela ter estudado o Sistema de Saúde Cassi, um corpus que mais tenha agregado conhecimento a ela, Know How. E mesmo assim, bastou montar o relatório final, no início de 2018, para sugerirem um monte de coisas que o patrocinador queria implantar na gestão da Cassi: mandonismo.

Após a reforma estatutária de 1996, o mesmo Banco patrocinador contribuiu para dificultar o equilíbrio entre receitas e despesas cada vez que suas gestões deixaram de recolher o adequado para a Cassi como ocorreu por uma década em relação aos funcionários pós-1998 (recolher 3% e não 4,5% como reza o Estatuto), ao congelar salários e dar abonos e outras formas de remuneração sem impacto na arrecadação do Plano de Associados etc. Se eu fosse descrever todas as coisas que o Banco contribuiu para que a Cassi não estivesse tão bem quanto poderia, eu iria longe. 

Não é correto jogar toda a culpa do déficit na inflação médica, nos custos de aquisição de serviços no mercado de saúde, que tem variação muito maior que a inflação oficial, porque a Cassi deveria comprar menos serviços no mercado, essa é uma questão básica! As receitas poderiam ser suficientes ou a necessidade seria bem menor do que calculam (perto de 14% das folhas de ativos e aposentados) se houvesse cobertura para 100% dos participantes com Atenção Primária e ESF (e os programas preventivos e linhas de cuidados para crônicos), uma maior verticalização na estrutura própria, regulação adequada, parcerias estratégicas com a rede credenciada, sistema de tecnologia melhor e população corretamente orientada. 

E reafirmo o que disse por 4 anos: um dos principais papéis do Banco nunca foi exercido como se poderia: ser o agente orgânico e nacional do incentivo de adesão e vinculação ao modelo assistencial. O Banco tem capilaridade e fácil acesso aos 95 mil associados da ativa. Em 15 anos de modelo assistencial, o Banco nunca teve uma campanha permanente de esclarecimento e incentivo em se conhecer e participar da ESF. Afirmo isso porque estive lá e sei que nunca foi feito. A Cassi e a ESF seguem desconhecidas de seus associados porque não é foco da comunicação e marketing do sistema. Por outro lado, quando a Cassi e o patrocinador querem, fazem campanhas massivas e exitosas para divulgarem o que definiram como prioritário.

E assim, chegamos ao momento presente. Uma consulta ao corpo social entre os dias 18 e 28 de novembro, para os associados definirem se aceitam ou não a proposta de reforma estatutária que desfaz a Caixa de Assistência solidária e com gestão paritária que os trabalhadores do Banco do Brasil construíram em décadas de lutas, derrotas e conquistas. Na minha avaliação de conhecedor da gestão da Cassi, do Plano de Associados e dos direitos dos trabalhadores, nós já perdemos nossos direitos, seja com o resultado de aprovação da proposta, seja com a não aprovação e as consequências posteriores, pouco sabidas por nós, mas que podem ser uma proposta alternativa da governança reduzindo drasticamente direitos, processos políticos e judiciais que se arrastem por anos, mobilização e reabertura de processo negocial entre as partes envolvidas, liquidação da entidade, sei lá o que mais.

Minha leitura sintética sobre a proposta

A proposta de reforma estatutária que será apreciada pelos associados entre os dias 18 e 28 de novembro de 2019 é muito ruim na minha opinião, ela cria uma nova instituição, apesar de continuar com o mesmo CNPJ.

A proposta que vai a votação é fruto de um desejo antigo do patrocinador, de impor a sua autoridade de patrão e ex-patrão à entidade de saúde criada em 1996 para ser independente e autônoma em relação ao Banco do Brasil no trato da saúde de seus trabalhadores e familiares.

Ela quebra a base de sustentação do modelo de custeio mutualista intergeracional e solidário, ao passar a cobrar por titulares e dependentes e não mais pelos titulares do Plano de Associados. Aliás, ela não só passa a cobrar de forma desigual, cobrando mais de quem tem mais dependentes como também já passa a cobrar por idade de forma disfarçada, pois ao cobrar o dobro do 1º dependente do aposentado em relação ao da ativa é porque entende que aposentado tem que pagar mais. Que saibamos, em geral, aposentados são pessoas de faixas etárias maiores que as faixas etárias da ativa, em volumes de assistidos.

O recurso que o patrocinador vai colocar provisoriamente na entidade de saúde a título de taxa de administração vai cessar logo adiante e o sistema de receitas e despesas operacionais terá que se virar para manter equilíbrios dentro da mesma lógica que já está colocada na atualidade: o déficit é fruto de comprar mais serviços no mercado de saúde privado do que o volume que se arrecada de seus associados e patrocinador. A cada exercício contábil nos próximos anos, a entidade de saúde terá que fazer as contas de quanto precisa arrecadar e quanto pode gastar. Essa lógica de cabeça de planilha não irá a lugar algum, pois o principal sempre é deixado de lado: o modelo assistencial que deveria ser implantado e não é por falta de compreensão, interesse e apoio dos agentes envolvidos - Banco, gestores e associados do sistema e usuários.

E, por fim, as mudanças na governança inviabilizam de vez qualquer desejo de mudança pró-associados através da gestão eleita, na minha opinião de ex-gestor eleito que enfrentou um sistema já engessado para mudanças, porque a força do patrocinador é enorme na gestão, e engana-se aqueles que acham que o funcionamento e manutenção da Cassi se dá somente através das reuniões mensais do Conselho Deliberativo. Não. O dia a dia de funcionamento da máquina administrativa e do Sistema de Saúde Cassi se dá nas atribuições e autonomias que existem em cada diretoria e nos direitos e deveres afetos a cada uma delas. Não vou escrever aqui o que explicamos em 635 postagens e em 170 reuniões presenciais com a base social da Cassi. (ler aqui)

Eu suponho o que quer o patrocinador ao manter a exigência de voto de minerva naquilo que estão chamando de questões meramente administrativas. Afirmo aos associados e lideranças representativas que nossa gestão eleita entre 2014/18 não poderia ter feito praticamente nada do que fizemos (nada!) se essa proposta de governança estivesse em vigor em junho de 2014. Se fortalecemos os conselhos de usuários e a participação social foi porque enfrentamos todas as tentativas das burocracias em nos manter calados, sentados na cadeira de diretor na sede em Brasília e não aceitamos ser burocratas, ao contrário, saímos a campo para mostrar o que é a Cassi, seu modelo, como funciona, e para pedir apoio de todos na defesa da entidade; para isso percorremos órgãos regionais do Banco, entidades representativas e conselhos de usuários. 

Mais ainda: se no dia a dia administrativo, o patrocinador mandasse mais do que manda, é provável que nossa diretoria não tivesse conseguido sequer fazer os estudos que fizemos para provar que a ESF dá resultado, porque tivemos que bolar estratégias que não existiam no sistema antiquado de TI e se o mandonismo imperasse, não nos deixariam fazer nada. E foi bom o que fizemos, mostramos a eficácia do modelo assistencial APS/ESF/CliniCassi/programas de saúde. 

E as CliniCassi, então? Se o Banco já mandasse na questão dos aluguéis, isso poderia ter sido uma tragédia durante os últimos anos de contingenciamento. Questionamos dentro das regras possíveis todas as propostas inadequadas que vinham sobre o tema porque as decisões não eram as melhores na nossa opinião de gestores das Unidades e CliniCassi. Gestores de banco tendem a achar que uma CliniCassi é uma agência bancária. Não tem a menor comparação. Provamos o quanto a estrutura Cassi é barata e as despesas administrativas são baixas. Imaginem se o mandonismo já existisse até nisso?

Não vou me alongar dizendo todos os prejuízos da proposta de mudança na governança em favor do patrocinador. Só sei que não me deixariam levar as informações à base nem com meus próprios recursos e com o de algumas entidades representativas que nos apoiaram, como fizemos (tentaram mudar as normas para o eleito não poder sequer viajar sem autorização da parte patronal, sendo que as normas permitem). Usei os recursos da remuneração de diretor para visitar o país e esclarecer a base sobre a Cassi. Nosso foco sempre foi fortalecer a autogestão, por isso pedi tanto apoio ao modelo assistencial ESF, porque é o melhor para a Cassi e o Plano de Associados. Colocamos as questões coletivas sempre em primeiro plano, mesmo quando os temas nos afetavam pessoalmente.

O fim da solidariedade

Entendo que é minha obrigação deixar registrado o que penso a respeito do fim da solidariedade no Plano de Associados da Cassi como tivemos por décadas.

A proposta de cobrar por dependentes que passaria a vigorar com a reforma estatutária quebra o modelo de solidariedade conquistado na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil ao longo de uma história de lutas coletivas. O modelo de custeio solidário que temos hoje não começou assim como é, ele foi se aperfeiçoando ao longo do tempo, chegando ao excelente modelo de todos contribuírem com a mesma porcentagem da remuneração ou benefício, na ativa e aposentado, e usufruindo da mesma cobertura e direitos.

Solidariedade é uma construção da utopia humana. O conceito geral é bem mais amplo do que a questão específica e corporativa do modelo de arrecadação e rateio de recursos no Plano de Associados como está estabelecido no Estatuto Social da entidade desde 1996, que é o modelo em vigor.

Não se trata tão somente de inventar discursos para dizer se é justo ou não é, se é solidário ou não é, cobrar-se mensalidades diferentes de colegas da ativa e aposentados para as mesmas faixas de remuneração e benefícios como, por exemplo, uma faixa de 4 mil reais: 

R$160 de um titular sozinho; 
R$200 se casal da ativa;
R$230 se casal da ativa com dois filhos;
R$240 se casal aposentado;
R$270 se casal aposentado com dois filhos. 

Solidariedade não é só uma questão numérica, mas é também numérica e que pesa sim de forma diferente na vida de cada pessoa envolvida. Dizer que é solidário cobrar R$160 de um associado e R$270 de outro associado, ambos com recursos mensais de 4 mil é, no mínimo, um exagero.

Qualquer cálculo de custo de vida ou de pesos dos custos das necessidades básicas na vida da classe trabalhadora demonstra que quanto menos a pessoa ganha, mais difíceis são as possibilidades de manutenção de aquisição das coisas básicas porque quanto menor a remuneração, maior o comprometimento dos recursos com essas necessidades básicas. 

Um aposentado sozinho que receba 4 mil, um jovem bancário solteiro que receba 4 mil, um casal de aposentados que receba 4 mil, ou um casal jovem, ou ainda com dois filhos nesses casos que descrevi acima têm dificuldades diferentes em manter o plano de saúde dentro de suas economias domésticas porque todos têm outras despesas básicas que não poderiam cortar.

Mais ainda, essas mesmas condições que descrevi acima para colegas que recebem a remuneração de 4 mil, são condições diferentes para aqueles que ganham 7 mil, 10 mil, 20 mil etc. A pirâmide de remuneração ou benefícios de uma população como a comunidade de associados da Cassi, colegas da ativa e aposentados, é uma realidade que não se pode deixar de considerar. Será que a maioria da população Cassi tem altas remunerações e benefícios ou se situa bem mais abaixo na estrutura da pirâmide? Essa pirâmide tem base estreita e topo largo (a maioria ganha bem) ou o inverso?

Isso sem contar do absurdo do valor cobrado atualmente pelas coparticipações sobre consultas, terapias, exames médicos etc. As coparticipações definidas pela direção da Cassi são injustas, e os efeitos na economia doméstica dos participantes são extremamente danosos, se pegarmos o exemplo que dei acima para os colegas que ganham 4 mil nas diversas situações. 

Um aposentado, em geral doente crônico, ou um colega da ativa que já tenha comorbidades e necessite de medicamentos e acompanhamentos, esses colegas vão despender muito mais de seus parcos recursos nessa necessidade básica - saúde - do que seus pares nas funções e remunerações semelhantes sem doenças crônicas; que dirá se compararmos um aposentado crônico com um jovem saudável naquele instante da comparação.

Nem vou longe nas diversas hipóteses de maior necessidade de uso do sistema de uma hora para outra. O jovem saudável sofre um acidente com diversas fraturas e não se recupera; um jovem que casa e tem um filho com algum grau de deficiência que exija acompanhamento complexo e caro para o resto da vida; um colega que está bem e no dia seguinte descobre ter uma doença degenerativa ou algo do gênero. Sistemas não solidários, e que só visem equilíbrio nos balanços tendem a expurgar ou onerar quem é mais caro e com maior risco no sistema. É a lógica do mercado.

Entendo que é inadequado afirmar-se que a solidariedade está mantida no Plano de Associados ao alterar a condição atual do Estatuto Social da Cassi para o modelo de custeio de cobrança por dependentes. Mas como disse acima, a questão da solidariedade não é só uma questão específica e corporativa do Plano de Associados dos trabalhadores do Banco do Brasil. Durante os anos em que estivemos na gestão e defendemos a solidariedade criamos uma onda solidária e mesmo quem era contrário na essência, defendia conosco o modelo.

A solidariedade perdeu terreno, perdeu espaço na comunidade Banco do Brasil e na sociedade brasileira. Perdeu espaço no mundo. Nós que defendemos a solidariedade, a solidariedade entre os seres humanos, a solidariedade de classe, perdemos nesse momento da história. Perdemos.

A solidariedade perdeu quando 57.797.847 brasileiros e brasileiras votaram num candidato que pregou abertamente e por décadas o ódio, a tortura, a violência, a discriminação contra pessoas por origem, cor, raça, orientação sexual, crença, classe social. Um candidato que hoje como presidente governa para o topo da pirâmide, para os bilionários e diariamente age para prejudicar os direitos dos mais pobres. Que destrói patrimônio público e empresas públicas, fundamentais para distribuir riqueza e fornecer cidadania para o povo.

A solidariedade perdeu quando nas eleições Cassi em 2018 as diversas lideranças e correntes políticas do campo progressista e popular, mais à esquerda, decidiram lançar diversas chapas para concorrer em um cenário político que já se mostrava adverso para a classe trabalhadora em geral e para o funcionalismo das empresas públicas e do Banco do Brasil, categoria com diversos direitos específicos como jornada de 6h, PLR negociada, Convenção Coletiva e concurso público; o país vivia sob golpe de Estado desde 2016, os direitos da classe trabalhadora já vinham sendo destruídos de forma acelerada.

A solidariedade perdeu nas eleições Cassi em 2018, mesmo na época tendo maioria de votos. Nós havíamos contribuído durante o mandato para tirar de pauta temas como quebra de solidariedade, questionamentos sobre o modelo assistencial ESF, a importância das CliniCassi e os custos administrativos, dentre outros temas que o patrocinador sempre pautou de forma ideológica. Fortalecemos também a participação social na Cassi, questão que também incomoda os patrões e capitalistas.

A "defesa" da solidariedade estava presente nas propostas das três chapas compostas por integrantes de grupos e correntes mais progressistas e mais à esquerda. Chapas com propostas semelhantes e para disputar o mesmo público eleitor na base. Mas a minoria que defendia "flexibilizar" a solidariedade ganhou com a maioria dos votos no pleito de Cassi. Pela solidariedade foram 58.603 votos; pela flexibilização, uma outra visão sobre a Cassi: 36.942.

A solidariedade perdeu cada vez que o movimento sindical foi se dividindo, dividindo, dividindo. Central sindical que virou várias centrais. Correntes políticas que viraram mais correntes políticas. As divisões seguidas vão transformando instituições e programas políticos em grupos de joões e marias. Líderes com quantidades de "garrafas" a votarem com eles, como dizem no movimento. Enquanto isso, as discussões políticas e coletivas foram ficando em segundo plano. Não há solidariedade que sobreviva a isso.

E com as várias derrotas da solidariedade humana e de classe, chegamos no momento em que estamos hoje. Com a corda no pescoço. Com raiva de tudo e de todos. E sós. Estamos muito sós, porque pertencer a grupos de marias e de joões não tem a mesma força que pertencer a projetos coletivos, políticos e ideológicos para a classe trabalhadora.

Meu voto e o que espero

"É preferível errar com o coletivo do que acertar sozinho" (um princípio básico da esquerda, ou melhor, do movimento sindical e partidário)


A questão de votar "Sim" ou "Não" neste momento de nossas vidas, neste contexto político, econômico e social em que nos encontramos, é uma "Escolha de Sofia".

Estamos vivendo um regime de exceção, não estamos num estado democrático de direito. O país foi tomado por grupos de direita e autoritários, máfias e milícias e o Estado nacional está sendo rapidamente destruído. As instituições políticas estão fragilizadas: poderes legislativos, executivos e judiciários estão em frangalhos.

Votar "Sim" à proposta traz as consequências que descrevi acima. A Cassi deixa de ser solidária, não será mais para todos, ou seja, será privilégio de parte da comunidade BB e pode voltar a ter problemas de desequilíbrio financeiro em breve. A entidade ganha um fôlego de uns dois a três anos. É o que esperam os defensores dela.

Votar "Não" não equivale a evitar consequências semelhantes à que descrevi acima no que diz respeito à quebra da solidariedade, por exemplo, porque algo vai acontecer no plano material para que a instituição seja viável em seu funcionamento. Isso se o regime de exceção em vigor não liquidar de forma burocrática a Cassi e o patrocinador, o banco público BB. O novo regime político sabe que não há mobilização e correlação de forças prontas para a resistência.

Com a corda no pescoço e o fim dos prazos dados pela ANS, a direção da Cassi pode optar por reduzir coberturas e direitos que entenda serem excedentes à legislação, reduzir a qualidade da rede credenciada, pode-se alterar a essência do que é o Sistema de Saúde Cassi como descrevi rapidamente neste texto, pode-se onerar mais ainda aos associados através de cobranças que a legislação permita ou não proíba etc. Sempre tem espaço para se fazer maldades contra usuários de sistemas de saúde. Sempre!

Conversei durante os últimos meses com todas as forças e lideranças políticas que estão envolvidas no processo de solução para o Plano de Associados da Cassi. Com entidades sindicais e representativas, com lideranças à esquerda, ao centro e à direita do espectro político, inclusive com gestores que estão na direção da entidade neste momento. Dei minhas opiniões sinceras e honestas a eles sobre o que penso.

Com os amigos e companheiros que defendem o "Não" falei de dúvidas que tenho a respeito de algumas teses como, por exemplo, a do conceito de Benefício Definido em relação ao Plano de Associados e algumas apostas em defesas de direitos baseadas em disputas judiciais. Com os amigos e companheiros que defendem o "Sim" falei sobre o meu desagrado em afirmarem que a proposta não quebra a solidariedade e que o voto de minerva não afeta nossos direitos na gestão e, consequentemente, nossos direitos de associados.

A luta por manutenção e ampliação de direitos na história da classe trabalhadora é sempre a melhor alternativa. Nada vem de mão beijada na luta de classes. Por diversas questões que não cabe escrever aqui, tenho leitura que não há correlação de forças neste momento no cenário político, econômico e social para fazer um enfrentamento às forças que tomaram o poder e que têm poder de decisão contra nós da comunidade BB.

Quando escrevi uma contribuição aos debates de solução para a Cassi, na véspera do 30º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (ler aqui), não o fiz para marcar posição, como se diz na política. A minha formação não me permite isso. Desde 2003, quando passei a ter mandatos de representação, aprendi que para contestar e negar uma proposta é necessário apresentar a contraproposta e ela deve ser exequível nas negociações coletivas. 

Parte do movimento sindical entendeu que minha sugestão não era viável, sequer deveria ser discutida. Paciência! Só acho muito chato terem feito interpretações equivocadas do que sugeri. Alguns companheiros chegaram a dizer que eu estava propondo assumirmos sozinhos a diferença do que o Banco contribui 4,5% e o que a Cassi necessitaria (14%). Eu não propus isso. Até porque sempre disse que a Cassi poderia se equilibrar com bem menos que isso, talvez uns 11% das folhas da ativa e aposentados. Sempre acreditei na força e capilaridade do movimento sindical. Disse que se quisermos falar com 100 mil bancários no país, de forma coesa e com uma proposta ousada de luta, é possível construirmos maioria na base. Afinal de contas, há uma centena de sindicatos em todo o país.

Em relação ao que propus, basta ler a contribuição. Disse que tínhamos que resgatar a Cassi pela importância dela, que poderíamos fazer contribuições maiores que os atuais 3%+1%, de forma temporária e extraordinária. Sugeri 7% e por 5 anos e sem mexer no modelo de custeio solidário e intergeracional. Sugeri na proposta lutar para que o patrocinador mantivesse a injeção de recursos que ele havia apartado em seu orçamento e proposto em maio (mais de 500 milhões). Sugeri metas de ampliação da ESF para chegarmos a 100% de cobertura do Plano de Associados. Nos bastidores, expliquei inclusive as estratégias para tirar o Banco do conforto de só negar qualquer proposta. Se tivéssemos maioria em uma proposta de colocar recursos na Cassi, poderíamos questionar ANS e patrocinador, sem aceitar deformar todo o Estatuto.

Enfim, eu estou cansado de escrever e se alguém chegou até aqui, também já encheu de ler. Não há soluções de fácil encaminhamento prático como é de conhecimento de todos. As discussões e soluções sobre nossa autogestão em saúde são discussões que precisam de maiorias qualificadas, 2/3 dos associados. Não se consegue isso com divisões e divisões como temos vivido no movimento sindical e associativo da comunidade BB. Não serão grupos sem capilaridade nacional que obterão maioria qualificada para alguma das teses colocadas.

Entendo que perdemos parte importante de nossas conquistas em direitos de saúde consubstanciados no Plano de Associados da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Isso foi acontecendo conforme fomos perdendo a solidariedade entre nós. Que fazer, então? 

Eu vou optar por seguir a orientação das principais e maiores entidades sindicais do país, reunidas no Comando Nacional dos Bancários, entidades de luta dos trabalhadores bancários brasileiros e votar "Sim". Entendo que é obrigação formal e política dessas entidades nos representar, organizar e defender todos os direitos de classe, da classe trabalhadora, em nossa vida laboral e quando nos aposentamos.

Não sei se seguir essa orientação é a melhor decisão a tomar, mas sei que me sinto só e nesse momento gostaria que as nossas entidades de classe fizessem tudo o que está ao alcance delas pela nossa Caixa de Assistência, pela categoria bancária e pela classe trabalhadora brasileira.

William Mendes
Associado Cassi e Previ
Cidadão sindicalizado

Post Scriptum:

- Quando penso a autogestão Cassi que conheci por dentro como gestor, penso nos mais de dois mil trabalhadores que lá estão, as quase 150 equipes de família, profissionais de saúde e de outras áreas distribuídos por esse país continental. Mesmo tendo perdido a batalha pela solidariedade entre os próprios associados, penso que vale a pena preservar o emprego dessa pessoas ao evitar um risco imediato de liquidação da entidade, que independente das disputas políticas por poder da gestão e do custeio entre banco/governo e associados, acolhem e salvam a vida de milhares de pessoas diariamente. Respeito muito esses profissionais da Cassi, são um verdadeiro patrimônio da entidade.

Post Scriptum II:

Registro aqui o resultado da consulta ao corpo social que avaliou a proposta de mudanças estatutárias da Cassi, tema abordado neste artigo. A fonte é a revista da Afabb SP nº 164, de Janeiro/Fevereiro de 2020, página 17. Reproduzo o texto:

CD homologa resultado

O Conselho Deliberativo (CD) da CASSI homologou, em 29 de novembro, o resultado da consulta ao corpo social que aprovou a mudança estatutária da entidade.

A consulta ocorreu de 18 a 28 de novembro e dos 167.557 associados habilitados, 124.267 (74,16%) votaram. Foram 81.982 (65,97%) pelo Sim e 39.608 (31,87%) no Não, com 1.161 (0,93%) brancos e 1.516 (1,22%) nulos. Segundo a CASSI, considerando apenas votos válidos, a proposta foi aprovada com 67,42% dos votos.

Por haver questionamentos sobre se o quórum foi de fato atingido, a CASSI disponibilizou em seu site (www.cassi.com.br), nota onde destaca: "... a CASSI esclarece que a consulta ao corpo social aprovou a proposta de recuperação com 81.982 votos 'sim', atingindo o quórum de 2/3 dos votos favoráveis exigidos pelo estatuto vigente."

A proposta apreciada pelo funcionalismo, da ativa e aposentados, foi negociada pelas entidades representativas - Contraf-CUT, ANABB, AAFBB, FAABB - e diretoria do BB, diretores e conselheiros eleitos e indicados da CASSI.

EM TEMPO - A Contec enviou, em 29 de novembro, ofícios ao banco, à presidência e ao Conselho Deliberativo da CASSI, solicitando a impugnação do resultado da consulta.

sábado, 16 de novembro de 2019

Mentir, a nova ordem mundial


Não minta! Não compre ou compartilhe mentiras!

Quem seria pior: o/a mentiroso/a ou quem acredita em mentiras, mesmo que absurdas e de fácil conclusão que são mentiras?

Um governador do Brasil mente diante das câmeras de TV dizendo absurdos sobre a baixa violência no Estado dele, mentira cabeluda, que o Estado seria um dos mais seguros do mundo. Em minutos é possível ver que a autoridade cometeu quebra de decoro, mentiu. Não acontece nada.

O presidente da república mente várias vezes ao dia, durante dias, semanas, meses, desde o 1º dia do mandato. Aliás, foi eleito com mentiras. (dizem que ele é presidente, mesmo a eleição tendo sido uma fraude atrás da outra, sendo uma mentira). Quebra o decoro mil vezes e nada acontece.

Procuradores, delegados, juízes, inventam mentiras absurdas para prejudicarem pessoas e instituições, colocam o Estado contra cidadãos, uma coisa desproporcional, uma máquina de mentiras contra um ser humano e um monte de gente acredita nas mentiras. Depois as mentiras são desmascaradas e mesmo assim as pessoas continuam acreditando nas mentiras só por não gostarem da vítima. Gente, que passa no mundo?

Qual o sentido em seguir aceitando um mundo assim? As mentiras são produzidas de forma canalha, vil, nojenta porque as pessoas compram e reproduzem as mentiras. São pessoas mentirosas assim como o mentiroso/a original.

Eu não aceito mentiras e não vou deixar de ser honesto, correto e falar a verdade porque a nova ordem mundial é baseada em mentiras. Poxa meu, você pode nos ajudar a recuperar o mundo. Não minta, não aceite mentiras, não reproduza e compartilhe mentiras.

Assim como muitas vítimas de mentiras, eu senti o que é ser vítima de mentiras poucas semanas depois que estava exercendo o mandato eletivo de diretor de saúde da Cassi. É duro inventarem mentiras sobre você.

Duas ex-diretoras eleitas na mesma Cassi publicaram texto nas redes sociais dizendo que eu não trabalhava no mandato, que só trabalhava um dia por semana na Cassi. Tenho o texto mentiroso guardado comigo.

Enquanto isso, minha agenda era pública e publicada, qualquer pessoa no planeta Terra saberia o que eu estava fazendo, onde estava trabalhando no dia a dia do mandato porque era só acessar o blog de prestação de contas. Eu estava sempre entre os trabalhadores, os associados que representava.

E isso seguiu ao longo do mandato, as mentiras contra mim. No último ano do mandato, depois de tanto tentarem inventar mentiras contra mim e não me atingirem, pessoas e grupos montaram uma carta anônima mentirosa, tosca, mal escrita, chula, e como queriam de todo jeito me prejudicar com mentiras, fizeram um processo interno contra mim baseado em mentiras.

Foram meses de humilhações e assédio moral. Eram mentiras absurdas, mentiras como aquelas que inventaram no início do mandato, dizendo que eu não trabalhava. Pediram para que eu (vagabundo?) comprovasse o que estava fazendo em dezenas de dias do mandato. Teve dia em que eu era palestrante na própria entidade e me pediram que justificasse onde estava! Mentiras para destruir pessoas e reputações...

Fui salvo das mentiras por um blog de prestação de contas que criei porque quis e por acreditar na verdade e na transparência.

Que diabo de mundo é esse? Se as pessoas não pararem de mentir, de aceitar mentiras e compartilharem mentiras, a humanidade vai acabar, vai acabar. 


A democracia já acabou. Como considerar resultados de eleições nos quais as mentiras mais eficientes e com mais recursos financeiros prevaleceram e elegeram gente e ideias baseadas em mentiras?

Pense a respeito disso e converse com as pessoas que você achar que deva conversar sobre isso. Temos que acabar com essa barbaridade de mentir como nova forma de vida.

William

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

141119 - Diário e reflexões (Fluxo de pensamento)



Instantes... levantei-me indeciso em relação a tudo. Ir para a minha aula da faculdade ou não ir, já que não li os textos como deveria. Decidi não ir. Tenho vergonha por não ter lido os textos. Vergonha... (está impossível ler com tanta desgraça e destruição de meu mundo, sou assim). Triste tudo isso! Sobre a Cassi, apesar de não ser mais representante de nada, de não fazer mais parte dos processos e ser apenas um associado, preciso me decidir em relação à consulta sobre a reforma estatutária: já perdemos a Cassi, já perdemos, os banqueiros e o banco venceram (os colegas escriturários em posição de se acharem banqueiros venceram, quis dizer); devo achar na minha consciência uma razão nas consequências para optar por qual alternativa entenda afetar menos os seres humanos que dependem da entidade, que não será mais a que tivemos ou que poderia ser se o banco e seus banqueiros não fizessem tanto esforço para não deixar a Cassi ser o que deveria ser. Estou indeciso até quanto a não ter mais conta alguma em rede social, a do Facebook que manipula meus dados e contatos, as do Twitter e WhatsApp. Mas a decisão para alguém que viveu de contato, de gente, no meio da gente, em função das gentes, enfim, o isolamento é algo que apavora, difícil decidir isso. Ao mesmo tempo, sei que nossos inimigos nos mapearam através dessas redes, estamos absolutamente à mercê deles, somos presas frágeis e o que poderia nos dar mais chances frente aos predadores seriam as qualidades de sermos animais gregários, e que deveríamos nos agrupar para nos protegermos (em associações, sindicatos), sermos muitos apesar de frágeis e podermos nos unir para sobreviver com a força do grupo, mesmo sendo frágeis no isolamento... já era, o inimigo poucas vezes na história acertou tanto na estratégia como agora, de nos infectar com o vírus do ódio e nos fazer bestas-feras, cegas e babando de raiva contra tudo e todos (os zumbis dos filmes e seriados), não enxergamos mais nada que nos prejudica, contanto que prejudique outra presa como nós mesmos; agora somos cegos e uns contra os outros (como no Ensaio sobre a cegueira), nós os predados contra nós os predados; não temos muitas chances de sobreviver aos ataques do inimigo assim. Estamos sós, desesperadamente sós, divididos, e com raiva de nossos iguais, os predados, e o inimigo predador nunca esteve tão à vontade. Difícil... e não somos rambos, não somos rockys, não somos heróis márveis. E mesmo nessa solidão opressora, de presas acuadas pelos predadores, tudo que precisávamos era a força do grupo de predados para resistir ao predador... e isso sempre é possível, no instante seguinte em que se decida isso. Então, por que não nos unirmos e enfrentarmos os predadores? Porque nos vemos mais importantes enquanto presas do que enquanto grupo... perdemos os poucos "pertencimentos" que sentíamos. Difícil tomar decisões como presa frágil isolada ciente de si nessa savana-mundo.

Margo Glantz - Poéticas de autor


Livro de Margo Glantz, de 2018.

Refeição Cultural

Estamos estudando neste semestre a poética da escritora mexicana Margo Glantz. Impressiona constatar que uma autora de carreira reconhecida internacionalmente como ela não tenha obras publicadas no Brasil. É impossível comprar um livro dela, seja editado em língua portuguesa, seja na língua espanhola. Dureza, viu!

No programa da disciplina "Poéticas de autor na Literatura Hispano-Americana", disciplina ministrada pela Professora Adriana Kanzepolsky, vimos os relatos do livro Historia de una mujer que caminó por la vida con zapatos de diseñador (2005); também vimos o livro Las genealogías (2013); agora estamos vendo Yo también me acuerdo (2014); por fim, foi falado na última aula sobre o livro mais recente dela, Y por mirarlo todo, nada veía (2018).

A estrutura do livro, que já é fora do comum, nos faz sentir um pouco do que o livro retrata: a questão da imensidão de informações e a nossa capacidade ou falta de capacidade em lidar com essas informações. 

"Al leer las noticias ¿cómo decidir que es lo más importante? ¿Que el 31 de enero de 2018 apareciera en el cielo una enorme Luna azul, ensangrentada; que al conocer a Felice, su futura prometida, Kafka escribiera en su Diario: Un rostro vacío que llevaba abiertamente su vacío; que..."

Da pergunta adiante, uma série de "que..." vai colocar lado a lado todo tipo de informação que exista, de amor, ódio, violência, trivialidades, algo fantástico e inédito na ciência etc.

É muito interessante...  

Segue abaixo, a apresentação do livro mais recente dela, que reproduzo a título de informação. É texto de divulgação do livro, da Editorial Sexto Piso.

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"Y por mirarlo todo, nada veía

Uno de los grandes problemas que ha traído consigo la proliferación de discursos en las redes sociales es que pareciéramos vivir en un mundo en el que todos hablan y nadie escucha. El torrente de información que circula frente a nuestros ojos cada día, sea verdadera o falsa, cohíbe la posibilidad para sopesar el contexto, el trasfondo y las implicaciones de aquello que leemos. En este universo colmado de noticias, Margo Glantz realiza un recorrido por el mundo y por sus emociones (tanto las profundas, eco de la memoria, como las banales, prurito cotidiano), y nos muestra a través de un mosaico ora trágico, ora cómico, ora conmovedor, ora espeluznante, la compleja tarea que tiene ante sí el individuo que quiera instalarse en el mundo y, peor aún, comprender lo que sucede en su entorno.

En Y por mirarlo todo, nada veía Glantz recurre a una de las máximas improntas de su obra narrativa: la escritura fragmentaria. Heredera de una tradición que va desde Walter Benjamin hasta David Markson, la escritora mexicana mete en una misma página los horrores del ISIS y las adicciones de Charlie Sheen; el exilio de los colibríes de su jardín y las consecuencias del ecocidio que se lleva a cabo a escala planetaria; aforismos de Kafka y espeluznantes reportes de feminicidios en México y otros países del mundo; el descubrimiento de un sistema solar cercano al nuestro y la extinción de las abejas.

Utilizando su sensibilidad y su erudición como puntas de lanza, Glantz nos regala un collage de emociones, imágenes, datos y reflexiones que en su estruendoso eco nos obliga a hacer un alto en el camino para ponderar la mejor vía para continuar en la cada vez más ardua tarea de andar por este mundo.

Año de publicación: 2018
Coedición: UNAM
Edición: 1ª
Formato: Rústica
Páginas: 168
Tamaño: 15 x 23 cm."

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O livro é bem interessante. Nos coloca a pensar sobre o mundo de hoje...

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

131119 - Diário e reflexões (Fluxo de pensamento)



Natureza linda, mesmo no inferno.

Refeição Cultural

Tenho textos para ler, muitos textos para ler. Pior, quer dizer, melhor: os textos são muito bons. São textos literários ou textos de crítica literária. Caramba! É tudo que eu queria fazer! Ler bons textos, sentir o prazer da leitura. E o pior é que está muito difícil ler no contexto desgraçado em que nos encontramos, já que somos brasileiros. O país virou o inferno após o golpe de Estado. Pior: nós descobrimos ao acordar que o brasileiro não é nunca foi e não poderia ser cordial. Cordial uma ova! Como um povo explorado, vindo da escravidão, do estupro, da desapropriação, da violência contra a mulher, contra o negro, contra as pessoas com deficiência, contra qualquer um diferente dos da laia dos da casa grande e dos seus agregados adestrados capitães do mato, conselheiros acácios, como poderíamos ser dóceis, gentis, tolerantes e solidários com outrem? Se tudo o que recebemos na vida secular foi coice, chicote, humilhação, fome, dor, estupro, arrogância, manipulação?

Funcionou o envenenamento inoculado e enfiado goela abaixo de cada um de nós pela Globo e demais lixos midiáticos que durante anos semeou, acordou e libertou o monstro que estava contido em cada animalzinho que somos desde que começamos a nascer nesta terra por estupro, violência, negócio, acordo, e raras vezes por amor e consideração. Agora somos todos bestas-feras. Estamos com raiva. Estamos sem tolerância. Não acreditamos em mais nada e ninguém. Se estamos assim, não podemos ser humanos; se humanos, não podemos ser assim. Que coisa! Somos coisa? Nossa natureza não é coisa, temos um telencéfalo altamente desenvolvido e mão preênsil, como diz o cineasta Jorge Furtado em seu clássico Ilha das flores de 1989. Mas então, que não sejamos coisa!

Enfim, em meio às notícias do inferno... advogada que publica em conta de Twitter um chamado para que estuprem e matem as filhas de algumas autoridades; invasão da embaixada da Venezuela no Brasil por milicianos e com apoio dos milicianos no poder institucional do país; publicação no Diário Oficial do fim da previdência pública para o povo pobre do país; o presidente que decreta o fim do seguro de acidente de trânsito no país (Dpvat) para se vingar de ex-parceiro de coisas e partido e dane-se o povo no trânsito; o filho do presidente que apaga as contas de redes sociais porque alguma coisa de errada deve ter nelas ou talvez seja porque ele cansou disso e quer levar uma vida mais introspectiva; bolsonarista que chuta cozinheira de restaurante; bolsonaristas que fazem vaquinha virtual pra contratar sniper pra matar o presidente Lula... enfim, notícias do inferno. A advogada que conclamou a estuprarem e matarem está livre; os mandantes do assassinato de Marielle Franco estão livres; o "deputado" que elogiou um torturador e a tortura numa sessão da Câmara em 2016 está livre; o sujeito que conclamou o povo do Acre a fuzilar petistas segue solto (foi conduzido ao posto de presidente)...

E eu que tenho que desenvolver dois trabalhos de conclusão de semestre em disciplinas de Literatura Hispano-Americana nos próximos dias, duas monografias ou dois textos argumentativos que avaliem algum aspecto ou temática que tenha chamado minha atenção nas obras de Margo Glantz e Roberto Bolaño. Tá difícil, juro pra vocês, tá difícil achar um recanto, uma reentrância desintoxicada do meu cérebro para feito tão belo, tão nobre, quanto esse da natureza humana das artes literárias...

William
Cidadão brasileiro intoxicado

sábado, 9 de novembro de 2019

Lembranças - Capítulo 1


Nossa querida Faculdade, na FFLCH-USP.

Me lembro que o colega do banco, meu amigo Sérgio, havia me convidado para ir com ele algum dia a uma de suas aulas na Universidade de São Paulo. Ele fazia Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, conhecida como FFLCH (Fefeleche). Um dia, acabei indo. Nossa! Consigo me lembrar da sensação de algo incrível. Não me recordo bem se foi com o Pasta ou com o Wisnik a primeira vez que assisti a uma aula de literatura na USP, mas aquela experiência mudou minha vida naquele momento porque inventei que queria entrar naquela Faculdade e fazer Letras. Anos depois, lá estava eu, no alto de minha madureza pós trinta anos, entrando por aqueles corredores da Letras como aluno... tantas dificuldades viriam pela frente para que eu pudesse estar nos bancos daquela Faculdade maravilhosa, mas entrar na USP, na FFLCH, na Letras, foi algo inesquecível.

INTRODUÇÃO

Uma década depois de deixar de frequentar a nossa querida Faculdade de Letras, acabei voltando neste ano para fazer algumas disciplinas e completar os créditos necessários para colar grau nas duas habilitações que fiz: Português e Espanhol. 

Quando fui solicitar meu diploma em 2014, soube através da Seção de Alunos que só poderia colar grau em Espanhol e não em Português, porque havia faltado o cumprimento de uma disciplina, uma matéria que, segundo ela, era obrigatória na grade de minha época; por outro lado, eu tinha certeza que aquela disciplina era optativa: é evidente que fui ticando uma a uma até completar a grade e os créditos. 

Que fazer, então? Via de regra, a razão está com a estrutura de poder... Foi daí que fiz o pedido de retorno e aceitaram, exigindo-se que eu cumprisse a grade atual das duas habilitações e a diferença de matérias e créditos em relação àquelas que já havia cumprido. É isso que me fez estudante aos 50 anos!

A experiência tem sido inovadora, em vários sentidos. É novo para mim o fato de voltar a estudar aos cinquenta anos e isso tem pontos positivos e pontos negativos. Nossa bagagem cultural ajuda no cumprimento das coisas que se tem que fazer e normalmente não estamos estudando por "obrigação"; no entanto, nosso corpo está gasto, nossa saúde não é mais a mesma e nosso envolvimento com os problemas do mundo é muito maior e, estando o mundo doente, nos vemos deprimidos, com raiva às vezes e isso tudo nos afeta e atrapalha o desenvolvimento intelectual.

Já fiz duas matérias no primeiro semestre e agora estou fazendo mais quatro. Com exceção de uma, todas as outras me colocaram em contato com a língua e a literatura espanhola novamente. Que legal! Então, é reativar e ativar o cérebro para as linguagens humanas. (Suponho que seria bem difícil sair de uma rotina de vida com aceleração total, como era a minha vida de dirigente nacional da classe trabalhadora, com adrenalina a mil ininterruptamente, para cair no nada sem nada de obrigações e objetivos a perseguir)

Acasos ou coincidências, ou definições outras que nós humanos inventamos para nominar as coisas da vida, não sei bem, mas o fato concreto é que todas as matérias que fiz até agora se interligam, me tocam, abordam temáticas que me põem a pensar a minha vida, o meu percurso, a vida no meu entorno, a vida em suas mais variadas dimensões.

Neste semestre, estou lendo Roberto Bolaño, lendo Margo Glantz, lendo nossos poetas modernistas: Bandeira, Drummond, João Cabral e Cecília Meireles; lendo sobre as vanguardas latino-americanas e seus principais escritores. Neles todos, podemos captar as biografias e as autobiografias; com licença poética, poderia até dizer que percebemos as biografias de uma geração, de alguns países, de um tempo.

Nos textos de Margo Glantz, num dos quais me inspiro para começar a registrar minhas lembranças - Yo tambiém me acuerdo -, estamos refletindo a respeito dos gêneros literários e das diversas formas de tecitura fragmentária que compõem as chamadas literaturas não específicas, sem gênero tradicional definido. 

Interessante essa questão das literaturas compostas por textos fragmentários porque a fase atual do capitalismo mundial transformou tudo e todos justamente em fragmentos, quase tudo é nada, mesmo sendo muita coisa cada um de nós, únicos em importância, independente se nos consideram ou não. Somos! Estamos!

Enfim, Glantz compôs um livro, Yo también me acuerdo (2014), baseado numa obra de George Perec, Je me souviens (Me acuerdo), de 1978, que por sua vez se inspirou também na obra de Joe Brainard, que havia escrito Remember uns anos antes. Essas obras inspiraram outros artistas e diversas pessoas comuns como nós a escreverem suas lembranças, suas recordações. 

Na Língua Portuguesa há nuanças que separam os dois termos - lembrar e recordar -, mas não vou me apegar demais a isso não, afinal de contas estou no grupo dos comuns e não dos especialistas em conceitos e que tais. Deixo ao final deste texto as duas acepções e as definições delas. Ao comentar a diferença em sala de aula, a professora nos disse que essa diferença não existe na Língua Espanhola.

Para concluir essa introdução, apresento a seguir o primeiro exercício de lembranças - "me lembro que/de" - que vou fazer. Ele é motivado pelo pedido de nossa Professora Adriana Kanzepolsky para realizarmos um exercício sobre o tema. Estamos tendo a oportunidade de estudar com ela a disciplina "Poéticas de Autor na Literatura Hispano-Americana".

Esse convite para registrarmos as lembranças pode ser o início de algo maior, a faísca que faltava para inflamar toda a folhagem ressequida e os arbustos que compõem as diversas veredas que atravessamos nessas décadas de vivência. Movimento sindical bancário, percurso na secretaria de formação da confederação dos bancários (Contraf-CUT), mandato eletivo na autogestão em saúde dos trabalhadores do Banco do Brasil (Cassi), mais de uma década à frente da organização dos bancários, as greves e as negociações coletivas da categoria, dentre outras jornadas de vida que possam valer registros e lembranças.

Se, por um lado, a metáfora da faísca que nos inflama possa parecer politicamente incorreta, haja vista o governo fascista no Brasil incentivar queimadas e destruição em massa do meio ambiente, por outro, nossa metáfora também é oportuna porque o ser humano é movido pelas chamas das paixões, pelo fogo que arde em nossos corações e nos aquece e nos ilumina pelos caminhos das lutas e das descobertas de soluções para os males que nos afligem.

William

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LEMBRANÇAS DA FFLCH-USP

ME LEMBRO que me sentava na praça de alimentação do Shopping Continental para estudar para o vestibular da Fuvest. Saía tão cansado do trabalho... Eu tomava guaraná em pó para conseguir ficar acordado e repassar as matérias que iriam cair no vestibular. Fazia muito tempo que eu havia estudado aquilo durante o antigo colegial, atual ensino médio: Biologia, Física, Química, Geografia etc. Comprei apostilas do Telecurso 2000 e comecei a estudar por elas. Minha estratégia foi retomar os conceitos básicos de todas as matérias (as pessoas não sabem direito sequer as noções das coisas). Além das apostilas, colocava para gravar em casa nas fitas de vídeo VHS as aulas do Telecurso na televisão e assistia a elas depois. As de História e Geografia eram muito legais!

ME LEMBRO de um dia em que uma colega de sala de aula me disse que ficou impressionada com a forma como eu olhava e me compenetrava nas explicações que o professor dava (ou professora, não me recordo). Ela disse que meu olho brilhava... Me recordo que a impressão que ela me passou foi que eu assistia às aulas fascinado por aquilo. É verdade! Era fascinante ver alguns professores ministrando aulas na Letras.

ME LEMBRO de sair o mais rápido que podia da agência do Banco do Brasil na Vila Iara, em Osasco, para poder chegar à sala de aula em condições de entrar para assistir a aula. Cara, era impossível! A gente não conseguia acompanhar as matérias mais concorridas, ou por não ter professores suficientes, ou porque eram as poucas matérias disponíveis e os alunos tinham grades curriculares a cumprir e créditos a preencher para se graduarem no prazo definido pela Faculdade. Quantas e quantas vezes os alunos passavam mal por causa do calor em sala de aula! Os professores não podiam se mexer, pois os alunos entupiam a sala sentando-se no chão ou até mesmo ficando em pé ao redor da mesa do(a) professor(a). A gente ficava em pé no corredor com a porta da sala aberta. Se a sala era do piso térreo, as janelas que davam para fora estavam lotadas de alunos vendo a aula (exemplo: sala 102). Era nessas condições que estávamos realizando o sonho de estudar na FFLCH, quando decidimos chamar uma greve em 2002 que marcaria a história da USP. Seriam mais de 100 dias de lutas e conquistas.

ME LEMBRO de uma aula do Professor Medina (1940-2013), sobre Literatura Grega e os mitos e que tais. Ele nos contava sobre um episódio de traição entre os deuses - que apesar de deuses traziam todas as características humanas como, por exemplo, trair (o Olimpo era quase uma zona!) -, enfim, o que soubemos aquele dia foi a respeito da origem das espumas das ondas do mar. Um dos deuses estava traindo seu colega ao ir para a cama com a deusa comprometida com o tal do colega, e ao serem descobertos no ato de traição, o traído cortou o bilau do traidor. Pra quê, meu! Foi só o bilau do deus cair nas águas do mar, com sêmen e tudo, que desde então, os humanos passaram a conviver com as espumas do mar, formadas pelo sêmen do deus traidor. O professor ministrava a aula gesticulando e sua voz foi aumentando na interpretação da cena à medida que chegávamos ao clímax da descoberta da traição "deusiana"... eu olhava para os lados e algumas meninas estavam evidentemente ruborizadas com aquelas cenas trágicas e cômicas ao mesmo tempo (do mito e do professor gesticulando...). Foi muito da hora aquela aula do Medina!

ME LEMBRO de uma sensação de orgulho, de me sentir bem, ao passar pelo Professor Pasta em um dos corredores da Letras no primeiro ano de faculdade e ele me cumprimentar. Me pareceu que ele se lembrou de mim, de quando era ouvinte nas aulas dele. Nos cumprimentamos e eu contei pra ele que antes era ouvinte quando assistia a suas aulas e que agora estava na FFLCH como aluno, e que as aulas que tive com ele foram importantes para que eu tivesse inventado de fazer novamente vestibular e voltar a estudar. Os professores são seres muito importantes na vida da gente.

ME LEMBRO de muita ignorância sendo superada dia após dia depois da descoberta do mundo das letras da Faculdade de Letras da USP. No entanto, não tem como esquecer das deficiências que trazemos do ensino incompleto e mal feito que acumulamos ao longo de nossas vidas miseráveis de proletários e subproletários. Ao passar a ter contato com poesias, percebi que eu nunca havia tido a oportunidade de lidar com poemas e poetas. Nossa! Descobri que não sabia absolutamente nada daquela forma tão fantástica de linguagem, a linguagem poética. Saber que não sabemos é bom, até para exercitarmos a humildade e corrermos atrás do prejuízo, como dizem por aí.

ME LEMBRO que antes de entrar na USP, eu quis aprender espanhol e comecei a ver um programa que passava na TV Cultura sobre aulas de espanhol. O programa se chamava Viaje al Español, uma produção da RTVE, de 1989. O curso que passava na TV tinha a participação de uma professora argentina muito simpática, a Maite. E não é que quando eu entrei na Universidade e me defini pela habilitação em Espanhol, no segundo ano de graduação, lá estava ela, a professora Maite! Foi muito legal esta surpresa! Me senti em casa nas aulas com ela, por já estar habituado a vê-la no curso Viaje al Español. Coincidências da vida, como dizem. Até hoje eu tenho guardadas em casa as fitas de VHS que gravei do programa da TV.

ME LEMBRO que a revolta e a sensação de injustiça foram muito grandes quando percebi que não havia adiantado passar na Fuvest e entrar em uma universidade pública para poder fazer uma nova graduação que me permitisse mudar de vida, saindo do Banco do Brasil do desgoverno de Fernando Henrique Cardoso. Eu vinha do trauma de ter interrompido uma graduação em Educação Física por não conseguir pagar as mensalidades. Foi uma das maiores frustrações de minha vida. Era um dos alunos mais dedicados do Náutico, em Mogi das Cruzes, e poderia ter sido um excelente profissional da área, saindo do massacre que vivíamos como bancários atacados por um governo que vinha privatizando tudo, assediando trabalhadores de empresas públicas e implantando programas de demissão voluntária e o terror das transferências compulsórias, processos truculentos que estavam causando dezenas de suicídios de nossos colegas. Eu estava no limite de continuar naquilo. Daí veio a ideia de pôr em prática a invenção de ser aluno da USP, para tentar novamente ser professor e sair do Banco. Mas eis que chego à Letras da FFLCH-USP e simplesmente era impossível estudar por falta de condições humanas e materiais; não tinha professores suficientes, não tinha salas de aula... era como dizia a canção: "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada, ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão...".

ME LEMBRO que na graduação de Ciências Contábeis, o Professor PC (Paulo César) nos dizia que estudar com ele era "molezinha", porque lá na FEAO/ITO em Osasco o professor desmembrava aquelas equações gigantes na lousa, as derivadas, as inequações, as matrizes e outras barbaridades da Matemática. Dizia que se estivéssemos estudando na USP a coisa seria diferente. Que lá os professores nos davam listas de obras e bibliografias para serem lidas e estudadas e a gente tinha que chegar à sala de aula com a matéria lida para, então, finalizar o conteúdo com o professor. Entrei na USP anos depois e entendo que as coisas são e não são como o PC nos dizia. De fato, as listas de bibliografias e textos a serem lidos são enormes, o aluno da USP ganha a oportunidade de receber "roteiros" de leituras e estudos, que podem abrir novos roteiros e perspectivas para o desenvolvimento de pesquisas nas áreas de linguagem, literaturas e outras dimensões das Letras. Porém, muitas aulas e professores são oportunidades à parte numa universidade pública. Tudo que a gente quer como aluno é um dia ser um professor(a) como eles foram para nós. (a propósito, eu gostava das aulas do PC, tomamos até umas cervejas juntos e eu só tirava nove e alguma coisa em Matemática, porque ele brincava comigo dizendo que não me daria dez)

ME LEMBRO de um dia da Greve da FFLCH, em 2002, quando fizemos uma passeata linda até a Avenida Paulista. Tínhamos o apoio massivo dos alunos, dos funcionários da USP e dos professores. Aquela greve foi diferente! Nossa organização funcionou. Mas voltando à lembrança da Paulista, nós paramos em frente às escadarias do prédio da Gazeta, e inventamos de ler poesias, declamar poesias, gritar poesias modernas. Dias antes da greve, tivemos uma aula com o Wisnik sobre o Modernismo, Mário de Andrade e a Pauliceia Desvairada. Na sala de aula, o professor havia dito que os poemas da Pauliceia eram feitos para serem mais que lidos, gritados. Era o ritmo do momento nos anos vinte. Tínhamos aulas que incomodavam as salas ao redor, sem dúvida. Dezenas de alunos se intercalavam gritando poemas em sala de aula. Era da hora! Enfim, guardo com emoção aquele dia em que no alto das escadarias da Gazeta, eu gritava cada verso de "Ode ao Burguês" e os estudantes abaixo repetiam, verso a verso... Arrepiei só de me lembrar ao escrever essas recordações... "Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,/o burguês-burguês!..."

ME LEMBRO que fiquei muito sem graça e deslocado ao me pegar de novo assistindo às aulas da Letras sem ter conseguido ler os textos previamente à aula. Que chato, isso! Cinquenta anos e dificuldades em ler dos tempos de jovem... Boa parte dos alunos não lê por não conseguir ler e não por má vontade. Eu não consegui ler os textos de Margo Glantz para as primeiras aulas do semestre, em agosto, porque estava de novo envolvido com as questões da entidade de saúde na qual atuei por quatro anos. No início do semestre, fui para Brasília uma vez em dias de aulas, por compromisso com lideranças do movimento sindical. Por me ausentar das aulas e por saber o quanto eu mesmo perdi ao não ter lido os textos previamente para as aulas das professoras Adriana e Laura (das aulas sobre o Bolaño), peço desculpas a elas e a mim mesmo. Vida que segue! Ainda estou correndo atrás para ler os textos sugeridos, até porque são fantásticos e estão me colocando para pensar como nunca. Olha o exemplo aqui no meu exercício de Lembranças em que "Me lembro que/de..."

William

(Redação atualizado em 17/1/20)

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DEFINIÇÕES DE "RECORDAR" E "LEMBRAR"

Deixo abaixo o significado das palavras "recordar" e "lembrar" para reflexão a respeito dos sentidos e usos possíveis para elas. As definições são do dicionário virtual do Michaelis.

Re·cor·dar:

Vtd, vtdi e vpr:
1. Trazer de volta à memória experiências vividas; lembrar (-se), rever, reviver: “[…] nunca conseguiu contar ou mesmo recordar direito o que aconteceu” (JU). As fotos recordaram-no de sua viagem ao Oriente. Ao encontrar as velhas amizades, recordou-se de sua infância no interior.

Lem·brar:

Vtd e vtdi:
1. Trazer algo à memória; fazer recordar; relembrar: Passaram horas juntos, lembrando todas as travessuras que fizeram na infância, na pequena cidade onde moravam. O rapaz lembrou ao pai o trato que haviam feito.


Vtd e vpr:
2. Guardar algo ou alguém na lembrança; recordar (-se): Lembrou o tempo em que vivia no Rio e teve saudade. “– Como vai a senhora, dona Alice? Lembra-se de mim? No corpo magro a cara gorducha, pisada de sono, olheira doentia. Pela fresta, a voz rouca, que a fisionomia era familiar, do nome não se recordava” (DT).

Vtd e vtdi:
3. Fazer ocorrer ao espírito; sugerir: “Não tinha conseguido formar um juízo claro sobre aquele cidadão. No físico, na maneira de portar-se e nas ideias ele não lembrava nenhum dos políticos que ele, Tibério, tinha catalogado na galeria da memória” (EV). Sua maneira autoritária de falar lembrava-me meu pai.

Vtdi:
4. Avisar ou informar alguém a respeito de algo; prevenir: “Eulália, porém, apressava mais o passo quando o camarada lembrava-lhe a grande distância que a separava do ponto povoado” (JP).

Vtdi:
5. Enviar lembranças ou recordações; recomendar: Lembre-me a seus pais, por favor.



BIBLIOGRAFIA

MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Editora Melhoramentos, 2019: on line no UOL.